Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos
Sobre duas espécies novas do gênero Fidena Walker
Sobre duas espécies novas do gênero
Fidena * Walker
No trabalho que segue, fazemos considerações sobre espécies incluídas no gênero Fidena Walker, por Kroeber em seu catálogo. Queremos recordar que as espécies nubiapex Lutz, auricincta Lutz e rubrithorax Kroeber (assim como uma espécie descrita então pela primeira vez) foram por nós consideradas, numa publicação anterior, como pertencentes a um grupo à parte, muito mais estreitamente relacionado com o gênero Melpia Walker.
Das 49 espécies restantes, assinaladas no referido catálogo para o Brasil, a que acrescentamos brevistria Lutz, boa espécie, eliminadas as “species inquirendae”, fulvitibialis Ric., citada mais adiante, desconhecemos apenas dez: basilaris Wied. s. str., incisuralis Macq., fumifera walk., nigricorpus Kroeb., niveibarba Kroeb., Maculipennis Kroeb., neo-winthemi Kroeb., obtusipalpis End., pseudo-fulvithorax Kroeb. e rufibasis Kroeb. Tivemos ocasião de estudar também algumas espécies de Estados vizinhos. Todas essas espécies que observamos apresentam em comum os seguintes caracteres, os quais as distinguem das tratadas em nosso trabalho anterior:
Escudo e escutelo com revestimento de cerdas longas ou curtas; na grande maioria das espécies, porém, curtas no disco, e longas nas bordas, sobretudo sobre as asas e nos calos pré e pós-talares; estas em vivo contraste com as curtas; no disco as cerdas são sempre esparsas, de modo que a cor do tegumento e do respectivo pólen influem preponderantemente na coloração geral do mesonoto. O abdome não tem a parte dorsal fortemente abaulada e o ventre não se destaca e tem um perfil nitidamente côncavo e ascendente; convém notar que, quando muito vazio, o abdome pode apresentar-se fortemente curvado; neste caso, porém, o ventre apresenta-se muito côncavo; no caso contrário, de abdome repleto, o ventre se destaca, mas a parte dorsal mantém curvatura suave.
As espécies eriomera Macq., eriomeroides Lutz, gracilis Kroeber., nigricornis Kroeb., ruficornis Kroeb., pyarusta Ost-Sack., auricanda End., rhinophora Bell., tenuistria Walk. e provavelmente fulvitibialis Ric., formam um subgrupo natural, caracterizado por terem as tíbias e tarsos com o tegumento de cor amarelo palha em vivo contraste com o dos fêmures que é de cor castanho-negra, e por terem os basitarsos posteriores encurtados, de comprimento equivalente aos dos demais reunidos, quando muito inclusive as unhas, e ainda por uma mancha escura na membrana da asa em torno da segunda bifurcação de m. Portanto, julgamos dever manter o gênero Epipsila Lutz. Das espécies que acabamos de citar, desconhecemos E. auricauda (End), E. fulvitibialis (Ric) e E. tenuistra (Walk)., estas duas ocorrentes no Brasil.
Excetuando-se até certo ponto o que diz respeito à asa, nas restantes espécies faltam esses caracteres; os basitarsos posteriores são sempre mais longos que os restantes reunidos, inclusive as unhas.
O revestimento de cerdas do escudo e escutelo das espécies do gênero Laphriomyia Lutz é do tipo descrito acima; são, porém, facilmente distinguíveis pelo revestimento de cerdas das pernas, sobretudo das tíbias posteriores e também pela forma do abdome, do que trataremos em outro trabalho.
Feitas essas considerações passemos à descrição de duas espécies novas provenientes do Estado de Pernambuco, que nos forem cedidas por Frei Thomaz Borgmeier, a quem agradecemos.
Fidena atra n. sp.
Fêmea: Comprimento do corpo: 21 mm; das antenas: 2,4 mm; da tromba: 13 mm; das asas: 18 mm; largura das asas: 6 mm; distância vértico-clipeal 5,7 mm.
Cabeça: Pós-fronte larga, com os lados muito ligeiramente convergentes em cima, cerca de 2,3 vezes mais longa que larga embaixo, coberta de pólen pardo-canela; placa ocelar pouco saliente, com três ocelos cor de âmbar mais ou menos carregada; craniália com cerdas negras proclinadas. Frontoclipeu seguindo a direção da pós-fronte, da forma de um hemicone, muito desenvolvido, castanho-brilhante, em algumas regiões com pólen cinzento pardacento, com um grupo de cerdas negras no ângulo súpero-externo logo abaixo do calo antenal. Calo antenal não saliente seguindo a direção da pós-fronte e frontoclipeu, com pólen pardo-canela. Antenas com o 1° e o 2° segmentos pardo-claros com cerdas negras, flagelo pardo-escuro, com o ápice um pouco mais claro. Probóscida muito longa e fina, negra e brilhante, com os labelos relativamente mal desenvolvidos e o lábio revestido de cerdas muito pequenas. Palpos enegrecidos; estipe com cerdas pequenas, negras; segmento terminal em forma de lâmina de faca, enegrecido e com cerdas apenas nas bordas superior e inferior. Genas e pós-genas com pólen cinzento pardacento: ângulo vibrissal com algumas cerdas negras pequenas; barbas e cerdas das pós-genas castanhas e longas, exceto as da borda ocular, que são curtas e negras.
Tórax: Mesonoto castanho enegrecido, mais claro dos lados do escudo e escutelo, revestido de pólen pardo-canela e de cerdas castanho-enegrecidas mais desenvolvidas nos calos pré e pós-alares e sobre as asas, semelhantes ao do mesonoto, porém mais claras, revestidas de cerdas de cor pardo-canela, mais desenvolvidas na pró-pleura, parte superior e posterior da mesopleura, pteropleura, escamopleura e no ângulo súpero-posterior da externopleura, hipopleura e metapleura praticamente desnudadas.
Asas: Com a membrana enfuscada, C na base, 1 M e base da álula enegrecidas. Tégula com cerdas negras; escâmula com franja axilar de cerdas de cor pardo-canela; escama castanha; balancins pardo-avermelhados, com o capítulo um pouco mais claro.
Pernas: Coxas anteriores e médias com tegumento e cerdas semelhantes aos das pleuras; as posteriores são mais escuras e com cerdas negras; fêmures castanho-avermelhados revestidos de cerdas negras na face superior e amarelas na face inferior; tíbias e tarsos médios também ligeiramente mais claros que o fêmur correspondente, com cerdas negras, exceto algumas da face obscurecidas com os fêmures correspondentes, com cerdas negras, relativamente longas e com algumas amareladas no ápice; tarsos posteriores ligeiramente mais claros, com cerdas amarelo-avermelhadas e negras, estas na parte dorsal.
Abdome: Com o tegumento negro brilhante, revestido de cerdas negras, exceto numa ínfima porção do canto do 5° esternito, onde há algumas claras.
Discussão taxonômica: Muito próxima de Fidena auripes Ricardo, de que se distingue pela cor da barba e conformação da pós-fronte; apresenta ainda semelhança superficial com Fidena foetterlei Lutz, de que se distingue facilmente pela conformação do frontoclipeu e ornamentação do abdome.
Tipo: Rotulado: Pernambuco, Tapera: 12. III.932. Descrição baseada neste único exemplar. Depositado nas coleções do Instituto Oswaldo Cruz.
Fidena chrysopyga n. sp.
Fêmea: Comprimento do corpo: 20 mm; das antenas: 2,1 mm; da
tromba: mm; 1 das asas: 20 mm; larguras das asas; 6,5 mm; distância vértico-clipeal: 6,1 mm.
Cabeça: Pós-fronte larga, com os lados muito ligeiramente convergentes em cima, 2,2 vezes mais longa que larga embaixo, coberta de pólen cor pardo-canela; e de cerdas minúsculas negras, placa ocelar pouco saliente, com três ocelos cor de âmbar escuro; craniália com cerdas escuras e amareladas proclinadas. Frontoclipeu seguindo a direção da pós-fronte, da forma de um hemicone muito desenvolvido, castanho brilhante, em algumas regiões com pólen cinzento pardacento, com grupo de cerdas negras no ângulo súpero-externo logo abaixo do calo antenal. Calo antenal não saliente, seguindo a direção da pós-fronte e frontoclipeu com pólen pardo-canela. Antenas com primeiro e segundo segmentos pardo-claros, com cerdas negras; flagelo castanho, tornando-se mais claro para o ápice. Probóscida muito longa e fina, negra, brilhante, com os labelos relativamente pouco desenvolvidos e o lábio revestido de cerdas negras e pequenas. Palpos enegrecidos; estipe com cerdas pequenas negras; segmento terminal em forma de lâmina de faca, enegrecido e com pêlos apenas nas bordas superior e inferior. Genas com pólen pardo-canela e pós-genas com pólen cinzento; ângulo vibrissal com algumas cerdas pardas pequenas; barbas e cerdas das pós-genas longas branco-amareladas; as da borda ocular são curtas e negras.
Tórax: Mesonoto castanho enegrecido, mais claro nos lados do escudo e escutelo e nas suturas, revestido de pólen pardo-canela e de cerdas enegrecidas; as do calo umeral, parte anterior do escudo, assim como as da parte do calo pré-alar junto à sutura do escudo brancas ou branco-amareladas; as cerdas são mais desenvolvidas nos calos pré e pós-alares e sobre as asas, aqui há um tufo conspícuo de cerdas brancas. Pleuras com o tegumento semelhante ao do mesonoto, porém mais claro; revestidas de cerdas pardo-canela; as da parte superior e posterior da mesopleura; pteropleura e escamopleura e propleura são ligeiramente mais claras; estas, assim como as da propleura e do ângulo súpero-posterior da esternopleura, mais longas e densas; hipopleura e metapleura desnudadas.
Asas: Com a membrana enfuscada, C na base e 1 M enegrecidas, assim como a álula. Tégula com cerdas negras; escâmula com franja axilar de cerdas branco-pardacentas, escama parda; balancins pardo-avermelhados com base do capítulo um pouco mais escura.
Pernas: Coxas anteriores e médias com tegumento e cerdas semelhantes aos das pleuras, sendo as posteriores mais escuras e com cerdas negras, fêmures castanho-avermelhados, revestidos de cerdas ruivas, as da face inferior mais alouradas; tíbias posteriores um tanto ciliadas, com as cerdas pardo-arruivadas, exceto na face inferior dos 2/3 basais, onde há negras misturadas; tarsos anteriores e médios de cor semelhante à das tíbias, com as cerdas ruivas exceto no ápice dos últimos segmentos, sobretudo na parte dorsal, onde há algumas negras; o mesmo se dá nos dois primeiros artículos dos posteriores, os demais não foram observados por faltarem.
Abdome: Com o tegumento negro brilhante, revestido de cerdas negras exceto nas seguintes regiões, onde há douradas: a) Tergitos: nos cantos apicais dos 2° e 4°; em toda a extensão, dos 5° e 6° e ainda nos 3° e 4°, formando um conjunto triangular mediano com o ápice situado mais ou menos no meio do 3° e base voltada para a borda livre do 4°, onde atinge as cerdas semelhantes dos cantos dele e se confunde com as do 5° e 6° tergitos; b) esternitos: formando uma mancha de cada lado do 2°, mancha essa atravessada longitudinalmente por algumas negras; formando de cada lado duas pequenas manchas triangulares, com ápice dirigido para a base do segmento, quase adjacentes, lateralmente na borda livre do 3°; no 4° há duas manchas semelhantes, mais desenvolvidas; nos 5° e 6° essas manchas são confluentes, ocupando respectivamente todo o 1/4 e 1/3 laterais do segmento.
Discussão taxonômica: Muito próxima da precedente, da qual se distingue pela ornamentação do abdome. Apresenta ainda certa semelhança com Epipsila pyrausta Ost. Sack., de que se distingue facilmente entre outros pelos caracteres das pernas próprias daquele gênero.
Tipo: Rotulado: 12 III. 932. Descrição baseada neste único exemplar. Depositado nas coleções do Instituto Oswaldo Cruz.
Bibliografia Kroeber, O. Die Pelecorhynchinae und Zool. Mus. Hamb., v.44, p.172-82, 1930.
______. Neue Arten der Gattung Fidena Walk. Zool. Anz., v.95, n.1-2, p.17-37, 1931.
______. Neue Tabaniden aus Sud-Amerika im Stettiner Museum. Stett. Ent. Zeit., v.92, p.90, 1931.
______. Die neotropischen Arten der Tabanidengattung Fidena Walk. Arch. Naturgesch. Abt. B., neue Folge, v.2, n.2, p.231-84, 1934.
______. Catálogo dos Tabanidae da América do Sul e Central, incluindo o México e as Antilhas. Rev. Ent., v.4, n.2, p.245-51, e n.3, p.291-301, 1934.
Lutz, Ad. Tabaniden Brasiliens und einiger Nachbarstaaten. Zool. Jahrb. Suppl., v.10, n.4, p.619-92, Ests. 1-3, 1909.
______. Novas contribuições para o conhecimento das Pangoninas e Chrysopinas do Brasil. Mem. Inst. Osw. Cruz., v.3, n.1, p.65-85, Est. 4, 1911.
______. Tabanídeos. Comm. Linh. Tel. Estr. de (Mato Grosso), ao Am. Anexo n° 5. Hist. Nat. Zool. 1 Est. Rio de Janeiro: Papelaria Macedo, 1912.
* Trabalho realizado em colaboração com Gustavo Mendes de Oliveira Castro e publicado em março de 1936 nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t.31, fasc.1, p.179-83. Recebido para publicação em 24.12.1935
1 No original, espaço em branco sem algarismo. [N.E.]