Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 26 de 35

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Adolpho Lutz: entomologia, tabanídeos

As Tabanidae do Estado do Rio de Janeiro

As Tabanidae do Estado do Rio de

 

Janeiro *

 

Damos em seguida uma contribuição para o conhecimento das mutucas encontradas no estado do Rio de Janeiro e no Município

Neutro.1 Esta fauna oferece interesse especial, porque dessa região, provavelmente, provém grande parte das espécies descritas pelos antigos autores que, geralmente, indicavam a procedência com expressões tão vagas como: “do Brasil” ou “da América do Sul”.

De fato, tornamos a encontrar grande parte das espécies anteriormente descritas, principalmente das de Wiedemann e Bigot; quando há indicação de um lugar situado neste território ou quando o nome, como no Tabanus januarii, sugere essa procedência, a espécie ainda agora pode ser encontrada. Em conseqüência disso, as espécies novas são pouco numerosas, aparecendo, todavia, algumas que descreveremos em seguida. Muitas vezes, a identificação se torna difícil por serem descrições pouco exatas, ainda mais quando se ignora a procedência.

Na enumeração que segue, empregamos alguns nomes de gêneros novos que na sua maior parte já foram publicados. As espécies correspondem, principalmente, ao antigo gênero Tabanus, incluindo formas muito heterogêneas; outras se encontravam ora em Tabanus, ora em Dichelacera. Sendo o último gênero mal definido, dividimo-lo em vários, cada um compreendendo um grupo de espécies claramente afins.

Na cidade do Rio, as mutucas raras vezes se observam; nos subúrbios, que, em parte, se estendem às montanhas, observam-se com mais freqüência. Aqui, achou-se por várias vezes a Erephopsis (Pangonia) venosa de Wiedemann que nunca encontramos em outro lugar a não ser numa localidade do Espírito Santo. A fenestração das asas nessa espécie é excepcional; os pêlos laterais do abdome são ora pretos, ora amarelo-claros e não alaranjados como na E. nigripennis.

Este Instituto está situado em Manguinhos, pouco fora do limite entre os subúrbios e o litoral da baía do Rio e bastante distante das montanhas, cuja fauna especial não aparece. De mutucas convém mencionar aqui, em primeiro lugar, o Neotabanus obsoletus (Wied) cujas larvas devem viver no mangue, se bem que não tenha sido possível descobri-las, até hoje. As fêmeas adultas abundam no mangue e pouco se afastam dele.

Também pertencem especialmente a esta zona os Neotabanus comitans (Wied), eixyostactes (Wied), sendo o primeiro comum e o segundo muito raro, mas não se trata de espécies que só habitam o mangue, porque ambas já foram encontradas em outros estados, a bastante distância da costa. Como raridade, mencionamos um exemplar de Tabanus importunus Wied, que nesta região é raro, posto que se torne comum mais ao norte. Encontramos mais algumas espécies comuns de Neotabanus do grupo de trilineatus e o Chlorotabanus mexicanus L, espécie muito espalhada, mas podendo escapar à observação por aparecer em horas crepusculares. Cultivou-se o N. ochrophilus Lutz e o N. triangulum (Wied) de larvas, encontradas, no terreno do Instituto, na lama do fundo e das margens de um pequeno regato com pouca correnteza. Não se observaram outras espécies, embora exista muito gado cavalar e bovino. O território pantanoso do litoral, de cuja fauna trataremos mais adiante, acha-se ainda bastante distante.

Neiva colecionou durante um ano (fev. 1907 – fev. 1908) em Xerém, em terreno pantanoso do litoral, vizinho à raiz da Serra da Estrela. Aí achou não somente espécies comuns, geralmente espalhadas ou especiais do litoral, mas também algumas encontradas nas matas da serra. Damos aqui a lista das espécies, entre as quais há uma nova, evidentemente rara, porque só se achou um exemplar.

1. Erephopsis sorbens (WIED)

2. Erephopsis Winthemii (WIED)

3. Erephopsis leucopogon (WIED)

4. Bombylomyia nitens (BIGOT)

5. Diatomineura tabanipennis (MACQ)

6. Diatomineura exeuns (WALKER)

7. Esenbeckia fuscipennis (WIED) – Typ. & var.

8. Chrysops costatus F.

9. Chrysops leucospilus WIED

10. Chrysops laetus WIED.

11. Diachlorus distinctus LUTZ.

12. Lepidoselaga lepidota (WIED).

13. Stibasoma Willistoni LUTZ.

14. Rhabdotylus planiventris (WIED).

15. Dichelacera alcicornis (WIED).

16. Dichelacera Januarii (WIED).

17. Catachlorops fuscipennis (MACQ).

18. Catachlorops immaculatus (MACQ).

19. Amphichlorops flavus (WIED).

20. Dicladocera furcata (WIED) = macrodonta (MACQ).

21. Chlorotabanus mexicanus (L).

22. Phaeotabanus litigiosus (WALKER)

23. Phaeotabanus aphanipterus (WIED).

24. Leucotabanus leucaspis (WIED)

25. Pseudacanthocera marginata (MACQ) = Sylveirii (MACQ).

26. Chelotabanus fuscus (WIED).

27. Chelotabanus impressus (WIED).

28. Chelotabanus aurora (MACQ).

29. Chelotabanus cinerarius (WIED).

30. Stictotabanus maculipennis (MACQ).

31. Neotabanus trilineatus (LATR).

32. Neotabanus triangulum (WIED).

33. Neotabanus modestus (WIED).

34. Neotabanus trivittatus (F).

35. Neotabanus obsoletus (WIED).

36. Poecilosoma quadripunctatum (F).

37. Poecilosoma punctipenne (MACQ).

38. Leptotabanus nigrovenosus LUTZ.

Para segundo território escolhemos Petrópolis e as montanhas vizinhas, que se podem denominar Serra dos Órgãos no sentido mais amplo, visto que a parte atravessada pela antiga estrada e pela estrada de ferro se distingue pelo nome de Serra da Estrela. Aqui já encontramos outras condições climáticas e alturas que alcançam 2.000 metros, em conseqüência do que se observam muitas espécies novas. Dispomos de um material bastante grande, em parte colecionado por Lutz, em parte reunido pelo Sr. Foetterle, em pessoa, sendo o resto apanhado em várias localidades, um tanto mais distantes, da região, por ordem sua. Algumas espécies espalhadas talvez não fossem registradas e podem faltar outras por serem muito raras, mas, em geral, a nossa lista, bastante longa, deve conter a grande maioria das espécies. Entre elas, o número das aparentemente novas já é maior, tendo umas já sido descritas em publicações de Lutz.

Das espécies mencionadas do Xerém aqui achamos 1-10, 14-22, 28, 31-35, 37 e 38, acrescendo as seguintes:

Erephopsis nigripennis (WIED).

Erephopsis lingens (WIED).

Erephopsis albipectus (BIGOT).

Erephopsis beskii (WIED).

Erephopsis aurimaculata (MACQ).

Bombylomyia erythronotata (BIGOT).

Bombylomyia leonina LUTZ Ionopis foetterlei LUTZ.

Neopangonia pusilla LUTZ.

Diatomineura fenestrada (MACQ).

Stigmatophthalmus altivagus LUTZ.

Catachlorops capreolus (WIED).

Dicladocera potator (WIED).

Dicladocera guttipennis (WIED).

Dicladocera macula (MACQ).

Dicladocera praetereuns (WALK).

Tabanus tiro n. sp.

Stictotabanus anonymus n. sp.

Teresópolis pode ser considerada uma continuação do mesmo território. Uma coleção feita nesse lugar pelo Sr. Manoel Gomes continha ainda:

Chrysops fusciapex LUTZ.

Neotabanus ? dorsiger (WIED).

No mesmo lugar o Sr. R. Fischer apanhou um exemplar de:

Orthostylus ambiguus Lutz, até então conhecido apenas num

exemplar.

Entre a baía e a Serra dos Órgãos, Neiva encontrou em Magé, entre outras, as seguintes espécies:

Diachlorus bivittatus (F).

Diachlorus distinctus LUTZ.

Diachlorus conspicuus LUTZ.

Phaeotabanus litigiosus (WALK).

Neotabanus obsoletus (WIED).

Um pouco mais no alto, em direção de Nova Friburgo, encontra-se S. Anna do Macacu onde Lutz achou mais as seguintes espécies:

Acanthocera longicornis (F)

Acanthocera coarctata (WIED).

Stibasoma thiotaenia (WIED).

Rhabdotylus viridiventris (MACQ).

Stenotabanus taeniotes (WIED) ou outra espécie muito afim.

A primeira dessas espécies também foi encontrada em Mauá e Sarapuí, lugares bastante distantes das montanhas, onde costuma ser encontrada. A terceira foi observada também na Ilha do Governador pelo Sr. M. Gomes e Neiva e perto de Mangaratiba por Lutz em companhia da Dicladocera potator (WIED).

Sarapuí pode ser considerado como tipo das regiões pantanosas da baixada. Ali o Sr. Foetterle e Lutz, ao lado de outras espécies, observaram as seguintes, com bastante freqüência:

Diachlorus bivittatus (F).

Diachlorus distinctus LUTZ.

Diachlorus conspicuus LUTZ.

Chelotabanus fuscus (WIED).

Phaeotabanus litigiosus (WALK).

Citamos ainda as seguintes espécies observadas:

Dichelacera Januarii (WIED), freqüente na Serra da Tijuca.

Lepidoselaga lepidota (WIED), encontrada uma vez nas

margens do Iguaçu, por Lutz.

Neotabanus trinotatus (WIED), um exemplar de Cabo Frio. Orthostylus ambiguus n. sp.

Stenotabanus taeniotes (WIED) Itaguaí.

Com estas acabamos a nossa enumeração que deve compreender a maior parte das espécies encontradas na baixada do Rio de Janeiro e nas montanhas vizinhas; sem dúvida poderão faltar algumas, que são muito raras e talvez uma ou outra espécie espalhada tenha deixado de ser notada. Mais tarde, mencionaremos algumas espécies encontradas neste estado ou em outros vizinhos, mas muito perto dos limites, como Erephopsis penicillata (BIGOT), Macrocormus sorbillans (WIED) e badius LUTZ, Tabanus monochroma WIED. Stenotabanus tenuistria n. sp. etc. Contando também algumas espécies raras, que sabemos ou desconfiamos terem sido colecionadas neste território, chegamos ao número avultado de cerca de oitenta espécies para um território bastante pequeno, o que dá uma idéia da grande riqueza da fauna indígena de tabanídeos.

Das espécies citadas, descreveremos agora duas novas e discutiremos outra que é pouco conhecida.

Orthostylus n. gen.

O gênero Orthostylus difere de Catachlorops, Amphichlorops e Dicladocera pela formação das antenas e dos olhos. Estes o separam também de Dichelacera, que tem uns representantes algum tanto parecidos no aspecto geral. Em muitos pontos, ocupa posição intermediária, podendo ser definido do modo seguinte:

Palpos com o artículo terminal em forma de bainha de sabre, antenas com artículo terminal longo e quase reto, apenas um pouco curvado na base; a parte acima do segmento basal reta, o dente da base não curvado, breve e ereto. Calo frontal subquadrado, prolongado atrás, em forma de linha. Olhos verdes, mais claros na parte inferior do que na superior, mas sem limite nítido entre as duas cores, como se vê nos olhos de Catachlorops. O desenho das asas lembra o gênero Dichelacera.

Única espécie conhecida:

Comprimento cerca de 14mm. Cor prevalecente: pardo.

Tromba preta; palpos com artículo terminal estreito, pardo, com pêlos pretos; antenas também, menos o artículo terminal que é de cor laranja com ponta preta. Face com o fundo pardo, coberto de pó ocráceo claro, de cada lado com uma impressão bastante funda; barba escassa, de cor parda; olhos glabros; fronte ocrácea, enfuscada entre os olhos e com as margens paralelas; calo castanho-claro, subquadrado, continuado posteriormente em duas pontas laterais e uma linha mediana elevada, que atinge o tubérculo ocelar em forma de triângulo alongado. Ocelos invisíveis.

Tórax pardo, em cima quase glabro, margens laterais do escudo e escutelo mais claros; escudo com linha mediana escura e faixas longitudinais pouco distintas; pleuras e peito com fundo pardo e pólen branco amarelado.

Abdome com os três primeiros anéis translúcidos, pardo-ocráceos, tornando-se para trás mais escuros e opacos; no meio do quarto anel existe um triângulo claro, coberto de pêlos brancos, assentado na margem posterior e continuado lateralmente em estreita faixa apical branca. No resto as margens posteriores são estreitamente tarjadas de branco, no ventre mais que no dorso.

Pernas ocráceas; base das tíbias anteriores mais clara; tíbias do primeiro par quase pretas, as outras apenas um tanto mais escuras.

Asas bastante claras, base e costa amarelo pardacentas, estigma cor de mel; nervuras pardo-amarelas ou enegrecidas, correspondendo à cor do fundo; uma faixa pré-apical irregular nasce na parte apical da margem anterior, atravessa a extremidade anterior da célula discoidal e termina com extremidade romba no meio da célula discoidal sem alcançar a margem posterior; acompanhando o ramo anterior da terceira nervura, um processo triangular se estende à margem posterior; na faixa há quatro janelas mais claras, de tamanho variável. A maior parte da célula anal é ocupada por uma mancha escura, invadindo também a célula axilar que, no resto, mostra um cinzento pardacento diluído. Ramo anterior da terceira nervura com ângulo arredondado e sem apêndice; primeira célula da margem posterior aberta, célula anal fechada antes da margem. Escamas cinzento-escuras, com margens amareladas. Halteres enegrecidos.

A descrição é baseada em uma fêmea apanhada em novembro de 1906 por Lutz na Serra de Cubatão, perto de Santos; mais tarde o Sr. R. Fischer apanhou em Teresópolis outra fêmea que combina em todas a minúcias importantes, sendo, todavia, a cor geral muito mais intensa e obscura. Não conhecemos outros exemplares.

Melanotabanus n. gen.

Criamos este gênero para a espécie seguinte, que tem um tipo bastante especial, lembrando mais um Sciara do que um Tabanus. Trata-se de espécie pequena, quase toda negra, com olhos glabros, palpos bastante largos no segundo artículo, antenas com o último artículo, em cima, sem dente e apenas com saliência quase imperceptível. Fronte mais larga anteriormente, com calo grande subquadrado. Asas, com ângulo do ramo anterior da nervura III apendiculado; primeira célula posterior aberta, a anal fechada na margem.

Melanotabanus fuliginosus n. sp.

Comprimento um pouco abaixo de 1cm; cor geral fuliginosa. Cabeça com fundo chocolate; a face, os palpos, que têm o segundo artículo bastante curto e os artículos basais das antenas com pêlos pretos bastante longos; fronte com fundo granuloso pardo, tornando-se mais estreito em direção ao occipício. Calo frontal castanho brilhante, largo, tocando quase as margens oculares, subquadrado, com ângulos arredondados e para trás dois processos laterais em forma de espinhos, ligado por linha elevada mediana ao tubérculo ocelar que é distinto, mas tem apenas rudimentos de ocelos.

Tórax chocolate, o escudo cor de piche com faixas longitudinais indistintas, a região entre os ombros e a raiz das asas um tanto avermelhada.

Abdome píceo em cima, embaixo castanho-avermelhado, com as incisuras amareladas e pêlos pretos curtos e finos.

Pernas de cor chocolate bastante uniforme.

Asas com as nervuras píceas muito salientes sobre o fundo fuliginoso pouco translúcido.

A descrição tirada de uma fêmea mal conservada, apanhada em Xerém. A espécie parece rara.

Pseudacanthocera sylveirii (Macquart)

Na primeira parte de “Diptères nouveaux ou peu connus” MacQuart descreveu com o nome de Silvius sylveirii um tabanídeo bastante singular. A estampa que acompanha a descrição leva o nome mais característico marginatus, mas no catálogo reaparece o primeiro nome que tem prioridade. Mais tarde, o mesmo inseto foi redescrito por Bigot com o nome de Tabanus macroceratus.

A espécie não pode entrar no gênero Silvius, tampouco qualquer das outras espécies brasileiras, descritas com este nome. Por outro lado difere de todas as outras espécies brasileiras, seja pelo aspecto geral, seja pela formação das antenas e outros caracteres que parecem pedir um novo gênero, ao qual damos o nome de Pseudacanthocera. De fato a espécie mais lembra o gênero Acanthocera, do qual todavia difere pelos olhos unicolores e a formação das antenas, faltando também o mimetismo de himenópteros que geralmente distingue este gênero. Tanto que se pode definir um gênero conhecendo apenas as fêmeas de uma espécie, bastará a seguinte descrição:

Tabaninas, lembrando o gênero Acanthocera pelo aspecto geral, a cor e o tamanho. Olhos unicolores. Último artículo das antenas sem dente na base e apenas ligeiramente escavado, bastante comprido, palpos com artículo terminal curvado, bastante comprido e delgado. Tromba de comprimento regular. Olhos glabros, sem desenho e com facetas finas. Face sem calo. Calo frontal bastante comprido, subtriangular. Tubérculo ocelar distinto. Abdome comprido e pouco largo, sem estreitamento localizado. Asas com nervatura normal. Pernas bicolores, tíbias do último par inermes.

A espécie é rara nos museus europeus e não se conhece o seu habitat, conquanto o nome de Macquart pareça indicar o estado da Bahia, onde provavelmente será encontrada mais ao sul. Foi reencontrada pela primeira vez em Xerém por Neiva. Depois recebemos mais exemplares de São Paulo do Muriaé (Dr. Braune), Pacau (Dr. Aragão), Alegre, no Espírito Santo (J. Zikán), enfim duas fêmeas, apanhadas perto de Angra dos Reis (estado do Rio de Janeiro) pelos Drs. Lauro Travassos e M. da Cunha. Parece preferir lugares montanhosos, porque o maior número dos exemplares vinha de regiões elevadas. Não é comum; todavia, no correr dos anos, obtivemos mais de uma dúzia de fêmeas. Pelas observações de Neiva, aparece geralmente à tarde, antes do crepúsculo, picando os cavalos de preferência na cabeça; ele apanhou três fêmeas nos meses fevereiro, março e abril.

No gênero Dicladocera reunimos as tabaninas esquitoceras que têm o último artículo das antenas em forma de pinça de caranguejo, o calo frontal claviforme e os olhos sem desenho especial e sem cor verde brilhante. Ficam assim excluídos os gêneros Acanthocera e Dichelacera Macq, Stibasoma Schiner, Rhabdotylus, Catachlorops, Amphichlorops, Orthostylus e Chelotabanus Lutz. Assim mesmo, o número das espécies é grande, alcançando cerca de vinte, no Brasil. Damos aqui a descrição de uma nova espécie da Serra dos Órgãos:

Dicladocera conspicua n. sp.

Comprimento total cerca de 20mm. Corpo pardo-avermelhado, asa com faixa transversal escura.

Tromba muito comprida, parda, com os labelos enegrecidos; palpos com o segundo artículo comprido e fino, pardacento claro; face com o fundo coberto de pó e pêlos ocráceos claros; barba da mesma cor; antenas ferruginosas; os dois primeiros artículos com muitos pêlos pretos e alguns amarelos, terceiro com segmento basal, formando ângulo obtuso e arredondado, os outros segmentos mais escuros, o dente comprido e curvado para dentro; olhos verdes escuros, pouco afastados na frente, um pouco mais para trás: fronte ocrácea com calosidade castanho-clara, pouco dilatada na frente, ocupando quase todo o espaço interocular; tubérculo ocelígero [confirmar] pequeno com ocelos rudimentares; occipício com pó amarelo escasso sobre fundo preto e pêlos claros na margem dos olhos.

Tórax castanho; o escudo mais escuro com linha mediana e duas submedianas longitudinais um tanto apagadas, anteriormente com pubescência amarelada; escutelo castanho-claro; pleuras com pêlos amarelo arruivados, principalmente debaixo das asas; externo com pó e pêlos da mesma cor.

Abdome comprido, mas pouco largo e um pouco achatado na face dorsal, nos primeiros anéis castanho-avermelhado um pouco transparente, a metade posterior enegrecida; ventre com pêlos amarelados, principalmente na margem posterior dos segmentos.

Pernas ocráceas, mais claras nos quadris e nas tíbias da frente onde há pêlos ocráceos, ápice da tíbia e pés do primeiro par pretos, os posteriores enfuscados.

Asas ligeiramente enfumaçadas, as nervuras, ora amarelas, ora enegrecidas; base e célula costal ocráceas, células basais e anal amareladas, o resto acinzentado; na metade externa uma faixa semilunar castanha se estende do estigma, que é preto, para a margem posterior onde se torna mais apagada; na base e no meio da célula subapical anterior e na discoidal há manchas ovalares claras; em continuação da faixa a margem posterior da asa é enfuscada até a célula anal; ramo anterior da nervura forqueada com ângulo, mas sem apêndice, primeira célula posterior apenas aberta a margem, a anal fechada um pouco antes; escâmulas e halteres castanhos, a margem daquelas e a face terminal destes mais claras.

Desta espécie rara só se conhece uma fêmea.

Manguinhos, março de 1914.

 

* Trabalho de Adolpho Lutz realizado em colaboração com Arthur Neiva, em 1914. Foi publicado em português e alemão (“Ueber die Tabaniden des Staates Rio de Janeiro”) nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t. 6, n.2, p.69-80. [N.E.]

1 No Brasil imperial, período em que as províncias (ex-capitanias) estavam subordinadas a um Estado unitário, a cidade do Rio de Janeiro foi desligada da província de mesmo nome, tornando-se Município Neutro, em obediência ao estipulado pelo Ato Adicional n.12, de 12.8.1834, segundo o qual “a autoridade da Assembléia Legislativa da Província em que estiver a Corte não compreenderá a mesma Corte, nem o seu Município”. Após a proclamação da República, a Constituição de 1891, de cunho federalista, transformou o antigo Município Neutro em Distrito Federal. [N.E.]