As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 8 de 30

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

6 - Švejk quebra o círculo vicioso e volta para casa

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Š vejk quebra o círculo vicioso e volta para casa No edifício da chefatura de polícia pairava o espírito de uma autoridade estrangeira que checava se a população estava suficientemente entusiasmada com a guerra. Salvo raras exceções — pessoas que negavam o fato de ser filhas de uma nação que teria de se esvair em sangue por interesses que lhe eram absolutamente alheios —, a repartição era integrada por um magnífico grupo de feras burocráticas que não se preocupavam com nada que não fosse o cárcere e a forca com o objetivo exclusivo de defender a existência dos tortuosos artigos da lei.

As feras da chefatura tratavam suas vítimas com uma sarcástica amabilidade,

sopesando cada palavra.

— Não é possível imaginar como lamento que o senhor tenha voltado a cair

em nossas mãos — disse uma das feras com listas negro-amarelas, as cores da bandeira imperial austríaca, quando Švejk lhe foi apresentado. — Acreditamos que ia começar a se comportar melhor, mas, ao que parece, estávamos equivocados.

Švejk assentiu em silêncio; sua expressão era tão inocente que a fera negro-

amarela fitou-o inquisitivamente e acabou dizendo com ênfase:

— Pare de fazer essa cara de idiota!

No entanto, em seguida retomou o tom amável e continuou: — Para nós é muito desagradável que o senhor esteja preso e posso lhe

assegurar que, na minha opinião, sua falta não é tão grave, porque, com uma inteligência tão pequena como a sua, não há dúvida de que o enganaram. Diga-me, senhor Švejk, quem o induziu a cometer essas bobagens?

Švejk tossiu e declarou:

— Desculpe, mas não sei nada de nenhuma bobagem. — E não lhe parece uma bobagem, senhor Švejk — disse o interlocutor em

falso tom paternal —, que tenha, segundo o informe do policial que o trouxe, levado as pessoas a correrem até a esquina onde estava exposto o manifesto com a declaração de guerra e inflamado as massas ao gritar “Viva o imperador Franz Joseph! Vamos ganhar essa guerra!”?

— Não consegui ficar parado — declarou Švejk, olhando nos olhos do

inquisidor. — Fiquei aflito quando vi que todo mundo lia a declaração de guerra sem manifestar nenhuma alegria. Nenhum grito de glória, nenhum de hurra, nadica de nada, senhor conselheiro. Parecia que era uma coisa que não tinha nada a ver com eles. Eu, como velho soldado do 91º Regimento, não consegui ficar vendo aquilo e então gritei aquelas frases. Creio que se o senhor estivesse no meu lugar teria feito o mesmo. Quando há uma guerra, é preciso vencê-la e proclamar a glória do senhor imperador. Ninguém conseguirá me convencer do contrário.

Conformada e compungida, a fera negro-amarela não resistiu ao olhar de

cordeirinho inocente de Švejk, dirigiu a vista aos papéis oficiais e disse:

— Compreendo perfeitamente seu entusiasmo, mas deveria manifestá-lo em

outras circunstâncias. Acompanhava-o um policial e por isso uma manifestação tão patriótica de sua parte poderia, e o foi, ser entendida pelas massas mais como uma ironia do que como uma atitude séria.

— O fato de ter de acompanhar um policial é um momento difícil na vida de

uma pessoa — respondeu Švejk. — Mas, se até em uma situação tão difícil a pessoa não se esquece do que deve fazer, então penso que ela não pode ser tão má assim.

A fera negro-amarela resmungou e voltou a encarar os olhos de Švejk. O bom soldado respondeu com o calor inocente, suave, humilde e terno de

seu olhar.

Os dois se encararam durante um tempo.

— Que o diabo o carregue, Švejk — acabou dizendo o funcionário. — Se

voltar a vê-lo aqui outra vez, então não lhe perguntarei nada e o enviarei diretamente ao Tribunal Militar do Castelo. Entendido?

Antes que se desse conta, Švejk aproximou-se, beijou sua mão e disse: — Deus lhe pague por tudo, e, se alguma vez precisar de um cão puro-

sangue, não deixe de me procurar. Tenho uma loja de cães.

E assim Švejk se viu em liberdade e a caminho de casa. Ficou pensando se deveria parar primeiro na taverna U Kalicha, mas resolveu

o dilema atravessando a porta pela qual saíra tempos atrás em companhia do agente Bretschneider.

Na taverna reinava um silêncio sepulcral. Havia três ou quatro clientes, entre

os quais o sacristão da igreja de São Apolinário. Todos pareciam preocupados. A senhora Palivcová estava sentada atrás do balcão e olhava distraidamente as torneiras da chopeira.

— Bem, estou aqui de novo — disse Švejk, alegremente —, sirva-me uma

caneca de cerveja. Onde está o senhor Palivec? Também já voltou para casa?

Em vez de responder, a senhora Palivcová começou a chorar e, sublinhando

cada palavra que usava para manifestar sua tristeza, gemeu:

— Há... uma... semana... foi... condenado... a... dez... anos. — Que coisa! — disse Švejk. — Então já tem sete dias pelas costas. — Ele era tão cuidadoso... — chorava a senhora Palivcová. — Vivia dizendo

isso a seu próprio respeito.

Os clientes da taverna mantinham um silêncio obstinado, como se o espírito

de Palivec flutuasse na sala e lhes recomendasse uma prudência ainda maior.

— A prudência é a mãe da sabedoria — disse Švejk sentando-se diante da

caneca de cerveja; a espuma tinha pequenos furinhos feitos pelas lágrimas que haviam saltado dos olhos da senhora Palivcová quando a levara à mesa —, e os dias de hoje obrigam as pessoas a serem prudentes.

— Ontem tivemos dois enterros — disse o sacristão da igreja de São

Apolinário para mudar o rumo da conversa.

— Deve ser porque alguém morreu — disse um cliente. Outro acrescentou:

— Havia um catafalco?

— Gostaria de saber como serão os enterros militares agora, durante a

guerra — disse Švejk.

Os clientes se levantaram, pagaram suas contas e saíram em silêncio. Švejk

ficou sozinho com a senhora Palivcová.

— Nunca poderia imaginar — observou — que fosse possível condenar a

dez anos uma pessoa inocente. Já ouvi dizer que condenaram um inocente a cinco anos, mas dez me parece um pouco demais.

— É que meu marido confessou tudo — soluçou a senhora Palivcová. —

— É que meu marido confessou tudo — soluçou a senhora Palivcová. —

Repetiu na chefatura e no tribunal o que disse aqui sobre as moscas e o quadro. Eu estive na primeira sessão como testemunha; mas o que poderia dizer se me falaram que tinha relações de parentesco com meu marido e portanto não era obrigada a testemunhar? A história das relações de parentesco me assustou tanto que desisti de testemunhar para evitar alguma desgraça, e o pobre homem me olhou de tal maneira que não esquecerei seus olhos até o dia da minha morte. E mais tarde, depois da leitura da sentença, quando o levavam, estava tão abobalhado que gritou no corredor: “Viva o livre pensamento!”

— Bretschneider não tem aparecido por aqui? — perguntou Švejk. — Veio várias vezes — respondeu a taberneira. — Tomou uma ou duas

cervejas, perguntou quem tem aparecido e ouviu os clientes conversarem sobre futebol. E então começou a ficar inquieto, como se, a qualquer momento, fosse se encolerizar e ter um ataque. Durante todo esse tempo, só conseguiu apanhar um tapeceiro da rua Přičná.

— Tudo é uma questão de prática — observou Švejk. — O tapeceiro era

idiota?

— Mais ou menos como meu marido — respondeu ela chorando. —

Bretschneider lhe perguntou se atiraria contra os sérvios. Ele respondeu que não sabia

atirar, que uma vez havia ido a uma tenda de tiro e perdera uma coroa.16 Depois, todos ouvimos Bretschneider dizer, pegando seu caderno de anotações: “Ora, temos aqui outro caso de alta traição!”, e levou o tapeceiro, que não voltou nunca mais.

— Muitos não voltarão — disse Švejk. — Sirva-me uma dose de rum. Exatamente quando Švejk pedia outra dose de rum, o agente da polícia

secreta Bretschneider entrou na taverna. Percorreu a sala vazia com um olhar inquisidor, sentou-se ao lado de Švejk, pediu uma cerveja e esperou que este começasse a falar.

Švejk pegou um jornal na estante e, enquanto olhava a página de anúncios,

disse:

— Vejam só! Um tal de Čimpera, que mora no número 5 da Straškov,

agência de correios de Račiněves, está vendendo uma casa de campo com treze acres de terra, em um lugar que tem estrada de ferro e escola municipal.

Bretschneider tamborilou nervosamente com os dedos e, virando-se para

Š vejk, disse:

— Me surpreende seu interesse por uma casa de campo, senhor Švejk. — Ah, é o senhor! — disse Švejk, apertando-lhe a mão. — Perdoe-me não

tê-lo reconhecido, tenho uma péssima memória. Se não me engano, na última vez nos despedimos na recepção da chefatura de polícia. O que fez desde então? Tem vindo muito aqui?

— Hoje vim ver o senhor — disse Bretschneider. — Na chefatura me

disseram que vende cães. Queria um terrier, um pinscher ou algo parecido.

— Posso conseguir o que quiser — respondeu Švejk. — Prefere um cão de

raça ou um vira-lata?

— Acho que vou preferir um de raça — respondeu Bretschneider. — E não gostaria de um cão policial? — perguntou Švejk. — Um que

pudesse encontrar tudo depressa e o ajudasse a descobrir criminosos? Um açougueiro de Vršovice tem um que arrasta seu carrinho. Esse cão, como se diz, errou de profissão.

— Prefiro um pinscher — disse Bretschneider com calma obstinada —, um

pinscher que não morda.

— Um cão pinscher desdentado, então? — perguntou Švejk. — Conheço

um. Pertence a um taverneiro de Dejvice.

— Talvez seja melhor um terrier — disse, hesitante, Bretschneider, cujos

conhecimentos cinológicos eram muito limitados, e que, se não tivesse recebido aquela ordem da chefatura, nunca teria sabido nada a respeito de cães.

Mas a ordem era exata, clara e firme: tinha de conquistar a confiança de Švejk

usando como pretexto seu negócio de cães; para levar a termo a tarefa, poderia contratar ajudantes e dispor de verba pública para comprar um cão.

— Existem cães da raça terrier grandes e pequenos — explicou Švejk. — Sei

de dois pequenos e três grandes. Os cinco cabem no colo. Eu os recomendo, com toda sinceridade.

— Isso me cairia realmente bem — declarou Bretschneider —, e quanto

custa cada um?

— Depende do tamanho. Um terrier não é um bezerro; com os cães terrier

acontece exatamente o contrário: quanto menor, mais caro.

— Estou pensando em um grande que possa me servir de guardião —

respondeu Bretschneider, temendo onerar muito as finanças do fundo secreto da polícia estatal.

— De acordo — disse Švejk. — Posso lhe vender os grandes por cinquenta

coroas e os ainda maiores por quarenta e cinco, mas estamos esquecendo um aspecto. Teria que ser filhote ou adulto? Macho ou fêmea?

— Para mim tanto faz — respondeu Bretschneider, que estava tratando de

questões que lhe eram totalmente desconhecidas. — Consiga um e irei buscá-lo amanhã às sete da noite em sua casa. Estará lá?

— Pode vir, estará lá — respondeu Švejk secamente —, mas neste caso me

vejo obrigado a lhe pedir um adiantamento de trinta coroas.

— Claro! — disse Bretschneider, entregando-lhe o dinheiro. — E agora o

convido a beber uma taça de vinho por minha conta.

Quando terminaram o vinho, Švejk pediu mais duas taças, e depois

Bretschneider ofereceu outra rodada, insistindo que não tivesse medo, que naquele dia não estava trabalhando e que podiam falar de política.

Švejk declarou que não falava nunca de política nos bares e que política era

coisa de criancinha.

Bretschneider, por sua vez, tinha opiniões mais revolucionárias; dizia que

todos os Estados fracos estavam fadados à aniquilação, e perguntou a Švejk sua opinião a respeito.

Švejk declarou que nunca tivera nada a ver com o Estado, mas que uma vez

criara um cão são-bernardo débil, que alimentou com biscoitos do exército, embora no final tivesse morrido.

Estavam na quinta taça de vinho quando Bretschneider afirmou que era

anarquista e perguntou a Švejk a qual organização devia se filiar.

Švejk disse que certa vez tinha vendido um leonberger a um anarquista por

cem coroas e que o homem ainda lhe devia a última prestação.

Quando estavam bebendo a sexta taça, Bretschneider começou a falar da

revolução e contra a mobilização geral, mas Švejk se inclinou e lhe disse ao ouvido:

— Acaba de chegar um novo cliente; não permita que o ouça, se não quiser

— Acaba de chegar um novo cliente; não permita que o ouça, se não quiser

ter problemas... Veja, a taberneira está chorando.

A senhora Palivcová chorava de verdade, sentada em uma cadeira atrás do

balcão.

— Por que está chorando, senhora taberneira? — perguntou Bretschneider.

— Em três meses venceremos a guerra, haverá anistia, seu marido voltará e encheremos os córneos em sua casa. — E, virando-se para Švejk, disse: — Será que não acredita que vamos ganhar?

— Não tem sentindo ficar insistindo na mesma coisa — disse Švejk. —

Temos o dever de vencer e ponto. Mas agora preciso ir para casa.

Švejk pagou a conta e voltou para sua velha criada, a senhora Müllerová, que

levou um susto ao ver que o homem que abria com chave a porta do apartamento era Š vejk.

— Senhor, imaginei que só voltaria depois de muitos anos — disse com sua

habitual franqueza. — Enquanto isso, por compaixão, hospedei o porteiro de um cabaré. É que revistaram a casa três vezes e, como não encontraram nada, disseram que o senhor estava perdido porque era muito esperto.

Švejk logo percebeu que o intruso se instalara com todo conforto. Estava

dormindo em sua cama e devia ser um homem generoso, porque se contentou com a metade, deixando a outra a um ser de cabelos longos que dormia agradecido, abraçado ao seu pescoço, enquanto no chão, ao redor da cama, se amontoavam peças de roupa masculina e feminina. Aquele caos evidenciava que o porteiro do cabaré voltara para casa acompanhado por uma dama e de muito bom humor.

— Senhor — disse Švejk sacudindo o intruso —, não quero que perca a

hora. Não gostaria que depois saísse dizendo por aí que o expulsei quando em lugar nenhum queriam mais lhe servir alguma coisa para almoçar.

O porteiro noturno dormia profundamente e levou muito tempo para

entender que o dono da casa havia voltado e reclamava seus direitos.

Como faziam todos os porteiros de cabarés, este também declarou que daria

uma surra em qualquer um que o despertasse e tentou continuar dormindo.

Švejk recolheu todas as peças de roupa, levou-as até a cama e, sacudindo-o

energicamente, disse:

— Se não se vestir, serei obrigado a atirá-lo na rua do jeito que está. Será

melhor para você sair voando daqui vestido.

— Eu queria dormir até as oito da noite — disse o porteiro, ainda aturdido,

vestindo as calças. — Estou pagando duas coroas por dia à senhora pela cama e posso trazer as meninas do cabaré. Levante-se, Mařena!

Ao ajeitar cuidadosamente o colarinho e dar um nó na gravata, o porteiro já

se recuperara, a ponto de garantir a Švejk que o cabaré Mimóza era, de fato, uma das mais respeitáveis casas noturnas da cidade, onde só podiam entrar damas que tivessem todos seus papéis em dia, inclusive os registros policiais, e convidou-o, de todo coração, a lhe fazer uma visita.

No entanto, era evidente que sua companheira estava irritada com Švejk,

contra o qual desferiu palavrões, dos quais o mais delicado era:

— Filho de um bispo!

Assim que os intrusos foram embora, Švejk quis acertar as contas com a

Assim que os intrusos foram embora, Švejk quis acertar as contas com a

senhora Müllerová, mas não encontrou nem sinal da mulher, apenas um pedaço de papel no qual estavam escritas umas poucas palavras com a letra desordenada da criada. A mulher expressava com simplicidade seus pensamentos a respeito da infeliz aventura com o porteiro noturno ao qual emprestara a cama de Švejk:

Desculpe-me, senhor, não o verei nunca mais. Vou me atirar da janela.

— Está mentindo — disse Švejk e ficou esperando. Depois de meia hora, a infeliz senhora Müllerová entrou na ponta dos pés na

cozinha; em sua expressão perturbada se percebia que esperava de Švejk palavras de consolo.

— Se quer se atirar da janela — disse Švejk —, vá ao quarto, já abri uma.

Não aconselho que pule da janela da cozinha porque cairia sobre a roseira, a esmagaria e teria de pagá-la. Da janela do quarto, cairia diretamente na calçada e com um pouco de sorte quebraria o pescoço. No caso de estar com azar, só correria o risco de quebrar as costelas, os braços e as pernas, e teria de pagar o hospital.

A senhora Müllerová começou a chorar, foi em silêncio até o quarto e fechou

a janela. Quando voltou, disse:

— A corrente de ar poderia afetar seu reumatismo. Depois foi fazer a cama; arrumou tudo com um cuidado extraordinário e,

quando voltou à cozinha, onde estava Švejk, comentou com expressão chorosa:

— Senhor, os dois filhotes que estavam no pátio morreram. E o são-

bernardo fugiu quando vieram revistar a casa.

— Por Jesus Cristo! — exclamou Švejk. — Ele poderá se ver metido em

uma bela confusão. Agora certamente a polícia vai procurá-lo.

— Ele mordeu um comissário de polícia que o tirou de baixo da cama

durante a revista — continuou a senhora Müllerová. — Um dos policiais disse que havia alguém escondido debaixo da cama, que o são-bernardo devia sair em nome da lei e, como se recusava, o tiraram à força. E ele quis devorá-los; depois fugiu pela porta e não voltou nunca mais. Também fui interrogada: queriam saber quem visita o senhor, se recebe dinheiro do estrangeiro... Depois insinuaram que eu era uma idiota porque lhes disse que quase não chegava dinheiro do estrangeiro. A última vez foi daquele diretor da escola de Brno, que lhe enviou sessenta coroas pelo gato angorá que o senhor havia anunciado no Národní Politika, mas, em seu lugar, mandou um pequeno fox-terrier cego em uma caixa de tâmaras. Depois conversaram comigo muito amavelmente e me recomendaram que alugasse sua cama para aquele porteiro do cabaré, o mesmo que acabou de expulsar, para que não tivesse medo de ficar aqui sozinha...

— Sempre tive azar com as autoridades, senhora Müllerová, logo verá

quantos deles virão comprar cachorros — suspirou Švejk.

Não sei se os senhores que examinaram os arquivos policiais depois da

derrubada do império austro-húngaro foram capazes de decifrar os seguintes códigos dos fundos secretos da polícia estatal: SB... 40 C, F... 50 C, L... 80 C, etc., mas não resta dúvida de que se equivocaram achando que se tratava das iniciais dos nomes de algumas pessoas que por 40, 50 e 80 coroas vendiam a nação tcheca à águia negro-amarela.

SB significa são-bernardo, FT fox-terrier, L leonberger... Bretschneider

levou todos esses cães de Švejk à chefatura. Eram monstros asquerosos que não tinham absolutamente nada a ver com nenhum tipo de cão de raça pelo qual Švejk os fazia se passar para Bretschneider.

O são-bernardo era um cruzamento de poodle — que de puro não tinha

nada — com vira-lata. O fox-terrier tinha orelhas de perdigueiro, corpo de dinamarquês e patas torcidas, como se tivesse sofrido de raquitismo. A cabeça do leonberger recordava a de um pinscher, tinha o rabo cortado, a altura de um bassê e o traseiro pelado como os famosos cachorros sem pelos americanos.

Depois, o detetive Kalous apareceu para comprar um cachorro e voltou com

uma besta monstruosa que recordava uma hiena manchada, com cabeleira de pastor escocês. E no registro dos fundos secretos podia-se ler duas novas iniciais: DA... noventa coroas.

O monstro se fazia passar por um dogue alemão... Mas nem mesmo Kalous conseguiu arrancar alguma coisa de Švejk; teve a

mesma sorte de Bretschneider. Švejk desviava até mesmo as conversas políticas para o assunto do tratamento da cinomose canina e, apesar de recorrer aos mais mirabolantes estratagemas, Bretschneider acabava sempre levando outro monstro, resultado de um inacreditável cruzamento de raças.

E este foi o fim do célebre agente Bretschneider. Quando já tinha em seu

apartamento sete daquelas bestas, se trancou com elas no quarto dos fundos e deixou-as sem comer durante tanto tempo que acabou sendo devorado.

Era tão nobre que poupou o tesouro público de ter despesas com o enterro. Em seus papéis na chefatura, na coluna de promoções, foram escritas as

seguintes palavras: “Devorado por seus próprios cães.”

Mais tarde, quando Švejk ficou sabendo daquele trágico acontecimento,

disse:

— A única coisa que gostaria de saber é como farão para juntar todas as suas

peças no dia do Juízo Final.

16 Trocadilho entre “coroa”, a moeda tcheca, e “Coroa”, o império. (N. do T.)