As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 20 de 30 · parte 1/3

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

2 - A anábase de Švejk a caminho de Budějovice

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

2

A anábase de Švejk a caminho de Budějovice Xenofonte, um guerreiro da Antiguidade, atravessou toda a Ásia Menor e, sem nenhum mapa, chegou a Deus sabe onde. Os antigos godos faziam suas incursões sem que tivessem o menor conhecimento topográfico. Caminhar sempre para a frente, é isso o que significa anábase. Abrir caminho através de paisagens desconhecidas, cercado de inimigos que estão de olho na melhor oportunidade para torcer seu pescoço. Quem tem boa cabeça — como era o caso de Xenofonte ou de todas aquelas tribos de bandoleiros que chegaram à Europa vindo só Deus sabe de que aldeia das costas do mar Cáspio ou do mar de Azov — faz verdadeiros milagres pelo caminho.

As legiões romanas de César chegaram, também sem o auxílio de mapas, às

zonas nórdicas do mar da Gália. Um dia resolveram, para variar, voltar a Roma por outro caminho, e chegaram lá. Provavelmente foi a partir de então que começaram a dizer que todos os caminhos levam a Roma.

Todos os caminhos também levam a Budějovice. Pelo menos o bom soldado

Š vejk estava plenamente convencido disso quando, ao invés dos prados de Budějovice, avistou as aldeias da região de Milevsko. E continuou caminhando para a frente, porque nunca um Milevsko qualquer pode impedir um bom soldado de chegar a Budějovice.

Desta maneira Švejk apareceu em Květov, a oeste de Milevsko. Como havia

esgotado pelo caminho todas as canções marciais e as marchas militares que conhecia, diante de Květov viu-se obrigado a voltar à seguinte canção:

Quando nós marchávamos

Todas as garotas choravam...

Uma velhinha que voltava da igreja encontrou Švejk no caminho que leva de

Květov a Vráž, ou seja, a oeste, e com a saudação cristã de “Bom dia, soldado, aonde vai?”, entabulou conversa com ele.

— A Budějovice, vovó, ao regimento, à guerra — respondeu Švejk. — Então não está no caminho certo, soldado — disse a velhinha, assustada.

— Por aqui não vai chegar. Se continuar caminhando nesta direção, passando por Vráž e indo sempre em frente, chegará a Klatovy.

— Eu acredito que se pode ir a Budějovice passando por Klatovy — disse

Š vejk, resignado. — Na verdade é um belo passeio, no entanto algo que não convém quando a pessoa está com pressa de chegar ao seu regimento. Não pode enfrentar novos problemas se pretende chegar o quanto antes possível.

— Na minha aldeia também havia um sujeito como você. Tinha que ir a

Pilsen, à Defesa Territorial. Toník Mašek era seu nome — suspirou a velhinha. — É parente da minha sobrinha. Partiu, mas dali a uma semana os gendarmes vieram procurá-lo, porque não havia chegado ao seu regimento. E passada outra semana o rapaz apareceu na aldeia vestido de paisano dizendo que o haviam mandado para casa de licença. De maneira que o alcaide foi ver os gendarmes e estes foram buscar o rapaz para checar sua permissão. Já escreveu do front e diz que foi ferido e perdeu uma perna.

E a velhinha fitou Švejk com compaixão.

— Esconda-se na floresta, soldado, posso lhe levar um pouco de sopa de

— Esconda-se na floresta, soldado, posso lhe levar um pouco de sopa de

batata para que se aqueça. Daqui é possível ver nossa cabana, fica ali, atrás da floresta, um pouco à direita. Não passe pela aldeia de Vráž, os gendarmes locais parecem gaviões. Quando sair do bosque, dirija-se a Malčín. Uma vez ali, pegue o caminho de Čižová, mas evite passar por ela. Os gendarmes dali parecem verdugos, vivem caçando desertores. Atravesse a floresta e vá diretamente a Sedlec, perto de Horažd’ovice. Ali há bons gendarmes que deixam todo mundo passar pela aldeia. Você tem algum documento de identidade?

— Não tenho, mãezinha.

— Então também não passe por ali, será melhor se dirigir a Radomyšl, mas

tente chegar ao anoitecer, quando os gendarmes estão na taverna. Na rua Dolejší, atrás da igreja de São Floriano, verá uma casinha com a base pintada de azul. Pergunte pelo fazendeiro Melichárek. É meu irmão. Dê-lhe lembranças de minha parte e ele lhe dirá como deve fazer para chegar a Budějovice.

Švejk esperou mais de meia hora na floresta e quando se aqueceu com a sopa

de batata que a pobre mulher lhe levara em uma panela envolta em uma almofada para que não esfriasse, a velhinha tirou de um lenço uma fatia de pão e um pedaço de toucinho, enfiou tudo no bolso de Švejk, fez o sinal da cruz e disse que dois de seus netos estavam na guerra.

Então repetiu com cuidado os nomes das aldeias pelas quais ele deveria

passar ou precisaria evitar. Por fim, tirou uma coroa do bolso e deu-a a Švejk para que comprasse uma aguardente em Malčín e assim pudesse suportar melhor o longo caminho até Radomyšl.

Em Čižová, Švejk pegou o caminho para Radomyšl, na direção leste,

seguindo o conselho da velhinha, pensando, provavelmente, que a partir de qualquer lugar do mundo seria possível chegar a Budějovice.

Ao sair de Malčín ia com Švejk um velho acordeonista que havia conhecido

na taverna onde comprara a aguardente para o longo trajeto até Radomyšl.

O acordeonista, depois de observar Švejk, entendeu que era um desertor e

aconselhou-o a acompanhá-lo a Horažd’ovice, onde vivia sua filha casada, cujo marido também era desertor. Era evidente que o velho acordeonista havia bebido além da conta em Malčín.

— Meu genro está escondido há dois meses no estábulo — tentou

convencer Švejk. — Você também pode se esconder e os dois podem ficar ali até o final da guerra. Tendo companhia é menos triste.

Quando Švejk recusou educadamente a proposta, o acordeonista ficou muito

irritado e pegou o caminho da esquerda, que atravessava o campo, ameaçando Švejk de denunciá-lo à polícia de Čížová.

Ao anoitecer, ao chegar a Radomyšl, Švejk foi à rua Dolejší procurar o

fazendeiro Melichárek. As recomendações de sua irmã de Vráž não o impressionaram nem um pouco. Queria ver os documentos de Švejk. Era um homem desconfiado, insistia em falar dos ladrões, baderneiros e vagabundos que, segundo ele, vagavam pelo distrito.

— Fogem da guerra, recusam-se a lutar e a única coisa que fazem é rondar

por aqui e roubar tudo o que podem — disse a Švejk enfaticamente, olhando-o nos olhos. — Todos parecem não saber contar até cinco. Quem diz as verdades perde as amizades — e acrescentou, quando Švejk se levantou para ir embora: — Se tivesse a consciência limpa, ficaria sentado tranquilamente e me deixaria ver seus documentos. Mas como não os tem...

— Fique com Deus, vovô.

— Adeus e, na próxima vez, procure um que seja mais bobo. Fazia tempo que Švejk saíra para enfrentar a escuridão e o velho continuava

resmungando.

— Disse que saiu de Tábor para ir a Budějovice, a seu regimento. E o patife

passa primeiro por Horažd’ovice e depois por Písek. Parece que está dando a volta ao mundo.

Švejk caminhou quase toda a noite, até que perto de Putim encontrou um

palheiro. Quando estava improvisando um leito, ouviu uma voz muito perto:

— De que regimento você é? Aonde vai?

— Do 91º, de Budějovice. — Por que está indo para lá?

— É onde o meu tenente está.

A seu lado, muito perto, ouviu-se uma gargalhada não de uma, mas de três

pessoas. Quando as risadas se acalmaram, Švejk perguntou de qual regimento eram. Dois eram do 35º e um da artilharia, também de Budějovice.

Os do 35º haviam desertado um mês atrás, quando a companhia estava se

formando para ir ao front, e o artilheiro andava por ali desde os dias da mobilização. Era de Putim e o palheiro era dele. Dormia nele todas as noites. Na noite anterior havia encontrado os outros dois no bosque e os levara ao palheiro.

Todos acreditavam, esperançosos, que a guerra não duraria mais de um mês

ou dois. Imaginavam que os russos já deviam ter deixado Budapeste para trás e entrado na Morávia. Era o que todo mundo dizia em Putim. De madrugada, antes do amanhecer, a mulher do artilheiro lhes levaria o dejejum. Depois, os do 35 º começariam a caminhar para Strakonice, onde vivia a tia de um deles, que conhecia alguém na montanha, mais além de Sušice, que tinha uma serraria; ali ficariam bem escondidos.

— E você, do 91º, venha conosco se quiser — sugeriram a Švejk. — Mande

seu tenente à merda.

— Isso não é tão fácil assim — disse Švejk e se afundou no palheiro. De manhã, quando acordou, todos haviam partido e alguém, provavelmente

o artilheiro, deixara perto de seus pés uma fatia de pão para a viagem.

Švejk atravessou florestas e perto de Stekno encontrou um vagabundo, um

velho que lhe deu as boas-vindas com um gole de aguardente como se fosse um amigo da vida inteira.

— Eu, se fosse você, não sairia da floresta vestido assim — aconselhou a

Š vejk —, o uniforme de soldado poderia lhe custar caro. Por todas as partes perambulam grupos de gendarmes e vestido assim não poderá mendigar. Os gendarmes já não correm atrás da gente tanto como antes, agora se concentram em vocês — repetiu com tanta convicção que Švejk resolveu não lhe dizer nada sobre o 91º Regimento. Estava o tomando por desertor? Não o convenceria de que se equivocava. Que pensasse o que quisesse. Para que decepcionar um velho?

— Aonde está indo? — perguntou o vagabundo depois de um tempo,

— Aonde está indo? — perguntou o vagabundo depois de um tempo,

quando ambos haviam acendido os cachimbos e passavam devagar ao largo de uma aldeia.

— A Budějovice.

— Pelo amor de Deus — assustou-se o vagabundo. — Lá você será preso

assim que o virem chegar. Não terá tempo nem de se aquecer. Terá que ir à paisana, com roupa esfarrapada e mancando. Mas fique tranquilo, agora vamos a Strakonice, Volyň e Dub, e seria uma coisa do diabo se não encontrasse uma roupa de paisano. Nos arredores de Strakonice há pessoas tão tolas e honradas que não fecham nunca a porta com chave e de dia a deixam aberta. Agora no inverno costumam ir bater papo na casa de algum vizinho e você poderá conseguir facilmente uma roupa de paisano. Do que precisa? Já tem botas, assim só lhe falta algo para vestir. O sobretudo militar que você carrega é velho?

— Velho.

— Então fique com ele. As pessoas das aldeias usam roupas velhas. Você

precisa de calças e de uma túnica, não é mesmo? Quando conseguirmos as roupas de paisano, venderemos as calças e a túnica do exército ao judeu Herrman de Vodňany. Ele compra qualquer coisa que pertença ao governo e depois vende tudo nas aldeias. Hoje iremos a Strakonice — continuou explicando seus planos. — Dali, em quatro horas chegaremos ao velho curral de ovelhas de Schwarzenberg. Ali há um pastor amigo meu, também velho, que nos deixará passar a noite e no dia seguinte, de manhã, iremos a Strakonice para surrupiar roupas civis em algum lugar ali perto.

No curral, Švejk encontrou um velho agradável que o fez lembrar as

histórias que seu avô contava das guerras francesas. Devia ser uns vinte anos mais velho que o vagabundo, razão pela qual se dirigia tanto a ele como a Švejk da mesma maneira: rapaz.

— Vejam, rapazes — disse, quando ambos estavam sentados em volta do

fogão, no qual cozinhavam batatas com casca —, na sua época, meu avô também desertou como você que chegou agora. Mas o pegaram em Vodňany e lhe deram uma surra até deixá-lo feito picadinho. E ainda posso dizer que teve sorte. Jareš filho, avô do velho Jareš, guarda costeiro em Ražic, perto de Protivín, foi coberto de chumbo e pólvora por ter desertado. E antes de ser fuzilado na fortaleza de Písek, foi obrigado a atravessar um corredor polonês; levou seiscentas cacetadas, de maneira que, para ele, a morte foi uma libertação, uma salvação. E você, quando fugiu? — perguntou a Švejk, com os olhos cheios de lágrimas.

— Depois da mobilização, quando nos levaram ao quartel — respondeu

Š vejk, sem querer decepcionar o velho pastor.

— Pulando o muro? — perguntou o velho com curiosidade, provavelmente

recordando seu avô, que lhe contara que fugira assim.

— Não havia outra maneira, vovô.

— E havia muitos guardas? Dispararam?

— Sim, vovô.

— E aonde pretende ir agora?

— Perdeu a cabeça: quer ir de qualquer jeito para Budějovice — respondeu

o vagabundo, antecipando-se a Švejk. — É um homem jovem, mas perdeu o juízo. Está procurando sua própria desgraça. Bem, terei que lhe dar algumas lições. Roubaremos roupas civis para ele e aí tudo correrá bem. Até a primavera nos viraremos como pudermos e depois procuraremos trabalho no campo. Este ano faltará muita gente, haverá fome. Comenta-se por aí que mandarão todos os vagabundos trabalhar no campo. E como teremos que ir à força, penso que será melhor nos apresentarmos como voluntários. Com tanta gente esmagada, haverá escassez de homens.

— Então você acha que a guerra não terminará este ano? — perguntou o

pastor. — Pois tem razão, rapaz! Já tivemos guerras longas. A de Napoleão, e depois, conforme me contaram, as guerras suecas e a dos Sete Anos. Mas as pessoas mereciam essas guerras. É que Deus já não conseguia nem olhá-las de tão soberbas que haviam ficado. Nem a carne de cordeiro era suficientemente boa para elas. Antes apareciam aqui multidões pedindo que lhes vendesse um cordeiro por baixo do pano; no entanto, de uns anos para cá as pessoas só querem coisas finas, carne de porco, aves, e tudo assado na manteiga ou na gordura de porco. De maneira que, por causa de seu orgulho, Deus as castigou, e agora terão de se conformar em comer acelga, como durante as guerras napoleônicas. Nem mesmo nossas autoridades sabem mais o que fazer com esses descarados. O velho príncipe Schwarzenberg costumava viajar de carruagem, no entanto o pirralho do seu filho não faz mais do que empestear tudo com seu automóvel. Mas Deus logo untará seu focinho de gasolina!

Ouvia-se a água borbulhar cozinhando as batatas no fogão e depois de uma

breve pausa o velho pastor disse, profeticamente: “Nosso imperador não vai ganhar esta guerra. Como pode haver um entusiasmo bélico se, como diz o mestre-escola de

Strakonic, nosso imperador não se deixou coroar?32 É inútil querer agora adoçar nossa boca com mel. Se você prometeu que permitiria que o coroassem, velho lúmpen, então devia ter mantido a palavra.

— Talvez o faça agora — observou o vagabundo.

— Agora ninguém mais liga para ele — disse o pastor, enfadado. — Você

precisaria estar presente quando o pessoal se reúne em Skočice. Todo mundo tem um parente no front e ouviria o que dizem; que depois desta guerra haverá liberdade, que não haverá palácios de nobres nem de imperadores e que as propriedades dos príncipes serão confiscadas. Por causa de um discurso desses, outro dia os gendarmes levaram um tal de Kořínek, acusado, como se diz, de incitar as massas. Hoje em dia a lei é a lei dos gendarmes.

— Sempre foi deles — observou o vagabundo. — Recordo que o chefe de

polícia de Kladno, um tal de Rotter, começou a adestrar cães policiais, que têm o mesmo caráter de um pastor-alemão e, com um bom treinamento, são capazes de encontrar qualquer coisa. Aquele homem, pois, tinha um grupo de discípulos caninos que viviam como reis em uma casinha. E um belo dia lhe passou pela cabeça fazer experiências com os cachorros usando a gente, pobres vagabundos. Deu uma ordem para que os gendarmes do distrito de Kladno perseguissem os vagabundos ferozmente e os enviassem diretamente a suas mãos. Bem, um dia eu me apressava vindo de Lány, mantendo-me sempre dentro do bosque, mas não houve o que fazer, não consegui chegar à casa do guarda-florestal aonde me dirigia: me agarraram e me levaram ao chefe. Senhores, vocês não podem imaginar o que eu sofri com os cachorros daquele guarda. Antes de qualquer coisa, fez com que os cachorros me farejassem, depois me ordenou que subisse a escada e quando estava lá no alto soltou uma daquelas feras e mandou que fosse atrás de mim. A besta me obrigou a descer e quando cheguei ao chão colocou uma das patas em cima de mim, rosnando e exibindo os dentes perto do meu rosto. Depois levaram aquele monstro e mandaram que me escondesse, dizendo que poderia ir aonde quisesse. Fui para o bosque, ao vale de Kačák, ao desfiladeiro, e depois de meia hora já estava com dois pastores-alemães em cima de mim; me derrubaram, e enquanto um segurava meu pescoço o outro saiu correndo para Kladno. Depois de uma hora chegou o guarda Rotter em pessoa com outros gendarmes, chamou o cachorro e me deu cinco coroas e uma permissão para mendigar durante dois dias em todo o distrito de Kladno. Mas que nada! Corri, como se tivessem incendiado minha cabeça, até Beroun e nunca mais voltei a aparecer em Kladno. Como consequência das experiências daquele guarda, todos os vagabundos passaram a evitar a região. Nas delegacias de polícia contavam que, quando Rotter saía para fazer inspeções e via um pastor-alemão, não fazia inspeção nenhuma e passava o resto do dia bebendo alegremente com o sargento.

Enquanto o pastor escorria as batatas e vertia leite de ovelha azedo em uma

vasilha, o vagabundo continuava narrando suas recordações da justiça dos gendarmes:

— Em Lipnice, havia um sargento que vivia na própria delegacia, embaixo

do castelo, e eu, velho ingênuo, até então achava que a polícia devia ficar em um lugar bem visível, como, por exemplo, uma praça ou algo parecido e não em um beco escondido. Bem... Comecei a andar pelos arredores da aldeia sem prestar atenção nas placas das portas. Fui de casa em casa até que cheguei ao primeiro andar de uma casinha, abri a porta e me apresentei: “Peço-lhes, humildemente, um pouco de caridade, sou um pobre vagabundo.” Meu Deus do céu, de repente minhas pernas ficaram paralisadas. Estava em uma delegacia de polícia! Escopetas na parede, um crucifixo na escrivaninha, pastas no armário e o nosso imperador me olhando de uma estante. Antes de conseguir articular uma única palavra, o sargento avançou na minha direção e na própria porta me deu uma bofetada; rodei pela escada e só parei quando cheguei a Kejžlice, a aldeia vizinha. Esta é a lei dos gendarmes.

Os três começaram a comer; depois se deitaram nos bancos e, no calor do

aposento, logo adormeceram.

À noite, Švejk se vestiu em silêncio e saiu. No leste despontava a lua e o bom

soldado se dirigiu ao seu resplendor enquanto pensava: “Não é possível que eu não chegue a Budějovice.”

Quando saiu da floresta, viu à direita uma aldeia; dirigiu-se, então, mais para

o norte, e em seguida para o sul. Então voltou a ver ao longe outra cidade (era Vodňany). Evitou-a prudentemente, atravessando uns campos. O sol matinal lhe deu boas-vindas nas ladeiras nevadas de Protivín.

“Sempre em frente”, disse para si mesmo o bom soldado Švejk. “O dever me

chama. Tenho que chegar a Budějovice.”

E, por um infeliz acaso, os passos de Švejk, ao invés de se dirigirem de

Protivín ao sul, a Budějovice, o levaram ao norte, a Písek.

Por volta do meio-dia, Švejk avistou uma aldeia. Descendo uma pequena

colina, pensou: “Isso não pode continuar assim. Terei de perguntar como devo fazer para chegar a Budějovice.”

Quando entrou na aldeia, ficou pasmo ao ler o nome do lugar em um poste

diante da primeira casa: Putim.

“Jesus Cristo!”, suspirou Švejk, “quer dizer que voltei a Putim, onde dormi

no palheiro...”.

Mas sua surpresa logo se esfumou quando viu, atrás de um pequeno lago,

uma casinha pintada de branco, onde estava pendurada uma galinha (assim era chamada popularmente a águia imperial), e sair dela um gendarme como se fosse uma aranha vigiando sua teia.

O gendarme se aproximou de Švejk e lhe disse, laconicamente: — Aonde vai?

— A Budějovice, encontrar meu regimento. O gendarme sorriu, sarcástico:

— Mas está vindo de lá, Budějovice está atrás de você! E levou Švejk à delegacia.

O sargento-mor de Putim era famoso em toda a comarca por seus

procedimentos, uma estranha combinação de delicadeza e astúcia. Nunca insultava um detido ou prisioneiro, mas o submetia a tal bateria de perguntas que até os inocentes confessavam.

Dois guardas se aproximaram do chefe e, sorrindo, submeteram Švejk a um

interrogatório cruzado.

“A criminalística se baseia na inteligência e na amabilidade”, costumava dizer

o sargento-mor a seus subordinados. “Gritar com alguém não tem nenhum sentido. É preciso tratar os delinquentes e os suspeitos com delicadeza e ao mesmo tempo asfixiá-los com uma torrente de perguntas.”

— Seja bem-vindo, soldado — disse o sargento-mor a Švejk. — Sente-se e

sinta-se em casa. Deve estar cansado depois da viagem. Diga-nos para onde está indo.

Švejk repetiu que estava indo para Budějovice, ao seu regimento. — Então deve ter errado o caminho — disse o sargento-mor, sorrindo —,

porque está vindo de Budějovice, coisa que posso lhe demonstrar. Em cima da gente temos pendurado um mapa da Boêmia. Preste bem atenção, soldado. Ao sul está Protivín. Ao sul de Protivín está Hluboká e mais ao sul Budějovice. Então está vendo que não está indo a Budějovice, mas vindo de lá.

O sargento-mor olhava para Švejk com amabilidade e o bom soldado

afirmou, tranquila e dignamente:

— E não obstante estou indo para Budějovice! Esta afirmação foi mais forte do que o “e não obstante se move!” de Galileu

porque este, com toda probabilidade, deve ter pronunciado a frase com uma boa dose de raiva.

— Quer saber de uma coisa, soldado? — disse o sargento a Švejk com a

mesma amabilidade. — Eu vou convencê-lo do contrário. Você acabará concordando comigo que cada negativa torna a confissão mais difícil.

— O senhor tem toda razão — disse Švejk. — As negativas dificultam a

confissão e vice-versa.

— Então você está vendo, soldado, que chegou sozinho à mesma conclusão.

Responda-me com toda franqueza: de onde você saiu para ir a sua Budějovice? Estou dizendo a sua de propósito porque deve existir outra Budějovice ao norte de Putim que ainda não foi incluída no mapa.

— Saí de Tábor.

— E o que fazia em Tábor?

— Estava esperando um trem para Budějovice. — E por que não foi de trem para Budějovice? — Porque não tinha passagem.

— E por que a você, um soldado, não deram uma passagem militar de

graça?

— Porque não tinha nenhum documento.

— Pronto! — disse, triunfalmente, o sargento-mor para um dos policiais.

— O sujeito não é tão tolo como finge ser. Está começando a se enrolar.

O sargento-mor recomeçou como se não tivesse ouvido a última resposta a

respeito dos documentos.

— Quer dizer que saiu de Tábor? Então para onde estava indo? — Para České Budějovice.

A expressão do sargento-mor ficou um pouco mais severa e seu olhar

escorregou pelo mapa.

— Poderia nos mostrar no mapa qual foi o caminho que pegou para ir a tal

de Budějovice?

— Não recordo todos os lugares. Só sei que já estive uma vez aqui em

Putim.

Todos os policiais trocaram um olhar inquisidor. O sargento-mor

continuou:

— Quer dizer que esteve na estação de Tábor. Está carregando alguma coisa?

Mostre-nos tudo!

Revistaram Švejk cuidadosamente, mas só encontraram um cachimbo e uma

caixa de fósforos. Então o sargento-mor perguntou a Švejk:

— Diga-me uma coisa: como é possível que você não tenha nada, nadica de

nada?

— É que não preciso de nada.

— Meu Deus! Que tortura ter de interrogar um sujeito como este! —

suspirou o sargento-mor. — Acabou de dizer que já esteve uma vez em Putim. O que fez aqui naquela vez?

— Passei em Putim a caminho de Budějovice. — Está vendo como se enrola? Você mesmo disse que ia para Budějovice e

agora mesmo o convencemos de que está vindo de Budějovice.

— Devo ter dado uma volta.

O sargento-mor voltou a trocar um olhar significativo com seu pessoal. — Uma volta! Me parece que com estas suas voltas o que o senhor está

fazendo é perambular pelos arredores. Ficou muito tempo na estação de Tábor?

— Até a saída do último trem para Budějovice. — E o que fez ali?

— Conversei com alguns soldados.

Outro olhar muito significativo do sargento-mor para os policiais. — E a respeito de que falaram? Me dê um exemplo. O que lhes perguntava? — Perguntei sobre o regimento e para onde iam.

— Muito bem. E não lhes perguntou a respeito da localização dos nossos

exércitos?

— Não perguntei porque sei isso de memória há muito tempo. — Então está muito bem informado sobre nosso exército e como ele está

distribuído?

— Certamente, senhor!

Quando chegaram a esse ponto, o sargento-mor apostou seu último trunfo

olhando triunfalmente para seus guardas.

— Você sabe russo?

— Não sei.

O tenente fez um gesto para os soldados e quando os dois foram para a sala

ao lado disse, esfregando as mãos com uma expressão de vitória, cheio de orgulho e de certeza:

— Vocês ouviram? Não sabe russo! Muito esperto este sujeito. Escorregadio

como ele só. Confessou tudo, menos o mais importante. Amanhã o enviaremos a Písek, ao chefe do distrito. A ciência criminológica se baseia na astúcia e na amabilidade. Viram como o asfixiei bombardeando-o com perguntas? Quem diria! Parece tão tolo, tão idiota... Mas é precisamente com pessoas assim que temos que usar a inteligência. Tranquem-no em algum lugar e eu farei o boletim de ocorrência.

E naquela mesma tarde, com um sorriso amável nos lábios, o sargento-mor

começou a escrever o boletim no qual cada frase continha as palavras suspeito de espionagem.

À medida que ia redigindo seu informe em seu singular alemão oficial, o

sargento-mor Flanderka via com mais clareza a situação, e quando o terminou com a frase “comunico que estamos enviando ao chefe de polícia do distrito de Písek o oficial inimigo do dia de hoje” sorria amplamente, satisfeito com seu trabalho. Depois chamou o sargento:

— Deram de comer ao oficial inimigo?

— Suas instruções são no sentido de que só devemos dar de comer aos que

forem apresentados e interrogados antes das doze.

— Este caso é singular e, portanto, uma exceção — disse o sargento-mor

dignamente. — Este homem deve ser um alto oficial do Estado-Maior. Com certeza os russos não enviariam para espionar o primeiro soldado que encontrassem. Ordene que lhe levem comida da taverna Na Kocourku. E se a comida já tiver acabado, que a preparem. E também um chá com rum. E que mandem tudo para cá. Não diga para quem é. Não é necessário dizer a ninguém quem está aqui. Trata-se de um segredo militar. O que o nosso homem está fazendo?

— Pediu um pouco de tabaco. Sentou-se na sala dos guardas e parece tão

feliz como se estivesse em casa. “Está muito quentinho aqui”, disse, “e a estufa não faz fumaça. Estou muito bem aqui. Caso a estufa solte fumaça, limpem a chaminé, mas só à tarde e nunca quando o sol estiver batendo nela.”

— Como é esperto! — exclamou o chefe dos guardas, admirado. —

Comporta-se como se não fosse com ele. E sabe que vai ser fuzilado! Embora seja nosso inimigo, um homem desses precisa ser respeitado. Está a caminho de uma morte certa. Não sei se nós seríamos capazes de nos comportar como ele. Talvez hesitássemos, deixássemos escapar alguma coisa. No entanto, ele se senta tranquilamente e diz: “Está muito quentinho aqui, a estufa não faz fumaça.” Tremendo caráter! Um homem como esse deve ter nervos de aço; para ser assim é necessário ter abnegação, resistência, entusiasmo. Se na Áustria houvesse um entusiasmo parecido… Mas deixemos pra lá. Em nosso país também há entusiasmo. Vocês leram o artigo do Narodní Politika que falava de um tal de Berger, tenente de artilharia, que subiu em um abeto muito alto e ali montou, sobre um galho, um posto de observação? Bem, quando os nossos recuaram, ele não pôde descer porque o teriam feito prisioneiro de guerra. Assim, pois, esperou que os nossos obrigassem o inimigo a recuar de novo, mas teve de esperar duas semanas. Passou todo aquele tempo lá em cima e, para não morrer de fome, foi roendo o cume da árvore e se alimentou de folhas e galhos. E quando os nossos chegaram, estava tão débil que não conseguiu se aguentar mais em cima da árvore, caiu e morreu. Uma vez morto, o condecoraram com a medalha de ouro à coragem.

E o sargento-mor acrescentou, com gravidade:

— Isso é espírito de sacrifício, sargento, isso é heroísmo! Vamos, já estamos

conversando há algum tempo. Vá correndo pedir a comida e nesse meio-tempo me tragam o homem.

O sargento levou Švejk à sala. O sargento-mor convidou-o a se sentar com

um gesto amistoso e começou a interrogá-lo de novo. Para começar, lhe perguntou se seus pais estavam vivos:

— Não estão.

O sargento-mor pensou em seguida que era melhor assim; pelo menos

ninguém teria de chorar por aquele infeliz. Então olhou para a cara bondosa de Švejk e, em um repentino impulso de cordialidade, lhe deu umas batidinhas nas costas, inclinou-se e perguntou em tom paternal:

— Você gosta da Boêmia?

— Me sinto à vontade em qualquer lugar da Boêmia — respondeu Švejk —;

pelo caminho encontrei ótimas pessoas em todos os lugares.

O sargento-mor assentiu com a cabeça:

— Em nosso país as pessoas são boas e cordiais. De vez em quando há

algum roubo ou alguma briga, delitos sem importância. Já faz quinze anos que estou aqui e, se fizer um cálculo, chegarei à conclusão de que são cometidos três quartos de assassinato por ano.

— Está se referindo a um assassinato incompleto? — perguntou Švejk. — Não, não estou querendo dizer isso. O fato é que ao longo de quinze

anos só investigamos onze assassinatos. Cinco foram latrocínios e os outros seis, homicídios comuns, daqueles sem muita importância.

O sargento-mor fez uma pausa e depois retomou seu método de

interrogatório.

— E o que pretendia fazer em Budějovice? — Incorporar-me ao 91º Regimento. O sargento-mor lhe pediu que voltasse à sala dos guardas, porque queria

acrescentar o seguinte ao seu informe dirigido ao comandante geral da polícia de Písek: “Com um perfeito domínio da língua tcheca, pretendia tentar se infiltrar no 91º Regimento de Infantaria, em Budějovice.”

O sargento-mor esfregou as mãos de alegria, satisfeito com a riqueza do

material recolhido e os magníficos resultados proporcionados pelo seu método de investigação. Recordou seu predecessor, o sargento Bürger, que mal falava com os detidos, não lhes perguntava nada e logo os enviava ao tribunal do distrito com um breve informe: “Segundo as declarações do sargento, foi detido por vagabundear e mendigar.” Isso era um interrogatório?

Contemplou as páginas de seu informe e sorriu com satisfação; depois tirou

da escrivaninha um documento secreto do comandante da polícia de Praga, assinalado com o habitual “rigorosamente confidencial” e voltou a lê-lo:

Recomenda-se a todos os policiais seguir com a máxima atenção os movimentos de pessoas que passem por sua zona de competência. O traslado de nossas tropas à Galícia ocidental teve como consequência o fato de que alguns setores das tropas russas, depois de terem atravessado os Cárpatos, tivessem tomado posições no interior do nosso império, de maneira que a linha do front foi trasladada algo mais ao oeste. Esta nova situação, dada a flexibilidade da linha do front, possibilitou que os espiões russos penetrassem mais profundamente em nosso Estado, especialmente na Silésia e na Morávia, a partir de onde, segundo informes confidenciais, um notável número de espiões russos se dirigiu à Boêmia. Pôde-se confirmar que entre eles há um número elevado de tchecos russos formados nas escolas superiores de estado-maior na Rússia, e que, por seu perfeito conhecimento da língua tcheca, são agentes particularmente perigosos porque podem difundir entre a população autóctone, coisa que farão, propaganda qualificada de alta traição. Portanto, o comandante territorial ordena que sejam detidos todos os elementos suspeitos e, sobretudo, que se aumente a vigilância nas localidades próximas às guarnições, centros militares e estações por onde passam trens militares. Os detidos deverão ser revistados imediatamente e entregues às autoridades superiores.

Flanderka voltou a sorrir com satisfação e deixou no meio dos outros

documentos secretos a pasta com a inscrição “Informação secreta, estritamente confidencial”.

Muitas pastas haviam sido elaboradas pelo Ministério do Interior com a

colaboração do Ministério da Defesa Nacional, ao qual estava subordinada a polícia. O comando territorial da polícia de Praga não dava conta de copiá-las e distribuí-las.

A pasta continha o seguinte:

Ordens sobre o controle do comportamento da população local. Instruções para detectar, por meio de conversas com a população local, a

influência que as notícias procedentes do campo de batalha exerciam em sua mentalidade.

Um questionário sobre as reações da população local relativas aos

empréstimos e às coletas para o financiamento das atividades bélicas.

Um questionário sobre o estado de espírito dos recrutados e dos que seriam

recrutados.

Um questionário sobre o estado de espírito dos membros da administração

e dos intelectuais locais.

Uma ordem para o fornecimento imediato de informações sobre a afiliação

local aos partidos políticos e a força de cada um deles.

Uma ordem para que fossem controladas as atividades dos chefes dos

partidos políticos locais e um informe sobre o grau de lealdade ao império dos mencionados partidos.

Um questionário sobre jornais, revistas e opúsculos em circulação pela zona

de jurisdição da polícia.

Instruções sobre como obter informações a respeito das atividades das

pessoas suspeitas de deslealdade e de como a deslealdade se manifestava.

Instruções relativas aos procedimentos a serem adotados para identificar

delatores e informantes a soldo entre a população local.

Instruções a respeito da remuneração de informantes da população local

oficialmente registrados na gendarmaria local.

Todos os dias chegavam novas instruções, diretrizes, questionários e ordens.

Imerso nesta enorme quantidade de invenções do Ministério do Interior austríaco, o sargento-mor Flanderka tinha um número extraordinário de papéis a despachar e respondia às perguntas de maneira estereotipada, argumentando que em sua zona tudo estava em ordem e que a lealdade da população local era do grau Ia.

O Ministério do Interior austríaco definira os seguintes graus de lealdade e

adesão à monarquia: Ia, Ib, Ic; IIa, IIb, IIc; IIIa, IIIb, IIIc; IVa, IVb, IVc. O quatro em algarismos romanos acompanhado por um “a” significava alta traição e, portanto, condenação à forca, por um “b”, internação, e por um “c”, vigiar e prender.

Na escrivaninha do sargento-mor se amontoavam todo tipo de impressos e

memorandos. O governo queria saber o que cada cidadão pensava a seu respeito. Muitas vezes Flanderka retorcia as mãos com desespero ao encarar aqueles impressos que aumentavam impiedosamente a cada dia. Assim que via os envelopes familiares com o carimbo “Postagem gratuita”, seu coração disparava e durante a noite, refletindo sobre aquilo, chegava à conclusão de que não chegaria ao fim da guerra, que seus superiores destruiriam seus últimos resquícios de sanidade mental e que não poderia comemorar a vitória austríaca porque então estaria com um parafuso a mais ou a menos. O comando da polícia distrital o bombardeava diariamente com perguntas como: por que não respondera ao questionário número 72345/721 af d, como determinara a instrução 88992/822 gfeh z, quais eram os resultados práticos das ordens de número 123456/1922 bir V, e assim por diante.

A que mais o deixava preocupado era a ordem de encontrar delatores e

informantes a soldo na população local. Como achava impossível encontrar alguém apropriado para essa tarefa na região de Blata, onde os habitantes eram famosos por sua teimosia, lhe ocorreu optar por um pastor local que era chamado de “Pepek Pule!”. Tratava-se de um cretino que, quando ouvia esse grito, começava a pular; uma daquelas figuras dignas de pena, abandonadas pela natureza e pelos homens, um retardado mental que, por alguns florins e um pouco de comida, pastoreava o gado comunal.

Um dia Flanderka mandou chamá-lo e disse:

— Você sabe quem é o velho Procháska, Pepek?

— Béééé.

— Pare de balir e recorde o nome pelo qual nosso imperador é

popularmente conhecido. Você sabe quem é o nosso imperador?

— Nosso impelador.

— Muito bem, Pepek. Agora preste atenção: se, na hora de comer, quando

— Muito bem, Pepek. Agora preste atenção: se, na hora de comer, quando

você estiver indo de casa em casa, ouvir alguém dizer que nosso imperador é um animal ou algo assim, venha logo me dizer. Entendido? Eu lhe darei vinte cêntimos. E quando ouvir alguém dizer que perderemos a guerra, venha e me conte quem foi; logicamente, receberá mais vinte cêntimos. Mas se eu ficar sabendo que você está me escondendo alguma coisa, então verá o que posso fazer com você. Será preso e levado a Písek. E agora pule!

Pepek deu um pulo e o sargento-mor lhe deu mais duas moedas de vinte

cêntimos. Depois, bem alegre, escreveu um memorando ao posto de comando da polícia distrital informando que já recrutara um informante.

No dia seguinte recebeu a visita do vigário e este lhe confidenciou que pela

manhã havia encontrado o pastor comunal Pepek Pule nos arredores da aldeia e que este lhe dissera: “Reverendíssimo, o sargento-mor me disse ontem que o nosso senhor impelador é um imbecil e que não ganharemos a guerra. Béééé! Upa!”

Depois de longas explicações e de sua conversa com o vigário, Flanderka

mandou prender o pastor comunal, que, mais tarde, no castelo de Hradčany, foi condenado a doze anos de prisão, acusado de alta traição, subversão, incitamento, crime de lesa-majestade e outros delitos e ofensas.

No tribunal, Pepek Pule teve o comportamento habitual, como se estivesse

nos campos ou conversando com vizinhos. Em lugar de responder às perguntas, balia como uma cabra e, quando o veredito foi anunciado, exclamou “Béééé´! Upa!” e deu um pulo. Por isso, foi condenado, disciplinarmente, a ser confinado no catre duro de uma solitária e a três dias de jejum.

A partir de então o sargento-mor ficou desprovido de um informante e teve

que se conformar a inventar um com nome falso, aumentando assim seu soldo mensal em cinquenta coroas por mês, dinheiro que gastava bebendo na taverna Na Kocourku. Após tomar a décima caneca de cerveja era acometido por um ataque de escrúpulos, a bebida amargava sua boca e sempre ouvia os clientes das mesas próximas repetirem a mesma frase: “Hoje o nosso sargento está um pouco triste, parece que perdeu o humor.” Então ia para casa e, depois que havia saído, alguém sempre comentava: “Os nossos devem ter recebido de novo uma boa surra na Sérvia para o nosso sargento estar assim tão calado.”

Em casa, o sargento preenchia pelo menos mais um dos questionários: “Estado de espírito da população: Ia”, por exemplo. O sargento-mor costumava ter, frequentemente, longas noites de insônia.

Estava sempre esperando alguma inspeção ou investigação. Durante a noite sonhava com a forca, que o levavam ao patíbulo e, quando ia ser pendurado, o próprio ministro da Defesa Nacional lhe perguntava pela última vez, claro que em alemão: “Sargento, qual é a sua resposta para a circular de número 1789678/23792 X.Y.Z?”

Mas agora! Parecia que em todos os cantos da delegacia ecoava a velha

exclamação dos caçadores: “Viva a caça!” E o sargento policial Flanderka não tinha nenhuma dúvida de que o comandante do distrito bateria suavemente em seu ombro e lhe diria: “Minhas congratulações, policial.”

O sargento-mor também desenhava em sua imaginação outros quadros

sedutores que surgiam de algum viés de seu cérebro de burocrata: condecorações, uma rápida ascensão ao escalão hierárquico superior e o reconhecimento de suas faculdades criminalísticas, fatos que lhe abririam caminho para uma brilhante carreira.

Chamou o sargento e perguntou:

— Você lhe deu o almoço?

— Trouxeram-lhe carne defumada com couve e knedlík. A sopa havia

acabado. Bebeu o chá e quer mais um.

— Então que o sirvam! — consentiu o sargento-mor, generosamente. — E,

quando terminar o chá, tragam-no aqui.

— E então? O senhor gostou? — perguntou o sargento-mor quando, meia

hora depois, o sargento lhe trouxe Švejk, bem alimentado e tranquilo como sempre.

— Passável, eu gostaria de ter tido um pouco mais de couve. Mas o que vai

se fazer... Eu sei que não estavam preparados para isso. A carne defumada estava bem defumada, deve ter sido defumada em casa; parecia um leitãozinho caseiro. E o chá com rum também me fez muito bem.

O sargento-mor olhou para Švejk e começou: — É verdade que na Rússia bebem muito chá? E eles também têm rum? — Tem rum no mundo inteiro, senhor sargento.

“Não tente me enganar”, pensou o sargento-mor, “você devia ter tido

cuidado antes com suas palavras”.

E lhe perguntou, inclinando, confidencialmente, a cabeça em sua direção: — Tem garotas bonitas na Rússia?

— Tem garotas bonitas no mundo inteiro, senhor sargento. “Ora, rapaz”, voltou a se repetir o sargento-mor, “você bem que gostaria de

se livrar desta”.

E então disparou com sua espingarda calibre 42:

— O que o senhor pretendia fazer no 91º Regimento? — Queria ir com ele ao front.

O chefe dos gendarmes olhou para Švejk com tranquilidade e disse: — Muito bem. Essa é a melhor maneira de voltar para a Rússia. Muito bem

pensado, sim, senhor! — alegrou-se o chefe dos gendarmes, enquanto tentava averiguar o efeito que suas palavras tiveram sobre Švejk.

Mas não conseguiu descobrir nada além de uma tranquilidade absoluta. “Este homem não mexe nem um músculo”, apavorou-se o sargento-mor,

“deve ser por causa de sua educação militar. Se eu estivesse em seu lugar e alguém tivesse me dito uma coisa dessas, meus joelhos começariam a tremer…”.

— De manhã será levado a Písek — disse, meio sem querer. — Já esteve em

Písek?

— Em 1910, durante as manobras imperiais.

Depois desta resposta, o sorriso do sargento-mor ficou ainda mais afável e

triunfal. Sentia na alma que com esse método de interrogatório superava a si mesmo.

— Participou de todas as manobras?

— Naturalmente, senhor, como soldado de infantaria. E, com a calma de sempre, Švejk voltou a olhar para o sargento-mor que,

tomado por uma alegria exuberante, não conseguia mais aguentar a vontade de sair correndo para acrescentar tudo aquilo ao seu informe. Chamou o sargento, disse que levasse Švejk e escreveu em seu informe: “O plano dele era o seguinte: infiltrar-se nas fileiras do 91º Regimento de Infantaria, se apresentar como voluntário para ir imediatamente ao front, e, na primeira oportunidade, chegar à Rússia, pois tinha consciência de que, devido à vigilância de nossos órgãos de segurança, seria impossível voltar por outros meios. É provável que, infiltrado no 91º Regimento, tivesse logrado atingir seu objetivo, porque durante um breve interrogatório cruzado confessou que participara de todas as manobras imperiais de 1910 nos arredores de Písek, na qualidade de soldado de infantaria. Disso se deduz que se trata de um homem extremamente hábil em sua especialidade. Faço constar, além disso, que todas as informações obtidas são resultado de meu método de interrogatório cruzado.”

O sargento apareceu na porta.

— Senhor sargento-mor, ele está querendo ir ao banheiro. — Com a baioneta calada! — decidiu o sargento-mor. — Não, não, traga-o

aqui.

— O senhor quer ir ao banheiro? — perguntou amavelmente a Švejk. —

Não se trata de outra coisa? — E cravou o olhar no rosto do bom soldado.

— É só mesmo uma questão de necessidade, senhor sargento — respondeu

Š vejk.

— Espero que não se trate de outra coisa — repetiu o sargento-mor de

maneira significativa, pegando o revólver de serviço. — Eu o acompanharei.

— Este revólver é excelente — disse a Švejk no caminho. — Atira sete vezes

e com precisão.

Mas, antes de sair ao pátio, o chefe chamou o sargento e lhe disse em voz

baixa:

— Pegue a baioneta e assim que nosso homem entrar fique atrás do banheiro

para impedir que cave um túnel e fuja.

O banheiro era pequeno, uma casinhola simples de madeira, erguida

timidamente no meio do pátio, em cima de uma fossa de dejetos procedentes de uma estrumeira próxima. Era um grande veterano, no qual muitas gerações haviam feito suas necessidades. Agora Švejk estava ali, segurando com uma mão a corda da porta enquanto por trás, através de uma janelinha, o sargento observava seu traseiro, para evitar que fugisse.

O sargento-mor grudou seu olhar de falcão na porta e ficou pensando em

que pé deveria atirar se tentasse fugir.

Mas a porta foi aberta lentamente e Švejk saiu, tranquilo e feliz, perguntando

ao chefe dos gendarmes:

— Demorei muito? Fiz com que desperdiçasse seu tempo? — Não, não, de maneira nenhuma — respondeu o chefe dos gendarmes

enquanto pensava: “Que homem cortês e educado! Sabe o que o espera, mas consegue ser honrado até o último momento! Será que os nossos compatriotas seriam capazes de uma coisa dessas se estivessem em seu lugar?”

Na delegacia, o sargento-mor se sentou ao lado de Švejk, no beliche vazio do

guarda Rampa, que ficaria de serviço até de madrugada e que, em vez de fazer uma ronda pela aldeia, estava naquele momento tranquilamente na taverna U Černého Konĕ de Protivín, jogando baralho com dois sapateiros e, entre uma mão e outra, manifestava sua convicção de que a Áustria ganharia a guerra.

O sargento-mor acendeu o cachimbo e ordenou que abastecessem o de

Š vejk. O sargento colocou carvão na estufa e a delegacia se transformou no lugar mais agradável e tranquilo da terra, um ninho quente em um desses entardeceres de inverno nos quais tudo o que se quer é ficar às escuras e deixar o tempo correr conversando amigavelmente.

No entanto, todos estavam calados. O sargento-mor seguia o fio de uma

Continuar: parte 2 de 3