As Aventuras do Bom Soldado Švejk
3 - As aventuras de Švejk em Királyhida
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
3
As aventuras de Švejk em Királyhida
O 91º Regimento foi transferido para Most nad Litavou — Királyhida.
Quando faltavam exatamente três horas para ser colocado em liberdade
depois de ter passado três dias na prisão, Švejk foi levado, junto com o voluntário, à estação com uma escolta de soldados.
— Faz tempo que sabiam que seríamos transferidos para a Hungria — lhe
disse o voluntário no caminho. — Ali serão formados os batalhões destinados aos campos de batalha, os soldados treinarão no campo de tiro, brigarão com os húngaros e depois irão, muito felizes, para os Cárpatos. Uma guarnição húngara virá para České Budějovice e haverá uma mistura de raças. Existe uma teoria segundo a qual violentar garotas de outra nacionalidade é o melhor remédio contra a degeneração. Foi o que fizeram os suecos e os espanhóis na Guerra dos Trinta Anos, os franceses na época de Napoleão e agora farão os húngaros na região de České Budějovice, sem ter que recorrer a violações grosseiras. Tudo será feito ao longo do tempo. Será um simples intercâmbio. Um soldado tcheco dormirá com uma garota húngara e uma pobre menina tcheca receberá, em sua casa, um soldado húngaro; depois de alguns séculos, os antropólogos terão uma grande surpresa: por que surgiram às margens do Malše pessoas com faces salientes?
— O acoplamento cruzado — observou Švejk — é uma coisa muito
interessante. Em Praga, há um garçom negro, o Kristián. Seu pai foi rei da Abissínia e se exibia em um circo do bairro de Štvanice. Uma professora que escrevia poemas para a revista Lada sobre pastores e córregos na floresta apaixonou-se por ele. Foram a um hotel, onde se conheceram do ponto de vista bíblico, e ela ficou surpresa quando deu à luz um menininho completamente branco! Mas duas semanas depois o menininho começou a ficar marrom, cada vez mais marrom, e um mês depois começou a ficar negro. Em seis meses estava preto como seu avô, o rei da Abissínia. A mãe levou-o a uma clínica de doenças da pele para que de alguma maneira o descolorissem, mas ali lhe disseram que a pele da criança era negra de verdade e que não havia nada a fazer. Então enlouqueceu, começou a mandar cartas para as revistas pedindo conselhos, perguntando o que havia contra os negrinhos, e acabaram a internando no manicômio de Kateřinka e levando o negrinho para um orfanato onde se fartaram de rir com ele. Depois foi aprendiz de garçom e costumava ir dançar em casas noturnas. Como consequência de sua ação, hoje existem belos mulatos tchecos que não são tão coloridos como ele. Um estudante de medicina que frequentava a taverna U Kalicha nos disse certa vez que as coisas não são tão simples assim. Os mestiços geram outros mestiços que quase não se diferenciam das pessoas brancas. E, de repente, em uma geração posterior, surge um negro. Imagine o mal-estar! Você se casa com uma moça qualquer. A garota é totalmente branca e de repente lhes nasce um filho negrinho. E se nove meses antes fora assistir sem você, em um teatro de variedades, a uma luta atlética da qual participava algum negro, suponho que não poderá evitar que alguma coisa fique, pelo menos, dando voltas em sua cabeça.
— O caso do seu negro Kristián — disse o voluntário — talvez precise ser
examinado também do ponto de vista bélico. Suponhamos que este negro seja convocado. É praguense e, portanto, é destinado ao 28 º Regimento. E aí você ouve dizer que o 28º Regimento se entregou aos russos. Os russos talvez ficassem boquiabertos se capturassem o negro Kristián. Os jornais russos certamente escreveriam que a Áustria estava enviando à guerra seus exércitos coloniais (que não tem), que a Áustria tivera de recorrer a suas reservas negras.
— Dizem que a Áustria tem mesmo uma colônia — disse Švejk — em
algum lugar do norte. É chamada de Terra do Imperador Franz Joseph ou algo assim...
— Parem com isso, rapazes — interrompeu-os um soldado da escolta. —
Hoje em dia é muito perigoso falar de qualquer terra do imperador Franz Joseph. Será melhor para vocês não mencionarem o nome de ninguém...
— Basta olhar o mapa — interveio na conversa o voluntário — para
comprovar que existe mesmo um país do nosso excelentíssimo monarca, o imperador Franz Joseph. Segundo as estatísticas, lá não há nada além do gelo que exportam em navios quebra-gelo pertencentes a uma fábrica de gelo de Praga. Até mesmo os estrangeiros valorizam extremamente esse negócio do gelo, porque é uma atividade lucrativa, embora perigosa. O maior perigo é transportar o gelo do país do imperador Franz Joseph através do círculo polar. Vocês podem imaginar?
O soldado da escolta resmungou alguma coisa e o cabo que acompanhava os
homens se aproximou para ouvir a explicação do voluntário, que continuou, seriamente:
— Essa única colônia austríaca pode abastecer de gelo toda a Europa e é um
fato econômico de extrema importância. No entanto, a colonização se desenvolve com lentidão, porque são poucas as pessoas dispostas a colaborar e as que se apresentam ficam congeladas. Apesar disso, como consequência da regulação das condições climáticas, na qual os Ministérios do Comércio e dos Assuntos Exteriores têm um grande interesse, há esperança de que as grandes superfícies de gelo sejam aproveitadas ao máximo. A construção de alguns hotéis atrairá muitos turistas. Naturalmente, será necessário traçar trilhas turísticas e caminhos entre os blocos de gelo e pintar sinais indicadores nos icebergs. O único empecilho são os esquimós, que tentam dificultar o trabalho de nossas autoridades locais... Os homens não querem aprender alemão.
O cabo ouvia com interesse. Era um homem ativo que antes de entrar para o
exército fora cavalariço; era tolo e grosseiro, engolia tudo o que ouvia sem entender nada e seu verdadeiro ideal era envelhecer a serviço da Áustria.
— Senhor cabo, o Ministério da Educação construiu escolas para eles às
custas de um grande investimento e de muitas vítimas. Cinco empreiteiros ficaram congelados...
— Os pedreiros se salvaram — interrompeu-o Švejk —, pois se aqueceram
mantendo seus cachimbos acesos.
— Nem todos — disse o voluntário. — Dois tiveram a infelicidade de se
esquecer de fumar. Seus cachimbos apagaram e tiveram de enterrá-los no gelo. Mas acabaram conseguindo construir uma escola com tijolos de gelo e concreto armado, que se sustentam muito bem quando são unidos. No entanto, os esquimós fizeram fogueiras ao redor do prédio usando a madeira dos navios mercantes que haviam ficado encalhados nos blocos de gelo e atingiram seu objetivo. O gelo sobre o qual haviam construído a escola derreteu e toda ela, com o professor, o diretor e o representante do governo, que, no dia seguinte, teria que presidir a inauguração solene, afundou no mar. Ouviu-se apenas o representante governamental exclamar em alemão quando a água já estava chegando ao seu pescoço: “Deus castigue a Inglaterra!” Agora é provável que enviem soldados para lá com o objetivo de acertar as contas com os esquimós. Já se sabe que a batalha com eles será terrível. A maior dificuldade que nosso exército terá de enfrentar serão os ursos polares adestrados.
— Era só o que faltava — observou o cabo com sabedoria —, além disso
temos várias invenções militares. Por exemplo, as máscaras de gás para o envenenamento por gás. Você coloca uma na cabeça e aí fica intoxicado, segundo me explicaram na escola de suboficiais.
— Dizem isso só para assustá-los — pronunciou-se Švejk —, nenhum
soldado deve ter medo de nada. Mesmo que no meio da luta caísse na latrina, teria que se lamber e voltar ao combate. No quartel todo mundo está habituado aos gases tóxicos, pois comem pão de campanha e ervilhas com cevada. Mas dizem que os russos acabaram de inventar alguma coisa contra os oficiais...
— Devem ser descargas elétricas — completou o voluntário. — Entram em
contato com as estrelinhas das golas dos oficiais e elas explodem, porque são de celuloide. Será outra catástrofe.
Embora na vida civil o cabo trabalhasse com gado, parece que acabou se
dando conta de que, provavelmente, estavam zombando dele e se dirigiu à vanguarda da patrulha.
Estavam se aproximando da estação, onde os habitantes de Budějovice se
despediam de seu regimento. A despedida não tinha cunho oficial, mas mesmo assim a praça da estação estava cheia de gente esperando os soldados.
A atenção de Švejk se concentrou na multidão. Como sempre costuma acontecer, também desta vez os soldados bons
caminhavam atrás e na frente marchavam, no meio de um corredor de baionetas erguidas, os prisioneiros. Depois os soldados bons iriam se apertar nos vagões de gado e Švejk subiria com o voluntário em um vagão especial para detidos, que nos trens militares ficava imediatamente depois do vagão do estado-maior. Nos vagões para presos sempre havia bastante espaço.
Švejk não pôde se abster de gritar para as multidões “Nazdar!”, a saudação
característica dos tchecos, sem agitar o quepe. O gesto teve um efeito tão sugestivo que as pessoas repetiram a saudação, e o “Nazdar!” retumbou em toda a praça diante da estação; longe dali as pessoas começaram a dizer:
— Já estão chegando!
O cabo da escolta estava desesperado e gritou para Švejk que se calasse. Mas
as exclamações se propagaram como uma avalanche. Os gendarmes obrigaram as fileiras de pessoas a recuarem e abriram caminho para a escolta. O gentio não parava de gritar “Nazdar!” agitando quepes e chapéus.
Foi uma bela manifestação. Nas janelas do hotel diante da estação algumas
damas agitavam lenços e gritavam: “Heil!” Os heil se misturaram com os “nazdar” e um fanático que aproveitou a ocasião para exclamar em alemão “Fora os sérvios” levou uma rasteira e foi ligeiramente pisoteado em um empurra-empurra que se formou artificialmente.
A frase “Já estão chegando!” se propagou como uma faísca elétrica. A escolta continuava caminhando. Švejk, no meio das baionetas, agitava
amistosamente a mão na direção da multidão e o voluntário batia continência com a maior seriedade.
Foi assim que entraram na estação e se aproximaram do trem militar que lhes
fora designado no exato momento em que a orquestra da artilharia, cujo regente estava desorientado devido à inesperada manifestação, começou a tocar o hino austríaco. Por sorte, no último momento apareceu, com sua cartola, o padre Lacina, capelão-mor da 7 ª Divisão de Cavalaria, e impôs a ordem.
A história do capelão era simplesinha. Considerado o terror de todas as
cozinhas de oficiais, um glutão insaciável, ele havia chegado quase por azar na noite anterior a České Budějovice, justo a tempo de participar de um pequeno banquete organizado em homenagem aos oficiais do regimento que partia. Como era um homem que comia e bebia por dez, depois, já bastante alegre, foi à cozinha atrás dos restos. Devorou tijelas de knedlík com molho, arrancou como um gato selvagem a carne dos ossos que encontrou pela frente e acabou descobrindo uma garrafa de rum, a qual bebeu até arrotar. Voltou, então, para o banquete de despedida, onde se destacou com uma nova bebedeira. Tinha uma longa experiência nesse tipo de coisa e os oficiais da 7ª Divisão de Cavalaria sempre acabavam pagando por ele. De manhã, lhe ocorreu que deveria organizar a partida dos primeiros grupos do regimento, razão pela qual ficou perambulando ao longo das fileiras de soldados. Na estação, assumiu de tal maneira as iniciativas que os oficiais que comandavam o embarque nos vagões foram se trancar no escritório do chefe da estação para evitá-lo.
O capelão apareceu de novo diante da estação no momento exato e tomou a
batuta do regente da orquestra dos artilheiros, que ele mesmo queria reger na execução do hino austríaco.
— Parem! — disse. — Ainda não. Esperem meu sinal. Descansem, volto em
seguida.
Depois, entrou na estação procurando a escolta e a mandou parar gritando:
“Alto!”
— Aonde vão? — perguntou severamente ao cabo, que não sabia o que fazer
naquela situação inusitada.
Švejk respondeu bondosamente em seu lugar: — Estamos sendo levados a Most nad Litavou. Se quiser, pode vir conosco,
senhor capelão.
— Então também vou! — afirmou o padre Lacina e, virando-se para a
escolta, acrescentou: — Quem disse que não posso ir? Marchem!
Quando o capelão-mor Lacina se viu no vagão dos detidos, estirou-se em
um banco, e Švejk, com seu bom coração, despiu o casaco e colocou-o sob a cabeça do padre. O voluntário disse em voz baixa, dirigindo-se ao apavorado cabo:
— Os capelães-mores devem ser bem tratados.
O capelão Lacina, confortavelmente deitado no banco, começou a explicar: — Quanto mais cogumelos se põe no ragu, mais gostosa fica a vitela, mas é
necessário refogá-los em um pouco de cebola e só depois acrescentar o louro e a cebola...
— Mas já colocou a cebola antes — observou o voluntário. A observação foi seguida de um gesto de desespero do cabo, que via que o
capelão Lacina estava bêbado, mas mesmo assim era seu superior.
A situação do cabo era verdadeiramente desesperadora.
— Sim — disse Švejk —, o capelão-mor tem toda razão. Quanto mais
cebola, melhor. Em Pakomĕřice havia um cervejeiro que colocava cebola até na cerveja, porque, segundo ele, a cebola desperta a sede. A cebola é excelente para tudo. Assada, cura inclusive os furúnculos...
Enquanto isso, o capelão Lacina falava a meia voz, como se estivesse
sonhando:
— Tudo depende das especiarias, do tipo e da quantidade de especiarias que
são usadas. Não se de...ve co...lo...car mui...ta pi...men...ta pre...ta nem exa...ge...rar na pá...pri...ca...
Falava cada vez mais devagar:
— Nem mui...to... cra...vo..., nem mui...to li...mão, nem mui...to aça...frão,
nem mui...ta noz-mos...ca...da...
Antes de terminar adormeceu como uma pedra; nas pausas em que parava de
roncar, assoviava pelo nariz.
O cabo olhava para ele fixamente; os homens da escolta riam em silêncio,
sentados em seus bancos.
— Este aí não acorda tão cedo — comentou Švejk depois de um tempo. —
Está completamente bêbado. Não importa — continuou depois de o angustiado cabo lhe ter feito um sinal para que se calasse. — Não há nada a fazer, está bêbado como um gambá. Tem o grau de capitão. Todos os capelães militares, inferiores ou superiores, têm, pela graça de Deus, a capacidade de tomar um porre descomunal toda vez que surge uma oportunidade. Eu servi a um capelão militar que se chamava Katz; o sujeito era capaz de vender a alma por uma gota de álcool. O que este aqui faz não é nada se comparado aos excessos do outro. Bebemos juntos o ostensório e provavelmente beberíamos até o próprio Deus se alguém nos oferecesse algum dinheiro por ele.
Švejk se aproximou do capelão Lacina, virou-o para a parede e disse com ar
de expert: “Este vai roncar até Most nad Litavou.” E voltou ao seu assento, seguido pelo olhar angustiado do infeliz cabo, que disse:
— Talvez eu devesse informar a alguém.
— Deixe para lá — disse o voluntário. — O senhor é o comandante da
escolta, não deve se afastar da gente e, segundo o regulamento, não pode deixar nenhum dos guardas que nos acompanham sair para fazer a comunicação enquanto não tiver um substituto. Não, o senhor está em um beco sem saída. Tampouco pode dar um tiro de alerta para que alguém apareça. Aqui não aconteceu nada. Por outro lado, o regulamento determina que no vagão dos detidos não pode haver ninguém além dos detidos e da escolta que os acompanha. É proibida a entrada de qualquer pessoa alheia. Tampouco pode apagar as marcas de sua infração deixando o capelão cair do trem em marcha porque há testemunhas que viram que o senhor o deixou embarcar no vagão, onde ele não tinha nada a fazer. Isso, senhor cabo, significa um rebaixamento certo.
Desconcertado, o cabo balbuciou que não havia deixado o capelão embarcar
no vagão, mas sim que fora o próprio capelão quem havia se juntado a eles; além do mais, era seu superior.
— Aqui a única autoridade é o senhor — afirmou o voluntário com ênfase. Švejk completou suas palavras: — Mesmo que Sua Majestade o Imperador quisesse se juntar a nós, o
senhor não poderia permitir. É como se o oficial de inspeção se aproximasse de um recruta que estivesse de guarda e lhe pedisse para ir lhe comprar cigarro e este ainda perguntasse qual é a marca que quer. Por infrações como estas se vai para a cadeia.
O cabo objetou timidamente que fora Švejk o primeiro a dizer ao capelão
que os acompanhasse.
— Eu posso me permitir isso, prezado cabo — respondeu Švejk —, porque
sou bobo; no entanto, ninguém poderia esperar uma coisa dessas do senhor!
— Faz muito tempo que o senhor está no serviço ativo? — perguntou o
voluntário como quem não quer nada.
— Este é o terceiro ano. Agora serei promovido a sargento. — Pois já pode ir desistindo — provocou-o o voluntário com cinismo. —
Como estava lhe dizendo, isso é motivo de rebaixamento.
— Tanto faz ser rebaixado como oficial ou como um reles soldado; mas é
verdade que os rebaixados são colocados na primeira fila — manifestou-se Švejk.
O capelão se mexeu.
— Está roncando — disse Švejk depois de ter se assegurado de que tudo
estava na mais perfeita ordem. — Agora deve estar sonhando com alguma comilança. Só temo que se alivie nas calças. Meu capelão Katz, quando se embebedava, não sabia o que estava fazendo enquanto dormia. Imaginem que uma vez...
E Švejk começou a relatar suas experiências com o capelão Otto Katz com
tantos detalhes e de uma maneira tão divertida que não perceberam que o trem começara a andar.
Gritos provenientes dos vagões de trás interromperam a narrativa de Švejk.
A 12ª Companhia, integrada totalmente por alemães de Krumlov e Kašperské Hory, cantava aos berros:
Quando eu voltar, quando eu voltar,
Passarei para vê-la.
E de outro vagão um desesperado gritava em direção a Budějovice, que se
afastava:
Você, minha querida,
Me espere aqui.
Holarió, holarió, hola!
Era uma mistura tão medonha de canto tirolês e gritos que seus
companheiros tiveram que afastá-lo da porta aberta do vagão de carga.
— Acho estranho — disse o voluntário, dirigindo-se ao cabo — que a
inspeção ainda não tenha aparecido. De acordo com o regulamento, o senhor devia ter anunciado nossa presença ao comandante da tropa ainda na estação em vez de se ocupar do capelão bêbado.
O infeliz cabo ficou calado, de maneira obstinada, e olhava teimosamente
para os postes telegráficos que iam ficando para trás.
— Quando penso que ainda não nos reportamos a ninguém — insistia o
voluntário — e que na próxima estação o comandante da tropa virá nos ver, sinto meu sangue de soldado protestar. Parece que somos...
— ... ciganos — interrompeu-o Švejk —, ou vagabundos. Sinto como se
temêssemos a luz divina e não pudéssemos nos apresentar em nenhum lugar para que não nos prendessem.
— Afora isso — acrescentou o voluntário —, nos termos do decreto de 21
de novembro de 1879, devem ser obedecidas as seguintes normas quando soldados presos são transportados por trem: em primeiro lugar, o vagão dos detidos deve ter grades. Isso é claro como a luz do sol, estamos sendo transportados de acordo com os regulamentos. De fato, estamos atrás de grades perfeitas, então tudo certo. Em segundo lugar: de acordo com o imperial e real decreto complementar de 21 de novembro de 1879, todos os vagões de detidos devem ter um mictório. Caso contrário, o vagão tem de estar provido de um recipiente coberto destinado às necessidades fisiológicas, grandes e pequenas, dos detidos e da escolta que os acompanha. No nosso caso, não podemos dizer, de nenhuma maneira, que estamos em um vagão de detidos com mictório. Estamos em um compartimento reservado, isolados do resto do mundo. E não temos aqui nem um penico...
— Vocês podem fazer pela janela — sugeriu o cabo, tomado pelo desespero. — O senhor está se esquecendo de que os presos não podem se aproximar
da janela — disse Švejk.
— E, em terceiro lugar, tem de haver um recipiente com água potável —
continuou o voluntário. — O senhor também não cuidou disso. A propósito! Sabe em que estação o rancho será distribuído? Não sabe? Já imaginava que não tinha se informado...
— O senhor está vendo, cabo — observou Švejk —, que transportar
prisioneiros não é nenhuma brincadeira. Tem que se preocupar conosco. Não somos soldados comuns que cuidam de si mesmos. Temos que ser servidos, existem decretos e cláusulas que devem ser obedecidos para que a ordem prevaleça. “Um preso é como uma criança envolta em cobertas”, dizia um conhecido vagabundo, “é preciso cuidar dela para que não pegue um resfriado, não se aborreça e fique feliz com sua sorte e, sobretudo, evitar que nada de ruim lhe aconteça”. De qualquer modo — disse Švejk, olhando para o cabo amistosamente —, avise-me às onze, por gentileza.
O cabo dirigiu um olhar inquisidor a Švejk. — Provavelmente está querendo me perguntar por que tem de me avisar às
onze — disse Švejk com ênfase e continuou, com voz solene. — Porque a partir das onze horas, senhor cabo, passarei a pertencer ao vagão de carga. O conselho de guerra me condenou a três dias de prisão, que terminarão às onze horas de hoje. Às onze terei que ser libertado, não terei mais nada a fazer aqui. Nenhum soldado dever ficar trancafiado por mais tempo do que lhe cabe, porque no exército devem imperar a disciplina e a ordem, senhor cabo.
Depois de receber este golpe, o cabo levou um bom tempo para se recuperar,
até que, finalmente, objetou que não recebera nenhum documento.
— Prezado senhor cabo — manifestou-se o voluntário —, os papéis não
vêm sozinhos ao chefe da escolta. Como a montanha não vai a Maomé, o chefe da escolta tem que ir buscá-los pessoalmente. O senhor está agora diante de uma nova situação. Definitivamente, o senhor não pode reter ninguém que deva ser libertado. Por outro lado, de acordo com as normas vigentes, ninguém pode abandonar o vagão reservado aos militares detidos. Na verdade, não sei como vai sair desta enrascada. As coisas estão ficando cada vez mais complicadas. E já são dez e meia.
O voluntário voltou a guardar o relógio no bolso. — Estou muito interessado em saber, prezado cabo, o que o senhor fará
dentro de meia hora.
— Daqui a meia hora eu estarei no vagão de carga — repetiu Švejk com ar
sonhador.
O cabo, absolutamente arrasado e atrapalhado, dirigiu-se a ele: — Se não tiver nada contra, creio que aqui está mais confortável do que no
vagão de carga. Penso que...
Foi interrompido pelo grito do capelão adormecido: “Mais molho!” — Durma, durma — disse Švejk bondosamente, enquanto lhe colocava sob
a cabeça uma ponta do casaco, que estava caindo do banco. — Continue sonhando com comilanças.
E o voluntário começou a cantar:
Durma, menino, durma,
Feche seus olhinhos.
Deus dormirá com você,
Os anjinhos balançam seu bercinho.
Durma, menino, durma.
O cabo, desesperado, não reagia mais a nada. Observava com apatia a
paisagem e permitiu que o caos tomasse conta do compartimento dos detidos.
Os soldados da escolta brincavam de sardinha e as lambadas ágeis e pesadas
atingiam suas nádegas. Quando o cabo se virou, percebeu que um soldado da infantaria estava olhando para seu traseiro; suspirou e se virou de novo para a janela.
O voluntário ficou pensando em alguma coisa durante algum tempo e depois
se dirigiu ao oficial deprimido:
— O senhor conhece a revista O mundo animal? — Quem assinava essa revista — respondeu o cabo com uma expressão de
alegria ao ver que a conversa mudava de rumo — era o taverneiro da minha aldeia, porque era apaixonado por cabras angorás e todas que tinha morreram. Por isso pediu conselhos à revista.
— Queridos amigos — disse o voluntário —, a história que vou lhes contar
demonstrará, claramente, que ninguém está livre de cometer erros. Estou convencido, senhores, de que até aqueles que estão lá atrás pararão de brincar de sardinha porque o que vou lhes contar agora será muito interessante, até mesmo pelo fato de que não entenderão algumas expressões técnicas. Vou lhes contar uma história sobre O mundo
animal34 que fará com que esqueçamos nossas trapalhadas bélicas.
“O fato de ter conseguido ser redator da revista O mundo animal foi para
mim um grande mistério, até que cheguei à conclusão de que só poderia ter aceitado aquele trabalho em um estado de absoluto desequilíbrio ao qual me levara a afetuosa amizade que sentia por mim meu velho amigo Hájek. Até então ele dirigira a revista com dedicação, mas se apaixonou pela filha do proprietário, o senhor Fuchs, que o expulsou na hora e além disso o obrigou a indicar um redator que fosse decente. Como estão vendo, naquela época as relações laborais eram bem surpreendentes.
“Depois de Hájek ter me apresentado, o dono da revista me recebeu com
extrema amabilidade e perguntou se tinha alguma ideia sobre animais. Ficou muito feliz quando lhe respondi que ‘sempre os respeitara muito e que os considerava uma etapa da transição ao homem, que sempre havia respeitado seus desejos e anseios, sobretudo no que se referia a sua proteção. Os animais querem apenas morrer da maneira menos dolorosa possível antes de serem devorados. A carpa, desde que nasce, tem a ideia fixa de que não é bonito que a cozinheira a destripe enquanto ainda se debate. O procedimento de cortar o pescoço dos frangos é aconselhado pela Sociedade Protetora dos Animais, em sua tentativa de evitar que sejam degolados por mãos inexperientes. A posição retorcida de alguns pescados feitos na chapa demonstra que no momento de morrer protestam contra o fato de serem fritos vivos na margarina em Podolí. Encurralar um peru...’
“Então me interrompeu e me perguntou se eu conhecia a fundo a criação de
aves, cachorros, coelhos e abelhas, se sabia recortar fotos de revistas estrangeiras para reproduzi-las, traduzir artigos sobre animais, se sabia me orientar no manual de zoologia de Brehm e se saberia redigir, usando-o, artigos de fundo sobre a vida dos animais, levando em conta as festividades católicas; se poderia escrever sobre a mudança das estações, sobre as corridas de cavalos, as caçadas, o adestramento de cães policiais, sobre festas nacionais e eclesiásticas. Em resumo, se tinha uma visão jornalística da situação e se saberia usá-la para redigir um breve editorial, ao mesmo tempo conciso e denso.
“Declarei que havia refletido muito sobre a melhor maneira de dirigir uma
revista como O mundo animal, que era capaz de assumir todas as suas seções, porque dominava perfeitamente os temas mencionados e que meu maior anseio era levar a revista a tiragens insuspeitas, reorganizá-la quanto à forma e ao conteúdo.
“Que queria criar novas seções, como ‘O alegre rincão dos animais’ ou então
‘ Os animais falam sobre animais’, levando sempre em consideração a situação política.
“Que tentaria oferecer aos leitores uma surpresa atrás da outra para que
permanecessem em constante expectativa. Disse que a coluna ‘O dia dos animais’ tinha que se alternar com um ‘Novo programa para resolver a questão dos animais domésticos’ e ‘O movimento dos bovinos’.
“Interrompeu-me de novo e me disse que tudo o que acabara de lhe dizer já
era suficiente e que se conseguisse cumprir apenas a metade do que estava prometendo me daria de presente um par de galinhas anãs da raça wyandotte, que na última exposição de Berlim haviam obtido o primeiro prêmio e pelas quais seu dono recebera uma medalha de ouro como recompensa pelo ótimo cruzamento obtido.
“Posso dizer que me esforcei muito para levar a cabo meu programa na
revista. Até descobri que meus artigos superavam minha capacidade.
“Como queria oferecer ao público algo completamente inaudito, inventava
novos animais. Parti do princípio de que o elefante, o tigre, o leão, o macaco, a toupeira, o cavalo, o porco etc., eram conhecidos havia muito tempo pelos leitores. Portanto era necessário surpreendê-los com algo singular, com novas descobertas. Experimentei a baleia de ventre sulfúrico. Esta nova espécie de baleia era do tamanho de um bacalhau e sua vesícula era cheia de ácido fórmico e tinha uma cloaca especial, de onde saía um ácido venenoso que mais tarde um sábio inglês, não recordo seu nome, chamou de ácido balênico; com esse ácido, a baleia de ventre sulfúrico salpicava os peixes pequenos para depois devorá-los. A gordura da baleia já era conhecida no mundo inteiro, mas o novo ácido balênico chamou a atenção de alguns leitores que se interessaram pelo nome da empresa que o fabricava.
“Posso lhes assegurar que os leitores da O mundo animal são muito
curiosos.
“Logo depois da baleia de ventre sulfúrico inventei uma série de outros
animais. Citarei alguns: o astuto cervo-marinho, um mamífero da família dos cangurus; o touro comestível, um antepassado da vaca; o vibrião sépia, que defini como uma espécie de rato de esgoto.
“Meus novos animais se multiplicavam a cada dia. Eu mesmo estava surpreso
com meus êxitos naquela especialidade. Nunca teria imaginado que fosse necessário ampliar tanto o reino animal e que Brehm em seu livro A vida dos animais tivesse ignorado tantos. O que Brehm e todos os seus discípulos sabiam do meu morcego da Islândia, ‘o morcego distante’, sobre meu gato dos cumes do Kilimanjaro, conhecido como ‘gato cervino excitável’?
“Os biólogos da época tinham alguma ideia a respeito do ‘percevejo do
engenheiro Kuhn’, que encontrei no âmbar e que era completamente cego porque vivia sobre uma toupeira pré-histórica que também era cega porque sua bisavó havia copulado, segundo escrevi, com um percevejo subterrâneo cego das cavernas da Postumia, que naqueles tempos chegavam até o atual mar Báltico?
“Aquele episódio de pouca importância desatou uma grande polêmica entre
os jornais Čas e Čech,35 porque este último, em uma nota onde citava meu artigo, declarou: ‘O que Deus fez, bem-feito está.’ Como era de se esperar, o Čas, partindo de premissas puramente realistas, fulminou meu percevejo e o respeitável Čech ao mesmo tempo e, a partir desse momento, pareceu que minha boa estrela de inventor e descobridor de novas criaturas me abandonara. Os assinantes de O mundo animal começaram a se inquietar.
“O motivo da inquietação foram algumas de minhas breves notícias sobre a
apicultura e a avicultura nas quais havia desenvolvido minhas teorias, que provocaram um verdadeiro pânico, porque meus conselhos, bastante simples, tiveram como consequência que o conhecido apicultor Pazourek tivesse um derrame e que fosse extinta a apicultura na Šumava e em Podkrkoniši, no norte da Boêmia. Houve uma epidemia avícola. Em síntese, todos os animais começaram a morrer. Os assinantes começaram a escrever cartas ameaçadoras e a rejeitar a revista.
“Então comecei a me concentrar nos pássaros que vivem em liberdade, e
ainda hoje recordo a polêmica que se armou com o deputado clerical Josef M. Kadlčák, redator-chefe da revista Panorama rural.
“Recortei da revista inglesa Country Life a fotografia de um pássaro pousado
sobre uma nogueira e o chamei de ave da nogueira, da mesma maneira que, logicamente, não teria hesitado em chamar de ave do zimbro um pássaro pousado sobre um zimbro, o qual, inclusive, poderia ter chamado de ave fêmea do zimbro.
“E sabem o que aconteceu? O senhor Kadlčák me mandou um bilhete no
qual me atacava, dizendo que aquele pássaro não era nenhum tipo de ave da nogueira e sim um gaio normal e comum, e que o termo ‘ave da nogueira’ era uma tradução da palavra alemã Eichelhäher — gaio.
“Enviei-lhe uma carta expondo toda minha teoria sobre a ave da nogueira,
misturando alguns insultos e citações de Brehm que eu mesmo inventei.
“O deputado Kadlčák me respondeu no Panorama rural com um editorial. “Meu chefe, o senhor Fuchs, estava como sempre sentado em um café,
mergulhado na leitura dos jornais provinciais, nos quais ultimamente procurava as reações provocadas pelos meus interessantíssimos artigos de O mundo animal. Quando cheguei, me apontou o Panorama rural deitado na mesa enquanto me olhava com a tristeza que ultimamente não abandonava seus olhos.
“Li em voz alta diante de todos os clientes do café:
“‘Prezado diretor,
“‘Devo chamar sua atenção para o fato de que sua revista introduz uma
terminologia pouco habitual e injustificada, não dá suficiente atenção à pureza da língua tcheca e inventa animais. Por exemplo: em lugar do antigo nome “Gaio”, de uso corrente, seu redator introduz o termo “ave da nogueira”, que se baseia na tradução do alemão Eichelhäher, ou seja, gaio.
“‘Gaio!’ — repetiu o dono da revista, desesperadamente, depois de mim.’ “Continuei lendo tranquilamente:
“‘Recebi então uma carta de seu redator, uma carta grosseira e impertinente, na qual me tratava de burro ignorante, algo que merece um castigo exemplar. Não é assim que pessoas educadas respondem a questões de caráter científico. Gostaria de saber quem de nós é mais burro. Talvez não devesse ter enviado um bilhete e sim uma carta, mas devido ao excesso de trabalho não dei atenção a uma minudência como essa; agora, não obstante, depois do ataque grosseiro de seu redator de O mundo animal, penso em desmascará-lo publicamente.
Seu redator se equivoca de cabo a rabo ao me tratar de animal ignorante
que não sabe o nome desse ou daquele pássaro. Faz anos que me ocupo da ornitologia e não me baseio apenas em livros, mas em estudos feitos na natureza e no fato de que tenho mais pássaros na gaiola do que seu redator jamais viu em toda sua vida, e com mais motivo ainda porque deve se tratar de um homem que nunca sai dos botequins de Praga.
Mas isto é de somenos importância, embora não fosse excessivo querer
que seu redator se certificasse primeiro da identidade da pessoa que ele qualifica de estúpida antes que esta palavra saísse de sua pena, mesmo que seja dirigida a uma pequena aldeia da Morávia onde sua revista tinha assinantes antes do artigo em questão.
No entanto, não se trata agora de manter uma polêmica com um louco,
mas de um assunto concreto, e por isso repito que é inadmissível inventar
nomes traduzidos enquanto existirem termos conhecidos em nossa língua, como gaio.
“‘Sim, gaio’ — disse meu chefe em um tom de voz ainda mais desesperado
do que antes.
“Continuei lendo com toda a calma do mundo, sem deixar que me
interrompessem:
‘É uma infâmia que pessoas incompetentes e mal-educadas se permitam fazer esse tipo de coisa. Alguém ouviu um gaio ser chamado de ave da nogueira? Na obra Nossos pássaros, página 148, está presente a denominação latina Garrulus glandarius B. E é como se chama meu pássaro — gaio. O redator de sua revista certamente admitirá que conheço meu pássaro melhor do que alguém que não é especialista. Segundo o doutor Bayer, a ave da nogueira se chama Mucifraga carycatectes B., e este B não é a inicial da palavra bobão como escreveu seu redator. Além disso, os ornitólogos tchecos conhecem apenas o gaio e não sua ave da nogueira, que inventou o senhor ao qual, sim, se pode aplicar o significado que em sua teoria tem a inicial B. Seu vil ataque não mudará em nada a realidade das coisas.
O gaio continuará sendo gaio por mais que o redator de sua revista
tenha perdido o norte. Isto só demonstra com que atrevimento e quão levianamente escreve e o descaramento com que cita Brehm. O desavergonhado escreve que, segundo Brehm, página 452, onde se trata do picanço comum ou pássaro insetívoro (Lanius minor L.), o gaio pertence à família dos crocodilos. Depois, o ignorante, para usar um eufemismo, volta a inventar uma citação de Brehm dizendo que o gaio pertence à décima quinta família dos corvos, enquanto Brehm situa os corvos na décima sétima, à qual também pertencem os corvos, mas do gênero gralha. Seu redator é tão atrevido que me chama de gralha (Colaeus), corvo azul, subgrupo dos bobos ineptos, embora nessa página se fale do gaio do bosque e da matraca...
‘ Gaio do bosque’ — suspirou o dono da revista, levando as mãos à cabeça.
— ‘Me dê isso, que eu termino de ler.’
“Assustei-me porque sua voz soava rouca enquanto lia: ‘O colibri e o melro
turco continuam sendo o que são, da mesma maneira que um tordo será sempre um tordo.’ O tordo deveria ser chamado de ave do zimbro — observei — porque se alimenta de zimbro.
“O senhor Fuchs jogou a revista na mesa e, proferindo com voz rouca as
últimas palavras que havia lido, se enfiou debaixo da mesa de bilhar. ‘Tordo, colibri. Não existe nenhum gaio!’ — berrava de debaixo da mesa de bilhar. — ‘Cuidado, senhores, eu mordo!’
“Ao final o tiraram dali e ao cabo de três dias morreu vítima de uma
inflamação cerebral, cercado por sua família. Suas últimas palavras em um momento de lucidez foram: ‘Não se trata de meu interesse pessoal, mas do bem da comunidade. Desse ponto de vista, façam o favor de aceitar minha opinião, tão objetivamente como...’ — e soluçou.”
O voluntário fez uma pausa e depois disse, maliciosamente: — Com isto só queria dizer que todo mundo pode se ver em uma situação
delicada e pode se equivocar.
De tudo aquilo o cabo só entendeu que havia se equivocado e por isso se
virou de novo para a janela e começou a olhar, de maneira sombria, a paisagem que deixavam para trás.
Os homens da escolta ficaram se entreolhando de uma maneira estúpida. A narrativa despertou um grande interesse em Švejk e por isso o bom
soldado começou a contar outra história:
— No mundo nada permanece em segredo. Tudo vem à tona, como vocês
ouviram. Nem um vulgar gaio se deixa confundir com uma ave da nogueira. É mesmo bem interessante saber que alguém pode se deixar enganar por algo assim. Mas inventar animais é muito mais difícil. Uma vez em Praga, um tal de Mestek descobriu uma sereia e a expôs na rua Havlíček, em Vinohrady, atrás de uma cortina. Havia feito um buraco através do qual todo mundo podia ver um sofá normal, comum, e nele, estirada, uma mulher de Žižkov. Tinha as pernas envoltas em uma gaze verde que representava a cauda, havia tingido os cabelos de verde e usava luvas também verdes nas quais costurara nadadeiras de cartolina verde. Haviam amarrado um leme em suas costas. Os menores de dezesseis anos não tinham acesso. Os maiores de dezesseis que haviam comprado a entrada estavam felizes porque a sereia tinha uma bunda enorme sobre a qual havia a inscrição: “Até a vista!”
“Os seios não eram nada do outro mundo. Pendiam-lhe até o umbigo como
os de uma prostituta cansada da vida. Às sete o senhor Mestek fechou o teatro e lhe disse: ‘ Sereia, já pode ir para casa.’ Ela se trocou e às dez foi vista passeando pela rua Tábor, dirigindo-se discretamente a todos os homens que encontrava: ‘Olá, meu lindo, não quer se divertir um pouco comigo?’ Como não tinha nenhum documento, o senhor Drašner a prendeu em uma blitz junto com outras senhoritas da mesma profissão e Mestek perdeu seu negócio.”
Naquele momento, o capelão caiu do banco e continuou dormindo no chão.
O cabo ficou por um momento observando-o boquiaberto e depois, no meio de um silêncio sepulcral e sem que os demais o ajudassem, levantou-o e o colocou de novo no banco. Era evidente que havia perdido toda a autoridade, pois quando disse, desesperado, em voz baixa: “Vocês poderiam me ajudar um pouco!”, todos os soldados da escolta o olharam fixamente e não moveram nem um músculo.
— Deveria tê-lo deixado roncando onde estava — disse Švejk —, eu com
meu capelão nunca fiz diferente. Uma vez deixei-o dormir na latrina, outra ficou dormindo em cima de um armário, também na tina de lavar roupa de outra casa e Deus sabe em mais quantos lugares roncou.
O cabo teve um repentino ataque de determinação. Quis demonstrar que ele
era o único que mandava e por isso disse bruscamente:
— Cale-se, pare de dizer besteiras! É típico dos ordenanças falar sem parar.
Você é um percevejo!
— Sim, naturalmente, e o senhor é Deus, cabo — respondeu Švejk com a
serenidade de um filósofo que luta pela paz sobre a Terra e para consegui-la se envolve em ardorosas polêmicas. — O senhor é a Nossa Senhora das Sete Dores.
— Meu Deus do céu — exclamou o voluntário juntando as mãos —, encha
nosso coração de amor por todos os oficiais para que possamos olhá-los sem aversão. Benza nossa convivência neste calabouço sobre rodas!
O cabo ficou vermelho e deu um pulo:
— Eu o proíbo de fazer qualquer comentário, voluntário. — Não é culpa sua — continuou o voluntário em um tom tranquilizador. —
A natureza negou inteligência aos animais de muitas famílias e espécies. Ouviu falar alguma vez da estupidez humana? Não teria sido melhor se o senhor tivesse nascido como membro de outra espécie de mamíferos e não tivesse que carregar o estúpido nome de homem e de cabo? Se acha que é o ser mais perfeito e evoluído de todos, está redondamente enganado. Se lhe arrancassem os galões, o senhor seria um zero à esquerda, nem um pouco interessante, como os que morrem a tiros em todas as trincheiras de todos os fronts. Se lhe derem outro galão e o transformarem em um animal chamado primeiro-cabo, tampouco ganhará qualquer coisa. Seu horizonte se estreitará ainda mais, e quando deixar seus ossos culturalmente atrofiados repousarem em paz em algum campo de batalha, em toda a Europa não será encontrado ninguém que se disponha a chorar pelo senhor.