As Aventuras do Bom Soldado Švejk
14 - Švejk como ordenança do tenente Lukáš
14
Š vejk como ordenança do tenente Lukáš
1
A felicidade de Švejk não durou muito. O destino cruel rompeu suas relações amistosas com o capelão militar. Se até aquele momento o sacerdote havia sido um personagem simpático, o que fez mais tarde lhe arrancou pela raiz a máscara da simpatia.
O capelão vendeu Švejk ao tenente Lukáš ou, melhor dizendo, perdeu-o
jogando baralho. Era assim que se vendiam antigamente servos na Rússia. Tudo aconteceu sem aviso prévio.
Na casa do tenente Lukáš, se reuniu um grupinho de pessoas que pertenciam
à fina flor do exército para jogar vinte e um. O capelão perdeu tudo e no final disse:
— Quanto você me emprestaria pelo meu ordenança? É um grande imbecil,
mas uma figura interessante, um non plus ultra. O senhor nunca teve um ordenança semelhante.
— Posso lhe emprestar cem coroas — ofereceu o tenente Lukáš. — Se não
devolvê-las até amanhã, o senhor me manda essa raridade. Meu ordenança é uma pessoa repulsiva. Vive suspirando e escrevendo cartas para casa e, ao mesmo tempo, rouba tudo o que vê pela frente. Dou-lhe uns tapas sempre que o encontro, mas não serve para nada. Quebrei-lhe dois dentes da frente, mas não se corrigiu.
— Então está valendo — disse o capelão sem pensar duas vezes —, depois
de amanhã cem coroas ou Švejk.
Acabou perdendo até as cem coroas e foi para casa muito triste. Sabia com
absoluta certeza que não conseguiria as cem coroas até o dia seguinte e que por isso acabara de vender Švejk de uma maneira vergonhosa e mesquinha.
“Poderia ter pedido duzentas coroas”, lamentou-se, mas, ao pegar o bonde
elétrico que o deixaria em um instante em casa, foi acometido por um ataque de remorso e sentimentalismo.
“Não foi bonito da minha parte”, pensou, quando tocou a campainha de seu
apartamento. “Como conseguirei encarar agora seus olhos idiotas e bondosos?”
— Querido Švejk — disse ao entrar em casa —, hoje me aconteceu uma
coisa incomum. Tive muito azar com as cartas. Apostei tudo e recebi um ás, depois tirei um dez e o sujeito que estava com a banca tirou um valete e somou vinte e um antes de mim. Tirei várias vezes um ás e um dez, mas sempre empatei com a banca. Perdi todo meu dinheiro.
Fez uma pausa.
— E acabei perdendo você. Pedi cem coroas emprestadas dando você como
garantia e se não devolvê-las até depois de amanhã você não pertencerá mais a mim e sim ao tenente Lukáš. Lamento muito, mesmo...
— Ainda tenho cem coroas — disse Švejk. — Posso emprestá-las ao senhor. — Passe-as para cá — animou-se o capelão —, irei devolvê-las
imediatamente ao Lukáš. Não gostaria, acredite, de me despedir de você.
Lukáš ficou bastante surpreso ao ver que o capelão havia voltado. — Vim lhe pagar a dívida — disse o capelão com ar vitorioso, olhando em
volta. — Também quero cartas.
— Ora! — exclamou o capelão quando chegou sua vez. — Por um triz —
disse —; passei.
— Ora! — disse depois da segunda rodada. — Ora, ora, nada... — Quem fez vinte ganha — anunciou o banqueiro. — Tenho dezenove — disse o capelão em voz baixa, entregando à banca as
últimas quarenta coroas das cem que Švejk lhe emprestara para se livrar de sua nova escravidão.
O capelão voltou para casa convencido de que tudo terminara, de que nada
poderia salvar Švejk, que estava escrito de antemão que deveria servir ao tenente Lukáš.
E quando Švejk abriu a porta, lhe disse: — Foi tudo em vão, Švejk. Ninguém pode fugir do destino. Perdi você e as
suas cem coroas. Fiz tudo o que estava ao meu alcance, mas o destino foi mais forte do que eu. Atirei-o nas garras do tenente Lukáš e logo teremos que nos despedir.
— Havia muito dinheiro na banca? — perguntou Švejk sem perder a calma.
— Teve azar? Quando a carta não vem, é péssimo, mas às vezes é muito pior quando as coisas estão indo bem. Em Zderaz vivia um funileiro, um tal de Vejvoda, que sempre jogava mariáš em uma taverna que fica atrás do Café Stoletý. Um belo dia, o diabo soprou em seu ouvido: “O que você acha de jogarmos uma partida de vinte e um a cinco cêntimos?” Então começaram a jogar vinte e um a cinco cêntimos e ele ficou com a banca. Como todos passaram, a banca dobrou a aposta. O velho Vejvoda queria porque queria ajudar os outros, mas vocês não imaginam o tamanho do seu azar. Mesmo quando tirava cartas baixas, nunca eram menores do que as dos outros. A banca foi aumentando sem parar e de repente somava cem coroas. Nenhum dos jogadores tinha dinheiro suficiente para desafiar. Vejvoda suava em bicas. Um depois do outro foram acrescentando dez coroas e todos se deram mal. Um limpador de chaminés se irritou e foi buscar mais dinheiro em casa. Vejvoda queria abandonar o jogo e, como confessou mais tarde, fez de tudo para perder, mas nada. Sempre recebia cartas melhores. Sempre ganhava. Isso não é azar? Já estava completamente pálido. Infeliz. E, embora fosse o mais honesto dos jogadores da face da Terra, todos a seu redor começaram a xingar e a sussurrar que estava trapaceando, que uma vez levara uma surra por ter blefado. Assim, pois, foram depositando coroa após coroa. Já estavam ali quinhentas coroas. O taverneiro não conseguiu aguentar mais. Foi buscar o dinheiro que separara para pagar à companhia de cerveja, se sentou à mesa com o resto e empurrou para a frente duzentas coroas e depois mais duzentas. Então fechou os olhos, girou a cadeira para que lhe trouxesse boa sorte e disse, se balançando, que apostava tudo. “Joguemos com as cartas abertas”, sugeriu. O velho Vejvoda teria dado qualquer coisa para perder. Todos estranharam quando, ao virar a carta, surgiu um sete, que ele guardou. O taverneiro ria sob os bigodes, porque tinha vinte e um. O velho Vejvoda tirou outro sete e também o guardou. “Agora virá um ás ou um dez”, disse o taverneiro com ironia, “e eu aposto meu pescoço, senhor Vejvoda, que vai perder tudo de uma vez”. Fez-se um silêncio sepulcral, Vejvoda virou a carta e apareceu um terceiro sete. Empate, vitória da banca. O taverneiro ficou branco como giz, pois aquele era seu último dinheiro. Levantou-se e foi para a cozinha. Depois de um tempo, apareceu correndo um menino que era seu aprendiz pedindo que fossem cortar a corda do senhor taverneiro, que se pendurara na janela. De maneira que fomos procurá-lo, fizemos com que voltasse a si e continuamos jogando. Ninguém tinha mais nenhum tostão, todo o dinheiro estava na banca diante de Vejvoda, que só ganhava e juro por Deus que a única coisa que queria era se lascar, mas, como tinha que virar suas cartas e colocá-las na mesa, não podia fazer nenhuma artimanha e perder de propósito. Todos já estavam bobos com sua sorte, e como não lhes restava dinheiro resolveram apostar notas promissórias. Aquilo já durava horas e diante do velho Vejvoda se acumulavam milhares e milhares de coroas. O limpador de chaminé já estava devendo à banca mais de um milhão e meio, um carvoeiro de Zderaz mais ou menos um milhão, o porteiro do Café Stoletý oitocentas mil coroas, um médico mais de dois milhões. O velho Vejvoda tentou perder de todas as maneiras. Ia sem parar ao banheiro e cada vez deixava as cartas com uma pessoa diferente, para que ganhasse em seu lugar, e quando voltava lhe diziam que ganhara, que fizera vinte e um. Mandaram buscar um novo baralho, mas não adiantou. Quando Vejvoda tirava quinze, o outro tinha catorze. Todos olhavam furiosamente para o velho Vejvoda e quem mais protestava era um pedreiro que só perdera oito coroas. Aquele sujeito disse para quem quisesse ouvir que um homem como Vejvoda não deveria andar pelo mundo, que deveria levar uns pontapés, ser atirado na rua e afogado como se fosse um cachorro. Não é possível imaginar o desespero do velho Vejvoda. Finalmente, teve uma ideia. “Vou ao banheiro”, disse ao limpador de chaminé, “jogue por mim”. E tal como estava, sem chapéu nem nada, saiu do estabelecimento e foi correndo à rua Myslíkova chamar a polícia. Encontrou uma patrulha e denunciou que na taverna estavam jogando jogos de azar. Os guardas lhe pediram que fosse na frente e que depois o seguiriam. Vejvoda voltou e, ao chegar, lhe disseram que naquele meio-tempo o médico havia perdido mais de dois milhões, e o porteiro, mais de três; que tinham acabado de colocar quinhentas mil coroas em promissórias na mesa. Depois de um tempo, chegaram os policiais. O pedreiro gritou: “Salve-se quem puder”, mas isso não adiantou de nada. Confiscaram a banca e levaram todos para a delegacia. O carvoeiro de Zderaz resistiu, e por isso o levaram em um carro. Na banca havia mais de meio bilhão em promissórias e mil e quinhentas coroas em dinheiro vivo. “Nunca vi uma coisa dessas”, disse o inspetor de polícia ao ver aquela montanha de dinheiro, “isso é pior que Monte Carlo!”. Todos, salvo o velho Vejvoda, ficaram ali até a manhã seguinte. No que diz respeito a Vejvoda, o deixaram livre porque denunciara a jogatina e lhe prometeram que, como recompensa, receberia, como era legalmente previsto, um terço do dinheiro confiscado, ou seja, que lhe caberiam mais de cento e sessenta milhões. No entanto, antes do amanhecer acabou perdendo a cabeça e ficou correndo por toda Praga encomendando dúzias de caixas-fortes. É isso que se chama ter sorte nas cartas.
Então Švejk foi preparar um grogue. No entanto, quando, à noite, foi
obrigado a fazer um grande esforço para enfiar o capelão na cama, este se desfez em lágrimas e gemeu:
— Eu vendi você, meu companheiro, vendi-o vergonhosamente. Maldiga-
me, me bata, eu aguento. Eu lhe dei o tiro de misericórdia. Não posso nem olhá-lo nos olhos. Arranhe-me, morda-me, destrua-me. Não mereço nada melhor. Sabe o que sou?
E o capelão, escondendo o rosto empapado de lágrimas no travesseiro, disse
com voz suave, doce, terna:
— Sou um miserável sem caráter.
E adormeceu como uma pedra.
No dia seguinte, o capelão, evitando o olhar de Švejk, saiu de manhã cedo e
só voltou tarde da noite, acompanhado por um gordo soldado de infantaria.
— Mostre-lhe onde está cada coisa, Švejk — disse o capelão, sem parar de
evitar o olhar de Švejk —, para que possa se orientar. E também lhe ensine a preparar o grogue. Amanhã de manhã apresente-se ao tenente Lukáš.
Švejk e o novo ordenança passaram uma noite agradável preparando grogue.
Ao alvorecer, o gordo soldado de infantaria mal se sustentava em pé e não fazia nada além de cantarolar uma estranha confusão de canções populares:
Em volta de Chodov corre um riacho,
Minha amada lá serve cerveja vermelha.
Montanha, montanha, você é alta,
As meninas foram para a estrada,
Na Bílá Hora o camponês lavra.
— Não estou preocupado com você — disse Švejk —, com este talento você
ficará com o capelão por muito tempo.
Poucas horas depois, o tenente Lukáš viu pela primeira vez o rosto leal e
sincero do bom soldado Švejk, que o saudava.
— Humildemente, senhor tenente. Sou aquele Švejk que o senhor capelão
perdeu jogando cartas.
2
A instituição dos escudeiros militares é de origem muito antiga. Ao que parece, Alexandre Magno já tinha um escudeiro. Não há dúvida de que, na época do feudalismo, os escudeiros dos cavaleiros desempenhavam este papel. O que Sancho Pança era para Dom Quixote? Acho estranho que, até agora, ninguém tenha escrito a história dos escudeiros militares. Ficaríamos sabendo que, durante o assédio a Toledo, o duque de Almavira, faminto, comeu seu escudeiro literalmente, sem sal, como ele mesmo descreveu em suas memórias: disse que a carne de seu escudeiro era tenra, macia e suave, com sabor entre o do frango e o do asno.
Encontramos, em um velho livro bávaro sobre a arte militar, instruções para
os escudeiros. O escudeiro dos tempos antigos tinha que ser piedoso, virtuoso, honrado, modesto e trabalhador. Em poucas palavras, devia ser um homem exemplar. Os tempos modernos mudaram notavelmente esse protótipo. O escudeiro de nossa época não costuma ser piedoso nem virtuoso nem honrado. Mente, engana seu amo e não poucas vezes transforma sua existência em um verdadeiro inferno. É um escravo muito esperto, que inventa os truques mais infames com o objetivo de levar seu amo ao caminho da amargura.
Na nova geração de escudeiros, é absolutamente impossível encontrar jovens
abnegados a ponto de se deixarem devorar sem sal por seus amos, como procedeu o nobre Fernando, o escudeiro do duque de Almavira. Por outro lado, vemos que os amos de nossa época travam uma batalha de vida e morte com seus escudeiros e recorrem a qualquer meio para fazer prevalecer sua autoridade. Esta costuma consistir de uma espécie de domínio do terror. Em 1912, em Graz, correu um processo em que o protagonista era um capitão que matara seu escudeiro a pontapés; foi absolvido, pois consideraram que se tratava apenas da segunda reincidência. De acordo com o imaginário daqueles senhores, a vida de um escudeiro não tem o menor valor. O escudeiro não passa de um objeto, ou melhor, de um saco de pancadas a serviço de seu senhor, um escravo, um criado que deve estar disposto a fazer qualquer coisa. Assim, pois, não nos surpreende que essa situação exigisse que o escudeiro recorresse à astúcia. Sua posição em nosso planeta só é comparável à dos sofrimentos dos escudeiros dos tempos antigos, adestrados a pancada e tortura.
Há casos, também, em que o escudeiro se torna o favorito e então se
transforma no terror da companhia e do batalhão. Todos tentam suborná-lo. É ele quem decide sobre as folgas, é ele quem pode interceder para que reine a harmonia.
Conheci alguns deles no 91º Regimento. Um escudeiro foi condecorado
com a grande medalha de prata porque sabia preparar maravilhosamente os gansos que roubava. Outro foi recompensado com a pequena medalha de prata porque lhe enviavam de casa enormes quantidades de pacotes com provisões maravilhosas, e por isso, em uma época de extrema penúria, seu amo se fartava de tal maneira que não conseguia dar um único passo. Então redigiu, mais tarde, uma sugestão para que fosse condecorado no seguinte estilo:
“Por ter dado provas de coragem e audácia pouco comuns nos combates e ter
exposto sua vida para resgatar seu oficial sob o poderoso fogo do inimigo que avançava.”
Enquanto isso, o indicado para a condecoração saqueava galinheiros sabe-se
lá onde. A guerra alterou as relações entre os escudeiros e seus amos e transformou o escudeiro no ser mais odiado da tropa. O escudeiro recebia uma lata de conserva inteira, enquanto os demais tinham que dividi-la por cinco. Seu cantil estava sempre cheio de rum ou de conhaque. O indivíduo em questão passava o dia mastigando chocolate e biscoitos da provisão dos oficiais, fumando cigarros de seu amo, não fazia, durante horas e horas, nada além de cozinhar, e usava uma túnica adicional.
O escudeiro tinha estreitas relações com os ordenanças e lhes dava boa parte
dos restos de sua mesa e de todos os privilégios de que desfrutava. Na verdade, tratava-se de um triunvirato do qual fazia parte o sargento intendente. Como este trio vivia em contato direto com o oficial, as operações e os planos de guerra não eram nenhum segredo para seus membros.
O pelotão mais bem informado era sempre aquele cujo cabo era amigo do
escudeiro do oficial.
Quando aquele dizia: “Partiremos às 2h35!”, então às 2h35 em ponto os
soldados austríacos começavam a se distanciar dos inimigos.
O escudeiro tinha relações bastante íntimas com o pessoal da cantina do
exército, ficava perambulando muito à vontade em torno dos fogões e pedia pratos com se estivesse em um restaurante e tivesse diante dele um cardápio.
— Eu quero costela — dizia ao cozinheiro —, ontem você me serviu rabo.
E coloque um pouco de fígado na sopa, você sabe que não suporto baço.
O escudeiro tinha seus melhores momentos quando o pânico se instalava.
O escudeiro tinha seus melhores momentos quando o pânico se instalava.
Durante os bombardeios, seu coração penetrava em suas calças. Então se escondia atrás de sua bagagem e das malas de seu amo na zona mais protegida e enfiava a cabeça debaixo do cobertor para que as granadas não o atingissem e não desejava nada com tanto fervor como ver seu amo ferido para poder se retirar com ele para as trincheiras, a um lugar bem fundo embaixo da terra.
Cultivava o pânico de maneira sistemática, sempre com um ar misterioso.
“Tenho a impressão de que estão desmontando o telefone”, dizia confidencialmente aos soldados. E ficava feliz quando podia dizer: “Já foi desmontado.”
Ninguém gostava tanto de bater em retirada como ele. Nesses momentos,
esquecia-se de que acima de sua cabeça silvavam granadas e estilhaços: ele, com a bagagem nas costas, dirigia-se intrepidamente ao estado-maior, onde os destacamentos estavam posicionados. Ficava feliz quando as tropas do exército austríaco aceitavam levá-lo. No pior dos casos, recorria aos veículos de duas rodas dos serviços sanitários. Quando se via obrigado a ir a pé, parecia o mais infeliz dos homens. Nestes casos, deixava a bagagem de seu amo na trincheira e arrastava apenas os próprios pertences.
No entanto, quando acontecia de o amo escapar antes de ser preso, o
escudeiro jamais se esquecia de levar a bagagem de seu superior à prisão, pois mais tarde as malas se transformavam em sua propriedade; agarrava-se a elas com toda sua alma.
Certa vez vi o escudeiro de um oficial que fora capturado; caminhou com os
demais de Dubno a Dárnice, atrás de Kiev. Além de sua mochila e da de seu superior, que fugira para não ser preso, carregava cinco malinhas de diferentes tamanhos, dois cobertores e um travesseiro, além de uma trouxa na cabeça. Dizia que os cossacos lhe haviam roubado um par de malas.
Jamais esquecerei aquele homem, que fora capaz de arrastar aquela porção de
trastes através de toda a Ucrânia. Parecia um caminhão de mudanças com pernas e até hoje não consigo entender como foi capaz de percorrer tantas centenas de quilômetros com todos aqueles volumes e levá-los mais tarde ao campo de concentração de Tashkent, no Uzbequistão, sempre vigiando as malas com o corpo e a alma, para acabar morrendo no meio da bagagem em consequência de um tifo maculoso.
Hoje em dia, os escudeiros se espalham por toda nossa república, relatando
seus feitos heroicos: foram eles que assaltaram Sokal, Dubno, Niš e Piave. Cada um deles é Napoleão: “Fui eu quem disse ao nosso coronel para telefonar ao Estado-Maior e dissesse que já podia atacar.”
A maioria dos escudeiros é de reacionários, e os soldados os odiavam.
Alguns eram delatores e tinham um prazer especial quando viam alguém amarrado.
Chegaram a formar uma casta própria. Seu egoísmo não conhecia limites.
3
O tenente Lukáš era um exemplo típico de oficial ativo da decadente monarquia austríaca. A escola de cadetes conseguira transformá-lo em uma espécie de anfíbio, um agente duplo. Em sociedade falava em alemão, escrevia em alemão, mas lia livros tchecos, e na época em que ensinava na escola de voluntários de um ano, todos tchecos, dizia confidencialmente: “Sejamos tchecos, mas ninguém precisa saber disso. Eu também sou tcheco.”
Para ele, ser tcheco era como pertencer a uma espécie de organização secreta
da qual era melhor manter distância.
Afora isso, era um bom sujeito. Não temia os superiores e, durante as
manobras, preocupava-se com seus soldados, como é devido e correto. Sempre encontrava para eles um lugar confortável nos celeiros e, frequentemente, comprava com parte de seu modesto soldo um barril de cerveja para eles.
Durante a marcha, gostava que os soldados cantassem. Também tinham que
cantar tanto ao ir como ao voltar dos exercícios. E ele, caminhando ao lado de companhia, cantava com eles:
Quando chegou a meia-noite negra
Do saco pulou toda a aveia.
Tataratá! Bum!
Os soldados gostavam dele; era um dos poucos oficiais justos e não
costumava perseguir ninguém.
Os suboficiais tremiam diante dele e em apenas um mês o sargento mais
cruel passava a ser o mais manso dos cordeirinhos.
Sabia, é verdade, gritar, mas nunca insultava ninguém. Escolhia as palavras e
as frases: “Veja, rapaz”, dizia, “não gosto mesmo de castigá-lo, mas não tenho outro remédio porque a capacidade e a bravura do exército dependem da disciplina, e sem disciplina o exército é como uma folha de relva à mercê do vento. Quando seu uniforme não está em ordem, quando os botões não estão bem costurados ou falta algum, é sinal de que você se esqueceu das obrigações que tem perante o exército. É provável que ache incompreensível ter de ir para o calabouço pelo simples fato de que ontem, durante a revista, lhe faltasse um botão da camisa, uma coisa tão fútil, tão insignificante, um detalhe que quando se está à paisana passa absolutamente despercebido. E, no entanto, este desleixo em relação a seu aspecto pode, no exército, significar uma falta séria que requer um castigo. E por quê? Porque não se trata apenas do fato de lhe faltar um botão, mas que aqui você tem de se habituar à ordem. Hoje não prega um botão e começa a ficar preguiçoso. Amanhã pode achar incômodo desmontar um fuzil para limpá-lo, depois de amanhã pode esquecer sua baioneta em uma taverna e, por fim, adormecerá quando estiver de serviço, porque começou, com o infeliz botão, a levar uma vida negligente. Assim é, jovem, e por isso lhe imponho um castigo para evitar outra pena mais grave por coisas que poderia cometer se, pouco a pouco, se acostumasse a se descuidar de suas obrigações. Farei com que o encerrem durante cinco dias e gostaria que nesse tempo, e enquanto estiver a pão e água, reflita e se dê conta de que um castigo não é nenhuma vingança, mas um meio didático cujo objetivo é corrigir e aperfeiçoar o soldado castigado.”
Devia ter sido promovido a capitão há muito tempo; sua prudência em
relação à questão nacional não lhe serviu de nada; tratava seus superiores sem papas na língua e não era nem um pouco subserviente.
Estes traços de seu caráter recordavam o temperamento dos camponeses do
sul da Boêmia; ali Lukáš havia nascido, em uma pequena aldeia no meio de florestas frondosas e de lagos.
No entanto, se era justo com os soldados e não os torturava, seu caráter
exibia um traço curioso: odiava seus ordenanças porque sempre tivera a desgraça de ter a seu serviço os mais insuportáveis, os mais pérfidos.
Tinha por hábito esbofeteá-los em uma inútil tentativa de corrigi-los e
deixava claro que não os considerava soldados. Passara muitos anos brigando inutilmente com eles, sempre tinha novos ordenanças e invariavelmente acabava suspirando: “Outro estúpido infame!” Considerava seus ordenanças uma espécie de seres inferiores.
No entanto, gostava muito de animais. Tinha um canário de Harz, um gato
angorá e um pinscher. Todos os ordenanças de Lukáš, que viviam sendo substituídos, não tratavam aqueles animais de uma maneira pior do que aquela com que eles mesmos eram tratados quando armavam alguma confusão.
Mataram o canário de fome, um escudeiro havia arrancado um olho do gato
e todos eles surravam o pinscher sempre que o encontravam. O predecessor imediato de Š vejk levou o pobre animal ao bairro de Pankrác, ao peleteiro, e chegou a ponto de pagar dez coroas de seu próprio bolso para que o matassem. Quando tudo terminou, comunicou ao tenente, simplesmente, que o cachorro havia escapado durante o passeio; no dia seguinte, o mentiroso marchou com a tropa para o campo de exercícios.
Quando Švejk foi se apresentar a Lukáš como seu novo ordenança, o tenente
o fez entrar na sala e lhe disse:
— O capelão Katz o recomendou e espero que você não o envergonhe. Eu já
tive uma dúzia de ordenanças e nenhum durou muito aqui. Advirto-o de que sou uma pessoa severa, que castiga com rigor qualquer farsa ou mentira. Quero que sempre me diga a verdade e que cumpra todas as minhas ordens sem resmungar. Se lhe disser: “Atire-se no fogo!”, então se atire no fogo, mesmo que não queira. Para onde está olhando?
Švejk olhava com grande interesse para a parede onde estava pendurada a
gaiola do canário. Ao ouvir aquela pergunta, apoiou seus olhos bondosos no tenente e respondeu com seu tom naturalmente amável:
— Humildemente, senhor tenente, ali está um canário de Harz. Ao interromper dessa forma o discurso caudaloso do tenente, Švejk se
manteve em posição de sentido, sem nem piscar, olhando-o diretamente nos olhos.
O tenente queria dizer algo contundente, mas ao ver a expressão inocente do
rosto de Švejk limitou-se a comentar:
— O senhor capelão, ao recomendá-lo, disse que era um grande idiota e
vejo que não estava equivocado.
— Humildemente, senhor, o nobre capelão certamente não estava
equivocado. Fui dispensado do serviço militar como idiota; para ser mais exato, como notório idiota. Expulsaram dois sujeitos do regimento por este mesmo motivo, eu e o capitão Von Kaunitz. Aquele homem, meu tenente, se me permite, quando andava pela rua enfiava o tempo todo um dedo da mão esquerda no buraco esquerdo do nariz e um dedo da mão direita no buraco direito, e, quando nos levava ao campo de exercícios, sempre nos fazia formar como em um desfile e nos dizia: “Soldados, eh... Lembrem-se, eh... Hoje é quarta-feira, eh... e por isso amanhã será quinta-feira.”
O tenente Lukáš encolheu os ombros como uma pessoa que não encontra
palavras para dizer certas coisas.
Ia da porta até a janela da frente e voltava, passando ao lado de Švejk.
Conforme o lugar onde estivesse, Švejk “olhava à direita” ou “olhava à esquerda”, com uma expressão de tão absoluta e evidente inocência que o tenente abaixou os olhos para o tapete e disse uma coisa que não tinha nenhuma relação com o comentário de Švejk sobre o capitão idiota:
— Sim, aqui devem imperar a ordem e a limpeza, e ninguém pode mentir.
Gosto da honradez. Odeio a mentira e castigo-a sem piedade, você entendeu bem?
— Humildemente, senhor tenente, entendi. Não há nada pior do que
quando uma pessoa mente. Quando você começa a se enrolar, está perdido. Em uma aldeia perto de Pelhřimov havia um professor, um tal de Marek, que andava com a filha do guarda-florestal Špera, e este o fez saber que, se voltasse a ir com a garota à floresta, quando o encontrasse dispararia com o fuzil em sua bunda cerdas misturadas com sal. O professor lhe mandou uma mensagem dizendo que aquilo não era verdade, mas, uma vez, quando estava esperando a filha do guarda, este o descobriu e já se dispunha a realizar a operação prometida quando o professor se desculpou dizendo que estava colhendo flores, depois que estava procurando algum tipo de inseto e assim foi se enredando e enredando até que jurou e perjurou, tão assustado estava, que havia ido colocar armadilhas para as lebres. De modo que o bom guarda-florestal o agarrou e levou-o à delegacia, dali foi ao tribunal e quase trancafiaram o professor no cárcere. Se tivesse dito a pura verdade, só teria sido atingido por tiros de cerdas com sal. Na minha opinião, o melhor é dizer sempre a verdade, ser franco, e, quando aprontar alguma coisa, confessá-la sem rodeios: “Humildemente informo que fiz essa e aquela coisa.” No que diz respeito à honradez, é sempre uma coisa muito bonita, porque com ela a pessoa vai longe. É como nas corridas de marcha atlética: quando você começa a fazer trapaças e se põe a correr, é desqualificado. Isso aconteceu com meu primo. Uma pessoa honesta é respeitada em todos os lugares, considerada, e pode ficar satisfeita consigo mesma, sentir-se renascida, e, quando se enfia na cama, pensar com alegria: “Hoje fui honesto mais uma vez.”
Fazia tempo que o tenente Lukáš estava sentado em uma cadeira, olhando
para as botas de Švejk e se dizendo: “Meu Deus, a verdade é que eu também muitas vezes falo pelos cotovelos e digo barbaridades; a única diferença é a forma que uso para me expressar.”
No entanto, como não queria perder a autoridade, disse, quando Švejk
terminou:
— Na minha casa você deve limpar seus sapatos, manter o uniforme em
ordem, ter todos os botões pregados apropriadamente; em síntese, dar a impressão de que é um soldado e não um civil miserável. É curioso que nenhum de vocês saiba se comportar como um militar. De todos os meus ordenanças, só um tinha aspecto guerreiro, mas esse mesmo sujeito acabou me roubando o uniforme de gala e o vendeu no bairro judeu.
Fez uma pausa e retomou seu discurso, continuando a informar a Švejk a
respeito de todas as suas obrigações; insistiu, sobretudo, que devia ser fiel e não comentar nunca, em nenhum lugar, nada a respeito do que acontecia em sua casa.
— Recebo mulheres — acrescentou — e, se na manhã seguinte não estiver
— Recebo mulheres — acrescentou — e, se na manhã seguinte não estiver
de serviço, pode acontecer de alguma ficar aqui para dormir. Nestes casos, você, quando ouvir tocar a campainha, nos levará o café na cama. Entendeu?
— Humildemente, senhor, entendi. É claro que se me aproximasse da cama
de repente, a dama poderia se sentir um pouco desconfortável. Uma vez uma senhorita me acompanhou à minha casa e minha empregada nos levou o café na cama no exato momento em que estávamos tendo uma ótima conversa. A empregada se assustou, derramou o café nas minhas costas e ainda disse: “Que Deus lhe dê um bom dia!” Sei como devemos nos comportar quando uma senhora passa a noite em nossa casa.
— Ótimo, Švejk. Com as senhoras devemos nos comportar com um tato
extraordinário — disse o tenente, que ficara de excelente humor porque estavam tratando de seu tema favorito, o da atividade que preenchia todo o tempo que lhe restava livre depois do quartel, do campo de exercícios e das mesas de carteado.
As mulheres eram a alma de seu apartamento. Haviam-no transformado em
um verdadeiro lar. Conhecia dúzias delas, e muitas haviam tentado decorá-lo, durante sua permanência, com pequenos bricabraques.
A mulher do dono de um café, que passara duas semanas inteiras na casa de
Lukáš esperando que seu marido fosse buscá-la, bordou uma bela toalha de mesa, colocou monogramas em toda sua roupa de baixo e talvez tivesse bordado um tapete de parede se seu marido não tivesse estragado o idílio.
Uma dama, cujos pais foram buscá-la depois de três semanas, tentou
transformar o quarto do tenente em um boudoir, e espalhou por todos os cantos todo tipo de objetos extravagantes, pequenos vasos de flores e coisas parecidas, e em cima da cama pendurou um pequeno quadro que representava o anjo da guarda.
Em todos os cantos do quarto e da sala de jantar se percebia sinais da mão
feminina, que chegara até a cozinha, onde se podia apreciar uma coleção inteira de apetrechos e utensílios culinários, presentes magníficos da esposa de um industrial muito apaixonada que, além de sua paixão, lhe dera uma máquina de cortar verduras e repolho, outra de fatiar pão, um moedor de fígado, panelas, assadeiras, frigideiras, colheres de pau e só Deus sabe mais o quê.
No entanto, depois de uma semana aquela senhora abandonou Lukáš porque
não podia aceitar a ideia de que tivesse, além dela, cerca de vinte amantes, coisa que deixava algumas marcas no desempenho do nobre macho uniformizado.
O tenente Lukáš também mantinha uma ampla correspondência; tinha um
álbum de suas amantes e uma coleção de todo tipo de relíquias, consequência da pronunciada inclinação ao fetichismo que começara a se revelar nos últimos dois anos. Possuía algumas ligas de senhora, quatro preciosas calcinhas bordadas, três camisolas finas, lenços de seda, um corpete e algumas meias.
— Hoje estou de serviço — disse —, só voltarei à noite. Tome conta da casa
e deixe tudo organizado. Meu último ordenança partiu para o front com o batalhão hoje mesmo, por culpa de suas vilanias.
Ainda deu algumas instruções a respeito do canário e do gato angorá e
partiu, não sem antes dizer, parado na porta, algumas palavras sobre a honestidade e a ordem.
Depois que partiu, Švejk arrumou a casa muito bem, de maneira que,
quando o tenente Lukáš voltou já de noite, pôde lhe dizer:
— Humildemente, senhor tenente, está tudo em ordem. A única coisa que
aconteceu foi que o gato fez uma travessura: comeu seu canário.
— O quê? — trovejou o tenente.
— Humildemente, senhor tenente, aconteceu da seguinte maneira: eu já sabia
que os gatos não gostam de canários e que os maltratam. Então tentei fazer com que o felino e o pássaro se tornassem amigos e, se o gato tentasse fazer alguma sandice, eu lhe daria uma surra para que não esquecesse até a morte que deve respeitar os canários, porque gosto muito de animais. No meu prédio vive um chapeleiro; este senhor adestrou seu gato de tal maneira que, se antes havia comido três canários que lhe pertenciam, agora não come nenhum, mesmo que se sente em cima dele. Assim, eu também quis experimentar e tirei o canário da gaiola para que o gato o cheirasse, mas ele, macacos, mordeu-lhe a cabeça antes que eu pudesse reagir. Francamente, eu não esperava dele uma safadeza desse tipo. Se se tratasse, senhor tenente, de um vulgar pardal, eu nem estaria comentando nada, mas um canário tão bonito, e ainda por cima de Harz! E precisava ter visto como o devorava, com que avidez, com as penas e tudo, e como ronronava de prazer! Dizem que os gatos não têm educação musical e não conseguem suportar o canto dos canários, porque as bestas não entendem essa coisa de cantar. Já dei uma bronca no gato, mas machucá-lo... Não. Deus me livre! Não lhe fiz nada, esperei que o senhor voltasse e decidisse como vai castigar o maldito.
Enquanto contava isso, Švejk olhava os olhos do oficial com tanta inocência
que este, depois de ter se aproximado cheio de intenções maléficas, afastou-se, sentou-se em uma cadeira e perguntou:
— Ouça, Švejk, você é mesmo uma besta divina? — Humildemente, senhor tenente. Sou, sim! — respondeu Švejk,
triunfalmente. — Desde pequeno sou muito azarado. Sempre tento me consertar um pouco, fazer tudo de maneira correta, mas a única coisa que consigo é trazer problemas para mim e para todos os que estão à minha volta. Eu queria que esses dois se conhecessem, para que se entendessem, e não é culpa minha que o sacana tivesse engolido o outro e que as apresentações terminassem assim. Em uma casa chamada U Stupartu vive um gato que há alguns anos comeu um papagaio porque estava imitando seus miados. Os gatos têm sete vidas. Se me ordenar, senhor tenente, posso matá-lo, mas teria de fazê-lo esmagando-o na porta; de outra maneira, não terá fim.
E Švejk, com a cara mais inocente e o sorriso mais bondoso e afável do
mundo, relatou ao tenente como os gatos eram mortos; sua exposição teria sido capaz de mandar para uma casa de lunáticos todos os membros de qualquer entidade protetora de animais.
Nesse campo, revelou ter conhecimentos tão especializados que o tenente
Lukáš, esquecendo sua raiva, perguntou:
— Você sabe cuidar de animais? Tem sentimentos e amor pelos animais? — Eu prefiro os cachorros — disse Švejk —, porque são um negócio
lucrativo para quem sabe vendê-los. Eu não seria capaz de fazer uma coisa dessas, porque sempre fui honesto, mas mesmo assim sempre havia quem viesse atrás de mim me acusando de que eu lhe vendera um vira-lata em lugar de um cão saudável e de raça pura, como se todos os cachorros tivessem de ser saudáveis e de raça pura. E depois, como cada um queria saber a genealogia do cachorro, fui obrigado a mandar imprimir algumas árvores genealógicas e fiz passar mestiços nascidos em uma fábrica de tijolos de Košíře por nobres aristocratas de sangue puro do canil Armin von Barheim, da Bavária. E, na verdade, as pessoas ficavam felizes pelo fato de tudo ter dado certo e de terem em casa um cachorro puro-sangue. Podia lhes oferecer qualquer coisa. Por exemplo, um pomerano de Vršovice por um dachshund, e as pessoas só estranhavam como era possível que um cachorro tão raro, vindo da Alemanha, fosse tão peludo e não tivesse pernas tortas. Este procedimento é comum em todos os canis. O senhor precisa ver, tenente, as fraudes que são feitas nos grandes canis quando se trata da questão do pedigree. Existem, de fato, poucos cachorros que podem afirmar: “Sou um puro-sangue!” A mãe pode ter sido esquecida ao lado de um monstro, ou então a avó, ou pode ter tido mais de um pai e herdado um pouco de cada um. As orelhas de um, o rabo de outro, os pelos do focinho do terceiro, as patas e coxas do quarto e o tamanho do quinto. E se teve doze pais, então já se pode imaginar, senhor tenente, que aspecto deve ter. Uma vez comprei um cão chamado Balabán que, por ter uma infinidade de pais, era tão feio que todos os cachorros o evitavam. Eu o adquiri por compaixão, tamanha era a pena que sentia por ele. Em casa, costumava se sentar sempre em um cantinho, com o rabo entre as pernas, de modo que tive que vendê-lo como se fosse um pinscher. O que me deu mais trabalho foi tingi-lo, para ficar com cor de sal e pimenta. Então foi levado pelo dono à Morávia, e desde então nunca mais o vi.
O tenente começou a ficar muito interessado pela lição de cinologia e por
isso Švejk pôde continuar, sem problemas:
— Os cachorros não são capazes de tingir seus cabelos sozinhos, como
fazem as damas; essa é uma coisa que sempre cabe àqueles que os querem vender. Quando o cachorro é tão velho que já está todo grisalho, e mesmo assim você quer vendê-lo como se fosse um filhote de um ano ou se sua intenção é fazer um avô passar por um cachorro de nove meses, então precisa comprar um pouco de nitrato de prata, dissolvê-lo e tingir o pelo de preto até que pareça novo. E, para que fique forte, você precisa alimentá-lo com arsênico, como se fosse um cavalo, e limpar seus dentes com lixa de papel, aquela mesma que é usada para limpar facas enferrujadas. E, antes de levá-lo ao comprador, deve derramar em sua boca um pouco de slivovitz para que fique levemente embriagado. Aí ele fica esperto, alegre, late feliz e faz amizade com todo mundo, como os bêbados. Mas o mais importante é o seguinte, senhor tenente: para convencer o cliente, é preciso falar muito, mas muito, até deixá-lo mareado. Se alguém quer comprar um pinscher e você só dispõe de um cão de caça, precisa saber convencê-lo de tal maneira que leve o cão de caça; e se, por acaso, só dispuser de um pinscher e alguém vier comprar um cão alemão raivoso para que cumpra as funções de vigilância, você tem que deixá-lo tão abobalhado para que leve o pinscher no bolso no lugar do dogue alemão. Em outra época, quando eu fazia negócios com animais, uma vez apareceu uma senhora dizendo que seu papagaio escapara voando pelo jardim, onde uns meninos que brincavam de índio o haviam pegado, arrancado todas as penas de seu rabo e as colocado como enfeites na cabeça como nossos policiais. Como consequência, o papagaio adoecera de vergonha por não ter mais o rabo, e o veterinário lhe deu algumas pílulas e acabou com ele. A senhora quis comprar outro papagaio, mas um que fosse bem-educado, que não blasfemasse nem dissesse palavrões. O que eu podia fazer a respeito? No meu apartamento não havia nenhum papagaio nem sabia onde poderia conseguir um. Em casa havia apenas um buldogue raivoso, absolutamente cego. De maneira que, senhor tenente, tive de marear a senhora; falei das quatro da tarde às sete da noite até que comprou o buldogue cego no lugar do papagaio. Aquilo foi pior que uma reunião diplomática, e quando a senhora estava indo embora, lhe disse: “Vamos ver se agora esses safados se atrevem a arrancar o rabo do animal!” e não voltei a conversar com aquela senhora nunca mais, porque, por culpa do buldogue, teve que sair de Praga, porque o cachorro havia mordido todos os vizinhos do prédio. O senhor pode acreditar, tenente, que é muito difícil encontrar um bom animal?
— Eu gosto muito de cachorros — disse o tenente. — Alguns dos meus
amigos que estão no front têm cachorros com eles e me escreveram dizendo que em companhia de um animal fiel e devotado a guerra fica muito mais suportável. Estou vendo que você conhece bem todas as raças de cães e suponho que, se eu resolvesse ter um, você cuidaria dele, não é mesmo? Qual raça seria a mais adequada, em sua opinião? Penso mais em um cachorro que me fizesse companhia. Uma vez tive um pinscher, mas não sei...
— Eu acho, senhor, que o pinscher é um cachorro muito amável. Nem todo
mundo gosta dele, é claro, porque tem pelos e um bigode tão duro que parece o de um preso liberado. É tão feio que chega a ser bonito e ao mesmo tempo é inteligente. Um são-bernardo estúpido não pode ser comparado a ele. É ainda mais inteligente que um fox terrier. Conheci um...
O tenente Lukáš olhou o relógio e interrompeu a dissertação de Švejk. — É tarde, preciso dormir. Amanhã também estarei de serviço, de maneira
que você pode dedicar todo seu dia a procurar um pinscher para mim.
Foi dormir e Švejk se deitou no sofá da cozinha e pegou o jornal que o
tenente trouxera do quartel.
“Caramba!”, disse para si, lendo com interesse as notícias do dia. “O sultão
acaba de condecorar o Kaiser Wilhelm com a medalha de guerra, e eu, no entanto, não tenho nenhuma medalha, nem uma pequena, prateada.”
Pensou um pouco e deu um pulo:
“Quase ia me esquecendo...”
Entrou no quarto do tenente, que já dormia pesadamente, e o acordou: — Humildemente, senhor tenente, não recebi nenhuma ordem no que se
refere ao gato.
E o sonolento tenente Lukáš, no meio de um sonho, virou-se para o outro
lado e grunhiu:
— Três dias trancafiado no quartel! Retire-se.
E o gato angorá voltou a se encolher embaixo do sofá.
4
Š vejk estava prestes a sair para procurar um pinscher quando uma jovem dama tocou a campainha da porta dizendo que queria conversar com o tenente Lukáš. Ao seu lado estavam duas malas pesadas e Švejk ainda avistou na escada o quepe do porteiro descendo os degraus.
— Não está em casa — disse Švejk secamente, mas a jovem dama já entrara
— Não está em casa — disse Švejk secamente, mas a jovem dama já entrara
no vestíbulo e ordenou a Švejk com determinação:
— Leve as malas para o quarto.
— Sem a autorização do tenente não é possível — disse Švejk. — O senhor
tenente me ordenou que nunca faça nada sem consultá-lo.
— Você enlouqueceu! — exclamou a senhora. — Vim visitar o tenente! — Não sei absolutamente nada a respeito — respondeu Švejk. — O senhor
tenente está de serviço, só vai voltar à noite, e recebi ordens de ir procurar um pinscher. Não sei nada de nenhuma mala nem de nenhuma dama. Agora fecharei a porta e por isso lhe peço, amavelmente, para ir embora. Não me disseram nada e não posso deixar entrar nenhuma pessoa estranha, desconhecida. Isto me lembra aquela vez em que deixaram entrar um homem na casa do confeiteiro Bělčický, que morava na minha rua, e ele abriu o guarda-roupa e fugiu. Não tenho, assim, nenhum pensamento negativo a seu respeito — continuou Švejk, quando se deu conta de que a jovem dama começara a chorar e a se desesperar —, mas não pode ficar aqui, de forma nenhuma. Precisa entender que me confiaram todo o apartamento. Sou responsável por cada detalhe. E por isso lhe peço de novo, muito amavelmente, que não fique nervosa. Até que meu tenente me dê uma ordem, não posso reconhecer nem meu próprio irmão. Lamento de verdade ter de falar com a senhora dessa maneira, mas no exército deve haver ordem.
Entretanto, a jovem dama se recuperara um pouco. Tirou da bolsa um cartão
de visita, escreveu nele algumas linhas a lápis, enfiou-o em um envelope e disse com inquietação:
— Leve isso ao senhor tenente. Eu ficarei esperando aqui pela resposta. Aqui
estão cinco coroas para a viagem.
— Isso tampouco vai ajudá-la — respondeu Švejk, ofendido pela
intransigência da inesperada visitante. — Fique com suas cinco coroas, estão aqui na cadeira e, se quiser, venha comigo ao quartel e me espere lá. Eu entregarei seu bilhetinho e trarei uma resposta. Mas não poderá de nenhuma maneira ficar esperando aqui.
Depois dessas palavras, arrastou as malas até o vestíbulo e, fazendo as chaves
tilintarem como se fosse o porteiro de um castelo, gritou da porta em um tom significativo:
— Fechando!
A jovem dama foi para o corredor. Estava decepcionada. Švejk fechou a porta
e começou a caminhar na frente dela. A visitante o seguiu como um cachorrinho e só o alcançou quando Švejk entrou em uma tabacaria para comprar cigarros.
Depois passou a caminhar ao seu lado tentando entabular uma conversa: — Vai entregar mesmo o bilhete?
— Vou, como já lhe disse.
— E vai encontrar o senhor tenente?
— Isso eu não sei.
Caminharam um ao lado do outro em silêncio até que muito tempo depois a
mulher voltou a falar:
— Então o senhor acha que não vai encontrar o senhor tenente? — Não acho isso.
— E onde acha que poderia estar?
— Não sei.
E assim a conversa foi interrompida de novo por muito tempo, mas foi
retomada graças a uma nova pergunta da jovem dama:
— O senhor não perdeu o bilhete?
— Até agora não o perdi.
— Então vai entregá-lo ao senhor tenente?
— Vou.
— E vai encontrá-lo?
— Já lhe disse que não sei — respondeu Švejk. — Acho impressionante que
existam pessoas tão curiosas a ponto de ficarem perguntando sempre a mesma coisa. É como se eu parasse uma pessoa a cada duas no meio da rua e lhe perguntasse que dia é hoje.
Terminaram assim todas suas tentativas de se comunicar com Švejk, e o resto
do percurso até o quartel transcorreu no mais completo silêncio. Só quando chegaram ao edifício Švejk instou a jovem dama a esperar e começou a conversar sobre a guerra com os soldados que estavam no portão. Isso não deve ter agradado a jovem dama porque começou a andar nervosamente pela calçada com expressão triste, sobretudo quando viu que Švejk continuava seu discurso com uma expressão estúpida, semelhante a que talvez pudesse ter sido vista na fotografia que fora publicada certa vez em A Crônica da Guerra Mundial com o seguinte título: “O sucessor do trono austríaco conversa com dois aviadores abatidos por um aeroplano russo.”
Švejk sentou-se em um banco ao lado da porta e começou a contar que no
front dos Cárpatos os ataques do exército haviam fracassado, que o comandante de Přemyšl, o general Kusmanek, chegara a Kiev, que as tropas austríacas na Sérvia haviam deixado para trás onze bases de operação e que os sérvios não conseguiriam fugir por muito tempo de nossos soldados.
Depois começou a criticar as batalhas daquele momento e fez uma revelação
magnífica, como se tivesse descoberto uma nova aldeia espanhola, ao afirmar que uma divisão assediada por todos os flancos era obrigada a se render.
Quando já havia falado o suficiente, achou melhor ir para fora e dizer à
desesperada dama que voltaria em seguida, que não fosse a lugar nenhum, e subiu aos escritórios, onde encontrou o tenente Lukáš, que naquele exato momento estava explicando o diagrama de uma trincheira a um subtenente, reprovando-o por não saber desenhar nem entender nada de geometria.
— Olhe, isto tem que ser desenhado assim. Se devemos traçar uma linha
vertical sobre uma linha reta, temos que aproximá-la de tal maneira que forme com ela um ângulo reto. Você entendeu? Desta maneira orientará as trincheiras corretamente e não na direção dos inimigos. Você vai ficar a seiscentos metros de distância deles. Mas, da maneira como desenhou, leva nossa posição diretamente à linha inimiga, está perpendicularmente sobre o inimigo quando, na verdade, precisa de um ângulo aberto. É uma coisa simplíssima, você não acha?
O subtenente da reserva, que, na vida civil, era caixa de banco, olhava com
desespero para aqueles desenhos. A verdade é que não entendia nada e soltou um suspiro de alívio quando Švejk se aproximou do tenente:
— Humildemente, senhor. Uma dama lhe enviou esta carta e está esperando
uma resposta.
E, ao dizer isto, piscou um olho para o tenente, com uma expressão
E, ao dizer isto, piscou um olho para o tenente, com uma expressão
significativa e confidencial.
O conteúdo do bilhete, escrito em alemão, não causou uma impressão muito
boa ao tenente:
Leiber Heinrich!
Mein Mann verfolgt mich.
Ich mußt unbedingt bei Dir ein paar Tage gas-tieren. Dein Bursch ist ein grosses Misvieh. Ich
bin unglückclich.
Deine Katy
Ou, se fôssemos traduzi-lo para o tcheco:
Querido Jindřich,
Meu marido me persegue.
Preciso passar um par de dias em sua casa.
Seu escudeiro é um animal.
Estou muito infeliz.
Sua Katy
O tenente Lukáš suspirou, levou Švejk a uma sala vazia, fechou a porta e
começou a caminhar no meio das mesas. Quando, finalmente, parou ao lado de Švejk, disse:
— A dama escreveu que você é um animal. O que você fez com ela? — Não fiz nada, senhor, humildemente. Comportei-me de uma maneira
muito educada, mas ela queria se instalar imediatamente em seu apartamento. E como o senhor não me deu nenhuma ordem nesse sentido, não permiti que ficasse no apartamento. E ainda por cima chegou com duas malas, como se estivesse chegando em casa.
O tenente suspirou alto mais uma vez e Švejk o imitou. — O quê? — gritou o tenente, ameaçador.
— Humildemente, senhor, mas é uma história muito difícil. É como o que
aconteceu há dois anos na rua Vojtěšská: uma senhorita qualquer se mudou para a casa de um carpinteiro e ele não conseguiu tirá-la do apartamento e teve de asfixiá-la, a ela e a si mesmo, com gás, e assim acabou a brincadeira. As mulheres dão dor de cabeça. Eu consigo enxergá-las.
— É uma história muito difícil — o tenente repetiu as palavras de Švejk, e
nunca na vida dissera nada mais apropriado.
O querido Jindřich estava, certamente, em uma situação terrível. Uma
mulher perseguida pelo marido lhe fazia uma visita de alguns dias exatamente quando estava previsto que viesse vê-lo a senhora Micková, de Třeboň, para repetir, durante três dias, o que vinha lhe oferecendo regularmente quatro vezes ao ano quando ia fazer compras em Praga. Além disso, dali a dois dias receberia a visita de outra senhorita: depois de ter hesitado durante toda uma semana, ela por fim lhe prometera que se deixaria seduzir, porque dentro de um mês se casaria com um engenheiro.
O tenente estava sentado na mesa com a cabeça baixa, permanecia calado e
pensava, embora não lhe ocorresse nada. Finalmente, foi até a escrivaninha, pegou um envelope e escreveu em um formulário oficial:
Querida Katy! De serviço até às nove da noite. Chegarei às dez. Por favor, se sinta em minha casa como se estivesse na sua. No que diz respeito a Švejk, meu ordenança, já lhe dei ordens para que a atenda em tudo.
Seu Jindřich
— Entregue esta carta à gentil senhora — disse o tenente. — Ordeno-lhe
que se comporte com ela respeitosamente e com cortesia e que atenda a todos os seus desejos. Deve considerá-los uma ordem. Seja gentil e sirva-a com lealdade. Aqui tem cem coroas das quais me prestará contas, para o caso de mandá-lo buscar alguma coisa. Encomende almoço, jantar e todo o resto. Compre três garrafas de vinho e um maço de cigarros. Bem. Por enquanto, nada além disso. Pode ir, e repito de novo para o seu coração: você deve fazer por ela tudo o que ler em seus olhos.
A jovem dama havia perdido todas as esperanças de voltar a ver Švejk e por
isso ficou boquiaberta quando o viu sair do quartel e dirigir-se a ela exibindo uma carta.
Švejk saudou-a e entregou a carta, dizendo: — De acordo com as ordens do senhor tenente, amável senhora, devo tratá-
la com respeito e cortesia, servi-la honradamente e atender a qualquer desejo que avistar em seus olhos. Tenho de alimentá-la e comprar o que desejar. Recebi para isso do senhor tenente cem coroas, embora também deva comprar três garrafas de vinho e uma caixinha de cigarros Memfis.
Quando leu a carta, recuperou as energias, coisa que manifestou mandando
Š vejk ir buscar um fiacre. Quando este chegou, mandou que Švejk se sentasse na boleia, ao lado do cocheiro.
Foram para o apartamento, onde ela representou magnificamente o papel de
dona de casa. Švejk teve de levar as malas ao quarto e sacudir os tapetes no pátio. Ao ver uma pequena teia de aranha atrás do espelho, ficou muito irritada.
Tudo parecia demonstrar que a senhora tinha a intenção de permanecer
muito tempo naquela linha de combate a que chegara com extrema dificuldade.
Švejk suava. Quando acabou de bater os tapetes, ela lembrou que era
necessário tirar as cortinas e também batê-las. Em seguida, Švejk recebeu a ordem de lavar as janelas do quarto e da cozinha. Então começou a trocar os móveis de lugar, coisa que fazia com muito nervosismo. E quando Švejk arrastou os móveis de um canto a outro, não gostou e voltou a mudar tudo outra vez e a ensaiar novas combinações.
Revirou tudo no apartamento, deixando-o de cabeça para baixo, mas aos
poucos sua vontade de reorganizar o ninho foi se esgotando até que, por fim, parou de devastá-lo.
Tirou lençóis limpos do armário e ela mesma colocou as fronhas nos
Tirou lençóis limpos do armário e ela mesma colocou as fronhas nos
travesseiros e forrou o edredom. Notava-se que fazia aquilo sentindo amor pela cama, pois suas narinas tremiam suavemente.
Depois mandou Švejk buscar comida e vinho. E, antes que tivesse voltado,
colocou um vestido transparente que a tornava extraordinariamente atraente e sedutora.
No almoço, bebeu uma garrafa de vinho, fumou muitos Memfis e depois foi
se deitar na cama. Enquanto isso, Švejk saboreava na cozinha um pãozinho fornecido pelo exército que molhava em um cálice com alguma bebida doce.
— Švejk! — ouviu-se do dormitório. — Švejk! Švejk abriu a porta e viu a jovem dama no meio das almofadas em uma pose
sedutora.
— Entre!
Švejk aproximou-se da cama e então ela, com um sorriso peculiar, mediu de
cima a baixo seu corpo rechonchudo e suas coxas fortes.
Afastando para um lado o tecido fino que a envolvia e escondia tudo,
ordenou energicamente:
— Tire as botas e a calças! Mostre-se...
Foi assim que o bom soldado Švejk pôde comunicar o seguinte ao seu
tenente, quando este voltou da caserna:
— Humildemente, senhor tenente. Atendi a todos os desejos da senhora e a
servi honradamente, de acordo com suas ordens.
— Muito obrigado, Švejk — disse o tenente. — Foram muitos os desejos? — Talvez uns seis — respondeu Švejk. — Agora está dormindo exausta
depois da viagem. Fiz tudo o que vi em seus olhos.
5
Enquanto um sem-fim de soldados instalados nos bosques à beira do Dunajec e do Raab eram cobertos por uma chuva de granadas e a artilharia de grande calibre destroçava e enterrava tropas inteiras nos Cárpatos, enquanto nos horizontes de todos os campos de batalha resplandecia o fulgor das cidades e das aldeias incendiadas, o tenente Lukáš, acompanhado por Švejk, vivia, entediado, seu idílio com a dama que fugira do marido e agora representava o papel de dona de casa.
Quando a dama saiu para passear, o tenente Lukáš promoveu com Švejk um
conselho de guerra que tinha o objetivo de resolver como iriam se livrar dela.
— O melhor seria, senhor — disse Švejk —, que o marido do qual fugiu e
que a está procurando, segundo o senhor me disse que estava escrito na carta que lhe levei, ficasse sabendo onde está e viesse buscá-la. Poderíamos lhe enviar um telegrama dizendo que está hospedada em sua casa e que pode vir recolhê-la. No ano passado aconteceu uma coisa parecida em Všenory. Mas naquele caso foi a própria mulher quem enviou o telegrama a seu marido; ele foi buscá-la e estapeou os dois. Os dois eram civis; mas, neste caso, um civil não se atreveria a encarar um oficial. Afora isso, o senhor é completamente inocente porque não chamou ninguém, e quando a mulher fugiu do marido o fez por conta própria. O senhor vai ver que o telegrama fará um bom serviço. E no caso de ser trocado um par de tapas...
— Ele é um homem muito inteligente — interrompeu-o o tenente Lukáš. —
Eu o conheço, é atacadista de lúpulo. Preciso conversar com ele. Vou lhe mandar um telegrama.
O telegrama que enviou era áspero, burocrático: “O endereço atual de sua
esposa é...” e em seguida o endereço do apartamento do tenente Lukáš.
Foi assim que um belo dia a senhora Katy teve uma surpresa bastante
desagradável quando o comerciante de lúpulo atravessou precipitadamente a porta. Deu a impressão de ser uma pessoa inteligente, mas preocupada, quando a senhora Katy, não perdendo o controle naquele momento difícil, apresentou os dois senhores:
— Meu marido. O senhor tenente Lukáš. Não lhe ocorreu nada além disso.
— Sente-se, por favor, senhor Wendler — disse o tenente Lukáš com
amabilidade, ao mesmo tempo em que tirava a cigarreira do bolso. — Posso lhe oferecer um cigarro?
O inteligente comerciante de lúpulo pegou educadamente um cigarro,
acendeu-o e, puxando a fumaça pela boca, perguntou de maneira cortês:
— O senhor vai logo ao front, prezado tenente?
— Pedi para ser destinado ao 91º Regimento de Budějovice e certamente irei
para lá quando terminar de dar aulas na escola de voluntários de um ano. Precisamos de muitos oficiais e hoje em dia está acontecendo um fenômeno lamentável: os jovens que têm direito de se apresentar como voluntários não o fazem. Preferem ser vulgares soldados de infantaria ao invés de tentar serem cadetes.
— A guerra prejudicou muito o negócio do lúpulo, embora eu creia que
não poderá durar muito — observou o comerciante, olhando ora para sua esposa, ora para o tenente.
— Nossa situação é excelente — disse o tenente Lukáš. — Hoje ninguém
duvida de que a guerra acabará com a vitória das armas das potências centrais. A França, a Inglaterra e a Rússia são muito débeis se comparadas com o granítico bloco austro-turco-alemão. Bem, é verdade que sofremos pequenas derrotas em algumas frentes de batalha. Mas assim que rompermos o front russo entre os altos Cárpatos e o Dunajec central, não há dúvida de que os dias da guerra estarão contados. De qualquer maneira, os franceses estão ameaçados pela iminente perda de toda a França oriental e a entrada do exército alemão em Paris. É uma coisa inteiramente certa. Afora isso, nossas manobras na Sérvia prosseguem com grande êxito e o recuo de nossas tropas, que na verdade não passa de um movimento, tem sido interpretada de modo muito diferente daquele que exige o sangue-frio próprio de uma época bélica. Veremos o quanto antes que as manobras previstas para os campos de batalha do sul darão seus frutos. Por favor, veja isto...
O tenente Lukáš pegou, delicadamente, o comerciante de lúpulo pelos
ombros e o conduziu até o mapa do campo de batalha que estava pendurado na parede; apontando determinados pontos, explicou:
— Os Beskyds orientais são, para os nossos, uma excelente base de
operações. Como pode observar, nos setores do front dos Cárpatos temos excelentes pontos de apoio. Basta um ataque poderoso nesta linha e aí só pararemos quando chegarmos a Moscou. A guerra acabará antes do que imaginávamos.
— E a Turquia? — perguntou o comerciante de lúpulo, enquanto pensava
em como poderia abordar o tema que o levara àquele lugar.
— Os turcos se defendem bem — respondeu o tenente enquanto conduzia
seu interlocutor à mesa. — O bei Hali, presidente do parlamento turco, acaba de chegar a Viena com o bei Ali. O marechal Liman von Sanders foi nomeado comandante supremo do exército turco em Dardanelos. O paxá Goltz chegou a Berlim vindo de Constantinopla, e o paxá Enver, o vice-almirante paxá Usedon e o general paxá Dzevad foram condecorados por nosso imperador. É um número considerável de condecorações em tão pouco tempo.
Ficaram sentados por algum tempo um diante do outro sem dizer nada, até
que o tenente achou apropriado interromper a situação embaraçosa com as seguintes palavras:
— Quando chegou, senhor Wendler?
— Hoje de manhã.
— Fico muito feliz que tenha me encontrado em casa, porque à tarde vou
sempre ao quartel e à noite estou de serviço. Como a casa, de fato, está sempre vazia, pude oferecer hospitalidade à sua amável senhora. Durante sua estada em Praga ninguém a molestou. A nossa velha amizade...
O comerciante de lúpulo tossiu:
— Katy é com certeza uma mulher muito curiosa, senhor tenente. Receba
meus mais sinceros agradecimentos pelas atenções que lhe foram dispensadas. De repente lhe passou pela cabeça a ideia de vir a Praga, para, como disse, tratar dos nervos. Eu estava viajando, voltei e encontrei a casa vazia. Katy havia partido.
Tentando esboçar uma expressão que fosse a mais amável possível, ameaçou a
mulher com um dedo e lhe perguntou com um sorriso forçado:
— Você achou que, como eu estava viajando, você também tinha o direito de
viajar? Mas não lhe ocorreu...
Quando o tenente Lukáš viu que a conversa estava tomando um rumo
desagradável, voltou a levar o inteligente comerciante de lúpulo ao mapa do campo de batalha e, apontando alguns pontos sublinhados, disse:
— Esqueci-me de alertá-lo sobre uma particularidade muito interessante.
Preste atenção neste grande arco voltado para o sudoeste, onde a cadeia de montanhas forma uma grande cabeça de ponte. É para cá que está voltada a ofensiva dos aliados. Através da ocupação desta linha ferroviária que une a cabeça de ponte às linhas defensivas mais importantes do inimigo tem que ser interrompido o contato entre o flanco direito e o exército do norte sobre o Vístula. Ficou claro agora?
O comerciante de lúpulo respondeu que a coisa estava bastante clara e, como
era um homem naturalmente cuidadoso, temeu que o que dissera fosse interpretado como uma indireta e por isso voltou ao seu lugar e disse:
— Com a guerra, nosso lúpulo perdeu sua participação no mercado
externo. A França, a Inglaterra, a Rússia e os Bálcãs estão perdidos agora para o lúpulo. Ainda enviamos lúpulo para a Itália, mas temo que este país também acabe se envolvendo nessa confusão. No entanto, depois que tivermos vencido, seremos nós que ditaremos os preços das mercadorias.
— A Itália manterá uma neutralidade absoluta — consolou-o o tenente —,
ela...
— Então, por que não admite que está amarrada à Áustria, à Hungria e à
Alemanha pelo pacto da Tríplice Aliança? — exclamou bruscamente o comerciante de lúpulo, a quem naquele momento tudo subiu à cabeça: o lúpulo, a mulher e a guerra. — E eu que esperava que a Itália atacaria a França e a Sérvia! Deste modo a guerra acabaria. Meu lúpulo está apodrecendo nos armazéns; as vendas internas são desprezíveis, a exportação é nula e a Itália insiste em permanecer neutra. Por que a Itália renovou a Tríplice Aliança conosco em 1912? Onde está o ministro italiano de Assuntos Exteriores, o marquês de San Giuliano? O que faz esse senhor? Está dormindo ou o quê? Quer que lhe diga quais eram as minhas vendas antes da guerra e como estão agora?
“Não creia que não acompanho os acontecimentos” — continuou olhando
fixamente e com fúria para o tenente, que, calmamente, desenhava com a boca círculos de fumaça de cigarro que se entrelaçavam no ar antes de se desfazer, coisa que a senhora Katy acompanhava com grande interesse. — Por que os alemães recuaram até a fronteira se já estavam em Paris? Por que foram reiniciadas as batalhas violentas entre o Mosa e o Mosela? Você sabe que em Combres e em Woëvre, perto de Marche, foram queimadas três fábricas de cerveja para onde eu, a cada ano, enviava mais de quinhentas sacas de lúpulo? E que em Vosges foi incendiada a fábrica de cerveja Hartmansweiler e que, em Niederaspach, perto de Mülhausen, arrasaram outra? Para minha empresa, isso significa uma perda anual de mil e duzentas sacas de lúpulo. Os alemães e os belgas se enfrentaram seis vezes para tomar a fábrica de cerveja de Klosterhoek, o que significa a perda de outras trezentas e cinquenta sacas de lúpulo por ano.”
A agitação o impediu de continuar falando. Limitou-se a se levantar, se
aproximar da esposa e lhe dizer:
— Katy, você irá imediatamente comigo para casa. Vista-se. Todos estes
acontecimentos me deixam indignado — disse, por um momento usando um tom de desculpa: — Antes eu era uma pessoa bastante tranquila.
Quando Katy foi se vestir, o comerciante disse ao tenente em voz baixa: — Não é a primeira vez que age de modo semelhante. No ano passado,
fugiu com um professor suplente e os encontrei em Zagreb. Naquela ocasião assinei um contrato de seiscentas sacas de lúpulo com uma cervejaria local. Sim, sim, era nossa mina de ouro. Nosso lúpulo era exportado até para Constantinopla. Agora estou quase arruinado. Se o governo limitasse a produção local de cerveja, o golpe seria mortal.
E, enquanto acendia o cigarro que o tenente havia lhe oferecido, disse com
desespero:
— Varsóvia sozinha comprava 2.370 sacas. A maior fábrica de cerveja de lá
pertence aos agostinianos. Seu representante vinha me visitar todos os anos. É desesperador. Ainda bem que não tenho filhos.
Esta conclusão lógica sobre a visita anual do representante da cervejaria dos
agostinianos de Varsóvia levou o tenente a sorrir levemente; o comerciante de lúpulo percebeu e por isso seguiu em frente:
— As cervejarias húngaras de Sopron e de Gross-Kanisza compravam da
minha firma a cada ano aproximadamente mil sacas de lúpulo que depois levavam para Alexandria. Hoje não querem fazer nenhuma encomenda por culpa do bloqueio. Ofereço-lhes o lúpulo com um desconto de trinta por cento, mas não me pedem uma única saca. Estagnação, decadência, miséria e, ainda por cima, dores de cabeça familiares.
O comerciante de lúpulo fez uma pausa. A senhora Katy quebrou o silêncio,
pronta para ir embora:
— O que faremos com minhas malas?
— Virão buscá-las, Katy — disse tranquilamente o comerciante de lúpulo,
feliz pelo fato de que o assunto tivesse acabado sem nenhum drama ou uma cena desagradável. — Se você ainda quiser fazer algumas compras, nos resta algum tempo. O trem sai às duas e vinte.
O casal se despediu amistosamente do tenente e o comerciante de lúpulo
estava tão feliz por tudo ter terminado de uma maneira pacífica que, no vestíbulo, disse a Lukáš:
— Que Deus o livre, mas, se se ferir na guerra, venha a nossa casa, que nós
cuidaremos do senhor da melhor maneira possível.
Quando o tenente entrou no quarto onde a senhora Katy se vestira para a
viagem, encontrou na pia quatrocentas coroas e um cartão que dizia o seguinte:
Caro tenente!
O senhor não interveio a meu favor diante do gorila do meu marido, um imbecil de primeira linha. Permitiu que me levasse como se fosse um objeto que havia esquecido. Além disso, se permitiu fazer uma observação ao dizer que havia me oferecido sua hospitalidade. Espero não ter lhe dado despesas maiores que as quatrocentas coroas que lhe deixo e que peço que divida com seu escudeiro.
O tenente Lukáš ficou um tempo em pé com o cartão na mão e depois o
rasgou. Sorrindo, olhou para o dinheiro em cima da pia e, ao ver que a senhora, em sua agitação, esquecera um pente quando ajeitava o cabelo diante do espelho, pegou-o e o guardou no meio de suas relíquias fetichistas.
Švejk voltou à tarde. Fora buscar um pinscher para o tenente. — Švejk — disse o tenente —, você está com sorte. A senhora que estava
hospedada aqui em casa acaba de partir. Foi levada pelo marido. E por todos os serviços que você lhe prestou, deixou quatrocentas coroas em cima da pia. Você terá de lhe agradecer, ou melhor, terá de agradecer ao marido, porque o dinheiro que ela havia pegado para a viagem era dele. Vou lhe ditar a carta:
Prezado senhor:
Agradeço sinceramente as quatrocentas coroas que sua esposa me deu de presente pelos serviços que lhe prestei durante sua estada em Praga. Tudo o que fiz por ela foi feito com muito prazer, e por isso não posso aceitar esta quantia e devolvo-a ao senhor...
“Continue escrevendo, Švejk, por que está nervoso? Onde parei?” — Devolvo-a ao senhor — disse Švejk com voz trêmula e patética. — Então, pois: “Devolvo-a ao senhor manifestando-lhe minha mais
profunda estima. Beijando respeitosamente a mão de sua senhora, Josef Švejk, ordenança do tenente Lukáš.” Pronto?
— Humildemente, senhor, ainda falta a data.
— 20 de dezembro de 1914. E agora escreva o envelope, pegue as
quatrocentas coroas, leve-as ao correio e envie tudo a este endereço.
E o tenente Lukáš começou a assoviar alegremente uma ária da opereta A
viúva alegre.
— Mais uma coisa, Švejk — disse o tenente quando o soldado estava saindo
para ir ao correio. — Como está a história do cachorro?
— Tenho um em mente, meu tenente, um animal precioso, mas será difícil
consegui-lo. Espero poder trazê-lo amanhã. Morde...
6
O tenente Lukáš não ouviu a última frase, embora fosse a mais importante: “Morde, a besta morde tudo o que encontra pela frente!” — Švejk quis repeti-la, mas depois se disse: “E o que isso importa ao tenente? Quer um cachorro? Então o terá.”
Claro que não é uma coisa fácil dizer: “Traga-me um cachorro.” Os donos
costumam vigiar atentamente seus cães, e não precisa ser exatamente um puro-sangue. E mesmo os pobres vira-latas que só servem para aquecer os pés de uma velhinha também são adorados por seus donos, que não permitem que ninguém os machuque.
Um cachorro teme, por instinto, sobretudo quando é de raça, que um belo
dia possam afastá-lo de seu dono. Vive com a angústia permanente de que vai ser roubado. Um cachorro, por exemplo, se afasta de seu dono durante um passeio e nos primeiros momentos parece feliz, alegre. Brinca com outros cachorros, trepa de maneira imoral em cima deles e vice-versa, fareja as pedras do meio-fio, levanta a patinha em cada esquina e até para o cesto de batatas da comerciante, enfim, sente tanta alegria de viver e acha o mundo tão belo que até parece um menino que tivesse passado no ginásio.
Mas, de repente, começa a perceber que sua alegria está desaparecendo. Acha
que se perdeu. E é neste momento que sente pela primeira vez que está sendo invadido por um verdadeiro terror. Corre assustado pela rua, fareja, uiva, e, tomado por um desespero absoluto, enfia o rabo entre as pernas, joga as orelhas para trás e se lança pela rua de qualquer jeito, rumo ao desconhecido.
Se pudesse falar, gritaria: “Meu Deus do céu, alguém vai me roubar!” Vocês estiveram alguma vez em um canil e viram aquelas expressões
apavoradas dos cachorros? Todos foram roubados. A metrópole produziu uma espécie estranha de ladrões, que vive exclusivamente de roubar cachorros. Há um tipo de cachorrinhos de salão, anões, pinschers, que cabem no bolso de um casaco ou na manga de uma senhora, e assim são levados. Os dogues alemães raivosos que vigiam, enfurecidos, os chalés dos subúrbios são roubados à noite. O cão policial é roubado debaixo do próprio nariz do detetive. Você caminha com um cachorro amarrado, cortam a corda e começam a correr e você fica como um apalermado olhando a corda vazia. Cinquenta por cento dos cachorros que você encontra nas ruas mudaram de dono várias vezes e, frequentemente, ao cabo de alguns anos, você compra o próprio cachorro que um dia lhe roubaram quando passeava com ele. O maior perigo de serem roubados ameaça os cachorros quando são levados para fazer suas necessidades fisiológicas, pequenas ou grandes. A maioria se perde fazendo estas últimas. É por isso que todos os cachorros, quando estão ocupados, olham cautelosamente em torno deles.
Existem vários métodos de roubar cachorros. Diretamente, ao estilo de um
batedor de carteira, ou atraindo a pobre criatura para você. O cachorro é um animal fiel apenas nos livros escolares ou nos compêndios de história natural. Dê ao mais fiel dos cachorros uma linguiça de cavalo frita para farejar e pronto, está perdido: se esquece no mesmo instante do dono ao lado de quem caminha, dá a volta e passa a seguir você. De sua boca escorre saliva e, pressentindo o prazer que terá com o embutido, agita o rabo com animação e suas narinas tremem como as de um cavalo selvagem quando lhe levam uma égua.
No bairro da Malá Strana, perto da longa escadaria que leva ao castelo, há uma pequena cervejaria. Um dia estavam sentados ali, na penumbra, dois homens. Um era soldado, e o outro, civil. Conversavam em voz baixa, em um tom misterioso, inclinados um para o outro. Pareciam dois conspiradores da época da República de Veneza.
— Todos os dias às oito horas — disse o civil ao ouvido do soldado —, a
empregada o leva para passear na esquina da praça Havlíček com o parque. Mas o cachorro é uma besta má, morde tudo o que encontra. Não é possível acariciá-lo.
E, inclinando-se ainda mais para o soldado, sussurrou ao seu ouvido: — Não come nem linguiça.
— Nem mesmo frita?
— Nem frita.
Os dois cuspiram.
— O que a besta come, então?
— Só Deus sabe. Há cachorros que são mimados e paparicados como se
fossem um arcebispo.
O soldado e o civil brindaram e o civil continuou cochichando: — Uma vez, um pomerano preto que eu precisava para um canil de
Klamovka também não queria pegar a salsicha que eu lhe oferecia. Persegui-o durante três dias, até que não aguentei mais e perguntei à senhora que o levava para passear o que lhe dava de comer para que ficasse tão bonito. A senhora se sentiu elogiada e me disse que ele preferia costeletas. Então lhe comprei uma costeleta de vitela, pois acho que é a mais saborosa de todas. E sabe o que aconteceu? O cachorro nem a notou, porque a carne era de vitela e ele estava acostumado com a de porco. Então tive de comprar uma costeleta de porco. Deixei que a cheirasse e comecei a correr, e o cachorro atrás de mim. A senhora gritava: “Puntík, Puntík!”, mas onde estava o querido Puntík? Correu atrás da costeleta até a esquina, onde coloquei uma coleira em seu pescoço e no dia seguinte já estava no canil de Klamovka. Tinha um tufo de pelos brancos debaixo do pescoço, pintei-os de preto e ninguém o reconheceu. Mas todos os outros cachorros, e eram muitos, corriam atrás de linguiça de cavalo frita. O melhor que você pode fazer é perguntar para ela o que o cachorro gosta de comer. Você é soldado, tem boa aparência, e é provável que lhe diga. Eu já lhe perguntei, mas olhou para mim como se quisesse me perfurar e disse: “Não é da sua conta.” Além disso não é muito bonita, parece um macaco, mas aceitará conversar com um soldado.
— Você me garante que é um pinscher? Meu tenente não quer outro. — Um pinscher de primeira. Pimenta e sal, verdadeiramente puro-sangue,
tão verdadeiro como você se chama Švejk e eu, Blahník. Preciso saber o que come, assim o seduzirei e o trarei para você.
Os dois amigos voltaram a brindar. Antes da guerra, quando Švejk ainda
vivia do comércio de cachorros, Blahník era um de seus fornecedores. Era um homem experiente e diziam que comprava nos matadouros, por baixo do pano, cachorros suspeitos e os revendia. Uma vez tivera raiva e no Instituto Pasteur de Viena se sentia como se estivesse em casa. Agora considerava uma obrigação moral ajudar Švejk desinteressadamente. Conhecia todos os cachorros de toda Praga e arredores e por isso falava sussurrando para que o taverneiro não o reconhecesse: seis meses antes, havia levado da cervejaria um pequeno perdigueiro debaixo do casaco, ao qual deu leite de mamadeira para que o estúpido cachorro o tomasse pela mãe e não desse nem um pio dentro do casaco.
Por princípio, só roubava cachorros de raça pura e teria podido ser um
perito neste campo. Fornecia tanto a canis como a particulares, conforme calhava. Quando ia pela rua, os cachorros que um dia havia roubado grunhiam para saudá-lo e às vezes, quando se detinha diante de uma vitrina, um cachorro vingativo levantava a patinha e molhava suas calças.
No dia seguinte, às oito da manhã, o bom soldado Švejk foi visto na esquina da praça Havlíček com o parque. Esperava a empregada com o pinscher. Finalmente chegaram: um cachorro com pelo longo ao redor do focinho, peludo e com olhos pretos inteligentes passou correndo ao lado de Švejk. Estava alegre como todos os cachorros quando acabam de fazer suas necessidades e se apressava em se aproximar dos pássaros que faziam sua primeira refeição comendo excrementos de cavalo na rua.
Depois a empregada que cuidava dele passou ao lado de Švejk. Era uma
mulher mais velha, com o cabelo trançado no alto da cabeça. Assoviava para o cachorro e agitava com a mão a corrente e uma elegante varinha.
Švejk lhe dirigiu a palavra:
— Perdoe-me, senhorita. Pode me dizer como devo fazer para chegar ao
bairro de Žižkov?
A mulher parou e olhou-o como se quisesse perguntar se estava falando
sério, mas o rosto bonachão de Švejk convenceu-a de que aquele soldadinho queria mesmo ir a Žižkov. A expressão de seu rosto mudou e ela lhe disse como deveria fazer para chegar a Žižkov.
— Faz pouco tempo que me mudei para Praga — disse Švejk —, não sou
daqui, sou do interior. A senhora também não é de Praga?
— Sou de Vodňany.
— Então não estamos longe um do outro — observou Švejk. — Eu sou de
Protivín.
Os conhecimentos topográficos do sul da Boêmia, que Švejk adquirira
durante as manobras naquela região, inundaram o coração da mulher de simpatia compatriota.
— Então certamente conhece o açougueiro Peichar, o da praça de Protivín. — E como não iria conhecê-lo? É meu irmão. Lá todo mundo gosta dele —
disse Švejk —, porque é uma pessoa muito boa, muito prestativa, tem boa carne e entrega o peso correto.
— Você não é o filho do Jareš? — perguntou a empregada, que começava a
sentir que tinha afinidade com o desconhecido.
— Sou.
— E de qual Jareš, o de Krč, perto de Protivín, ou o de Ražice? — De Ražice.
— Ainda vende cerveja?
— Ainda.
— Mas já deve ter passado bem dos sessenta, não é mesmo? — Este ano, na primavera, completou sessenta e oito — respondeu Švejk
com calma. — Acaba de comprar um cachorro e está muito feliz. Carrega o cachorro no carro. É exatamente como aquele que está perseguindo os pássaros. Um cachorrinho muito bonito, muito simpático.
— É nosso — lhe disse sua nova conhecida. — Eu trabalho aqui, na casa do
coronel. Você não conhece nosso coronel?
— Sim, conheço, é muito inteligente. Em Budějovice também tínhamos um
coronel assim.
— Meu patrão é muito severo e quando disseram na última vez que fomos
surrados na Sérvia chegou furioso em casa, jogou todos os pratos no chão da cozinha e quis me demitir.
— Então o cachorrinho é seu! — interrompeu-a Švejk. — Pena que meu
tenente não possa nem ver cachorros. Eu gosto muito de cachorro.
Fez uma pausa e disse de repente:
— Nem todos os cachorros comem de tudo.
— Nosso Fox é muito temperamental. Durante um tempo não queria comer
nenhum tipo de carne, mas agora voltou.
— E o que prefere?
— Fígado, fígado cozido.
— De vitela ou de porco?
— Tanto faz — respondeu sua “conterrânea”, avaliando se a última pergunta
de Švejk era uma tentativa inútil de parecer engraçado.
Caminharam ainda um pouco, e depois se juntou a eles o pinscher;
passaram a corrente em seu pescoço. O cachorro parecia confiar em Švejk: tentou destruir suas calças com a focinheira, pulava em cima dele, mas, de repente, como se soubesse o que o Švejk estava planejando, parou de pular e começou a caminhar, triste e desanimado, olhando para Švejk de viés, como se quisesse lhe dizer: “Então é isso o que me espera?”
Depois a empregada ainda lhe contou que todos os dias, às seis da tarde, ia
ao parque com o cachorro, que não confiava em nenhum homem de Praga, que uma vez publicara um anúncio no jornal e apareceu um serralheiro se oferecendo para se casar com ela, lhe pediu oitocentas coroas para alguma invenção e desapareceu. Na aldeia as pessoas são muito honestas. Se fosse se casar, se casaria com um homem do interior, mas só depois da guerra. Achava uma burrice se casar durante a guerra, porque, de um modo geral, a mulher ficava viúva.
Švejk encheu-a de esperanças, disse que voltaria às seis, e foi embora para
informar ao amigo Blahník que o cachorro gostava de qualquer tipo de fígado.
— Vou lhe oferecer fígado de boi — decidiu Blahník. — Foi assim que
peguei o são-bernardo que pertencia ao industrial Vidra. Um animal muito fiel. Amanhã certamente lhe trarei o cachorro.
Blahník honrou sua palavra. De manhã, quando Švejk acabou de arrumar o
apartamento, ouviu um cachorro latindo atrás da porta e Blahník entrou arrastando um pinscher ainda mais excitado do que a natureza o excitara. Revirava ferozmente os olhos e olhava com tal selvageria que recordava um tigre faminto em uma jaula que tivesse diante dele um visitante do jardim zoológico bem gordo. Rangia os dentes e grunhia como se quisesse dizer: “Destroçar e devorar!”
Amarraram o cachorro na mesa da cozinha e Blahník começou a contar os
detalhes do roubo.
— Passei ao seu lado de propósito com o fígado cozido embrulhado em um
pedaço de papel. Começou a cheirá-lo e a pular em cima de mim. Não lhe dei nada e continuei andando. O cachorro veio atrás de mim. No parque, virei na rua Bredovská e então lhe dei o primeiro naco. Comeu-o andando, para não me perder de vista. Dobrei na Jindrišská, onde lhe dei outra porção. Quando tinha devorado tudo, amarrei-o com uma corrente e arrastei-o através da praça Venceslau até Vinohrady e de lá a Vršovice. Pelo caminho fez algumas travessuras incríveis. Quando estávamos atravessando o trilho do bonde se atirou no chão e não queria se mexer. Talvez quisesse ser atropelado. Bem, também lhe trouxe uma árvore genealógica que comprei na papelaria do Fuchs. Você sabe falsificar genealogias, Švejk?
— É melhor que você a escreva com sua própria mão. Escreva que provém
do canil Von Bülow de Leipzig. Pai: Arnheim von Kahlsberg. Mãe: Ema von Trautensdorf, filha de Siegfried von Busenthal. O pai ganhou, em 1912, o primeiro prêmio na exposição canina de Berlim. A mãe foi condecorada com a medalha da associação de criadores de cães de raça de Nuremberg. Que idade deve ter?
— Pela dentadura, dois anos.
— Escreva que tem um ano e meio.
— Está mal tosado, Švejk, veja suas orelhas. — Isso tem remédio. Poderemos apará-las quando se habituar a esta casa.
Agora poderia ficar ainda mais bravo.
O prisioneiro grunhiu com raiva, resfolegou e se debateu no chão. Depois,
se deitou à espera do que ia acontecer.
Švejk lhe ofereceu o resto do fígado que Blahník trouxera. No entanto, o
cachorro não lhe deu atenção e limitou-se a olhar para os dois homens com ressentimento, como se quisesse dizer: “Já caí na armadilha uma vez. Podem comê-lo vocês mesmos.”
Ficou ali deitado com aspecto resignado e fingindo que cochilava. De
repente, teve uma ideia e se levantou, erguendo-se sobre as patas traseiras e mendigando com as dianteiras. Havia se rendido.
A cena comovedora não produziu nenhum efeito em Švejk. — Deite-se! — gritou para o infeliz, que voltou a se deitar, ganindo com
tristeza.
— Qual nome devo lhe dar na árvore genealógica? — perguntou Blahník.
— Se chamava Fox, então que seja um nome parecido para que o entenda logo.
— Poderemos chamá-lo, por exemplo, de Max. Olhe, Blahník, como levanta
as orelhas! Levante-se, Max!
O infeliz pinscher, a quem haviam arrebatado tanto o lar como o nome, se
levantou e ficou esperando pelas próximas ordens.
— Poderíamos desamarrá-lo para ver o que faz — decidiu Švejk. Quando o desamarraram, a primeira coisa que fez foi ir até a porta, onde deu
três curtos latidos para a maçaneta, esperando certa generosidade daqueles desalmados. No entanto, ao constatar que os malvados não compreendiam que queria sair, o cachorro fez uma pequena poça diante da porta esperando que, desta maneira, o expulsassem, como faziam quando era pequeno e o coronel o educava, com severidade militar, para que não sujasse os aposentos.
Mas Švejk limitou-se a dizer: — Que cachorro esperto! Parece um jesuíta.
Deu-lhe uma cintada e molhou seu focinho no xixi. O cachorro tentou se
lamber.
Ganiu diante de tal humilhação e começou a correr pela cozinha, farejando
desesperadamente suas próprias pegadas. Depois, aproximou-se da mesa com tristeza e devorou no chão o resto do fígado que lhe haviam servido, deitou-se ao lado da estufa e, depois daquelas aventuras, adormeceu.
— Quanto lhe devo? — perguntou Švejk, quando estava se despedindo de
Blahník.
— Nem me fale disso, Švejk — disse Blahník com ternura. — Faço
qualquer coisa por um velho amigo, sobretudo quando está servindo no exército. Até logo, rapaz, e não leve nunca o cachorro à praça Havlíček para que não aconteça alguma infelicidade. Se precisar de outro cachorro, você sabe onde moro.
Švejk deixou Max dormir por muito tempo e, enquanto isso, foi ao açougue
comprar duzentos e cinquenta gramas de fígado, cozinhou-o e ficou esperando que o cachorro acordasse, deixando diante de seu focinho um pedaço de fígado quente.
Ainda adormecido, Max começou a se lamber, depois se espreguiçou,
cheirou o fígado e devorou-o. Então foi até a porta e repetiu sua tentativa com a maçaneta.
— Max! — gritou Švejk. — Venha cá! Obedeceu, desconfiado. Švejk pegou-o no colo, o acariciou e, pela primeira
vez, o cachorro abanou amistosamente o rabo cortado e tentou delicadamente pegar a mão de Švejk com ar meditabundo, como se quisesse dizer: “Não há nada a fazer, eu sei que perdi.”
Švejk continuou acariciando-o e começou a lhe contar com voz doce:
— Era uma vez um cachorrinho chamado Fox que vivia na casa de um
— Era uma vez um cachorrinho chamado Fox que vivia na casa de um
coronel. A empregada o levava para passear. Um dia, um senhor roubou Fox. Fox foi servir no exército na casa de um tenente e começaram a chamá-lo de Max. Max, me dê a patinha! Você está vendo, idiota, que, se se comportar bem, seremos amigos. Se não, viveremos em guerra e não sou eu quem vai levar chibatadas.
Max desceu do colo de Švejk e começou a pular alegremente em volta dele. À
noite, quando o tenente voltou para casa, os dois já haviam se tornado grandes amigos.
Observando Max, Švejk fez uma reflexão filosófica: — Se olharmos em volta, perceberemos que cada soldado também foi
roubado de sua casa.
O tenente Lukáš teve uma surpresa agradável ao ver Max. O cachorro
também demonstrou uma grande alegria ao ver de novo um homem com um sabre.
Quando perguntou por sua origem e quanto havia custado, Švejk lhe disse,
tranquilamente, que o cachorro era presente de um amigo que acabara de se alistar.
— Está bem, Švejk — disse o tenente, brincando com Max —, no primeiro
dia do próximo mês lhe darei cinquenta coroas pelo cachorro.
— Não poderei aceitá-las, senhor.
— Švejk — disse o tenente com severidade —, quando começou a trabalhar
para mim, eu lhe disse que tinha que me obedecer sem chiar. Se lhe digo que receberá cinquenta coroas, então deve aceitá-las e gastá-las em bebida. O que você vai fazer com as cinquenta coroas, Švejk?
— Humildemente, vou gastá-las com bebida, senhor tenente, seguindo suas
determinações.
— E se eu me esquecer, Švejk, lhe ordeno que me comunique que tenho que
lhe dar cinquenta coroas pelo cachorro. Entendido? O cachorro tem pulgas? É melhor lhe dar um banho e penteá-lo. Amanhã estarei de serviço, mas depois de amanhã o levarei para passear.
Enquanto Švejk banhava Max, a casa do coronel, seu antigo dono, tremia
com sua voz retumbante. O homem não parava de blasfemar em alemão, ameaçando arrastar ao tribunal de guerra aquele que tivesse roubado o cachorro e que faria com que fosse enforcado, fuzilado, encarcerado durante vinte anos e esquartejado.
— Que o diabo leve o infeliz! — A casa do coronel ressoava de tal maneira
que até as janelas tremiam. — Vou acabar com esse bando de assassinos!
Uma catástrofe pairava sobre Švejk e o tenente Lukáš.