As Aventuras do Bom Soldado Švejk
5 - De Most nad Litava a Sokal
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De Most nad Litava a Sokal
O tenente Lukáš caminhava, furioso, para cima e para baixo no escritório da 11ª Companhia, um cubículo escuro do barracão da companhia, separado do corredor por algumas tábuas. Uma mesa, duas cadeiras, uma lata de benzina e um catre.
Diante dele estava o intendente Vaněk, providenciando o pagamento dos
soldos, examinando a contabilidade da cozinha dos soldados... ou seja, era o ministro de finanças da companhia. Passava o dia inteiro no escritório, onde também dormia.
Na frente da porta, um soldado de infantaria, barbudo e corpulento como o
gigante Krakonoš.51 Era Baloun, o novo escudeiro do tenente, um sujeito que, antes de se incorporar às fileiras, trabalhava como moleiro na região de Český Krumlov.
— Naturalmente me enviou o melhor ordenança do mundo! — disse o
tenente Lukáš ao intendente. — Agradeço-lhe a surpresa de todo o coração! No primeiro dia mandei que fosse buscar a comida e ele devorou metade da ração.
— Me desculpe, é que entornei um pouco — disse o gigante gordo. — Entornou, está certo. Mas só é possível entornar uma sopa ou um
molho, mas não um assado. Você me trouxe um pedaço tão pequeno que mal dava pra ver! E onde enfiou o apfelstrudel?
O tenente Lukáš pronunciou as últimas palavras com tanta seriedade e com
uma voz tão severa que Baloun deu, involuntariamente, dois passos para trás.
— Na cozinha me informaram o que nos serviriam hoje. Tinham sopa com
almôndegas de fígado. Onde você enfiou as almôndegas? Comeu-as pelo caminho, não há a menor dúvida. Depois, vitela com pepinos. O que você fez com ela? Devorou-a. Em lugar de duas salsichas de Frankfurt assadas, me trouxe uma! E onde enfiou as duas fatias de apfelstrudel? Onde as enfiou? Me diga! Você se empanturrou como um ladrão, porco miserável, asqueroso! Me diga, onde enfiou o apfelstrudel? Que caiu no barro? Sem-vergonha! Você pode me mostrar onde foi que caiu no barro? Vai dizer que depois apareceu um cachorro e o levou correndo? Virgem Maria, eu vou lhe dar uma surra tal que sua cabeça vai ficar como um bumbo! E continua negando tudo, o grande animal. Você sabe quem o viu? O intendente Vaněk aqui o viu. Veio e me disse: “Humildemente, senhor tenente, o imundo do Baloun está devorando sua comida.” Olhei pela janela e o vi se fartando como se não tivesse comido durante uma semana. Ouça, intendente, você não conseguiu mesmo encontrar um animal um pouco menos asqueroso do que este sem-vergonha?
— Humildemente, senhor. Baloun me pareceu o homem mais honrado de
toda nossa companhia. É tão estúpido que nem sequer se lembra de como se maneja uma arma. Se lhe entregassem um fuzil, certamente provocaria algum acidente. Nos últimos exercícios de tiro, por pouco não arranca o olho de um sujeito que estava ao seu lado. Achei que pelo menos poderia ocupar esse cargo.
— E devorar sempre o almoço do seu amo, não é mesmo? — disse Lukáš.
— Como se uma ração não lhe bastasse. Me diga, você ainda está com fome?
— Humildemente, senhor, eu sempre estou com fome. Quando sobra pão
de alguém, eu o recompro em troca de cigarros, mas nunca é suficiente. Minha constituição é assim. Sempre acho que estou farto, mas não. Depois de um tempo, fico me sentindo como me sentia antes de comer: o desgraçado do meu estômago começa a fazer ruídos, me pedindo comida. Às vezes penso que estou cheio, que já não cabe mais nada, mas não é assim. Quando vejo alguém comer ou sinto cheiro de comida, meu estômago começa a reclamar seus direitos e eu seria capaz de engolir pregos. Humildemente, senhor, já pedi que me deem ração dupla; por isso, em Budějovice, procurei o médico do regimento; ele me mandou ficar três dias na enfermaria e receitou que me dessem a cada dia apenas uma xícara de consomê. “Eu vou lhe ensinar o que é ter fome, sem-vergonha! Se voltar aqui, lhe imporei um regime tão severo que você ficará mais magro do que uma haste de trigo!” Não é necessário que sejam coisas saborosas, senhor, mesmo a comida mais banal desperta meu apetite, fico logo com água na boca. Humildemente, senhor, lhe suplico que me conceda ração dupla. Se não houver mais carne, pelo menos a guarnição: batatas, arroz, um pouco de molho, isso sempre sobra...
— De acordo, Baloun, já ouvi suas insolências — respondeu o tenente
Lukáš. — Intendente, você já viu alguma vez tanta desfaçatez como a deste soldado? Devora minha comida e ainda por cima me pede ração dupla. Vou lhe mostrar o que é ter fome, Baloun!
— Intendente — se dirigiu a Vaněk —, leve-o ao cabo Weidenhofer para
que o amarre no pátio, ali ao lado da cozinha, durante um par de horas, até que à noite comecem a distribuir o gulache. Que o amarrem de maneira que toque o solo apenas com as pontas dos pés e possa ver como preparam o gulache. E se certifique de que o desgraçado ainda estará amarrado quando distribuírem o gulache na cozinha para que fique com água na boca como se fosse um cão faminto quando sente o cheiro de uma charcutaria. E diga ao cozinheiro que distribua sua ração.
— Humildemente, senhor. Vamos, Baloun!
Quando estavam indo embora, o tenente deteve-os na porta e, olhando o
rosto atemorizado de Baloun, exclamou, vitorioso:
— Foi você quem procurou, Baloun. Aproveite! E se voltar a me fazer o que
fez hoje, eu o enviarei, sem o menor remorso, à corte marcial.
Quando Vaněk voltou e informou que Baloun estava amarrado, o tenente
Lukáš disse:
— Você me conhece, Vaněk. Sabe que não gosto de fazer esse tipo de coisa,
mas não tenho outro remédio. Em primeiro lugar, você sabe que os cães grunhem quando lhes tiram o osso. Não quero ter ao meu lado nenhuma pessoa vil. E, em segundo, o fato de Baloun estar amarrado exerce uma grande influência psicológica e moral em toda a tropa. Por último, a partir do momento em que adquirem consciência de que o combate se aproxima e de que amanhã ou depois estarão no campo de batalha, os rapazes passam a fazer o que lhes dá na telha.
O tenente Lukáš, que parecia desconsolado, continuou em voz baixa: — Como o senhor bem sabe, ontem, durante os exercícios noturnos,
tivemos que manobrar contra os alunos da escola de voluntários atrás da usina de açúcar. O primeiro grupo, a vanguarda, marchava tranquilamente pela estrada porque eu o encabeçava, mas o segundo, que tinha que ir à esquerda e enviar patrulhas avançadas à usina, comportou-se como se estivesse voltando de uma excursão. Os rapazes cantavam e marcavam o passo com tal força que deviam estar sendo ouvidos até no acampamento. Depois, na ala direita, o terceiro grupo foi explorar o terreno que fica mais abaixo no bosque e se afastou de nós durante uns bons dez minutos; daquela distância via-se perfeitamente que estavam fumando: havia uns pontinhos de fogo na escuridão. E o quarto grupo, que tinha que formar a retaguarda, só Deus sabe o que aconteceu com ele, de repente surgiu diante da nossa vanguarda, de maneira que achamos que era o inimigo e eu tive de recuar diante da minha própria retaguarda, que avançava na nossa direção. Esta é a 11ª Companhia, à qual me designaram. O que posso fazer com esses rapazes? Como se comportarão em um combate verdadeiro?
Durante a narrativa, o tenente Lukáš ficou com as mãos juntas, fazendo cara
de mártir; a ponta de seu nariz se alongou.
— Não ligue para isso, senhor — disse o intendente Vaněk, tentando
apaziguar seu espírito. — Não se preocupe. Eu já estive em três companhias de infantaria; todas foram destroçadas com o batalhão inteiro e voltaram a ficar em forma. Todas eram iguais, nenhuma melhor do que a sua, senhor tenente. A pior foi a 9ª. Todos os seus oficiais caíram prisioneiros, inclusive o comandante. Eu fui o único que se salvou porque havia ido ao trem do regimento buscar rum e vinho para o pessoal, de maneira que tudo foi feito na minha ausência. O senhor sabe que durante os últimos exercícios noturnos que mencionou os alunos da escola de voluntários que tinham que vir ao encontro da nossa companhia foram parar no lago de Neusidler? Continuaram caminhando até a madrugada e o grupo de vanguarda acabou se atolando na lama do pântano. Quem os conduzia era o próprio capitão Ságner. Se não tivesse amanhecido, talvez tivessem chegado a Šopron — continuou em tom enigmático o intendente, que estava a par de todas as fofocas e se deliciava contando-as.
“O senhor sabe”, prosseguiu o intendente, piscando um olho, “que o capitão
Ságner deve vir a ser o comandante da companhia de infantaria do nosso batalhão? O senhor foi o primeiro em quem pensaram, pois é o oficial que está há mais tempo aqui; foi o que disse Hegner, o sargento-mor do alto-comando. Mas depois a brigada foi informada pela divisão de que haviam nomeado o capitão Ságner...”
O tenente Lukáš mordeu os lábios e acendeu um cigarro. Já sabia daquilo
tudo e estava convencido de que sofrera uma injustiça. Era a segunda vez que o capitão Ságner passava na sua frente na lista de promoções, mas limitou-se a dizer, com simplicidade:
— Ora, capitão Ságner...
— Eu não acho isso nem um pouco engraçado — disse o intendente em um
tom confidencial. — O sargento-mor do alto-comando Hegner disse que no começo da guerra, na Sérvia, nas montanhas de Montenegro, o capitão Ságner, em um ato de insensatez talvez motivado pela vontade de pendurar uma medalha no peito, enviou várias companhias de seu batalhão ao encontro das metralhadoras das posições sérvias; mas a infantaria não pôde fazer nada, só a artilharia teria conseguido arrancar os sérvios daquelas rochas. Só sobraram oitenta homens de todo o batalhão. O próprio capitão Ságner foi ferido num braço e pegou uma disenteria no hospital. Depois voltou a aparecer no regimento de Budějovice. Comenta-se que ontem à noite, no cassino, dizia que estava com saudades do front, que seria capaz de deixar lá todo o batalhão de infantaria, mas que faria algo sensacional para ganhar a Signum Laudis. Bem, disse que aquela história na Sérvia lhe custou uma reprimenda, mas que agora tombaria com todo o batalhão ou seria promovido a tenente-coronel, mas que o batalhão teria que gemer. Creio, meu tenente, que também corremos este risco. Há pouco o sargento-mor do alto-comando Hegner me disse que o senhor e o capitão Ságner não têm boas relações e que este certamente enviará nossa 11ª Companhia às piores batalhas e aos lugares mais perigosos.
O intendente suspirou e continuou:
— Na minha opinião, quando se trata de uma guerra deste calibre, na qual
estão envolvidos tantos exércitos e o front é tão longo, conseguiríamos melhores resultados com manobras bem executadas do que com ataques desesperados. Eu vi isso no desfiladeiro de Dukla, quando estava na 10ª Companhia de Infantaria. Ali tudo correu bem. Recebemos uma ordem para não disparar, de maneira que não atiramos e nos limitamos a esperar que os russos se aproximassem. Teríamos os aprisionado sem fazer um único disparo se as moscas de ferro não estivessem na ala esquerda; os idiotas da Defesa Territorial se assustaram ao imaginar que os russos estavam se aproximando e começaram a descer pela encosta nevada como se fosse um escorregador. Então recebemos uma mensagem dizendo que os russos haviam penetrado pelo flanco esquerdo e que tínhamos que tentar alcançar a brigada. Naquele momento, eu estava na brigada, assinando o livro de provimentos da companhia porque não conseguia encontrar o comboio do nosso regimento. Então os primeiros homens da 10ª Companhia de Infantaria começaram a chegar à brigada. Até o entardecer haviam chegado 120; todos os outros escorregaram pela neve, se perderam e foram cair nas posições russas. Foi espantoso, senhor. Nos Cárpatos os russos tinham posições por toda parte, acima e abaixo. E depois, senhor, o capitão Ságner...
— Pelo amor de Deus, me deixe em paz com o capitão Ságner — disse o
tenente Lukáš. — Eu também estou a par de tudo isso. E, a propósito, não pense nem por um momento que quando houver um ataque ou uma batalha você irá, por acaso, procurar rum e vinho no trem do regimento. Já me avisaram que você bebe feito uma esponja e, de fato, me bastou ver seu nariz, vermelho como um tomate, para entender quem estava na minha frente.
— Tudo começou nos Cárpatos, meu tenente. Ali éramos forçados a beber;
a comida chegava fria à montanha. Nossas trincheiras estavam na neve. Não podíamos acender fogueiras. A única coisa que nos mantinha em pé era o rum. E, se não fosse por mim, teria acontecido o mesmo nas demais companhias, que não tinham rum e as pessoas morriam congeladas. Nossos narizes ficavam vermelhos por causa do rum que bebíamos. Mas tivemos um contratempo: chegou uma ordem do batalhão dizendo que só os homens que tinham nariz vermelho podiam patrulhar.
— Agora o inverno já passou — observou o tenente, maliciosamente. — Tenente, no front, em qualquer época do ano, o rum é um elemento
imprescindível, tanto como o vinho. Eles mantêm a tropa de bom humor, para dizê-lo de alguma maneira. Por meia xícara de rum e um quarto de litro de vinho a gente lutava contra quem fosse... Quem é o animal que está batendo na porta? Não sabe ler o cartaz que diz: “Não bater”? Adiante!
O tenente Lukáš deu meia-volta na cadeira, se virou para a porta e a viu se
abrir devagar, sem fazer barulho. O bom soldado Švejk entrou em silêncio, com a mão erguida, pronta para bater continência, posição que, evidentemente, adotara no exato momento em que batia na porta enquanto contemplava o cartaz de “Não bater”.
Sua saudação parecia um eloquente acompanhamento para seu rosto
Sua saudação parecia um eloquente acompanhamento para seu rosto
satisfeito e despreocupado. Parecia o deus grego dos ladrões disfarçado com o sóbrio uniforme de soldado da infantaria austríaca.
O tenente Lukáš fechou os olhos por um momento para não ver a imagem
do bom soldado Švejk, que o abraçava e beijava com o olhar. Certamente o filho pródigo olhara para seu pai com a mesma ternura quando este estava assando um carneiro em sua homenagem.
— Humildemente, senhor, estou de volta — disse Švejk da porta, com tanta
ingenuidade e espontaneidade que o tenente logo se recuperou.
Desde o dia em que o coronel Schröder lhe comunicara que voltaria a enfiar
Š vejk na sua garganta, o tenente Lukáš sonhava em segredo que aquele reencontro tardasse o máximo possível. Toda manhã se dizia: “Hoje não, ainda não, certamente deve ter cometido alguma coisa grave e ainda não o deixarão sair.” Mas, com sua entrada simpática e simples, Švejk colocou todas aquelas esperanças em seu devido lugar.
O bom soldado olhou para o intendente Vaněk, dirigiu-se a ele e, com um
olhar muito amável, lhe entregou os papéis que tirara do bolso do casaco.
— Humildemente, senhor, estou lhe trazendo estes papéis que me deram no
escritório do regimento. É para que possam me pagar e me alimentar.
Švejk se movimentava no escritório da 11ª Companhia de Infantaria com tal
desenvoltura que parecia que Vaněk era seu amigo. Este, por sua vez, reagiu com secura e disse:
— Deixe-os na mesa.
— Intendente, eu lhe agradeceria se pudesse nos deixar a sós — disse o
tenente Lukáš, suspirando.
Vaněk saiu, mas ficou atrás da porta para ouvir a conversa. A princípio não ouviu nada, pois tanto Švejk como o tenente Lukáš se
limitavam a se contemplar mutuamente, em absoluto silêncio. Lukáš contemplava Švejk como se quisesse hipnotizá-lo, como um galo diante de um pintinho prestes a se atirar sobre sua presa.
Švejk fitava o tenente Lukáš com seu olhar de sempre, cheio de ternura,
como se quisesse lhe dizer: “Voltamos a nos encontrar, querido; agora nada mais no mundo poderá nos separar, meu pombinho.”
E como o tenente ficou em silêncio por um longo tempo, os olhos de Švejk
disseram com triste doçura: “Diga alguma coisa, querido, se pronuncie!”
O tenente Lukáš interrompeu o penoso silêncio pronunciando palavras que
se esforçou para temperar com uma boa dose de ironia:
— Bem-vindo, Švejk. Agradeço por ter vindo. Você sabe que, para mim, vê-
lo é um motivo de grande alegria. Ora, ora, então temos visita.
Mas não conseguiu se conter e desatou toda a raiva dos últimos dias dando
um terrível soco na mesa que fez saltar o tinteiro. A tinta salpicou a lista de pagamentos.
Então o tenente Lukáš deu um pulo, plantou-se, tenso, a pouca distância de
Š vejk, e gritou:
— Animal!
E começou a caminhar para cima e para baixo pela pequena sala, cuspindo
cada vez que passava diante de Švejk.
— Humildemente, senhor — disse Švejk ao ver que o tenente não parava de
caminhar e de atirar em um canto, com raiva, bolas de papel amassado que pegava na mesa —, levei a carta como me indicou. Encontrei a senhora Kákonyi e tenho que lhe dizer que é uma mulher muito bonita, embora a tenha visto quando estava chorando.
O tenente Lukáš se sentou no catre do intendente e exclamou, com voz rouca: — Quando tudo isto vai terminar, Švejk? Švejk respondeu como se não tivesse ouvido: — Depois houve aquele pequeno incidente, mas assumi toda a
responsabilidade. E como eles não acreditaram que me correspondia com aquela senhora, preferi engolir a carta durante o interrogatório, para não deixar nenhum rastro. Também por pura casualidade, pois não encontro outra maneira de explicar o que aconteceu, me vi envolvido em uma pequena confusão. Mas também saí dessa. O tribunal reconheceu minha inocência, e por isso fui enviado à corte marcial e o tribunal da divisão suspendeu qualquer investigação a respeito do meu caso. Fiquei por um momento no escritório do regimento até que chegou o coronel; me deu um pequeno cartão e em seguida disse que devia me apresentar sem falta ao senhor como ordenança, e me ordenou que lhe comunique que tem de ir vê-lo em seguida para falar da companhia que deve ir ao front. E isso faz mais de meia hora, mas o coronel não sabia que me levariam ao escritório do regimento e que ali me fariam perder um quarto de hora porque durante todo este tempo haviam retido meu soldo e ele tinha de ser pago pelo regimento e não pela companhia, uma vez que vim como prisioneiro do regimento. Tudo isso é tão confuso... É de enlouquecer...
Quando o tenente Lukáš ouviu que fazia meia hora que tinha que ter se
apresentado na sala do coronel Schröder se vestiu a toda pressa e disse:
— Você me prestou mais uma vez um belo serviço, Švejk. Disse-o com uma voz tão sombria, tão cheia de desespero, que Švejk se viu
obrigado a consolá-lo com algumas palavras amistosas enquanto o tenente Lukáš avançava em direção à porta:
— O coronel pode esperar; ora, não tem nada para fazer! Quando o tenente saiu da sala, ao cabo de um momento o intendente Vaněk
voltou a entrar.
Švejk estava sentado em uma cadeira e se entretinha atirando pedaços de
carvão na estufa metálica através de uma portinha aberta. A estufa soltava fumaça e exalava mau cheiro, mas Švejk continuou se divertindo sem dar atenção a Vaněk, que ficou olhando para ele durante alguns instantes; então deu um pontapé na porta da estufa e gritou que saísse dali.
— Senhor intendente — respondeu Švejk com dignidade —, me permito
lhe comunicar que, apesar de ser movido pela melhor das intenções, não posso cumprir suas ordens e sair daqui, nem daqui nem de todo o acampamento, porque estou cumprindo ordens superiores. Estou aqui como ordenança — acrescentou com orgulho. — O coronel Schröder me designou para trabalhar na 11ª Companhia com o tenente Lukáš, de quem fui assistente, mas, graças à minha inteligência natural, me promoveram a ordenança. O senhor tenente e eu somos amigos há muito tempo. O que o senhor fazia na vida civil?
O intendente Vaněk ficou tão surpreso com o tom familiar e amistoso do
bom soldado Švejk que, embora gostasse de crescer para cima dos soldados da companhia, lhe respondeu como se fosse seu subordinado:
— Sou o farmacêutico Vaněk de Kralupy. — Eu também fui aprendiz de farmacêutico — disse Švejk. — De um tal
senhor Kokoška, da rua Na Perštýně, em Praga. Era uma pessoa muito estranha e quando uma vez, por engano, toquei fogo em um barril de benzina, o senhor Kokoška me demitiu e a guilda não me aceitou de volta em nenhum lugar, de maneira que, por um miserável barril de benzina, não pude terminar meus estudos. O senhor também prepara raízes para vacas?
Vaněk negou com a cabeça. — Nós preparávamos raízes para vacas e colocávamos nelas uns selinhos. O
fato é que o senhor Kokoška era muito piedoso, e um dia leu em algum lugar que São Pelegrino havia curado algumas cabeças de gado que sofriam de hidropisia. De maneira que encomendou a uma gráfica de Smíchov umas estampas de São Pelegrino e as mandou benzer no Emaús por duzentos florins. Depois as colocávamos sempre nos pacotes de medicamentos para vacas. O remédio era dissolvido em água quente, a vaca o tomava em um tanque e, enquanto isso, era lida uma breve oração a São Peregrino que o senhor Tauchen, nosso balconista, escrevera. É que, quando fossem imprimir as estampas de São Peregrino, deveriam colocar no verso uma breve oração. Um dia, ao entardecer, nosso velho Kokoška chamou o senhor Tauchen e lhe disse que tinha até a manhã do dia seguinte para escrever uma oração que colocariam na estampa que iria com os medicamentos, e que às dez da manhã, quando chegasse à loja, a oração teria que estar pronta para ser enviada à gráfica, que as vacas estavam esperando por ela. Das duas, uma: se escrevesse uma coisa boa, receberia um florim, ou então ao cabo de duas semanas iria para a rua. O senhor Tauchen ficou suando a noite inteira e na manhã seguinte foi abrir a loja sem que tivesse escrito nada. Até tinha esquecido o nome do santo dos medicamentos para as vacas. Foi tirado do apuro pelo nosso criado Ferdinand. Era um sujeito que sabia de tudo. Quando secávamos camomila no sótão, ele vinha, tirava os sapatos e nos ensinava como se deve fazer para que os pés não suem. Caçava pombos no sótão, sabia abrir a gaveta do dinheiro e nos ensinou a fraudar mercadorias. Eu, quando era jovenzinho, tinha em casa uma caixa de primeiros socorros que levara da farmácia; era tão boa que nem o pessoal do hospital dos Misericordiosos, aquele que fica em um monastério de Praga, tinha uma melhor. Pois este rapaz ajudou o senhor Tauchen. Disse apenas: “Bem, vou ajudá-lo, senhor Tauchen”, e o senhor Tauchen me mandou levar cerveja para o rapaz. E quando a levei, o criado Ferdinand já o tinha meio que pronto e estava lendo:
Venho das celestes alturas
E trago boas novas às criaturas;
Para as vacas e todos os animais
Trago um remédio que os confortará.
Quem dele precisar, fique certo,
Kokoška o preparará.
“Depois de ter bebido a cerveja, de ter engolido o líquido amargo, em um
instante compôs um final muito bonito:
São Pelegrino o inventou,
e por um florim o vendeu.
Pelegrino protege o gado
que nossa poção tomou.
As vacas se curaram,
E os camponeses cantaram.
“Depois, quando o senhor Kokoška chegou, Tauchen foi com ele ao
escritório e ao sair nos exibiu dois florins e não apenas um, como lhe prometera, e quis dar a metade a Ferdinand. Mas, quando viu os dois florins, o criado se deixou impressionar pelo dinheiro e quis ficar com tudo. ‘Ou tudo ou nada’, disse. De maneira que o senhor Tauchen preferiu não lhe dar nada e guardou os dois florins. Depois me levou ao armazém, me deu uma surra e me disse que se ousasse contar em algum lugar que ele não havia escrito nada me daria cem surras como aquela e que se Ferdinand se queixasse ao dono eu teria que contar que Ferdinand era mentiroso. Tive que jurar diante de um recipiente de vinagre com estragão. Nosso criado começou a se vingar usando os medicamentos para as vacas. Fazíamos a mistura no sótão, em grandes caixas. O criado, quando varria as cagadas dos ratos, as levava e misturava-as com os medicamentos para as vacas com a estampa de São Pelegrino. E ainda não achou suficiente. Urinou naquelas caixas e depois misturou tudo, de modo que o conteúdo das caixas parecia mingau de farelo...”
O telefone tocou. O intendente pegou depressa o fone e desligou em seguida
com cara de poucos amigos.
— Tenho que ir ao escritório do regimento. Assim, de repente. Não estou
gostando nada.
Švejk voltou a ficar sozinho. Ao cabo de um momento, o telefone tocou de novo. Švejk começou a conversa:
— Vaněk? Foi ao escritório do regimento. Quem está aqui? Sou o ordenança
da 11ª Companhia de Infantaria. E você? O ordenança da 12ª de Infantaria? Olá, compadre. Como me chamo? Švejk. E você? Braun? É parente de um tal de Braun, chapeleiro da avenida Pobřeží, de Karlín? Não? Nem o conhece? Eu tampouco o conheço, só passei uma vez por ali de bonde e prestei atenção no cartaz. O que há? Não sei de nada. Quando partimos? Ninguém ainda me disse nada de quando partimos. Aonde vamos?
— Vamos marchar para o front, animal!
— Ainda não ouvi falar disso.
— Que espécie de ordenança é você! Não sabe se seu subtenente...? — Meu tenente...
— Dá no mesmo. Seu tenente foi a uma reunião com o coronel? — Sim, foi chamado.
— Você está vendo, então. Pois o nosso também foi, e o da 13ª Companhia
de Infantaria também; acabo de falar com o ordenança de lá. Não consigo gostar de toda essa pressa. Você sabe se o pessoal da banda já fez as malas?
— Eu não sei de nada.
— Idiota, você acha que vou comê-lo? (Ouviu-se a pessoa que estava ao
telefone dizer a alguém ao seu lado: “Pegue o outro fone, Franta, para ver como o ordenança da 11ª Companhia de Infantaria é idiota.”) Ei, você está dormindo ou o quê? Responda, então, quando um colega lhe faz uma pergunta. Que não sabe ainda de nada? Não minta para mim. Seu intendente ainda não lhe disse que vocês receberão conservas? Não falou sobre isso com ele? Imbecil! Não é assunto seu? (Ouviram-se risadas.) Você é um cabeça oca. Pois quando souber de alguma coisa ligue para a gente, aqui na 12ª, seu palerma. De onde você é?
— De Praga.
— Para ser de Praga devia ser mais esperto... Outra coisa: quando seu
intendente foi ao escritório?
— Foi chamado um momento atrás.
— Ora, e por que não me disse antes? O nosso também foi há um
momento. Alguma coisa está acontecendo. Você não falou com o destacamento?
— Não.
— Por Jesus Cristo, e diz que é de Praga? Parece que para você nada tem
importância. Onde passa seus dias?
— Acabo de chegar há uma hora do tribunal da divisão. — Isso explica tudo! Se é assim, hoje mesmo irei vê-lo. Tocarei duas vezes. Švejk ia acender o cachimbo quando o telefone tocou de novo. “Ao diabo
com o telefone!”, pensou Švejk, “vou me divertir com vocês”.
Mas o telefone continuou tocando implacavelmente, de modo que Švejk
perdeu a paciência, pegou o fone e gritou:
— Quem é? Sou o ordenança da 11ª Companhia, Švejk. Ele conhecia a voz que lhe respondeu: era a do tenente Lukáš. — O que vocês todos estão fazendo aí? Onde está Vaněk? Chame-o, que
venha rapidamente ao telefone!
— Humildemente, senhor, não faz muito que o telefone tocou. — Ouça, Švejk, não tenho tempo para gastar com você. Uma conversa
telefônica durante a guerra não é como uma conversa com um amigo que estamos convidando para almoçar. Uma conversa telefônica em tempos de guerra tem que ser clara e breve. No telefone você não deve dizer nem “humildemente, senhor”. Eu estou lhe perguntando, Švejk, se Vaněk está ao alcance da mão. Que venha imediatamente.
— Não está ao alcance da mão, humildemente, senhor. Há um momento
ligaram para ele do escritório do regimento e teve que sair, talvez há um quarto de hora.
— Quando chegar acertarei as contas com você, Švejk. Não consegue se
expressar sucintamente? Concentre-se bem no que vou lhe dizer agora. Está me entendendo? Não quero que depois me venha pedir desculpas dizendo que não me ouviu direito. Quando desligar...
Uma pausa. Outra chamada. Švejk pegou o fone e foi coberto por maldições.
— Ordinário, canalha, sem-vergonha! O que está fazendo? Por que
— Ordinário, canalha, sem-vergonha! O que está fazendo? Por que
interrompeu a ligação?
— O senhor me disse para desligar.
— Dentro de uma hora estarei em casa, Švejk, e aí veremos... Vá agora
mesmo ao barracão, procure algum chefe de seção, Fuchs, por exemplo, e diga-lhe que tem de pegar dez soldados e ir com eles ao armazém para pegar conservas. Repita, o que você tem que fazer?
— Ir com dez soldados buscar conservas para a companhia. — Finalmente você não disse nenhum disparate. Enquanto isso eu ligarei
para Vaněk no escritório do regimento para que também vá ao armazém buscar conservas. Se nesse meio-tempo aparecer no barracão, diga que deixe tudo de lado e vá correndo ao armazém. E agora desligue o fone.
Durante um bom tempo Švejk ficou procurando, inutilmente, não apenas o
chefe de seção Fuchs como qualquer oficial. Todos estavam na cozinha, chupando ossos e se divertindo com o espetáculo de Baloun amarrado; haviam se apiedado dele e estava com os pés no chão, mas ainda assim oferecia um espetáculo interessante. Um dos cozinheiros levou-lhe uma costela e enfiou-a em sua boca; o pobre gigante Baloun, como estava amarrado, não podia se ajudar com as mãos, e por isso levou-a de um lado a outro da boca, equilibrou-a com os dentes e as gengivas e então mordeu a carne com a expressão de um selvagem da floresta.
— Quem dos senhores é o chefe de seção Fuchs? — perguntou Švejk
quando, finalmente, encontrou o lugar onde estavam reunidos todos os oficiais.
O chefe de seção Fuchs achou que não valia a pena se apresentar a um
soldado raso de infantaria.
— Ora — disse Švejk —, quanto tempo terei de ficar repetindo isso? Onde
está o chefe de seção Fuchs?
Fuchs deu um passo adiante e, com muita dignidade, começou a blasfemar
de todas as maneiras possíveis, dizendo que ele não era um chefe de seção, mas sim um senhor chefe de seção e que não devia se dizer “Onde está o chefe de seção” e sim “Humildemente, onde está o senhor chefe de seção”, e se alguém de sua seção deixasse de dizer “Humildemente” lhe daria uma boa porrada em um abrir e fechar de olhos.
— Calma — disse Švejk com sensatez. — Dirija-se já ao barracão, escolha
dez soldados e vá correndo com eles ao armazém para buscar conservas.
O chefe de seção Fuchs ficou tão surpreso que só conseguiu dizer: — Como?
— Nada de como — respondeu Švejk. — Sou o ordenança da 11ª
Companhia e acabo de falar por telefone com o tenente Lukáš. E ele disse: “Devem ir correndo ao armazém.” Se não quiser ir, senhor chefe de seção, eu voltarei a ligar para o tenente Lukáš. O senhor tenente ordena categoricamente que o senhor vá. É inútil discutir. “Em uma conversa telefônica”, disse o senhor tenente Lukáš, “deve-se ser claro e breve. Quando digo que é para o chefe de seção Fuchs ir, ele vai. Uma ordem não é uma conversa com um amigo que estamos convidando para almoçar. No exército, e sobretudo em tempos de guerra, cada atraso é um crime. Se o chefe de seção se recusa a ir que o comunique, volte a me ligar e eu acertarei as contas com ele. Não restará nem rastro do chefe de seção Fuchs”. Sim, senhor, foi isso que disse, o senhor ainda não conhece o tenente Lukáš.
Švejk percorreu com um olhar triunfal os oficiais, que ficaram boquiabertos
e angustiados diante de seu discurso.
O chefe de seção Fuchs resmungou alguma coisa incompreensível e se
afastou com passo rápido. Švejk gritou atrás dele:
— Então, posso ligar para o tenente e lhe dizer que está tudo em ordem? — Logo estarei indo com dez soldados ao armazém — respondeu o chefe de
seção Fuchs do barracão e Švejk se afastou sem dizer mais nada.
Os oficiais ficaram parados como estátuas, da mesma maneira que Fuchs
momentos atrás.
— Bem, é isso — disse o pequeno cabo Blažek —, chegou a hora de fazer
as malas.
Quando Švejk voltou ao escritório da 11ª Companhia, não teve tempo nem de acender o cachimbo. O telefone voltou a tocar. Era, de novo, o tenente Lukáš.
— Onde você se enfiou, Švejk? É a terceira vez que ligo e ninguém
responde.
— Estava cumprindo suas ordens, senhor
— Quer dizer então que foram?
— Ir, sim, foram, o que não sei é se já terão chegado. Quer que confirme? — Encontrou o chefe de seção Fuchs?
— Sim, senhor tenente. Primeiro disse: “Como?”, mas depois, quando lhe
disse que as conversas devem ser claras e breves...
— Pare de falar, Švejk... Vaněk ainda não voltou? — Não, senhor tenente.
— Não precisa gritar tanto ao telefone. Você sabe onde o miserável do Vaněk
pode ter se enfiado?
— Não sei, senhor, onde o miserável do Vaněk pode ter se enfiado. — Esteve no escritório do regimento e saiu para ir a outro lugar. Suponho
que deva estar na cantina. Vá até lá, Švejk, e diga-lhe que se dirija ao armazém. E outra coisa. Procure o cabo Blažek e lhe diga que solte logo o Baloun e o envie para mim. E agora desligue.
Švejk começou realmente a se preocupar. Quando encontrou Blažek e lhe
disse que o tenente estava mandando que Baloun fosse desamarrado, o cabo resmungou:
— Ficam com medo quando suas botas começam a ficar molhadas. Švejk ficou olhando desamarrarem Baloun e depois o acompanhou pelo
caminho, o mesmo que levava à cantina, onde tentaria encontrar o intendente Vaněk.
Baloun estava convencido de que Švejk o salvara e prometeu que dividiria
com ele cada pacote de comida que lhe enviassem de casa.
— Na minha casa vão matar agora um porco — disse Baloun com
melancolia. — Você gosta de linguiça com sangue ou sem sangue? Só precisa me dizer, pois hoje à noite vou escrever para casa. Meu porco deve pesar uns 150 quilos. Sua cabeça parece a de um buldogue. Esses porcos são os melhores. Um porco desses não é brincadeira. É de uma raça excelente, muito resistente. Deve ter uns oito dedos de gordura. Em casa eu mesmo embutia as linguiças e comia tanta carne moída que ficava a ponto de explodir. O porco do ano passado pesava 160 quilos. Um senhor porco, meu amigo! — disse com entusiasmo e ficou apertando a mão de Švejk quando se despediam. — Eu o criei só com batatas e ficava fascinado vendo-o engordar. Deixei os presuntos na salmoura. Um bom pedaço de presunto assado servido com knedlík de batata, repolho e polvilhado de torresmo é um manjar dos deuses. Claro, não pode faltar uma cervejinha. Aí, sim, o sujeito fica tranquilo. A guerra nos tirou tudo isso.
O barbudo Baloun deixou escapar um profundo suspiro e se dirigiu ao
escritório do regimento, enquanto Švejk ia à cantina por um velho caminho ladeado por altas tílias.
Enquanto isso o intendente Vaněk estava sentado tranquilamente na cantina e
contava a um sargento-mor do alto-comando que era seu amigo quanto conseguia ganhar antes da guerra com tintas esmaltadas e vernizes para cimento.
O sargento-mor do alto-comando estava intratável. De manhã havia recebido
a visita de um rico fazendeiro de Pardubice. Um de seus filhos estava no acampamento. O homem o subornou lindamente convidando-o para ir se divertir na cidade e assim passara toda a manhã.
Agora estava desesperado, nada lhe agradava, não sabia mais do que estava
falando e nem reagia à conversa sobre os esmaltes. Estava imerso em suas próprias reflexões e balbuciava algo sobre um trem local que ia de Třeboň a Pelhřimov e depois voltava.
Quando Švejk entrou, Vaněk estava tentando explicar de novo ao sargento-
mor, com números, o que se lucrava com um quilo de verniz de cimento em uma construção. O sargento do alto-comando respondia, inteiramente fora dos trilhos:
— Morreu na viagem de volta. Só deixou algumas cartas. Ao ver Švejk, confundiu-o, obviamente, com alguém de quem não gostava e
começou a insultá-lo, chamando-o de ventríloquo.
Švejk se aproximou de Vaněk, que também estava um pouco alto, mas, no
entanto, se comportava com amabilidade e cortesia.
— Senhor intendente — comunicou-lhe Švejk —, tem que ir ao armazém
agora mesmo. O chefe de seção Fuchs o espera com dez soldados; é preciso fazer uma provisão de conservas. Tem que ir a toda pressa. O senhor tenente já telefonou duas vezes.
Vaněk deu uma gargalhada: — Seria louco se fizesse isso, meu querido. Teria que repreender a mim
mesmo, meu anjo. Temos tempo de sobra para tudo, filhinho. Só depois que tiver preparado tantas companhias de infantaria como eu o tenente Lukáš poderá falar e não ficará incomodando ninguém inutilmente, mandando que vá correndo a algum lugar. Já recebi ordens no escritório do regimento para ir pegar as coisas para a viagem, que devemos fazer as malas porque partiremos amanhã. E o que fiz? Vim tomar um quarto de litro de vinho, estou me sentindo bem e não quero me preocupar. As conservas e as rações não sairão do lugar. Conheço o armazém melhor do que o tenente e sei do que se fala nessas reuniões dos oficiais com o coronel. Essa história de que existem conservas no armazém é uma mera fantasia do coronel, fruto de sua imaginação. No armazém do nosso regimento nunca houve uma única conserva; sempre as pedimos à brigada ou a outros regimentos, conforme as circunstâncias. Só ao regimento de Benešov devemos mais de trezentas conservas. Que digam o que quiserem em suas reuniões, mas nada de pressa. O próprio encarregado do armazém dirá aos nossos, quando aparecerem, que todos ficaram loucos. Nunca nenhuma companhia de infantaria recebeu para a viagem conserva alguma. Não é mesmo, velha batata? — dirigiu-se ao sargento-mor do alto-comando. Mas este continuava cochilando ou delirava porque respondeu:
— Quando caminhava, ela carregava um guarda-chuva acima da cabeça. — A melhor coisa que se pode fazer — continuou o intendente Vaněk — é
não se preocupar com nada. Hoje alguém disse no escritório do regimento que vamos partir amanhã, mas nem uma criança pequena acreditaria nisso. Poderemos partir sem vagões? Eu estava lá quando ligaram para a estação e lhes disseram que não há um único vagão livre. Com a última companhia, passei dois dias esperando na estação que alguém se apiedasse da gente e mandasse um trem nos buscar. E quando subimos no trem, ficamos sem saber para onde estávamos sendo levados. Nem o coronel sabia. Depois de atravessar toda a Hungria, ninguém sabia qual era o nosso destino, se a Sérvia ou a Rússia. Em cada estação, falávamos diretamente com o estado-maior da divisão. A verdade é que nós não passávamos de uma espécie de remendo. Finalmente fomos enviados para perto de Dukla, onde fomos destroçados e tivemos que nos formar de novo. É por isso que eu digo: não devemos nos apressar. Com o tempo tudo será esclarecido. É isso. Estamos aqui de novo?
“Hoje em dia eles têm aqui um vinho extraordinário”, continuou Vaněk, sem
perceber que o sargento-mor do alto-comando balbuciava, dizendo para seus botões, em alemão: “Acredite em mim, até agora mal consegui experimentar os prazeres da vida. É surpreendente.”
— Por que deveria me preocupar à toa com a partida do batalhão? A
primeira companhia de que fiz parte ficou pronta em um par de horas. As outras companhias do nosso batalhão precisaram de dois dias para se preparar, mas o comandante da nossa, o subtenente Přenosil, um convencido, nos disse: “Não precisam se apressar, rapazes”, e tudo correu muito bem. Começamos a fazer as malas duas horas antes da partida do trem. Você faria melhor se também se sentasse...
— Não posso — disse o bom soldado Švejk, com grande abnegação —,
devo ir ao escritório para o caso de alguém telefonar.
— Então vá, meu querido, mas lembre-se por toda a vida que isso não é
legal de sua parte. Um bom ordenança nunca deve estar onde precisam dele. Não deve cumprir suas tarefas com muito entusiasmo. Não há nada mais feio do que um ordenança enlouquecido que quer devorar toda a guerra, meu querido.
Mas Švejk já havia atravessado a porta e se dirigia às pressas ao escritório de
sua companhia.
Vaněk ficou sozinho, ou melhor, abandonado, porque não se podia dizer de
nenhuma maneira que o sargento-mor do alto-comando lhe fizesse companhia.
Este estava completamente abstraído e, acariciando a taça de vinho, balbuciava
coisas estranhas, sem pé nem cabeça, misturando o tcheco com o alemão:
— Passei muitas vezes por esta aldeia sem ter a mais remota ideia de que
estava no mundo. Dentro de meio ano terei feito as provas e aí serei doutor. Me transformei em um velho inválido, obrigado, Lucie. Os livros que acabam de ser publicados são primorosos, talvez algum de vocês se lembre.
Para passar o tempo, o intendente começou a batucar uma marcha na mesa,
mas não se entediou durante muito tempo. A porta foi aberta e entrou Jurajda, o cozinheiro do refeitório dos oficiais, que se deixou cair em uma cadeira.
— Hoje recebemos uma ordem. Deveríamos buscar conhaque para a viagem
— disse. — E, como não tínhamos nenhuma garrafa vazia, tivemos que esvaziar as de rum. Que trabalheira! Os rapazes da cozinha desabaram por completo. Eu me distraí e preparei algumas rações a menos e, como o coronel se atrasou, quando chegou não havia sobrado nada para ele. Por isso agora estão lhe preparando uma fritada. Vocês estão achando engraçado!
— Foi uma boa aventura — observou Vaněk, que gostava de usar palavras
solenes sempre que bebia.
O cozinheiro Jurajda começou a filosofar, coisa que combinava com sua
antiga profissão. Antes da guerra, Jurajda era diretor de uma revista ocultista e editor da coleção Mistérios da vida e da morte.
Durante a guerra, se refugiara na cozinha dos oficiais e amiúde queimava
algum assado, sobretudo quando mergulhava na leitura da tradução dos antigos sutras hindus Pragnâ-Paramitâ (A sabedoria revelada).
O coronel Schröder gostava dele porque o considerava uma raridade; de
fato, que cozinha de oficiais podia se jactar de ter um cozinheiro ocultista que, penetrando nos mistérios da vida e da morte, fosse capaz de surpreender os comensais com uma excelente vitela ao molho de creme de leite ou um delicioso refogado? O próprio subtenente Dufek, quando foi ferido mortalmente na batalha de Komarov, não parara de chamar por Jurajda.
— Sim — disse de repente Jurajda, que mal conseguia se sustentar na
cadeira e fedia a rum a quilômetros de distância —, hoje não sobrou nada para o coronel. Quando chegou e viu que só restavam batatas cozidas, caiu em estado de Gaki. Sabe o que é Gaki? É o estado das almas famintas. Então eu lhe disse: “Prezado coronel, o senhor tem forças suficientes para suportar a decisão do destino, que resolveu que não sobrariam rins de vitela? No carma está escrito que hoje, no jantar, lhe será servida uma fabulosa fritada e fígado de vitela ensopado.”
Depois de um tempo, o cozinheiro, fazendo, involuntariamente, um gesto
com a mão e derrubando todos os copos que estavam na mesa diante dele, disse ao intendente:
— Querido amigo, todas as aparências, formas e objetos são imateriais. A
forma é imaterialidade e a imaterialidade é forma. A imaterialidade não é diferente da forma, a forma não é diferente da imaterialidade. O que é imaterialidade é forma e o que é forma é imaterialidade.
O cozinheiro ocultista cobriu-se com o véu do silêncio, apoiou a cabeça nas
mãos e ficou contemplando a mesa coberta pelos líquidos que derramara.
O sargento-mor do alto-comando continuou balbuciando alguma coisa sem
pé nem cabeça:
— O trigo desapareceu dos campos. Desapareceu. Com este estado de
espírito recebeu o convite e foi vê-la. As festas de Pentecostes acontecem na primavera.
O intendente Vaněk continuou batucando o ritmo de marchas militares na
mesa. Bebia e de vez em quando recordava que dez soldados e o chefe de seção estavam esperando por ele no armazém.
Cada vez que pensava nisso sorria e fazia com a mão um gesto de esquecer. Quando, mais tarde, voltou ao escritório da 11ª Companhia, encontrou
Š vejk sentado ao lado do telefone.
— A forma é imaterialidade e a imaterialidade é forma — disse. Desabou no catre e adormeceu imediatamente.
Švejk continuava sentado ao lado do telefone. Fazia duas horas que o tenente
Lukáš ligara e lhe dissera que ainda estava reunido com o coronel. No entanto, o tenente se esquecera de lhe dizer que já podia se afastar do aparelho.
Depois ligara o chefe de seção Fuchs e dissera que durante todo aquele
tempo não apenas estava esperando em vão pelo intendente, mas que, além disso, o armazém estava fechado. Finalmente foi embora e os dez homens voltaram aos seus barracões.
De vez em quando Švejk se distraía, pegava o fone e ficava escutando. O
telefone dispunha de um novo sistema que acabara de ser introduzido no exército. Tinha a vantagem de permitir que fossem ouvidas, nitidamente, as conversas de toda a linha.
A intendência e o quartel de artilharia se insultavam mutuamente, os
sapadores ameaçavam o correio militar, a artilharia do exército protestava contra a seção de metralhadoras.
E Švejk continuava sentado ao lado do telefone... A reunião com o coronel se prolongou.
O coronel Schröder desenvolveu sua nova teoria de tática militar. Deu
especial ênfase à questão dos lançadores de minas e falou de tudo o que era conhecido e por conhecer, de como o front se estendera em dois meses ao leste e ao sul, da importância da perfeita conexão entre as diferentes partes do exército, dos gases tóxicos, do bombardeio dos aviões inimigos, do abastecimento dos soldados no campo de batalha. Depois passou a tratar da situação interna do exército.
Prolongou-se sobre as relações que os oficiais deviam manter com os
soldados e vice-versa, a adesão ao inimigo no front, os acontecimentos políticos e o fato de que cinquenta por cento dos soldados tchecos eram “politicamente suspeitos”.
— É isso mesmo, senhores, está aí o exemplo de Kramarsch, Schneider e
Klofatsch.52
Enquanto fazia seu discurso, a maioria dos oficiais se perguntava quando
aquele velho pararia de dizer besteiras. Mas o coronel Schröder, impávido, continuou falando dos novos deveres dos batalhões, dos oficiais de regimento tombados, dos zepelins, dos cavaleiros espanhóis, do juramento dos soldados.
Ao ouvir este último item, o tenente Lukáš recordou que o bom soldado
Š vejk não participara do juramento que todo o batalhão fizera coletivamente porque, naquele momento, estava diante do tribunal da divisão.
E, de repente, não pôde evitar explodir em uma gargalhada. Foi uma espécie
de risada histérica com a qual contagiou alguns dos oficiais que estavam sentados ao seu lado. Com isso atraiu a atenção do coronel que, naquele momento, começara a falar das experiências adquiridas durante a retirada das tropas alemãs nas Ardenas. Confundiu tudo e concluiu:
— Senhores, não há motivos para rir.
Então foram todos para o cassino dos oficiais, porque o coronel Schröder
fora chamado ao telefone pelo estado-maior da brigada.
Švejk continuava meio adormecido ao lado do telefone quando uma ligação o
tirou de seu sonho.
— Ouça — ouviu —, é do escritório do regimento? — Diga — respondeu. — É do escritório da 11ª Companhia. — Não perca tempo — disse a voz —, pegue um lápis e tome nota. Chegou
um telegrama...
— A 11ª Companhia...
Seguiram-se algumas frases pronunciadas no meio de um caos terrível,
porque pela mesma linha, naquele momento, a 12 ª Companhia falava com a 13ª. O telegrama se perdeu por completo naquela confusão de vozes. Švejk não entendeu uma única palavra. Por fim, se restabeleceu o silêncio e Švejk distinguiu as seguintes palavras:
— Alô, alô, ouça, leia-o inteiro sem perder tempo. — O que é que eu tenho que ler?
— O que é que você tem que ler, imbecil? O telegrama! — Que telegrama?
— Pelo amor de Deus, você é surdo ou o quê? O telegrama que acabei de lhe
ditar, estúpido!
— Eu não ouvi nada, alguém estava falando na linha. — Idiota! Você quer me fazer perder tempo ou o quê? Bem, quer receber o
telegrama ou não? Tem papel e lápis? Ou tenho que esperar que vá buscá-los? Que bando de soldados! Agora sim? Está preparado? Até que enfim reagiu! Você foi trocar de roupa para a ocasião, idiota? Bem, ouça? 11ª Companhia de Infantaria. Repita!
— 11ª Companhia de Infantaria... — Comandante da companhia... Anotou? Repita!
— Comandante da companhia...
— Amanhã, para a reunião das... Anotou? Repita!
— Amanhã, para a reunião das...
— Nove horas, para a assinatura... Você sabe o que significa assinatura, seu
abobalhado? Repita!
— Nove horas, para a assinatura... Você... sabe... o que... significa...
assinatura... seu... abobalhado... repita...
— Burro, estúpido! Pois bem... a assinatura: Coronel Schröder, imbecil!
Entendeu? Repita!
— Coronel Schröder, imbecil! — Bem, imbecil. Quem recebeu o telegrama?
— Eu.
— Por Deus, quem é esse eu?
— Švejk. Algo mais?
— Mais nada, graças a Deus. Mas você deveria se chamar Imbecil. O que há
de novo por aí?
— Nada, tudo está velho.
— Você está bem feliz, não é mesmo? Dizem que amarraram um de vocês
— Você está bem feliz, não é mesmo? Dizem que amarraram um de vocês
hoje.
— Só o ordenança do tenente porque devorou toda a comida dele. Você sabe
quando partimos?
— Homem, que pergunta! Nem o velho sabe! Boa noite e que os percevejos
o devorem.
Švejk desligou e tentou acordar Vaněk. O intendente resistiu furiosamente e,
quando Švejk o sacudiu, deu-lhe um soco no nariz. Depois se esticou de boca para baixo e começou a espernear no catre.
Mas Švejk conseguiu despertá-lo. Vaněk deu meia-volta e, esfregando os
olhos, perguntou, assustado, o que estava acontecendo.
— Nada importante, nem de longe — respondeu Švejk —, só gostaria que
me desse um conselho. Acabamos de receber um telegrama segundo o qual amanhã, às nove, o tenente Lukáš tem que se reunir com o coronel. E não sei o que fazer. Devo informá-lo agora mesmo ou será melhor esperar até amanhã de manhã? Fiquei por um bom tempo indeciso, pensando se seria necessário acordar o senhor ou não, pois roncava tão à vontade! Mas depois me disse: não importa, é melhor pedir um conselho...
— Pelo amor de Deus! Me deixe dormir, eu lhe suplico! — gemeu Vaněk
bocejando com a boca completamente aberta. — Espere até amanhã de manhã e não me acorde!
Deu meia-volta e logo adormeceu.
Švejk voltou ao telefone, se sentou e cochilou com a cabeça apoiada na mesa.
Foi despertado por uma nova chamada.
— Alô, 11ª Companhia de Infantaria? — Sim, 11ª Companhia de Infantaria. Quem está falando? — 13ª Companhia de Infantaria falando. Alô. Que horas são? Não consigo
ligar para a central. Faz muito tempo que não vêm me substituir. Nosso relógio parou.
— Então vocês estão no mesmo barco que a gente. Não sabe quando
partimos? Falou com o escritório do regimento?
— Lá não sabem de merda nenhuma.
— Não seja grosseira, senhorita. Vocês receberam conservas? O nosso
pessoal foi buscar mas não trouxe nada. O armazém estava fechado.
— Os nossos também voltaram com as mãos vazias. — Todo esse pânico não tem razão de ser. Aonde você acha que iremos? — Para a Rússia.
— Eu diria que provavelmente para a Sérvia. Ficaremos sabendo em Pest. Se
marcharmos para a direita, então estaremos indo para a Sérvia; à esquerda, para a Rússia. Vocês já receberam os sacos de pão? É verdade que aumentarão nosso salário? Você joga
frische viere?53 Sim? Então apareça amanhã. Nós jogamos todas as noites. Quantos vocês são para atender o telefone? Só você? Então esqueça e vá dormir. Como são estranhos os seus regulamentos! Ei, finalmente vieram me substituir! Durma bem!
E, de fato, Švejk adormeceu ao lado do telefone, esquecendo-se de colocar o
fone no gancho, de maneira que não foi incomodado por nenhuma outra ligação. Enquanto isso o telefonista do escritório do regimento blasfemava porque não conseguia falar com a 11ª Companhia de Infantaria, para a qual tinha outro telegrama que exigia que às doze horas do dia seguinte fosse informado o número de soldados que não haviam sido vacinados contra o tifo.
Enquanto isso o tenente Lukáš continuava no cassino dos oficiais em
companhia do médico militar Šancler, que, sentado na cadeira com o encosto virado para a frente, a intervalos regulares batia com um taco de bilhar no chão, dizendo as seguintes frases:
“O sultão sarraceno Salah-Edin foi o primeiro a reconhecer a neutralidade
do corpo de saúde pública. É necessário cuidar dos feridos de ambos os lados. Deve-se pagar seus remédios e a assistência médica em troca de uma indenização dos gastos por parte dos seus. Deve ser permitido o envio de médicos e auxiliares de enfermagem com o devido salvo-conduto dos generais. Os prisioneiros feridos têm de ser devolvidos com a proteção e a garantia dos generais ou então serem usados como moeda de troca. Depois podem continuar no serviço. Os enfermos de ambos os lados não devem ser capturados nem sacrificados, mas transferidos aos hospitais de uma maneira segura. Deve-se permitir que fiquem sob a guarda de homens que, assim como os enfermos, poderão regressar mediante a apresentação de um salvo-conduto dos generais. Isto é válido também para os capelães, médicos, cirurgiões, farmacêuticos, auxiliares de enfermagem e outras pessoas que prestam serviço aos doentes. Estes não devem ser capturados e, sim, devolvidos.”
O doutor Šancler já havia quebrado dois tacos de bilhar e ainda não
terminara de explicar aquela estranha maneira de dar assistência aos enfermos e aos feridos de guerra, misturando na conversa, sem parar, frases sobre salvo-condutos de generais.
O tenente Lukáš terminou o café preto e foi para casa, onde encontrou o
gigante barbudo Baloun, que estava fritando um salame em um fogareiro a álcool que lhe pertencia.
— Tomei a liberdade — balbuciou Baloun —, me permiti, humildemente... Lukáš olhou para ele. Nesse momento, Baloun lhe pareceu um menino
grande, um ser inocente, e de repente lamentou muito ter mandado amarrá-lo por causa de seu apetite insaciável.
— Continue cozinhando, Baloun — disse, desamarrando o sabre. —
Amanhã farei com que lhe deem uma ração dupla de pão.
O tenente Lukáš sentou-se à mesa. Sentia-se tão triste que começou a
escrever uma carta para sua tia.
Querida tiazinha,
Acabo de receber a ordem de ficar preparado para ir ao front
com minha companhia.
Talvez esta seja a última carta que você receberá porque a
batalha é dura e nossas baixas são numerosas. Por isso me é difícil concluir esta carta com as palavras até logo.
Seria mais compatível com a situação lhe enviar um último
adeus.
“Escreverei o resto amanhã de manhã”, pensou o tenente Lukáš, e foi se
“Escreverei o resto amanhã de manhã”, pensou o tenente Lukáš, e foi se
deitar.
Ao ver que o tenente dormia profundamente, Baloun começou a farejar e a
xeretar como as baratas fazem à noite. Abriu a mala do tenente e deu uma mordida num tablete de chocolate, mas ao perceber que o tenente estava inquieto, assustou-se e voltou a guardar o chocolate mordido na mala. Então conseguiu se acalmar um pouco.
Foi olhar com cuidado, sem fazer ruído, o que o tenente havia escrito. Ao ler
aquilo, ficou comovido com a história do último adeus.
Jogou-se em seu colchão de palha ao lado da porta e recordou sua casa e as
matanças de porco. Imaginou que estava espetando uma salsicha para liberar o ar e a tripa não arrebentasse ao cozinhar. E, recordando como um dos vizinhos havia arrebentado e passado do ponto, dormiu um sono inquieto.
Sonhou que convidara um açougueiro incompetente que deixava as tripas do
embutido arrebentar antes de enchê-las. No sonho seguinte, o açougueiro esquecera de preparar salsichas, no outro havia perdido a carne moída e não tinha tripas suficientes. Mais tarde sonhou que o submetiam a um julgamento sumaríssimo porque o haviam flagrado roubando um pedaço de carne da cozinha de campanha. Por fim viu a si mesmo pendurado em uma tília do caminho do acampamento militar de Most nad Litavou.
Quando Švejk acordou ao amanhecer, penetrava no escritório o cheiro de café enlatado procedente da cozinha de todas as companhias. Colocou, mecanicamente, o fone no gancho, como se tivesse acabado de falar ao telefone. Depois deu um pequeno passeio pela sala, cantando alegremente.
Começou pela metade de uma canção que falava de um soldado que se
disfarçara de mulher e fora ver sua amada no moinho, onde o moleiro o colocara para dormir ao lado de sua filha depois de ter chamado a moleira:
Mãe, prepare uma boa comida
e que esta jovem seja servida.
A moleira dá de comer ao sem-vergonha. E a tragédia familiar continua:
Quando os moleiros se levantaram
sobre a porta escrito encontraram: “Vossa filha, apreciada na comunidade,
hoje perdeu a virgindade.”
Švejk cantou o final da canção com voz tão estrondosa que o escritório se
animou, quer dizer, o intendente Vaněk acordou e perguntou a hora.
— Acabaram de tocar a alvorada.
— Só levantarei depois do café — decidiu Vaněk, que sempre tinha tempo
suficiente para tudo. — De qualquer maneira, nos farão mergulhar até o pescoço como ontem na história das conservas...
Vaněk bocejou e perguntou se, na noite anterior, quando chegou em casa,
havia dito muitas coisas...
— Disse apenas algumas que não vinham ao caso — respondeu Švejk. —
Não parava de falar de uma espécie de formações, que uma formação não é uma formação e que o que não é uma formação é uma formação e que essa formação não é uma formação. Mas logo foi vencido pelo cansaço e começou a fazer um ruído semelhante ao de um serrote quando corta um tronco.
Švejk fez uma pausa, voltou a caminhar pelo escritório e parou diante do
catre do intendente, dizendo:
— No que me diz respeito, senhor intendente, quando ouvi o que dizia
sobre as formações, pensei em um tal de Zátka que trabalhava em uma central de gás do bairro de Letná: seu trabalho consistia em acender e apagar as luzes dos postes. Era um homem instruído e, como o intervalo entre o momento de apagar e de acender as luzes era muito longo, se entediava e frequentava todas as tavernas do bairro, e de madrugada costumava dizer coisas, assim como o senhor. “O dado é um ângulo, por isso o dado é anguloso.” Eu vi isso com meus próprios olhos num dia em que um policial bêbado me levou, por ter sujado a rua, àquela central de gás ao invés de ter me levado à delegacia. O Zátka acabou muito mal — continuou Švejk em voz baixa. — Entrou para a congregação de Maria e com outros cordeiros celestiais começou a frequentar as prédicas do capelão
Jemelka54 na igreja de Santo Ignacio, na praça Carlos. Depois, uma vez se esqueceu de apagar as luzes de sua zona e por isso elas ficaram acesas durante três dias e três noites. É péssimo quando alguém começa a se enredar com filosofias — continuou Švejk. — Sempre acaba em delirium tremens. Muitos anos atrás transferiram para o nosso regimento um tal de capitão Blüher, do 75º. Uma vez por mês, religiosamente, este homem mandava que nos formássemos em quadro e começava a meditar conosco sobre a superioridade militar. A única coisa que bebia era slivovitz. “Soldados!”, nos dizia no pátio do quartel, “todo oficial é por natureza o ser mais perfeito e é cem vezes mais inteligente que todos vocês juntos. Não há nada mais perfeito do que um oficial, soldados. Vocês não chegarão a tanta perfeição nem mesmo que passem toda a vida tentando. Cada oficial é um ser necessário, enquanto vocês são seres acidentais. Vocês podem existir, mas não é imprescindível que existam. Se houvesse uma guerra, soldados, e vocês tombassem em nome de Sua Majestade o Imperador, isso não seria nada, com isso nada mudaria, mas se vosso oficial tombasse antes, então veriam até que ponto dependem dele e quão imensa perda isso representaria. O oficial tem de existir e vossa existência se deve unicamente aos senhores oficiais, porque sem eles não conseguiriam sobreviver, sem sua superioridade não conseguiriam nem soltar um peido. Para vocês, soldados, um oficial é uma lei moral, tanto se entendem ou não, e, como cada lei tem seu legislador, para vocês este é o oficial, soldados, diante do qual todos vocês têm que se sentir obrigados a, sem exceção, cumprir suas ordens, gostando ou não”.
“Um dia, quando terminou sua reflexão, começou a caminhar ao redor do
quadro e perguntou a um depois do outro: ‘O que você sente quando se atrasa?’
“Os soldados lhe davam respostas confusas, como, por exemplo, que nunca
“Os soldados lhe davam respostas confusas, como, por exemplo, que nunca
se atrasavam, ou que toda vez que se atrasavam ficavam com dor de barriga, outros diziam que não gostavam de ficar presos no quartel e assim por diante. O capitão Blüher ia afastando todos para um lado e os condenava a passar a tarde inteira fazendo exercícios no pátio por não terem sabido expressar seus sentimentos. Quando chegou minha vez, me lembrei do tema da última meditação do capitão e assim, quando se plantou diante de mim, lhe disse com a maior tranquilidade do mundo:
“‘Humildemente, senhor capitão, quando me atraso sinto uma espécie de
angústia, de medo, de arrependimento. No entanto, quando tenho tempo de sobra e chego ao quartel antes da hora, apodera-se de mim uma espécie de alegre tranquilidade e me invade uma sensação interior.’
“Todos os soldados que estavam por perto riram, mas o capitão Blüher
gritou comigo:
“‘A única coisa que se apodera de você e que o acomete são os percevejos
quando está roncando em seu catre, baderneiro! E este sem-vergonha ainda acha graça!’
“E mandou que me colocassem nos ferros, coisa que não foi nem um pouco
divertida.”
— Isso é muito comum no exército — disse o intendente, se esticando com
preguiça no catre —, nem Deus escapa: faça o que fizer, responda o que responder, sempre haverá uma nuvem pairando sobre sua cabeça da qual mais cedo ou mais tarde começarão a desabar raios e trovões. Sem isso a disciplina não é possível.
— Muito bem dito — observou Švejk. — Nunca conseguirei esquecer
como prenderam o recruta Pech. O tenente da companhia era um tal de Moc; um dia este homem reuniu todos os soldados e perguntou de onde procediam: “Recrutas pirralhos, malditos”, disse, “vocês têm de aprender a dar respostas claras e precisas em um segundo. Comecemos. De onde você é, Pech?”. Pech era uma pessoa culta e respondeu: “De Dolní Boušov, Unter Bautzen, 267 casas, 1.936 habitantes tchecos, província de Jičín, distrito de Sobotka, antigo feudo de Kost, igreja paroquial de Santa Catarina do século quatorze, reconstruída pelo conde Václav Vratislav de Netolice, escola, correios, telégrafos, estação da estrada de ferro comercial tcheca, usina de açúcar, serraria, uma fazenda isolada chamada Valcha, seis feiras anuais.” Neste momento o tenente Moc se atirou em cima dele, começou a sacudi-lo e gritou: “Aqui estão suas feiras, aqui está a primeira, aqui a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, a sexta.” E Pech, embora fosse recruta, teve de enfrentar um conselho de guerra. Então nos escritórios havia alguns jovens muito engraçados que escreveram que Pech estava se apresentando ao conselho de guerra por causa das feiras anuais de Dolní Boušov. O comandante do batalhão era um tal de capitão Rohell. “O que está acontecendo?”, perguntou a Pech, e este começou: “Humildemente, senhor, em Dolní Boušov há seis feiras anuais.” O capitão gritou com ele de uma maneira terrível, chutou-o e o enviou à seção de loucos do hospital militar; desde então Pech se transformou no pior de todos os soldados e só se dedica a colecionar castigos.
— É difícil educar soldados — disse o intendente Vaněk, bocejando. — Um
soldado que nunca foi castigado não é um soldado de verdade. Talvez em tempos de paz um soldado que terminava o serviço militar sem ter sido castigado tivesse melhores oportunidades na vida civil. No entanto, hoje em dia os piores soldados, aqueles que vivem encarcerados, são exatamente os melhores. Recordo um soldado da 8ª Companhia de Infantaria chamado Sylvanus. No começo o castigavam sem parar, e que castigos! Não tinha vergonha nem de roubar o último cêntimo dos companheiros. Quando chegou ao campo de batalha, foi o primeiro a cortar os alambrados, aprisionou três homens e fuzilou um deles no caminho sob o pretexto de que não lhe inspirava confiança. Concederam-lhe uma medalha de prata, costuraram-lhe dois galões, e, se não o tivessem enforcado perto de Dukla, há muito tempo seria chefe de seção. Mas tiveram que pendurá-lo porque em um combate se apresentou para identificar os mortos e uma patrulha de outro regimento o flagrou depenando os cadáveres. Confiscaram-lhe oito relógios e muitos anéis. De maneira que o enforcaram no estado-maior da brigada. Isso demonstra que cada soldado tem que conquistar sua posição por conta própria — disse Š vejk, sabiamente.
O telefone tocou. O sargento-mor atendeu e reconheceu a voz do tenente
Lukáš, que queria saber o que acontecera com as conservas. Depois foram ouvidas reprovações.
— Não existem mesmo, senhor tenente, é verdade! — gritou Vaněk no
telefone. — Não há nada, tudo isso é pura imaginação da intendência. Era absolutamente inútil enviar a gente para lá. Quis telefonar. Eu estava na cantina? Quem disse isso? O cozinheiro ocultista daquela bagunça dos oficiais? Me permiti ficar ali por um momento. Prezado tenente, o senhor sabe como o cozinheiro qualificou esse pânico com as conservas? “Os horrores do nonato.” Não, senhor tenente, estou totalmente calmo. O que Švejk está fazendo? Está aqui. Quer que o chame?
— Švejk, ao telefone! — disse o intendente, e acrescentou em voz baixa: —
Se lhe perguntar como estava quando voltei para casa, diga que perfeitamente.
Švejk ao telefone:
— Švejk, humildemente, senhor. — Ouça, Švejk, o que aconteceu com as conservas? Algum problema? — Senhor, não há o menor rastro das conservas.
— Švejk, eu gostaria que, enquanto estivermos no acampamento, você se
apresente a mim toda manhã. Quando partirmos, terá que estar sempre ao meu lado. O que fez durante a noite?
— Fiquei ao lado do telefone.
— Houve alguma novidade?
— Sim, senhor.
— Švejk, não volte a se fazer de burro. Disseram alguma coisa importante? — Sim, senhor, mas é para as nove. Não queria molestá-lo de nenhuma
maneira, é a última coisa que gostaria de fazer.
— Pelo amor de Deus, Švejk, me diga que coisa é essa tão importante
marcada para as nove!
— Um telegrama, senhor.
— Não estou entendendo, Švejk. — Eu anotei tudo, senhor: “Receba um telegrama. Quem está ao telefone? Já
anotou? Repita!”, ou algo parecido.
— Meu Deus, Švejk, que martírio! Meu Deus, você é uma cruz que tenho de
carregar! Diga-me o conteúdo da mensagem ou lhe darei uma surra que jamais esquecerá. De que se trata, então?
— O senhor tem outra reunião, hoje de manhã, às nove, na sala do coronel.
— O senhor tem outra reunião, hoje de manhã, às nove, na sala do coronel.
Queria acordá-lo ontem à noite, mas depois repensei.
— Sorte sua não ter tentado. Incomodar-me a cada besteira quando há
tempo suficiente para fazê-lo de manhã! Outra reunião! Ao diabo com tudo! Pendure o aparelho e chame Vaněk ao telefone!
O intendente ao telefone:
— Intendente Vaněk falando, senhor tenente. — Vaněk, encontre imediatamente outro ordenança para mim. O sem-
vergonha do Baloun devorou meu chocolate à noite. Amarrá-lo? Não, o transferiremos para o serviço sanitário. É robusto como uma montanha, poderá transportar feridos no front. Vou enviá-lo imediatamente. Acerte tudo no escritório do regimento e volte em seguida à companhia. O que você acha, partiremos logo?
— Não há nenhuma pressa, senhor. Quando tínhamos que marchar com a
9ª Companhia, ficaram enchendo o nosso saco durante quatro dias. Com a 8ª aconteceu a mesma coisa. Só com a 10ª as coisas correram melhor. Então eu era ordenança de campanha. Ao meio-dia nos deram uma ordem e saímos à noite, mas depois, como recompensa, nos arrastaram por toda a Hungria sem saber que buraco tapar com a gente em algum campo de batalha.
Desde que assumira o comando da 11ª Companhia de Infantaria, o tenente
Lukáš sentia-se em um estado chamado de sincretismo, quer dizer, filosoficamente falando fazia tudo o que era humanamente possível para equilibrar conflitos conceituais, transigindo até conseguir misturar pontos de vista antagônicos.
Por isso respondeu:
— Sim, é possível, já sabemos. De modo que você acha que sairemos hoje?
Às nove tenho uma reunião com o coronel. A propósito, sabe o que significa ser chefe de serviço? Só quero... Faça-me... Espere, o que teria que me fazer? Uma relação de oficiais indicando sua antiguidade... E também as provisões da companhia. Nacionalidade? Sim, sim, também... Mas sobretudo me envie outro ordenança... O que o alferes Pleschner tem que fazer com os soldados? Preparativos para a marcha. Contas? Irei assiná-las quando tiver comido. Não deixe ninguém sair da cidade. Na cantina do acampamento? Quando tiver comido, em uma hora... Chame o Švejk. Švejk, não se afaste do telefone.
— Humildemente, senhor, ainda não tomei café.
— Pois vá buscá-lo, leve-o ao escritório e fique ao lado do telefone até
segunda ordem. Você sabe o que um ordenança tem que fazer?
— Correr de um lado a outro, meu tenente.
— Pois quando ligar quero que você esteja em seu lugar. Diga de novo a
Vaněk que vá me procurar um ordenança. Švejk, ouça! Onde você se meteu?
— Estou aqui, senhor tenente, acabam de me trazer o café. — Švejk! Ouça!
— Estou ouvindo, senhor tenente. O café está completamente frio. — Você sabe perfeitamente como deve ser um ordenança, Švejk. Preste bem
atenção nele e me diga depois que tipo de pessoa é. Desligue.
Vaněk, que estava bebendo de gole em gole o café preto, ao qual acrescentara
um pouco de rum de uma garrafa com a inscrição “tinta”, por via das dúvidas, olhou para Š vejk e disse:
— Nosso tenente grita muito quando está ao telefone. Eu ouvi cada palavra.
Você deve ser um grande amigo dele, não é mesmo, Švejk?
— Somos unha e carne — respondeu Švejk. — Hoje eu por você, amanhã
você por mim. Uma mão lava a outra. Percorremos um longo trecho juntos! Tentaram nos separar tantas vezes... E sempre voltamos a nos encontrar. Ele sempre me confia tudo, a ponto de me surpreender. O senhor mesmo ouviu o que acabou de me dizer: tem que procurar um novo ordenança e eu tenho que examiná-lo e aprová-lo. É que o tenente não se satisfaz com um ordenança qualquer.
O coronel Schröder ficava muito feliz quando convocava todos os oficiais do batalhão para uma conferência, porque isso lhe daria a oportunidade de fazer um discurso. Além disso, tinha que tomar uma decisão a respeito do voluntário Marek, que se recusara a limpar as latrinas e fora enviado pelo coronel Schröder ao tribunal da divisão por amotinação.
Precisamente na noite anterior fora levado ao quartel-general da divisão,
onde o deixaram sob vigilância. Junto com ele, o escritório do regimento recebeu um texto muito confuso do tribunal da divisão em que se dizia que, ao fim e ao cabo, não se tratava de um caso de amotinação, porque os voluntários não têm a obrigação de limpar as latrinas, mas de insubordinação, delito que podia ser perdoado se demonstrasse coragem e bravura no campo de batalha. Por este motivo, devolvia-se o acusado, o voluntário Marek, a seu regimento e a investigação da infração disciplinar era adiada para depois da guerra; não obstante, o processo do voluntário Marek seria reaberto se cometesse outro delito.
Além disso havia outro caso. Junto com o voluntário Marek levaram ao
quartel-general o falso chefe de seção Teveles, que aparecera no regimento recentemente, procedente do hospital de Zagreb. Tinha a grande medalha de prata, galões de voluntário e três estrelinhas. Havia relatado as heroicas ações que levara a cabo na Sérvia com a 6ª Companhia, da qual parecia ser o único sobrevivente. Na investigação se constatou que, de fato, no começo da guerra um tal de Teveles havia ido ao campo de batalha com a 6ª Companhia, mas este não tinha o nível de voluntário. Posteriormente foram pedidas mais informações à brigada que comandava a 6ª Companhia durante a fuga de Belgrado em 2 de dezembro de 1914 e constatou-se que, da lista dos indicados e condecorados com a medalha de prata, não fazia parte nenhum chefe Teveles. Não foi possível verificar se na companhia de Belgrado o soldado Teveles fora promovido a chefe de seção porque toda a 6ª Companhia, oficiais incluídos, se perdera perto do templo de São Sava em Belgrado. Teveles esgrimiu sua defesa diante do tribunal da divisão dizendo que de fato lhe haviam prometido a grande medalha de prata e que por este motivo a comprara de um bósnio no hospital. Em relação aos galões de voluntário, os costurara em estado de embriaguez e os continuava usando porque estava permanentemente bêbado, e seu organismo, debilitado pela disenteria.
No começo da reunião, e deixando a discussão daqueles dois casos para mais
tarde, o coronel Schröder declarou que antes da partida, que não demoraria muito, seria necessário que se reunissem mais amiúde. A brigada lhe comunicara que estavam sendo esperadas ordens da divisão. As tropas deviam estar preparadas e era necessário que os comandantes de companhia ficassem atentos para evitar que alguém faltasse. Repetiu tudo o que expusera no dia anterior, voltou a explicar o panorama dos acontecimentos bélicos e acrescentou que nada devia debilitar o espírito combativo e o ardor guerreiro do exército.
Na mesa, diante dele, estava um mapa do cenário bélico com bandeirinhas
espetadas com alfinetes, mas estas estavam muito desordenadas e as linhas do front, espalhadas. Alguns alfinetes com bandeirinhas haviam escorregado para debaixo da mesa.
O agente de tal estrago havia sido um gato que, durante a noite, devastara
todos os campos de batalha. O gato pertencia aos auxiliares de escritório do regimento; durante a noite, o felino fizera suas necessidades no cenário bélico austro-húngaro e, querendo enterrar seus excrementos, havia feito saltar todos os alfinetes com bandeirinhas, sujando suas posições, salpicando os fronts e cabeças de ponte e manchando todos os corpos do exército.
O coronel Schröder era inteiramente míope. Os oficiais do batalhão observavam com extremo interesse o dedo do
comandante se aproximando daquela porcaria.
— Daqui, senhores, de Sokal a Bug — disse o coronel com ares de profeta,
movendo o indicador em direção aos Cárpatos, obrigando-o a parar em uma daquelas montanhas com as quais o gato procurara dar forma artística ao mapa do cenário bélico. — O que é isto, senhores? — perguntou, surpreso, quando alguma coisa enganchou em seu dedo.
— Parecem excrementos de gato, meu coronel — disse em nome de todos o
capitão Ságner, muito educadamente.
O coronel Schröder correu para a sala contígua. Dali se ouviram maldições
drásticas e uma terrível ameaça: que seriam obrigados a lamber toda a porcaria do gato.
O interrogatório foi breve. Constatou-se que o auxiliar de escritório mais
jovem, Zwiebelfisch, havia levado o gato ao escritório. Depois desta constatação, ele foi obrigado a pegar suas coisas e um auxiliar de escritório mais velho levou-o ao quartel-general, onde permaneceria até nova ordem do coronel.
Com isso a reunião praticamente acabou. Quando o coronel, com a cara
púrpura, voltou para se reunir com o corpo de oficiais, se esqueceu de que ainda precisava examinar o caso do voluntário Marek e o do falso chefe de seção Teveles. Limitou-se a dizer:
— Peço aos senhores oficiais que estejam preparados para acatar minhas
ordens e instruções.
De maneira que o voluntário e Teveles ficaram no quartel-general sob
vigilância e quando, mais tarde, Zwiebelfisch se juntou a eles, puderam jogar mariáš; terminada a partida, divertiram-se aborrecendo os carcereiros, pedindo que procurassem pulgas nos colchões de palha.
Depois também enfiaram ali o cabo Peroutka, da 13ª Companhia, que
desaparecera no dia anterior quando correra a notícia da iminente partida ao front. Pela manhã a patrulha encontrou-o na taverna Bílé Růži de Most nad Litavou. O soldado se desculpou dizendo que antes de partir pretendera fazer uma última visita à famosa estufa do conde Harrach de Most nad Litavou, e que ao voltar se perdera e de madrugada, morto de cansaço, havia chegado ao Bílé Růži. (Na realidade, havia dormido com a Růženka do Bílé Růži.)
A situação continuava obscura. Partiriam ou não? Em seu posto ao telefone, Švejk ouvia as opiniões mais diversas, pessimistas e otimistas. A 12ª Companhia ligara dizendo que por intermédio de alguém do escritório haviam ficado sabendo que só partiriam para o front depois dos exercícios de tiro com alvos móveis. A 13ª Companhia não compartilhava esta visão otimista porque ligara para dizer que o cabo Havlík acabara de voltar da cidade e que um ferroviário lhe dissera que os vagões já estavam na estação, prontos para partir.
Vaněk arrancou o fone da mão de Švejk e gritou, alarmado, que os
ferroviários não tinham a menor ideia de nada e que ele acabara de voltar do escritório do regimento.
Švejk ficou ao lado do telefone com extrema dedicação e quando lhe
perguntavam o que havia de novo respondia que não sabia nada ao certo.
Assim também respondeu à pergunta do tenente Lukáš: — O que há de novo?
— Ainda não se sabe de nada ao certo, senhor tenente — foi sua resposta
estereotipada.
— Desligue, idiota!
Em seguida chegaram alguns telegramas que Švejk foi recebendo depois de
um longo mal-entendido. Antes de mais nada lhe ditaram o que não haviam conseguido lhe dizer na noite anterior quando não pendurara o fone porque adormecera; o telegrama se referia aos vacinados e aos não vacinados.
Depois chegou outro telegrama atrasado relativo às conservas, assunto que já
fora esclarecido.
Recebeu outro dirigido a todos os batalhões, companhias e pelotões do
regimento.
Cópia do telegrama da brigada número 75.692. Ordem de
brigada num. 172. Nas listas de consumo das cozinhas de campanha, quando se registrar os produtos utilizados, deve ser seguida a seguinte ordem:
1. Carne, 2. Conservas, 3. Verdura fresca, 4. Verdura seca, 5.
Arroz, 6. Massas, 7. Cevada e sêmola, 8. Batatas, em lugar da ordem anterior: 4. Verdura seca, 5. Verdura fresca.
Quando Švejk o leu para o intendente Vaněk, este declarou, solenemente, que
telegramas como aquele deviam ser atirados diretamente na latrina.
— Esta brilhante ideia deve ter ocorrido a um cretino do estado-maior e a
enviam a todas as divisões, brigadas e regimentos.
Depois Švejk recebeu outro telegrama em alemão. Foi ditado tão depressa
que mal conseguiu anotar algumas palavras, que pareciam uma mensagem cifrada:
Como consequência mais exatamente se permitiu ou pelo contrário apesar de tudo foi pedido o mesmo.
— Tudo isso são inutilidades — disse Vaněk, enquanto Švejk, surpreso pelo
que escrevera, leu, espantado, a mensagem três vezes em voz alta —, são disparates, embora, olhando bem, talvez se trate de uma mensagem cifrada. Também pode jogá-la no lixo.
— Eu também acho — opinou Švejk — que, se disser ao senhor tenente
que, como consequência mais exatamente se permitiu ou pelo contrário apesar de tudo foi pedido o mesmo, ele até poderia se irritar.
“Existem pessoas que são extremamente susceptíveis”, continuou Švejk,
submergindo em suas recordações. “Uma vez fui de bonde de Vysočany ao centro de Praga e em Libeň subiu um tal de senhor Novotný. Quando o reconheci me aproximei da plataforma e comecei uma conversa com a desculpa de que ambos éramos de Dražov. Mas ele começou a gritar comigo dizendo que não o molestasse, que não me conhecia. Eu lhe pedi que se lembrasse, que quando era pequeno ia visitá-lo com minha mãe, que se chamava Antonie e que seu pai se chamava Prokop e era granjeiro. Mas ele continuava insistindo que não nos conhecíamos. Por isso lhe contei mais detalhes: que em Dražov havia dois Novotný, Tonda e Josef, que ele era o Josef e que pessoas de Dražov haviam me informado por carta que ele atirara em sua mulher quando esta criticara seu desmedido amor pelo álcool. Então aquele homem levantou o braço para me bater, eu me afastei e ele quebrou a janela principal da plataforma dianteira, a do motorneiro. De maneira que fomos obrigados a descer e nos levaram à delegacia. Ali se descobriu que o sujeito em questão era tão susceptível porque efetivamente não se chamava Josef Novotný, mas Eduard Doubrava, e não era de Dražov, mas de Montgomery, América do Norte, e que fora a Praga visitar parentes dos quais sua família descendia.”
Uma ligação telefônica interrompeu a narrativa e uma voz rouca da seção de
metralhadoras perguntou a Švejk quando partiriam e lhe disse que naquela mesma manhã haveria uma reunião na sala do coronel.
Então surgiu na porta o cadete Biegler, muito pálido. Biegler era o maior
imbecil da companhia porque, na escola de voluntários, se esforçara para se destacar por seus conhecimentos. O cadete fez um sinal ao intendente para que fosse ao corredor e ali manteve uma longa conversa com ele.
Vaněk voltou sorrindo com desprezo. — Tem que me perguntar essas besteiras quando sabe que estamos indo ao
front? Ele também participou da reunião e quando estavam saindo o tenente Lukáš lhe ordenou que todos os chefes de seção façam uma rigorosa inspeção das armas. E agora veio me perguntar se teria que amarrar Žlábek porque limpou o fuzil com parafina.
Vaněk estava muito irritado. — Me pergunta uma besteira dessas, agora que sabe que estamos indo ao
front! Que ideia aquela do tenente de amarrar ontem seu ordenança! Mas eu já disse ao pirralho que pense duas vezes antes de tratar os soldados como animais.
— Já que está falando de ordenança — disse Švejk —, o senhor pode me
dizer se já encontrou algum para o tenente?
— Seja sensato — respondeu Vaněk —, cada coisa a seu tempo. De
qualquer maneira, acho que o tenente se habituará a Baloun. De vez em quando lhe roubará alguma comida, mas isso passará logo, assim que chegarmos ao campo de batalha. Por regra geral, em nenhum deles haverá muita comida. E se eu disser que Baloun vai ficar, então não será possível fazer nada a respeito. Esta atribuição é minha e o tenente não tem que meter o nariz. Não devemos nos apressar.
Vaněk voltou para o catre e disse: — Švejk, me conte alguma piada da vida militar. — Está bem — respondeu Švejk —, mas tenho medo de que alguém volte a
ligar.
— Então desconecte o telefone, Švejk, desenrosque o fio ou o tire do
gancho.
— De acordo — disse Švejk, tirando o fone do gancho. — Vou contar uma
coisa muito adequada a esta situação. Mas naquela vez, em vez de uma guerra de verdade, se tratava apenas de manobras, e a confusão era semelhante à de hoje porque ninguém sabia quando sairíamos do quartel. No meu regimento havia um tal de Šic, um homem bom, mas muito crente e assustadiço. Imaginava que as manobras eram uma coisa tão espantosa que as pessoas morreriam de sede e que os enfermos seriam recolhidos como fruta podre. Por isso enchia a cara à vontade, quando saímos do quartel e chegamos a Mníšek, disse: “Não aguento mais, rapazes, só Deus pode me salvar.” Depois chegamos a Hořovice e ali tivemos dois dias de folga. Fora cometido um erro de cálculo. Avançáramos tão depressa que, junto com os outros regimentos, que estavam divididos em alas, capturamos todo o estado-maior do inimigo, o que foi uma grande vergonha, porque nosso corpo devia perder e o inimigo, em cuja tropa havia um arquiduque de merda, ganhar. E aquele Šic fez o seguinte: quando estávamos acampados, foi fazer compras em uma aldeia mais além de Hořovice e retornou por volta do meio-dia. Fazia calor, ele estava de porre e de repente viu uma coluna com um pequeno armário e, dentro dele, uma pequena estátua de São João Nepomuceno. Šic rezou para São João e lhe disse: “Que calor você deve estar sentindo! Se ao menos pudesse beber um pouco. Está exposto ao sol, deve estar todo suado.” Sacudiu o cantil e, depois de ter dado uns goles, lhe disse: “Eu lhe deixei um trago, São João.” Mas repensou, bebeu tudo e não sobrou nem uma gota para São João Nepomuceno. “Meu Deus!”, disse, “o senhor tem que me perdoar, São João Nepomuceno, eu o recompensarei, o levarei ao acampamento e lhe darei tanta bebida que não aguentará ficar em pé”. E o bom do Šic, compadecendo-se de São João Nepomuceno, quebrou o vidro, tirou a estátua do santo, guardou-a sob a jaqueta e a levou ao acampamento. Então São João Nepomuceno passou a dormir com ele na palha e Šic o levava às marchas na mochila. E tinha muita sorte nas cartas. Em cada lugar onde acampávamos, ele sempre ganhava, até que chegamos à região de Práchen, acampamos em Drahenice e ali perdeu tudo, tudo, tudo. No dia seguinte, quando partíamos, vimos São João Nepomuceno pendurado no galho de uma pereira. Bem, acabei de contar a anedota, e agora vou colocar o fone no gancho.
E o telefone voltou a transmitir a agitação daquela vida inquieta que se
implantara no acampamento, substituindo a velha harmonia.
Enquanto isso, o tenente Lukáš estudava em seu quarto as mensagens
cifradas que haviam acabado de chegar do Estado-Maior, junto com as instruções para decifrá-las e uma ordem secreta cifrada que indicava a direção que o batalhão devia tomar para se dirigir à fronteira da Galícia (primeira etapa).
7217 — 1238 — 475 — 2121 — 35 = Mošon 8922 — 375 — 7282 = Raab
4432 — 1238 — 7217 — 35 — 8922 — 35 = Komárno 7282 — 9299 — 310 — 375 — 7881 — 298 — 475 — 7979 = Budapeste
Decifrando o código, o tenente Lukáš suspirou em alemão: — Que o idiota vá para o inferno!
51 Personagem de um conto de fadas tcheco. (N. do T.)
52 Três líderes políticos tchecos que foram presos por traição durante a guerra. (N. do T.)
53 Jogo de cartas alemão. (N. do T.)
54 Famoso pregador jesuíta da época. (N. do T.)