As Aventuras do Bom Soldado Švejk
15 - Catástrofe
15
Catástrofe
O coronel Bedřich Kraus, que também tinha o apelido de von Zillergut, nome de uma aldeia do distrito de Salzburg que seus antepassados haviam depenado no século dezoito, era um venerável idiota. Quando contava alguma coisa, só dizia platitudes e depois perguntava a todos se entendiam as palavras mais comuns: “Bem, uma janela, senhores, isso mesmo. Sabem o que é uma janela?”
Ou então: “Um caminho que tem dos dois lados e uma vala se chama
estrada. Sim, senhores. Sabem o que é uma vala? Uma vala é um canal cavado por mais de uma pessoa. É uma espécie de fosso. Sim, um fosso. Cava-se com uma enxada. Sabem o que é uma enxada?”
Tinha a mania de explicar e se entregava a isso com o entusiasmo de um
inventor quando fala de sua obra. “Um livro, senhores, é uma série de folhas de papel que podem ser cortadas de várias formas e depois são impressas, juntadas e amarradas. É isso. Sabem o que é cola, senhores? Cola é um adesivo.”
Era tão extraordinariamente estúpido que os oficiais o evitavam sempre que
podiam para não se expor a ouvir suas perorações, como que a calçada é uma elevação empedrada, um pouco mais alta do que a estrada, que se estende ao longo das fachadas das casas. E que uma fachada é a parte do edifício que se vê da rua ou da calçada. A parte traseira da casa não se vê da calçada, coisa fácil de comprovar, basta ir à faixa de rodagem.
Estava disposto a demonstrar aquela coisa interessante imediatamente, mas
por sorte foi atropelado. Desde então, ficou ainda mais estúpido. Parava os oficiais para entabular conversas intermináveis sobre o sol, omeletes, termômetros, rosquinhas, janelas e selos postais.
Era bastante curioso que aquele imbecil tivesse conseguido avançar na
carreira com relativa rapidez e que contasse com o apoio de pessoas muito influentes, como um importante general do alto-comando que o protegia apesar de sua absoluta incapacidade militar.
Durante as manobras, fazia verdadeiros milagres com seu regimento. Nunca
chegava a tempo em nenhum lugar, levava seus soldados a enfrentar, dispostos em colunas, metralhadoras, e em uma ocasião, alguns anos atrás, por ocasião das operações do exército imperial no sul da Boêmia, se perdera com todo o regimento; chegou à Morávia e ficou vagando com seus homens ainda vários dias depois de as manobras terem terminado, quando os demais soldados já estavam descansando no quartel. Mesmo assim foi perdoado.
Suas relações amistosas com o general do alto-comando e outros
importantes militares não menos estúpidos da velha Áustria lhe proporcionaram várias condecorações e elogios, que o deixavam extremamente orgulhoso e considerando a si mesmo como o melhor soldado sob o sol e o melhor teórico de estratégias e de todas as ciências castrenses.
Quando passava seu regimento em revista, entabulava conversas com os
soldados. E sempre lhes perguntava a mesma coisa:
— Por que no exército os fuzis são chamados de “mannlichers”? —
referindo-se à espingarda de repetição inventada por Ferdinand Ritter von Mannlicher.
No regimento era chamado de “o lunático de mannlicher”. Era terrivelmente
vingativo, triturava os oficiais de que não gostava e quando algum deles queria contrair matrimônio enviava aos superiores um informe extremamente negativo, desaconselhando que seu pedido fosse aceito.
Perdera a metade da orelha esquerda, que fora cortada na juventude por seu
adversário em um duelo porque este dissera simplesmente, não faltando à verdade, que Friedrich Kraus von Zillergut era um grandessíssimo imbecil.
Se analisássemos suas faculdades mentais, chegaríamos à conclusão de que
não eram muito melhores do que as que tornaram célebre, como notório idiota, aquele Habsburgo repugnante, Franz Joseph.
Tinham a mesma conversa fiada, a mesma ingenuidade. Em um banquete no
cassino dos oficiais, o coronel Friedrich Kraus von Zillergut fez a seguinte observação durante uma conversa sobre Schiller:
— Senhores, ontem vi um arado a vapor, e o arrastava uma locomotiva.
Imaginem, senhores, uma locomotiva! E não apenas uma, mas duas locomotivas! Vejo fumaça, me aproximo, e ora, era uma locomotiva e, ao lado dela, outra. Me digam, senhores, não é divertido? Duas locomotivas, como se uma única não fosse suficiente.
Fez uma pausa e depois de um momento observou: — Quando a gasolina acaba, o carro tem de parar. Eu vi isso ontem também.
Há quem fale de inércia. Ora bolas, não anda, fica parado, não se move, não tem gasolina. Não é divertido?
Aparte sua obtusidade, era extremamente religioso. Tinha um pequeno altar
em seu apartamento. Ia com frequência à igreja de Santo Inácio para se confessar e comungar, e desde a explosão da guerra rezava pela vitória das forças austríacas e alemãs. Misturava o cristianismo com os sonhos da hegemonia germânica. Deus tinha que ajudar na ocupação das propriedades e dos territórios dos vencidos.
Cada vez que lia em um jornal que haviam sido feito prisioneiros, ficava
louco de raiva:
— Por que prisioneiros? Deveriam fuzilar todos sem piedade. Dançar no
meio dos cadáveres! Queimar até o último civil da Sérvia! Matar as crianças a baionetadas!
Aplaudia e inclusive ia além das teses do poeta alemão Vierordt, que durante
a guerra publicou poemas pedindo que a Alemanha odiasse e matasse com alma férrea milhões de diabólicos franceses:
Que os ossos humanos e as carnes fumegantes
se juntem nas nuvens acima das montanhas...
Depois de ter terminado de dar suas aulas na escola de voluntários de um
ano, o tenente Lukáš saiu para passear com Max.
— Me permito avisá-lo, senhor tenente — disse Švejk, preocupado —, da
necessidade de ficar muito atento para que o cachorro não fuja. Se o deixar solto, sem correia, poderia começar a sentir falta de sua antiga casa e escapar. Tampouco aconselho que o leve para passear na praça Havlíček, porque ali perambula um mastim raivoso que adora morder. Quando pressente que outro cachorro está invadindo seu território, se convence de que o recém-chegado vai roubar sua comida. É como aquele mendigo da igreja de São Haštal que foi preso por estar incomodando outros mendigos.
Max começou a saltitar de alegria, passou no meio das pernas do tenente,
Max começou a saltitar de alegria, passou no meio das pernas do tenente,
enrolou a correia no sabre, enfim, manifestou um grande entusiasmo pelo passeio iminente.
Saíram de casa e o tenente Lukáš se dirigiu à avenida Na Přikopĕ, onde havia
marcado um encontro com uma dama na esquina da rua Panská. Estava totalmente absorto em pensamentos profissionais: “A respeito de que falarei amanhã na aula aos voluntários? Como se indica a altura de uma montanha? Por que se indica sempre a altura a partir do nível do mar? Como calculamos a altura de uma montanha a partir de seu pé? Caramba, por que o Ministério da Guerra insiste em inserir este tipo de coisa no programa escolar? Isto é assunto da artilharia. E, além disso, existem os mapas estratégicos. Quando o inimigo está na cota 312, geralmente não temos tempo de pensar por que a altura da montanha se dá ao rés do nível do mar, nem de fazer novos cálculos. Olhamos o mapa e pronto.”
Um estratégico “Alto!” interrompeu seus pensamentos precisamente quando
se aproximava da rua Panská.
Ao mesmo tempo em que soou aquele “Alto!”, o cachorro fez denodados
esforços para se livrar e, dando gritos de alegria, se lançou sobre o homem que pronunciara a enérgica ordem.
Diante do tenente estava o coronel Kraus von Zillergut. O tenente Lukáš
bateu continência e pediu desculpas ao coronel alegando que não o havia visto.
O coronel Kraus tinha péssima fama entre os oficiais por sua paixão de dar
alto aos militares e censurá-los. Considerava que o êxito na guerra dependia da continência e que nela se baseava toda a força do exército.
“Um soldado deve colocar a alma na continência”, costumava dizer. Aquilo era o mais perfeito exemplo do misticismo corporativo. Queria que aquele que batesse continência o fizesse de acordo com as regras,
exata e dignamente, sem esquecer o detalhe mais insignificante.
O coronel espiava todos que passavam ao seu lado, desde um soldado de
infantaria até um tenente-coronel. Levava pessoalmente ao quartel, para que fossem castigados, os soldados de infantaria que saudavam com displicência, como se dissessem “olá”, tocando levemente a viseira do quepe.
Para ele, não valia dizer: “Não vi o senhor.”
“Um soldado”, dizia, “tem que procurar seus superiores no meio do gentio e
não pensar em nada além de cumprir as obrigações constantes do regulamento de serviço. Quando tomba no campo de batalha, deve bater continência antes de morrer. Quem não sabe bater continência, quem finge que não viu ou bate com negligência, este, para mim, é um animal”.
— Senhor tenente — disse o coronel Kraus com voz aterrorizante —, os
oficiais subalternos devem sempre prestar homenagem a seus superiores. E, por outro lado, desde quando os oficiais estão habituados a sair para passear com cachorros roubados? Sim, com cachorros roubados. Um cachorro que pertence a outra pessoa é um cachorro roubado.
— Este cachorro, senhor coronel... — tentou dizer Lukáš. — Pertence a mim, senhor tenente! — interrompeu-o o coronel com dureza.
— É meu Fox.
E Fox, aliás Max, se lembrou de seu antigo dono e expulsou o novo de seu
E Fox, aliás Max, se lembrou de seu antigo dono e expulsou o novo de seu
coração: depois de se livrar, começou a pular em cima do coronel com a alegria de um adolescente que se vê correspondido por sua amada.
— Passear com cachorros roubados, senhor tenente, é uma coisa
incompatível com a honradez de um oficial. Não sabia? Um oficial não pode comprar um cachorro se não comprovar antes que pode fazê-lo sem que isso tenha consequências — continuou com voz de trovão o coronel Kraus enquanto acariciava Fox/Max, que começou a grunhir de maneira vil e a mostrar os dentes para o tenente como se o coronel o tivesse apontado e ordenado: “Pegue-o!”
— Senhor tenente — continuou o coronel —, o senhor considera correto
montar em um cavalo roubado? Por acaso não leu o anúncio do Bohemie e do Prager Tagblatt que dizia que eu havia perdido um cachorro pinscher? O quê? O senhor não leu o anúncio que seu superior publicou nos jornais?
O coronel levantou as mãos para o céu.
— Realmente, estes jovens oficiais! Onde está a disciplina? O coronel publica
um anúncio nos jornais e o tenente não o lê!
“Se pudesse lhe dar um par de bofetadas, velho asqueroso”, pensava o
tenente Lukáš ao mesmo tempo em que observava as costeletas do coronel, que lhe davam a aparência de um orangotango.
— Acompanhe-me por um momento — ordenou o coronel. Assim, enquanto caminhavam juntos, tiveram a seguinte conversa, bastante
agradável:
— No front, caro tenente, o senhor não terá oportunidade de fazer uma
coisa deste tipo. No entanto, passear com um cachorro roubado é mesmo muito agradável, não é verdade? Sim, passear com um cachorro que foi roubado de seu superior! Precisamente em um momento como este, quando a cada dia perdemos centenas de oficiais no campo de batalha. E os anúncios não são lidos! Eu poderia passar cem anos publicando uma nota no jornal anunciando que havia perdido um cachorro. Duzentos anos, trezentos anos!
O coronel assoou o nariz ruidosamente, o que em seu caso era sempre um
sintoma de uma grande fúria, e disse:
— Pode continuar passeando.
Deu meia-volta e partiu, irritado, golpeando com o chicote a borda do seu
manto de oficial.
O tenente Lukáš atravessou a rua, mas ainda teve tempo de ouvir outro
“Alto!”. O coronel acabara de parar um pobre soldado de infantaria, um reservista que pensava em sua mãe que estava em casa e não notara sua presença.
O coronel levou-o pessoalmente ao quartel para que recebesse o devido
castigo, chamando-o de porco-marinho.
“O que vou fazer com o Švejk?”, pensava o tenente. “Vou quebrar sua cara,
mas isso não será suficiente. Mesmo arrancar sua pele em tiras é pouco para esse sem-vergonha.”
Sem se preocupar com o encontro que marcara com uma dama e enfurecido,
resolveu voltar para casa.
“Eu vou matá-lo, seu porco miserável”, disse a si mesmo ao se sentar no
bonde.
Enquanto isso, o bom soldado Švejk estava imerso em uma conversa com o ordenança da caserna. O soldado havia levado ao tenente documentos que precisavam ser assinados e esperava por ele.
Švejk lhe ofereceu café e, enquanto conversavam, confirmavam mutuamente
que a Áustria seria esmagada.
Falavam disso como se fosse a coisa mais certa do mundo. Esta conversa
consistia em uma série interminável de frases; cada palavra poderia ser considerada pelo tribunal militar como uma prova de alta traição e os dois seriam enforcados.
— O senhor imperador deve estar absolutamente pasmo diante do que está
acontecendo — disse Švejk. — Ele nunca foi esperto, mas esta guerra certamente vai acabar com ele.
— É um idiota! — completou com segurança o soldado da caserna. —
Idiota como uma pedra. É provável que nem saiba que estamos em guerra. É possível que tenham tido vergonha de lhe contar. E, no que se refere à presença de sua assinatura no manifesto ao povo do seu império, trata-se de uma farsa. Mandaram imprimi-la sem seu conhecimento. Ele não consegue mais pensar em nada.
— Está acabado — acrescentou Švejk com ar pedante. — Mija nas calças e
têm que lhe dar de comer como se fosse uma criancinha. Não faz muito, na taverna, um homem contava que o imperador tem duas amas de leite que lhe dão o peito três vezes ao dia.
— Quem dera que tudo acabasse logo! — suspirou o soldado. — Que nos
deem uma surra, mas que a Áustria volte a viver em paz de uma vez por todas.
E os dois continuaram conversando, até que, finalmente, Švejk condenou a
Áustria com estas palavras definitivas:
— Uma monarquia tão estúpida como esta nem deveria existir — e o outro
acrescentou, talvez para dar um caráter prático àquela sentença:
— Assim que chegar ao front, vou tomar um chá de sumiço. Continuaram interpretando as opiniões da média do povo tcheco sobre a
guerra; o soldado da caserna repetia que naquele dia ouvira dizer em Praga que era possível ouvir os canhões disparando em Náchod e que o czar estava prestes a entrar na Cracóvia.
Depois, comentaram o fato de o nosso trigo estar sendo enviado para a
Alemanha e de os soldados alemães receberem cigarros e chocolates.
Então recordaram a época das antigas guerras. Švejk disse, seriamente, que
antes, quando lançavam bacias cheias de excrementos sobre o castelo assediado, guerrear no meio de tanto fedor não devia ser nenhum mel. Que havia lido que uma vez um castelo fora assediado durante três anos e que o inimigo não parara de se divertir todos os dias com brincadeiras desse tipo.
Teriam, certamente, relatado outras coisas muito interessantes e instrutivas se
a chegada do tenente Lukáš não tivesse interrompido seu colóquio.
Com um olhar fulminante que pretendia aniquilar Švejk, Lukáš assinou os
documentos e, depois de despachar o soldado, fez um sinal a Švejk para que o acompanhasse ao quarto.
Os olhos do tenente faiscavam de maneira terrível. Sentou-se em uma cadeira
e, sem parar de olhar para Švejk, ficou pensado em quando deveria dar início ao massacre.
“Primeiro lhe darei um par de bofetadas”, dizia a si mesmo o tenente, “e
então quebrarei seu nariz, arrancarei suas orelhas e depois veremos o que fazer”.
Tinha diante dele um par de olhos bondosos e inocentes que o observavam
sincera e amavelmente. Švejk ousou interromper o silêncio que precedia a tormenta com estas palavras:
— Humildemente, senhor, comunico que perdeu a gata. Comeu graxa de
sapato e se permitiu morrer. Atirei-a no porão, mas no do vizinho. Nunca mais o senhor vai achar uma gata angorá tão boazinha e tão bonita.
“O que faço com ele?”, se perguntava o tenente. “Tem uma expressão tão tola,
meu Deus!”
Os olhos bondosos e inocentes de Švejk irradiavam mansidão e candura,
combinando com um perfeito equilíbrio anímico, como se nada tivesse acontecido, e, se alguma coisa tivesse acontecido, então tudo também estaria em ordem, não teria acontecido absolutamente nada.
O tenente Lukáš deu um pulo, mas não atingiu Švejk como havia pretendido
inicialmente. Agitou o punho diante de seu nariz e gritou:
— Švejk, você roubou o cachorro! — Humildemente, senhor, não sei nada de nenhum caso parecido com este
que tenha acontecido nos últimos tempos e me permito fazer uma observação: à tarde o senhor saiu com Max para passear e por isso não pude roubá-lo. Depois percebi que o senhor voltou sem o cachorro e que por isso alguma coisa devia ter acontecido. Chamamos isto de circunstância. Na rua Spálená vive um seleiro de nome Kuneš que não conseguia sair para passear com o cachorro sem perdê-lo. Habitualmente o esquecia em alguma taverna ou então o roubavam ou pediam emprestado e não voltava...
— Švejk, seu bastardo, feche esta boca! Você é um canalha refinado ou um
asno, um idiota completo. Não para de me dar exemplos, mas vou avisá-lo: não brinque comigo. De onde você tirou o cachorro? Como o conseguiu? Não sabe que o cachorro pertence ao nosso coronel, que o levou quando me encontrou por acaso com ele na rua? Não se dá conta do tamanho dessa vergonha? Diga-me a verdade, roubou ou não roubou?
— Humildemente, senhor tenente, eu sabia que o cachorro tinha sido
roubado.
— Švejk, pelo amor de Deus, himlhergot, eu vou fuzilá-lo, seu imbecil, seu
porco, seu burro, seu merda. Você é tão idiota assim?
— Sim, humildemente, senhor.
— Por que você me trouxe um cachorro roubado, por que você instalou o
animal no meu apartamento?
— Para deixá-lo feliz, senhor tenente.
E os olhos de Švejk fitaram o tenente com ternura e bondade. Lukáš se
sentou e choramingou: “Por que Deus me castiga com este imbecil?”
O tenente ficou sentado na cadeira com muda resignação; tinha a impressão
de que estava sem ânimo para mexer um músculo, ou para estapear Švejk, mas finalmente enrolou um cigarro e nem ele mesmo entendeu por que mandou Švejk ir comprar o Bohemie e o Tagblatt para que pudesse ler o anúncio do coronel a respeito do cachorro roubado.
Švejk voltou com os jornais abertos na página dos anúncios. Estava radiante
Švejk voltou com os jornais abertos na página dos anúncios. Estava radiante
e disse com alegria:
— Aqui está, senhor tenente. O coronel fez uma descrição exata do pinscher
roubado. É uma felicidade. E ainda oferece cem coroas a quem devolver o cachorro. É uma ótima recompensa. Geralmente dão cinquenta coroas. Um certo senhor Božetěch de Košiře vivia disso. Roubava um cachorro, lia os anúncios para saber quem o procurava e logo ia até lá. Uma vez roubou um belo pastor-alemão preto e, como o dono não se manifestou através de anúncios, fez uma tentativa e ele próprio colocou anúncios nos jornais. Publicou ao todo cinco. Até que, finalmente, um senhor se manifestou dizendo que o cachorro era dele, que o perdera e que achava que seria inútil procurá-lo. Não acreditava mais na honradez das pessoas. Para sua surpresa, ainda restavam pessoas honestas e por isso se alegrava muito. Acreditava que a honestidade devia ser recompensada e como lembrança lhe deu um livro que havia escrito sobre como cuidar das plantas dentro de casa e no jardim. O querido Božetěch pegou o pastor preto pelas patas traseiras e bateu com ele na cabeça do sujeito, jurando que a partir dali nunca mais publicaria um anúncio. Segundo ele, era preferível vender o cachorro a um canil se ninguém o procurasse através de um anúncio.
— Vá se deitar, Švejk — ordenou o tenente —, você seria capaz de passar a
noite inteira dizendo besteiras.
O tenente também se enfiou na cama e sonhou com Švejk; sonhou que Švejk
lhe levara um cavalo que roubara do príncipe herdeiro, e que este o reconhecera quando ele, o infeliz tenente Lukáš, montado no cavalo, encabeçava sua companhia.
De madrugada, o tenente estava como se tivesse passado a noite inteira
acordado e alguém tivesse lhe dado uma surra. Um pesadelo extremamente opressivo o perseguia. Só adormeceu de manhã, exaurido por aquele sonho arrepiante, até que alguém o acordou batendo na porta. Era Švejk, que, com seu rosto bondoso, perguntou ao tenente quando queria que o despertasse.
O tenente gemeu na cama:
— Fora, animal, estou vivendo no inferno!
Quando acordou, Švejk lhe serviu o café da manhã e o surpreendeu com
uma nova pergunta:
— Humildemente, senhor tenente, será que gostaria que lhe providenciasse
outro cãozinho?
— Quer saber de uma coisa, Švejk? Estou morrendo de vontade de enviá-lo
ao tribunal militar — disse o tenente, suspirando. — O problema é que o absolveriam porque nunca devem ter visto alguém tão colossalmente estúpido. Olhe-se no espelho. Não sente náuseas quando vê sua cara idiota? Você é a maior aberração da natureza que vi em toda minha vida. Bem, diga-me a verdade, Švejk, você gosta de si mesmo?
— Humildemente, senhor tenente, não gosto nem um pouco de mim,
porque no espelho pareço um pouco distorcido. Deve ser um espelho mal cortado. Na casa daquele comerciante de quinquilharias Staňek havia um espelho abaulado e quando alguém se via refletido nele tinha vontade de vomitar. A boca assim, a cabeça como um balde de dejetos, a barriga como a de um cônego bêbado, em síntese, uma figura horrível. Uma vez passou por ali o governador, se olhou e logo tiveram que tirar o espelho dali.
O tenente se virou, suspirou e achou mais indicado dar atenção ao café com
O tenente se virou, suspirou e achou mais indicado dar atenção ao café com
leite em vez de ficar olhando para Švejk.
Švejk foi para a cozinha e o tenente ouviu-o cantar:
Grenevil está marchando
Na Torre da Pólvora,
Seu sabre brilha,
As garotas choram...
Depois, ainda da cozinha, ouviu-se outra canção:
Nós, soldados, somos mestres,
As garotas nos adoram,
Não nos falta nunca nada,
Vivemos sempre à tripa forra.
“Você com certeza vive à tripa forra, canalha!”, disse a si mesmo o tenente, e
cuspiu.
A cabeça de Švejk surgiu na porta: — Humildemente, prezado tenente, há uma visita para o senhor. Vieram
buscá-lo do quartel. Deve se apresentar imediatamente ao coronel. O ordenança está aqui.
E acrescentou, em tom confidencial:
— Deve ser por causa do cachorrinho.
— Já ouvi — disse o tenente, com voz angustiada, quando o ordenança que
o esperava no vestíbulo tentou se dirigir a ele. Depois partiu, não sem antes dirigir um olhar fulminante a Švejk.
Não se tratava de um comunicado regimental, mas sim de uma coisa pior. Quando entrou em sua sala, o coronel estava sentado em uma poltrona com o rosto sombrio.
— Senhor tenente, há dois anos o senhor me pediu que o transferisse para
Budějovice, para o 91º Regimento. Sabe onde fica Budějovice? Sobre o Moldava, exatamente, sobre o Moldava, ali onde aflui o Ohře ou algo assim. É uma cidade muito, digamos, acolhedora, e, se não estou me equivocando, tem um cais. Sabe o que é um cais? É um muro construído em cima da água. Isso mesmo. De qualquer maneira, isto não cabe aqui. Ali fizemos manobras.
O coronel fez uma pausa e, olhando para o tinteiro, mudou rapidamente de
assunto:
— Meu cachorro foi estragado em sua casa. Não quer comer nada. Olhe! Há
uma mosca dentro do tinteiro. É estranho que no inverno as moscas caiam nos tinteiros. Que desordem!
“Explique-se de uma vez, velho miserável”, resmungou para si o tenente. O coronel se levantou e ficou caminhando pela sala. — Tenente, depois de ter refletido muito acerca do que fazer com o senhor
para que isso não se repita, lembrei que queria ser transferido para o 91 º Regimento. O alto-comando nos informou recentemente que no 91º Regimento estão faltando oficiais porque os sérvios mataram todos. Dou-lhe minha palavra de honra de que dentro de três dias você estará no 91º Regimento de Budějovice, onde são formados os maršbatalións que irão ao front. Não precisa me agradecer. O exército precisa de oficiais que...
E como não sabia o que dizer, olhou para o relógio e acrescentou: — São dez e meia. Está na hora de ir para a reunião do regimento. E assim terminou a agradável conversa. O tenente se sentiu bastante aliviado
quando saiu da sala e se dirigiu à escola dos voluntários, onde anunciou que nos próximos dias partiria para o front e que tinha a intenção de dar uma festa de despedida no Nekázanka.
Quando voltou para casa, olhou para Švejk e disse em um tom significativo: — Švejk, você sabe o que é um maršbatalión? — Humildemente, senhor tenente, um maršbatalión é um maršbat’ak e
uma marška é uma marškumpačka. Nós sempre encurtamos tudo. Batalhão, infantaria, marcha, tudo.
— Então lhe comunico, Švejk — disse o tenente com voz solene —, que
você virá comigo ao maršbat’ak, já que gosta de usar tais reduções. Mas não acredite que no front cometerá as mesmas besteiras que aqui. Ficou feliz?
— Humildemente, senhor, fiquei muito feliz — respondeu o bom soldado
Š vejk. — Será uma maravilha se morrermos juntos pelo senhor imperador e sua família...