As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 27 de 30 · parte 1/2

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

4 - Avante, marche!

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

4

Avante, marche!

Quando chegaram a Sanok, os soldados do vagão em que viajava a cozinha da 11ª Companhia e no qual Baloun, com o estômago cheio, soltava peidos de felicidade, descobriram que tinham razão. De fato, iam entregar às tropas uma janta e, além disso, uma ração extra de pão de campanha como recompensa por todos os dias em que o batalhão não recebera nada. Ao sair dos vagões, constataram também que em Sanok estava o estado-maior da “brigada de ferro”, à qual, segundo a certidão de nascimento, pertencia ao 91º Regimento. Como a estrada de ferro que levava de Sanok a Lvov e inclusive ao norte, a Veliké Mosty, estava intacta, era um verdadeiro mistério o motivo pelo qual o comandante do setor enviara ao estado-maior da “brigada de ferro” uma ordem para que os batalhões fossem concentrados a 150 quilômetros do front, que naquele momento se estendia de Brody até as ribeiras do Bug e ao longo do rio até Sokal.

O interessante problema estratégico foi solucionado de uma maneira muito

simples quando o capitão Ságner foi, em Sanok, ao estado-maior da brigada receber instruções relativas ao alojamento do batalhão.

O oficial de dia era o capitão adjunto de brigada Tayrle. — Acho muito estranho, capitão Ságner — disse o capitão Tayrle —, que

não tenham recebido nenhuma informação definitiva. O itinerário é o previsto. Naturalmente, deveríamos ter sido informados sobre o ritmo de seu avanço. Examinando as determinações do estado-maior, concluo que chegaram dois dias antes do previsto.

O capitão Ságner ficou um pouco vermelho, mas não lhe passou pela cabeça

repetir todos aqueles telegramas cifrados que havia recebido durante toda a viagem.

— O senhor me surpreende — disse o capitão Tayrle. — Eu acho — replicou o capitão Ságner —, que todos os oficiais devemos

nos tratar de você.

— Entendido — disse o capitão Tayrle. — Me diga uma coisa, você é da

ativa ou é civil? Da ativa? Isso é completamente diferente... Nunca se pode dizer... Você sabe... Por aqui já passaram tantos idiotas... Tenentes da reserva... Quando recuamos de Limanov e Krasnik, todos perderam a cabeça quando viram uma patrulha de cossacos. Nós, do alto-comando, não gostamos desses parasitas. Geralmente é um intelectual imbecil que acaba entrando para o serviço ativo ou passa nos exames e vira oficial, mas nem assim deixa de ser um civil de merda; e, quando acontece uma guerra, viram tenentes, mas tenentes de merda.

O capitão Tayrle cuspiu e passou a mão, afetuosamente, nas costas do capitão

Ságner.

— Vocês ficarão aqui um par de dias. Eu lhes mostrarei tudo. Iremos

dançar. As garotas daqui são ótimas. Temos aqui umas putas deliciosas. Também está aqui a filha de um general que foi lésbica. Todos nos fantasiamos de mulheres e ela faz coisas incríveis! É uma porca magra, uma espécie de espantalho, você não daria nada por ela. Mas vá ver o que ela sabe! Enfim, logo verá.

“Perdão”, se interrompeu. “Estou precisando vomitar; hoje já é a terceira

vez.”

Quando voltou, e para demonstrar ao capitão Ságner que se divertiam de

verdade, lhe contou que estava sofrendo as consequências da farra que haviam feito na noite anterior, da qual participara a unidade de sapadores.

O capitão Ságner não demorou muito para conhecer o comandante daquela

unidade, que também tinha a patente de capitão. De repente, irrompeu no escritório um homem desengonçado em um uniforme com três estrelinhas de ouro; estava tão ensimesmado que não se deu conta da presença do capitão Ságner e se dirigiu a Tayrle em um tom mais do que familiar:

— O que está fazendo, seu porco? Não percebeu em que estado deixou

nossa condessa ontem à noite!

Sentou-se em uma cadeira e bateu nas pernas com um bastão fino enquanto

dava gargalhadas.

— Porra, quando me lembro de você vomitando no colo dela! — Sim — disse Tayrle —, a noite de ontem foi muito alegre. Só então apresentou o capitão Ságner ao oficial austríaco e os três

atravessaram o escritório da administração da brigada para ir a uma cervejaria que fora transformada há pouco em um elegante café.

Quando estavam passando pela sala, o capitão Tayrle pegou o bastão do

comandante da unidade de sapadores e bateu em uma mesa alongada. Os doze burocratas militares que estavam sentados ao seu redor se levantaram, como se estivessem obedecendo a uma ordem. Era evidente que aqueles homens eram adeptos do trabalho tranquilo e sem riscos da retaguarda. Todos exibiam barrigões satisfeitos e usavam uniformes de corte extraordinário.

Exibindo-se diante de Ságner e do outro capitão, Tayrle disse aos doze

apóstolos da preguiça:

— Não pensem que estamos aqui para engordá-los! Comer menos, beber

menos e correr mais!

Tayrle se dirigiu a seus acompanhantes:

— Agora vou lhes mostrar outro número de adestramento. Deu um novo golpe de bastão na mesa e perguntou aos doze: — Quando vocês vão explodir, seus porcos?

Os doze responderam em uníssono:

— Segundo as suas ordens, senhor capitão!

Rindo da própria estupidez, o capitão Tayrle saiu da sala. Quando já estavam sentados no café, Tayrle ordenou que lhe trouxessem

uma garrafa de aguardente de sorveira e perguntou se havia garotas livres. É que, na verdade, o café era uma casa de meninas de programa. Como nenhuma das garotas estava livre, o capitão Tayrle ficou muito irritado, insultou grosseiramente a dona e perguntou aos gritos pela senhorita Ella. Quando lhe disseram que estava ocupada com um subtenente, subiu pelas paredes.

O homem que estava com a senhorita Ella era o subtenente Dub. Depois de

o batalhão de infantaria ter se instalado em uma escola secundária, reunira todos os homens de sua unidade e fizera um longo discurso, advertindo que, ao bater em retirada, os russos haviam aberto em todos os lugares bordéis e contratado pessoas com doenças sexualmente transmissíveis com o objetivo de ocasionar grandes perdas ao exército austríaco; por isso proibia os soldados de visitarem tais estabelecimentos. Acrescentou que iria em pessoa aos lupanários para verificar se todo mundo estava obedecendo suas ordens, pois estavam em uma das regiões afetadas. Enviaria todos que fossem flagrados ao conselho de guerra.

O subtenente Dub queria verificar, pessoalmente, se suas ordens estavam

sendo cumpridas, e, como posto de controle, escolhera o sofá do quarto de Ella, no primeiro andar do chamado café municipal, sofá onde se divertia muito.

***

 

Nesse meio-tempo, o capitão Ságner voltou ao seu batalhão. A companhia

do capitão Tayrle se dispersara. Alguns de seus soldados haviam ido procurá-lo, pois já fazia mais de uma hora que o comandante exigira sua presença: haviam chegado novas ordens da divisão.

Era necessário estabelecer um itinerário definitivo para o 91º Regimento,

que acabara de chegar, pois de acordo com as novas determinações era o 102º Batalhão que devia avançar na direção antes estabelecida.

Tudo era muito complicado. Os russos recuavam às pressas em direção ao

noroeste da Galícia, de maneira que diversas unidades do exército austríaco se misturavam. Em alguns lugares, avançavam, em cunha, unidades do exército alemão. O caos chegou ao clímax com a chegada de novos batalhões e outros corpos do exército. O mesmo acontecia em setores do front, como em Sanok, onde apareceram de repente as reservas de uma divisão alemã de Hannover, sob as ordens de um coronel com um olhar tão feroz que o comandante da brigada ficou sem saber o que fazer. O coronel exibiu uma instrução de seu estado-maior segundo a qual seus soldados deviam ser alojados na escola secundária e exigiu que fosse evacuado, para hospedar seu estado-maior, o Banco de Cracóvia, onde estava precisamente o estado-maior da brigada.

O comandante da brigada ligou diretamente para a divisão e deu a notícia.

Depois, o coronel de Hannover, com um olhar gélido, também falou com a divisão; como consequência desta conversa, a brigada recebeu a seguinte ordem: “A brigada abandonará a cidade às seis da tarde e cobrirá a linha Tyrawa Woloska-Lyskowate-Stara Sól-Sambor, onde receberá novas ordens. Ao mesmo tempo, o batalhão do 91 º Regimento de Infantaria avançará na retaguarda. As instruções devem ser implementadas pela brigada de acordo com o seguinte esquema: a patrulha avançada sairá para Tyrawa às cinco e meia, mantendo uma distância de três quilômetros e meio entre o flanco sul e o flanco norte. A retaguarda partirá às seis e quinze.”

Na escola secundária começou a se armar um grande alvoroço. A única

pessoa que não estava presente à reunião dos oficiais era o subtenente Dub. Encarregaram Švejk de ir procurá-lo.

— Espero — lhe disse o tenente Lukáš — que o encontre sem nenhuma

dificuldade; quando vocês dois se encontram, sempre acontecem coisas estranhas.

— Humildemente, senhor, lhe peço que me dê uma ordem por escrito da

companhia, exatamente porque sempre que nos encontramos acontecem coisas estranhas.

Enquanto o tenente Lukáš escrevia em sua caderneta a ordem para que o

subtenente Dub se apresentasse, imediatamente, na escola secundária para participar da reunião dos oficiais, Švejk continuou:

— Humildemente, senhor, pode ficar tranquilo, como sempre. Eu o

encontrarei: uma vez que proibiu os soldados de visitarem os bordéis, certamente deve ter ido a um deles para ver se consegue enviar alguém de sua seção ao conselho de guerra, como sempre faz. Ele mesmo declarou diante de sua seção que faria uma ronda por todas as casas de garotas de programa e, se encontrasse alguém, o faria chorar, revelando seu lado mau. Na verdade, já sei onde irei procurá-lo: no café ali da frente; toda a tropa ficou olhando para saber aonde iria primeiro.

O Ponto de Encontro e Café Municipal, estabelecimento que Švejk acabara

de mencionar, era dividido em duas partes. Quem não queria passar pelo café podia entrar pela porta de trás, diante da qual uma velha senhora tomava banho de sol repetindo em alemão, húngaro e polonês:

— Entre, soldadinho, temos aqui garotas de primeira! Quando o soldadinho entrava, a mulher o conduzia por um corredor até um

saguão que funcionava como uma espécie de recepção; chamava uma garota e esta se aproximava imediatamente, de camisola. A primeira coisa que fazia era pedir dinheiro; depois o escorregava para a cafetina. Enquanto isso, o soldado já se livrara de sua baioneta.

Os oficiais entravam pelo café e enfrentavam algumas complicações. Para

chegar aos fundos, era necessário passar pelas salas onde ficavam as garotas destinadas aos graduados. Ali as mulheres vestiam calcinhas e sutiãs de renda, bebiam-se licores e vinhos e a dona não permitia nada: tudo era feito nos quartos de cima. Em um desses paraísos cheio de percevejos, o subtenente Dub se agitava, só de cueca. A senhorita Ella lhe contava, como costuma acontecer nesses casos, uma história inventada sobre sua vida trágica: seu pai fora dono de uma fábrica em Budapeste e ela acabara exercendo aquele ofício por culpa de um amor desgraçado.

Em cima de uma pequena mesinha, atrás do subtenente Dub, ao alcance da

mão, havia uma garrafa de aguardente de sorveira e dois copinhos. A garrafa estava pela metade e tanto Ella como o subtenente Dub não sabiam mais o que diziam. Essa era a prova de que o subtenente Dub era fraco para o álcool. Confundia tudo, inclusive Ella com Kunert, seu ordenança, e, como sempre fazia, não parava de ameaçá-lo.

— Kunert, Kunert, sua besta desgraçada, espere até conhecer meu lado mau! Švejk foi obrigado a passar pelo mesmo ritual a que eram submetidos os

soldados que entravam por trás. No entanto, conseguiu se livrar com delicadeza de uma garota seminua que começou a gritar. A dona, que era polonesa, apareceu correndo e depois negou descaradamente que ali estivesse qualquer subtenente.

— Faça o favor de não gritar comigo, distinta senhora — disse Švejk,

amavelmente e sorrindo com doçura —, ou lhe darei um safanão. Em Praga, onde eu vivia, uma vez, na rua Platnéřská, estapearam tanto uma madame que ela até se esqueceu de quem era. Um filho fora procurar o pai, um tal de Vondráček, dono de uma loja de pneus. A madame se chamava Křovánová e, quando conseguiram que recuperasse a consciência e lhe perguntaram como se chamava, disse algo que começava com “Ch”. Qual é seu respeitável nome?

A digna matrona começou a soltar gritos arrepiantes enquanto, depois de ter

dito aquelas palavras, Švejk a afastava e subia pela escada, muito sério, ao primeiro andar.

O dono da casa, um nobre polonês arruinado, apareceu no térreo e correu

O dono da casa, um nobre polonês arruinado, apareceu no térreo e correu

pela escada atrás de Švejk. Segurou-o pela camisa e vociferou em alemão que soldados não podiam subir, que tinham de ficar embaixo, porque o primeiro andar era destinado aos oficiais.

Švejk lhe disse que estava ali por interesse de todo o exército e que procurava

um subtenente sem o qual o exército não poderia partir para o campo de batalha. Como o comportamento do dono ia ficando cada vez mais agressivo, Švejk se viu obrigado a atirá-lo no chão com um soco; depois continuou a inspecionar os quartos. Constatou que todos estavam vazios e só no final do corredor, depois de ter batido na porta e abri-la um pouco, ouviu-se a voz estridente de Ella:

— Ocupado!

E, ato contínuo, o subtenente Dub, achando que estava em seu quarto do

alojamento, disse com voz profunda:

— Avante!

Švejk entrou, aproximou-se do sofá, arrancou uma folha do seu bloco de

notas e a entregou ao subtenente Dub. Olhando com dissímulo as peças do uniforme estendidas em um canto da cama, anunciou:

— Humildemente, senhor. Deve se vestir e se apresentar em nosso quartel

do colégio secundário; está tendo lugar ali um grande conselho militar!

O subtenente Dub abriu os olhos, as pupilas pequenas, mas em seguida lhe

disse que não estava tão bêbado a ponto de não reconhecê-lo. Passou por sua cabeça que Š vejk fora enviado para castigá-lo e gritou:

— Você vai ver agora... o que farei com você... Švejk. Você vai ver... como vai

acabar... Kunert — se dirigiu a Ella. —... me sirva... outra... taça!

Bebeu e, rasgando a ordem escrita, disse:

— Esta... é... sua... carta... de desculpa? Comigo não funciona... nenhuma

desculpa... Aqui... estamos no exército... e não... em uma... escola... Então... o descobriram... em... um bordel? Venha... cá, Švejk... eu lhe darei... uma surra... Em que ano... Felipe Macedônio... derrotou... os romanos...? Você não sabe... animal!?

— Humildemente, senhor — continuou Švejk, implacável —, por ordem

superior do comando da brigada os oficiais devem se vestir e acudir ao conselho militar. Partiremos em seguida; será necessário definir qual companhia ficará na vanguarda e qual na retaguarda. A decisão deve ser tomada agora mesmo e me parece, prezado subtenente, que o senhor também tem algo a dizer a respeito.

O discurso diplomático reanimou um pouco o subtenente Dub. Começava a

ter cada vez mais certeza de que não estava no quartel, mas, por prudência, perguntou:

— Onde estou?

— O senhor tem a honra de estar em um bordel. Infinitos são os caminhos

do Senhor.

O subtenente Dub suspirou profundamente, levantou-se e começou a

procurar as peças do uniforme. Quando, finalmente, acabou de se vestir, os dois saíram, mas Švejk voltou depois de um instante e, sem prestar atenção em Ella, que entendera seu regresso a sua maneira e imediatamente se enfiara na cama para se curar de seus amores desgraçados, engoliu o resto da aguardente que restava na garrafa e foi para o corredor.

Na rua, o calor fez com que o álcool voltasse a subir à cabeça do subtenente.

Começou a contar a Švejk as burradas mais absurdas: que tinha em casa um selo de Helgoland e que quando terminara o secundário fora jogar bilhar e que não cumprimentara o professor encarregado da classe. Depois de cada frase acrescentava:

— Me explico?

— Claro que se explica, e muito bem, senhor — respondeu Švejk. — Sua

maneira de falar me recorda a do encanador Pokorný de Budějovice. Quando a gente lhe perguntava: “Já tomou banho este ano no Malše”, ele respondia: “Não tomei banho ali, no entanto este ano haverá uma boa colheita de ameixas.” Ou quando lhe perguntavam: “Comeu cogumelos este ano?”, ele dizia: “Não, mas o novo sultão do Marrocos parece uma ótima pessoa.”

O subtenente Dub parou e, com um grande esforço, conseguiu articular: — O sultão do Marrocos? Esse já não conta.

Depois enxugou o suor da testa e, dirigindo a Švejk um olhar turvo,

resmungou:

— Nem no inverno suei tanto como agora. Você concorda? Me explico? — Se explica, meu subtenente. À taverna do U Kalicha, no meu bairro,

costumava ir um velho, um conselheiro da assembleia aposentado, que também dizia isso. Achava estranho que houvesse tanta diferença entre a temperatura de verão e a de inverno, e se perguntava como era possível que ninguém ainda tivesse descoberto isso.

Švejk deixou o subtenente Dub na porta da escola secundária. Dub subiu a

escada cambaleando e chegou à sala de reuniões onde estava acontecendo o conselho militar. Quando entrou, anunciou ao capitão Ságner que estava completamente bêbado. Durante toda a reunião, permaneceu sentado com a cabeça baixa e só de vez em quando se levantava para repetir:

— Sua opinião é correta, senhores, mas eu estou completamente bêbado. Uma vez elaboradas todas as disposições, a companhia do tenente Lukáš foi

destinada a avançar na vanguarda. O subtenente Dub se sobressaltou, se levantou e disse:

— Senhores, recordo nosso professor do sexto ano. Viva, viva, viva! O tenente Lukáš achou que naquele momento a melhor coisa a fazer seria

mandar Kunert colocar o subtenente Dub para dormir no gabinete de ciências naturais, em cuja porta havia um guardião para evitar que roubassem o pouco que restara da coleção de minérios guardada atrás de vitrines. O comando da brigada vivia advertindo a respeito as tropas que passavam por ali.

A medida datava da época em que um batalhão húngaro que se hospedara no

colégio secundário se dedicara a saquear o gabinete. Os soldados húngaros ficaram apaixonados pela coleção de minérios, cristais e, principalmente, pela colorida pirita, com a qual haviam enchido suas mochilas.

Em uma das cruzes brancas do cemitério militar há uma inscrição: “László

Gargany.” Ali descansava eternamente um hussardo que, ao saquear as coleções da escola secundária, bebeu todo o álcool desnaturado de um pote em que eram conservados répteis.

A Guerra Mundial, pois, exterminava o gênero humano através do álcool

procedente da coleção de serpentes.

Quando todos partiram, o tenente Lukáš chamou Kunert e lhe ordenou que

levasse o subtenente Dub e o deixasse em um sofá.

Dub parecia um menino pequeno: segurou a mão de Kunert, examinou a

palma e disse que adivinharia o nome de sua futura esposa.

— Como você se chama? Pegue um lápis e uma caderneta no bolso da minha

jaqueta. Então você se chama Kunert? Bem. Volte dentro de quinze minutos e lhe darei uma folha com o nome de sua futura esposa.

Quando terminou a frase, começou a roncar; ato contínuo, acordou e

começou a escrever alguma coisa na caderneta. Depois arrancou a folha, jogou-a no chão e, com o dedo colocado misteriosamente nos lábios, balbuciou:

— Ainda não, dentro de quinze minutos. O melhor será ir procurar o papel

com os olhos tapados.

Kunert era um idiota tão bem-intencionado que voltou de fato em quinze

minutos e, depois de ter recolhido o papel, leu os hieróglifos do subtenente Dub: “O nome de sua futura esposa será o seguinte: senhora Kunertová.”

Um pouco mais tarde, Kunert mostrou o papel a Švejk e este lhe disse que

guardasse bem o bilhete, pois era necessário conservar adequadamente os documentos dos vultos militares. Acrescentou que no serviço militar não era nada frequente que um oficial mantivesse correspondência com seu ordenança e o chamasse de senhor.

 

Uma vez concluídos os preparativos para partir, o comandante da brigada, a quem o coronel de Hannover também havia espertamente desalojado, ordenou que o batalhão se formasse e fez um discurso. Aquele homem adorava falar. Disse todo tipo de asneiras e, quando não tinha mais nada a dizer, recordou o correio militar.

— Soldados! — trovejou. — Estamos nos aproximando do inimigo, do

qual nos separam apenas alguns dias de marcha. Até agora vocês não tiveram a oportunidade de comunicar seu endereço aos seres queridos que deixaram para trás para que possam lhes escrever, dar-lhes uma alegria...

O comandante não sabia como terminar aquilo e repetia infinitas vezes: “Seus

seres queridos, seus parentes, seus seres distantes...”, até que, finalmente, saiu do círculo vicioso vociferando:

— É por isso que existe o correio militar do front! O resto de seu discurso parecia querer dizer que todas as pessoas que

vestiam uniformes cinza deviam se deixar matar com alegria só porque no front existia o correio militar e, portanto, se uma granada arrancasse a perna de um soldado, sua morte devia ser embelezada pela recordação de que sua caixa postal tinha o número 72, e que possivelmente ali o esperava uma carta de seus distantes seres queridos, junto com um pacote com um pedaço de carne, toucinho e biscoitos caseiros.

Depois desse discurso, a banda da brigada tocou o hino ao imperador,

cantaram-se glórias ao imperador, e os vários grupos do rebanho humano destinados a serem sacrificados em algum lugar na outra margem do Bug se puseram em marcha segundo as instruções estabelecidas.

Às cinco e meia, a 11ª Companhia partiu em direção a Tyrawa Woloska.

Š vejk ia atrás, com o alto-comando da companhia e o serviço sanitário. O tenente Lukáš cavalgava ao redor da coluna, e amiúde ficava para trás, em parte para vigiar o estado do subtenente Dub, que estava sendo carregado em um carrinho coberto com lona para novos atos heroicos em um futuro desconhecido, em parte para se distrair um pouco conversando com Švejk. O bom soldado carregava pacientemente sua mochila e a baioneta e conversava com o intendente Vaněk sobre as marchas, muito agradáveis, de há muitos anos, durante as manobras perto de Velké Meziřící.

— A paisagem era exatamente como esta; a única diferença é que não

estávamos tão equipados: então não sabíamos ainda nem o que eram as “conservas de reserva”. Por isso, quando distribuíam as latas, nós as devorávamos no primeiro lugar de pernoite e as substituíamos enfiando um tijolo na mochila. Em uma aldeia nos revistaram e tiraram todos os tijolos; eram tantos que um homem construiu com eles uma casa para sua família.

Um pouco mais tarde, Švejk marchava com passo marcial ao lado do cavalo

do tenente Lukáš e contava uma anedota sobre o correio militar.

— Que discurso mais bonito o de agora há pouco! Todo mundo gosta de

receber uma carta de casa. Quando eu estava fazendo o serviço militar em Budějovice, há muitos anos, só recebi uma carta e ainda a tenho guardada.

Švejk tirou da carteira suja uma carta coberta de manchas de gordura e

começou a lê-la, caminhando no mesmo ritmo do cavalo do tenente Lukáš, que trotava com moderação:

Pilantra, podre, assassino e canalha! O cabo Kříž veio a Praga de

licença. Dancei com ele na taverna U Kocanů e ele me contou que em České Budějovice você tem dançado no Zelený Žab com uma vadia idiota e que não quer mais saber de mim. Para sua informação, saiba que estou escrevendo esta carta numa tábua do banheiro, ao lado do buraco. Está tudo acabado entre a gente.

Aquela que foi sua Božena.

Acrescento, antes que me esqueça, que o cabo está sabendo de

tudo e não o deixará em paz, como lhe pedi. E outra coisa antes que me esqueça: quando vier de licença, não vai me encontrar entre os vivos.

— É claro que quando voltei de licença — continuou Švejk, trotando

moderadamente — a encontrei entre os vivos. E entre que vivos! Estava no U Kocanů, onde a cortejavam dois soldados de outro regimento, e um deles estava tão vivo que enfiava publicamente a mão embaixo de seu corpete, como se quisesse, humildemente,

senhor, recolher a flor de sua inocência, como escreveu Vĕnceslava Lužická75 ou também como disse uma garota de dezesseis anos a um estudante enquanto dançavam, em voz alta e chorando, porque ele havia lhe dado um beliscão no ombro: “O senhor recolheu a flor da minha virgindade!” Todo mundo se mijou de rir, é claro, e a mãe da menina, que a acompanhava, levou-a ao corredor e propinou alguns coices na bunda da tola da filha. Cheguei à conclusão, meu tenente, de que as garotas da aldeia são mais sinceras do que as melindrosas da cidade que frequentam aulas de dança. Há alguns anos, quando estávamos acampados em Mníšek, eu costumava ir dançar em uma taverna de Starý Knín; ali conheci uma tal de Karla Veklová, mas ela não gostou muito de mim. Na noite de um domingo acompanhei-a ao lago, nos sentamos na margem e depois do pôr do sol lhe perguntei se ela também me amava. Humildemente, senhor tenente, o ar estava quente, todos os pássaros cantavam e ela me respondeu com um riso aterrorizante: “Amo tanto você como amo um pedaço de palha espetada na minha bunda, seu idiota!” E a verdade é que eu era idiota, um completo idiota; imagine, senhor, humildemente, que eu costumava passear com ela pelos campos de trigo crescido e, naquela paisagem, onde não havia nem uma alma, nunca a convidei para se sentar; eu só caminhava e mostrava aquela maravilha de paisagem e, irresponsável como sou, ia contando para aquela camponesa que aquilo era trigo, aquilo cevada e aquilo aveia.

“E, como para confirmar que efetivamente se tratava de aveia, em algum lugar

mais adiante se ouviram as vozes dos soldados da companhia, que cantavam a canção que já havia acompanhado os regimentos tchecos quando vertiam sangue no Solferino pela Áustria:

À meia-noite, na areia,

Em cima de um saco de aveia,

Trá-lá-lá, trá-lá-lá,

Vou deixar uma garota sem ar.

“Depois os outros acrescentaram:

Ela se deixará beijar,

E depois dois beijos me dará,

Trá-lá-lá, trá-lá-lá,

Nenhuma garota me escapará.

“Depois disso os alemães começaram a cantar a mesma canção em alemão. “Era uma velha canção militar que, certamente, a soldadesca cantara em todos

os idiomas durante as guerras napoleônicas. Agora ecoava na estrada empoeirada que levava a Tyrawa Woloska, na planície da Galícia. Nos dois lados do caminho, até as verdes colinas ao sul, os campos haviam sido esmagados pelos cascos dos cavalos e por milhares e milhares de pesadas botas militares.

“Quando fizemos manobras em Písek”, disse Švejk, “deixamos o campo

igual a este. Estava conosco um arquiduque. Era um homem tão justo que, quando, por motivos estratégicos, cavalgava com o alto-comando pelos campos de trigo, atrás dele ia seu ajudante avaliando os estragos causados. Um camponês que se chamava Pícha não achou a menor graça na visita e não aceitou as dezoito coroas de indenização que lhe ofereciam pelo hectare de campo esmagado; quis abrir um processo e imagine, senhor tenente, que acabou pegando dezoito meses de prisão.

“Eu acredito, senhor, que poderia ter ficado satisfeito com o fato de ter

recebido a visita de alguém da casa imperial. Um camponês mais consciente teria arrumado suas filhas com vestidos brancos como os da primeira comunhão, teria dado um ramo de flores a cada uma e as teria colocado estrategicamente para dar as boas-vindas ao grande senhor, como fazem na Índia; li que lá os súditos de um governante permitiram que seu elefante os pisoteasse.”

— A que se refere, Švejk? — perguntou o tenente Lukáš do cavalo. — Humildemente, senhor, refiro-me ao elefante que levava no lombo o

governante sobre o qual li.

— Você sempre tem uma explicação para tudo, Švejk? — disse o tenente

Lukáš, e seguiu em frente. Ali, a coluna começava a se romper. Depois da pausa para descansar no trem, os soldados haviam perdido o hábito de marchar carregando equipamentos. Todos começavam a sentir dores nas costas e mitigavam o desconforto como podiam. Uns mudavam o fuzil de lado, e a maioria não o levava pendurado na correia, mas apoiado no ombro, como se fosse um ancinho ou um tridente. Alguns achavam que ficariam menos cansados se caminhassem pelas valas ou pelo acostamento, onde a terra parecia mais macia do que na estrada empoeirada.

A maioria dos soldados avançava com a cabeça baixa e todos sentiam uma

sede terrível, porque, embora o sol já tivesse se posto, fazia mais calor e estava mais abafado do que ao meio-dia e não restava nem uma gota de água no cantil de ninguém. Era o primeiro dia de marcha, e aquela situação incomum, que parecia ser o prólogo de sofrimentos que seriam cada vez maiores, debilitou-os e os deixou esgotados. Pararam de cantar. Calculavam quanto ainda faltava para chegar a Tyrawa Woloska, onde supunham que iriam passar a noite. Alguns descansavam um tempo sentados na vala e, para dissimular, amarravam os sapatos; davam a impressão de que eram pessoas que haviam calçado mal as meias e agora as ajeitavam para que não as machucassem durante a marcha. Outros alongavam ou encurtavam a correia do fuzil, abriam a mochila e reorganizavam objetos, convencendo a si mesmos de que faziam aquilo para distribuir melhor o peso ou para que as correias da mochila não machucassem mais um ombro do que outro. Quando o tenente Lukáš se aproximava, se levantavam e pediam desculpas alegando que alguma coisa os incomodava ou que estavam com alguma doença, a não ser quando os cadetes e sargentos percebiam a égua do tenente se aproximando ao longe, pois então os obrigavam a seguir em frente.

Passando ao seu lado, o tenente Lukáš os incentivava amistosamente a se

levantar e dizia que só faltavam três quilômetros para chegar a Tyrawa Woloska, onde poderiam descansar.

Enquanto isso, por causa das constantes sacudidas do carrinho ambulância

de duas rodas, o subtenente Dub começava a voltar a si. Ainda não estava totalmente refeito, mas conseguiu se erguer, se inclinar e chamar os soldados do estado-maior, que caminhavam tranquilamente a seu lado: todos, começando por Baloun e terminando por Chodounský, haviam deixado suas mochilas no carrinho. Apenas Švejk avançava impertérrito, carregando a mochila e com o fuzil pendurado à maneira dos dragões, com a correia atravessada no peito; fumava cachimbo e cantava ao ritmo da marcha.

Quando fomos para Jaroměř Acreditem ou não,

Só chegamos à noite,

Quando já reinava a escuridão

Na estrada, mais de quinhentos passos à frente do subtenente Dub, se

levantavam redemoinhos de poeira dos quais emergiam os soldados. O subtenente Dub, que nesse meio-tempo recuperara seu entusiasmo, colocou a cabeça para fora do carro e gritou no meio da poeira:

— Soldados, vosso nobre labor é muito difícil! Esperam-nos duas marchas,

todo tipo de privações e sofrimentos. Mas tenho fé em vossa resistência e em vossa determinação firme e leal.

— Animal! — exclamou Švejk, completando a rima. O subtenente Dub continuou:

— Para vocês, soldados, não há nenhum contratempo insuperável. Eu lhes

repito, soldados, não os levo a uma vitória fácil. A missão será dura, mas seguirão em frente. A história os beatificará!

— E quem o ouvir vomitará — acrescentou Švejk, explorando de novo sua

veia poética.

Como se o tivesse ouvido, o subtenente começou a vomitar na poeira da

estrada. Quando terminou, continuou arengando para a tropa:

— Soldados, avante!

Depois desabou em cima da mochila do telegrafista Chodounský e dormiu

até Tyrawa Woloska, onde o tiraram do carro e o obrigaram a ficar em posição de sentido por ordem do tenente Lukáš, que manteve com ele uma longa e desagradável conversa. Por fim, Dub recuperou suficientemente a consciência e declarou:

— Raciocinando logicamente, fiz uma besteira me embebedando, mas vou

consertá-la diante do inimigo.

Na verdade, ainda não se recuperara de todo, pois antes de se dirigir a sua

seção disse ao tenente Lukáš:

— O senhor ainda não me conhece, mas espere até me conhecer! — Se quiser saber o que fez, peça informações a Švejk — respondeu Lukáš. De maneira que, antes de se dirigir a sua seção, o subtenente Dub foi ver

Š vejk; encontrou-o em companhia de Baloun e do intendente Vaněk.

Baloun estava dizendo que em sua casa, no moinho, sempre enfiava uma

garrafa de cerveja no poço. Quando a tirava, estava tão gelada que os dentes ficavam insensíveis. Em outros moinhos, costumavam, à noite, beber cervejas daquelas para

acompanhar a rozhuda,76 mas ele, como era muito guloso, razão pela qual estava sendo castigado por Deus, depois também sempre comia um bom pedaço de carne. Agora a justiça divina o punia com a água morna e fedorenta dos poços de Tyrawa Woloska, à qual, devido à cólera, todos eram obrigados a acrescentar ácido cítrico que, aliás, tinham acabado de distribuir há poucos momentos, quando todas as companhias haviam recebido água. Baloun deu sua opinião: certamente distribuíam aquele ácido cítrico porque as pessoas estavam famintas. Era verdade que comera um pouco melhor em Sanok, que o tenente Lukáš lhe dera meia porção inteira da vitela que haviam lhe trazido da brigada, e que imaginava que quando chegassem ao lugar onde passariam a noite cozinhariam de novo. Estava convencido disso, pois não à toa vira os cozinheiros colocarem água nos caldeirões. Havia ido perguntar na cozinha, onde lhe disseram que tinham recebido uma ordem de buscar água e nada além disso e que a qualquer momento podia muito bem chegar uma nova ordem obrigando-os a jogá-la fora.

Nesse momento o subtenente Dub se aproximou e, como se sentia inseguro,

sondou o terreno fazendo perguntas como esta:

— Estão se divertindo?

— Claro que estamos nos divertindo, senhor — respondeu Švejk por todos

—, nós sempre nos divertimos muito. A melhor coisa do mundo é se divertir. Neste exato momento estávamos nos divertindo falando do ácido cítrico. Nenhum soldado pode viver sem diversão; ao se divertir, esquece as dores.

O subtenente Dub pediu que o acompanhasse; alguma coisa dava voltas em

sua cabeça e queria esclarecê-la. Quando se afastaram do grupo, perguntou a Švejk, com voz insegura:

— Estavam falando de mim?

— De maneira nenhuma, senhor, nunca! Só falávamos do ácido cítrico e da

carne defumada.

— O tenente Lukáš me disse que fiz algumas coisas... Que fui

inconveniente... E que você está a par de tudo, Švejk.

O bom soldado replicou em tom grave e enfático:

— Só esteve em uma casa de meretrício, senhor. E, com certeza, por

equívoco. É como acontecia quando procuravam Pipr, um funileiro da praça Kozího; sempre ia comprar estanho na cidade e, por fim, acabavam o encontrando em um bordel, no U Šuhů ou no U Dvořáků, parecido um pouco com aquele onde o encontrei hoje. Embaixo havia um café e na parte de cima, mulheres. O senhor certamente não sabia direito onde estava: fazia calor e quando a pessoa não está habituada a beber e o tempo está quente, fica bêbada depressa, até mesmo com rum vulgar, e ainda mais quando bebe aguardente de sorveira, senhor. Bem, me mandaram lhe levar a convocatória para uma reunião e eu o encontrei com uma senhorita. Por culpa do calor e da sorveira, o senhor não me reconheceu e continuou deitado no sofá completamente nu. Não fez nenhuma cena e nem disse “Você ainda não me conhece”. Mas uma coisa dessas pode acontecer com qualquer um quando está fazendo calor. Muita gente adora fazer isso regularmente, enquanto outras o fazem por puro acidente.

“Precisava ter conhecido o velho Vejvoda, um mestre de obras do bairro de

Vršovice, senhor, que resolveu que não ia beber nunca nada que pudesse embebedá-lo. Um dia tomou um último copinho antes de sair de casa e foi procurar bebidas sem álcool. Primeiro parou na taverna Na Zastávce, tomou um quarto de litro de vermute e perguntou ao taverneiro o que os abstêmios bebiam, pois achava que a água pura era uma bebida péssima até mesmo para os abstêmios. O taverneiro lhe disse que os abstêmios bebiam refrigerantes, limonada, leite, vinho sem álcool, sopa fria e coisas assim; dessas, só agradou ao velho Vejvoda o vinho sem álcool. Perguntou se também existiam aguardentes sem álcool, tomou outro vermute e disse ao taverneiro que se embebedar com frequência era pecado. O taverneiro lhe respondeu que admitia qualquer coisa no mundo, menos que um sujeito bêbado tomasse um porre em outro bar, entrasse em sua taverna para se acalmar, pedisse uma garrafa de água mineral com gás e no final armasse um escândalo. ‘Embebede-se na minha taverna’, disse o taverneiro, ‘e aí nos tornaremos amigos; caso contrário, nem quero conhecê-lo’. De maneira que o velho Vejvoda esvaziou o copo e seguiu seu caminho até que chegou à praça Carlos e entrou em um bar que frequentava às vezes, e perguntou se tinham vinho sem álcool. ‘Isso nós não temos, senhor Vejvoda’, lhe disseram, ‘mas podemos lhe servir vermute ou xerez’. O velho Vejvoda ficou com vergonha de não pedir nada e por isso bebeu um cálice de vinho e outro de xerez, e, como tinha tempo de sobra, conheceu outro abstêmio. Fizeram um acordo e cada um pediu mais um cálice e, depois, o outro sujeito se lembrou de que conhecia um lugar onde serviam vinho sem álcool. ‘É uma taverna da rua Bolzanová; desce-se uma escada e tem toca-discos.’ Para lhe agradecer pela boa notícia, o velho Vejvoda pediu uma garrafa inteira de vermute e só depois de ambos a terem bebido se dirigiram à rua Bolzanová, à taverna na qual se tinha que descer uma escada e onde havia um toca-discos. E era verdade: só serviam vinhos de diferentes frutas e sem álcool. Para começar, cada um pediu meio litro de vinho de groselha, depois mais meio litro, e então o vermute e o xerez de antes lhes subiram à cabeça e começaram a pedir aos gritos um certificado que lhes garantisse que estavam bebendo vinho sem álcool e a dizer que eram abstêmios, e ameaçaram quebrar tudo, inclusive o toca-discos, se não lhes dessem o certificado. Mais tarde a polícia teve que puxá-los por aquela escada até a rua Bolzanová, enfiá-los em uma radiopatrulha e jogá-los em uma solitária. Acabaram condenados como abstêmios bêbados.”

— Por que está me contando tudo isso? — exclamou o subtenente Dub, que

depois de ouvir aquela história recuperara completamente a lucidez.

— Humildemente, senhor, é verdade que não tem nada a ver com o que

dizíamos antes, mas, como estamos conversando...

O subtenente Dub se sentiu ofendido e, como já estava totalmente consciente,

começou a gritar:

— Você ainda vai me conhecer! O que está fazendo nesta posição? — Humildemente, senhor, estou numa péssima posição. Esqueci de juntar

os calcanhares. Vou juntá-los agora mesmo.

E Švejk adotou uma impecável posição de sentido. O subtenente se perguntou o que mais podia dizer a Švejk, mas, finalmente,

só lhe ocorreu:

— Tenha cuidado para que eu não tenha de lhe dizer pela última vez! — e

acrescentou, a título de complemento, seu velho refrão: — Você ainda não me conhece, mas eu o conheço!

O subtenente Dub se afastou de Švejk pensando, ainda de ressaca: “Talvez

tivesse surtido mais efeito se tivesse lhe dito: ‘Conheço seu lado mau há muito tempo, idiota.’”

Depois mandou chamar Kunert e lhe ordenou que fosse buscar uma jarra

d’água.

É preciso dizer a favor de Kunert que ficou muito tempo procurando tanto a

jarra como a água. Finalmente, conseguiu roubar a jarra do capelão e a encheu de água em um poço coberto com tábuas que foi obrigado a arrancar. O poço estava tampado porque suspeitava-se que a água tinha sido contaminada com bactérias de tifo.

No entanto, o subtenente esvaziou o jarro d’água e não houve nenhum tipo

de consequências, confirmando o velho provérbio: “Vaso ruim não quebra.”

 

Se acreditavam que iam passar a noite em Tyrawa Woloska, estavam redondamente enganados.

O tenente Lukáš mandou chamar Chodounský, Vaněk, Švejk e Baloun. As

ordens foram simples e claras: todos deviam deixar a bagagem na ambulância e atravessar imediatamente os campos até Malý Pólanec, de onde se dirigiriam ao sudeste, pela margem do riacho, até chegar a Liskowate.

Švejk, Vaněk e Chodounský deveriam providenciar hospedagem, encontrar

um lugar onde a companhia pudesse passar a noite. Ela chegaria em uma hora, no máximo uma hora e meia depois. Enquanto isso, Baloun tinha de assar um ganso para o tenente Lukáš e os outros três deveriam vigiá-lo para que não comesse a metade. Vaněk e Š vejk comprariam um porco para a companhia e à noite seria preparado um gulache. O alojamento para a companhia devia ser adequado: era necessário evitar cabanas cheias de piolhos para que os soldados pudessem descansar direito: às seis e meia da manhã deveriam partir de Liskowate para Kroscienko e Stara Sól.

O batalhão já não passava penúrias. Em função da matança iminente, a

intendência da brigada de Sanok providenciara um adiantamento. No caixa da companhia havia mais de cem mil coroas e o sargento Vaněk recebera a ordem para, quando chegassem a algum lugar, ou seja, às trincheiras, fazer antes de morrer as contas e pagar aos soldados as quantias que lhes cabiam pelo pão e o rancho que, na confusão, não haviam recebido.

Quando os quatro estavam se preparando para partir, o capelão da aldeia

apresentou-se à companhia e distribuiu aos soldados um papel com a “Ave-Maria de Lourdes” na língua correspondente à nacionalidade de cada um. Tinha uma pilha daqueles papéis. Haviam sido deixados por um alto dignitário eclesiástico que percorria de carro e acompanhado por algumas prostitutas a Galícia devastada.

Ali onde o rio corre sob a montanha,

A angelical campana agora o acompanha.

Ave, ave, ave-maria! Ave, ave, ave-maria!

Enquanto Bernarda caminha pelos verdes prados,

O espírito da bondade se manifesta. Ave!

Bernarda vê a luz de uma estrela no céu,

O resplendor de um rosto santo coberto com véu. Ave!

Adorna-a um belo vestido cor de lírio,

O rosto santo ilumina o círio. Ave!

E na mão leva um rosário,

Da misericordiosa Senhora cheia de graça. Ave!

O rosto da menina é iluminado por um raio de luz, Os fechos celestiais o envolvem suavemente. Ave!

A Rainha do céu sorri para sua criatura,

A Senhora se manifesta nas divinas alturas. Ave!

Sem pecado, filha, fui concebida,

A todos os mortais quero dar acolhida. Ave!

Aqui o povo anda em procissões,

Rende-me homenagem nas canções. Ave!

Que erijam um templo de mármore,

Que se diga aos fiéis que aqui nasci. Ave!

Que esta fonte todas as dores cure,

E que a gratidão dos corações de todos me assegure. Ave!

Oh, glória a ti, belo vale celestial,

Refúgio da mão que cura todos os males. Ave!

Na rocha está tua caverna milagrosa,

O paraíso nos dais, Rainha misericordiosa. Ave!

Multidões de fiéis vêm em procissão,

E lhe dedicam suas orações. Ave!

Oh, estrela da salvação, me mostre o caminho

E me guie, Senhora, até teu trono divino. Ave!

Oh, Virgem santa, conceda-me tua misericórdia,

Com a eterna graça cheia de amor. Ave!

 

Em Tyrawa Woloska havia muitas latrinas e todas estavam entupidas de

papéis com a “Ave-Maria de Lourdes”.

O cabo Nachtigal, que era de algum lugar perto de Kašperských Hory,

comprou, de um judeu atemorizado, uma garrafa de aguardente, reuniu alguns companheiros e começaram a cantar a versão em alemão da “Ave-Maria de Lourdes”, sem o refrão “Ave” e com a melodia da canção Príncipe Eugène.

A estrada para Liskowate ficava muito desagradável depois do escurecer. Os

quatro que haviam sido encarregados de procurar alojamento para a 11ª Companhia tinham acabado de chegar à floresta e estavam na margem de um riacho que supostamente os levaria a Liskowate.

Pela primeira vez em sua vida, Baloun era obrigado a ir a um lugar

desconhecido. Tudo aquilo, a escuridão, o fato de sair na frente para procurar alojamento, lhe parecia misterioso, e de repente começou a suspeitar de que estava acontecendo alguma coisa estranha.

— Companheiros — disse em voz baixa, tropeçando nos obstáculos

espalhados pelo caminho perto do riacho —, fomos sacrificados.

— O que você quer dizer? — disparou Švejk, com voz embargada. — Companheiros, não façam barulho — pediu Baloun em voz baixa —,

estou sentindo nos ossos que nos ouvirão e seremos mortos a tiros. Já sei o que está acontecendo. Fomos enviados na frente para descobrir se os inimigos estão ou não aqui. Quando ouvirem tiros, saberão imediatamente que não é possível seguir em frente. Nós somos a patrulha de vanguarda, companheiros, segundo me ensinou o cabo Terna.

— Se é assim, vá você na frente — disse Švejk. — Nós o seguiremos. Dessa

maneira seremos protegidos pelo seu corpo gigantesco. E quando atirarem em você, nos avise para que possamos nos atirar na terra. Que maldito soldado é você! Tem medo de levar um tiro! É isso, exatamente, o que todo soldado deve desejar: que disparem contra ele, porque qualquer soldado que se preze sabe que quanto mais amiúde o inimigo disparar contra ele, mais ficará sem munição. A cada tiro que o inimigo dispara, sua força bélica diminui. Ele, por sua vez, se alegra de poder disparar contra você; assim pelo menos não tem que carregar cartuchos e pode correr com mais facilidade.

Baloun deixou escapar um suspiro profundo:

— Mas eu tenho uma fazenda em casa!

— Mande a fazenda à merda — aconselhou-o Švejk —; é melhor tombar

por Sua Majestade o Imperador. Não lhe ensinaram isso no exército?

— Sim, mas por alto — disse o néscio do Baloun. — Nos levaram ao pátio

de armas. Depois não ouvi mais nada a respeito porque me nomearam ordenança. Se pelo menos o imperador nos alimentasse melhor...

— Você é um porco insaciável. Antes da batalha não deveriam dar muita

comida aos soldados; há alguns anos, o capitão Untergriez nos explicou isso durante o serviço militar. Ele disse: “Canalhas infelizes, se algum dia houver uma guerra, que não passe por suas cabeças se fartarem de comer antes de ir à batalha. Se dispararem em suas barrigas quando estiverem com o estômago cheio, baterão as botas: toda a sopa e o pão saem das tripas, pega-se uma infecção e não há mais nada a fazer. No entanto, se o estômago estiver vazio, um tiro na barriga não faz nada, é como uma picada de vespa.”

— Eu digiro muito depressa — disse Baloun —; nada permanece por

muito tempo no meu estômago. Sou capaz de engolir uma travessa inteira de knedlík com porco assado e repolho e depois de meia hora cago tudo, mas não mais de três colheres de sopa; o resto se dilui dentro de mim. Há pessoas que quando comem cogumelos os cagam tal e qual, seria possível lavá-los e colocá-los de volta na frigideira. Comigo acontece o contrário: me farto de cogumelos com gula e ato contínuo, quando vou ao banheiro, expulso um pouco de pasta amarelada, como se fosse uma criança; o resto desaparece dentro de mim.

“Até as espinhas de peixe e os caroços das ameixas se dissolvem dentro de

mim, rapaz”, acrescentou Baloun em tom confidencial, dirigindo-se a Švejk. “Uma vez eu os contei. Havia comido setenta knedlíky de frutas, cada um com uma ameixa inteira, e quando chegou a hora de cagar, me escondi atrás do celeiro, removi tudo com um palito, afastei os caroços e os contei. A metade dos setenta caroços se dissolvera lá dentro.”

Da boca de Baloun escapou um suspiro longo e nostálgico. — Minha mulher fazia knedlík de ameixa com massa de batata e acrescentava

um pouco de ricota para que ficassem mais substanciosos. Ela preferia sempre salpicá-los com grãos de papoula, mas eu prefiro só ricota; uma vez lhe dei um par de bofetadas por isso... Não fui capaz de apreciar minha felicidade familiar.

Baloun se deteve, lambeu os lábios, passou a língua no céu da boca e disse

com suavidade e tristeza:

— Quer saber de uma coisa, amigo? Agora que tudo isso foi à merda, tenho

a sensação de que minha mulher tinha razão, que os knedlíky de frutas ficam mais saborosos com grãos de papoula. Antes sempre me queixava que a papoula se enfiava entre os dentes e agora penso que gostaria que se enfiassem entre eles... Minha mulher teve muitos desgostos comigo. Quantas vezes chorou quando eu queria que colocasse mais manjerona nas linguiças e a moía de pancada! Uma vez lhe dei tamanha surra, pobrezinha, que ficou dois dias sem conseguir se levantar da cama, e tudo porque não queria matar um peru e prepará-lo para o jantar; dizia que um frango era suficiente.

“Ai, filho”, Baloun começou a chorar, “quem me dera ter agora frangos e

salsichas sem manjerona. Você gosta de molho de endro? Sempre que minha mulher o preparava, nós brigávamos; no entanto, agora o beberia como se fosse café.”

Pouco a pouco Baloun foi esquecendo o fantasma de um suposto perigo e,

na calma da noite, inclusive quando estavam descendo para Liskowate, relacionou para Š vejk, com grande emoção, tudo de que não gostava e que agora comeria com grande prazer.

Atrás deles caminhavam o telefonista Chodounský e o intendente Vaněk. Chodounský dizia a Vaněk que, na sua opinião, a Guerra Mundial era um

grande disparate. O pior era que, caso os fios telefônicos partissem, seria necessário repará-los à noite; mas ainda muito pior era o fato de que agora, com os holofotes, o inimigo podia encontrar imediatamente aqueles que consertavam os malditos cabos e dirigir toda a artilharia contra eles.

Lá embaixo, na aldeia onde tinham que procurar alojamento para a

companhia e na qual reinava uma escuridão absoluta, todos os cachorros começaram a latir. Isso obrigou a expedição a parar e a pensar em uma maneira de enfrentar aquelas bestas.

— E se voltássemos? — cochichou Baloun.

— Baloun, Baloun, se contarmos o que você acaba de dizer será fuzilado por

covardia — respondeu Švejk.

Os cachorros latiam cada vez mais; tanto que contagiaram até os cães da

aldeia de Kroscenko e de outros povoados mais além do rio Ropa. Švejk gritava na calma noturna: “Calem-se! Calem-se de uma vez! Vão se calar ou não?”, da mesma maneira que chamava seus cachorros quando tinha o negócio de cães.

Os cachorros latiam a plenos pulmões e por isso o intendente Vaněk disse a

Š vejk:

— Não grite com eles, Švejk, ou toda a Galícia começará a latir!

— Quando fazíamos manobras na região de Tábor aconteceu algo parecido

com a gente — disse Švejk. — Chegamos a uma aldeia à noite e os cachorros começaram a fazer uma bagunça inimaginável. Aquela região é muito povoada e por isso os latidos iam de uma aldeia a outra, e, quando os cachorros da nossa aldeia se calavam, ouvíamos os latidos dos cães de algum lugar distante, como, por exemplo, da região de Pelhřimov, e então os nossos recomeçavam. Depois de um momento, estavam latindo as regiões de Tábor, de Pelhřimov, de Budějovice, de Humpolec, de Třeboň e de Jihlava. Nosso capitão era um velho neurótico que não conseguiu suportar os latidos. Não pregou o olho durante toda a noite; caminhava para cima e para baixo e não parava de perguntar à patrulha: “Qual é a aldeia que está latindo agora?” Os soldados respondiam que, humildemente, eram os cachorros que estavam latindo. O velho se irritou e, quando voltamos das manobras, todos os que haviam estado de patrulha naquela noite foram presos. A partir daquele dia o velho sempre escolhia alguns para serem “a patrulha dos cachorros” e os mandava ir às aldeias antes que nós chegássemos. Tal patrulha tinha a obrigação de dizer aos habitantes da aldeia na qual devíamos nos hospedar que nenhum cachorro podia latir durante a noite, senão, seria morto. Eu também fiz parte de uma daquelas patrulhas e quando chegamos a uma aldeia do distrito de Milevsko me equivoquei e disse ao alcaide que todos os donos de cachorros que latissem à noite seriam executados por motivos estratégicos. O alcaide se assustou; fez engatar os cavalos a toda pressa e foi ao alto-comando pedir clemência para sua aldeia. Não o deixaram entrar, as sentinelas quase o fuzilaram, de modo que voltou para casa; antes que os nossos chegassem à aldeia, seguindo seu conselho todo mundo amarrou a boca do seu cachorro com um pano. Três deles enlouqueceram.

Continuar: parte 2 de 2