As Aventuras do Bom Soldado Švejk
Terceira Parte – A surra gloriosa
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
1
Através da Hungria
Afinal chegou o momento em que enfiaram todos nos vagões em uma proporção de 42 homens por 8 cavalos. Naturalmente, os cavalos viajavam com muito mais conforto do que os homens, porque podiam dormir em pé. O trem militar levava de volta à Galícia um novo grupo de pessoas destinadas ao matadouro.
No entanto, na realidade essas criaturas se sentiram aliviadas quando o trem
começou a andar. Pelo menos agora se tratava de uma coisa definida; até então haviam estado submersos em uma dolorosa incerteza, em uma espécie de pânico gerado pelo fato de desconhecerem se partiriam hoje ou amanhã. Alguns se sentiam como se fossem condenados à morte que esperam aterrorizados o momento em que o carrasco virá buscá-los.
Por isso, um dos soldados começou a gritar freneticamente: “Estamos indo!
Estamos indo!”
O intendente Vaněk tinha toda razão quando dizia a Švejk que não havia a
menor pressa. Antes de chegar o momento de subir aos vagões, passaram-se vários dias, durante os quais não se fazia nada além de falar das conservas, e o experiente Vaněk não parava de dizer que estavam sonhando acordados, que conservas que nada! E ainda por cima uma missa campal, pois as companhias precedentes também haviam passado por uma. Quando há conservas, não há missa; quando há missa, não há conservas.
De maneira que no lugar das latas de gulache compareceu o capelão-mor
Ibl, que matou três coelhos com uma cajadada só: celebrou a missa campal para três batalhões, abençoou dois que estavam indo para a Sérvia e um terceiro que ia para a Rússia.
Na cerimônia, o capelão fez um discurso bastante exaltado; percebia-se que
havia se inspirado nos calendários militares. Foi um sermão tão comovente que, quando se dirigiam a Mošon, Švejk, que viajava com Vaněk em um escritório improvisado, se lembrou dele e disse ao intendente:
— Vai ser fantástico, como disse o capelão, quando, ao entardecer, o sol com
seus raios de ouro se esconder atrás das montanhas e no campo de batalha for sentido o último suspiro dos moribundos, o estertor dos cavalos tombados, os gemidos dos soldados feridos e os lamentos da população vendo o fogo ardendo acima de suas cabeças em suas próprias casas. Eu adoro quando as pessoas ficam dizendo besteiras ao quadrado.
Vaněk assentia com a cabeça: — Que história emocionante!
— Fantástica e muito instrutiva — disse Švejk. — Quero gravá-la na
memória para poder contá-la na taverna U Kalicha depois da guerra. Durante o sermão, o capelão esticou tanto as pernas que tive medo de que escorregasse, caísse em cima do altar e quebrasse a cachola no cálice sagrado. Que bela anedota aquela que contou sobre a história de nosso exército na época de Radetzky! E, pela maneira como falou da cor avermelhada do crepúsculo se misturando com o fogo dos celeiros no campo de batalha, deu a impressão de que viu tudo aquilo com seus próprios olhos!
Nesse mesmo dia, o capelão Ibl apareceu em Viena contando a outro
batalhão a impressionante história que Švejk acabara de mencionar e de que gostara tanto a ponto de classificá-la de fantástica.
— Queridos soldados — disse o capelão Ibl no início de seu sermão —,
imaginem que estamos no ano de 1848 e que terminou a batalha de Custozza;55 depois de dez horas de luta renhida, o rei Alberto da Itália abandonou o sangrento campo de batalha, deixando-o nas mãos do pai dos nossos guerreiros, o marechal Radetzky, que chegou àquela vitória gloriosa aos oitenta e quatro anos de idade.
“E eis que, queridos soldados, o velho marechal se detém em uma colina
diante da Custozza conquistada. Está cercado por seus fiéis generais. A solenidade do momento se apodera de todos os presentes porque, soldados, a pouca distância do marechal, um combatente luta contra a morte. No campo da honra, com os membros destroçados, o alferes ferido sente sobre si o olhar de Radetzky. O valente alferes ferido aperta com ardor convulsivo a medalha de ouro em sua mão direita, já rígida. Ao ver seu nobre marechal, seu coração volta a bater, as últimas forças inflam seu corpo inválido e, com um esforço sobre-humano, o moribundo tenta se arrastar até o marechal de campo.
“‘Descanse, valente soldado’, grita o marechal, e desce do cavalo para lhe
oferecer a mão.
“‘Não é possível, senhor marechal’, diz o soldado moribundo, ‘arrancaram-
me os braços, mas só lhe peço uma coisa. Diga-me a verdade e nada mais do que a verdade: vencemos completamente a batalha?’
“‘Completamente, filho’, assevera o marechal com amabilidade. ‘Que pena
que suas feridas não lhe permitam sentir plenamente a alegria!’
“‘Nobre senhor, estou acabado’, diz o soldado com voz apagada, sorrindo
afavelmente.
“‘Você está com sede, talvez?’, pergunta Radetzky. “‘Foi um dia muito quente, meu marechal; estávamos a mais de 30 graus.’ “Então Radetzky pega o cantil de seu ordenança e o entrega ao moribundo,
que bebe um bom gole.
“‘Deus lhe pague mil vezes!’, exclama este, fazendo um esforço para beijar a
mão de seu comandante.
“‘Quanto tempo faz que você está no exército?’, pergunta este.
“‘Mais de quarenta anos, senhor marechal! Em Aspern,56 ganhei a medalha
de ouro. Lutei em Leipzig57 e também tenho a Cruz de Guerra. Fui ferido mortalmente cinco vezes, mas agora sei que o fim chegou. Que felicidade, que bênção ter vivido até o dia de hoje! Pouco me importa a morte se conseguimos uma gloriosa vitória e o imperador reconquistou suas terras!’
“Naquele momento, queridos soldados, no acampamento se ouviu nosso
hino: Deus salve nosso Imperador. Sons poderosos e solenes tomaram conta do campo de batalha. O soldado que se despedia da vida fez uma última tentativa de se levantar.
“‘Viva a Áustria!’, exclamou com entusiasmo, ‘viva a Áustria! Que continue
este canto esplêndido! Viva nosso caudilho! Viva o exército!’.
“O moribundo voltou a se inclinar sobre a mão direita do marechal e, depois
de tê-la beijado, desabou: um último suspiro abandonou sua alma nobre. O caudilho descobriu a cabeça diante do cadáver de um de seus soldados mais valentes.
“‘Um fim como este é verdadeiramente invejável’, disse o marechal de campo,
comovido, enquanto cobria o rosto com as mãos.
“Queridos soldados, eu também lhes desejo que encontrem um final tão
“Queridos soldados, eu também lhes desejo que encontrem um final tão
belo.”
Agora que conhecemos o discurso do capelão militar Ibl, sabemos que ao
qualificá-lo de besteira ao quadrado Švejk não se equivocara muito.
Depois Švejk começou a falar das famosas ordens do dia que haviam sido
lidas no dia em que deviam subir nos trens. Uma era assinada por Franz Joseph; a outra, pelo arquiduque Joseph Ferdinand, comandante supremo do exército e do agrupamento Leste. As duas faziam referência aos acontecimentos de 3 de abril de 1915, no desfiladeiro de Dukla. Naquele dia, dois batalhões do 28º Regimento, com os oficiais de comando incluídos, passaram para o lado dos russos acompanhados pela música da banda do regimento.
Leram-lhes as duas ordens do dia com voz trêmula, traduzida para o tcheco.
Diziam o seguinte:
Ordem do dia de 17 de abril de 1915:
Com o coração transbordando de dor determino que o 28º
Regimento Imperial e Real de Infantaria seja expulso de meu exército por covardia e alta traição. Sua bandeira será retirada e depositada no Museu Militar. Este dia põe fim à existência deste regimento, que, moralmente envenenado em sua região de origem, se dirigiu ao campo de batalha e cometeu um ato de alta traição.
Franz Joseph I
Ordem do dia do arquiduque Joseph Ferdinand:
Durante a campanha bélica, as tropas tchecas não estiveram à
altura do que delas se esperava, em especial nas últimas batalhas. Não corresponderam às expectativas, particularmente na defesa das posições nas trincheiras, e o inimigo se aproveitou disso para estabelecer contato com infames elementos das tropas mencionadas.
O inimigo, com a ajuda desses traidores, dirigia seus ataques às zonas
fronteiriças, ocupadas por essas tropas.
O inimigo amiúde chegava a surpreender nossos regimentos e quase sem
enfrentar resistência penetrava em nossas posições e capturava um número elevadíssimo de presos. Mil vezes vergonha, ignomínia e menosprezo por aqueles canalhas sem honra e sem consciência que traíram o imperador e o império e atingiram não apenas a honra das gloriosas bandeiras de nosso valente e triunfal exército, mas também a honra da nação a qual pertencem.
Mais cedo ou mais tarde se verão diante da bala ou da corda do verdugo. A obrigação de todo soldado tcheco que ainda saiba o que significa honra é
denunciar ao seu comandante os miseráveis agitadores e traidores que se encontram no corpo.
Quem não o fizer é um canalha e um traidor como eles. Esta ordem do dia deve ser lida a todos os soldados dos regimentos tchecos.
O 28º Regimento Imperial e Real foi expulso do exército por determinação de nosso monarca, e todos os desertores pagarão com seu sangue pelo grave crime cometido.
Arquiduque Joseph Ferdinand
— Demoraram muito para lê-las — disse Švejk a Vaněk. — Acho muito
estranho que não o tivessem feito até agora se o imperador as tornou públicas em 17 de abril. Poderíamos achar que tiveram motivos para não as terem lido antes. Se eu fosse o imperador, não permitiria que me tratassem assim. Se dou uma ordem em 17 de abril tem que ser lida em 17 de abril, mesmo se o céu estiver desabando.
Na extremidade do vagão oposta à de Vaněk, o cozinheiro ocultista da cantina
dos oficiais escrevia alguma coisa. Atrás dele estava sentado o ordenança do tenente Lukáš, o gigante barbudo Baloun, e um tal de Chodounský, designado para ser o telefonista da 11ª Companhia. Baloun roía um pedaço de pão e, assustado, explicava a Chodounský que não era culpa sua se, com toda aquela confusão, não conseguira chegar ao vagão do seu tenente.
Chodounský o assustou dizendo que agora a brincadeira acabara e que por
um delito como aquele poderiam fuzilá-lo.
— Quem me dera que este martírio acabasse de uma vez! — gemia Baloun.
— Certa vez estive prestes a bater as botas; foi durante as manobras perto de Votic. Fomos para lá famintos e sedentos, e quando o ordenança do batalhão se aproximou eu gritei: “Deem-nos pão e água!” Ele veio até a gente com o cavalo e me disse que, se aquilo tivesse acontecido durante a guerra, eu teria sido obrigado a me afastar da fila e teriam me fuzilado, e que por ora só me encarceraria. Mas tive muita sorte: quando foi me denunciar ao estado-maior, o cavalo se descontrolou, ele caiu e, graças a Deus, quebrou o pescoço.
Baloun deixou escapar um profundo suspiro e se engasgou com o pedaço de
pão; depois de se recuperar, fitou com olhos ansiosos os sacos do tenente Lukáš cheios de provisões que devia vigiar.
— Os senhores oficiais receberam sua ração — disse, em tom lúgubre. —
Latas de patê de fígado e salame húngaro. Eu gostaria tanto de ganhar um pedacinho!
Enquanto falava assim olhava os sacos com ansiedade, como um cachorro
abandonado com fome lupina que fareja na porta de uma charcutaria os vapores das salsichas fervidas.
— Não seria nada mau se estivessem nos esperando em algum lugar com
uma boa comida — disse Chodounský. — No começo da guerra, quando fomos para a Sérvia, nos convidavam tão amiúde que nos fartávamos de comer em cada estação e jogávamos ludo em cima de tabletes de chocolate. Em Osek, na Croácia, dois veteranos trouxeram ao vagão um caldeirão com coelho assado; não conseguimos nos segurar e mergulhamos de cabeça. Naquela viagem não fizemos nada além de vomitar pelas janelas. Em nosso vagão, o cabo Matějka comeu tanto que tivemos que colocar uma mesa em cima de sua barriga e ficar pulando, como se estivéssemos pisando uvas; isso o aliviou, e começou a expelir tudo por cima e por baixo. Quando estávamos atravessando a Hungria, atiravam galinhas assadas nos vagões. Só não comíamos os miolos. Em Kaposfalva, os húngaros nos atiraram pedaços inteiros de porco assado; uma cabeça de porco bateu na testa de um companheiro, que se viu obrigado a correr com a correia da baioneta ao longo de três plataformas, perseguindo o doador. No entanto, na Bósnia não nos deram nem água. Mas ali, embora fosse proibido, tínhamos vinho e aguardente aos montes. Recordo que uma vez, em uma estação, algumas senhoras e senhoritas nos obsequiaram com cerveja e nós mijamos em um daqueles baldes; vocês precisavam ver como saíram correndo dali!
“Passamos toda a viagem tão mareados que eu não fui capaz de reconhecer
um ás de espadas, e de repente, quando menos esperávamos, veio uma ordem; nem sequer pudemos acabar de jogar as cartas: vamos, todos para fora dos vagões! Um cabo, já não recordo seu nome, pedia ao seu pessoal que cantasse em alemão: Os sérvios precisam ver que os austríacos venceram. Mas alguém lhe deu uma patada por trás e o sujeito desabou nos trilhos. Depois gritou que fizéssemos pirâmides com os fuzis; naquele momento o trem deu meia-volta e voltou vazio; mas, como costuma acontecer nos momentos de pânico, levaram nossas provisões para dois dias. Logo começaram a explodir projéteis a uma distância como daqui àquelas árvores. Do outro extremo veio o comandante do batalhão e convocou todo mundo para falar da situação. Também veio um tal de Macek, um tcheco de pura cepa que só falava em alemão, e disse, pálido como um cadáver, que não era possível continuar, que os trilhos haviam voado, que durante a noite os sérvios haviam atravessado o rio e que já estavam na margem esquerda. No entanto, ainda não haviam se aproximado definitivamente, e quando chegassem os reforços lhes daríamos uma boa surra. Ninguém devia se render porque os sérvios, segundo ele, cortariam o nariz e as orelhas dos prisioneiros e arrebentariam seus olhos. Se, ao nosso lado, explodissem projéteis, não devíamos nos preocupar: era nossa artilharia que estaria se exercitando, disse. De repente, de algum lugar atrás das montanhas, ouviu-se um taratatá. Segundo ele, eram nossas metralhadoras disparando. À esquerda, ouviu-se um disparo de canhão. Era a primeira vez que ouvíamos aquilo e nos atiramos de boca para baixo nos trilhos; várias granadas passaram voando por cima de nossas cabeças e incendiaram a estação; à esquerda começaram a silvar balas, enquanto, a certa distância, se ouviam salvas e ruídos de baionetas. O tenente Macek ordenou que desmontássemos as pirâmides e carregássemos os fuzis. O chefe de serviço se aproximou e lhe disse que isso era absolutamente impossível, porque não tínhamos munição; que se supunha que íamos procurar munição na próxima etapa, antes de chegar ao front, e que o trem com a munição ia na frente da gente e já devia ter caído nas mãos dos sérvios. O tenente Macek ficou por um instante petrificado e depois ordenou, sem saber por que, por puro desespero, para que houvesse alguma reação: ‘Calem as baionetas!’ Então ficamos durante um bom tempo preparados e depois voltamos a nos atirar nos trilhos porque apareceu um avião e os oficiais gritaram: ‘Cubram-se, cubram-se, todo mundo debaixo de uma cobertura!’ Mais tarde se descobriu que o avião era nosso, mas que, por engano, nossa artilharia o atingira. Nos levantamos outra vez e não recebemos nem uma ordem, nem um ‘Descansar!’. Um soldado da cavalaria veio galopando e de longe gritava: ‘Onde está o comando do batalhão?’ O comandante do batalhão foi recebê-lo; o outro lhe entregou um papel e partiu em seguida a galope, para a direita. Enquanto se afastava, o comandante do batalhão leu o papel e de repente, como se tivesse ficado louco, desembainhou o sabre e galopou voando em nossa direção: ‘Retrocedam, retrocedam todos’, gritou para os oficiais. ‘Ao vale em fila indiana!’ E então começou. Como se estivessem esperando por esse momento em todos os lados, começaram a nos liquidar. À esquerda havia um campo de milho que era um verdadeiro inferno. Nos arrastamos de quatro em direção ao vale; deixamos as mochilas nos trilhos. O tenente Macek recebeu uma bala na cabeça e nem piou. Antes de conseguirmos nos refugiar no vale, muitos morreram e ficaram feridos; os deixamos ali e continuamos correndo até que caiu a noite, mas não restava um único homem nosso na região. Todos haviam escapado antes da nossa chegada. Só vimos um trem saqueado. Quando, finalmente, chegamos a uma estação, já haviam recebido novas ordens: devíamos sentar no trem e voltar para o comando, mas não pudemos fazê-lo porque no dia anterior todo o comando fora aprisionado, coisa que só soubemos de manhã. De maneira que estávamos como órfãos, ninguém queria saber nada da gente. Depois nos designaram ao 73º Regimento, para recuar com ele; e fizemos isso com o maior prazer, mas antes tivemos que avançar mais ou menos um dia para encontrar o 73º Regimento. Depois...”
Mas então ninguém mais o escutava. Švejk e Vaněk jogavam mariáš; o
cozinheiro ocultista da cantina dos oficiais escrevia uma longa carta à esposa, que durante sua ausência começara a publicar uma nova revista teosófica; Baloun cochilava em um banco..., de modo que o telefonista Chodounský limitou-se a repetir: “Não, não esquecerei nunca...”
Levantou-se e foi dar palpites nas jogadas dos dois que estavam mergulhados
no mariáš.
— Pelo menos, já que não consegue parar de olhar e fazer comentários, você
poderia acender meu cachimbo? — disse Švejk a Chodounský amistosamente. — O mariáš é uma coisa muito mais séria do que a guerra inteira e suas aventuras na fronteira sérvia. Que besteira acabo de fazer, como sou burro; deveria me autoflagelar! Por que não segurei mais um momento aquele rei? Agora mesmo recebi um valete. Sou um idiota!
Nesse meio-tempo o cozinheiro ocultista terminara a carta e a lia com
satisfação por tê-la escrito tão bem, não se esquecendo de que seria submetida à censura militar.
Minha querida esposa,
Quando receber estas linhas já estarei há vários dias no trem:
estamos indo para o front. Não estou muito feliz porque não faço nada, não sou útil, porque na cozinha dos oficiais não temos trabalho; recebemos a comida a cada etapa, nas estações. Gostaria de ter preparado durante a viagem um gulache de repolho e cogumelos para os oficiais, mas não foi possível. Talvez, quando chegarmos à Galícia, terei a oportunidade de preparar um autêntico scholet, o da Galícia, ganso refogado com cevada ou arroz. Acredite, querida Helena, que me esforço o mais que posso para aliviar as preocupações e as dores dos oficiais e tornar sua vida agradável. Fui transferido do regimento ao batalhão que está indo ao front; era tudo o que desejava, pois assim poderei servir da melhor maneira possível na cozinha dos oficiais no front, embora dispondo de meios bem mais modestos. Você recorda, querida Helena, que, quando me incorporei ao exército, você me desejou que encontrasse bons superiores? Seu desejo se cumpriu. Não tenho do que me queixar, pelo contrário, todos os oficiais são nossos grandes amigos e se
comportam comigo de uma maneira especialmente paternal. Assim que for possível lhe darei o número do nosso correio militar...
A carta era fruto das circunstâncias: o cozinheiro ocultista perdera as graças
do coronel Schröder, que até então torcera por ele, depois de ter, por um triste azar, derramado vinagre em seu prato, no caso, uma massa recheada com rins de vitela. No jantar de despedida dos oficiais do batalhão, o coronel ficara sem a sua porção, e por isso enviou o pobre cozinheiro ocultista ao front com a companhia e confiou a cozinha dos oficiais a um pobre professor do colégio para cegos do subúrbio praguense de Klárov.
O cozinheiro ocultista voltou a ler o que acabara de escrever. Achou a carta
bastante diplomática, capaz até de mantê-lo pelo menos um pouco afastado do campo de batalha, porque, não importam o que digam, puxar o saco é uma coisa que funciona até na guerra.
Com o campo de batalha tão próximo, se esquecera de que antes da guerra,
quando era sócio proprietário de uma revista ocultista que tratava das ciências do além-túmulo, escrevera um longo ensaio no qual afirmava que ninguém deve temer a morte porque a alma transmigra. Mas agora isso estava muito distante.
Jurajda aproximou-se de Švejk e Vaněk e ficou observando o jogo. Naquele
momento, os dois estavam nivelados, não levavam em conta a diferença de graduação militar que havia entre eles. Agora, com Chodounský, não eram apenas duas a pessoas que jogavam mariáš, mas três.
O ordenança Švejk se dirigia rudemente ao intendente Vaněk: — Eu fico impressionado como alguém pode jogar de uma maneira tão
idiota. Não viu o que este aí tirou? Eu não tenho nenhum verde e você, em vez de descartar o oito, joga como o maior dos idiotas um valete de diamante e a banca ganha.
— Tanto barulho por uma maldita partida perdida! — foi a delicada resposta
do intendente. — Você é o primeiro a jogar como um bobalhão! Esperava que eu tirasse um oito verde da manga, seu louco de merda?
— É como aconteceu uma vez na cervejaria U Valšů, lá embaixo, no
restaurante — replicou Švejk sorrindo. — Um queria que o parceiro fizesse uma coisa, o outro, outra. E aí começaram a berrar feito doidos. Então um deles gritou que podia jogar como lhe desse na telha e que ficássemos todos calados porque fora educado na universidade e acabaram brigando. Mas a história lhe custou muito caro. O dono era nosso amigo e a garçonete convivia conosco de uma maneira muito familiar, de maneira que quando a patrulha chegou dissemos aos policiais que estava tudo em ordem, que era uma grosseria daquele homem perturbar a paz noturna chamando a polícia quando a única coisa que acontecera era que escorregara no gelo e quebrara o nariz. Dissemos que não havíamos tocado nele nem quando trapaceava e que quando, finalmente, o flagramos, saiu correndo e caiu. O proprietário e a garçonete confirmaram tudo, disseram que até havíamos sido amáveis com ele. O canalha não merecia mesmo nada além disso. Das sete até meia-noite bebera uma única cerveja e uma água com gás; fazia-se de grande senhor e, como era professor universitário, não tinha a menor ideia de como se jogava mariáš. Bem, quem dá?
— Vamos jogar kaufzwick58 — sugeriu o cozinheiro ocultista.
— Prefiro que você fale da transmigração das almas — disse Vaněk —,
como fez com a garota na cantina quando quebrou o nariz.
— Eu também já ouvi falar da transmigração das almas — disse Švejk. —
Há alguns anos resolvi que me dedicaria, com perdão, aos estudos, e para não ficar para trás resolvi ir à sala de leitura da Associação Industrial de Praga. Mas, como estava em farrapos e era possível ver tudo através dos buracos das minhas calças, não pude me transformar em uma pessoa culta. Não me deixaram entrar, me levaram para fora porque acharam que eu queria roubar os casacos. Por isso um dia me arrumei e fui, com um amigo, à biblioteca do Museu, e pedimos um livro sobre a transmigração das almas. Li que um imperador da Índia havia virado porco, e quando mataram o porco, virou macaco e de macaco virou perdigueiro e de perdigueiro virou ministro. Depois, no exército, me convenci de que devia haver um pouco de verdade nessa história, porque todos os que tinham algum galão chamavam os soldados de porcos, e também de muitos outros nomes de animais, e disso podia se deduzir que, milhares de anos atrás, os simples soldados haviam sido célebres caudilhos. No entanto, durante a guerra a transmigração das almas vira uma coisa muito estúpida. Só o diabo sabe por quantas transmigrações uma pessoa tem de passar antes de se transformar, digamos, em telefonista, cozinheiro ou soldado de infantaria. E de repente é destroçada por uma granada e sua alma vai parar num cavalo de artilharia, e, quando toda a bateria está se dirigindo a algum ponto, explode outra granada e a alma do cavalo em que ele se transformara transmigra para alguma vaca do comboio, com a qual fazem um gulache; da vaca, a alma transmigra, por exemplo, para um telefonista, do telefonista...
— Me surpreende que o alvo dessas piadas idiotas tenha que ser exatamente
eu — disse o telefonista Chodounský, visivelmente ofendido.
— Aquele Chodounský de Praga que tem uma agência de detetives com um
olho que lembra o da Santíssima Trindade na fachada é, por acaso, seu parente? — perguntou inocentemente Švejk. — Eu gosto muito dos detetives particulares. Anos atrás, quando estava fazendo o serviço militar, havia entre a gente um detetive particular, um tal de Stendler. A cabeça daquele homem era cônica e nosso sargento-mor lhe dizia que, durante seus doze anos de exército, havia visto muitos militares com cabeças cônicas, mas que não imaginava nem em sonhos que pudesse existir uma testa que parecesse tanto com um cone como a dele. “Ouça, Stendler”, lhe dizia sempre, “se este ano não houvesse manobras, sua moleira não serviria nem para o exército, mas assim pelo menos a artilharia poderá se localizar quando chegarmos a um lugar onde não haja pontos de orientação.” Precisavam ver como o sargento-mor zombava dele! Algumas vezes, durante as marchas, o fazia avançar quinhentos passos e depois ordenava: “Direção, cone!” O senhor Stendler tinha azar, inclusive como detetive particular. Às vezes, na cantina, nos contava as humilhações que sofria. Era contratado, por exemplo, para descobrir se a mulher do cliente, que parecia uma alma penada, estava saindo com alguém, e, se estivesse, então com quem, onde estivera e quando. Ou ao contrário. Uma mulher ciumenta queria descobrir com quem seu marido estava envolvido para armar um escândalo em casa. Era um homem culto, falava de adultério de uma maneira educada, usando palavras elegantes, e sempre estava prestes a começar a chorar quando nos contava que todo mundo queria que flagrasse o acusado. Outro em seu lugar se alegraria de encontrar o casalzinho em plena faina e ficaria com os olhos arregalados; no entanto, ele ficava destroçado com aquilo. Dizia de uma maneira muito inteligente que não aguentava ver aquelas obscenidades lascivas. Às vezes ficávamos com água na boca quando nos contava as diferentes posições em que flagrara os casais. Sempre que ficávamos presos no quartel desenhava os pombinhos para a gente: “Foi assim que vi a senhora tal e tal com o senhor tal e tal...” Nos dava até os endereços. Mas vivia triste. “Recebi tantas bofetadas dos dois lados!”, dizia sempre. “Mas o que mais lamento é ter permitido que me subornassem. Não esquecerei jamais de um desses subornos. Ele, pelado; ela, pelada. Estavam em um hotel e não passaram a chave na porta, imbecis! Não cabiam no sofá porque os dois eram gordos e então ficavam pulando no tapete como se fossem gatos. O tapete estava muito gasto, cheio de poeira e pontas de cigarro. Quando entrei, os dois deram um pulo; ele estava diante de mim, cobrindo-se com a mão como se fosse uma folha de parreira. Ela se virou e vi que tinha as costas marcadas pelas listras do tapete e que uma ponta de cigarro se grudara em sua coluna vertebral. “Me perdoem”, eu disse. “Senhor Zemek, sou Stendler, detetive particular da agência Chodounský, e minha missão era encontrá-lo com as mãos na massa, devido a uma acusação de sua esposa. Esta senhora com que manteve aqui relações proibidas é a senhora Grotová.” Nunca na vida vi uma pessoa tão tranquila. “Permita-me que me vista”, disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo. “A culpa é exclusivamente de minha esposa. Seus ciúmes infundados me impeliram a manter relações proibidas, e, impulsionada tão somente pela suspeita, com sua vergonhosa desconfiança ofendeu seu marido. Por outro lado, não tenho dúvidas de que o opróbio não poderá ser evitado de maneira nenhuma... Onde estão minhas cuecas?”, perguntou com toda a calma do mundo. “Em cima da cama.” Enquanto vestia as cuecas, continuou falando: “Se o opróbio não pode mais ser evitado, teremos que pedir o divórcio. Mas mesmo assim a marca da desonra não poderá ser apagada. Divórcio é uma coisa muito arriscada”, continuou dizendo, se vestindo. “O melhor seria que minha mulher tivesse paciência e não provocasse discussões em público. Enfim, faça o que achar melhor, eu o deixo aqui sozinho com a senhora.” Nesse meio-tempo, a senhora Grotová se enfiara na cama. O senhor Zemek apertou minha mão e foi embora. Não me lembro mais direito de como o senhor Stendler continuou falando nem de tudo o que nos disse depois, porque ficou conversando de uma maneira muito inteligente com a senhora que estava na cama. Disse que o casamento não fora instituído para permitir que cada um encontrasse a felicidade imediatamente e que aqueles que se casam têm a obrigação de reprimir a luxúria e de refinar e espiritualizar o corpo. “Enquanto isso”, contava o senhor Stendler, “comecei a tirar a roupa aos poucos e quando fiquei completamente nu, excitado e selvagem como um cervo no cio, entrou no quarto um conhecido meu, o senhor Stach, detetive particular da nossa concorrente, a agência do senhor Stern, que havia sido contratada pelo marido da senhora Grotová para que investigasse as relações de sua mulher, e limitou-se a dizer: “Ah, pegamos o senhor Stendler em flagrante com a senhora Grotová. Minhas congratulações!” Depois fechou a porta e partiu. “A esta altura, não importa mais”, disse a senhora Grotová. “Não precisa se vestir tão depressa, aqui ao meu lado há espaço suficiente.” “Trata-se exatamente disso, de encontrar meu espaço”, contestei, e não recordo o que disse depois, só que comentei que, quando os cônjuges têm problema, são os filhos que sofrem as consequências. E continuou contando como se vestira depressa, correndo, como havia ido embora e resolvido que contaria imediatamente tudo a seu diretor, o senhor Chodounský. No entanto, parou para tomar um trago para ter mais coragem e chegou, por fim, à agência. Mas então o senhor Stach já estava lá, por determinação de seu diretor, o senhor Stern, para dar um susto no senhor Chodounský e esfregar-lhe no nariz que tipo de empregado tinha, e a este não ocorreu nada melhor do que mandar buscar a mulher do senhor Stendler para que acertasse ela mesma as contas com o marido por ter sido flagrado em delito pela agência concorrente durante uma missão profissional. “A partir de então”, costumava dizer o senhor Stendler, “minha cabeça ficou ainda mais parecida com um cone”.
O trem parou na estação de Mošon. Já era de noite e não permitiram que ninguém saísse dos vagões.
Quando o comboio se mexeu, de uma das janelas se ouviu uma voz potente
que parecia querer abafar o barulho do trem. Na atmosfera noturna, mística e sugestiva, um dos soldados austríacos de Kašpeské Hory emitia gritos arrepiantes em alemão no meio da tranquilidade reinante nas planícies húngaras:
Boa noite! Boa noite!
É hora do merecido descanso.
O dia atarefado termina,
As mãos diligentes repousam.
Repousarão até que chegue a aurora.
Boa noite! Boa noite!
— Cale-se, idiota! — alguém interrompeu o cantor sentimental, que ficou
em silêncio.
Afastaram-no da janela.
As mãos diligentes não descansaram até a madrugada. Assim como em todos
os lugares do trem à luz de velas e aqui sob um pequeno candeeiro a querosene pendurado na parede, Švejk e seus companheiros continuavam jogando kaufzwick. Sempre que alguém falhava ao comprar cartas, o bom soldado afirmava que o kaufzwick era o jogo mais justo de todos porque cada um podia trocar quantas cartas quisesse.
— Vamos jogar uma partida de zdravíčko59 — sugeriu Vaněk, e todos
concordaram.
— Sete vermelho — anunciou Švejk, cortando o baralho. — Cada um põe
uma moeda de cinco centavos e recebe quatro cartas. Não podemos perder tempo se quisermos ter um bom jogo.
Os rostos dos quatro estavam muito tranquilos. Nem parecia que
participavam de uma guerra e estavam em um trem que os levaria ao front, a tremendas e sangrentas batalhas e matanças; davam a impressão de que estavam sentados à mesa de jogo de algum café de Praga.
— Eu jamais teria acreditado — afirmou Švejk depois da primeira partida
— que, sem nada na mão e trocando as quatro cartas, receberia um ás. O que vocês queriam me apresentando um rei? Ora, posso matar o rei como se mata uma mosca.
E enquanto o rei era morto com o ás, longe deles, no front, outros reis se
E enquanto o rei era morto com o ás, longe deles, no front, outros reis se
matavam por meio de seus súditos.
No vagão do grupamento, onde os oficiais estavam sentados, reinava um silêncio um pouco estranho. Quase todos os oficiais estavam submersos na leitura de um pequeno
livro encadernado em pano e intitulado Die Sünden der Väter,60 um romance de Ludwig Ganghofer. Todos tinham os olhos fixos na página 161. Ao lado da janela, o capitão Ságner, comandante de batalhão, também segurava o livro entre as mãos, aberto, da mesma forma, na página 161.
Contemplava a paisagem e se perguntava qual seria a maneira mais
compreensível de explicar aos oficiais o que deviam fazer com o livro. Tratava-se de um assunto estritamente confidencial.
Enquanto isso, os oficiais diziam para si mesmos que o coronel
enlouquecera de uma vez. Sempre lhe faltara um parafuso, mas mesmo assim ninguém acreditava que a loucura se apresentasse desta maneira, tão de súbito. Antes de partir os chamara para participar de uma última reunião, na qual lhes anunciara que, no escritório do batalhão, poderiam encontrar um exemplar do Die Sünden der Väter destinado a cada um deles.
— Senhores — disse com voz cheia de mistério —, não se esqueçam jamais
da página 161.
Submersos na página 161, os oficiais achavam que aquilo não tinha pé nem
cabeça. Naquela página, uma tal de Marta se dirigia à escrivaninha, tirava dela uma obra de teatro e dizia em voz alta que os espectadores deviam sentir compaixão pelo protagonista. Depois, naquela mesma página, surgia um tal de Albert que não parava de fazer piadas, coisa que, quando não se conhecia o contexto, parecia uma estupidez tão grande que o tenente Lukáš não podia evitar morder a ponta do cigarro com raiva.
“O velho enlouqueceu”, pensaram todos. “Está acabado. Agora será
transferido ao Ministério da Guerra.”
Depois de ter refletido a fundo sobre isso, o capitão Ságner se levantou de
seu assento ao lado da janela. Não tinha um grande talento pedagógico e por isso demorou para preparar o esboço de seu discurso sobre o significado da página 161.
Antes de começar a falar, se dirigiu aos oficiais com um meus senhores, como
fazia o coronel, embora, antes de subir no trem, tivesse se dirigido a eles chamando-os de camaradas.
— Meus senhores... — e começou sua exposição, afirmando que na noite
anterior o coronel havia lhe dado instruções a respeito da página 161 do Die Sünden der Väter, de Ludwig Ganghofer. — Bem, meus senhores — continuou em tom solene —, temos informações rigorosamente confidenciais relativas ao novo sistema de mensagens cifradas adotado no campo de batalha.
O cadete Biegler pegou um bloco de anotações e um lápis e disse em um
tom extremamente serviçal.
— Estou preparado, senhor capitão.
Todos olharam para aquele imbecil, cuja aplicação na escola dos voluntários
raiava a estupidez. Alistara-se no exército voluntariamente e, na primeira oportunidade, dissera ao comandante da escola, aproveitando que este perguntava aos alunos sobre sua família, que seus antepassados se chamavam Bügler von Leuthold e que ostentavam no brasão uma asa de cegonha com um rabo de peixe.
A partir de então passaram a chamá-lo pelo seu nome de brasão. “Asa de
cegonha com rabo de peixe” foi impiedosamente perseguido e tornou-se de repente antipático, porque aquele sobrenome não tinha nenhuma relação com o respeitável negócio de seu pai, comerciante de peles de lebre e de coelho. Não obstante, aquele entusiasta romântico se esforçava para devorar qualquer informação existente sobre as ciências bélicas e se distinguia por sua diligência e pelos conhecimentos que exibia a respeito de tudo o que o mandavam estudar, e também pelo fato de encher a cabeça com estudos de arte marcial e história da estratégia. Sempre entabulava conversas acerca destes temas, até que os outros começavam a gritar e o obrigavam a se calar. Nos círculos de oficiais, considerava a si mesmo à altura de seus superiores.
— Cadete — disse o capitão Ságner —, se não estou lhe pedindo que fale,
cale-se. Ninguém lhe perguntou nada. Além disso, você é um soldado muito, muito inteligente; acabei de lhe dar informações estritamente confidenciais e você as anotou no seu caderno. Se perder estas anotações, será levado à corte marcial.
Para o cúmulo, o cadete Biegler tinha o péssimo costume de sempre tentar
convencer todo mundo de que era bem-intencionado.
— Humildemente, senhor — respondeu —, se perdesse minhas anotações,
ninguém conseguiria decifrá-las, porque escrevo em estenografia e ninguém é capaz de ler minhas abreviaturas. Uso o sistema estenográfico inglês.
Todo mundo o olhou com menosprezo. O capitão Ságner fez um gesto de
impaciência com a mão e continuou seu discurso.
— Acabo de mencionar o novo sistema de mensagens cifradas no campo de
batalha. É possível que não compreendam por que lhes recomendei precisamente a página 161 do romance de Ludwig Ganghofer, Die Sünden der Väter. Nesta página, senhores, está a senha de nosso sistema criptográfico, que entrou em vigor por decreto do estado-maior. Os senhores já sabem que são usados vários sistemas para enviar comunicados importantes, cifrados, no campo de batalha. O método mais moderno, o que nós utilizamos, é o das cifras complementares. Por isso, as cifras e as instruções para decifrá-las que lhes foi fornecida pelo alto-comando na semana passada perderam a validade.
— Sistema do arquiduque Albrecht — murmurou o aplicado cadete Biegler
— 8922=R, extraído do método Gronfeld.
— O novo sistema é muito simples — ecoou a voz do capitão no vagão. —
Recebi pessoalmente das mãos do coronel o segundo volume e as informações. Quando, por exemplo, devemos enviar a seguinte ordem: “Abrir fogo de metralhadora à esquerda, cota 228”, recebemos a seguinte mensagem: “Coisa — com — nós — que — olhamos — em — as — prometemos — que — Marta — você — este — angustiado — depois — nós — melhor — prometemos — efetivamente — creio — ideia — completamente — domina — voz — rua.” Os senhores estão vendo que é absolutamente simples e está desprovido de qualquer combinação inútil. Do alto-comando ao batalhão por telefone, e do batalhão à companhia por telefone. Assim, quando o comandante recebe a mensagem, a decifra da seguinte maneira: Pega o livro Die Sünden der Väter, abre-o na página 161 e começa a procurar a palavra “coisa” na página anterior. Atenção, senhores. Na página 160, “coisa” é a 25ª palavra, de modo que procura na página 161 a 25ª letra. É um A, prestem atenção. A segunda palavra da mensagem é “com”. Na página 160 é a sétima palavra, que corresponde à letra B da página 161. Então vem “nós”, que é a 85ª palavra, que... acompanhem-me, por favor, corresponde à 88 ª letra da página 161, ou seja, um R. E dessa maneira continua até que decifra a ordem: “Abrir foto de metralhadora à esquerda, cota 228.” Muito engenhoso e simples, senhores, e impossível decifrá-lo sem a senha: a página 161 de Die Sünden der Väter, de Ludwig Ganghofer.