As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 3 de 30

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Primeira Parte – Na retaguarda

1

O bom soldado Švejk intervém na Grande Guerra

— Então eles mataram o nosso Ferdinand1 — disse a empregada ao senhor Švejk, que abandonara havia alguns anos o serviço militar por ter sido declarado definitivamente idiota por uma junta médica do exército e vivia da venda de cães, monstruosos vira-latas para os quais inventava falsas genealogias.

Afora esta ocupação, sofria de reumatismo e, naquele exato momento, estava

massageando os joelhos com uma pomada de cânfora.

— De qual Ferdinand está falando, senhora Müllerová? — perguntou Švejk,

sem parar de massagear os joelhos. — Eu conheço dois Ferdinands. Um é o criado do farmacêutico Průša, aquele que bebeu certa vez, por engano, um frasco de brilhantina, e também conheço um tal de Ferdinand Kokoška, que recolhe cocô de cachorro. Não temos motivos para se lamentar por nenhum dos dois.

— Meu caro senhor, estou me referindo ao arquiduque Ferdinand, o de

Konopiště, aquele homem gordo e piedoso.

— Virgem santa! — exclamou Švejk. — Que história! E onde o arquiduque

foi morto?

— Levou um tiro de revólver em Sarajevo quando passeava de automóvel

com a arquiduquesa, senhor.

— Então vejamos, senhora Müllerová... No automóvel... Bem, um senhor

como ele pode se permitir tal luxo, mas não seria capaz de imaginar que um passeio desses acabaria mal. E ainda por cima em Sarajevo, que fica na Bósnia, senhora Müllerová! Deve ter sido coisa dos turcos. Não deveríamos ter lhes tomado, em hipótese alguma, a Bósnia-Herzegóvina. Ora, ora. Quer dizer, então, que o senhor arquiduque está repousando na paz do Senhor. Foi longo seu sofrimento?

— Bateu as botas no ato, senhor. Sabemos que revólver é uma coisa séria.

Não faz muito tempo, lá em Nusle, onde moro, um senhor que estava brincando com um revólver matou toda a família e também o porteiro do prédio, que fora ver quem estava atirando no terceiro andar.

— Alguns revólveres não disparam mesmo que a pessoa tenha

enlouquecido, senhora Müllerová. Há uma infinidade de sistemas de segurança, travas, coisas assim. Mas, para assassinar o arquiduque, devem ter comprado o que havia de melhor. Aposto o que a senhora quiser que o sujeito que fez isso estava impecavelmente vestido. Não há quem não saiba que atirar em um arquiduque é uma tarefa muito difícil. Não é como quando um caçador clandestino atira em um guarda-florestal. A questão é como chegar perto da vítima, coisa que não é possível quando se está vestindo roupas andrajosas. Precisa usar um chapéu tipo cartola se não quiser que a polícia o apanhe antes.

— Estão dizendo que foi mais de um, senhor.

— Isto é facilmente explicável — disse Švejk, acabando de massagear os

joelhos. — Se a senhora quisesse matar um arquiduque ou um imperador, com certeza consultaria alguém. Muitas cabeças pensam melhor do que uma. Um sujeito sugere isso, outro, aquilo, e assim se chega a um bom resultado, como diz aquele nosso hino. O mais importante é aproveitar o momento em que a pessoa em questão está perto de você.

A senhora se lembra do senhor Lucheni, aquele que perfurou a nossa falecida Elizabeth2 com uma lima? Veja, estava passeando com ela. Não se pode confiar mais em ninguém! Desde aquele dia nenhuma imperatriz se permite passear. E muitas pessoas terão a mesma sorte. A senhora verá que daqui a pouco chegará a vez do czar e da czarina e, que

Deus não o permita, a do nosso imperador, pois se começaram com seu tio...3 O pobre ancião tem uma porção de inimigos. Ainda mais que Ferdinand. Como ainda há pouco dizia um homem na taverna, chegará o dia em que os imperadores serão escorraçados um atrás do outro de tal maneira que nem o poder do Estado poderá fazer nada por eles. Bem, esse homem não tinha dinheiro para pagar a conta e o taverneiro teve de mandar prendê-lo. E o sujeito deu um tapa e depois dois socos no policial. E aí o levaram no camburão para que recuperasse a consciência. Ora, senhora Müllerová, hoje em dia acontece cada coisa! Bem, é mais uma perda para a Áustria. Quando eu estava servindo no exército, um soldado de infantaria matou um capitão a tiros. Carregou sua espingarda e foi direto ao escritório, onde lhe disseram que não tinha nada a fazer ali, mas o homem insistiu que precisava falar com o capitão. O oficial apareceu e mandou-o, sem pestanejar, para o xilindró. O soldado pegou a espingarda e lhe deu um tiro no coração. A bala saiu pelas costas do capitão e ainda causou estragos na sala. Quebrou um vidro de tinta e sujou uma pilha de documentos oficiais.

— E o que aconteceu com o soldado? — perguntou a senhora Müllerová

quando Švejk estava se vestindo.

— Enforcou-se com os suspensórios — disse Švejk, escovando o chapéu.

— E os suspensórios nem eram dele. Pedira-os emprestados ao carcereiro, dizendo que suas calças estavam caindo. O carcereiro foi rebaixado e condenado a seis meses, mas não cumpriu a pena. Fugiu para a Suíça e agora está pregando em uma igreja qualquer. Hoje em dia são raras as pessoas honradas, senhora Müllerová. Imagino que o arquiduque Ferdinand também se equivocou a respeito da pessoa que atirou nele em Sarajevo. Certamente viu um senhor e pensou: se está gritando viva, só pode ser um homem honesto. E, em troca, o sujeito lhe deu um tiro. Atirou uma ou várias vezes?

— Segundo os jornais, senhor, o arquiduque parecia uma peneira.

Esvaziaram um pente inteiro em seu corpo.

— Essas coisas acontecem muito depressa, senhora Müllerová, terrivelmente

depressa. Se eu tivesse que fazer uma coisa dessas, compraria uma Browning. Parece um brinquedo, mas em dois minutos você pode fuzilar vinte arquiduques, gordos ou magros. Embora, aqui entre nós, senhora Müllerová, deva dizer que é mais fácil acertar um gordo do que um magro. Lembro que uma vez em Portugal fuzilaram um rei. Também era gordo. A senhora sabe que um rei nunca é magro. Agora vou à taverna U Kalicha. Se alguém vier buscar o pinscher, aquele pelo qual já recebi um adiantamento, diga que está no meu canil, fora da cidade, porque não faz muito tosei suas orelhas e só pode ser transportado depois de se cicatrizar, para não pegar um resfriado. Deixe a chave com o porteiro.

 

Na taverna U Kalicha só havia um cliente. Era Bretschneider, o policial do serviço de segurança do Estado. Palivec, o taverneiro, estava lavando copos e Bretschneider tentava em vão entabular uma conversa séria com ele.

Palivec era famoso por sua boca suja: de cada duas palavras que dizia, uma

era “caralho” ou “merda”. No entanto, era um homem culto e recomendava a todo mundo que lesse o que Victor Hugo escrevera a respeito da última resposta da velha

guarda napoleônica aos ingleses na batalha de Waterloo.4

— O verão está maravilhoso — continuou Bretschneider sua conversa séria. — Tudo está uma merda — respondeu Palivec, arrumando os copos na

cristaleira.

— Você viu o que aprontaram em Sarajevo? — perguntou Bretschneider,

sem muitas esperanças.

— Em qual Sarajevo? — perguntou Palivec. — Aquela taverna de Nusle? Lá

brigam dia sim, dia também. Você sabe, naquele bairro...

— Sarajevo da Bósnia, senhor taverneiro. Fuzilaram o arquiduque

Ferdinand. O que o senhor tem a dizer a respeito?

— Eu não me envolvo nesse tipo de história. Por mim, todos podem ir à

merda — respondeu Palivec educadamente, acendendo o cachimbo. — Hoje em dia, quem se mete nesse tipo de coisa pode se dar muito mal. Eu sou comerciante e, quando alguém aparece e me pede uma cerveja, eu a sirvo. Mas o tal do Sarajevo, a política ou o falecido arquiduque não significam nada para mim. A única coisa que se pode ganhar com isso é passar um tempo no presídio de Pankrác.

Bretschneider se calou e ficou olhando, desiludido, a taverna vazia. — Aqui havia um retrato do imperador — disse depois de um tempo. —

Ali mesmo, onde agora está pendurado o espelho.

— Sim, tem razão — respondeu Palivec. — Estava pendurado ali, sim, mas

as moscas cagavam em cima dele e então o levei para o sótão. Como o senhor sabe, poderia provocar comentários e eu acabaria tendo problemas. E não preciso disso.

— As coisas devem estar feias em Sarajevo, meu caro taverneiro. Palivec respondeu ao comentário matreiro com uma prudência incomum: — Nesta época do ano, faz um calor terrível na Bósnia-Herzegóvina. Foi

onde fiz o serviço militar e tínhamos que colocar pedras de gelo na cabeça do nosso tenente.

— Em que regimento o senhor serviu, taverneiro? — Não me lembro dos detalhes. Nunca me preocupei com semelhantes

besteiras e jamais tive curiosidade a respeito — respondeu Palivec. — Não é prudente ser muito curioso.

O agente Bretschneider se calou definitivamente e sua expressão mal-

humorada só se suavizou com a chegada de Švejk, que, ao entrar na taverna, pediu uma cerveja preta e fez uma observação:

— Em Viena também estão de luto hoje.

Os olhos de Bretschneider se iluminaram, cheios de esperanças. Disse,

brevemente:

— No castelo de Konopiště foram hasteadas dez bandeiras pretas. — Deveriam ser doze — disse Švejk depois de dar um gole. — Por que o senhor acha que deveriam ser doze? — perguntou

Bretschneider.

— Porque é mais simples contar por dúzias e depois, quando você compra

às dúzias, tudo sai mais barato — respondeu Švejk.

Fez-se silêncio, interrompido por um suspiro do próprio Švejk.

— Quer dizer que o arquiduque já está diante da justiça divina. Bem, que

— Quer dizer que o arquiduque já está diante da justiça divina. Bem, que

Deus lhe dê glória eterna. Nem esperou para virar imperador. Quando eu servia no exército, um general caiu do cavalo e morreu de uma forma muito tranquila. Foram ajudá-lo a subir no cavalo, mas aí se deram conta, com surpresa, de que estava completamente morto. E também estava prestes a ser promovido a marechal de campo. Foi durante um desfile militar. Esse tipo de desfile não leva a boas coisas. Em Sarajevo também havia desfiles. Recordo que uma vez, antes de um deles, estavam faltando vinte botões no meu uniforme e me trancafiaram por duas semanas na solitária. Bem, fiquei dois dias prostrado como se estivesse doente, amarrado na cama. Mas no exército é preciso haver disciplina. Caso contrário, ninguém levaria nada a sério. Nosso tenente Malkovec sempre dizia: “A disciplina é necessária, seus imbecis; se não fosse assim, vocês ainda estariam trepados em árvores, como se fossem macacos. O papel do exército é transformá-los em homens, seus bobalhões idiotas.” E não é que é verdade? Imaginem, por exemplo, um parque, digamos a praça Carlos, e, em cada árvore, um soldado indisciplinado. Sempre tive muito medo disso.

— O que aconteceu em Sarajevo — continuou Bretschneider — foi coisa

dos sérvios.

— O senhor está enganado — disse Švejk —, foi uma ação dos turcos por

causa da Bósnia-Herzegóvina.

E Švejk expôs seu ponto de vista sobre a política externa austríaca nos Bálcãs.

Em 1912 os turcos perderam a guerra para a Sérvia, a Bulgária e a Grécia. Queriam que o império austro-húngaro os ajudasse e, como isso não aconteceu, fuzilaram Ferdinand.

— Você gosta dos turcos? — Švejk se dirigiu ao taverneiro Palivec. — Gosta

desses cães pagãos? Suponho que não.

— Cliente é cliente — disse Palivec —, mesmo que seja turco. Para nós,

comerciantes, a política é uma coisa que não existe. Sente-se na taverna, pague sua cerveja e diga tudo o que quiser. Este é o meu princípio. Para mim tanto faz se quem fuzilou nosso Ferdinand foi um sérvio ou um turco, um católico ou um maometano, um

anarquista ou um membro da Juventude Tcheca.5

— De acordo, senhor taverneiro — manifestou-se Bretschneider, que voltara

a perder as esperanças de fisgar um dos dois —, mas admita que é uma grande perda para a Áustria.

Švejk respondeu pelo taverneiro: — Não se pode negar que é uma grande perda. Uma perda terrível.

Ferdinand não pode ser substituído por qualquer imbecil de meia-tijela. Ele deveria ser pelo menos ainda mais gordo.

— O que você está querendo dizer? — animou-se Bretschneider. — Como o que estou querendo dizer? — respondeu Švejk com

tranquilidade. — Apenas isso: se fosse mais gordo, certamente teria tido um ataque do coração há muito tempo, quando perseguia aquelas velhas que catavam cogumelos e lenha na sua fazenda de Konopiště, e assim não teria morrido de maneira tão vergonhosa. Nem posso imaginar: o tio do senhor imperador morto a tiros como se fosse um cachorro! É uma vergonha, os jornais não falam de outra coisa! Há alguns anos, em Budějovice, em uma discussão banal na feira, apunhalaram um tal de Břestilav Ludvík, comerciante de gado. Ele tinha um filho chamado Bohuslav e, em qualquer lugar onde aparecesse oferecendo seus porcos, ninguém queria comprar nada, pois todos diziam: “Esse sujeito é filho daquele homem que foi apunhalado. Com certeza também deve ser um mau elemento.” Acabou se atirando da ponte de Krumlov no Moldava; tiveram que puxá-lo, tiveram que ressuscitá-lo, tiveram que bombear a água de seus pulmões e ele suspirou pela última vez nas mãos do médico que acabara de lhe dar uma injeção.

— Você faz comparações muito estranhas — disse Bretschneider, mal-

intencionado. — Primeiro falou de Ferdinand e depois de um comerciante de gado...

— Não faço nada disso — defendeu-se Švejk. — Deus me livre de comparar

alguém com ninguém. O senhor taverneiro me conhece. Não é verdade que nunca comparei alguém com ninguém? Mas não gostaria de estar na pele da viúva do arquiduque. O que vai fazer agora? As crianças ficaram órfãs e a propriedade de Konopiště sem dono. Vai se casar de novo com algum arquiduque? E o que ganharia com isso? Fará com ele outra viagem a Sarajevo e enviuvará pela segunda vez. Há alguns anos, vivia na aldeia de Zliv, perto de Hluboká, um guarda-florestal que tinha um nome

horrível: Pind’our.6 Os caçadores clandestinos o mataram a tiros e ele deixou viúva e duas crianças. Depois de um ano, a mulher voltou a se casar com outro guarda-florestal, o Pepík Šavlovic, de Mydlovar. E também o liquidaram. Então se casou pela terceira vez, também com um guarda-florestal, pensando: “Agora, no terceiro casamento, tudo terá de correr muito bem. Se desta vez não der certo, não saberei mais o que fazer.” É claro que o novo marido também foi fuzilado. Bem, naquela época ela já tinha um total de seis filhos de três guardas-florestais. Foi se queixar no escritório do príncipe em Hluboká, dizendo que aqueles guardas-florestais só haviam lhe causado sofrimento. Então lhe recomendaram o pescador Jareš, do lago de Ražice. Os senhores não vão acreditar, mas o afogaram quando pescava na lagoa, e também tivera dois filhos com ele. Depois se casou com um capador de Vodňany, que assassinou-a uma noite a machadadas e depois se entregou à polícia. E, quando o tribunal da comarca de Písek mandou enforcá-lo, o capador mordeu o nariz do capelão dizendo que não estava nem um pouco arrependido e ainda disse alguma coisa muito feia sobre nosso imperador.

— E não sabe o que foi que disse? — perguntou Bretschneider com um

tom de voz esperançoso.

— Não posso lhe dizer porque jamais ninguém se atreveu a repetir a frase.

Mas deve ter sido uma coisa pavorosa porque um dos conselheiros do tribunal que estava presente enlouqueceu. Até hoje é mantido em isolamento para que nada venha à tona. Não se tratava apenas daquelas ofensas triviais que as pessoas dirigem ao senhor imperador quando estão bêbadas.

— Quais são as ofensas que as pessoas dirigem ao senhor imperador

quando estão bêbadas? — perguntou Bretschneider.

— Senhores, façam-me o favor de virar a página — manifestou-se Palivec

—; sabem muito bem que não gosto disso. Pode escapar alguma sandice da qual mais tarde poderemos nos arrepender.

— Quais são as ofensas que as pessoas dirigem ao senhor imperador

quando estão bêbadas? — repetiu Švejk. — De todo tipo. Embebede-se, mande tocar o hino austríaco e logo verá o que vai começar a dizer. Vão lhe ocorrer tantas coisas sobre o senhor imperador que, se a metade fosse verdadeira, bastaria para deixá-lo envergonhado pelo resto da vida. Mas o velho senhor não merece isso, de verdade.

Precisamos levar em conta o seguinte: perdeu seu filho Rudolf7 em tenra idade, em plena virilidade. Sua esposa Elizabeth foi apunhalada com uma lima. Depois Johann Orth

desapareceu. Seu irmão Maximiliano,8 o imperador do México, foi fuzilado em uma fortaleza, encostado em um muro qualquer. E agora que está velho fuzilam seu tio. A pessoa precisa ter nervos de aço. E depois vem um bêbado qualquer e começa a insultá-lo. Se hoje começasse uma guerra, eu me alistaria como voluntário e verteria pelo senhor imperador até a última gota do meu sangue.

Švejk tomou um gole de cerveja e continuou: — O senhor acha que o imperador deixará as coisas correrem soltas? Então

o conhece muito pouco! Precisa declarar guerra aos turcos. Vocês mataram meu tio, então quebrarei sua cara! Não há dúvida de que haverá guerra. Seremos apoiados pela Sérvia e pela Rússia!

Švejk estava entusiasmado com suas profecias; seu rosto ingênuo, sorridente,

lembrava a lua cheia. Via tudo com muita clareza.

— É possível que se houver uma guerra contra a Turquia os alemães venham

a nos atacar, pois andam de mãos dadas com os turcos — continuou prevendo o futuro da Áustria. — São tão monstruosos que não há no universo nada que possa ser comparado a eles. Mas podemos nos aliar com a França, que desde 1871 odeia a Alemanha. Não será possível evitar: haverá guerra. E não vou dizer mais nada.

Bretschneider se levantou e disse, solenemente:

— Não precisa dizer mais nada. Venha comigo ao corredor. Preciso lhe dizer

uma coisa.

Švejk acompanhou o agente ao corredor, onde o esperava uma pequena

surpresa: seu companheiro de cerveja lhe exibiu a águia, a insígnia da polícia, e disse que estava preso e que o levaria imediatamente à chefatura de polícia. Švejk tentou argumentar. Afirmou que se tratava de um grande equívoco, que era inocente, que não dissera uma única palavra que pudesse ofender alguém.

Bretschneider, no entanto, replicou acusando-o de ter cometido vários

delitos, inclusive o de alta traição.

Então voltaram à taverna e Švejk disse ao senhor Palivec: — Quero pagar cinco cervejas e um pãozinho com salsicha. E me sirva mais

uma dose de slivovitz, sim, a aguardente de ameixa. Estou sendo preso.

Bretschneider mostrou a águia ao senhor Palivec, observou-o por um

instante e depois perguntou:

— O senhor é casado?

— Sou.

— E sua esposa dá conta de administrar seu estabelecimento quando o

senhor se ausenta?

— Consegue.

— Então está tudo certo, senhor taverneiro — disse Bretschneider com

alegria. — Chame sua esposa e lhe passe as tarefas. Viremos buscá-lo à noite.

— Não se atormente com isso — consolou-o Švejk —, eu só estou sendo

levado por ter cometido uma alta traição.

— Mas por que eu? — lamentou-se o senhor Palivec. — Logo eu, que

sempre fui tão prudente!?

Bretschneider sorriu e disse, com ar vitorioso:

— Porque disse que as moscas estavam cagando no senhor imperador. Na

— Porque disse que as moscas estavam cagando no senhor imperador. Na

chefatura de polícia vão arrancar o senhor imperador da sua cabeça.

Švejk saiu da taverna U Kalicha em companhia do policial civil e, uma vez na

rua, lhe perguntou, com seu rosto sempre iluminado por um sorriso bondoso:

— Devo descer da calçada?

— Como assim?

— Acho que, como estou preso, perdi o direito de caminhar pela calçada. Quando chegaram ao portão da chefatura de polícia, Švejk disse: — O tempo passou voando. Que belo passeio! O senhor vai com muita

frequência à taverna U Kalicha?

E, enquanto levavam Švejk à sala de recepção, na taverna U Kalicha o senhor

Palivec entregava o estabelecimento a sua esposa chorosa e a consolava com suas maneiras curiosas:

— Cale-se, mulher, pare de chorar. O que poderão fazer comigo por causa

de um quadro cagado do senhor imperador?

Foi assim que o bom soldado Švejk chegou à guerra mundial com seu jeito

doce, encantador. Os historiadores acharão interessante saber que Švejk enxergava longe o futuro. Se mais adiante os acontecimentos se desenvolverem de uma maneira diferente e não coincidirem exatamente com as previsões que fizera na U Kalicha, teremos de levar em conta que Švejk não havia sido educado para ser diplomata.

1 O arquiduque Franz Ferdinand, sobrinho do imperador austríaco Franz Joseph, e sua esposa foram assassinados em 1914, em Sarajevo, pelo nacionalista sérvio Gavrilo Princip. (N. do T.)

2 A imperatriz Elizabeth da Áustria foi esfaqueada por um anarquista em 1898, na Suíça. (N. do T.)

3 Na verdade, Franz Ferdinand era sobrinho do imperador. (N. do T.)

4 O marechal francês Pierre Cambronne teria dito ao comandante das tropas britânicas, que o instava a se render, a seguinte frase: “Merde! A guarda morre, mas não se rende jamais.” (N. do T.)

5 Assim era chamado o Partido Nacional Democrático da Tchecoslováquia, liderado pelo dr. Karel Kramář, que viria a ser o primeiro chefe de governo do país. (N. do T.)

6 Pau pequeno. (N. do T.)

7 Rudolf, filho do imperador Franz Joseph e herdeiro do trono, morreu misteriosamente quando caçava em Mayerling. (N. do T.)

8 O arquiduque Johann Salvator renunciou ao seu título e se autodenominou Johann Orth. Ferdinand Maximiliano, coroado imperador do México, foi preso e fuzilado em 1867. (N. do T.)