As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 28 de 30

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Quarta Parte – Continuação da surra gloriosa

1

Š vejk como prisioneiro russo

Por causa do uniforme que usava, Švejk foi confundido com um prisioneiro russo que fugira de uma aldeia próxima a Felsztyn e ninguém reparou no grito de desespero que havia escrito na parede. E quando, em Chyrów, quis explicar tudo a um oficial que passava ao seu lado enquanto repartiam rações de pão de milho, um dos soldados húngaros que vigiava o transporte dos prisioneiros de guerra lhe deu um golpe no ombro com a culatra e lhe disse em húngaro:

— Baszom as élet! Volte para a fila, porco russo! Isso tudo se enquadrava na maneira como os húngaros tratavam os

prisioneiros russos, cuja língua não entendiam. Assim, pois, Švejk voltou para a fila e se dirigiu ao prisioneiro que estava ao seu lado:

— Esse homem está cumprindo seu dever, mas está se arriscando. O que

aconteceria se, por acaso, o fuzil estivesse carregado e sem a trava acionada? Poderia acontecer que, ao dar um golpe em alguém com o cano voltado para ele mesmo, a carga disparasse no seu rosto e morresse cumprindo seu dever. Uma vez, em uma pedreira das montanhas de Šumava, no sul da Boêmia, os trabalhadores roubaram bananas de dinamite para guardá-las para o inverno, quando explodiriam troncos de árvores. O vigilante da pedreira tinha ordens de revistar os bolsos dos operários à saída do trabalho, de modo que segurou o primeiro e revistou seus bolsos batendo neles com tanto ardor que a dinamite explodiu e voaram todos juntos, o homem e o guarda; parecia que no último momento tinham se abraçado em torno do pescoço.

O prisioneiro a quem Švejk estava contando a história o olhava com uma

expressão de compreensão, mas estava claro que não entendera uma única palavra de todo o discurso.

— Não compreender, eu tártaro de Crimeia, Allah akbar. O tártaro se sentou no chão com as pernas cruzadas e começou a rezar: — Allah achper, Allah achper, bezmila, arachman, arachim, malinkin

mustafir.78

— Quer dizer que você é tártaro — disse Švejk com compaixão. — Que

engraçado! Então como você quer que nos entendamos? Ouça, você conhece Jaroslav de

Š ternberk?79 Este nome não lhe diz nada, não é mesmo? Ele lhes deu uma boa surra perto de Hostýn, na Morávia. Naquele dia vocês, tártaros, saíram arrastando o traseiro. Talvez não lhes ensinem isso nas aulas de história, como fazem com a gente. Você já ouviu falar da Virgem de Hostýn? Claro que não; pois bem, ela também estava lá. Bem, homem, fique tranquilo, agora que foram feitos prisioneiros serão batizados.

Švejk se dirigiu a outro prisioneiro: — Você também é tártaro?

O homem entendeu a palavra tártaro e negou com a cabeça: — Não tártaro, eu nascer circassiano, cortar cabeças. Švejk fora parar em um eclético grupo de diferentes povos orientais. Ali

havia tártaros, georgianos, caucasianos, circassianos, moldavos e calmucos.

De maneira que o pobre Švejk não podia se comunicar com ninguém.

Arrastaram-no com o resto a Dobromil, onde estava sendo consertada a ferrovia que levava, passando por Přemyšl, a Nizankowice.

No escritório de Dobromil começaram a anotar os nomes dos prisioneiros,

No escritório de Dobromil começaram a anotar os nomes dos prisioneiros,

tarefa muito difícil, pois nenhum dos trezentos homens que haviam sido levados a Dobromil entendia o russo do sargento que ocupava a sala. Este declarara havia algum tempo que sabia russo, e fora usado como intérprete na Galícia oriental. Fazia mais de três semanas que pedira um dicionário alemão-russo e um manual de conversação, mas os livros ainda não haviam chegado. Em lugar de russo arranhava o eslovaco, que aprendera, muito mal, é verdade, durante sua carreira como representante de uma empresa vienense que vendia imagens de Santo Estêvão, pias de água benta e rosários na Eslováquia.

O sargento ficou absolutamente atônito diante daqueles personagens

excêntricos com os quais não conseguia se comunicar de maneira alguma.

Saiu da sala e gritou para os prisioneiros:

— Quem sabe falar alemão?

Com o rosto radiante, Švejk se afastou do grupo e correu até o sargento.

Este lhe disse que o acompanhasse ao escritório.

O sargento se sentou no meio de seus papéis, uma pilha de formulários

onde devia anotar o nome, a origem e a profissão de cada um dos prisioneiros. Então começou uma divertida conversa em alemão:

— Você é judeu, não é mesmo? — perguntou o sargento, dirigindo-se a

Š vejk.

Švejk negou com a cabeça.

— Não vale a pena negar — disse o sargento com firme convicção. — Até

agora todos os prisioneiros que sabiam alemão eram judeus. Como você se chama? Š vejk? Então por que nega, se seu nome é judeu? Aqui você não precisa ter medo de reconhecer que é judeu. No império austro-húngaro os judeus não são perseguidos. De onde você é? Ah, de Praga. Eu a conheço, fica perto de Varsóvia. Na semana passada estiveram aqui dois judeus de Praga. Qual é o número do seu regimento? O 91º?

O sargento pegou a lista de funcionários e folheou-a. — O 91º Regimento é de Erevan, no Cáucaso. Tem um quadro em Tiflis.

Você ficou petrificado ao ver quanta informação temos, não é mesmo?

E, de fato, Švejk ficou atônito ao ver como se enredava em sua história. O

sargento, dando uma baforada em seu cigarro, que estava pela metade, continuou:

— Isto sim que é tabaco e não a sua machorka. Aqui eu sou o chefe

supremo. Quando falo, todo mundo tem que tremer e se enfiar no buraco. Em nosso exército há uma disciplina muito diferente da de vocês. Seu czar é uma porcaria, mas o nosso é um homem muito firme. Agora lhe mostrarei algo para que veja a disciplina que reina aqui.

Abriu a porta e gritou:

— Hans Löfler!

— Presente! — se ouviu.

Entrou na sala o soldado que havia sido chamado, um rapaz da Estíria com

expressão de deficiente mental. Na estação fazia o papel de criado, uma espécie de faz-tudo.

— Hans Löfler — ordenou o sargento —, pegue meu cachimbo e o coloque

na boca como fazem os cães quando carregam alguma coisa; você correrá de quatro em volta da mesa até que o mande parar. Também tem que latir, mas sem derrubar o cachimbo, caso contrário mandarei amarrá-lo.

O estiriano começou a se arrastar de quatro e a latir. O sargento dirigiu a Švejk um olhar vitorioso. — E então, não lhe disse que temos uma disciplina de ferro, judeu? O sargento observou com alegria o rosto mudo do soldado, que provinha

de alguma cabana de montanheiros alpinos.

Por fim, disse:

— Alto! Agora sente-se nas patas traseiras e implore com as dianteiras,

como se fosse um cão. E agora me traga o cachimbo, nas quatro patas. Muito bem, e agora cante uma canção tirolesa.

Os gritos de Holarió, holarió tomaram conta da sala. Terminado o espetáculo, o sargento tirou quatro cigarros de sua gaveta e,

com ar generoso, entregou-os ao estiriano. Então Švejk, em seu precário alemão, disse ao sargento que em um regimento havia um oficial que tinha um ordenança tão obediente que fazia tudo o que seu superior mandava; certa vez, quando lhe perguntaram se comeria uma colher cheia de excrementos de seu chefe, disse: “Se ele me pedisse, comeria, seguindo suas ordens, mas precisaria não encontrar nem um pelo, porque isso sim faria com que me sentisse muito mal.”

O sargento riu:

— Vocês judeus contam piadas muito engraçadas, mas eu colocaria minha

mão no fogo, juraria que sua disciplina não é como a nossa. E, para ir ao ponto, vou encarregá-lo do transporte dos prisioneiros. Ao anoitecer me apresentará uma lista dos outros prisioneiros. Irá buscar o rancho para todos e, sobretudo, ficará vigiando para que ninguém fuja. Se alguém escapar, será fuzilado.

— Eu gostaria de trocar algumas palavras com o senhor, prezado sargento

— disse Švejk.

— Não é momento para conversas — respondeu o sargento. — Não me

peça nada se não quiser que o mande para o campo de concentração. Parece que você está se aclimatando depressa aqui no império austro-húngaro. Trocar algumas palavras comigo! Quanto melhor um prisioneiro se comporta, melhor! Vamos, pegue papel e lápis e vá fazer a lista. O que está esperando?

— Humildemente, senhor...

O rosto do sargento adotou a expressão de uma pessoa com muitíssimo

trabalho.

— Trate de desaparecer! Não está vendo que tenho muito trabalho?! Švejk bateu continência e foi para o lugar onde estavam os prisioneiros,

enquanto pensava que a paciência era a mãe da ciência, sobretudo quando se tratava do bem do imperador.

Fazer a lista não era uma tarefa fácil. Os prisioneiros demoraram muito a

compreender que tinham que dizer seu nome. Embora Švejk tivesse passado por muitas experiências na vida, não conseguia entender como funcionavam aqueles nomes tártaros, georgianos e moldavos. “Ninguém jamais acreditará que possa haver nomes como os destes tártaros: Muhlahei Abdrajmanov, Beimurat Allahali, Dzeredeze Cheredze, Davlatbei Nurdagaliev e coisas assim. Nós temos nomes melhores, como o daquele reitor de Živohost, que se chamava Vobejda.”

Continuou caminhando no meio das filas de prisioneiros que, um a um,

gritavam seu nome e sobrenome: Dzindralei Hanamalei, Babamulei Mirzahali etc.

— Não vá morder a língua — lhes dizia Švejk com um sorriso bondoso. —

Seria melhor que tivessem nomes como os do meu país: Bohuslav Štěpánek, Jaroslav

Matoušek ou Růžena Svobodová.80

Quando, por fim, depois de sofrer horrores, Švejk anotara todos os Babula

Haleis e Judzi Mudzis, decidiu que tentaria explicar de novo ao sargento/intérprete que fora vítima de um erro. Não obstante, sua apelação à justiça foi tão inútil como tantas vezes pelo caminho, quando o haviam levado no meio dos demais prisioneiros.

O sargento/intérprete, se antes não estava de todo sóbrio, perdera nesse

meio-tempo o juízo. Diante dele estava aberta a página de anúncios classificados de um jornal alemão e dedicava-se a cantá-los com a melodia da marcha de Radetzky: “Troco um toca-discos por um carrinho de bebê. Compro pedaços de cristal branco e verde. A contabilidade e o balanço ao alcance de todos graças ao curso de contabilidade por correspondência...”

Alguns anúncios não combinavam com a marcha militar, mas o sargento

queria superar essa dificuldade a todo custo e marcava o ritmo batendo com os punhos na mesa e os pés no chão. As duas pontas de seu bigode, grudados com aguardente, levantavam-se nos dois lados de seu rosto, como se tivesse colado em cada lado um pincel com goma-arábica seca. Seus olhos inchados viram Švejk, mas a descoberta não foi acompanhada por nenhuma reação. O sargento limitou-se a parar de dar socos e pontapés e, recorrendo à melodia da popular canção Lorelei, entoou outro anúncio: “Carolina Dreger, parteira, se oferece a senhoras distintas para qualquer eventualidade.”

Cantava com voz cada vez mais débil e acabou emudecendo. Fixou o olhar na

grande superfície dos anúncios dando oportunidade a Švejk de começar, com grande esforço e em seu precário alemão, a explicar seu infortúnio.

Começou dizendo que devia ter se dirigido a Felsztyn, seguindo o riacho, e

que não era culpa sua que um desconhecido soldado russo fugitivo tivesse ido tomar banho no lago ao lado do qual ele, Švejk, tinha que passar quando ia pelo caminho mais curto para Felsztyn na qualidade de membro do grupo de alojamento. Quando o viu, o russo fugiu e abandonou seu uniforme no matagal. Ele, Švejk, ouvira dizer que no front usavam uniformes de inimigos tombados para fazer serviços de espionagem, e por isso experimentara o uniforme estrangeiro.

Depois de expor dessa maneira seu equívoco, Švejk se deu conta de que suas

palavras haviam entrado por um ouvido do sargento e saído por outro: já fazia um bom tempo que o homem dormia. De fato, adormecera antes de Švejk ter chegado ao lago.

Švejk se aproximou dele com toda a familiaridade do mundo e tocou seu

ombro; isto foi suficiente para que o sargento caísse da cadeira no chão, onde continuou dormindo como se nada tivesse acontecido.

— Desculpe, senhor sargento-mor — disse Švejk, bateu continência e saiu

da sala.

À primeira hora da manhã o comando militar de engenharia mudou de ideia

e ordenou que o grupo no qual estava Švejk se dirigisse diretamente a Přemyšl para consertar as vias do tramo Přemyšl-Lubaczów.

De maneira que tudo ficou na mesma e Švejk continuou vivendo sua odisseia

no meio dos prisioneiros russos. As sentinelas húngaras faziam tudo o que era possível para que os preparativos fossem feitos rapidamente.

Na praça da aldeia em que tinham que descansar se encontraram com um

destacamento de um trem de carga. Diante dos vagões, um oficial observava, fumando, os detentos com atenção. Švejk saiu da fila, plantou-se diante do oficial e exclamou:

— Humildemente, senhor subtenente...

Não conseguiu dizer mais nada porque os soldados húngaros o devolveram

à fila dando pancadas em suas costas.

O oficial atirou por cima de sua cabeça a guimba do cigarro, recolhida por

outro prisioneiro, que acabou de fumá-la. Então o oficial disse ao sargento que estava ao seu lado que na Rússia havia colonos que também deviam ir à guerra.

Durante todo o caminho para Přemyšl, Švejk não teve outra oportunidade de

dizer a alguém que pertencia, de fato, à 11ª Companhia do 91º Regimento. Ao entardecer, já em Přemyšl, foram levados a uma fortaleza meio em ruínas da qual ainda restavam os estábulos para os cavalos da artilharia.

O chão estava coberto por pilhas de palha infestada por piolhos que

transportavam suas hastes e, mais do que piolhos, pareciam formigas carregando matéria-prima para a construção de formigueiros.

Distribuíram um pouco de água suja, dizendo que era pura chicória, e um

pedaço de pão de milho duro.

Depois interveio o major Wolf, que naquela época comandava os

prisioneiros que faziam obras de restauração na fortaleza de Přemyšl e seus arredores. Tratava-se de um homem rigoroso. Dispunha de todo um grupo de intérpretes que selecionavam prisioneiros especializados em construção de acordo com sua capacidade e experiência prévia.

O major Wolf estava obcecado pela ideia de que os prisioneiros russos

mentiam sobre seus verdadeiros conhecimentos. Isso acontecia porque quando sua pergunta — “Você sabe construir estradas de ferro?” — era traduzida, todos os prisioneiros costumavam responder da mesma maneira: “Não sei nada a respeito, nunca ouvi falar de nada parecido; sempre levei uma vida respeitável e honrada.”

Quando os prisioneiros estavam formados em filas diante do major Wolf e

de seu estado-maior, o comandante começou a interrogá-los perguntado se algum deles falava alemão.

Švejk saiu da fila energicamente e se plantou diante do comandante, bateu

continência e afirmou que falava alemão.

O major Wolf, visivelmente feliz, lhe perguntou então se era engenheiro. — Humildemente, senhor — respondeu Švejk —, não sou engenheiro, mas

ordenança da 11ª Companhia do 91º Regimento. Os nossos me prenderam. O que aconteceu foi o seguinte, senhor...

O major Wolf vociferou:

— Como?

— Humildemente, senhor major, senhor comandante, as coisas aconteceram

da seguinte maneira...

— Você é tcheco! — continuou gritando o major. — Vestiu um uniforme

russo!

 

— Humildemente, senhor, foi exatamente o que aconteceu. Estou muito feliz

— Humildemente, senhor, foi exatamente o que aconteceu. Estou muito feliz

de que tenha conseguido se colocar em meu lugar. Talvez os nossos estejam lutando em outra parte e não gostaria de chegar atrasado. Agora vou explicar ao senhor, com detalhes, o que aconteceu comigo.

— Basta! — disse o major Wolf.

Então chamou dois soldados e ordenou que levassem aquele homem ao

posto de guarda, e seguiu, pessoalmente, Švejk a certa distância. Caminhava com outro oficial e enquanto falava agitava os braços de maneira exagerada. Em cada frase dizia alguma coisa sobre os cães tchecos. O outro oficial concluiu das palavras do comandante que estava muito feliz de ter tido a sorte de descobrir um daqueles sem-vergonha sobre cuja atividade traiçoeira estavam sendo enviadas circulares secretas aos comandantes dos corpos do exército há alguns meses. Segundo as circulares, alguns desertores dos regimentos tchecos, esquecendo seu juramento de fidelidade à monarquia, haviam se integrado às fileiras do exército russo e serviam ao inimigo, ao qual eram particularmente úteis como espiões.

Existiria alguma organização bélica formada pelos desertores? No que se

referia a esta pergunta, o Ministério do Interior da Áustria ainda estava às cegas. Não fora possível obter nenhuma informação bem fundamentada sobre a existência de organizações revolucionárias no estrangeiro. Os comandantes do batalhão da linha Sokal-Milijatin-Bubnovo só haviam recebido em agosto uma circular que informava que o ex-professor austríaco Masaryk havia fugido para a fronteira, onde se dedicava a fazer propaganda antiaustríaca. Na divisão, algum estúpido acrescentou à circular reservada a seguinte ordem: “Se for detido, deve ser levado imediatamente ao estado-maior da divisão.”

Tenho a honra de trazer essa informação ao conhecimento do presidente

Masaryk para que ele saiba das armadilhas que foram armadas para ele entre Sokal,

Milijatin e Bubnov.81

Naquela época, o major Wolf ainda não tinha a menor ideia do que os

desertores estavam armando contra a Áustria. Mais tarde, quando algum daqueles desertores encontrava outro em Kiev ou em qualquer lugar e perguntava: “O que você está fazendo aqui”, o outro lhe respondia: “Traindo Sua Majestade o Imperador.”

O comandante só sabia da existência de espiões desertores pelas circulares, e

fizera um deles, aquele que estavam levando ao posto de guarda, morder o anzol com muita facilidade. O major Wolf era um homem um pouco vaidoso; imaginava os elogios que receberia dos altos escalões, os parabéns e a recompensa por sua prudência, vigilância e talento.

Antes de chegar ao posto de guarda, já estava convencido de que fizera a

pergunta “Quem sabe alemão?” de propósito, porque ao primeiro olhar suspeitara daquele preso.

O oficial que o acompanhava fez um gesto afirmativo com a cabeça e disse

que teriam de comunicar a detenção ao comandante da guarnição para que fossem levados a cabo todos os procedimentos legais e o acusado fosse conduzido ao conselho de guerra, uma vez que não era possível interrogá-lo e enforcá-lo imediatamente, como pretendia o major. Seria enforcado, mas seguindo os procedimentos legais, de acordo com as determinações do conselho de guerra, para que fossem estabelecidas, mediante um interrogatório detalhado, as relações do acusado com outros criminosos semelhantes. Sabe-se lá que informações poderiam obter dessa maneira?

O major Wolf teve um repentino ataque de teimosia. Manifestando uma

estupidez até então insuspeita, declarou que assim que acabasse o interrogatório mandaria enforcar o espião fugitivo e que ele próprio assumiria os riscos. Além disso, disse, podia se permitir aquilo porque tinha contatos importantes, e que por isso não tinha que observar nenhum procedimento. Segundo ele, em Přemyšl as coisas eram feitas da mesma maneira que no front. Se tivessem capturado aquele homem no campo de batalha, teriam se limitado a interrogá-lo e o teriam enforcado imediatamente, sem prolongar as coisas em vão. Por outro lado, o capitão certamente sabia que na zona de guerra um comandante, qualquer comandante de patente superior a capitão, tinha o direito de mandar enforcar qualquer indivíduo suspeito.

Evidentemente, o major Wolf se confundira um pouco no que dizia respeito

ao poder dos oficiais de mandar enforcar alguém.

Na Galícia oriental, quanto mais perto do front se estava, mais se estendia

este poder aos escalões inferiores; havia casos como o de um cabo que estava comandando uma patrulha e mandou enforcar um menino de doze anos que lhe pareceu suspeito porque estava cozinhando pele de batata em uma cabana destruída de uma aldeia saqueada e abandonada.

A discussão entre o comandante e o capitão foi ficando cada vez mais feroz. — O senhor não tem o direito! — gritava o capitão com indignação. — Será

enforcado de acordo com a sentença judicial do conselho de guerra.

— Será enforcado sem nenhum julgamento — refutou o comandante com

voz roufenha.

Švejk caminhava diante dos oficiais; ouviu aquela conversa apaixonada e se

limitou a dizer a seus acompanhantes:

— Tudo isso são histórias. Como aquela vez na taverna Na Zavadilce, no

bairro de Libeň, em Praga, onde brigamos porque não sabíamos o que fazer com Vašak, o chapeleiro; era um baderneiro que sempre estragava nossa festa. Não estávamos conseguindo chegar a um acordo sobre o que fazer: se o expulsávamos a pontapés assim que aparecesse na porta, ou depois que bebesse uma cerveja e a pagasse ou só depois da primeira dança. O taverneiro sugeriu que o expulsássemos quando já tivesse bebido bastante para que a conta fosse alta. E vocês sabem o que fez o canalha? Não apareceu. O que vocês acham?

Os dois soldados, que eram de algum lugar do Tirol, responderam em

uníssono em alemão:

— Não entendemos tcheco.

— Entendem alemão? — perguntou Švejk tranquilamente. — É claro! — responderam os dois.

Então Švejk fez a seguinte observação: — Muito bem, pelo menos não se perderão entre os seus. E, conversando dessa maneira amistosa, chegaram ao posto de guarda, onde

o major Wolf continuou a discutir com o capitão sobre o destino de Švejk. Entretanto, este se sentou modestamente em um banco ao fundo da sala.

Por fim o major Wolf aderiu à opinião do capitão de que só seria possível

enforcar aquele homem depois de longos procedimentos jurídicos que eram chamados, não sem certa ironia, de “a via legal”.

Se tivessem perguntado a Švejk o que achava de tudo aquilo, teria dito: — Sinto dizê-lo, senhor major, porque o senhor tem mais galões do que o

senhor capitão, mas o senhor capitão tem razão. Precipitar-se é sempre ruim. Uma vez, em Praga, um juiz do tribunal distrital ficou louco. Durante muito tempo ninguém percebeu nada até que um dia, no julgamento de um caso de ultraje, sua loucura explodiu. O capelão Hortík dera uma surra no filho de um tal de senhor Znamenáček na aula de religião e este, um dia em que o encontrou na rua, gritou: “Sem-vergonha de merda, animal vestido de preto, hipócrita, panaca, charlatão, porco, sacana, profanador da doutrina de Cristo!” O juiz louco era uma pessoa muito religiosa. Tinha três irmãs e todas eram cozinheiras paroquiais e ele era o padrinho de todos os seus filhos. Irritou-se tanto que de repente perdeu o juízo e gritou para o acusado: “Em nome de Sua Majestade, o Imperador e Rei, condeno-o a morrer enforcado. Não é possível apelar desta sentença.” Chamou o guarda: “Senhor Horáček, pegue este senhor e o enforque, já sabe, ali onde sacodem os tapetes, e depois volte para cá; lhe darei um troco para a cerveja.” Naturalmente, tanto o senhor Znamenáček como o guarda ficaram pasmos, mas o juiz deu uma patada no chão e gritou: “Vai me obedecer ou não?” O guarda ficou tão assustado que pegou o senhor Znamenáček e começou a levá-lo para baixo, e se não fosse por um defensor público, que interveio e chamou uma ambulância, não sei o que teria acontecido. Mesmo quando estavam enfiando o juiz na ambulância, ele continuava gritando: “E se não encontrar uma corda, enforque-o com um lençol; lhe pagaremos assim que fizermos as contas semestrais...”

Quando o major Wolf assinou a ata, levaram Švejk escoltado ao posto de

comando da guarnição. A ata dizia que Švejk, soldado do exército austro-húngaro, conscientemente e sem nenhum tipo de pressão, havia vestido um uniforme russo e fora detido pelos gendarmes quando os russos se retiravam.

Tudo isso era a mais sacrossanta verdade e uma pessoa honrada como Švejk

não podia protestar. Quando estavam redigindo o protocolo, cada vez que tentava acrescentar alguma coisa que pudesse esclarecer a situação, a ordem do comandante não se fazia por esperar:

— Feche a boca, não lhe perguntei nada. O assunto está absolutamente

esclarecido.

Ao ouvir isto, Švejk batia continência e afirmava: — Humildemente, estou fechando a boca. O assunto está absolutamente

esclarecido.

Do posto de comando da guarnição o levaram a uma espécie de calabouço

que antes fora um armazém de arroz e ao mesmo tempo uma pensão para ratos. Ainda havia arroz espalhado pelo chão e os ratos, que não tinham o menor medo de Švejk, corriam por ali recolhendo grãos. Švejk encontrou um colchão de palha e, quando se habituou à escuridão, constatou que uma família inteira de ratos se instalara nele. Sem dúvida queria estabelecer seu novo ninho nas ruínas da glória, em um apodrecido colchão austro-húngaro. Švejk começou a bater na porta fechada com chave e, quando um cabo polonês apareceu, lhe pediu para mudar de quarto: naquele lugar era possível que acabasse esmagando aqueles animais em seu colchão danificando assim uma propriedade da coroa, porque tudo o que está nos armazéns militares pertence à coroa.

O polonês só entendeu parte do que dizia, ameaçou Švejk com o punho

O polonês só entendeu parte do que dizia, ameaçou Švejk com o punho

diante da porta fechada, fez alguma alusão aos “culhões de merda” e se afastou resmungando com raiva alguma coisa sobre a cólera, como se, só Deus sabe como, o bom soldado o tivesse ofendido.

Švejk passou uma noite tranquila. Os ratos não lhe pediram grandes coisas.

Tinham, obviamente, outro programa noturno, uma festa no armazém vizinho, repleto de capotes e quepes militares que roeram à vontade, sem nenhum tipo de receio. Só um ano mais tarde a intendência se lembrou de levar ao armazém militar gatos que pertenciam ao erário (embora não tivessem pensão) e estavam registrados sob a rubrica: “Imperiais e reais gatos dos armazéns militares.” Na verdade, ao dar uma patente militar aos gatos, retomavam uma velha instituição que fora abolida depois da guerra de 1866.

É que, sob o reinado de Maria Theresa, quando, em tempos de guerra, os

senhores da intendência jogavam nos infelizes ratos a culpa dos roubos e do estado lamentável de seus uniformes, se decidira introduzir gatos nos armazéns militares.

Mas, muitas vezes, os gatos imperiais e reais falhavam no cumprimento de

seu dever e por isso uma vez, durante o reinado do imperador Leopold, seis gatos designados ao armazém militar de Pohořelec foram enforcados depois de terem sido sentenciados por um tribunal de guerra. Posso imaginar que naquele dia todos aqueles que tinham alguma relação com o armazém militar morreram de rir debaixo de seus bigodes...

 

Com o café da manhã enfiaram no buraco de Švejk um homem com capote militar e quepe russos.

O sujeito falava tcheco com sotaque polonês. Era um daqueles inúteis que

trabalhavam na contraespionagem do corpo do exército cujo quartel-general ficava em Přemyšl. Pertencia ao serviço secreto e não teve muitos problemas nem recorreu a nenhum artifício mais refinado para começar a inquirir Švejk. Simplesmente começou:

— Em que maldita pocilga me meti por culpa da minha imprudência! Estava

no 28º Regimento, mas logo desertei para os russos e deixei que me pegassem da maneira mais estúpida: me apresentei para trabalhar como voluntário em uma patrulha russa de reconhecimento. Eu fazia parte da 6ª Divisão de Kiev. Em que regimento russo você estava, companheiro? Me parece que nos vimos na Rússia. Conheci ali muitos tchecos que foram ao front conosco depois de aderir ao exército russo, mas agora não me recordo de como se chamavam nem de onde eram. Talvez você se recorde de alguém com quem teve relações; gostaria de saber quem, do nosso 28º Regimento, está por aqui.

Ao invés de responder, Švejk, preocupado, passou uma mão em sua testa e

tomou seu pulso. Depois levou-o a uma pequena janela e pediu que mostrasse a língua. O malandro não protestou porque achou que se tratava de uma contrassenha dos conspiradores. Então Švejk bateu na porta e quando a sentinela se apresentou e lhe perguntou por que estava fazendo tanto barulho, pediu em tcheco e alemão que chamasse um médico porque o homem que tinham acabado de enfiar ali estava delirando.

Mas o estratagema não surtiu efeito: não apareceu nenhum médico. Ao

contrário, o homem continuou dizendo, tranquilamente, disparates sobre Kiev e chegou a afirmar que vira Švejk marchando ao lado de soldados russos.

— Você deve ter bebido água de pântano — disse Švejk —, como o jovem

Týnecký do meu bairro. Era uma pessoa muito ajuizada, mas de repente ficou com vontade de viajar e foi até a Itália. Depois só falava daquele país; dizia que ali toda a água era pantanosa e, afora isso, nada que valesse a pena lembrar. E por causa daquela água pantanosa teve febres, que o assaltavam quatro vezes por ano. Por Todos os Santos, por São José, por Pedro e Paulo e pela assunção da Virgem Maria. Quando a febre subia, achava que reconhecia todo mundo, inclusive aqueles que nem conhecia, assim como está acontecendo com você. Por exemplo, no bonde se dirigia a qualquer um e dizia que o conhecia, que o havia visto na estação de Viena. As pessoas que parava na rua, ou bem as tinha conhecido na estação de Milão ou tinham bebido juntos uma taça no bar do castelo de Štýr. Quando tinha aquelas febres e ia a uma taverna, reconhecia os clientes: havia visto todos em um vapor durante sua estadia em Veneza. O único remédio para seu mal foi o mesmo que um novo enfermeiro havia usado no manicômio da rua Santa Kateřina. Mandaram que fosse cuidar de um doente mental que passava o dia inteiro sentando em um canto contando: “Um, dois, três, quatro, cinco, seis”, e de novo: “Um, dois, três, quatro, cinco, seis.” Era professor. Quando via que não conseguia passar do seis, o enfermeiro perdia as estribeiras. Primeiro tentou, gentilmente, fazê-lo dizer “sete, oito, nove, dez”. Mas nada. O professor não lhe dava a mínima. Sentava-se em um canto e contava: “Um, dois, três, quatro, cinco, seis.” Então o enfermeiro perdeu a paciência, atirou-se no doente e quando este disse “seis” lhe deu uma bofetada. “E aqui está o sete, aqui o oito, aqui o nove e aqui o dez.” Uma bofetada por cada número. O outro levou as mãos à cabeça e perguntou onde estava. Quando o enfermeiro lhe disse que estava num manicômio, se lembrou de tudo: fora levado ao manicômio por culpa de um cometa. Havia calculado que apareceria em 18 de junho às seis da manhã e lhe demonstraram que seu cometa se queimara há milhões de anos. Eu conheci aquele enfermeiro. Quando o professor se recuperou de todo e o deixaram sair, contratou o enfermeiro para servi-lo. A única coisa que este tinha que fazer, toda manhã, era dar quatro bofetadas no senhor professor, uma coisa que fazia com exatidão e conscienciosamente.

— Conheço todos seus conhecidos de Kiev — insistia o incansável agente da

contraespionagem. — Não havia um que era muito gordo e outro que era muito esguio? Agora não lembro nem de como se chamavam nem de que regimento eram...

— Não se preocupe — consolou-o Švejk —, essa coisa de não se lembrar

de como se chamam todas as pessoas gordas e todas as esguias pode acontecer com qualquer um. É mais difícil se lembrar dos esguios, porque quase todo mundo o é. Estes, como se diz, são maioria.

— Camarada — gemeu o inútil imperial e real —, você deve confiar em

mim! Nos espera o mesmo destino!

— É para isso que somos soldados — disse Švejk, com displicência. —

Nossas mães nos deram à luz para que fôssemos destroçados com uniforme e tudo. E gostamos da ideia porque sabemos que nossos ossos não apodrecerão inutilmente. Tombaremos pelo imperador e sua dinastia, pela qual conquistamos a Herzegovina. Usarão nossos ossos para fazer carvão para as usinas de açúcar. Foi o que nos disse o subtenente Zimmermann há uns quantos anos. “Porcos”, dizia, “bestas incultas, safados, vadios, vocês se mexem como se lhes fraquejassem as pernas. Quando tombarem um dia na guerra, de cada um de seus membros farão meio quilo de carvão, ou seja, mais de dois quilos por cabeça, e nas refinarias filtrarão seu próprio açúcar, idiotas. Vocês não têm nem ideia de como serão úteis para seus descendentes depois de mortos. Seus filhos tomarão café adoçado com o açúcar que têm no corpo, animais”. Eu comecei a refletir e ele me perguntou em que estava pensando. “Humildemente”, eu disse, “imagino que o carvão dos senhores oficiais deve ser muito mais caro do que o dos soldados rasos.” Só por isso peguei três dias de xilindró.

O companheiro de Švejk bateu na porta e trocou algumas palavras com a

sentinela, que depois se dirigiu ao escritório.

Ao cabo de um tempo apareceu um sargento, levou o companheiro de Švejk

e o bom soldado voltou a ficar sozinho.

Antes de sair, o monstro apontou Švejk e disse ao sargento: — Este é um velho camarada meu de Kiev.

Švejk voltou a ficar sozinho durante longas vinte e quatro horas, afora os

momentos em que lhe levavam comida.

À noite chegou à conclusão de que o capote russo era mais quente e maior

do que o austríaco e quando, à noite, um rato ficou cheirando sua orelha, não achou aquilo nem um pouco desagradável. Švejk se sentiu ninado pelo terno sussurro, interrompido ao amanhecer quando foram buscá-lo.

Nem mesmo hoje Švejk saberia dizer que tipo de tribunal era aquele diante

do qual o levaram naquela triste manhã. Tratava-se de um tribunal militar, sem sombra de dúvida. Havia inclusive um general, além de um coronel, um comandante, um tenente, um subtenente, um sargento e um soldado de infantaria, que não fazia nada além de acender os cigarros dos outros.

Não fizeram muitas perguntas a Švejk. O major parecia ser o mais interessado e falou com Švejk em tcheco. — Você traiu Sua Majestade o Imperador! — latiu para Švejk. — Virgem Santa! Quando? — exclamou Švejk. — Chega de idiotices! — disse o comandante.

— Humildemente, senhor, trair Sua Majestade o Imperador não é nenhuma

idiotice. Nós, soldados, juramos fidelidade a Sua Majestade o Imperador e, como

cantaram em um teatro,82 “lealmente minha promessa cumpri”.

— Ali estão — disse o major — as provas de sua culpa e toda a verdade. Apontou uma imensa pilha de papéis.

As principais provas incriminando Švejk haviam sido fornecidas pelo

homem que ficara preso com ele.

— Então não quer confessar? — perguntou o major. — De qualquer

maneira já reconheceu que você, um soldado do exército austro-húngaro, vestiu um uniforme russo sem ser obrigado a isso. Vou lhe perguntar pela última vez: alguém o forçou?

— Eu vesti o uniforme sem que ninguém me obrigasse. — Voluntariamente?

— Voluntariamente.

— Sem nenhum tipo de pressão?

— Sem nenhum tipo de pressão.

— Sabe que está perdido?

— Sim, me perdi, e tenho certeza de que o pessoal do meu regimento, o

— Sim, me perdi, e tenho certeza de que o pessoal do meu regimento, o

91º, já está me procurando, mas se me permitir, senhor, gostaria de lhe contar a história de uma pessoa que também se disfarçou com a roupa de outra. Em um dia de julho do ano de 1908, o encadernador Božetěch da rua Příčná de Praga estava se banhando em Zbraslav, no velho canal do Berounka. Deixou a roupa embaixo de um salgueiro e ficou muito contente quando atrás dele mergulhou outro senhor. Palavra vai, palavra vem, os dois começaram a conversar, depois brincaram juntos, se salpicaram com água e ficaram ali até o entardecer. Então o desconhecido saiu do rio dizendo que precisava se apressar para o jantar. O senhor Božetěch ficou mais um tempo sentado na água e depois foi até o salgueiro buscar sua roupa, mas em lugar da sua encontrou uns farrapos de vagabundo e um bilhete:

Já que nos divertimos tanto juntos, levei um tempo para decidir: faço ou

não faço? Por isso peguei uma margarida e a última pétala me disse: faça. Então troquei minha roupa pela sua. Não tenha medo de vesti-la: há uma semana foi desinfetada em Dobříš. Na próxima vez tenha cuidado com quem toma banho. Dentro da água todo mundo parece um deputado, mas pode ser um assassino. Você também não sabe com quem tomou banho. O mergulho valeu a pena. Agora, ao entardecer, a temperatura da água está ainda melhor. Volte a mergulhar para se recuperar do golpe.

 

O senhor Božetěch não teve outro remédio além de esperar que anoitecesse,

depois vestiu os farrapos do vagabundo e se dirigiu a Praga. Para evitar a estrada principal, pegou os caminhos que atravessam os prados, mas encontrou uma patrulha da polícia de Chuchle que prendeu o vagabundo e no dia seguinte pela manhã o levou ao tribunal do distrito de Zbraslav, porque qualquer um poderia dizer que é Josef Božetěch, encadernador da rua Příčná, número 16.

O escrevente, que mal entendia tcheco, achou que o acusado estava dando o

endereço de um cúmplice e por isso lhe perguntou em alemão:

— Está correto, Josef Božetěch, rua Příčná, Praga, número 16? — Não sei se ainda vive ali — respondeu Švejk —, mas em 1908 vivia. Era

um excelente encadernador, mas sempre demorava muito, pois primeiro lia o livro e depois o encadernava de acordo com o conteúdo. Quando colocava capas pretas, não era necessário lê-lo: imediatamente se sabia que a história acabava mal. Quer que lhe dê outra informação, antes que me esqueça? Todo dia ia à cervejaria U Fleků e revelava do que tratavam todos os livros que estava encadernando naquele momento.

O major se aproximou do escrevente, disse alguma coisa em seu ouvido e

então este riscou o nome e o endereço de Božetěch, o suposto novo cúmplice de Švejk.

Depois disso, aquele estranho julgamento sumário ao estilo dos conselhos

de guerra teve continuidade sob a presidência do general Fink von Finkenstein.

Da mesma maneira que alguém tem mania de colecionar caixas de fósforos, a

mania do general era promover julgamentos sumaríssimos e, na maior parte dos casos, não seguia os regulamentos penais militares. Costumava dizer que não precisava de nenhum auditor, que ele mesmo se encarregaria de nomear o tribunal e que, no máximo em três horas, todo bastardo deveria estar enforcado. Quando estava no front, os conselhos de guerra não rareavam nunca.

Assim como há gente que não pode passar nem um dia sem jogar uma

partida de xadrez, de bilhar ou de mariáš, o general promovia todos os dias julgamentos sumaríssimos, os presidia e anunciava solenemente e com grande alegria que estava dando um xeque-mate no acusado.

Se quiséssemos nos tornar sentimentais, diríamos que aquele homem tinha

dúzias de vidas humanas pesando em sua consciência, sobretudo ali no Leste, onde, como gostava de dizer, travava uma luta contra a agitação russa entre os ucranianos da Galícia. Mas, do seu ponto de vista, dizer que tinha alguém pesando em sua consciência seria uma afirmação que não correspondia à realidade.

O general não tinha consciência. Depois de mandar enforcar um professor,

uma professora, um pope da igreja ortodoxa ou toda uma família, em consequência do veredito de seu julgamento sumaríssimo, voltava com a maior tranquilidade para seu alojamento, do mesmo modo que um apaixonado jogador de mariáš regressa feliz da taverna pensando em como todos arremeteram contra ele mas acabara ganhando. Considerava a forca uma coisa simples e natural, como uma espécie de pão de cada dia. Ao anunciar o veredito, frequentemente se esquecia de Sua Majestade o Imperador e já nem se dava ao trabalho de dizer: “Em nome de Sua Majestade o Imperador o condeno a morrer na forca”; dizia, simplesmente: “Eu o condeno...”

Às vezes até enxergava na pena capital aspectos cômicos, a ponto de ter

escrito a seguinte carta a sua mulher, que vivia em Viena:

... por exemplo, minha querida, você não pode imaginar como ri há alguns dias ao condenar um professor por espionagem. Tenho um homem que leva a cabo as execuções na forca; é uma pessoa experiente, com muita prática nesse trabalho, embora não seja um profissional: é um sargento-mor e faz isso por esporte. Bem, naquele dia, depois do julgamento, eu estava na minha tenda quando o sargento-mor veio me procurar para me perguntar onde devia colocar aquele professor. Eu lhe disse que na árvore mais próxima. E agora imagine que situação mais divertida. Estávamos no meio da estepe, onde não se via nada além de mato e mais mato, não havia nem rastro de uma árvore em vários quilômetros ao redor. Mas uma ordem é uma ordem e por isso o sargento-mor, com o professor e uma escolta, saiu para procurar uma. Só voltou muito tarde, ainda com o professor. O sargento-mor voltou a me perguntar: “Onde penduro o desgraçado?” Dei-lhe uma bronca e lhe disse que minha ordem havia sido clara: na árvore mais próxima. Respondeu que voltaria a tentar pela manhã. De madrugada se apresentou completamente pálido e disse que durante a noite o professor havia fugido. Achei tudo tão divertido que perdoei aqueles que deviam vigiá-lo e ainda gastei uma piada dizendo que o professor devia ter ido embora para procurar a árvore por sua conta. Você está vendo, pois, querida, que não nos entedíamos. Diga ao pequeno Vilous que seu pai lhe envia beijos e que lhe mandará um russo vivo, no qual poderá montar a cavalo. Agora recordo outro caso que também a fará rir, querida. Outro dia tínhamos que enforcar um judeu por

espionagem. Encontramos esse homem em um caminho onde não tinha que estar, fingindo vender cigarros. Este sim penduramos, mas só durante alguns segundos: a corda se rompeu e ele caiu no chão. Imediatamente se recuperou e gritou: “Senhor general, vou para casa; já me penduraram e, de acordo com a lei, não podem me pendurar duas vezes pelo mesmo delito.” Comecei a rir e deixei o judeu ir embora. Aqui nos divertimos à larga, querida...

Depois que foi nomeado comandante da guarnição da fortaleza de Přemyšl,

o general deixou de ter muitas oportunidades de organizar espetáculos circenses desse calibre. Por isso abraçou com muita alegria o caso Švejk.

E assim o bom soldado se viu diante daquele tigre que, na cabeceira de uma

longa mesa, fumava um cigarro atrás do outro, mandava traduzir as declarações de Švejk e balançava a cabeça afirmativamente.

O major sugeriu que telegrafassem à brigada para perguntar onde estava,

naquele momento, a 11ª Companhia do 91º Regimento, a qual, segundo suas próprias declarações, o acusado pertencia.

O general se opôs, declarou que aquilo significaria retardar o julgamento

sumaríssimo e ir contra todo o sentido daquela instituição. Segundo ele, já dispunham da confissão do acusado, que reconhecia ter vestido o uniforme russo, e também de uma importante testemunha que afirmava que Švejk estivera em Kiev. Sugeriu que o tribunal se retirasse para deliberar a fim de que a sentença pudesse ser anunciada e executada no ato.

Não obstante, o major insistiu: era necessário verificar a identidade do

acusado, pois o assunto tinha uma importância política extraordinária. Comprovando sua identidade, seria possível descobrir qual eram as relações do acusado com seus antigos companheiros de unidade.

O major era um sonhador, um romântico. Acrescentou que era necessário

procurar os fios soltos, que não era suficiente condenar um homem, que a sentença devia ser resultado de uma investigação baseada em fios que... Não houve maneira de fazê-lo abandonar os fios, mas todos entenderam e afirmaram com um gesto de cabeça, inclusive o general, que gostou tanto daquilo que imaginou que dos fios do comandante pendiam novos julgamentos sumaríssimos. Por isso parou de protestar diante da sugestão de que se verificasse na brigada se de fato Švejk pertencia ao 91º Regimento e na ocasião de que operações da 11ª Companhia bandeara para os russos.

Durante toda a discussão, Švejk ficou no corredor, vigiado por duas

baionetas. Depois voltaram a levá-lo perante o tribunal e lhe perguntaram de novo a que regimento pertencia. Então o levaram ao cárcere da guarnição.

Ao voltar para casa depois daquele malogrado julgamento sumaríssimo, o

general Fink desabou no sofá e ficou refletindo sobre como poderia acelerar os procedimentos.

Estava firmemente convencido de que a resposta não se faria esperar, mas

ainda assim não chegaria com a maravilhosa rapidez que caracterizavam seus julgamentos; além do mais, ainda faltava dar a extrema-unção ao condenado, o que retardaria inutilmente a execução em mais de duas horas.

“Não importa”, pensou o general Fink, “poderemos lhe dar a extrema-unção

antes do veredito e até mesmo antes que cheguem os informes da brigada. De qualquer maneira, será enforcado”.

O general Fink chamou o capelão militar Martinec. Tratava-se de um infeliz catequizador e vigário de algum lugar da Morávia

que, por ter tido como superior um pároco muito grosseiro, preferira se alistar no exército. Era um homem verdadeiramente religioso que recordava com profunda preocupação seu pároco, que pouco a pouco ia caindo na corrupção. Recordava que bebia aguardente como uma esponja e que uma noite tentou enfiar em sua cama uma cigana vagabunda que encontrara na entrada da aldeia, quando estava voltando, cambaleando, de uma adega.

O capelão militar Martinec imaginava que, como ministrador de extremas-

unções aos feridos e tombados no campo de batalha, também redimia os pecados do pároco libertino. Quantas vezes o safado, ao voltar para casa à noite, o despertara para lhe dizer:

— Jan, Jan, meu querido amigo! Uma boa moça cheia de carnes é a alegria

da minha vida!

Mas suas esperanças de levar uma vida santa não se cumpriram. Foi

transferido de uma guarnição a outra, onde a única coisa que podia fazer era pronunciar sermões para os soldados a cada duas semanas antes da missa e resistir à tentação que vinha do cassino dos oficiais, onde se mantinham umas conversas em comparação com as quais as boas moças cheias de carne eram orações inocentes dirigidas ao anjo da guarda.

O general Fink costumava convocá-lo em tempos de grandes operações

bélicas para celebrar alguma vitória do exército austro-húngaro. Naquelas ocasiões, o general organizava missas solenes com o mesmo entusiasmo com o qual improvisava os julgamentos sumaríssimos.

O canalha do Fink era um grande patriota austríaco que não rezava nem

sequer pela vitória do exército alemão ou turco. Quando os alemães ganhavam alguma batalha contra a França ou a Inglaterra, o general Fink deixava passar aquele acontecimento em silêncio absoluto diante do altar.

No entanto, a menor escaramuça vitoriosa de um destacamento de

exploradores austríacos contra uma patrulha russa, que o estado-maior inflava como se fosse uma enorme bolha de sabão, quase como se se tratasse de uma derrota de todo o exército russo, dava ao general Fink a oportunidade de celebrar missas solenes. O pobre capelão militar Martinec tinha a impressão de que o general Fink era, também, o chefe da Igreja católica de Přemyšl.

O general Fink decidia também o programa das celebrações litúrgicas; sua

preferida era a missa de Corpus Christi com a oitava.

Também tinha o hábito de, depois da missa, subir a cavalo no altar e gritar

três vezes: Hurra, hurra, hurra!

O capelão Martinec, alma piedosa e justa, não estava gostando nem um

pouco de ter que se apresentar ao general Fink.

Depois de lhe dar instruções, o comandante da guarnição ordenava sempre

que servissem alguma bebida forte e começava a lhe contar as últimas piadas publicadas pelo jornal de humor alemão Lustige Blätter, que tinha como público-alvo os soldados.

Tinha toda uma biblioteca de livrinhos do tipo, com títulos tão estúpidos

como: Humor na mochila para os olhos e o ouvido; Anedotas de Hindemburg; Hindemburg no espelho do humor; A segunda mochila de humor, carregada por Félix Schlemper; De nosso canhão de gulache; Suculentas granadas tiradas das trincheiras ou besteiras como: Um escândalo da imperial e real cozinha de campanha requentada por Arthur Lobesch. Às vezes, o general entoava diante do capelão uma das alegres canções militares da coleção “Temos que vencer!”; enquanto isso, não parava de servir aguardente e de obrigar o capelão a beber e a cantar aos gritos como ele. Depois vinham discursos obscenos que faziam o capelão pensar com tristeza em seu pároco, que, no que dizia respeito a palavras grosseiras, não tinha nenhum motivo para sentir inveja do general Fink.

O padre Martinec observava com horror que, quanto mais frequentava o

general Fink, mais decaía do ponto de vista moral. O infeliz religioso estava começando a apreciar os licores que bebia na casa do general, e pouco a pouco também ia achando divertidos os assuntos licenciosos. Devido ao conhaque, à genebra e às teias de aranha instaladas nas garrafas de vinho antigo que o general lhe servia, esquecia-se de Deus, e, no meio das linhas do breviário, via dançar as garotas das anedotas do general. Sua aversão às visitas de seu superior ia se atenuando.

Quanto ao general, ficou amigo daquele capelão que na primeira vez se

apresentara como uma espécie de Santo Inácio de Loyola, mas pouco a pouco fora se adaptando ao comportamento do superior.

Uma vez o general convidou para irem a sua casa duas enfermeiras do

hospital de campanha, que, na verdade, não estavam inscritas para trabalhar, mas apenas recebiam o soldo, o qual aumentavam exercendo a prostituição, como era comum naqueles tempos difíceis. Naquela ocasião, o general chamou o capelão militar Martinec. Este caíra tão profundamente nas garras do diabo que depois de meia hora de conversa se entreteve com as duas senhoritas, uma depois da outra, com tanto ardor que babou nas almofadas do sofá. Depois ficou arrependido durante um tempo, recriminou o próprio comportamento licencioso e não conseguiu se livrar de suas culpas nem mesmo quando se ajoelhou por engano naquela noite, ao voltar da casa do general, diante da estátua do construtor e alcaide da cidade, o mecenas senhor Grabowski, que nos anos oitenta fizera grandes coisas por Přemyšl.

O ruído das botas de uma patrulha militar foi o único a se misturar com

suas piedosas orações.

“Não julgue Teu servidor, porque diante de nenhum homem poderias

encontrar a graça se não perdoasse todos seus pecados. Rogo-lhe que Teu veredito não seja muito severo. Peço-lhe ajuda e deixo minha alma em Tuas mãos, oh Senhor.”

Desde então, sempre que o chamavam para ver o general Fink, tentava

renunciar a todos os prazeres terrestres e se desculpava dizendo que estava doente do estômago. Considerava necessária esta mentira, pois queria evitar os infernais martírios da alma. Não obstante, também achava que a disciplina militar exigia que, quando o general lhe dizia: “Beba, companheiro”, o fizesse por respeito a seu superior.

Às vezes não tinha outro remédio além de participar das farras, sobretudo

quando, depois de uma das missas solenes, o general organizava uma comilança ainda mais solene às expensas do caixa da guarnição. Então o pessoal da contabilidade ajeitava tudo para que ninguém percebesse. Depois daqueles banquetes, o capelão tremia como uma folha e se sentia moralmente enterrado diante de Deus.

Mais tarde ficava vagando como uma alma penada. No entanto, no meio

daquele caos, não havia perdido a fé em Deus e começou a se perguntar seriamente se não deveria se açoitar todos os dias.

Foi com esse estado de espírito que se apresentou perante o general. O general Fink recebeu o padre com uma expressão radiante. — Você já soube?! — gritou em tom triunfal. — Foi informado a respeito

do meu julgamento sumaríssimo? Vamos enforcar um compatriota seu.

Ao ouvir a palavra “compatriota” o capelão Martinec fitou o general com

olhos torturados. Mais de uma vez se recusara a ser considerado tcheco e dissera em inúmeras ocasiões a quem quisesse ouvi-lo que a sua paróquia da Morávia pertenciam duas comunidades: a tcheca e a alemã. Amiúde tinha que predicar num domingo para os tchecos e no outro para os alemães. Como na comunidade tcheca não havia nenhuma escola tcheca, mas apenas uma alemã, ele ensinava às duas comunidades em alemão e por isso não se considerava de maneira nenhuma tcheco. Esta dedução lógica levou um dia o comandante a observar, quando estavam à mesa, que, olhando bem, o capelão da Morávia era uma loja com várias mercadorias.

— Perdoe — disse o general —, me equivoquei, não é seu compatriota. É

um tcheco, um desertor, um traidor da nossa pátria comum; serviu aos russos e por isso será enforcado. Enquanto isso, para cumprir as formalidades, estamos investigando sua identidade; será enforcado assim que recebermos o telegrama com a resposta.

O general disse ao capelão que se sentasse ao seu lado e continuou,

alegremente:

— Quando organizo um julgamento sumaríssimo, tudo deve acontecer em

uma velocidade correspondente ao nome de tal julgamento, este é o meu princípio. No começo da guerra, quando estava servindo perto de Lvov, consegui enforcar um homem três minutos depois da sentença. Era judeu, claro, mas um ucraniano também foi enforcado cinco minutos depois de nossa deliberação.

O general sorriu bondosamente.

— Nenhum dos dois precisava da extrema-unção. O judeu era rabino e o

ucraniano, ortodoxo. Mas agora é diferente, pois se trata de enforcar um católico. Tive uma ideia genial para evitar qualquer adiamento: receberá a extrema-unção antecipadamente; como já disse, para que o assunto não seja adiado.

O general chamou seu ordenança e lhe ordenou:

— Traga duas garrafas iguais àquelas que bebemos ontem. E depois de um momento, enquanto enchia a taça do capelão militar, disse

amavelmente:

— Console-se você um pouco antes da extrema-unção.

 

Naquele momento tão espantoso, atrás de uma janela gradeada, Švejk entoava uma canção:

Nós soldados somos grandes senhores,

As garotas nos fazem favores,

Nós distribuímos dinheiro,

Em todos os lugares onde haja brinquedo.

Trá-lá-lá, um, dois, três...

78 Grande Alá, Grande Alá, misericordioso, tenha pena, tenha misericórdia de um simples soldado. (N. do T.)

79 Diz a lenda que Jaroslav de Šternberk teve uma visão com a Virgem um pouco antes da batalha contra os tártaros aos pés da montanha de Hostýn, Morávia, em 1240. Os tártaros foram derrotados. (N. do T.)

80 Escritores tchecos contemporâneos de Jaroslav Hašek. (N. do T.)

81 Essa “mensagem pessoal” de Hašek para o presidente Masaryk foi omitida em edições mais recentes de O bom soldado Švejk. No entanto, foi recuperada por Cecil Parrott, o já mencionado tradutor deste livro para o inglês. (N. do T.)

82 Alusão a “Dalibor”, ópera do compositor tcheco Bedřich Smetana. (N. do T.)