As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 6 de 30

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

4 - Švejk é expulso do manicômio

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Š vejk é expulso do manicômio

Mais tarde, Švejk descreveu a vida no manicômio com entusiasmo inusitado:

— Na verdade, não entendo por que os loucos protestam por estarem

trancafiados. No manicômio as pessoas podem se arrastar pelo chão, ficar nuas, uivar como chacais, se enfurecer e até morder. Se se comportassem assim em outro lugar, todo mundo ficaria surpreso, mas no manicômio é a coisa mais natural do mundo. Nem os socialistas sonharam com tanta liberdade como a que se tem ali. Qualquer um pode se fazer passar por Deus ou pela Virgem ou pelo papa ou pelo rei da Inglaterra ou pelo senhor imperador ou por São Venceslau, embora este último, o que dizia que era São Venceslau, vivesse amarrado, nu e isolado do resto.

“Havia um que gritava que era arcebispo, mas não fazia nada além de comer e

outra coisa que, peço perdão, rima com tragar, mas lá ninguém se envergonha. Outro simulava ser São Cirilo e São Metódio para ver se lhe davam ração dupla. Um senhor dizia que estava grávido e convidava todos para o batismo do filho.

“Havia jogadores de xadrez, políticos, pescadores e escoteiros,

colecionadores de selos e fotógrafos amadores. Um sujeito estava ali por causa de uma espécie de umas canecas velhas que chamava de cinzeiros. Outro estava sempre em uma camisa de força para não poder calcular quando o mundo acabaria. Também encontrei alguns professores. Um deles vivia correndo atrás de mim querendo provar que o berço dos ciganos eram as montanhas de Krkonoše, no norte da Boêmia, e um outro vivia insistindo que dentro do globo terrestre havia um outro, muito maior do que o externo.

“Todo mundo tinha liberdade para dizer o que lhe passava pela cabeça, como

se estivesse no Parlamento. Às vezes contavam contos de fada e saíam na porrada quando acontecia uma desgraça com alguma princesa. O mais feroz de todos era um senhor que

dizia ser o décimo sexto tomo da enciclopédia Otto da língua tcheca:13 pedia a todos que o abrissem e procurassem a senha ‘costureira de papelão’; se não, estaria perdido. Só se tranquilizava quando o enfiavam na camisa de força. Então, ficava feliz, achando que estava em uma impressora e pedia que lhe fizessem uma lombada bem moderna.

“Em geral vivia-se lá como no paraíso. Você podia gritar, berrar, cantar,

chorar, gemer, ulular, pular, rezar, dar cambalhotas, andar de quatro, pular em um pé, dançar, perambular, correr para cima e para baixo, ficar sentado o dia inteiro de cócoras ou subir pelas paredes. Ninguém aparecia para lhe dizer: ‘Você não pode fazer isto, não pode; devia ter vergonha. O senhor não é uma pessoa culta?’

“Mas também é verdade que alguns loucos são absolutamente silenciosos,

como, por exemplo, um inventor muito educado que vivia futucando o nariz e só uma vez por dia dizia: ‘Acabei de inventar a eletricidade!’ Como estou dizendo, tudo era perfeito e os dias que passei no manicômio fazem parte dos melhores momentos da minha vida.”

De fato, a maneira como Švejk fora recebido no manicômio, aonde foi levado

para ser observado por determinação do Tribunal Penal Regional, superou suas expectativas. Primeiro o despiram, depois lhe deram um roupão e o levaram para tomar banho, segurando-o educadamente pelas axilas enquanto um dos enfermeiros o distraía contando piadas de judeus. No banheiro, foi enfiado dentro de uma banheira de água quente, depois o tiraram e colocaram debaixo de um chuveiro frio. Repetiram isso três vezes e depois lhe perguntaram se havia gostado. Švejk respondeu que aquilo era melhor que os balneários da ponte de Carlos e que gostava muito de tomar banho. “Se, além disso, vocês cortarem minhas unhas e meus cabelos, ficarei completamente satisfeito”, acrescentou com um sorriso simpático.

Seu desejo foi atendido. Depois, ainda esfregaram seu corpo cuidadosamente

com uma esponja, o enrolaram em um lençol e levaram à primeira enfermaria. Ali, o enfiaram na cama, cobriram com um cobertor e pediram que dormisse.

Ainda hoje Švejk conta, emocionado: — Imaginem que me levaram, na verdade me carregaram. Naquele momento

me senti completamente feliz.

Adormeceu, sentindo-se completamente feliz. Então o acordaram e lhe

serviram uma xícara de leite e um pãozinho. O pãozinho já estava cortado em pedacinhos e, enquanto um dos enfermeiros segurava as duas mãos de Švejk, um outro mergulhava os pedacinhos de pão no leite e os colocava em sua boca, como fazem com os gansos. Depois de o alimentarem, pegaram-no pelas axilas e levaram ao banheiro, onde pediram que fizesse as pequenas e as grandes necessidades físicas.

Švejk falava daqueles momentos maravilhosos com ternura e não é necessário

repetir suas palavras a respeito do que fizeram com ele depois. Direi apenas que Švejk disse:

— Enquanto isso, um enfermeiro me sustentava nos braços! Quando o levaram de volta, o enfiaram de novo na cama e voltaram a pedir

que dormisse. Quando adormeceu, o acordaram para acompanhá-lo ao consultório, onde Švejk, em pé, totalmente nu diante de dois médicos, se lembrou da gloriosa época de seu recrutamento. Involuntariamente saiu de seus lábios, em alemão:

— Tauglich — algo como “apto para o serviço”. — O que você disse? — perguntou um dos médicos. — Dê cinco passos

para a frente e cinco para trás.

Švejk deu dez passos.

— Mas eu lhe disse para dar cinco — reiterou o médico. — Eu não ligo para um par de passos — disse Švejk. Então lhe pediram que se sentasse em uma cadeira. Um dos médicos deu

umas batidinhas em seu joelho e disse ao outro que seus reflexos eram absolutamente normais. Este balançou a cabeça e começou ele mesmo a bater no joelho de Švejk, enquanto o primeiro erguia suas pálpebras para examinar as pupilas.

Depois se afastaram um pouco e trocaram algumas frases em latim. — Ouça, você sabe cantar? — perguntou um deles a Švejk. — Poderia cantar

alguma canção para a gente?

— Sem problemas, senhores — respondeu Švejk. — Não tenho voz nem

ouvido musical, mas vou tentar, pois percebo que estão querendo se divertir.

E Švejk começou:

Um jovem monge sentado

Com a mão direita na testa

Verte nas faces pálidas

Lágrimas amargas e cálidas.

— Não sei o resto — disse Švejk. — Mas, se quiserem, posso cantar outra:

Meu coração nostálgico

 

Comprime meu peito.

Quando fico calado e olho ao longe,

Lá na distância surge o desejo.

— E também não sei o resto — suspirou Švejk. — Sei também a primeira

estrofe de Kde domov můj14 e depois “O general Windischgrätz e os senhores militares deflagraram a guerra quando o sol apareceu” e algumas canções folclóricas, como Protegei-nos, Senhor, Quando íamos a Jaroměř e Saudamos mil vezes o Senhor...

Os dois médicos se entreolharam. Um deles perguntou a Švejk: — Já investigaram seu estado mental?

— No exército, os senhores médicos militares me deram um atestado de

idiota notório — respondeu Švejk, solene e orgulhosamente.

— Eu acho que você é um farsante! — gritou o segundo médico. — Senhores, eu não sou nenhum farsante — se defendeu Švejk. — Sou um

verdadeiro idiota. Podem perguntar no escritório do 91º Regimento de Budějovice, ou então aqui em Praga, na Administração Regional do bairro de Karlín.

O médico mais velho fez um gesto desesperado com a mão e, apontando

Š vejk, disse aos enfermeiros:

— Devolvam a roupa a este homem e o acompanhem ao terceiro

ambulatório do primeiro corredor. Depois, quero que um de vocês volte e leve todos os relatórios médicos a seu respeito ao escritório e diga que é preciso despachá-lo sem demora, para não ficarmos muito tempo com ele preso nas nossas gargantas.

Os médicos dirigiram outro olhar fulminante a Švejk, que recuou

respeitosamente para a porta, onde fez uma delicada reverência. Quando um dos enfermeiros lhe perguntou por que fazia aquelas besteiras, respondeu:

— Porque não estou vestido. Estou nu, e não quero revelar a estes senhores

nada que os leve a pensar que sou descortês e indecente.

No exato momento em que os enfermeiros receberam a ordem de devolver a

roupa a Švejk, pararam de se interessar completamente por ele. Ordenaram-lhe que se vestisse e um deles o acompanhou ao terceiro ambulatório, onde, durante alguns dias, até que ficassem prontos os papéis da alta, teve a oportunidade de se dedicar em tempo integral a suas interessantes observações. Os decepcionados médicos deram um parecer dizendo que era “um farsante débil mental”. Mas, como lhe deram alta antes do almoço, aconteceu um pequeno incidente.

Švejk afirmou que, quando uma pessoa é expulsa do manicômio, não pode

ser despachada antes de almoçar.

Um policial, alertado pelo porteiro, colocou um ponto final naquele

escândalo acompanhando Švejk à delegacia de polícia da rua Salmova.

13 O Ottův slovník naučny é a enciclopédia mais extensa da língua tcheca, elaborada entre o final do século XIX e o início do século XX. Seus 27 volumes têm quase 186 mil verbetes. Quando foi editada, era a segunda enciclopédia mais extensa do mundo, só menor do que a Encyclopaedia Britannica. O autor brinca com uma obra que representava o orgulho do saber tcheco da época. (N. do T.)

14 “Onde está o meu lar”, hino nacional tcheco.