As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 18 de 30

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Epílogo da primeira parte - Na retaguarda

Epílogo da primeira parte

Na retaguarda

Concluída a primeira parte de As aventuras do bom soldado Švejk (Na retaguarda), comunico que logo serão publicados mais dois volumes: No front e A surra gloriosa. Neles, os soldados e os cidadãos também falarão e se comportarão como o fazem na realidade.

A vida não é nenhuma escola de bom comportamento. Cada um fala como

pode. O chefe do cerimonial, o doutor Guth, fala de uma maneira diferente da do taverneiro Palivec de U Kalicha; além disso, este romance não é um manual de como as pessoas devem se comportar nos salões requintados nem um livro didático de expressões a serem usadas na alta sociedade. É um retrato histórico de determinada época.

Quando é necessário recorrer a uma palavra mais forte, se de fato cabe, não

hesito em usá-la, pois foi como aconteceu de verdade. Dizer as coisas de outra maneira ou usar reticências seria, para mim, a mais estúpida das hipocrisias. Essas palavras são usadas até no parlamento.

Alguém disse, muito acertadamente, que uma pessoa bem-educada pode ler

qualquer coisa. As únicas pessoas que se espantam diante do que é absolutamente natural são os maiores canalhas e os maiores especialistas em vilanias; em seu desprezível pseudomoralismo ignoram os contextos e atacam com fúria palavras isoladas.

Há alguns anos, li a resenha de um romance na qual o crítico se enojava

diante do que o autor havia escrito: “Assoou o nariz e depois o enxugou.” Na sua opinião, esta maneira de escrever era antiestética e nada nobre, e atentava contra aquilo que a literatura deveria oferecer à nação.

Este é apenas um pequeno exemplo do tipo de imbecis que nascem sob o sol. Os homens que se surpreendem diante de uma linguagem pesada não passam

de covardes, porque o que os choca é a vida real; é precisamente este tipo de gente fraca que causa maiores danos à cultura e ao caráter. Eles educariam o povo como se fosse um grupo de pessoas hipersensíveis, masturbando uma falsa cultura; é o tipo de gente como São Luís, de quem se diz no livro do monge Eustáquio que, quando ouviu que um homem se livrara de seus gases ruidosamente, explodiu em prantos e não se acalmou até que começou a rezar.

Este tipo de gente se indigna em público, mas habitualmente sente um prazer

extraordinário em ler frases grosseiras nas paredes dos mictórios.

Se em meu romance recorri a alguns palavrões, foi para retratar a maneira

corrente de falar.

Não podemos pedir ao taverneiro Palivec que fale tão refinadamente como a

senhora Laudová, o doutor Guth, a senhora Olga Fastrová30 e toda uma série de pessoas que, com extremo prazer, transformariam a República da Tchecoslováquia em um grande salão atapetado onde as pessoas se movimentariam vestidas com fraque e luvas, onde todos falariam sofisticadamente e cultivariam a delicadeza dos salões que, no fundo, disfarça os piores vícios e extravagâncias.

 

Gostaria de aproveitar a oportunidade para dizer que o taverneiro Palivec ainda vive. Passou a guerra na prisão, sobreviveu a ela, e quando saiu era o mesmo de quando teve aquele affaire com o quadro do imperador Franz Joseph.

Ao saber que fora mencionado no romance, veio me visitar e comprou mais de

vinte exemplares da primeira edição para dá-los de presente a seus conhecidos, e assim ajudou a popularizar o livro.

O fato de eu ter escrito sobre ele como se fosse um grande indecente alegrou-o

sinceramente:

— Ninguém mais conseguirá me mudar — me disse —, durante toda minha

vida falei como pensei e vou continuar falando assim. Não vou colocar, por causa de algum idiota, um guardanapo na boca. Agora sou famoso...

De fato, sua autoconfiança havia aumentado. Sua fama atual se baseia em

algumas grosserias. Isso lhe basta para viver satisfeito. Se o repreendesse por falar dessa maneira — o que, naturalmente, não tenho a menor intenção de fazer —, com certeza ofenderia o bom homem.

Com suas palavras escolhidas ao azar, pura e simplesmente sintetizou a

rejeição dos tchecos aos bizantinismos. Está em nosso sangue a falta de respeito pelo imperador e pelas palavras rebuscadas.

***

 

Otto Katz também está vivo. É a mais autêntica personificação do capelão militar. Quando a monarquia caiu, jogou tudo para o alto, afastou-se da Igreja e hoje administra uma fábrica de bronze e corantes do norte da Boêmia.

Escreveu-me uma longa carta ameaçando que me faria pagar pelo que lhe

fiz. É que uma revista em língua alemã publicou a tradução do capítulo que o descreve. Visitei-o e tudo se acertou. Às duas da madrugada, o antigo sacerdote não conseguia se manter nas pernas; apesar disso, não parava de fazer sermões, e declarou: “Eu sou Otto Katz, capelão militar, seu cabeça de tolo!”

 

Até mesmo agora, quando vivemos em uma república, existem muitas pessoas semelhantes ao falecido detetive Bretschneider, que se interessam imensamente pelas conversas alheias.

 

Não sei se com este livro consegui chegar aonde queria. No entanto, dia desses ouvi um homem dizer a outro: “Você é tão cretino como Švejk.” Ou seja, se a palavra Švejk se transformar em um novo xingamento dentro do amplo leque de insultos de nossa língua, terei de ficar feliz por ter enriquecido o idioma tcheco.

JAROSLAV HAŠEK

30 Contemporâneos de Hašek que publicaram livros e artigos sobre moral e bom comportamento. (N. do T.)