As Aventuras do Bom Soldado Švejk
2 - Em Budapeste
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
2
Em Budapeste
Na estação militar de Budapeste, Matušič se aproximou do capitão Ságner e lhe entregou um telegrama que o comando recebera do infeliz comandante de brigada que fora enviado ao hospital. Seu conteúdo, não cifrado, era idêntico ao do que recebera na última estação: “Cozinhar rapidamente e ato contínuo marchar para Sokal.” O autor havia acrescentado: “Integrar o trem do grupo leste. Suprime-se o serviço de espionagem. O 13º Batalhão constrói uma ponte sobre o rio Bug. Mais detalhes nos jornais.”
O capitão Ságner se dirigiu imediatamente ao comando da estação. Foi
recebido pelo sorriso amistoso de um oficial gordo.
— Nem queira saber o que seu general de brigada armou! — disse, rindo às
gargalhadas. — Nos vimos obrigados a lhe trazer essa sandice porque ainda não recebemos nenhuma ordem que diga que os telegramas não devem ser entregues aos destinatários. Ontem passou por aqui o 14º Batalhão do 75º Regimento, e tínhamos um telegrama para o comandante, segundo o qual devia se pagar seis coroas a cada soldado como recompensa especial pelo que aconteceu em Přemyšl, e ao mesmo tempo se ordenava que, destas seis coroas, cada homem depositasse duas aqui no escritório, para o fundo de guerra... Segundo informações de fontes fidedignas, seu general teve um ataque de paralisia.
— Senhor major — o capitão Ságner se dirigiu ao comandante da estação
—, segundo a ordem do regimento e conforme o programa, estamos nos dirigindo a Gödölö. Nossos soldados devem receber aqui cento e cinquenta gramas de queijo emental. Na última estação deviam lhes ter dado cento e cinquenta gramas de salame húngaro e ainda não receberam nada.
— Aqui, seguramente, também não receberão nada — disse o comandante,
sempre com um sorriso afável —, não sei nada de nenhuma ordem para os regimentos procedentes da Boêmia. De qualquer maneira, esse não é um assunto meu, dirija-se ao comando de abastecimento.
— Quando partimos, senhor major?
— Antes dos senhores, há um trem de artilharia pesada que vai para a
Galícia. Faremos com que saia dentro de uma hora. Na via três está um trem hospital que sairá vinte e cinco minutos depois do da artilharia. Na via doze, espera um trem de munição. Sairá dez minutos depois do da saúde, e vinte minutos mais tarde sairá o seu. Ou seja, se não houver nenhuma mudança — acrescentou, sem parar de sorrir de tal maneira que o capitão Ságner começou a achá-lo odioso.
— Permita-me, senhor major; poderia me explicar como é possível que o
senhor não saiba nada de uma ordem relativa à distribuição de cento e cinquenta gramas de emental aos regimentos procedentes da Boêmia?
— Trata-se de um segredo militar — respondeu o comandante da estação
sem parar de sorrir.
“Minha mãe, me meti em uma grande confusão”, pensou o capitão Ságner ao
sair do edifício da comandância. “Por que, burro que sou, enviei o tenente Lukáš, com os comandantes dos pelotões e seus soldados, ao armazém de provisões para buscar cento e cinquenta gramas de queijo emental por cabeça?”
Antes que, obedecendo às ordens do capitão Ságner, o tenente Lukáš,
Antes que, obedecendo às ordens do capitão Ságner, o tenente Lukáš,
comandante da 11ª Companhia, determinasse que os soldados marchassem ao armazém onde deveriam receber o queijo, surgiram diante dele Švejk e o infeliz Baloun.
Baloun tremia todo.
— Humildemente, senhor — disse Švejk com sua palavra fácil habitual —,
trata-se de uma coisa muito importante. Gostaria de lhe pedir, senhor, que conversássemos sobre este assunto em algum outro lugar, conforme se manifestou meu amigo Špatina de Zhoř num dia em que foi testemunha de um casamento e na igreja teve vontade de...
— Bem, de que se trata, Švejk? — interrompeu-o o tenente Lukáš, que
começara a sentir sua falta da mesma maneira que Švejk sentira falta dele. — Afastemo-nos um pouco, se é isso o que você quer.
Baloun acompanhou-os sem parar de tremer. O gigante havia perdido
totalmente o equilíbrio e, em seu estado de desespero absoluto, agitava os braços de um lado a outro.
— Bem, o que está acontecendo, Švejk? — perguntou o tenente Lukáš
quando se afastaram.
— Humildemente, senhor — disse Švejk —, sempre é melhor confessar as
coisas antes que a bomba estoure. O senhor deu uma ordem para que, quando chegarmos a Budapeste, Baloun lhe traga patê de fígado e pãezinhos. Você recebeu esta ordem ou não? — continuou, dirigindo-se a Baloun.
Este começou a agitar os braços mais ainda do que antes, como se estivesse
se defendendo de um inimigo.
— Por desgraça, senhor tenente — disse Švejk —, esta ordem não pôde ser
levada a termo. É que comi seu patê de fígado... Eu o comi — repetia Švejk, dando cotoveladas no assustado Baloun — porque achei que poderia se estragar. Mais de uma vez li no jornal que famílias inteiras haviam se envenenado com patê de fígado, uma vez em Tábor, uma vez em Mladá Boleslav e uma vez em Přibram. Todos morreram envenenados. Patê de fígado é uma porcaria terrível...
Baloun, tremendo inteiro, se afastou um pouco, enfiou um dedo na boca e
começou a vomitar a intervalos.
— O que está acontecendo com você, Baloun?
— Estou vo... vo... vomitando... e... e... se... nhor... te... tenente e... e... —
soltava o pobre Baloun durante as pausas — eu o... comi... e... eu só... só... e...
Da boca do desgraçado Baloun saíam até pedaços do papel alumínio em que
o patê estivera embrulhado.
— Como está vendo, senhor tenente — disse Švejk, sem perder a serenidade
—, no final todas as coisas saem, inclusive o patê que se comeu. Eu queria assumir a responsabilidade e o burro aqui se trai desta maneira. É um bom sujeito, mas devora tudo o que põem na frente dele. Certa vez conheci uma pessoa assim. Trabalhava em um banco. Podiam lhe confiar milhares e milhares de coroas; uma vez lhe deram mil coroas a mais em outro banco e imediatamente as devolveu, mas se o mandassem buscar um cêntimo de presunto defumado devorava a metade pelo caminho. Era tão guloso que, quando os auxiliares de escritório o mandavam buscar salsichas, ele as abria pelo caminho com uma faca e depois tampava os buracos com um esparadrapo; o esparadrapo que tinha que usar em cinco salsichas lhe saía mais caro do que uma salsicha inteira.
O tenente Lukáš suspirou e foi embora. — Não vai me dar nenhuma ordem, senhor? — gritou Švejk. O infeliz
Baloun não parava de enfiar o dedo na boca.
O tenente Lukáš fez um gesto com a mão e se dirigiu ao armazém. Enquanto
caminhava, passou por sua cabeça uma ideia estranha: se os soldados estavam comendo o patê de fígado de seus oficiais, a Áustria jamais conseguiria vencer a guerra.
Švejk levou Baloun ao outro lado da estação militar. Para consolá-lo, lhe
dizia que iriam juntos à cidade e que comprariam salsichas de Debrecen para o tenente. Š vejk sempre associava esta iguaria à capital do reino da Hungria.
— Perderíamos o trem — choramingava Baloun, cuja voracidade andava de
mãos dadas com uma grande mesquinhez.
— Quando se vai ao front — explicava Švejk —, nunca se perde nada
porque todos os trens pensam duas vezes antes de deixar metade dos soldados na última estação. Mas eu o entendo, Baloun; você é um mão de vaca.
Não foram a lugar nenhum porque tocou o sinal de subir no trem. Os
soldados das várias companhias voltavam do armazém aos vagões com as mãos vazias. Em vez de cento e cinquenta gramas de queijo emental, haviam dado a cada um uma caixa de fósforos e um cartão-postal impresso pelo Comitê de Cemitérios Militares da Áustria (Viena XIX/4, Canisiusgasse). Em vez do queijo, cada um levava na mão o cemitério militar de Sedlisk, Galícia ocidental, com o monumento aos pobres soldados da província esculpido pelo sargento-mor Scholz, um voluntário que se livrara da guerra talhando monumentos.
No vagão do alto-comando também reinava uma estranha excitação. Os
oficiais do batalhão se reuniram em torno do capitão Ságner. Este, muito desassossegado, lhes contou uma coisa: acabara de voltar do posto de comando da estação com um telegrama rigorosamente confidencial do estado-maior da brigada que continha uma longa lista de instruções e indicações sobre a maneira de agir nessa nova situação em consequência dos acontecimentos de 23 de maio de 1915.
A brigada enviara um telegrama dizendo que a Itália declarara guerra ao
império austríaco.
No cassino dos oficiais de Most nad Litavou, a estranha atitude da Itália não
parava de ser comentada, mas, de maneira geral, ninguém imaginava que seriam cumpridas as palavras proféticas do cadete Biegler, que uma noite, durante o jantar, afastou um prato de macarrão e disse: “Logo me fartarei de comer às portas de Verona.”
Depois de ter estudado as instruções que haviam acabado de chegar da
brigada, o capitão Ságner fez soar o alarme.
Quando todos os soldados do batalhão estavam reunidos, formando um
quadro, o capitão Ságner, com voz extremamente solene, leu a ordem da brigada que recebera por telegrama:
Impelido por um desejo de traição e por uma avidez sem precedentes, o rei da Itália esqueceu os laços fraternais que o uniam à nossa monarquia. Desde o começo da guerra, na qual devia ter se aliado às nossas tropas, o traiçoeiro rei da Itália representou o papel de assassino mascarado. Agiu de maneira suspeita e fez acordos secretos com nossos inimigos. Sua traição atingiu o auge
na noite de 22 para 23 de maio, quando declarou guerra à nossa monarquia. Nosso comandante supremo está convencido de que nossas tropas, sempre valentes e vitoriosas, responderão a esta ignominiosa traição com um ataque que levará o desleal a reconhecer que sua vergonhosa e traiçoeira intervenção na guerra significou sua destruição. Temos a confiança absoluta de que, com a ajuda de Deus, logo chegará o dia em que as planícies italianas voltarão a ver os vencedores de Santa Lúcia, de Vicenza, Novara e Custozza. Queremos vencer, devemos vencer e venceremos!
Então, como de costume, ouviu-se três vezes o habitual “Viva!” e os soldados
voltaram a seus vagões um pouco perplexos. Em lugar de cento e cinquenta gramas de queijo emental, viam-se metidos em uma guerra contra a Itália.
No vagão onde estavam Švejk, o sargento Vaněk, o telefonista Chodounský,
Baloun e o cozinheiro Jurajda, entabulou-se uma conversa interessante sobre a entrada da Itália na guerra.
— Na rua Taborská, em Praga, também houve um caso parecido —
começou Švejk. — Havia um lojista que se chamava Hořejší. Um pouco mais longe, na calçada da frente, ficava o estabelecimento do lojista Pošmourný e, entre os dois, a loja de um tal de Havlasa. Bem, um dia passou pela cabeça de Hořejší que poderia se aliar com o lojista Havlasa contra o lojista Pošmourný, e começou a negociar com ele como poderiam unir as duas lojas sob o nome Hořejší & Havlasa. No entanto, Havlasa foi imediatamente ver Pošmourný e lhe disse que Hořejší estava lhe oferecendo mil e duzentas coroas por sua loja e queria associar-se a ele, mas que se ele, Pošmourný, lhe oferecesse mil e oitocentas, lhe daria preferência. De modo que fizeram um acordo e Havlasa passou um tempo dando voltas ao redor de Hořejší, a quem havia traído, fazendo ver que era seu melhor amigo, e quando aquele falava do momento de começarem o negócio conjunto, Havlasa lhe dizia: “Logo o faremos. Só estou esperando que voltem os veraneantes.” E quando estes chegaram, de fato estava tudo pronto, tal como havia prometido a Hořejší. Este foi abrir a loja uma manhã e viu um grande cartaz luminoso sobre a loja de seu concorrente: “Pošmourný & Havlasa.”
— Onde eu vivo também aconteceu uma coisa parecida — disse o tonto do
Baloun —, na aldeia ao lado queriam me vender uma vaca, já a haviam me prometido, e o açougueiro de Votice tirou-a de mim debaixo do meu nariz.
— De maneira que temos outra guerra — continuou Švejk. — Se agora há
outro inimigo, outro front, teremos que economizar munição. “Quanto mais filhos há em uma família, mais látegos se gastam”, costumava dizer o velho Chovanec de Motol, que dava surras nas crianças dos vizinhos por uma quantia fixa que os pais lhe pagavam previamente.
— Eu só temo — disse Baloun — que por culpa desta história com a Itália
passemos a receber rações menores.
O intendente Vaněk pensou um pouco e em seguida disse, seriamente: — Talvez sim, porque nossa vitória demorará um pouco mais. — Agora sim precisamos de um novo Radetzky — opinou Švejk —; ele
conhecia perfeitamente aquelas terras e sabia quais eram os pontos fracos dos italianos, por onde se devia atacar e por que lado fustigá-los. A verdade é que se enfiar em um lugar não é tão fácil, e ainda pior é sair, isso sim que é uma arte militar. Quando você se mete em algum lugar, tem de saber exatamente o que acontece ali para não se ver de repente metido em uma confusão, para não dizer uma catástrofe. Uma vez, em minha casa, ainda a antiga, pegaram um ladrão no sótão; percebera que havia pedreiros fazendo obras no pátio interno, de maneira que se livrou deles, empurrou a zeladora no chão, se infiltrou pelos andaimes e chegou ao fundo do pátio; mas uma vez ali não havia maneira de sair. Por sua vez, nosso velho Radetzky conhecia todos os caminhos e nunca conseguiram pegá-lo. Tudo isto está muito bem descrito em um livro sobre o general: quando fugiu de Santa Lúcia, os italianos também escaparam dali e só quando se fez dia descobriu que havia vencido, porque olhava pelo binóculo e não via italianos; por isso voltou e ocupou a abandonada Santa Lúcia. Graças a isso foi promovido a marechal.
— É preciso reconhecer que a Itália é um país muito bonito — observou o
cozinheiro Jurajda. — Uma vez estive em Veneza e vi que os italianos chamam todo mundo de porco. Quando um italiano se irrita, batiza você de porco maledetto. Para eles, até o papa é um porco, Madonna mia è porco e papa è porco.
O intendente Vaněk também manifestou sua simpatia pela Itália. Disse que
em Kralupy, em sua drogaria, fazia suco de limão com limões podres, e a Itália era o país que fornecia os limões mais baratos e mais podres. Agora o negócio de limões com a Itália iria pelos ares. Não havia dúvida de que a guerra contra aquele país traria muitas surpresas, porque a Áustria iria querer se vingar.
— É muito fácil dizer “vou me vingar” — sorriu Švejk. — Alguém quer se
vingar e no final quem acaba pagando é o sujeito que foi escolhido como instrumento de vingança. Quando eu vivia há alguns anos no bairro de Vinohrady, no térreo do meu prédio morava um porteiro que tinha um inquilino, um humilde bancário, e este sujeito ia sempre à mesma taverna da rua Kramerius. Um dia discutiu com um senhor que tinha um laboratório de análise de urina vá saber em que rua do bairro. Esse senhor não pensava e não falava de outra coisa que não fosse urina. Carregava garrafinhas de urina que plantava diante das narinas de todo mundo e exigia de todos que as enchessem de urina e as mandassem para análise, porque de uma análise daquelas dependia a felicidade de toda a família. Dizia que era baratíssimo, apenas seis coroas. Todos os frequentadores da taverna, e até mesmo os donos, haviam feito análise de urina. A única pessoa que resistia àquilo era o bancário, embora aquele homem o perseguisse quando ia mijar e lhe dissesse com ar preocupado: “Não sei, senhor Skorkovsky, não consigo gostar da sua urina; faça pipi nesta garrafinha antes que seja muito tarde!” Afinal o convenceu e o bancário pagou as seis coroas, como já haviam feito todos da taverna, inclusive o dono, a quem o senhor da urina havia estropiado o negócio: dizia a todo mundo que os seus eram casos muito graves, que só podiam beber água, que não deviam fumar, que não deviam se casar e que a única coisa que lhes convinha era comer verdura. Aquele bancário tinha uma grande aversão a ele, como acontecia com todo mundo, e como instrumento de sua vingança escolheu o zelador porque sabia que era uma verdadeira fera. Assim, um dia disse ao senhor da urina que fazia tempo que o porteiro não estava passando muito bem e que queria que no dia seguinte, por volta das sete da manhã, fosse a sua casa buscar urina para mandá-la analisar. Assim o fez, e o porteiro ainda dormia quando o senhor o despertou dizendo-lhe amistosamente: “Olá, senhor Málek, tenha um bom-dia. Aqui o senhor tem uma garrafinha, faça o favor de enchê-la com sua urina; e me deve seis coroas.” Então se armou um pandemônio: o porteiro pulou da cama de cuecas, pegou o senhor pelo pescoço e o atirou contra o armário de tal maneira que ficou incrustado ali. Depois arrancou-o dali, pegou um chicote e, sempre de cuecas, foi empurrando o homem até embaixo pela rua Čelakovská; o outro gania como um cachorro quando você pisa em seu rabo, e na avenida Havlíček subiu de um pulo em um bonde em movimento; o porteiro foi detido por um cidadão e brigaram. Como o porteiro estava de cuecas e tudo aparecia, enfiaram-no em um carro de polícia e o levaram à delegacia. Não parava de gritar do carro, feito um louco: “Filho da puta, eu vou lhe ensinar logo como se analisa a urina!” Foi condenado a seis meses de prisão por perturbação da ordem pública e ofensas à polícia. Quando leram o veredito, cometeu o delito de insultar a Casa Real, de maneira que até hoje deve estar apodrecendo no cárcere. Por isso digo que muitas vezes você quer se vingar de alguém e quem paga é uma pessoa inocente.
Baloun estava pensando. Por fim, perguntou ao intendente Vaněk, com
angústia:
— Diga-me, prezado intendente, o senhor acredita que por culpa da guerra
contra a Itália receberemos rações menores?
— Isso é mais claro do que a luz do dia — respondeu Vaněk. — Pelo amor de Deus! — Baloun exclamou, escondeu a cabeça entre as
mãos e ficou sentado em silêncio em um canto.
Assim acabou para sempre o debate sobre a Itália naquele vagão.
Como o célebre teórico militar Biegler não estava mais no vagão do alto-comando, certamente a conversa sobre a nova situação criada pela entrada da Itália na guerra teria sido ainda mais tediosa não fosse pelo subtenente Dub da 3ª Companhia, que, de alguma maneira, substituiu o cadete.
Na vida civil, o subtenente Dub fora professor de tcheco e já então
demonstrava uma forte tendência a manifestar sua lealdade ao império cada vez que surgia uma oportunidade. Obrigava seus alunos a escreverem redações sobre a história da casa dos Habsburgo. Nas classes inferiores, os alunos viviam aterrorizados pelo fantasma de Maximiliano, que havia subido em uma rocha e não conseguira descer, de Joseph II, o Lavrador, e de Ferdinand, o Benigno. Nos cursos superiores, os assuntos eram mais complicados, como, por exemplo, o da composição para os alunos do sétimo ano: “O imperador Franz Joseph I, patrono das artes e das ciências.” Em consequência desta última redação, um dos alunos foi proibido de frequentar todas as escolas de ensino médio do império austro-húngaro: havia escrito que a mais bela ação deste grande monarca fora a construção da ponte do imperador Franz Joseph I em Praga.
Dub sempre tentava fazer com que no dia do aniversário do imperador e em
outras ocasiões solenes da monarquia seus alunos cantassem com entusiasmo o hino nacional austríaco. Na sociedade não era muito popular, porque todos sabiam, sem a menor sombra de dúvida, que denunciava seus colegas. Na cidade onde dava aulas, era um dos membros de um triunvirato de grandes imbecis formado por ele, o prefeito do distrito e o diretor do colégio. Neste círculo estreito aprendeu a falar de política dizendo sempre: “Nós, o império austro-húngaro.” Também agora começava a exibir sua sabedoria com a voz e o sotaque de um pedagogo arcaico:
— Levando tudo em consideração, o comportamento da Itália não me
surpreendeu nem um pouco. Eu esperava que isso acontecesse havia três meses. É claro que, nos últimos tempos, subiu à cabeça dos italianos a vitória sobre os turcos na guerra por Trípoli. Além disso, confiam muito em sua frota e nos sentimentos da população de nosso litoral e do Tirol do sul. Ainda antes da guerra, eu já dizia ao prefeito de nosso distrito que nosso governo não devia menosprezar o movimento irredentista do sul. Ele me deu razão; qualquer pessoa perspicaz a quem interesse que nosso império se mantenha se deu conta há tempos de que se não prestarmos atenção a semelhantes elementos não saberemos aonde iremos parar. Recordo perfeitamente que há um par de anos, na época da guerra dos Bálcãs e do assunto do nosso cônsul Prochaska, em uma conversa com o prefeito do distrito eu dizia que a Itália estava esperando a primeira oportunidade para nos trair e nos atacar. E assim estamos! — gritava como se todos o contestassem, embora os oficiais presentes dissessem para seus botões que quem dera que aquele civil idiota fosse pentear macacos.
“É verdade”, continuou em um tom mais moderado, “que na maioria dos
casos, até mesmo nas composições escolares, a nossa antiga relação com a Itália foi esquecida, esquecidos aqueles solenes dias dos gloriosos exércitos, tanto os do ano de 1848 como os de 1866, dos quais se fala até hoje nas ordens do dia das brigadas. Mas eu sempre cumpri meu dever e mesmo antes do final do ano letivo, pouco antes de a guerra explodir, pedi aos meus alunos que escrevessem a seguinte composição: ‘Nossos heróis na Itália, de Vicenza a Custozza... ou o sangue e a vida pelos Habsburgo. Por uma Áustria íntegra, unida e grande!’”, terminou com voz triunfal em alemão o idiota subtenente Dub.
Fez uma pausa e ficou esperando, aparentemente, que todos os presentes
começassem a falar da nova situação, para poder demonstrar que já fazia cinco anos que ele pressagiara a conduta da Itália perante seus aliados. Mas ficou decepcionado porque o capitão Ságner, a quem o ordenança Matušič levara da estação a edição vespertina do Pester Lloyd, disse, olhando o jornal:
— Caramba, caramba, essa atriz que vimos em Most nad Litavou, a Weiner,
se apresentou ontem à noite aqui, no palco do Pequeno Teatro...
E assim terminou a discussão sobre a Itália no vagão do alto-comando...
Da mesma maneira que aqueles que estavam sentados na parte de trás do trem, Matušič, ordenança do batalhão, e Batzer, ordenança do capitão Ságner, falavam da guerra com a Itália do ponto de vista puramente prático: há alguns anos, quando ambos faziam o serviço militar, haviam participado de algumas manobras no sul do Tirol.
— Teremos dificuldade para escalar aquelas montanhas — disse Batzer. —
O capitão Ságner tem uma porção de malas. Eu nasci nas montanhas, mas enfiar uma escopeta debaixo do casaco e ir caçar lebres nas terras do príncipe Schwarzenberg é uma coisa muito diferente do que carregar malas.
— Se é que nos enviarão lá para baixo, à Itália. A mim tampouco conseguiria
convencer essa história de ficar correndo como um possesso carregando ordens pelas montanhas e geleiras. E a comida lá embaixo! Só polenta e óleo — disse Matušič com tristeza.
— E por que vão nos enviar novamente às montanhas? — disse Batzer em
voz alta, cada vez mais irritado. — Nosso regimento já esteve na Sérvia e nos Cárpatos, já arrastei as malas do capitão por todo tipo de montanhas, me perdi duas vezes, uma na Sérvia e a segunda nos Cárpatos, entre uma batalha e outra, e agora talvez isso aconteça pela terceira vez na fronteira com a Itália. E quanto ao rango lá de baixo...
Cuspiu. Sentou-se mais perto de Matušič e lhe disse em tom confidencial: — Quer saber de uma coisa? Ali, onde vivo, em Kašperské Hory, fazemos
uns pequenos knedlíky de farinha de batata crua. Primeiro são fervidos, depois banhados em ovo e farinha de pão e então fritos no toucinho.
Pronunciou a última palavra com uma voz misteriosamente solene. — E gosto mais quando são acompanhados de chucrute — acrescentou com
voz melancólica. — Em comparação a eles, todos os macarrões do mundo podem ir à merda.
Assim acabou naquele lugar a conversa sobre a Itália.
Como já fazia duas horas que o trem estava na estação, nos outros vagões se comentava que provavelmente desviariam o trem e o enviariam para a Itália.
Aconteciam coisas misteriosas que pareciam confirmar essa tese. Os
soldados foram obrigados mais uma vez a saírem dos vagões; uma inspeção sanitária entrou com o serviço de desinfecção e jogou desinfetante em todos os vagões, o que criou um clima de descontentamento, sobretudo entre os que transportavam provisões para o exército.
Mas uma ordem é uma ordem. A comissão sanitária recebera a ordem de
desinfetar todos os vagões do trem de número 728 e, portanto, aspergiu desinfetante tranquilamente nas sacas de arroz. Notava-se que uma coisa especial estava acontecendo.
Mandaram todo mundo subir nos vagões e meia hora depois mandaram que
descessem de novo porque um velho general queria visitar o trem militar. O general era um sujeito tão decrépito que ocorreu imediatamente a Švejk uma maneira de descrevê-lo. Do lugar onde estava, na segunda fila, ouviu-se sua voz dizendo a Vaněk:
— O velho camarada está com um pé na cova.
O velho general, acompanhado pelo capitão Ságner, passava os soldados em
revista. Parou diante de um soldado jovem e, querendo infundir entusiasmo às tropas, começou a lhe perguntar as coisas mais variadas: de onde era, quantos anos tinha e se dispunha de relógio. O soldado tinha um; mas, achando que o general lhe daria outro de presente, disse que não tinha nenhum. Nesse momento, o que tinha um pé na cova, com um sorriso bobo que parecia com o do imperador Franz Joseph quando se dirigia ao alcaide de alguma cidade, disse:
— Muito bem, muito bem...
Então honrou o cabo ao lado lhe perguntando se sua mulher estava bem. — Humildemente, senhor! — gritou o cabo. — Não sou casado! O general repetiu seu “muito bem, muito bem” com um sorriso bonachão. Depois, com a ingenuidade infantil típica dos anciãos, pediu ao capitão
Ságner que os soldados lhe provassem que sabiam contar de dois em dois. Um instante mais tarde já se ouvia:
— Um, dois, um, dois, um, dois...
Aquilo encantou o general que tinha um pé na cova. Em casa dispunha de
dois ordenanças e costumava colocá-los na sua frente para fazê-los contar: um, dois, um, dois...
Na Áustria havia uma porção de generais daquele tipo. Uma vez passada, felizmente, a revista, durante a qual o general culminou o
capitão Ságner de elogios, chegou a notícia de que só sairiam dentro de três horas. De maneira que os soldados ficaram vagando em volta, farejando, pois a estação estava repleta de gente e aqui e ali alguns soldados conseguiam um cigarro.
Era evidente que o entusiasmo que se manifestara na solene saudação aos
trens na estação havia minguado notavelmente e, em seu descenso, chegara à mendicidade.
O capitão Ságner recebeu uma delegação da “Associação de Recepção aos
Heróis”, que consistia de duas senhoras completamente esgotadas. Elas lhe entregaram um presente para o trem de militar, ou seja, vinte caixinhas de balas perfumadas, brindes de propaganda de uma fábrica de confeitos de Budapeste. As caixinhas de pastilhas perfumadas eram metálicas e na tampa estava pintado um soldado húngaro apertando a mão de um militar austríaco; em cima deles, resplandecia a coroa de São Estêvão. Ao redor, havia uma inscrição em alemão e em húngaro: “Pelo imperador, Deus e a pátria.”
A fábrica de doces era tão leal que dera precedência ao imperador e não ao
Onipotente.
Cada caixinha continha cerca de oitenta balas, de modo que cada três homens
deviam receber aproximadamente cinco pastilhas. Além disso, aquelas senhoras esgotadas haviam se preocupado em levar um grande pacote com duas orações escritas pelo arcebispo de Budapeste, Géza de Szatmár-Budafal. Estavam impressas em alemão e húngaro e continham as mais terríveis maldições contra os inimigos. As orações estavam redigidas com tanta paixão que no final só faltava a blasfema expressão húngara: Baszom
a Krisztusmarját!69
Segundo o respeitável arcebispo, o bom Deus deveria fazer aletria e gulache
com pimentão vermelho com todos os russos, ingleses, sérvios, franceses e japoneses. O bondoso Deus devia banhar-se no sangue dos inimigos e matar todos como o cruel Herodes fizera com os Santos Inocentes.
Em suas orações, o honorável arcebispo de Budapeste usava frases
agradáveis, do tipo: “Que Deus abençoe suas baionetas para que atravessem as profundezas dos ventres inimigos. Que Deus Todo-Poderoso dirija o fogo dos canhões às cabeças dos altos-comandos inimigos. Que Deus misericordioso faça com que todos os inimigos se afoguem no sangue de suas próprias feridas, feridas que vocês abrirão.”
Por isso é preciso repetir que a única coisa que faltava àquelas belas orações
era: Baszom a Krisztusmarját!
Depois de terem distribuído tudo, as senhoras manifestaram ao capitão
Ságner seu desejo de presenciar a entrega dos presentes. Uma delas ousou sugerir que, naquela ocasião, gostaria de dirigir um pequeno discurso aos soldados, que só chamava de “nossos valentes uniformes cinza”.
As duas ficaram bastante ofendidas quando o capitão Ságner recusou seu
pedido. Nesse meio-tempo, suas oferendas foram enviadas ao vagão de provisões. As respeitáveis senhoras passaram no meio das fileiras de soldados e uma delas não conseguiu reprimir o desejo de passar a mão nas costas de um militar barbudo. Era um tal de Šimek, de České Budějovice, que não sabia nada da nobre missão das senhoras e, quando elas foram embora, disse a seus amigos:
— Como essas putas são atrevidas! Se pelo menos fossem boas de se ver,
mas parecem umas cegonhas, não se vê nada além de pernas mirradas, têm pinta de harpias! E olhem, estas velhas vagabundas ainda querem começar alguma coisa com os soldados!
A estação estava muito animada. Os acontecimentos na Itália haviam
provocado certo pânico, porque dois comboios de artilharia haviam sido detidos e enviados à Estíria. Também havia um trem cheio de bósnios que, por motivos desconhecidos, há dois dias esperava em um esquecimento e abandono totais. Durante aqueles dias, os bósnios não haviam recebido nada para comer e se viam obrigados a esmolar pão por toda Nova Pest. Em toda a estação não se ouvia nada além da conversa excitada dos bósnios perdidos que gesticulavam animadamente e não paravam de exclamar: “A puta mãe que os pariu!” Depois voltaram a reunir o 91º Batalhão e todos ocuparam seus lugares nos vagões. Assim mesmo, depois de um tempo o ordenança Matušič regressou da comandância da estação com a notícia de que só sairiam dentro de umas três horas. De modo que voltaram a soltar os soldados na estação. Pouco antes da partida do trem, o subtenente Dub entrou no vagão do alto-comando com um ar muito sossegado e pediu ao comandante Ságner que mandasse prender imediatamente Švejk. O subtenente Dub, um dedo-duro famoso no colégio onde havia trabalhado como professor de ginásio, costumava entabular conversa com os soldados para descobrir suas opiniões e ao mesmo tempo lhes dar lições e explicar por que motivo lutavam.
Em sua ronda, havia visto Švejk ao lado de um holofote, atrás do edifício da
estação, contemplando com interesse o cartaz de uma loteria beneficente destinada ao exército. O cartaz representava um soldado austríaco que atravessava com a baioneta um surpreso cossaco barbudo encostado em uma parede.
O subtenente Dub palmeou as costas de Švejk e lhe perguntou se gostava do
cartaz.
— Humildemente, senhor — respondeu Švejk —, acho que se trata de uma
besteira. Já vi muitos cartazes estúpidos, mas nunca tamanha sandice.
— De que você não gosta exatamente? — perguntou o tenente Dub. — Senhor, eu não gosto da maneira como este soldado trata as armas que
lhe confiaram. A baioneta pode se quebrar contra a parede e, além do mais, não é necessário matar o russo, porque ele está com as mãos levantadas, está se rendendo. É um prisioneiro, e os prisioneiros devem ser tratados corretamente porque são pessoas, o que vamos fazer!
O subtenente Dub continuou investigando as opiniões de Švejk. Perguntou: — Então você está com pena do russo, não é mesmo? — Estou com pena dos dois, senhor; do russo, porque foi traspassado, e do
soldado, porque será levado à prisão. Certamente quebrou a baioneta, porque a parede parece ser de pedra e o aço é mais frágil. Antes da guerra, quando estava fazendo o serviço militar, tínhamos em nossa companhia um subtenente. Nem um velho soldado saberia expressar-se com tantos insultos como ele. No campo de exercícios nos dizia: “Quando digo ‘Sentido!’ vocês têm que cravar os olhos como um gato quando está cagando a comida.” Mas, a não ser por isso, o velho ordinário era uma doçura de pessoa. Uma vez, no Natal, ficou louco e comprou um carro cheio de cocos para a companhia, e desde aquele dia sei que as baionetas são muito frágeis. A metade da companhia destruiu as baionetas tentando quebrar os cocos e o subtenente mandou todo mundo para a prisão; ficamos três meses sem poder botar o nariz para fora do quartel. O subtenente também ficou em prisão domiciliar...
O subtenente Dub olhou, com enfado, o rosto tranquilo do bom soldado
Š vejk e perguntou, com raiva:
— Você me conhece?
— Sim, senhor subtenente, conheço.
Os olhos do subtenente saltaram das órbitas. Gritou: — Eu lhe digo que ainda não me conhece!
Švejk lhe respondeu com sua costumeira calma impertérrita, como se
recitasse um informe:
— Conheço-o, sim, senhor. Humildemente, o senhor faz parte do nosso
batalhão.
— Ainda não me conhece! — voltou a gritar o subtenente Dub. — Talvez só
conheça meu lado bom, mas verá quando conhecer meu lado mau! Sou cruel, não se iluda, faço todo mundo chorar. Então, me conhece ou não me conhece?
— Conheço, senhor.
— Vou lhe dizer pela última vez que não me conhece, seu burro! Você tem
irmãos?
— Humildemente, senhor, tenho um.
Ao ver que o rosto ingênuo de Švejk continuava tranquilo, o subtenente
subiu pelas paredes.
— Seu irmão deve ser um bestalhão como você, não tenho a menor dúvida.
O que fazia antes da guerra?
— Era professor, senhor. Também esteve no exército e foi aprovado no
exame de aspirante a oficial.
O subtenente Dub olhava para Švejk como se quisesse traspassá-lo. Švejk
sustentou seu olhar com calma e dignidade e a conversa entre ambos terminou com a palavra “retire-se!”.
E cada um seguiu seu caminho pensando em suas coisas. O subtenente Dub disse a si mesmo que pediria ao capitão que mandasse
prender Švejk; este, por sua vez, pensava que já havia visto muitos oficiais estúpidos mas, mesmo assim, o subtenente Dub era um caso especial no regimento.
O subtenente Dub, que justo naquele dia havia se proposto a educar os
soldados, encontrou novas vítimas atrás da estação: dois soldados do regimento que pertenciam a outra companhia. Arranhando o alemão, estavam negociando com duas das prostitutas que circulavam às dúzias pelos arredores da estação.
De longe, Švejk distinguiu claramente a voz áspera do subtenente. — Vocês me conhecem...? Pois eu lhes digo que não me conhecem...! Mas
quando me conhecerem...! Talvez só meu lado bom...! Já verão quando conhecerem meu lado mau...! Eu os farei chorar, burros...! Vocês têm irmãos...? Devem ser imbecis como vocês...? O que faziam antes da guerra...? Na intendência? Bem, bem... Lembrem que são soldados... Vocês são tchecos...? Então sabem que Palacký disse que se a Áustria não tivesse existido teríamos que criá-la... Retirem-se...!
No entanto, a ronda do subtenente Dub não teve resultados positivos. Parou
mais três grupos de soldados, mas suas veleidades pedagógicas de “fazer chorar” fracassaram por completo. O material humano que enviavam ao front era de tal qualidade que o subtenente Dub podia ler nos olhos de cada indivíduo todas as coisas desagradáveis que deviam pensar a seu respeito. Estava ferido em seu amor-próprio e o resultado disso foi que, antes de o trem partir, pediu ao capitão Ságner que prendesse Š vejk. Para justificar a necessidade de isolar o bom soldado Švejk, evocou seu comportamento desavergonhado e sem mesura e qualificou de “observações sarcásticas” as francas respostas do soldado. Segundo ele, se as coisas continuassem daquela maneira, o corpo de oficiais perderia toda sua dignidade aos olhos da tropa, e nenhum dos presentes podia duvidar disso. Antes da guerra, ele mesmo dissera ao prefeito do distrito que os superiores deviam manter certa autoridade perante seus subalternos. O prefeito do distrito concordara. Especialmente durante a guerra, quanto mais se aproximavam do inimigo, mais necessário era manter os soldados aterrorizados. Por isso reclamava sanções disciplinares contra Švejk.
Na qualidade de oficial da ativa, o capitão Ságner odiava todos aqueles
oficiais de reserva que na vida civil haviam desempenhado ofícios diversos. Fez notar ao subtenente Dub, pois, que aquele tipo de denúncias podia ser apresentado unicamente em forma de informe e não de qualquer maneira, como quando um lojista regateia o preço das batatas. No que dizia respeito a Švejk, a primeira instância a que estava submetido era o tenente Lukáš, e um assunto como aquele tramitava unicamente mediante um informe. O trabalho de trasladar o assunto ao batalhão era responsabilidade da companhia, e disso o subtenente estava sem dúvida inteirado. Se Švejk cometera alguma falta, o levaria ao conselho de guerra da companhia e, caso apelasse, ao do batalhão. Mesmo assim, se o tenente Lukáš considerasse a história do subtenente Dub como uma acusação oficial e achasse oportuno convocar e interrogar Švejk, ele, o capitão Ságner, não se oporia.
O tenente Lukáš não fez nenhuma objeção, só observou que ele mesmo sabia
que o irmão de Švejk era, efetivamente, professor e oficial da reserva.
O subtenente Dub hesitou ao afirmar que só havia reclamado um castigo
disciplinar e admitiu que talvez Švejk não soubesse se expressar muito bem e por isso suas respostas davam a impressão de impertinência, de malícia ou de falta de respeito aos superiores. Ademais, julgando sua aparência geral, era evidente que Švejk era uma pessoa curta das ideias.
E assim a tormenta passou sem que nenhum trovão tivesse caído na cabeça
de Švejk.
No vagão reservado ao escritório e ao armazém do batalhão, o intendente
Bautanzel ofereceu a cada um dos secretários uma pilha de balas perfumadas das caixinhas destinadas a todo o batalhão. Era um fenômeno habitual: tudo o que era destinado à tropa era manipulado no escritório da mesma maneira que aquelas desventuradas balas.
Durante a guerra, esse procedimento era muito comum. Quando havia uma
inspeção e ficava demonstrado que nada fora roubado, todos os intendentes passavam a ser suspeitos de estourar o orçamento e de cometer todo tipo de fraude para deixar as coisas em ordem. Por isso, enquanto todos se enchiam de balas para poder aproveitar pelo menos aquela porcaria, já que não havia nenhuma outra coisa para roubar da tropa, Bautanzel discursava sobre as penosas condições em que se desenvolvia aquela viagem:
— Eu estive no front com dois batalhões de infantaria, mas nunca fiz uma
viagem tão difícil como esta. Meu Deus, quando penso naquelas montanhas de provisões que tínhamos quando chegamos em Prešov! Escondi dez mil cigarros Memfis, duas bolas de queijo emental, trezentas latas de conserva e depois, quando fomos às trincheiras de Bardĕjov e os russos cortaram a comunicação entre Mušina e Prešov, fiz negócios fabulosos. Entreguei uma décima parte para o batalhão como se tivesse economizado e o resto vendi à intendência. Tínhamos conosco um tal de major Sojka, um gozador como há poucos. Era herói e preferia ficar na intendência conosco porque lá em cima se ouviam balas silvando e projéteis explodindo. Sempre vinha nos ver com o pretexto de que precisava checar se estavam cozinhando direito para os homens do batalhão. Habitualmente descia para nos ver quando chegavam notícias de que os russos estavam preparando alguma coisa: naquelas situações todo seu corpo tremia, tinha que tomar alguns goles de rum na cozinha e só depois inspecionava todas as cozinhas de campanha instaladas ao redor do trem, já que não era possível subir às trincheiras e tinha que se levar a comida à noite. Na situação em que então estávamos, de cozinha de oficiais nem falar. Os alemães do Reich haviam ocupado o único caminho que nos conectava com a retaguarda, ficavam com a melhor comida e a devoraram, de maneira que para a gente não sobrava nada. Durante todo aquele tempo não havia conseguido guardar para a gente, os do escritório, nada além de um pequeno porco que mandamos defumar e, para que o comandante Sojka não ficasse sabendo, o escondemos a uma hora de distância, na artilharia, onde eu tinha um amigo que era técnico em explosivos. O caso é que aquele major, quando vinha nos ver, sempre ficava provando a sopa da cozinha. É que não podíamos cozinhar muita carne, só se conseguíssemos um porco ou uma vaca magra em alguma das aldeias vizinhas. Além do mais, os prussianos concorriam com a gente e pagavam o dobro pelo gado. Durante todo o tempo que ficamos perto de Bardĕjov, só economizei pouco mais de mil e duzentas coroas comprando gado; na maioria das vezes, em lugar de dinheiro nos davam vales com o selo do batalhão, sobretudo no final, quando se sabia que os russos estavam a leste de Radvan e a oeste de Podolin. O pior de tudo é fazer negócios com um povo que não sabe nem ler nem escrever e, em vez de assinar, desenha três cruzes. Nossa intendência conhecia perfeitamente esse fato, de maneira que, quando lhe pedia dinheiro, depois não podia apresentar recibos forjados para provar que haviam recebido. Isso só se pode fazer com um povo mais instruído, que saiba assinar. Além disso, como já disse, os prussianos pagavam mais do que a gente e à vista, e por isso, em todos os lugares aonde íamos, nos olhavam como se fôssemos ladrões e, como se isso não bastasse, a intendência deu uma ordem para que os recibos com cruzinhas passassem pelo controle dos contadores de campanha. E pessoas como estas havia aos montões. Um dia veio um, comeu e bebeu tudo o que tinha vontade e no dia seguinte foi nos denunciar. O lince do major Sojka, que enfiava o nariz em todas as cozinhas, uma vez, acredite em mim, tirou do cozido toda a carne destinada à 4ª Companhia. Começou pegando uma cabeça de porco e disse que não estava suficientemente cozida, de modo que voltou a colocá-la na panela para que cozinhasse um pouco mais. A verdade é que naquele dia havia pouca carne: haviam recebido, para toda a companhia, umas doze rações das de antes, mas ele comeu tudo; depois provou a sopa e armou um alvoroço, gritando que parecia água; indignava-o que pudesse existir sopa de carne sem carne, ordenou que acrescentassem farinha tostada com manteiga e puxou os últimos macarrões que eu havia guardado. Mas isso não me deu tanta pena como o fato de ter usado a farinha tostada com dois quilos de manteiga que eu havia guardado quando a cozinha dos oficiais ainda estava funcionando. Estava em uma prateleira em cima do catre. Ele me perguntou aos gritos que porra era aquela. Eu lhe respondi que, segundo o orçamento para a alimentação dos soldados, cabiam quinze gramas de gordura para cada soldado, e, como as provisões de manteiga não eram suficientes, ficavam ali até que fosse possível dar a cada soldado o que lhe correspondia. O major Sojka se irritou de verdade e gritou que eu certamente esperava que os russos chegassem e levassem nossos últimos quilos de manteiga, que não devíamos esperar nada, que a manteiga devia ser colocada na sopa se a sopa fora feita sem carne. Desta maneira perdi todas as provisões e, acredite em mim, sempre que o major vinha, me dava azar. Havia desenvolvido tanto o olfato que imediatamente farejava todas as minhas provisões. Uma vez, eu ficara com um pouco de fígado de vitela que não havia dado à tropa e, quando estava prestes a começar a refogá-lo, o intrometido meteu a mão debaixo do catre e o encontrou. Respondi aos seus gritos que o fígado era destinado a ser enterrado, que pela manhã um ferreiro da artilharia, que fizera um curso para veterinários, constatara que estava em mau estado. O major pegou um rapaz do trem e os dois foram às rochas preparar o fígado em uma panela. Essa foi sua perdição, porque os russos viram a fogueira e lançaram sobre ele e a panela um dezoito milímetros. Então fomos ver o que tinha acontecido e uma vez ali não conseguimos distinguir o que era fígado de vitela e o que era major; estava tudo espalhado pelas rochas.
***
Depois chegou a notícia de que só partiriam em quatro horas porque a rota até Hatvan estava bloqueada pelos trens que transportavam feridos. Além disso, corria pela estação o boato de que em Eger um trem com enfermos havia se chocado com um comboio da artilharia. Diziam que haviam saído de Budapeste três trens de socorro.
A imaginação de todo o batalhão começou a funcionar imediatamente.
Falava-se de duzentos mortos e feridos e se dizia que a colisão fora premeditada, com objetivo de ocultar os desvios da comida destinada aos enfermos.
Isso motivou uma dura crítica à precária alimentação dos soldados e aos
roubos nos escritórios e armazéns.
A maioria dos soldados dizia que Bautanzel, o intendente do batalhão,
dividia tudo meio a meio com os oficiais.
No vagão do alto-comando, o capitão Ságner informou que, de acordo com
o programa, já deveriam ter chegado à fronteira da Galícia, que em Eger deveriam receber pão e conservas para três dias, que até lá faltavam ainda dez horas de viagem, mas que havia tantos trens cheios de feridos na ofensiva de Lvov que, segundo o telegrama, não restava nem uma barra de pão e nem uma lata de conserva. Recebera a ordem de dar a cada homem, em nove dias, no lugar do pão e das conservas, seis coroas e setenta e dois cêntimos a título de soldo, se até lá recebesse dinheiro da brigada. Em caixa só restavam pouco mais de doze mil coroas.
— É uma sacanagem do regimento — dizia o tenente Lukáš — enviar-nos
ao mundo em condições tão miseráveis!
O alferes Wolf e o tenente Kolář se disseram alguma coisa no ouvido.
Segundo Wolf, ao longo das últimas três semanas o coronel Schröder enviara dezesseis mil coroas à conta que mantinha no Banco de Viena.
Então o tenente Kolář explicou como se economizava. Você rouba seis mil
coroas do regimento, enfia-as no próprio bolso e, com uma lógica rigorosa, ordena a todas as cozinhas que reduzam a ração de ervilha em três gramas por cada homem. Em um mês, isso significava noventa gramas por pessoa, e em cada uma das cozinhas da companhia teriam sido economizados, pelo menos, dezesseis quilos de ervilha. O cozinheiro tinha que se virar com o que restava.
O tenente Kolář e Wolf relatavam apenas alguns casos concretos que haviam
observado.
Mas exemplos semelhantes abundavam na administração militar. A coisa
começava com o sargento-mor intendente de alguma companhia infeliz e terminava com o rato com dragonas de general que armazenava provisões para o inverno do pós-guerra.
A guerra exigia coragem até quando se tratava de roubar. Os intendentes trocavam olhares afetuosos como se quisessem dizer: “Temos
a mesma alma e o mesmo corpo. Roubamos, companheiro, fraudamos, irmãozinho, mas o que podemos fazer? Não se pode nadar contra a corrente. Se você não roubar, outro o fará, e ainda dirão que você não está roubando porque já acumulou o suficiente.”
Um senhor com galões vermelhos e dourados entrou no vagão. Era mais
um daqueles generais que percorriam todas as rotas ferroviárias fazendo inspeções.
— Sentem-se, senhores — disse, saudando amavelmente, feliz por ter
surpreendido mais uma vez um comboio que não esperava encontrar naquele lugar.
Quando o capitão Ságner quis lhe apresentar o informe, o general fez um
gesto de menosprezo.
— Seu comboio não está em ordem. Seu comboio não dorme. Está na hora
de seu comboio dormir. Quando estão na estação, os comboios devem ir dormir às nove, como nos quartéis.
O general falava laconicamente, em alemão.
— Antes das nove, os soldados têm que ir às latrinas atrás da estação e
depois dormir. Caso contrário, sujarão os trilhos. Entendido, capitão? Repita. Ou não, não repita e faça o que lhe digo: tocar o alarme, enviar os soldados às latrinas, tocar o clarim e dormir. E checar se todo mundo está dormindo. E a quem não estiver, castigo! Me explico? O jantar deve ser distribuído às seis.
Falava de algo que ficara no passado, que não existia há muito tempo, que se
evaporara atrás de alguma esquina. Estava ali em pé como se fosse um fantasma do reino da quarta dimensão.
— Repartir o jantar às seis — continuava olhando o relógio, que marcava
onze e dez da noite. — Às oito e meia, alarme, às latrinas cagar, depois dormir. Para o jantar, às seis, gulache com batatas em lugar de cento e cinquenta gramas de queijo emental.
Depois foi dada a ordem de prontidão. O capitão Ságner acionou de novo o
alarme. O general inspetor, olhando o batalhão desanimado, caminhava com os oficiais e não parava de falar, como se estivesse se dirigindo a um grupo de imbecis que não entendiam o que estava dizendo. Então apontou os ponteiros do relógio.
— Muito bem. Agora, ouçam! Cagar às oito e meia, e meia hora depois,
dormir. Isso é mais do que suficiente. Em épocas de transição as fezes ficam mais líquidas. Mas dou especial importância ao sono: fortalece os soldados para as marchas; enquanto estiverem no trem, devem descansar. Se não houver espaço suficiente nos vagões, devem dormir por turnos. Um terço se deita confortavelmente e dorme das nove à meia-noite; os outros ficam em pé, observando-os. Depois, os que dormiram dão lugar ao segundo terço, que dorme da meia-noite às três. O último terço dorme das três às seis. Então toca a alvorada e todos vão se lavar. Durante a viagem, é proibido pu-lar-do-trem! Providenciar patrulhas para que os soldados não-pulem-do-trem! Quando o inimigo quebra a perna de um soldado — disse golpeando a própria perna —, é uma coisa louvável; no entanto, machucar-se pulando do vagão em movimento merece castigo. Então é este o seu batalhão? — perguntou ao capitão Ságner, observando as figuras sonolentas dos soldados, muitos dos quais não conseguiam se aguentar e bocejavam no ar fresco da noite. — Senhor capitão, isto é um batalhão de bocejadores. A tropa deve dormir às nove.
O general plantou-se diante da 11ª Companhia; no flanco esquerdo, Švejk
bocejava com a boca aberta de par em par, cobrindo-a educadamente com a mão; no entanto, por baixo da mão se ouviu tal mugido que o tenente Lukáš tremeu de medo ao pensar que aquele som chamaria a atenção do general. Disse a si mesmo que Švejk bocejava de propósito.
E, como se conhecesse aquilo, o general se voltou para Švejk e disse, em
alemão.
— Tcheco ou alemão?
— Tcheco, humildemente, senhor.
— Bem — disse o general, que era polonês e sabia um pouco de tcheco —,
você mugiu como uma vaca. Pare de barulho e cale! Tu ir o latrino?
— Humildemente, não fui, senhor.
— Por que não cagar com outros soldados?
— Humildemente, senhor, não fui com os soldados porque nas manobras
perto de Písek o coronel Wachtl nos dizia que os soldados não devem passar o dia pensando em privada, e que um soldado só deve pensar em lutar. Além disso, senhor, o que faríamos na latrina? Não há nada para deixar lá. Segundo o roteiro, já deveriam ter nos entregado o jantar algumas estações atrás, e não recebemos nada. Com o estômago vazio é inútil ir à latrina: de onde não há, nada se tira.
Depois de ter explicado a situação com sete palavras simples, Švejk ficou
olhando para o general com tanta confiança que este sentiu vontade de ajudar toda aquela gente. Posto que havia uma ordem de ir às latrinas, era preciso também adicionar a esta ordem uma substância interna.
— Envie todos de novo aos vagões — disse o general ao capitão Ságner. —
Como é possível que não tenham recebido nada para jantar? Todos os comboios que passam por aqui têm que jantar. Esta é uma estação de abastecimento. É indispensável. Isto faz parte de um plano.
O general dizia aquilo com férrea determinação; isso significava que, como já
eram onze da noite e o jantar devia ter sido servido às seis, não havia outro remédio senão deixar o trem estacionado durante toda a noite e todo o dia, até às seis da tarde, para que os homens recebessem gulache com batatas.
— Não há nada pior do que esquecer a comida dos soldados que estão indo
para a guerra — disse, com expressão grave. — Minha obrigação é ver o que acontece no escritório do comando da estação, porque às vezes a culpa é dos próprios comandantes dos comboios, senhores. Ao inspecionar a estação de Subotiště, na linha férrea do sul da Bósnia, descobri que seis comboios não haviam recebido o jantar porque os comandantes se esqueceram de pedi-lo. Naquela estação, cozinharam seis vezes gulache com batatas sem que ninguém tivesse pedido. Jogaram tudo fora. A quantidade era tal que parecia um cemitério de gulache e batatas, senhores. E três estações depois, os soldados que, sem saber, haviam passado ao longo das montanhas de gulache em Subotiště, estavam pedindo um pedaço de pão na gare. Aqui, como estão vendo, não foi culpa da administração militar.