As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 26 de 30 · parte 1/2

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

3 - De Hatvan à fronteira da Galícia

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

3

De Hatvan à fronteira da Galícia

Durante toda a viagem do batalhão que teria de ir a pé de Laborec ao front, atravessando a Galícia oriental, para se cobrir de lauréis bélicos, no vagão em que viajavam Švejk e o voluntário de um ano foram entabuladas estranhas conversas de conteúdo subversivo. Em menor medida, mas sem exceção, o mesmo acontecia nos outros vagões; até no vagão do alto-comando reinava um certo desgosto porque a Füzesabony chegou uma ordem do dia segundo a qual a ração diária de vinho dos oficiais seria reduzida a um oitavo de litro. Naturalmente, não haviam se esquecido da tropa: reduziam dez gramas por pessoa da ração de sagu, medida enigmática, porque no exército ninguém nunca havia visto sagu.

No entanto, era preciso dar a notícia ao intendente Bautanzel. Este se sentiu

terrivelmente ofendido, como se tivessem lhe roubado alguma coisa, e declarou que, nos tempos que corriam, por um quilo de sagu poderia receber no mínimo oito coroas.

Em Füzesabony se descobriu que uma companhia havia perdido a cozinha

de campanha; finalmente haviam resolvido preparar gulache com batatas, ao qual o “general das latrinas” dera tanta importância. A investigação revelou que a desgraçada cozinha de campanha nunca deixara Most nad Litavou e ainda esperava, abandonada e fria, atrás da barraca 186.

Um dia antes da partida, o pessoal que trabalhava naquela cozinha havia sido

aprisionado no quartel-general por ter armado uma confusão na cidade, e conseguiu se virar e continuar preso quando a companhia já estava a salvo, atravessando a Hungria.

A companhia sem cozinha foi, portanto, destinada a outra cozinha de

campanha, coisa que, é necessário dizer, não aconteceu sem suscitar brigas. Os soldados designados para descascar batatas começaram a discutir; todos, sem exceção, afirmavam que não eram suficientemente tolos para trabalhar para os outros. Finalmente, se viu que a preparação do gulache com batatas não passava de uma manobra. Tratava-se de habituar os soldados a cozinhá-lo diante do inimigo e, ao receber a ordem de retirada, jogá-lo fora sem nem prová-lo.

De maneira que foi uma espécie de treinamento, não exatamente trágico, mas

sim instrutivo. O que aconteceu foi o seguinte: quando tudo estava pronto para servir o gulache, chegou a ordem: “Aos vagões!”, e o trem partiu para Miskolc. Ali tampouco foi distribuído, porque a via estava obstruída por um trem com vagões russos; por causa disso os soldados tiveram que ficar no comboio. A imaginação de todos começou a funcionar: imediatamente correram boatos segundo os quais o gulache só seria distribuído quando descessem do trem na Galícia, mas aí o declarariam estragado, incomível, e o jogariam fora.

Depois transportaram o gulache a Tiszalök, na província de Zombor, e,

quando ninguém esperava mais que o repartissem, o trem parou em Nové Město, cidade também conhecida como Sátoraljaúhely, e ali voltaram a acender o fogo sob as panelas, os cozinheiros esquentaram a comida e, finalmente, a distribuíram.

A estação estava cheia de gente. Antes de mais nada deviam sair dois trens

com munição e em seguida dois comboios da artilharia e um trem com plataformas flutuantes. É possível dizer que ali estavam reunidas unidades do exército de todo tipo.

Atrás da estação, alguns hussardos húngaros infernizavam a vida de dois

judeus poloneses; haviam lhes roubado um cesto cheio de garrafas de aguardente e depois, de bom humor, em vez de lhes pagar esmurravam suas mandíbulas. Certamente isso era permitido, pois seu capitão permanecia plantado ao lado, acompanhando a cena com um sorriso divertido. Enquanto isso, atrás dos armazéns, outros hussardos húngaros enfiavam as mãos embaixo das saias das filhas de olhos escuros dos judeus surrados.

Além disso, havia um comboio com um destacamento da aviação e, em outra

via, vagões carregados com aviões e canhões, todos estropiados. Enquanto os novos objetos eram enviados ao front, aqueles restos de glória eram transportados à retaguarda, onde seriam consertados e reconstruídos.

O subtenente Dub dizia aos soldados que haviam ido espiar que tudo aquilo

era um butim de guerra. De repente se deu conta de que, um pouco mais longe, Švejk contava alguma coisa a um grupo de soldados. Aproximou-se e ouviu a voz calma de Š vejk.

— Seja como for, trata-se de um butim de guerra. À primeira vista pode

parecer estranho, porque todos os objetos têm uma marca na qual se pode ler, como neste canhão aqui: “Divisão Imperial e Real de Artilharia.” Mas o que deve ter acontecido é que nosso canhão caiu em mãos dos russos e nós tivemos que recuperá-lo. Isto é semelhante ao que aconteceu em Přzemyšl ou àquela história do soldado cujo inimigo arrancou de suas mãos o cantil em pleno combate. Isso aconteceu durante as guerras napoleônicas. Depois, à noite, o soldado foi ao acampamento inimigo buscar seu cantil e saiu ganhando, porque, antes de se deitar, o inimigo o enchera de aguardente.

O subtenente Dub limitou-se a dizer:

— Švejk, fora! Que não volte a vê-lo por aqui! — Humildemente, senhor.

Švejk foi procurar outro grupo de vagões. Se o subtenente Dub tivesse

ouvido o que acrescentara em voz baixa, certamente teria mudado de rumo, ou, dizendo melhor, o arrancado de seu uniforme, embora se tratasse de uma inocente frase bíblica: “Dentro de pouco me vereis, um pouco mais e já não me vereis.”

Quando Švejk foi embora, o subtenente Dub cometeu o disparate de mostrar

aos soldados um avião austríaco derrubado com a inscrição Wiener Neustadt no seu anel de metal.

— Este avião, nós derrubamos dos russos em Lvov — disse o subtenente

Dub.

O tenente Lukáš, que passava por ali, se aproximou e disse em voz alta: — E dois pilotos morreram calcinados.

Depois se afastou, pensando que o subtenente Dub era um grande idiota. Lukáš encontrou Švejk atrás de outro vagão e tentou evitá-lo porque, no

momento em que o bom soldado o viu, pôde ler em seu rosto que queria lhe fazer alguma confidência.

Švejk dirigiu-se diretamente a ele, misturando tcheco com alemão: — Humildemente, o ordenança da companhia Švejk espera novas ordens.

Estive procurando o senhor em seu vagão.

— Ouça, Švejk — disse o tenente Lukáš em um tom gelado e absolutamente

hostil —, você sabe como se chama? Não se lembra mais de como eu o chamava?

— Humildemente, senhor, não esqueci uma coisa dessas. Eu não sou como

o voluntário Železný. Isso aconteceu muito antes da guerra, quando estávamos no quartel de Karlín e havia um coronel que se chamava Fliedler von Bumernag ou algo assim...

Esse “algo assim” levou o tenente Lukáš a sorrir sem querer. Švejk

continuou:

— Humildemente, senhor. Aquele coronel tinha a metade da sua estatura e

usava uma barba tão comprida como a do príncipe Lobkovic. Parecia um macaco. E quando se irritava dava um pulo tão alto como ele mesmo; por isso o chamávamos de velho saltimbanco. Aproximava-se o Primeiro de Maio, estávamos de guarda. Na noite anterior, no pátio, o velho saltimbanco soltara uma filípica: que no dia seguinte todos teríamos que ficar no quartel sem colocar o nariz para fora, para o caso de recebermos a ordem de disparar contra aquele grupo de socialistas, e por isso o soldado que tivesse licença naquele dia e não voltasse ao quartel no dia seguinte cometeria um ato de alta traição: bêbado, seria incapaz de acertar no alvo e não mataria ninguém; dispararia no ar. Depois, quando voltou ao quarto, Železný disse que o velho saltimbanco lhe dera uma boa ideia: como, de fato, no dia seguinte não deixariam ninguém entrar, era melhor não voltar. E assim o fez, meu tenente. Mas o coronel Fliedler, que Deus o tenha em sua glória, era um infeliz tão grande que no dia seguinte foi a Praga procurar aqueles que haviam se atrevido a sair do quartel, e teve a sorte de topar com Železný perto da Torre da Pólvora; começou imediatamente a colocar os pingos nos is em seu horrível tcheco: “Shélesny, Shélesny, você vai ver como vou esmagar suas orelhas!” Também disse outras coisas. Depois levou-o ao quartel e durante todo o caminho não parou de ameaçá-lo e a lhe dizer coisas desagradáveis. “Shélesny, Shélesny, vou depená-lo como se fosse um pato, vou enfiá-lo no xadrez, você se cansará de ficar trancado!” Para Železný dava na mesma. Quando passaram pela rua Na Pořící, à altura da taverna U Rozvařil, Železný se meteu de um pulo em uma passagem e desta maneira privou o velho saltimbanco do prazer de mandá-lo prender. O coronel subia pelas paredes e no meio de sua ira esqueceu o nome de Železný e o confundiu com outros metais. Quando chegou ao quartel, o soldado que estava de guarda ficou incomodadíssimo ao ver o velho saltimbanco pulando até o teto e gritando em um tcheco arranhado: “Cobreado, ao xadrez; não, Cobreado não; Plúmbeo, ao xadrez. Não. Plúmbeo tampouco: Prateado, ao xadrez!” E assim se preocupou o dia inteiro sem parar de perguntar se já haviam encontrado o Cobreado, o Plúmbeo, o Prateado e então fez subir todo o regimento, mas Železný, a respeito de quem todos sabiam tudo, tinha sido levado à enfermaria, pois era dentista. Mas um dia um sujeito do nosso regimento conseguiu apunhalar um dragão que perseguia sua prometida; fez aquilo na taverna Buck. Naquela ocasião obrigaram todos, sem exceção, a se formar e também os da enfermaria, é claro, e se alguém estivesse muito enfermo dois o sustentavam no meio; assim que não havia nada a fazer. Železný também teve que sair. No pátio o coronel leu a ordem do regimento que dizia aproximadamente que os dragões também eram soldados, além de nossos “companheiros de armas”, e que portanto era proibido apunhalá-los. Um voluntário o traduzia. Nosso coronel nos observava como se fosse um tigre. Primeiro passou diante da primeira fila, depois se dirigiu para trás, rodeando a formação, e de repente descobriu Železný, que era tão alto que parecia tocar o céu; assim, quando ele, que era um tampinha, o arrastou ao centro do quadro, nos mijamos de tanto rir. O voluntário parou de traduzir e nosso coronel começou a pular diante de Železný como quando um cachorro ataca um cavalo, esgoelando-se: “Você não me escapou, Férreo, Shélesny; agora já sei que tu ser Férreo, antes dizia Cobreado, Plúmbeo e Prateado, mas a infeliz é Férreo, eu o varei em bedaços, zafado de Férreo!” E mandou que passasse quatro semanas na prisão; mas ao cabo de quinze dias teve dor de dente e lembrou que Železný era dentista. Mandou que o transferisse da prisão à infantaria e lhe pediu que arrancasse seu dente. Železný se dedicou a isso e demorou mais de meia hora; tiveram que molhar o velho três vezes com água fria porque desmaiou três vezes, e pelo visto isso o fez dar o braço a torcer e perdoou Železný pelas duas semanas que lhe restavam. O senhor está vendo, meu tenente, que coisas assim acontecem quando um superior esquece o nome de seu subalterno. No entanto, um subalterno não deve esquecer nunca o nome de seu superior; precisamente o coronel nos dizia que não esqueceríamos seu nome até que morrêssemos, e parece que assim será. Me alonguei muito, senhor tenente?

— Quer saber de uma coisa, Švejk? — respondeu o tenente Lukáš. —

Quanto mais o ouço, mais me convenço de que você não tem o menor respeito pelos seus superiores. Um soldado tem que falar sempre bem de seus superiores, inclusive quando já tiverem passado vários anos.

No entanto, dava para perceber que o tenente Lukáš estava se divertindo. — Humildemente, senhor — interrompeu-o Švejk com ar de quem quer se

desculpar —, o coronel Fliedler já morreu há alguns anos. Bem, então: o coronel era um verdadeiro anjo com os soldados. Era tão bom como São Martinho, que distribuía gansos aos pobres e esfomeados no dia de São Martinho. O coronel compartilhava seu almoço com o primeiro soldado que encontrasse no jardim e quando estávamos cansados de comer knedlík mandava que a cozinha dos oficiais preparasse

grenadýrmarš72 com carne de porco. Quando chegávamos a uma fábrica de cerveja, convidava todo o regimento para beber tudo o que quiséssemos. O coronel era uma pessoa tão boa que...

O tenente Lukáš puxou suavemente a orelha de Švejk e disse em um tom

amistoso:

— Seu safado, deixe o pobre homem em paz e saia daqui! — Humildemente, senhor tenente!

Švejk partiu para seu vagão. Enquanto isso, na gare situada diante do trem

do batalhão, no vagão onde estavam trancados todos os aparelhos telefônicos e fios, se desenvolvia a seguinte cena: como o capitão Ságner ordenara que tudo fosse feito como se estivessem no front, estavam em estado de alerta; nos dois lados do trem, de acordo com o valor do material transportado, as sentinelas recebiam as contrassenhas e as senhas do escritório do batalhão.

Naquele dia a primeira parte da contrassenha era a palavra “Kappe” e a

segunda, “Hatvan”. A sentinela que vigiava os aparelhos telefônicos era da Polônia, de Kolomyje, e, por um estranho azar, fora parar no 91 º Regimento.

Naturalmente, a palavra “Kappe” (cópia) não lhe dizia absolutamente nada,

mas, mnemotecnicamente, recordava que a contrassenha começava com uma letra K. Por isso, quando o subtenente Dub, que estava fazendo a inspeção, se aproximou e perguntou pela contrassenha, o soldado respondeu orgulhosamente: “Kaffee.” O que seria mais natural para um polonês de Kolomyje que ainda recordava com emoção o café que era servido no acampamento de Most nad Litavou toda manhã e toda noite?

E quando voltou a gritar “Kaffee” enquanto o subtenente Dub se aproximava

cada vez mais, o polonês, recordando seu juramento e o fato de que estava de guarda, ordenou de maneira ameaçadora:

— Alto!

O subtenente Dub deu mais dois passos, sem parar de lhe pedir a

contrassenha; então o polonês apontou o fuzil para Dub e, como dominava o alemão, usou uma estranha mistura de polonês e alemão para gritar:

— Eu vou scheissen, eu vou scheissen!73 O subtenente Dub entendeu e recuou exclamando: — Sargento de guarda, sargento de guarda!

Compareceu o sargento Jelínek, que levou o polonês ao posto de guarda e

então foi ele quem lhe pediu a contrassenha. O desesperado “Kaffee!, kaffee!” do polonês ecoava em toda a estação. Os soldados de todos os trens começaram a pular na gare com xícaras na mão. Armou-se tal balbúrdia que aquilo acabou com o honesto soldado sendo preso, desarmado e levado ao vagão-prisão.

No entanto, o subtenente achava que tinha motivos para suspeitar de Švejk; o

subtenente teria colocado a mão no fogo, jurado que o bom soldado fora o primeiro a aparecer na gare com uma xícara na mão enquanto exclamava:

— Desçam com as marmitas! Desçam com as marmitas! À meia-noite o trem partiu para Ladovce e Trebišov, onde, de manhã, uma

associação de veteranos lhe deu as boas-vindas, embora tivesse confundido o batalhão com o 14º Regimento húngaro, que passara por ali naquela noite. Os veteranos estavam completamente bêbados e despertaram todo o batalhão com seus gritos: “Deus proteja o rei.” Os soldados mais conscientes responderam: “Vão tomar no cu! Viva!”

Então, os veteranos gritaram de tal maneira que as vidraças do edifício da

estação tremeram: “ Viva o 14º Regimento! Viva!”

Ao cabo de cinco minutos, o trem seguiu viagem para Humenné. Podiam ser

vistos, claramente, os vestígios da batalha que acontecera quando os russos avançavam em direção ao vale do Tissa. Pelas encostas das montanhas se estendiam trincheiras primitivas; de vez em quando se via uma casa de fazenda queimada e, diante dela, uma cabana construída às pressas, indicando que os proprietários haviam voltado.

Ao meio-dia, quando chegaram à estação de Humenné, onde também havia

sinais da batalha, começaram a preparar o almoço. Nesse meio-tempo, os soldados do comboio descobriram um segredo público: de que maneira, depois da partida dos russos, as autoridades tratavam a população local, cuja língua e religião eram aparentadas com as dos soldados russos.

Na gare, cercado por gendarmes húngaros, estava um grupo de rutenos da

Hungria que haviam sido detidos. Eram sacerdotes da igreja ortodoxa, professores e camponeses dos arredores, alguns de muito longe. Todos tinham sido amarrados aos pares com as mãos nas costas. A maioria tinha o nariz quebrado e galos na cabeça porque, imediatamente depois de terem sido detidos, os policiais haviam lhes dado uma surra.

Um pouco mais longe, um soldado húngaro brincava com um pope

ortodoxo. Segurava a ponta de uma corda que amarrara no pé esquerdo do sacerdote e, com a culatra do rifle, o obrigava a dançar czardas. De tempos em tempos, puxava a corda com violência; o pope caía de bruços e, como suas mãos estavam amarradas nas costas, não conseguia se levantar. Procurava, desesperadamente, se virar para tentar ficar em pé. O gendarme morria de rir; lágrimas pulavam de seus olhos. A cada tentativa do ortodoxo, puxava a corda e o homem voltava a cair de bruços.

Até que, finalmente, um oficial da polícia acabou com a brincadeira: ordenou

que os prisioneiros fossem levados a um espaço coberto atrás da estação para que as surras que recebiam não fossem testemunhadas por todo mundo.

No vagão do alto-comando comentava-se o episódio do pope, e é possível

dizer que a maioria dos presentes o condenava.

O alferes Kraus dizia que se tratava de traidores inimigos. Deviam enforcá-

los sem demora, sem submetê-los à tortura. O subtenente Dub, no entanto, estava inteiramente de acordo com tudo o que acabara de ver e aproveitou a oportunidade para relacionar aquela cena ao atentado de Sarajevo. Disse que os gendarmes da estação de Humenné estavam vingando a morte do arquiduque Franz Ferdinand e de sua esposa. Para dar peso as suas palavras, arguiu que, depois do atentado, na edição de julho de O trevo de quatro folhas, uma revista que assinava e era dirigida por Šimáček, comentou-se que aquele delito inigualável deixaria por muito tempo uma ferida incurável no coração de todos os homens, ferida a mais dolorosa, porque o delito não apenas custara a vida de um representante do poder executivo, mas também a de sua querida esposa, e que a destruição destes dois seres aniquilara uma vida familiar feliz e exemplar e deixara órfãos seus filhos, por todos amados.

O tenente Lukáš limitou-se a resmungar que certamente os gendarmes de

Humenné eram assinantes de O trevo de quatro folhas e haviam lido aquele artigo tão comovente. De repente, sentiu nojo de tudo e a necessidade de se embriagar para afastar a tristeza. Então desceu do vagão e foi procurar Švejk.

— Ouça, Švejk — lhe disse —, você poderia me conseguir uma garrafa de

conhaque? Não estou me sentindo muito bem.

— Humildemente, senhor, deve ser por causa da mudança de ares. Talvez se

estivesse no campo de batalha se sentisse ainda pior. Quanto mais a pessoa se afasta de sua base militar, mais mareado se sente. Um tal de Josef Kalenda, jardineiro em Strašnice, também se afastou um dia de sua casa. Foi ao bairro vizinho de Vinohrady e parou na taverna U Zastávce. Ali ainda se sentia bem, mas ao caminhar pela avenida Korunní em direção à igreja de Santa Ludmila, enquanto se deixava cair em todos os bares que encontrava no caminho, começou a sentir náuseas. Mas não se deixou abater por um mal-estar sem importância, pois na noite anterior, ainda em Strašnice, apostara com um condutor de bonde na taverna U Remízy que daria a volta ao mundo em três semanas. De maneira que chegou à cervejaria U Černýho da praça Carlos e dali se dirigiu, atravessando o Moldava, ao bairro da Malá Strana, à cervejaria São Tomás, e dali ao restaurante U Montágů. Depois, começou a subir para o Castelo, entrou na taverna U Krále Brabantskýho, depois na U Krásnou Vihlídku e, mais acima, lá no alto, na cervejaria do monastério de Strahov. Mas então a mudança de ares parou de lhe fazer bem. Chegou à praça Loretánský e, de repente, sentiu tantas saudades de casa que se atirou no chão e, agitando-se em cima da calçada, começou a gritar: “Não irei mais longe, amigos! Que a volta ao mundo vá”, com perdão, senhor tenente, “tomar no cu!”. De acordo, senhor, eu lhe arranjarei algum conhaque; só temo que o trem parta antes que eu volte.

O tenente Lukáš lhe assegurou que só partiriam dali a duas horas e que

vendiam conhaque às escondidas logo atrás da estação; o capitão Ságner já havia enviado Matušič e este lhe trouxera uma garrafa de conhaque passável por quinze coroas. Deu-lhe o dinheiro e recomendou enfaticamente que não dissesse a ninguém que era para o tenente Lukáš, porque, na verdade, estava fazendo uma coisa proibida.

— Fique tranquilo, senhor — disse Švejk —, tudo correrá às mil

maravilhas. Gosto muito de fazer coisas proibidas. Estou acostumado a me ver em situações proibidas sem nem saber. Uma vez, no quartel de Karlín, fomos proibidos...

— Meia-volta! — interrompeu-o o tenente Lukáš. Švejk saiu da estação, repetindo pelo caminho todas as condições de sua

tarefa: o conhaque tinha que ser bom, por isso teria de prová-lo; comprá-lo era uma coisa proibida, por isso tinha que ir com cuidado.

No momento em que estava dobrando a esquina, deu de cara com o

subtenente Dub.

— Que demônios está fazendo aqui? — lhe perguntou. — Você me

conhece?

— Humildemente — disse Švejk, batendo continência. — Não é minha

intenção conhecer seu lado ruim.

O subtenente Dub ficou petrificado. Švejk, plantado com a mão na viseira,

continuou:

— Humildemente, senhor, só quero conhecer seu lado bom; não quero que

me faça chorar, tal como me disse na última vez.

Diante de tamanha insolência, o subtenente Dub sentiu uma tontura e só teve

ânimo para gritar:

— Fora daqui, infeliz! Ainda conversaremos!

Švejk seguiu em frente e o subtenente Dub, quando voltou a si, o seguiu.

Atrás da estação, ao lado da estrada, havia uma fileira de balaios emborcados e, em cima deles, algumas bandejas de palha cheias de guloseimas que tinham um aspecto tão inocente que pareciam destinadas a escolares em excursão. Havia barquinhos de massa açucarada, bombons, caramelos de fruta, e, em um cesto, algumas fatias de pão preto com salame, certamente de cavalo. No interior dos cestos, no entanto, estavam escondidas garrafas das mais diversas bebidas alcoólicas: conhaque, rum, genebra, aguardente, licores.

Atrás da fossa que se estendia à margem da estrada, havia uma casinhola na

qual negociavam as bebidas proibidas.

Os soldados faziam compras diante dos cestos; depois, um judeu com

longas costeletas cacheadas e aparência inocente, tirava de debaixo dos balaios uma garrafa e a levava à casinha de madeira; ali os soldados a pegavam dissimuladamente e a escondiam dentro das calças ou debaixo da jaqueta.

Švejk, pois, se dirigiu para lá, enquanto o subtenente Dub, com seu

complexo de detetive, o espreitava.

Švejk parou no primeiro cesto. Antes de mais nada, pegou alguns bombons,

pagou e enfiou-os no bolso. Então, o senhor das costeletas cacheadas lhe disse em voz baixa, em alemão:

— Também tenho aguardente, distinto soldado.

O negócio foi fechado rapidamente. Švejk foi até a casinha e só pagou depois

que o senhor das costeletas abriu a garrafa e o deixou provar o conhaque. Ficou satisfeito, enfiou a garrafa debaixo da jaqueta e voltou para a estação.

— Onde você estava, canalha? — lhe perguntou o subtenente Dub,

atravessando seu caminho.

— Humildemente, senhor, fui comprar alguns bombons. Švejk enfiou a mão no bolso e tirou uma porção de bombons sujos e

empoeirados:

— Se não o enoja, senhor... Eu já os provei e não estão ruins. Têm um

sabor agradável, curioso, como de geleia de ameixa.

Sob a jaqueta se desenhava claramente a forma redonda da garrafa. O subtenente Dub deu umas batidas na jaqueta de Švejk. — O que você tem aqui, safado? Mostre!

Švejk puxou a garrafa de conteúdo amarelado e com uma etiqueta muito

clara: “Conhaque.”

— Humildemente, senhor — respondeu Švejk, impassível —, fui encher a

garrafa vazia de conhaque com água da fonte. Desde ontem, quando comemos gulache, sinto muitíssima sede. Mas a água da fonte é um pouco amarelada; deve ser ferruginosa. Este tipo de água é muito útil e saudável.

— Se você está com tanta sede, Švejk — disse o subtenente Dub sorrindo

diabolicamente e desejando prolongar o máximo a cena em que aniquilaria Švejk para sempre —, beba, esvazie a garrafa de uma vez!

O subtenente Dub imaginava que Švejk beberia alguns goles e não

aguentaria mais e que ele, o subtenente Dub, lhe diria triunfalmente: “Me dê a garrafa, eu também estou com sede.” Queria ver como o sem-vergonha olharia para ele naquele momento terrível, e depois os informes e assim por diante.

Švejk destampou a garrafa, colocou-a na boca e deu um gole atrás do outro.

O subtenente ficou petrificado. Švejk acabara de beber, diante de seus olhos, a garrafa inteira sem piscar; depois a atirou, vazia, no lago que havia mais além da estrada, cuspiu e disse, como se tivesse bebido um copo de água mineral:

— Humildemente, senhor, esta água tem um registro ferruginoso de

verdade. Em Kamyk nad Vltavou um taverneiro conseguiu água ferruginosa para os veteranos jogando no poço velhas ferraduras.

— Eu vou lhe dar um tapa com suas velhas ferraduras! Venha me mostrar a

fonte de onde tirou a água!

— Fica aqui perto, meu subtenente, aqui mesmo, atrás da casinha de

madeira.

— Vá na frente, desalmado, para que eu veja se está caminhando reto! “Que estranho”, pensou o subtenente Dub. “Não se percebe nada neste

safado.”

Švejk avançou, entregue à vontade de Deus. Mas alguma coisa lhe dizia que

tinha de haver uma fonte e não o surpreendeu nem um pouco quando, de fato, encontrou uma. Também havia uma bomba e, quando se aproximaram, Švejk bombeou e brotou dela uma água amarelada, de maneira que Švejk pôde declarar solenemente:

— Eis a água ferruginosa, senhor.

O homem de costeletas cacheadas, assustado, se aproximou, e Švejk lhe disse

em alemão que trouxesse um copo porque o subtenente queria beber um pouco.

Àquela altura o subtenente estava tão apalermado que bebeu um copo de

água inteiro; então se espalhou por sua boca um gosto de urina de cavalo e esterco. Totalmente desconcertado pela experiência, deu ao judeu das costeletas uma moeda de cinco coroas pelo copo de água e, dirigindo-se a Švejk, disse:

— O que está olhando? Vá embora!

Depois de cinco minutos, Švejk descobriu o tenente Lukáš no vagão do alto-

comando e com um gesto misterioso o fez descer. Uma vez na gare, Švejk lhe disse:

— Humildemente, senhor. Dentro de cinco ou, no máximo, dez minutos,

estarei completamente bêbado, mas irei me deitar no meu vagão. Eu lhe peço, senhor tenente, que durante três horas não me chame e não me dê nenhuma ordem, até que tenha me livrado da bebedeira. Está tudo bem, mas o subtenente Dub me flagrou e eu lhe disse que o que levava era água e ele me fez beber toda a garrafa de conhaque para provar que era verdade. Pode ficar tranquilo, não revelei nada, como o senhor queria, e vim embora com cuidado, mas agora, senhor tenente, meus pés estão ficando dormentes. Naturalmente, meu tenente, estou habituado a encher a cara, pois quando eu estava com o capelão Katz...

— Ora, animal! — exclamou o tenente Lukáš, mas em sua voz não havia o

menor sinal de raiva. No entanto, sua antipatia pelo subtenente Dub aumentara em cinquenta por cento.

Švejk entrou com cuidado no vagão e, deitando-se em cima de sua capa e da

mochila, disse ao intendente e aos demais:

— Uma vez um homem se embebedou e pediu que não o acordassem... E, depois de dizer isso, se virou para o outro lado e começou a roncar. Em um estalo, os gases que emitia ao arrotar encheram todo o vagão, de

modo que o cozinheiro ocultista Jurajda, farejando o ar, declarou:

— Caramba, que cheiro de conhaque!

O voluntário Marek que, por fim, depois de tantos suplícios, fora

promovido a historiador do batalhão, estava sentado diante da mesa dobrável.

Recompilava ações heroicas do batalhão para ter algumas de reserva; via-se

que a perspectiva de futuras operações o deixava muito feliz.

O intendente Vaněk observava com interesse o voluntário, que se fartava de

rir enquanto escrevia. Por isso se levantou e se inclinou sobre ele. Marek começou a lhe contar:

— Escrever a história do batalhão com antecedência é muito divertido. O

mais importante de tudo é escrever sistematicamente. Deve haver um sistema em tudo.

— Um sistema sistemático — observou o intendente, com um sorriso

matreiro.

— Sim — disse o voluntário, com displicência. — Um sistema

sistematizado e sistemático para redigir a história do batalhão. Não podemos apresentar uma história de grandes vitórias de repente. Tudo tem que ir surgindo aos poucos, seguindo um projeto. Nosso batalhão não pode ganhar a Guerra Mundial assim, sem mais nem menos. Nihil nisi bene. O mais importante para um historiador consciente como eu é planejar primeiro nossas vitórias. Agora, por exemplo, estou descrevendo como nosso batalhão (é o que acontecerá mais ou menos dentro de um par de meses) atravessa a fronteira russa, fortemente defendida pelo inimigo, digamos que pelo regimento dos cossacos do Don, enquanto algumas divisões inimigas cercam nossas posições. À primeira vista, temos a impressão de que nosso batalhão está perdido e que seremos moídos. Então o capitão Ságner dá uma ordem: “Deus não quer que morramos aqui, retiremo-nos!” De maneira que nosso batalhão empreende a fuga, mas a divisão inimiga que está nas nossas costas se dá conta de que, de fato, a estamos empurrando, começa a se retirar e cai em cheio nas mãos de nossas forças de reserva. Na realidade, assim se inicia a história do nosso batalhão: a partir de um acontecimento sem importância, para falar profeticamente, senhor Vaněk, se desenvolvem ações incalculáveis. Para redigir, usarei o estilo de O informante militar ilustrado, editado por Vilímek durante a guerra russo-japonesa. Nosso batalhão ataca um acampamento inimigo. Cada um de nossos soldados escolhe um soldado inimigo e trespassa com toda a força seu peito com uma baioneta. A baioneta está perfeitamente afiada e penetra no peito inimigo como se fosse manteiga. Só de vez em quando se ouve uma costela quebrando. Os inimigos adormecidos sacodem o corpo espasmodicamente, durante uns instantes olham fixamente, não veem mais nada, sentem o estertor da agonia: depois ficam imóveis. Em seus lábios surge saliva misturada com sangue. Assim acaba esse assunto e nosso batalhão anota outra vitória. Ainda melhor será o que acontecerá dentro de três meses: nosso batalhão aprisionará o czar da Rússia. Mas disso falaremos um pouco mais tarde, senhor Vaněk. Enquanto isso, preciso preparar pequenos episódios que mostrem exemplos de heroísmo incomparável. Terei de inventar novas expressões bélicas. Já pensei em uma: falarei do espírito de sacrifício de nossos soldados feridos pelas granadas. Em consequência da explosão de uma mina inimiga, um de nossos chefes de seção, por exemplo um da 12 ª ou da 13ª Companhia, perderá a cabeça.

“A propósito”, disse o voluntário, batendo na testa, “quase me esquecia,

senhor intendente, ou digo, humanamente, senhor Vaněk, o senhor precisa me fornecer a lista de todos os oficiais. Me dê o nome de algum sargento da 12ª Companhia. Houska? De acordo, será Houska, então, quem perderá a cabeça por causa de uma mina; a cabeça cai no chão; no entanto, o corpo dá alguns passos para a frente, aponta e derruba um avião inimigo. Fica subentendido que mais adiante essas vitórias serão comemoradas no palácio imperial de Schönbrunn, em família. A Áustria tem muitos batalhões, mas o único que se destacará será o nosso, será o único a ser homenageado com uma pequena festa íntima na casa imperial. De acordo com minhas anotações, a comemoração se desenvolverá da seguinte maneira: a família da arquiduquesa Marie Valérie se trasladará por este motivo de Wallsee para Schönbrunn. A festa é absolutamente íntima e tem lugar na sala contígua ao dormitório do monarca, que está iluminado com círios brancos, porque, como todo mundo sabe, a corte não gosta de lâmpadas elétricas já que podem provocar curtos-circuitos, contra os quais o velho monarca tem preconceitos. A festa em homenagem ao nosso batalhão começa às seis da tarde. Os netos de Sua Majestade entram no salão que na realidade pertence aos aposentos da falecida imperatriz. Agora a questão é definir quem, além da família real, deve participar dessa comemoração. O ordenança geral do nosso monarca, o conde Paar, tem que estar e estará. Como nas festas familiares e íntimas há sempre alguém que se sente mal (e com isso não quero dizer de nenhuma maneira que o conde Paar irá vomitar), é imprescindível a presença do médico particular, o doutor Kerzel, conselheiro da corte. Levando em conta a ordem, porque os laicos não se permitem de nenhuma forma intimidades com as damas que participam do banquete, estará ali o barão Lederer, o grande mestre de cerimônias, o conde de Bellegarde, o grande camerlengo, e a primeira-dama de honra, condessa de Bombeller, que entre as damas de honra tem o mesmo papel que a madame do bordel Casa Šuha. Uma vez reunida a assembleia, se notifica ao imperador. Este comparece acompanhado por seus netos. Sentam-se à mesa e brindam ao nosso batalhão. Depois disso toma a palavra a arquiduquesa Marie Valérie, que dedica uma recordação particularmente elogiosa ao senhor, senhor intendente. Naturalmente, conforme minhas anotações, nosso batalhão sofrerá grandes e sensíveis perdas, porque um batalhão sem mortos não é nada. Terei de redigir um artigo sobre nossos mortos. A história de um batalhão não pode se limitar à enumeração das vitórias; já anotei antecipadamente quarenta e duas. O senhor, por exemplo, senhor Vaněk, morrerá às margens de um pequeno riacho, enquanto Baloun, com seu olhar de coruja, não morrerá atravessado por uma bala, um projétil ou uma granada, mas estrangulado por uma corda lançada por um avião inimigo no exato momento em que o estúpido estiver comendo a comida do seu tenente Lukáš.”

Baloun recuou, fez um gesto desesperado com as mãos e disse com

expressão aflita:

— Eu não posso fazer nada com meu temperamento. Quando fazia o serviço

militar, algumas vezes chegava a voltar três vezes à cozinha para procurar comida, até que me enfiaram no calabouço. Um dia comi três rações de costela no almoço e elas me custaram três meses de prisão. Que seja feita a vontade de Deus!

— Não tenha medo, Baloun — consolou-o o voluntário —, na história do

batalhão não constará que você morreu se empanturrando no caminho que leva da cozinha dos oficiais às trincheiras. Seu nome constará ao lado do dos demais homens do regimento tombados pela glória do nosso império, como o senhor intendente Vaněk.

— Que morte me destinou, Marek?

— Paciência, senhor intendente, não é preciso ir tão depressa. O voluntário ficou pensativo:

— O senhor é de Kralupy, não é mesmo? Escreva então a sua casa que

desaparecerá sem deixar rastro, mas conte tudo com prudência. Ou talvez queira ser ferido gravemente e ficar sob os alambrados? Poderia ficar ali tombado, com uma perna quebrada, durante todo o santo dia. À noite o inimigo ilumina nossa posição com um holofote e o vê, acha que é um espião e começa a bombardeá-lo com granadas e projéteis. O senhor prestou um enorme serviço ao nosso exército, porque em sua pessoa o inimigo gastou uma quantidade de munição suficiente para um batalhão inteiro. Depois de tudo isso, seus membros flutuam livremente no ar e, atravessando-o com sua rotação, cantam a grande vitória. Ao final, todo mundo morre e todos os do nosso batalhão são distinguidos, de maneira que as páginas de nossa gloriosa história se enchem de vitória. Este tipo de plenitude, a mim, pessoalmente, não consegue convencer, mas o que posso fazer! Tudo deve ser feito com rigor, para que fique alguma recordação da gente antes que, digamos em setembro, de nosso batalhão não restem mais que essas gloriosas páginas da história que contarão ao coração de todos os austríacos que todos aqueles que não voltaram nunca mais a ver sua pátria lutaram com coragem e ardor. Já redigi o final, senhor Vaněk, a nota necrológica. Honra à recordação de nossos tombados! Seu amor pela monarquia é o amor mais sagrado porque culmina com a morte. Que seus nomes sejam pronunciados com respeito, como o de Vaněk. Os que foram golpeados mais dolorosamente pela perda dos pais de família, que enxuguem as lágrimas, porque os tombados eram heróis do nosso batalhão.

 

O telefonista Chodounský e o cozinheiro Jurajda escutavam com grande

O telefonista Chodounský e o cozinheiro Jurajda escutavam com grande

interesse o voluntário expor seu projeto da história do batalhão.

— Aproximem-se, senhores — disse o voluntário, folheando suas

anotações. — “Página 15: O telefonista Chodounský morreu em 3 de setembro junto com Jurajda, o cozinheiro do batalhão.” Ouçam a continuação das minhas anotações: “Heroísmo exemplar. O primeiro, que passou três dias ao telefone sem ser substituído, sacrifica sua vida para salvar um fio telefônico. O segundo, ao sentir a iminência do perigo, se atira no inimigo com uma panela de sopa fervendo, semeando horror e queimaduras entre os soldados inimigos. Os dois mereceram uma bela morte. O primeiro, destroçado por uma mina, e o segundo, sufocado pelos gases tóxicos que colocaram diante de seu nariz quando já não tinha como se defender. Os dois morreram exclamando ‘Viva o nosso batalhão!’” O alto-comando só pôde nos agradecer todos os dias em forma de ordens, para que outras formações do exército conhecessem o valor do nosso batalhão e o tomassem como exemplo. Agora vou ler um fragmento da ordem do dia que será lida em todas as formações do exército. É muito parecida com a que leu o arquiduque Karl em 1805, quando estava com seu exército diante de Pádua. No dia seguinte lhe deram uma boa surra. Ouçam o que será lido em todo o exército sobre nosso batalhão heroico e exemplar: “... Espero que todos sigam o exemplo do anteriormente mencionado batalhão e, sobretudo, que imitem seu heroísmo exemplar, virtude pela qual se distingue o batalhão em questão e os que o dirigem para levar a cabo atos admiráveis pelo bem e pela vitória de nosso império. Avante todos, seguindo seu exemplo!”

Ouviu-se um bocejo no lugar onde dormia Švejk. O bom soldado falava

sonhando.

— Tem razão, senhora Müllerová, as pessoas se parecem. Em Kralupy havia

um aguadeiro que era tão parecido com o relojoeiro Lejhanz de Pardubice que era possível dizer que se tratava de uma cópia. Este se parecia com um tal de Piskora de Jičín, e os quatro se pareciam com um suicida desconhecido que encontraram enforcado e completamente apodrecido em um tanque perto de Jindřichův Hradec, debaixo dos próprios trilhos sob os quais deve ter se atirado quando o trem passava.

Ouviu-se outro bocejo e a continuação da história: — Depois fizeram todos pagar uma multa, e amanhã me prepare aletria,

senhora Müllerová.

Švejk se virou e continuou roncando. Enquanto isso, o cozinheiro ocultista e

o voluntário entabularam uma conversa sobre temas do futuro.

O ocultista Jurajda opinava que, se bem à primeira vista parecesse uma

bobagem que uma pessoa escrevesse de brincadeira sobre o que aconteceria no futuro, era verdade que amiúde este tipo de passatempo continha fatos proféticos quando o olhar espiritual do homem penetrava no futuro desconhecido, influenciado por forças misteriosas. A partir daquele momento, Jurajda só falou de véus. O véu do porvir aparecia em uma de cada duas frases, até o momento em que começou a falar da regeneração, ou seja, da renovação do corpo humano; preenchia os ocos de seu discurso com a faculdade dos infusórios e terminou sua exposição declarando que, quando alguém corta o rabo de uma lagartixa, o rabo volta a crescer.

O telefonista Chodounský comentou que os homens viveriam muito bem se

acontecesse com eles a mesma coisa que acontecia com o rabo das lagartixas. Por exemplo, na guerra, quando uma granada arrancasse a cabeça ou outra parte do corpo de alguém, a administração militar ficaria encantada porque não haveria mutilados. Um soldado austríaco a quem crescessem pernas, braços e cabeças, valeria muito mais que toda uma brigada.

O voluntário afirmou que hoje em dia, graças à avançada tecnologia bélica,

era possível dividir o inimigo em três partes diagonais. Existe uma lei sobre a renovação do corpo dos estertores da família dos infusórios: todas as partes se renovam, adquirem novos órgãos e se convertem em um estertor independente. Por analogia, depois de cada batalha, as tropas austríacas se triplicariam ou se multiplicariam por dez, porque de cada perna decepada se desenvolveria um novo soldado de infantaria.

— Švejk precisaria ouvi-los — observou o intendente Vaněk. — Certamente

teria algum exemplo a respeito.

Švejk ouviu seu nome e reagiu murmurando: “Presente!” Depois de ter dado

mais uma prova de disciplina militar, continuou roncando.

Na porta entreaberta surgiu a cabeça do subtenente Dub. — Švejk está? — perguntou. — Humildemente, senhor, está dormindo — respondeu o voluntário. — Se estou perguntando por ele, voluntário, sua obrigação é se levantar e ir

avisá-lo imediatamente.

— Não é possível, senhor subtenente, está dormindo. — Pois desperte-o! Acho estranho que isso não tenha lhe ocorrido

imediatamente, voluntário. Deveria exibir uma melhor disposição em relação a seus superiores. Você ainda não me conhece, mas quando me conhecer...

O voluntário começou a acordar Švejk. — Švejk, acorde, está havendo um incêndio! — Quando os moinhos de Odkolek pegaram fogo — resmungou Švejk,

virando-se para o outro lado — até os bombeiros de Vysočany foram chamados...

— O senhor está vendo — disse o voluntário, amavelmente, ao subtenente

Dub. — Tentei despertá-lo, mas não foi possível.

O subtenente Dub se irritou:

— Como se chama, voluntário? Marek? Ah, você deve ser o voluntário

Marek que volta e meia é preso, não é mesmo?

— Sim, senhor subtenente. Fiz o curso de voluntários no cárcere, para dizê-

lo de alguma maneira, e quando o tribunal da divisão me deixou em liberdade depois de comprovar minha inocência, me devolveram o grau de voluntário e agora me nomearam historiador do batalhão.

— Não o será por muito tempo — vociferou o subtenente Dub, vermelho

como um tomate; tinha-se a impressão de que suas bochechas haviam inchado depois de ter recebido algumas bofetadas —, eu mesmo me encarregarei disso!

— Meu subtenente, peço que me levem a um conselho de guerra — disse o

voluntário seriamente.

— Não brinque comigo! — disse o subtenente Dub. — Eu já lhe mostrarei

o que é um conselho de guerra. Voltaremos a nos ver, e você terá tempo de se arrepender de sua conduta quando me conhecer, porque ainda não me conhece!

O subtenente Dub se afastou do vagão. Em sua cólera, se esqueceu de Švejk,

embora momentos antes tivesse a intenção de chamá-lo e dizer: “Deixe-me cheirar seu hálito!”, como último recurso para provar seu alcoolismo ilegal. Quando voltou, depois de meia hora, já era muito tarde porque nesse meio-tempo haviam servido café com rum à tropa. Švejk já tinha acordado e, ao ouvir o grito do subtenente Dub, pulou para fora do vagão como se fosse uma corça.

— Deixe-me cheirar seu hálito! — gritou como um condenado o subtenente

Dub.

Švejk expirou todo o conteúdo de seus pulmões, lembrando um vento

quente que espalha pelos campos o odor de uma destilaria.

— A que você está cheirando, pilantra?

— Humildemente, senhor, cheiro a rum.

— Finalmente peguei você, fedelho — exclamou o subtenente Dub, em tom

triunfal.

— Sim, senhor — disse Švejk sem mostrar o mínimo sinal de aturdimento.

— Acabamos de receber rum e café, e eu bebi o rum antes. Mas se há uma nova determinação que diz que se deve beber o café antes e o rum depois, então peço desculpas. Não voltará a acontecer.

— E por que estava roncando quando vim aqui faz meia hora? Nem

conseguiram acordá-lo!

— Humildemente, senhor, não consegui dormir a noite inteira porque estava

recordando os dias de manobras em Veszprém. Naquela época, os supostos corpos do exército, o primeiro e o segundo, atravessaram a Estíria e a Hungria ocidental e assediaram nosso quarto corpo, que havia acampado em Viena e arredores, onde tínhamos que montar fortificações. Mas nos assediaram e chegaram à ponte que os sapadores estavam construindo na ribeira esquerda do Danúbio. Nós devíamos levar a termo a ofensiva e deviam vir nos ajudar tropas procedentes do norte e depois também do sul de Osijek. Leram uma ordem do dia que dizia que o terceiro corpo do exército estava marchando para nos ajudar para que não nos reduzissem a picadinho entre o lago Blatenským e Prešpurkem quando avançássemos contra o segundo corpo do exército. Mas não serviu para nada: quando estávamos prestes a vencer, a corneta assinalou o fim

da contenda e derrotamos as braçadeiras brancas.74

O subtenente Dub não deu nem um pio e se dirigiu, perplexo, ao vagão do

alto-comando. Mas voltou imediatamente para dizer a Švejk:

— Lembrem-se, você e todos, que chegará um dia em que os farei chorar! Não lhe ocorreu mais nada e se dirigiu outra vez ao vagão do alto-comando.

Naquele momento, o capitão Ságner estava interrogando um infeliz da 12ª Companhia que fora trazido pelo sargento Strnad; é que o soldado já começara a se preocupar com sua segurança nas trincheiras e conseguira em algum lugar da estação a porta de um chiqueiro reforçada com latão. O soldado estava plantado no vagão, com os olhos fora de órbita e se desculpando por querer levar a porta às trincheiras para se proteger dos projéteis.

O subtenente Dub aproveitou a oportunidade para fazer outro sermão sobre

o comportamento de um soldado e suas obrigações para com a pátria e o monarca, o chefe militar supremo. Disse que se no batalhão havia elementos como aquele era necessário extirpá-los, castigá-los e prendê-los. Sua conversa fiada era de tão mau gosto que o capitão Ságner palmeou os ombros do culpado e lhe disse:

— Você de fato tinha boas intenções. Não volte a fazer uma coisa dessas;

— Você de fato tinha boas intenções. Não volte a fazer uma coisa dessas;

carregar uma porta é uma besteira. Devolva-a ao lugar de onde a tirou e vá para o inferno!

O subtenente Dub mordeu os lábios e disse a si mesmo que a salvação da

disciplina do batalhão, que estava se dissolvendo, dependia exclusivamente dele. Por isso voltou a fazer uma ronda em toda a estação. Ao lado de um armazém no qual havia um cartaz em alemão e em húngaro que dizia que era proibido fumar, encontrou um soldado lendo um jornal que o tapava a tal ponto que não se viam seus galões. Dub gritou: “Sentido!”; tratava-se de um soldadinho pertencente a um regimento húngaro de reserva que estava em Humenné.

O subtenente Dub sacudiu-o, o soldado húngaro se levantou e nem sequer

se deu ao trabalho de saudá-lo; enfiou o jornal no bolso e se dirigiu à estrada. O subtenente Dub seguiu-o maquinalmente, mas o húngaro acelerou o passo; depois se virou e, com um gesto de desdém, levantou as mãos para que o subtenente Dub não duvidasse nem um momento de que havia achado que pertencia a um regimento tcheco. Então, o soldado húngaro começou a correr e desapareceu no meio das casas do outro lado da estrada.

Para demonstrar que não tinha nada a ver com aquela cena, o subtenente

Dub entrou majestosamente em uma pequena loja à beira da estrada e, em sua confusão, apontou um grande carretel de linha preta. Enfiou-o no bolso, pagou e voltou ao vagão do alto-comando. Uma vez ali, mandou chamar seu ordenança, Kunert, e disse, lhe entregando o carretel:

— Sempre tenho que ser eu quem deve se ocupar de tudo. Tenho certeza de

que você se esqueceu de trazer linhas.

— Humildemente, senhor, temos uma dúzia de carretéis. — Mostre-me imediatamente, então. Ou acha que acredito em você? Quando Kunert voltou com uma caixa cheia de carretéis de linha branca e

preta, o subtenente Dub disse:

— Veja, rapaz, olhe bem como são diferentes as linhas que acaba de trazer e

as deste meu grande carretel! Suas linhas são finas e se partem imediatamente; as minhas, no entanto, não se partem! No campo de batalha, não queremos nenhum tipo de porcaria, tudo tem que ser de qualidade. Bem, leve todas essas linhas, espere minhas ordens e na próxima vez se lembre de que não deve comprar nada por sua conta, me consulte antes! Não queira me conhecer, ainda não viu meu lado mau!

Quando Kunert saiu, o subtenente Dub se dirigiu ao tenente Lukáš: — Meu ordenança é uma pessoa muito inteligente. De vez em quando se

equivoca, mas em geral entende tudo imediatamente. Tem a grande virtude de ser honrado. Em Most nad Litavou recebi um pacote do meu sogro, que vive no campo, com vários gansos assados, e imagine que nem os tocou; como não pude comer todos imediatamente, deixou que estragassem. Isso é resultado da disciplina. Os oficiais devem educar os soldados.

Para dar a entender que não estava ouvindo o palavrório daquele idiota, o

tenente Lukáš foi até a janela e disse:

— Sim, hoje é quarta-feira.

Então, sentindo uma imensa vontade de dizer alguma coisa, o subtenente

Dub se dirigiu ao capitão Ságner em um tom confidencial e amistoso:

— Ouça, capitão Ságner, o que acha…

— Me desculpe por um momento — disse o capitão e foi embora.

 

Enquanto isso, Švejk estava jogando conversa fora com Kunert; o assunto era o superior do último.

— Onde você esteve metido durante todo esse tempo? — perguntou Švejk.

— Não foi visto em nenhum lugar.

— Ora, você sabe, meu velho louco me mantém atarefado. A três por dois

me chama e me interroga sobre coisas que não me importam. Também me perguntou se sou seu amigo e eu lhe disse que nos vemos muito pouco.

— É muito amável da parte dele perguntar por mim. Eu gosto muito do seu

subtenente. É uma pessoa muito boa e comporta-se com os soldados como um verdadeiro pai — disse Švejk com expressão séria.

— Isso é o que você acha — discordou Kunert. — É um infeliz, um grande

imbecil. Estou com ele até o pescoço; sua única função é me chatear.

— É mesmo? — estranhou Švejk. — E eu achando que é uma ótima pessoa!

Não sei por que você fala assim do seu subtenente, mas suponho que deve ser uma coisa típica dos ordenanças. Preste atenção no ordenança do major Wezl: ele não se refere a seu superior de outra maneira que não “safado de merda!”; e o do coronel Schröder sempre o chama de “porco asqueroso” e “canalha podre”. Na verdade, os ordenanças aprendem a insultar com seus chefes. Se os chefes não blasfemassem, seus ordenanças não repetiriam seus palavrões. Em Budějovice havia um subtenente, o Procházka, que não blasfemava muito; a única coisa que dizia ao seu ordenança era “pedaço de asno”. O ordenança, um tal de Hibman, jamais ouviu outra imprecação. Pois este Hibman acostumou-se tanto com essa expressão que quando voltou para casa chamava seu pai, sua mãe e sua irmã de “pedaço de asno”. Dirigiu-se assim inclusive a sua noiva; ela rompeu com ele e o acusou de ofender sua honra, porque ele dissera aquilo a ela, a sua mãe e a seu pai em um baile. Não o perdoou e declarou no tribunal que se lhe tivesse dito “pedaço de burro” em um lugar afastado talvez o tivesse desculpado, mas tal como havia feito era uma vergonha com repercussão europeia. Aqui entre nós, Kunert, nunca teria acreditado que seu subtenente fosse tal como você o pintou. Já à primeira vista gostei tanto dele como de uma salsicha que acabaram de fritar, e quando o vi pela segunda vez me deu a impressão de ser um homem culto, um intelectual. E você, de onde é? Da própria Budějovice? Acho muito bom que as pessoas sejam exatamente de um lugar. E onde fica sua casa? Debaixo das arcadas? Ora, então no verão você pode estar ao fresco. Tem família? Uma mulher e três filhos? Que bom, amigo! Pelo menos alguém chorará por você, como costumava dizer o capelão militar Katz em seus sermões. E, de fato, é verdade; uma vez, em Most nad Litavou, ouvi o discurso de um coronel dirigido aos soldados da reserva que iam para a Sérvia e o coronel disse que o soldado que deixava em casa uma família e tombava no campo de batalha quebrava todos os laços familiares. Na verdade, dizia assim: “Quando um é cadáfer, cadáfer de família, quebra a laço do família, pelo Vaterland, o pátria.” Vive no quarto andar? No térreo, disse? Tem razão, agora que estou pensando me lembro de que não há nenhum edifício de quatro andares na praça principal de Budějovice. Já está indo? Ah, seu subtenente está plantado diante do vagão do alto-comando olhando para cá. Se lhe perguntar se falei dele, diga-lhe que sim, e não se esqueça de contar como o elogiei e que disse que nunca encontrei um oficial que se comportasse de maneira tão amistosa e paternal como ele. Não deixe de lhe dizer que tive a impressão de que é um homem culto, um intelectual, e que aconselhei você a se comportar bem e a fazer tudo o que ler em seus olhos. Vai se lembrar?

Continuar: parte 2 de 2