As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 19 de 30

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Segunda Parte – No front

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As desventuras de Švejk no trem

Em um compartimento da segunda classe do expresso Praga—České Budějovice estavam três passageiros: o tenente Lukáš, diante do qual estava sentado um homem mais velho completamente careca, e Švejk, que estava em pé ao lado da porta do corredor, esperando com humildade por um novo ataque de fúria do tenente. Este, sem se importar nem um pouco com a presença do civil careca, não havia parado de lançar sobre Švejk durante o trajeto todos os impropérios que conhecia, tratando-o de divino idiota e coisas semelhantes.

O motivo da raiva do tenente não era nada além de um detalhe sem

importância: a quantidade de malas que Švejk tinha de vigiar.

— Roubaram uma das nossas malas — cobrava de Švejk —, simplesmente

isso, seu patife!

— Humildemente, senhor — disse Švejk com timidez —, não há dúvida de

que a roubaram. Pelas estações perambulam muitos ladrões e imagino que um deles deve ter se entusiasmado com nossa mala, de maneira que aproveitou a oportunidade que lhe foi apresentada quando me afastei por um momento da bagagem para dizer ao senhor que nossas coisas estavam em ordem. Ele só pôde tê-la roubado nesse momento tão propício. Esses sujeitos vivem esperando por uma coisa assim. Dois anos atrás, na estação Noroeste, roubaram de uma senhora um carrinho com uma menina de fraldas, mas foram tão gentis que levaram a pequena à delegacia da minha rua e disseram que haviam-na encontrado abandonada em uma passagem. E aí os jornais passaram a acusar a pobre mulher de ser uma mãe desnaturada.

E Švejk concluiu, com ênfase: — Nas estações, sempre roubaram e continuarão roubando. É o que

acontece.

— Estou convencido, Švejk — replicou o tenente —, de que um dia ou

outro você acabará muito mal. Ainda não sei se se faz passar por idiota ou se nasceu idiota. O que havia na mala?

— Assim, de uma maneira geral, nada de especial, senhor tenente —

respondeu Švejk, sem parar de olhar para o crânio careca do civil sentado na frente do tenente que, conforme parecia, não demonstrava nenhum interesse por todo aquele assunto e lia o Neue Freie Presse. — Em toda aquela mala só estava o espelho do quarto e o cabide de ferro do vestíbulo, mas, como os dois pertenciam ao dono da casa, podemos considerar que não sofremos nenhuma perda.

Ao ver a expressão terrível do tenente, Švejk continuou, em um tom amável: — Humildemente, senhor. A respeito da mala, eu não sabia de antemão que

seria roubada, e, quanto ao espelho e ao cabide, informei ao senhor proprietário que os devolveremos quando voltarmos para casa depois da guerra. Nos países inimigos há muitos espelhos e cabides, de modo que o senhorio tampouco deverá lamentar perda alguma. Tão logo conquistemos alguma cidade...

— Cale-se, Švejk — interrompeu-o o tenente com um tom de voz

aterrorizante. — Um dia o levarei ao tribunal militar. Avalie bem se você não é a pessoa mais estúpida do mundo. Outro sujeito, mesmo que vivesse mil anos, não cometeria tantas idiotices como as que você é capaz de perpetrar em poucas semanas. Será que você já percebeu isso?

— Humildemente, senhor, percebi sim. Tenho, como se diz, um talento nato

de observador, mas ele se manifesta quando já é muito tarde, depois que as desventuras acontecem. Tenho um azar semelhante ao de um tal de Nechleba de Nekázanka, que costumava frequentar uma taverna chamada V Čubčím Háji, sim, repito, o paraíso das cadelas. Aquele homem vivia pensando em fazer o bem e começar uma nova vida a partir do próximo sábado, mas no dia seguinte sempre dizia: “De manhã me dei conta de que estava deitado num catre.” Isso acontecia sempre que resolvia voltar tranquilamente para casa. Bem, no final acabava se esclarecendo que havia pulado alguma cerca ou desarreado o cavalo de algum cocheiro ou tentado limpar o cachimbo com o penacho do policial de uma patrulha. Aquilo deixava o sujeito totalmente desesperado e o que mais o incomodava era o fato de seu azar ter vitimado gerações e gerações de seus antepassados. Seu avô saiu uma vez para vagabundear e...

— Deixe-me em paz com suas histórias, Švejk. — Humildemente, senhor, tudo o que estou contando aqui é a mais

sacrossanta verdade. O avô do sujeito saiu para vagabundear e...

— Švejk — irritou-se o tenente —, volto a lhe ordenar que não me conte

mais nada, não quero ouvir mais nada. E quando chegarmos a Budějovice acertaremos as contas. Você está sabendo, Švejk, que mandarei prendê-lo?

— Humildemente, senhor, não sei — disse Švejk com inocência. — O

senhor ainda não havia se manifestado a respeito.

Os dentes do tenente rangeram involuntariamente. Suspirou, tirou o

Bohemie do bolso do casaco e começou a ler notícias sobre grandes vitórias, sobre as atividades do submarino alemão E no Mediterrâneo; quando chegou à reportagem a respeito da nova descoberta alemã que fazia saltar pelos ares cidades com a ajuda de bombas lançadas de aviões que explodiam três vezes consecutivas, foi interrompido pela voz de Švejk, que estava se dirigindo ao senhor careca:

— Desculpe, cavalheiro, o senhor não seria o senhor Purkrábek, o

representante do banco Slavia?

Como o senhor careca não respondeu, Švejk disse ao tenente: — Humildemente, senhor, uma vez li no jornal que uma pessoa normal deve

ter na cabeça uma média de sessenta ou setenta mil cabelos e que os cabelos pretos costumam ser mais finos, como se pode ver em muitos exemplos.

E continuou sem piedade:

— Uma vez, no café U Špírků, um estudante de medicina explicou que a

queda de cabelos é provocada pela excitação anímica no puerpério.

Então aconteceu uma coisa terrível. O homem careca pulou em cima de Švejk

e gritou para ele em alemão:

— Marsch heraus, Sie Schwinkerl — algo como “fora, seu porco sem-

vergonha!”.

E, com uma patada, expulsou Švejk para o corredor. Quando voltou ao

compartimento, surpreendeu o levemente impressionado tenente ao se apresentar.

Acontecera um pequeno engano. O indivíduo careca não era o senhor

Purkrábek, representante do banco Slavia, mas, simplesmente, o senhor Von Schwarzburg, general de brigada. Estava fazendo uma viagem de inspeção vestido à paisana e queria chegar a Budějovice de surpresa.

Von Schwarzburg era o inspetor mais temido que já havia nascido: quando

Von Schwarzburg era o inspetor mais temido que já havia nascido: quando

descobria que alguma coisa não estava em ordem, limitava-se a manter o seguinte diálogo com o comandante da guarnição:

— O senhor tem um revólver?

— Tenho.

— Perfeito. Em seu lugar eu saberia o que fazer com ele, porque o que estou

vendo aqui não é uma tropa, mas uma vara de porcos.

E, de fato, depois de sua visita de inspeção sempre alguém se suicidava com

um tiro de revólver, fato que o general de brigada Von Schwarzburg comentava com satisfação.

— É assim que deve ser! Este era um soldado!

Parecia que não se dava por satisfeito quando, depois de sua inspeção,

alguém ficava vivo. Tinha a mania de transferir os oficiais para os lugares mais desagradáveis. Bastava uma insignificância para obrigar um oficial a se despedir de sua tropa e empreender uma peregrinação até a fronteira de Montenegro ou transferi-lo para alguma guarnição cheia de bêbados desesperados perdida em um sujo rincão da Galícia.

— Senhor tenente — disse —, onde cursou a escola de cadetes? — Em Praga.

— Então o senhor cursou uma escola de cadetes e não sabe sequer que um

oficial é responsável por seus subordinados. Muito bom. Em segundo lugar, o senhor conversa com seu criado como se fosse seu amigo íntimo. E permite que fale mesmo sem ser indagado. Isso é ainda melhor. E, em terceiro lugar, permite que ofenda seus superiores. Isso é o melhor de tudo. Tirarei minhas conclusões de tudo isso. Como se chama, senhor tenente?

— Lukáš.

— E em qual regimento serve?

— Estava no...

— Obrigado, mas não quero saber onde servia; o que quero saber é onde

está servindo agora.

— No 91º Regimento de Infantaria, general. Fui transferido... — Foi transferido? Fizeram muito bem. Não lhe fará nenhum mal ir ver o

quanto antes o que acontece em algum campo de batalha com o 91º Regimento de Infantaria.

— Isso já está decidido, senhor general de brigada. Então o general disparou um discurso dizendo que nos últimos anos

observara que os oficiais se dirigiam em um tom demasiadamente familiar a seus subordinados, coisa que considerava uma perigosa difusão dos princípios democráticos. Os soldados devem viver em permanente estado de terror, devem tremer na presença dos superiores, temê-los. Os oficiais têm de manter a tropa a dez passos de distância de seu corpo e não permitir que ninguém pense por conta própria ou que sequer pense: nesse ponto residia o trágico erro dos últimos anos. Antes, a tropa temia os oficiais da mesma maneira que temia o fogo, mas, hoje em dia...

O general de brigada fez um gesto desconsolado com a mão: — Hoje, a maioria dos oficiais afaga os soldados. É o que eu tinha a dizer. O general de brigada voltou a pegar o jornal e mergulhou na leitura. O

tenente Lukáš, pálido, foi ao corredor acertar as contas com Švejk.

Encontrou-o olhando pela janela com uma expressão beata e satisfeita, típica

de um bebê de um mês que bebeu, mamou e adormeceu.

O tenente se deteve e apontou uma cabine vazia, entrou nela depois de Švejk e

fechou a porta.

— Švejk — disse, com solenidade —, finalmente chegou o momento de

você receber um par de bofetadas como o mundo nunca viu. Por que você abordou o senhor careca? Sabe que é o general de brigada Von Schwarzburg?

— Humildemente, senhor — disse Švejk, com cara de mártir —, nunca em

minha vida tive a menor intenção de ofender ninguém e não sei absolutamente nada a respeito de nenhum general de brigada. Ele é mesmo muito parecido com o senhor Purkrábek, representante do banco Slavia, que costumava frequentar nossa taverna. Uma vez adormeceu com a cabeça em cima da mesa e uma pessoa caridosa escreveu com uma caneta em sua careca: “Temos o prazer de lhe oferecer a oportunidade de obter um dote e um enxoval para seus filhos através de uma apólice de seguro, de acordo com o formulário III C que estamos anexando.” É claro que todo mundo havia ido embora e eu fiquei ali sozinho com ele, e, como sempre dou azar, quando acordou e se olhou no espelho ficou furioso e achou que fora eu quem fizera aquilo e também quis me dar um par de bofetadas.

A palavrinha “também” saiu dos lábios de Švejk de uma maneira tão terna e

comovente e com tal tom de reprovação que a mão do tenente foi descendo lentamente.

Mas Švejk continuou:

— Aquele senhor não precisava ter se aborrecido tanto por uma besteira sem

importância. É verdade que deveria ter entre sessenta ou setenta mil cabelos, como dizia aquele artigo a respeito de tudo o que uma pessoa normal deve ter. Nunca na minha vida me ocorreu que pudesse existir algum senhor general de brigada careca. Isto, como costumam dizer, é um erro trágico que pode acontecer com qualquer um quando faz uma observação e o outro a leva a mal. Há alguns anos, Hývl, um alfaiate, me contou que uma vez estava indo do lugar onde trabalhava na província austríaca de Steiermark a Praga, via Leoben, levando um presunto que comprara em Marburg. Achava que era o único tcheco que viajava no trem e quando, em Saint Moritz, começou a cortar rodelas daquele presunto inteiro, o passageiro que estava sentado na frente dele começou a olhar para a carne com olhos apaixonados e a saliva começou a escorrer de sua boca. Quando o alfaiate Hývl viu aquilo, disse para si mesmo em voz alta: “Você o devoraria, seu miserável, não é mesmo?” E aquele senhor lhe respondeu em tcheco: “É claro que eu o devoraria se você me desse um pouco.” De maneira que os dois acabaram com todo o presunto antes de chegar a Budějovice. Aquele senhor se chamava Vojtěch Rous.

O tenente Lukáš olhou para Švejk e saiu da cabine. Estava sentado de novo

em seu lugar, quando, depois de alguns momentos, surgiu na porta o rosto inocente de Š vejk:

— Humildemente, senhor, dentro de cinco minutos estaremos em Tábor. O

trem fará uma parada de cinco minutos. Quer que lhe traga alguma coisa para comer? Anos atrás, aqui havia excelentes...

O tenente se levantou, irritado, e disse no corredor a Švejk: — Estou avisando-o de novo de que quanto menos o vir mais contente

ficarei. E ficaria ainda mais feliz se não voltasse a vê-lo nunca mais e pode ter certeza de que vou cuidar disso. Não apareça diante de meus olhos! Desapareça da minha vista, seu animal, idiota!

— Como quiser, senhor.

Švejk bateu continência, deu meia-volta e, com passo marcial, foi até o final

do corredor; sentou-se em um canto, no assento do condutor, e entabulou conversa com o ferroviário.

— Perdão, posso lhe fazer uma pergunta?

O ferroviário que, como era evidente, não estava com a menor vontade de

falar, assentiu com um fraco, apático, movimento de cabeça.

— De vez em quando vinha me ver um bom homem, um tal de Hoffman,

que sempre afirmava que os sinais de alarme não funcionam, que, simplesmente, não são acionados quando alguém puxa a alavanca. Para ser franco, estas coisas nunca me interessaram, mas agora, como prestei atenção no mecanismo, gostaria de saber o que aconteceria se por acaso algum dia tivesse necessidade de usá-lo.

Švejk se levantou e, em companhia do ferroviário, aproximou-se do alarme,

que deveria ser acionado só EM CASO DE PERIGO.

O ferroviário achou que era sua obrigação explicar como funcionava todo o

mecanismo do sistema de alarme:

— Ele estava certo quando lhe disse que é necessário puxar esta alavanca,

mas mentiu ao lhe dizer que o alarme não funciona. O trem sempre para porque o aparelho se comunica com a locomotiva através de todos os vagões. O freio de alarme tem que funcionar.

Naquele momento, ambos estavam com a mão colocada na alavanca do freio

e mesmo assim se espantaram quando a puxaram e o trem parou.

Tampouco entraram em um acordo para decidir quem havia feito aquilo e

quem acionara o sinal de alarme.

Švejk afirmava que não podia ter sido ele, que não era nenhum baderneiro. — Achei estranho que o trem tivesse parado de repente — disse em um tom

bondoso ao cobrador. — Estava andando e de repente parou. Isso me aborrece muito mais do que ao senhor.

Um senhor com aspecto sério começou a defender o ferroviário afirmando

que o soldado fora o primeiro a fazer comentários a respeito do sinal de alarme.

No entanto, Švejk não parava de proclamar sua inocência acrescentando que

não tinha nenhum interesse em que o trem se atrasasse porque estava indo para a guerra.

— O senhor chefe da estação vai lhe explicar tudo — resolveu o condutor

—, mas isso lhe custará vinte coroas.

Quando todos os passageiros estavam saindo dos vagões, o chefe do trem

tocou o apito, e uma senhora que carregava uma mala começou a correr apavorada pelos trilhos em direção aos campos de trigo.

— Isso vale as vinte coroas — disse Švejk sensatamente, com uma

tranquilidade absoluta. — Eu até diria que é muito barato. Uma vez, quando o senhor imperador visitou Žižkov, um tal de Franta Šnor parou sua carruagem e se ajoelhou diante dela no meio dos trilhos. Então, o inspetor local de polícia disse a Šnor, chorando, que não deveria ter feito aquilo em seu distrito, e sim em uma rua mais abaixo que pertencia à zona do policial Kraus: era ali que deveria ter rendido homenagem ao soberano. O senhor Šnor acabou sendo preso.

Švejk olhou em volta e viu que a multidão crescia com a chegada do chefe

dos guardas.

— Bem, poderíamos continuar a viagem — disse Švejk. — Estes atrasos

não são nada agradáveis. Em tempos de paz isto não teria, pelo amor de Deus, a menor importância, mas em época de guerra todo mundo deveria saber que todos os trens transportam militares, generais de brigada, tenentes, ordenanças. Cada atraso pode ser preocupante. Napoleão chegou com cinco minutos de atraso a Waterloo e toda sua glória foi para o beleléu...

Naquele momento o tenente Lukáš abriu caminho no meio do grupo de

curiosos. Estava muito pálido e só conseguiu dizer:

— Švejk!

Švejk bateu continência e se manifestou: — Humildemente, senhor. Estão me acusando de ter parado o trem. A

administração ferroviária deve ter um sistema de proteção dos freios de alarme bastante peculiar. O sujeito não pode nem se aproximar dele. Caso contrário poderá se meter em confusão e correr o risco de lhe cobrarem vinte coroas de multa, como estão querendo fazer comigo agora.

O condutor-chefe já estava do lado de fora. Fez um sinal e o trem voltou a

andar.

Os curiosos voltaram aos seus lugares e o tenente Lukáš não disse mais uma

única palavra e também ocupou seu assento.

Só ficaram ao lado de Švejk o condutor e o ferroviário. O condutor puxou

um caderno e redigiu um informe sobre tudo o que acontecera. O ferroviário dirigiu a Š vejk um olhar fulminante. O bom soldado lhe perguntou, tranquilamente:

— O senhor trabalha há muito tempo na ferrovia?

Como o ferroviário não respondeu, o próprio Švejk retomou a palavra

dizendo que conhecia um tal de František Mlíček de Uhřiněves, perto de Praga, que também uma vez havia puxado uma corrente de alarme e se assustou tanto que durante duas semanas ficou mudo e não recuperou a fala até que foi vê-lo um tal de Vaněk, jardineiro de Hostivař, com quem brigou e em quem bateu com um chicote que acabou se quebrando.

— Isto aconteceu em maio de 1912 — acrescentou. O ferroviário abriu a porta do banheiro e se trancou. O condutor ficou sozinho com Švejk e lhe pediu as vinte coroas da multa,

sublinhando que no caso de não querer pagá-la se veria obrigado a levá-lo ao chefe de estação de Tábor.

— De acordo — disse Švejk. — Gosto muito de conversar com gente culta,

será um prazer fazer uma visita ao chefe da estação de Tábor.

Švejk puxou o cachimbo do fundo de sua jaqueta, acendeu-o e, exalando a

áspera fumaça do tabaco do exército, disse:

— Há alguns anos, havia em Svitavy um chefe de estação chamado Wagner.

Era uma peste com seus subordinados e os martirizava como podia, mas, sobretudo, desenvolveu uma aversão absoluta por um sinaleiro, um tal de Jungwirt, até que o pobre não conseguiu suportar mais aquilo e se afogou no rio. No entanto, antes escreveu uma carta ao chefe de estação dizendo que iria assombrá-lo à noite. Não estou mentindo. Aconteceu. Uma noite em que o chefe de estação estava sentado diante do telégrafo, as campainhas tocaram e recebeu um telegrama: “Como vai, sem-vergonha? Jungwirt.” E assim durante toda a semana. O chefe de estação enviou telegramas a todas as estações, respondendo ao fantasma: “Perdoe-me, Jungwirt.” E uma noite depois o aparelho lhe deu a seguinte resposta: “Se enforque no semáforo ao lado da ponte. Jungwirt.” O chefe de estação obedeceu. Finalmente, prenderam o telegrafista da estação anterior a Svitavy. Você está vendo que há coisas entre o céu e a terra a respeito das quais nós não temos a menor ideia.

O trem entrou na estação de Tábor e Švejk, antes de descer acompanhado

pelo condutor, se apresentou, como era devido, ao tenente Lukáš:

— Humildemente, senhor, informo que estão me levando para o chefe de

estação.

O tenente Lukáš não respondeu. Apoderou-se dele uma apatia em relação a

tudo. Passou por sua cabeça que o melhor que podia fazer era se despreocupar de tudo e não dar importância a nada, nem a Švejk nem ao general de brigada careca que estava diante dele. Queria ficar sentado tranquilamente, descer em Budějovice, apresentar-se ao quartel e ir ao front com o primeiro batalhão que partisse. No campo de batalha, poderia, convenientemente, se deixar matar, e livrar-se assim deste mundo miserável no qual perambulava uma besta como Švejk.

Quando o trem começou a andar, o tenente Lukáš olhou pela janela e avistou

Š vejk na gare, imerso em uma conversa muito séria com o chefe de estação. O soldado estava cercado por uma multidão de pessoas, entre as quais se destacavam alguns uniformes ferroviários.

O tenente Lukáš suspirou. Não era um suspiro de lástima. Sentiu seu

coração leve ao perceber que Švejk havia ficado na plataforma. Até o general de brigada careca já não lhe parecia um monstro tão antipático.

 

Fazia um tempo que o trem resfolegava em direção a České Budějovice, mas o grupo que estava em volta de Švejk na plataforma não se dispersava. Švejk falava de sua inocência e convenceu os presentes de tal forma que uma mulher se manifestou:

— Estão de novo torturando um soldado!

A multidão assentiu e um senhor se dirigiu ao chefe de estação declarando

que pagaria a multa de vinte coroas por Švejk, porque estava convencido da inocência do soldado.

— Olhem para ele — disse, baseando seu julgamento na expressão inocente

de Švejk, que se dirigiu à multidão dizendo:

— Sou completamente inocente, minha gente.

Então apareceu um guarda da polícia que afastou um cidadão do grupo,

prendeu-o e o levou dizendo:

— Você vai prestar conta disto. Eu vou lhe mostrar o que acontece quando

alguém incita as pessoas dizendo que se os soldados são tratados dessa maneira ninguém pode exigir que a Áustria vença a guerra.

O infeliz cidadão só conseguiu afirmar que era um simples mestre

açougueiro de Staré Brány e que não tivera más intenções.

Enquanto isso o bom homem que acreditava na inocência de Švejk pagou

Enquanto isso o bom homem que acreditava na inocência de Švejk pagou

por ele a multa no escritório e o levou a um bar de terceira classe da estação, onde o convidou para tomar uma cerveja, e quando soube que todos os documentos e a passagem de Švejk estavam no bolso do tenente Lukáš, ofereceu-lhe, generosamente, uma nota de cinco coroas para que pudesse comprar um bilhete e fazer frente a outras despesas.

Ao partir, disse a Švejk em tom confidencial: — Meu soldado, uma última coisa. Se cair prisioneiro de guerra na Rússia,

dê lembranças de minha parte ao cervejeiro Zeman de Zdolbunov. Eu escrevi o meu nome em um papel. Mas, sobretudo, seja esperto e evite ficar muito tempo no front.

— Não se preocupe comigo — disse Švejk —, sempre é interessante

conhecer terras estrangeiras, e ainda por cima de graça.

Švejk ficou sozinho na mesa e foi bebendo, lentamente, as cinco coroas de

seu generoso benfeitor. Enquanto isso, as pessoas que não haviam testemunhado a conversa entre Švejk e o chefe de estação, e que só tinham visto a multidão, comentavam entre elas que fora detido um espião que fotografara a estação. Não obstante, uma mulher discordava dessa observação, afirmando que ouvira dizer que não se tratava de nenhum espião, mas sim de um soldado que havia batido em um oficial diante do banheiro feminino, porque este perseguiu sua namorada até lá.

A polícia, que chegou para liberar a gare, deu um fim a todas aquelas

fantásticas conjecturas, tão próprias do nervosismo típico dos tempos de guerra. E Švejk continuou bebendo enquanto recordava com ternura seu tenente. O que fará quando chegar a Budějovice e descobrir que seu ordenança não está em nenhum lugar do trem?

Antes que o trem de passageiros chegasse, o bar de terceira classe ficou

lotado de soldados e civis. Os soldados pertenciam a diferentes regimentos e formações e eram de diversos países. O redemoinho bélico os levara aos hospitais militares de Tábor e agora voltavam ao campo de batalha em busca de novas feridas, mutilações e sofrimentos, ou para ganhar uma simples cruz de madeira em seu túmulo, sobre a qual, ainda depois de muitos anos, na triste planície da Galícia, ondeará sob o vento e a chuva um quepe descolorido de um soldado austro-húngaro com a viseira oxidada; de vez em quando pousará nela um velho corvo que recordará os pantagruélicos banquetes de antanho e a interminável mesa cheia de saborosos cadáveres de homens e cavalos, e pensará que precisamente sob um quepe como aquele costumava encontrar o mais delicioso dos bocados: olhos humanos.

Um daqueles candidatos ao sofrimento, que recebera alta no hospital depois

de uma operação e que estava com o uniforme sujo de sangue e lama, sentou-se ao lado de Švejk. Estava contraído, fraco e triste. Deixou um pequeno pacote na mesa e do fundo da jaqueta tirou seu porta-níqueis e começou a contar o dinheiro que lhe restava. Depois fitou Švejk e perguntou em húngaro:

— Magyarul? Fala húngaro? — Sou tcheco, amigo — respondeu Švejk. — Quer beber alguma coisa? — Nem tudom, barátom. Eu não o entendo, meu amigo. — Não importa, companheiro — incitou-o Švejk, colocando seu copo cheio

diante do triste soldado. — Beba quanto quiser.

O soldado o compreendeu perfeitamente, bebeu um pouco e agradeceu. — Köszönöm szívesen. Muito obrigado.

Continuou examinando o conteúdo de seu porta-níqueis e por fim suspirou.

Š vejk compreendeu que o húngaro gostaria de tomar uma cerveja, mas não tinha dinheiro suficiente. Então pediu outra para ele. O húngaro voltou a lhe agradecer e começou a contar alguma coisa através de gestos enquanto apontava seu braço, perfurado por uma bala; acompanhou os movimentos com o idioma internacional.

— Pim, pam, pum!

Švejk balançou a cabeça, compassivo; então o convalescente contraído disse a

Š vejk, abaixando a mão esquerda a meio metro do chão e levantando três dedos, que tinha três filhos pequenos.

— Három gyermek, nincs ham, éljen! — continuou, querendo indicar que

em sua casa não havia nada para comer.

E com a manga suja de seu capote militar, no qual estava desenhado o buraco

da bala que lhe atravessara o braço durante o cumprimento de seu dever em defesa do rei

húngaro,31 enxugou os olhos, dos quais espirravam lágrimas.

Não era nada estranho que, assim distraído, restasse a Švejk cada vez menos

daquela nota de cinco coroas e que a cada copo de cerveja que pedia para ele ou para o convalescente húngaro fosse se afastando a possibilidade de comprar a passagem de soldado para Budějovice.

Na estação passou outro trem para Budějovice e Švejk continuou sentado à

mesa ouvindo o húngaro repetir seu: “Pim, pam, pum! Három gyermek, nincs ham, éljen!” Três crianças e nada de comida.

E repetiu a frase quando brindavam.

— Beba, garoto húngaro — lhe respondeu Švejk. — Na sua terra você não

nos acolheria assim...

Na mesa vizinha, um soldado disse que, quando o 28º Regimento chegou a

Szeged, os húngaros riram dos tchecos dizendo que eram uns covardes, uma mensagem que transmitiam por meio do gesto das mãos ao alto. Era uma sacrossanta verdade, mas, aparentemente, o soldado de uma mesa ao lado se sentira ofendido; acrescentou que, quando os húngaros pararam de gostar de serem mortos pelos interesses de seu rei, seguiram o exemplo dos tchecos e preferiram se render a se deixar matar.

Este soldado foi se sentar à mesa de Švejk e contou como haviam acossado

os húngaros em Szeged, como os haviam expulsado das tavernas a porrada. Mas também reconheceu que os húngaros sabiam brigar e que em uma manhã havia levado uma facada nas costas e então tiveram de mandá-lo à retaguarda para se tratar. Disse-lhe também que agora, quando chegasse a seu regimento, o capitão certamente mandaria prendê-lo, porque não tivera tempo de devolver a agressão àquele húngaro e assim salvar a honra de todo o regimento.

— Seus tokuments.

Desta maneira amável, o comandante do controle militar, um sargento-mor

acompanhado por quatro soldados com baionetas, começou a conversar com Švejk.

— Eu fi focê sentada, non vazer nada, focê só bebe, só bebe, foldado! — Não tenho documentos, miláčku, meu querido — respondeu Švejk —;

meu tenente Lukáš, do 91º Regimento, levou-os e eu fiquei aqui na estação.

— Was ist das Wort milatschku? — perguntou o sargento-mor a um de seus

soldados, um velho guarda da defesa territorial que gostava de ludibriar seu superior e lhe respondeu com calma:

— Milaček das ist wie Herr Feldwebel, significa senhor sargento. O sargento continuou se dirigindo a Švejk: — Todas as soltatos com tokuments, sem tokuments auf

Bahnhofsmilitärkommando, den lausigen Bursch, wie einen tollen Hund — algo como “vamos prendê-lo, seu estúpido, no posto de comando da estação como se fosse um cão raivoso!”.

Levaram Švejk ao posto de comando da estação, onde, na sala dos guardas,

estavam outros homens que se pareciam com aquele velho guarda territorial que sabia traduzir tão bem as palavras meu querido para o alemão de seu inimigo natural.

A sala dos guardas havia sido decorada com as litografias que naquela época

o Ministério da Guerra enviava a todos os lugares pelos quais passavam soldados, assim como às escolas e aos quartéis.

O bom soldado Švejk foi recebido por um quadro que, de acordo com o

título, representava o tenente František Hammel e os sargentos Paulhart e Bachmeyer do 21º Regimento Imperial e Real de Artilharia, encorajando a tropa a avançar. Em outra parede estava pendurado um quadro com o seguinte título: “O tenente Jan Danko, do 5º Regimento de Hussardos, reconhece a bateria inimiga.”

À direita, embaixo, pendia um cartaz com os seguintes dizeres: “Exemplos

raros de coragem.”

Com este tipo de texto, cujos exemplos haviam nascido da imaginação dos

funcionários do Ministério da Guerra e de diversos jornalistas alemães chamados às fileiras, a velha e estúpida Áustria queria infundir entusiasmo nos soldados, que nunca liam esse tipo de coisa. E quando, também para infundir coragem na tropa, enviavam livros com esses exemplos de bravura ao front, os soldados usavam suas páginas para fazer cigarros com tabaco de cachimbo ou usavam os exemplares para fins ainda mais adequados, como cabia à coragem e ao espírito dos excepcionais episódios de bravura que descreviam.

Enquanto o sargento-mor procurava um oficial, Švejk leu o seguinte em um

cartaz:

O COCHEIRO JOSEF BONG

Os soldados do corpo sanitário transladavam os feridos graves aos carros

que estavam a postos em um desfiladeiro oculto. Assim que ficavam lotados, se dirigiram ao posto de socorro. Quando descobriram os carros, os russos começaram a cobri-los com granadas. Uma granada matou o cavalo do cocheiro Josef Bong, do 3º Esquadrão Imperial e Real de Serviço. Bong lamentou: “Meu branquinho, acabaram com você, pobrezinho!” Nisso Bong foi atingido por um estilhaço de granada. Mesmo assim, desatrelou seu cavalo e levou o carro a um refúgio seguro. Então voltou para pegar os arreios do cavalo morto. Os russos continuavam disparando. “Disparem, feras malditas, não deixarei os arreios aqui!”, exclamava enquanto tirava os arreios do cavalo. Quando terminou, arrastou-os até o carro. Ali, devido a sua longa ausência, teve de suportar as maldições dos soldados do corpo sanitário. “Não queria abandonar os arreios, são quase novos. Pensei que seria uma lástima. Eles não estão sobrando.” Assim se desculpou o valente soldado enquanto se dirigia ao posto de socorro, onde comunicou que estava ferido. Mais tarde, seu capitão o condecorou com a medalha de prata por sua coragem.

 

Como o sargento-mor ainda não voltara, quando Švejk acabou de ler disse

aos guardas territoriais:

— Este é um belo exemplo de coragem. Assim nosso exército terá muitos

arreios novos. Mas, quando estava em Praga, li no Diário Oficial da cidade uma história ainda mais bonita: na Galícia, havia, no 7º Batalhão de Guardas-Florestais, um médico voluntário de nome Josef Vojna. Quando a luta chegou às baionetas, recebeu uma bala na cabeça. Quando o estavam levando ao posto de socorro, gritou que não se deixaria enfaixar por causa de um arranhão tão pequeno. E quis voltar para o pelotão, mas uma granada destroçou seu tornozelo. Quiseram levá-lo de novo, mas voltou mancando para a linha de combate. Apoiando-se em uma bengala, lutou contra o inimigo até que uma granada lhe arrancou a mão com a qual a segurava. Colocou-a na outra mão gritando que iriam lhe pagar caro e não sei o que teria acontecido se um projétil não tivesse acabado definitivamente com ele. Talvez, se não o tivessem matado, também tivesse sido condecorado com uma medalha de prata por sua bravura. Quando o projétil lhe arrancou a cabeça, ela, enquanto rolava, ainda gritava: “Cumpra seu dever com lealdade, mesmo no último suspiro!”

— Escrevem tantas coisas nos jornais... — disse um dos homens —, se esse

jornalista tivesse visto uma coisa dessas teria enlouquecido em uma hora.

O guarda territorial cuspiu:

— Na minha aldeia, em Čáslav, havia um jornalista de Viena, um alemão.

Tinha o grau de alferes. Negava-se a falar conosco em tcheco, mas quando o destinaram a uma companhia em que todos eram tchecos de repente começou a falar em tcheco.

Na porta apareceu o sargento-mor que, com um olhar raivoso, cuspiu em

alemão:

— Quando focê se avasta por ein moment, não se oufe nada, só “tcheco,

tcheco”.

Ao sair, certamente em direção ao restaurante, disse ao cabo da Defesa

Territorial, apontando Švejk, que quando o tenente chegasse entregasse a ele aquele lúmpen piolhento.

— O tenente deve estar se divertindo com a menina dos telégrafos na estação

— disse o cabo quando o homem já havia saído. — Já faz mais de duas semanas que corre atrás dela e cada vez que volta à sala dos telégrafos está mais enfurecido e diz, referindo-se à moça: “É uma prostituta, não quer se deitar comigo.”

Desta vez também voltou de péssimo humor, porque se ouviu que batia com

os livros na mesa.

— Não há nada a fazer, rapaz, você tem que se apresentar ao tenente — disse

o cabo a Švejk com simpatia. — Por suas mãos passaram muitas pessoas, soldados jovens e velhos.

E conduziu Švejk à sala onde estava sentado, atrás de uma mesa cheia de

papéis desorganizados, um jovem tenente, com uma expressão extremamente furiosa.

Assim que viu Švejk ao lado do cabo, exclamou um “Ah!” que não

prenunciava nada de bom. O cabo lhe disse:

— Humildemente, senhor, este homem estava na estação sem nenhum

documento.

O tenente fez um gesto com a cabeça como se quisesse dizer que supunha há

muitos anos que naquela hora e naquele dia Švejk seria encontrado na estação sem documentos; de fato, se alguém tivesse olhado para Švejk naquele momento, teria tido a impressão de que um homem com uma cara e um aspecto como aqueles não poderia ter nenhum tipo de documento. Naquele momento Švejk parecia ter caído do céu vindo de algum outro planeta: com uma surpresa ingênua fitava um mundo desconhecido onde lhe pediam uma coisa absurda da qual jamais ouvira falar chamada documentos.

Enquanto observava Švejk, o tenente refletiu por um momento sobre o que

iria lhe perguntar. Finalmente, resolveu dizer:

— O que estava fazendo na estação?

— Humildemente, senhor, estava esperando o trem que me levaria a

Budějovice para poder me reunir com meu regimento, o 91º, onde sou ordenança do tenente Lukáš, a quem fui obrigado a abandonar, já que me levaram ao chefe de estação porque me consideravam suspeito de ter detido o expresso em que viajávamos, de ter provocado sua parada acionando o freio de alarme.

— Você vai me enlouquecer! — gritou o tenente. — Diga-me tudo em

poucas palavras e de uma maneira coerente, e pare de expelir besteiras!

— Humildemente, senhor, desde o momento em que eu e meu tenente

subimos no expresso que deveria nos levar rapidamente ao nosso 91º Regimento Imperial e Real de Infantaria, tivemos azar. Primeiro perdemos uma mala; depois, para variar, um general de brigada completamente careca...

— Pelo amor de Deus — suspirou o tenente.

— Humildemente, senhor. É que é necessário que lhe explique tudo de uma

vez, de uma forma suave, como se fosse um tapete macio, e com todos os detalhes para que tenha uma ideia geral do assunto, como costumava dizer o falecido sapateiro Petrlík quando ordenava a seu menino que tirasse as calças antes de começar a lhe dar uma surra.

E enquanto o tenente resfolegava, Švejk continuou sua narrativa: — Assim, então, acho que não caí nas graças do general de brigada careca,

de modo que o senhor tenente Lukáš, de quem sou ordenança, me mandou para o corredor. Uma vez ali, fui acusado do que acabo de lhe dizer. Antes que o assunto tivesse se resolvido, fiquei sozinho na gare. O trem partiu com meu tenente. As malas e todos os meus documentos foram embora, e eu fiquei aqui abandonado como um órfão e sem papéis.

Švejk dirigiu ao tenente um olhar tão comovedor e terno que este ficou

claramente convencido de que tudo o que aquele homem com ar de idiota nato acabara de dizer era a mais pura verdade.

Então o tenente enumerou todos os trens que haviam saído para Budějovice

depois do expresso e perguntou a Švejk por que os perdera.

— Humildemente, senhor — respondeu Švejk, sorrindo bondosamente —,

enquanto estava esperando o próximo trem tive a desgraçada ideia de me sentar a uma mesa e, uma vez ali, não consegui parar de beber uma cerveja depois de outra.

“Nunca na minha vida vi um imbecil deste calibre”, pensou o tenente.

“Confessa tudo. Interroguei muita gente e todo mundo nega as acusações, no entanto este diz tranquilamente: ‘Perdi todos os trens porque fiquei bebendo uma cerveja depois de outra.’”

Resumiu todas estas reflexões em uma única frase, dirigida a Švejk: — Você, rapaz, é um degenerado. Sabe o que significa uma pessoa

degenerada?

— Humildemente, meu tenente, também no meu bairro, na esquina da rua

Na Bojišti com a Kateřinská, havia um homem degenerado. Seu pai era um conde polonês e sua mãe era parteira. Ele varria as ruas, mas nas tavernas só aceitava ser chamado de senhor conde.

O tenente achou oportuno acabar com aquele assunto, de maneira que disse

enfaticamente:

— Vou lhe dizer uma coisa, idiota. Agora mesmo irá à bilheteria, comprará

uma passagem e partirá para Budějovice. Se voltar a vê-lo por aqui, será castigado por deserção. Fora!

Como Švejk não saía do lugar e não tirava a mão da viseira, o tenente gritou: — Já para fora, ouviu? Retire-se! Cabo Palánek, leve este idiota à bilheteria e

compre uma passagem para České Budějovice!

Depois de um momento, o cabo Palánek voltou a aparecer na sala. Na porta

entreaberta, atrás de Palánek estava o rosto bonachão de Švejk.

— O que está acontecendo agora?

— Humildemente, senhor — disse o cabo Palánek em voz baixa —, o

sujeito não tem dinheiro para o trem e eu tampouco. Não querem deixá-lo viajar de graça porque não tem nenhum tipo de documento militar que indique que vai ao front.

O tenente não demorou muito a encontrar uma salomônica solução para

semelhante quebra-cabeça.

— Então que vá a pé! — decidiu. — Que o prendam quando chegar ao seu

regimento por ter se atrasado. Quem vai ficar se ocupando dele aqui?

— Nada feito, camarada — disse o cabo Palánek a Švejk ao sair da sala. —

Você terá de ir a pé a Budějovice. Na sala dos guardas temos uma bisnaga de pão de campanha que poderá levar para a viagem.

Ao cabo de meia hora, depois de ter tomado uma boa xícara de café e de

terem lhe dado além do pão um pacotinho de tabaco, Švejk abandonou Tábor na escuridão da noite. Cantava uma velha canção militar:

Quando marchávamos para Jaroměř, acredite quem quiser...

E só o diabo sabe o que aconteceu para que o bom soldado Švejk, em lugar

de se dirigir ao sul, a Budějovice, tivesse se encaminhado diretamente ao oeste.

Caminhava sobre a neve da estrada, o ar estava gélido e ia envolto em seu

capote militar, como o último soldado da guarda de Napoleão; a única diferença era que cantava alegremente:

Saí para passear

nos verdes bosques...

E nas florestas nevadas, no silêncio da noite, o eco de seu canto ressoava de

tal maneira que os cães das aldeias começaram a latir. Quando se cansou de cantar, Švejk se sentou em um monte de esterco e acendeu o cachimbo. Depois de descansar um pouco, continuou a caminhar em direção a novas aventuras em sua “anábase” a caminho de Budějovice.

31 Franz Joseph também era rei da Hungria. (N. do T.)