As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 22 de 30

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

4 - Novos sofrimentos

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Novos sofrimentos

O coronel Schröder observava com satisfação o rosto pálido do tenente Lukáš, que estava tão perplexo que olhava o oficial de viés e desviava o olhar para o único objeto de decoração da sala: o mapa de distribuição da tropa no acampamento.

Diante do coronel Schröder, em cima da mesa, havia uns quantos jornais

com textos marcados com lápis azul; o coronel lhes dirigiu uma rápida olhada. Depois olhou para o tenente Lukáš e disse:

— Então já sabe que seu ordenança Švejk está no cárcere e que muito

provavelmente será enviado ao tribunal da divisão?

— Sim, senhor coronel.

— O assunto, nem preciso dizer, não termina aqui — disse o coronel com

ênfase, deleitando-se com a palidez do rosto do tenente Lukáš. — É indiscutível que a opinião pública manifestou sua indignação diante da história de seu ordenança e que, inevitavelmente, seu nome será relacionado ao escândalo, senhor tenente. O comando da divisão já nos enviou certo material. Aqui tenho algumas publicações que tratam do assunto. Pode ler as reportagens em voz alta.

Entregou ao tenente Lukáš alguns exemplares com textos marcados. Este

começou a lê-los em tom monocórdio como se estivesse lendo em um livro infantil uma frase como: “O mel alimenta muito mais e é mais fácil de digerir do que o açúcar.”

ON D E E STÁ A GARAN TIA D O N OSSO FUTURO ?

— É o Pester Lloyd? — perguntou o coronel. — Sim, senhor coronel — respondeu o tenente Lukáš e continuou lendo:

A guerra exige a colaboração de todos os estratos sociais da monarquia austro-húngara. Se queremos que o nosso Estado seja seguro, todas as nações têm que se ajudar mutuamente. A garantia do nosso futuro repousa no respeito espontâneo que uma nação sente pela outra. Os grandes sacrifícios de nossos bravos soldados, que em todos os fronts avançam incessantemente, não seriam possíveis se na retaguarda (a artéria política que nutre nosso glorioso exército) não houvesse uma perfeita harmonia, se às costas de nosso exército aparecessem elementos que destruíssem a unidade do Estado e que, com sua propaganda subversiva e sua malícia, enfraquecessem a autoridade da unidade estatal e perturbassem a união dos povos do nosso império. Neste momento histórico, não podemos contemplar tranquilamente, em silêncio, algumas poucas pessoas que por motivos regionalistas tentam perturbar a ação unitária da luta de todas as nações do nosso império, que tentam infligir um castigo justo aos miseráveis que atacaram sem motivo o império austro-húngaro com o objetivo de despossuí-lo de todos os seus bens culturais e civis. Não podemos ignorar essas imundas manifestações de uma alma enferma que não deseja nada além de acabar com a concórdia que reina no coração de nossas nações. Em diversas ocasiões indicamos nas páginas da nossa revista que as autoridades militares se veem

forçadas a intervir com o máximo rigor contra todos aqueles indivíduos dos regimentos tchecos que, sem o menor respeito pela gloriosa tradição militar, com seu comportamento insensato e furioso, semeiam em nossas cidades húngaras o rancor contra toda a nação tcheca, que em seu conjunto não tem nenhuma culpa e que sempre defendeu energicamente os interesses de nosso império, fato testemunhado por vários generais tchecos, entre os quais recordamos especialmente a brilhante figura do marechal de campo Radetzky e outros defensores da monarquia austro-húngara. Na contramão desses exemplos luminosos, há alguns miseráveis, membros da corrompida gentalha tcheca, que aproveitam a guerra para se alistar na condição de voluntários e perturbam a harmonia das nações que integram o reino, permanecendo fiéis a suas origens mesquinhas. Já descobrimos os malfeitos cometidos pelo regimento nº... em Debrecen, cujos excessos estudou e condenou o Parlamento de Budapeste e cuja bandeira, mais tarde, no front foi... (censurado). Quem tem sobre sua suja consciência esse crime horrível? Quem incentivou os tchecos a... (censurado)? O que melhor demonstra as liberdades que os estrangeiros se permitem em nossa pátria húngara é o escândalo de Királyhida, nossa fortaleza sobre o rio Litava. A que nação pertenciam os soldados do acampamento dos arredores de Most nad Litavou que atacaram e maltrataram o senhor Gyula Kákonyi, comerciante local? Evidentemente as autoridades têm a obrigação de investigar esse crime e perguntar ao comando militar, que, com toda certeza se ocupa desse assunto, qual é o papel do tenente Lukasch nessa inaudita perseguição contra os súditos da monarquia húngara. O nome do tenente Lukasch se espalhou por toda a cidade em relação aos acontecimentos dos últimos dias, segundo nos informou nosso correspondente naquela localidade, que já recolheu muito material relacionado com o incidente, que, em uma época tão séria como a que estamos vivendo, clama aos céus. Os leitores do Pester Lloyd certamente acompanharão com interesse o curso das investigações; nós, de nossa parte, lhes garantimos que não deixaremos de dar notícias a respeito do incidente de primeiríssima relevância. Mas, ao mesmo tempo, esperamos o informe oficial sobre o delito cometido em Királyhida contra a população húngara. É mais que evidente que o Parlamento de Budapeste terá de se ocupar deste assunto, para que fique claro, de uma vez por todas, que os soldados tchecos que cruzam o reino da Hungria para ir ao front não devem considerar o país da coroa de Santo Štĕpán como se fosse um território que ocuparam. Se alguns membros desta nação, que representou tão bem em Királyhida a afinidade racial de todas as nações de nossa monarquia, ainda não compreendem a situação, fariam melhor ficando com a boca fechada, porque, em tempos de guerra, um projétil, um nó bem dado, o cárcere ou a baioneta podem ensiná-los a obedecer e a se submeter aos supremos interesses de nossa pátria comum.

— Quem assina o artigo, tenente?

— Béla Barrabás, redator e deputado, senhor.

— É um notório imbecil. Mas, antes de aparecer no Pester Lloyd, esse

— É um notório imbecil. Mas, antes de aparecer no Pester Lloyd, esse

mesmo artigo foi publicado pelo Pesti Hírlap. E agora leia-me a tradução oficial do artigo em húngaro publicado no jornal Sopronyi Napló, de Šopron.

O tenente Lukáš leu em voz alta o artigo em que o jornalista insistia de

maneira anormal em usar uma mistura de frases como: “o comando da sabedoria estatal”, “a lei e a ordem no âmbito do Estado”, “a perversidade humana”, “a dignidade e os sentimentos do povo pisoteados”, “banquete canibal”, “a sociedade humana exterminada”, “bando de mamelucos”, “vocês os reconhecerão nos bastidores”. O artigo continuava no mesmo tom, como se os húngaros, em seu próprio território, fossem o elemento mais perseguido de todos. Como se os soldados tchecos tivessem chegado, atirado o jornalista de cara contra o chão, pisoteado seu ventre com suas botas militares enquanto ele gritava de dor e alguém tomava notas taquigráficas de seus lamentos.

“Um silêncio perigoso paira sobre alguns acontecimentos de extrema

importância. Nada se escreve a respeito” — lamentava o Sopronyi Napló.

Todos sabemos perfeitamente como se comporta um soldado tcheco na Hungria e no front, que tipo de atos os tchecos cometem e de quem são a responsabilidade e a culpa. Sem sombra de dúvida, as atenções das autoridades estão concentradas em outros assuntos mais transcendentes, o que, no entanto, não deveria ser óbice para que mantivessem uma estreita relação com a situação geral e evitar assim que aconteçam fatos como os que tiveram lugar nos últimos dias em Királyhida. Nosso artigo de ontem foi censurado em quinze pontos. Por isso não nos resta outro remédio a não ser declarar que inclusive hoje, por motivos de ordem técnica, não podemos nos ocupar amplamente dos acontecimentos de Királyhida. Nosso correspondente confirmou que as autoridades mostram um verdadeiro interesse por esse assunto e levam a cabo as investigações com grande celeridade. A única coisa que chamou nossa atenção foi o fato de alguns participantes daquela carniceria ainda estarem em liberdade; nos referimos, sobretudo, a um indivíduo que, segundo os rumores, ainda está no acampamento sem ter recebido nenhum castigo e que usa, impávido, o distintivo de seu “regimento

papagaio”,44 embora seu nome tenha sido mencionado ontem no Pester Lloyd e no Pesti Napló. Trata-se do conhecido chauvinista tcheco Lükáš, sobre cujas maquinações Géza Savanyu, nosso deputado que representa o distrito de Királyhida, apresentará uma interpelação.

— Em termos igualmente amáveis se referem ao senhor o semanário de

Királyhida e os jornais de Presburg — disse o coronel Schröder. — Mas, enfim, é a mesma ladainha de sempre. Atrás de tudo isso há motivações políticas, já sabemos, porque nós, os austríacos, tanto quanto os alemães ou tchecos, somos bastante anti-húngaros... O senhor me entende, tenente. Há uma certa tendência. Interessar-lhe-á mais o artigo do vespertino de Komárno, que afirma que o senhor tentou violentar a senhora Kákonyi diretamente na sala de jantar enquanto ela estava jantando e na presença de seu marido, a quem ameaçou com o sabre e obrigou a tapar a boca de sua mulher com um guardanapo para que não gritasse. Esta é a última notícia que temos a seu respeito, senhor tenente.

O coronel sorriu e continuou:

— As autoridades não cumpriram com seu dever. A censura prévia dos

jornais daqui também está nas mãos dos húngaros. Eles fazem com a gente o que bem entendem. Os nossos oficiais não têm como se proteger das ofensas dos porcos civis húngaros que trabalham como jornalistas nas redações dos jornais, e, apenas graças a nossa rigorosa intervenção, ou seja, a um telegrama de nosso tribunal da divisão, a Promotoria Pública de Budapeste deu passos pertinentes para que se levem a cabo diversas prisões em todas as redações mencionadas. Quem ganhará o primeiro prêmio das represálias será o editor do vespertino de Komárno, que não se esquecerá de seu jornal pelo resto da vida. O tribunal da divisão me encarregou de, como seu superior, interrogá-lo, e me enviou todos os documentos relativos ao seu caso. Tudo teria corrido bem se esse maldito Švejk não estivesse envolvido. Com ele prenderam um sapador, um tal de Vodička, e, no momento em que os levavam ao quartel-general depois da confusão, encontraram com esse sujeito a carta que o senhor enviara à senhora Kákonyi. Seu ordenança Švejk afirmou durante o interrogatório que a carta não era sua, tenente, e que ele próprio a escrevera, e quando lhe apresentaram a carta e lhe pediram que a copiasse para poder comparar a caligrafia, ele engoliu a folha que o senhor havia escrito. Então o escritório do regimento enviou os informes do senhor ao tribunal para compará-los com a letra de Švejk, e aqui está o resultado.

O coronel folheou os documentos e mostrou ao tenente o seguinte

parágrafo: “O acusado Švejk negou-se a escrever as frases que lhe ditaram, afirmando que no transcurso da noite se esquecera de como se escreve.”

— Senhor tenente, eu não considero nem um pouco importante o que Švejk

e o sapador disseram no tribunal da divisão. Švejk e o sapador garantem que se tratava apenas de uma pequena brincadeira mal interpretada. Sustentam que foram eles as vítimas do ataque de alguns civis e que tiveram de se defender deles em nome da honra militar. Durante a investigação foi possível constatar que seu Švejk é uma bela de uma flor. A título de exemplo, quando lhe perguntaram por que não queria confessar a verdade, de acordo com o que está escrito no protocolo, respondeu: “Estou na mesma situação em que esteve certa vez o criado do pintor acadêmico Panuška por causa de uns quadros da Virgem Maria. Como eram quadros que, segundo a acusação, ele reconhecera ter desviado, não disse nada além do seguinte: ‘Tenho que vomitar sangue?’” Naturalmente, em nome do comando do regimento, tomei providências para que seja publicada em todos os jornais, em nome da corte marcial da divisão, uma correção de todos esses infames artigos publicados pelos jornais locais. O comunicado será distribuído hoje. Espero ter feito tudo o que foi possível para consertar o que o comportamento inqualificável desses malditos jornalistas civis húngaros provocou. Creio que o redigi em bom estilo:

A corte marcial da divisão número N e o comando do regimento número N declaram que o artigo publicado no jornal local a propósito das supostas desordens provocadas pelos soldados do regimento número N não se baseia na verdade e portanto deve ser considerado uma invenção da primeira à última

linha; em consequência das investigações que estão sendo levadas a cabo, os culpados serão submetidos à mais severa das punições.

— A corte marcial da divisão — continuou o coronel —, em seu

comunicado dirigido ao comando de nosso regimento, sustenta que, na verdade, não se trata de nada além de uma sistemática instigação contra os regimentos militares que estão indo da Cisleitânia à Transleitânia. E veja quantas tropas nós havíamos enviado ao front e quantas eles enviaram. Para dizer a verdade, acho muito mais simpático um soldado tcheco do que toda essa chusma húngara. Recordo que certa vez, perto de Belgrado, os húngaros dispararam contra nosso segundo batalhão de linha, que não sabia que quem estava disparando eram os húngaros e abriram fogo contra os Deutchmeister na ala direita, e os Deutchmeister, levados também pelo seu erro, começaram a disparar contra o regimento bósnio que estava ao seu lado! Que confusão se armou naquele dia! Eu estava almoçando no estado-maior da brigada. No dia anterior tivéramos que nos contentar com presunto e sopa enlatada, e naquele dia nos serviram um bom caldo de galinha, filé com arroz e sonhos com creme. Na noite anterior havíamos enforcado na cidade um taverneiro sérvio e nossos cozinheiros encontraram em sua bodega um vinho de trinta anos. Imagine como fantasiávamos o almoço! Já havíamos acabado a sopa e nos dispúnhamos a atacar a galinha quando, de repente, começou o tiroteio. Nossa artilharia, que não tinha a menor ideia de que eram nossos regimentos que estavam disparando uns nos outros, começou a disparar contra nossa linha e uma granada caiu bem ao lado do estado-maior da brigada. Os sérvios, acreditando que em nosso exército havia se desatado um começo de rebelião, começaram a disparar contra a gente de todos os flancos e atravessaram o rio na nossa direção. Chamaram o general de brigada para que fosse ao telefone, enquanto o general de divisão armava um escândalo gritando que barbaridade estávamos fazendo, que ele acabara de receber da mais alta cúpula do exército a ordem de atacar a ala esquerda das posições sérvias às 2h35 da madrugada, que nós constituíamos a reserva e que era necessário mandar suspender, imediatamente, o fogo. Mas como pretendia deter o fogo em um caos como aquele!? A central telefônica da brigada anunciou que não conseguia entrar em contato com parte alguma, que respondia exclusivamente ao alto-comando do 75º Regimento, que tinha acabado de receber da divisão vizinha a ordem de “resistir”, que não era possível falar com nossa divisão, que os sérvios tinham acabado de ocupar as cotas 212, 226 e 327, que se pedia o envio de um batalhão que servisse de contato e que desejava falar conosco. Passamos a linha à divisão, mas as comunicações já haviam sido interrompidas porque, nesse meio-tempo, os sérvios haviam chegado por detrás de nossas alas e haviam reduzido nosso centro a um triângulo em que tudo ficava inserido: o regimento, a artilharia, o destacamento com toda a coluna motorizada, o armazém e a enfermaria ambulante. Passei dois dias montado em cima da sela; nosso general de divisão caiu nas mãos do inimigo junto com o general de brigada. E os responsáveis por todo aquele inferno foram os húngaros, que haviam começado a disparar contra nosso segundo batalhão de linha. Entende-se que depois tenham jogado a culpa em cima da gente.

O coronel cuspiu:

— Agora, tenente, o senhor mesmo deve ter se convencido de que se

aproveitaram de sua aventura em Királyhida.

O tenente Lukáš tossiu, perplexo. — Senhor tenente — disse o coronel em tom confidencial —, com a mão no

coração: quantas vezes o senhor se deitou com a senhora Kákonyi?

Naquele dia o coronel Schröder estava muito bem-humorado. — Não me diga, senhor tenente, que acabou de começar a se corresponder

com ela. Quando eu tinha sua idade, passei três semanas em Erlau fazendo um cursinho de agrimensor, e precisava ter me visto naquelas três semanas! Não fiz nada além de namorar com húngaras. Cada dia uma nova. Jovens e solteiras, mais velhas e casadas, conforme a ocasião. Levava tão a sério o trabalho com elas que quando voltava ao quartel mal conseguia caminhar. A que mais me esgotou foi a mulher de um advogado. Esta me ensinou tudo o que as húngaras sabem. Chegou a me morder o nariz, e não me deixou pregar os olhos durante toda a noite. Foi assim que começou a correspondência — continuou o coronel em tom confidencial, dando uma palmada no ombro do tenente —, ora. Não me diga nada, tenho minha própria opinião a respeito. O senhor se meteu com ela, o marido descobriu tudo e no final o idiota do Švejk... Quer saber de uma coisa, tenente? Seja como for, seu Švejk é um homem de caráter, se realmente fez tudo isso com a carta. É um homem como Deus manda, gosto muito do que fez. Por isso a investigação deve ser dada por concluída. O senhor, tenente, foi atacado duramente pelos jornais. Sua presença aqui é absolutamente desnecessária. Esta semana uma companhia partirá para a Rússia. O senhor é o oficial mais antigo da 11ª Companhia. Irá com ela na qualidade de comandante de companhia. Na brigada está tudo preparado. Diga ao intendente que procure outro ordenança para substituir esse Švejk.

O tenente Lukáš dirigiu um olhar cheio de gratidão ao coronel, mas este

continuou:

— Designo Švejk para ocupar o posto de ordenança da sua companhia. O coronel se levantou, apertou a mão de Lukáš, que empalidecera, e lhe

disse:

— Tudo está, pois, acertado. Desejo-lhe muita sorte, que triunfe no front

oriental. E se voltarmos a nos ver, venha a nossas reuniões, não nos evite como fez em Budějovice...

Ao voltar para casa, durante todo o caminho o tenente Lukáš não parava de

repetir:

— Comandante de companhia, ordenança da companhia. E a figura de Švejk surgiu diante dele com toda clareza. Quando o intendente Vaněk recebeu a ordem do tenente Lukáš para

encontrar um novo ordenança, que substituiria Švejk, esse disse:

— Eu achava que estava feliz com Švejk, tenente. Mas em seguida, ao saber que o coronel havia nomeado Švejk ordenança da

11ª Companhia, exclamou:

— Que Deus nos proteja!

 

Seguindo o regulamento, nas dependências da corte marcial da divisão, um barracão provido de grades, todo mundo se levantava às sete da manhã e em seguida ia colocar em ordem os colchões, que estavam no chão, empoeirados. Não havia catres. Sempre conforme o regulamento, as mantas eram depositadas sobre os colchões ao longo da parede daquele comprido dormitório. Quando terminavam o trabalho, os homens se sentavam nos bancos ao longo da parede e catavam piolhos — os que tinham acabado de voltar da guerra —, ou então se divertiam contando histórias.

Švejk e o velho sapador Vodička estavam sentados em um banco ao lado da

porta, perto de alguns soldados de diversos regimentos e formações.

— Rapazes — começou Vodička —, vejam como aquele porco húngaro que

está ao lado da janela reza para que tudo corra bem, o desgraçado. Não gostariam de rasgar a cara dele de orelha a orelha?

— Mas é uma boa pessoa — disse Švejk. — Está aqui porque não queria se

incorporar às fileiras. É contra a guerra porque pertence a uma espécie de seita e foi preso porque não queria matar ninguém. Segue o mandamento de Deus, mas logo o obrigarão a engolir seu mandamento! Antes da guerra, na Morávia, vivia um senhor que se chamava Nemrava que não queria apoiar o fuzil no ombro, dizia que carregar um fuzil atentava contra seus princípios. Foi colocado atrás das grades e mantiveram-no ali por tanto tempo que ficou com um humor de cão. Depois o chamaram de novo para prestar juramento e ele disse que não, que não jurava, que aquilo ia contra seus princípios. Aguentou tudo aquilo e no final fez o que quis.

— Um estúpido — disse o sapador Vodička. — Poderia ter jurado e depois

cagar para tudo, inclusive seu juramento.

— Eu já jurei três vezes — afirmou um soldado de infantaria — e é a

terceira vez que estou aqui por deserção; se não tivesse um atestado médico segundo o qual, há quinze anos, em estado de demência, matei minha tia, certamente teriam me fuzilado três vezes. Mas minha defunta tia, pobrezinha, sempre me ajuda na emergência, e assim no final talvez consiga voltar para casa sem nenhum arranhão.

— E por que, meu amigo, você matou sua tia? — perguntou Švejk. — Por que se matam as pessoas? — respondeu o homem de maneira

simpática. — É mais claro do que a água: por dinheiro. A velha tinha cinco cadernetas de poupança e lhe enviaram os juros num dia em que eu estava sem um tostão e fora visitá-la. Afora ela, não tinha ninguém neste mundo. De maneira que lhe pedi que me ajudasse, mas ela, a víbora má, me disse que fosse trabalhar, que era jovem, forte e saudável. Uma coisa leva a outra: dei-lhe apenas dois golpes na cabeça com um atiçador e deixei sua cara de um modo que já não sabia se era a minha tia ou não. E assim fiquei diante dela e não parava de me perguntar: “É a minha tia ou não é a minha tia?” E nesse estado me encontraram os vizinhos, no dia seguinte, ao seu lado. Então fui enviado ao manicômio de Slupi e quando, antes da guerra, nos levaram diante da comissão do manicômio de Bohnice, me declararam curado e em seguida tive de me alistar no exército e cumprir os anos que havia perdido.

Ao seu lado passou um soldado esguio e magro com ar abatido, carregando

uma vassoura.

— É um professor do último batalhão de linha — apresentou-o o artilheiro

que estava sentado ao lado de Švejk. — Agora começará a varrer seu lugar. É um sujeito muito organizado. Está aqui por culpa de um poema que escreveu.

— Venha cá, professor! — gritou para o homem da vassoura, que se

aproximou do banco com expressão muito séria. — Conte-nos aquela história dos pulgões.

O soldado da vassoura tossiu e começou a declamar:

Todos se coçam sem cordura

sem importar os galões.

Até os de mais envergadura

são devorados pelos pulgões.

No exército uma pulga vive sã

chupando um manjar excelente.

Copula com a pulga prussiana

e o austríaco pulgão decadente.45

O soldado professor de ar abatido se sentou no banco ao lado dos demais e

suspirou:

— Nada do outro mundo, não é mesmo? Pois por esta besteira o auditor me

interrogou quatro vezes.

— Na verdade, não vale a pena nem conversar sobre isso — disse Švejk com

grande sabedoria. — Agora depende de como o tribunal vai interpretar essa coisa de “austríaco pulgão decadente”. Você tem sorte de ter usado a palavra copular; isso os deixará tão desconcertados que ficarão sem saber o que fazer. Bastará lhes dizer que o pulgão é o macho da pulga e que só um pulgão pode copular com uma pulga. De outra maneira, você não conseguirá se livrar do problema. É evidente que não escreveu isso para incomodar ninguém. Diga ao auditor que escreveu para se divertir e explique a ele que esse caso é semelhante ao dos cavalos: assim como o macho da égua se chama cavalo, o macho do piolho se chama pulgão.

O professor suspirou:

— O problema é que o auditor não sabe praticamente nada de tcheco. Já

tentei lhe explicar tudo isso de uma maneira parecida, mas ele me interrompeu dizendo que piolho não tem masculino nem feminino. “Não pulgão”, disse o auditor. “Pulgão ser outra coisa. Femininum piolho fêmea, masculinum piolho macho. Já conhecemos essa história.”

— Em poucas e boas palavras — concluiu Švejk —, não há dúvida de que

para você esse é um assunto espinhoso; mas não perca as esperanças, como disse um cigano de Pilsen, um tal de Janeček, pois tudo pode melhorar. Disse isso quando foi condenado a morrer na forca em 1879 por ter cometido um duplo latrocínio. E tinha razão, porque o deixaram ir embora quando já estava com a corda no pescoço, pois não puderam pendurá-lo porque era o aniversário do imperador. E por isso o enforcaram um dia depois do aniversário e o cigano teve a sorte de ter sido indultado no terceiro dia e foi necessário julgá-lo de novo porque tudo indicava que quem havia cometido o crime não fora ele, mas outro Janeček. E assim tiveram que desenterrá-lo do cemitério de condenados e trasladá-lo ao cemitério católico de Pilsen, mas logo se deram conta de que não era católico, mas evangélico, de modo que o trasladaram ao cemitério evangélico e depois...

— Depois vou lhe dar um par de tapas — interrompeu-o o velho sapador

Vodička. — O que esse cara está pensando... Estamos todos preocupados com a corte marcial da divisão e ele não para de falar. Como ontem, quando estávamos sendo levados ao interrogatório e ele ficou me explicando o que é a rosa de Jericó.

— Mas isso quem inventou não fui eu, e sim o Matĕj, o criado do pintor

Panuška, aquele que explicou a uma velha quando esta lhe perguntou que aspecto tinha a rosa de Jericó. Então lhe disse: “Pegue uma bosta de vaca, coloque-a em um prato, regue-a com água e crescerão folhas verdes: isso é a rosa de Jericó” — defendeu-se Š vejk. — Eu não inventei essa besteira, mas tínhamos que conversar sobre alguma coisa quando estávamos indo para o interrogatório. Eu só queria consolá-lo, Vodička...

— Você me consolar... — disse Vodička, cuspindo com desprezo. — Só

estou preocupado em como vou fazer para sair do atoladeiro e ficar em liberdade para acertar as contas com os húngaros e ele quer me consolar com uma bosta! Como posso fazer para que esses húngaros nos paguem pelo que fizeram com a gente se estou trancafiado e ainda por cima tenho de fingir e dizer ao auditor que não tenho absolutamente nenhum ressentimento contra eles! Que vida de cão! Mas no dia em que um desses porcos cair em minhas mãos eu o estrangularei como se fosse um cachorro!

Vou lhes mostrar o isten áld meg a magyar,46 logo acertaremos as contas, vocês vão ver que ainda ouvirão falar de mim!

— Não precisamos nos preocupar nem um pouco com isso — disse Švejk

—, tudo se acertará; o mais importante é sempre dizer mentiras no tribunal. Aquele que se deixa seduzir e confessa a verdade está perdido, será sempre um zero à esquerda. Quando eu trabalhava em Moravská Ostrava, aconteceu o seguinte caso: um mineiro deu um soco no meio dos quatro-olhos de um engenheiro quando estava sozinho com ele e ninguém viu. O advogado que o defendia insistiu que negasse tudo, que não poderiam fazer nada contra ele; no entanto, o presidente do júri tentou convencê-lo de que a confissão era uma circunstância atenuante. Ele continuou insistindo que não tinha nada a confessar, de maneira que quando apresentou o álibi foi absolvido. No mesmo dia, em Brno...

— Meu Deus do céu! — irritou-se Vodička —, não aguento mais! Não

entendo por que o idiota não para. Ontem no interrogatório havia alguém assim. Quando o auditor lhe perguntou que ofício tinha na vida civil, ele disse: “Eu sopro para o Křiž.” E levou mais de meia hora para explicar claramente que soprava o fole do ferreiro Křiž. E quando lhe perguntaram: “Então na vida civil o senhor é auxiliar de

operário?”, ele respondeu: “Como assim? O guarda-noturno é o Franta Hybš47 Cruz.”

Ouviram-se passos no corredor e uma exclamação da sentinela: — Novo lote!

— Está chegando mais gente — disse Švejk alegremente. — Talvez um dos

novos tenha conseguido esconder algum tabaco.

A porta foi aberta e empurraram para dentro um voluntário, o mesmo que

estivera com Švejk na prisão de Budějovice e fora destinado à cozinha de alguma companhia que estava indo ao front.

— Louvado seja o Senhor Jesus Cristo! — disse assim que entrou, e Švejk

respondeu por todos:

— Para sempre seja louvado, amém!

O voluntário olhou para Švejk com tranquilidade. Colocou no chão a manta

que trouxera com ele, se sentou no banco com o grupo tcheco, tirou as polainas, pegou os cigarros que tinha escondido em suas dobras e os distribuiu. Depois tirou das botas um pedaço de lixa de uma caixinha de fósforos e alguns palitos com a cabeça cortada pelo meio.

Riscou um fósforo, acendeu com muito cuidado um cigarro, ofereceu fogo

para todo mundo e disse, com indiferença:

— Estou sendo acusado de insubordinação.

— Isso não é nada — disse Švejk, querendo consolá-lo —, não passa de

uma brincadeira.

— É claro que é — disse o voluntário —, mas eu realmente não entendo se

nossa intenção é ganhar a guerra através de todos esses processos. Se querem me julgar de qualquer maneira, que me julguem. No fundo, um processo não muda a situação global.

— E como você se insubordinou? — perguntou o velho sapador Vodička,

olhando com simpatia para o voluntário.

— Me recusei a limpar as latrinas do quartel-general — respondeu — e por

isso me levaram ao coronel, um porco repugnante. Começou a gritar que eu estava ali para a corte marcial, que não passava de um preso comum, que se espantava de que a Terra ainda me aguentasse sobre ela e que sentia vergonha de que no exército tivesse aparecido um homem que, embora tivesse o direito de ser voluntário, podendo usufruir por um ano das honrarias destinadas aos oficiais, em troca despertava, com seu comportamento, o asco e o desprezo dos superiores. Respondi que a rotação do globo terrestre não pode ser detida pelo simples fato de que tenha aparecido um voluntário como eu, que as leis da natureza são mais poderosas do que os galões dos voluntários e que gostaria de saber o que podia me obrigar a limpar uma latrina que não sujei embora tivesse direito, levando em conta o rancho repugnante do regimento, a couve podre e a carne de carneiro urinada que nos é servida. Disse também ao coronel que sua surpresa diante do fato de a Terra me aguentar era um pouco estranha, pois nenhum terremoto acontece por minha culpa. Durante todo o meu discurso o coronel não parava de bater os dentes de raiva, como uma égua quando sente o frio dos nabos congelados na língua, e depois gritou: “Vai limpar as latrinas ou não?” “Humildemente, não vou limpar.” “Pelos diabos, é claro que vai limpar, não uma, mas cem latrinas!” “Humildemente, não vou limpar nem cem nem uma latrina.”

“E a mesma cantilena ficou se repetindo: ‘Vai limpar.’ ‘Não vou limpar.’ As

latrinas iam de um lado a outro como se fossem uma canção de ninar da escritora Pavla Moudrá. O coronel corria pela sala como um possesso; finalmente se sentou e disse: ‘ Pense bem, eu o enviarei ao tribunal da divisão por insubordinação. Não creia que será o primeiro voluntário a ser fuzilado nesta guerra. Na Sérvia penduramos dois da 10 ª Companhia e fuzilamos, como se fosse um cordeiro, um voluntário da 9ª. E quer saber por quê? Porque eram teimosos. Os dois que foram enforcados tinham se negado a apunhalar a mulher e o filho de um guerrilheiro balcânico perto de Šabac e o da 9ª foi fuzilado porque não queria avançar e se desculpava dizendo que tinha pés chatos e que ficavam inchados. E então, vai limpar as latrinas ou não?’ ‘Humildemente, não’, respondi. O coronel me olhou e disse: ‘Ouça, você é, por acaso, eslavófilo?’

‘ Humildemente, não sou.’ Depois me levaram e me comunicaram que eu estava sendo acusado de insubordinação.

— O melhor que você pode fazer agora — aconselhou-o Švejk — é se fazer

passar por idiota. Quando estive preso no quartel, havia entre nós um homem muito inteligente e culto, um professor da escola de comércio. Desertara do front e foi submetido a um daqueles célebres processos que eram instaurados para que servissem de exemplo. Pois ele se livrou da condenação e da forca de uma maneira muito simples. Fingiu que tinha uma tara hereditária e, quando foi examinado pelo médico do alto-comando, disse que não havia desertado, que desde a infância gostava muito de viajar e que de vez em quando sentia um desejo irrefreável de desaparecer, de ir a algum lugar distante. Que uma vez acordara em Hamburgo, outra em Londres, e que não tinha a mais remota ideia de como chegara àqueles lugares. Que seu pai era alcoólatra e havia se suicidado antes de seu nascimento, que sua mãe era prostituta, bebia muito e morrera de delirium tremens. Sua irmã menor se afogara e a maior se atirara embaixo de um trem, seu irmão se jogara da ponte da estrada de ferro de Vyšehrad, o avô assassinara sua mulher, se cobrira de gasolina e se incendiara, a outra avó andava com ciganos e se envenenara no cárcere com fósforos, um de seus primos fora condenado várias vezes como incendiário e cortara as veias do pescoço com cacos de vidro na prisão do monastério da ordem dos cartuxos, uma prima por parte de pai se atirara de um sexto andar em Viena, e sua própria formação fora muito precária, não havia aprendido a falar até os dez anos porque, quando tinha seis meses, um dia, quando estavam trocando suas fraldas, colocaram-no em cima de uma mesa e se afastaram por um momento e nesse meio-tempo um gato o derrubou no chão e ele bateu com a cabeça; a partir de então de vez em quando tinha fortes dores de cabeça e nesses momentos não sabia o que fazia; quando partiu do front em direção a Praga estava naquele estado e não voltou a si até que a polícia militar o deteve na cervejaria U Fleků. Meu Deus, você precisava ter visto como ficaram felizes de deixá-lo abandonar o exército. E uns cinco soldados que estavam com ele atrás das grades anotaram, por via das dúvidas, sua história mais ou menos dessa maneira:

“Pai alcoólatra. Mãe prostituta.

I. irmã (afogada).

II. irmã (trem).

Irmão (da ponte).

Avô + mulher, gasolina, queimou. II. avó (ciganos, fósforos) + etc.

“Quando um deles começou a contar essa história ao médico militar, não

conseguiu ir além do primo e, como já era o terceiro caso, o médico o interrompeu dizendo: ‘Sim, homem, e sua prima por parte de pai se atirou do sexto andar em Viena, você recebeu uma formação muito precária, e por isso o reformatório lhe fará muito bem.’ De modo que o levaram para lá, onde o moeram a pauladas e de repente a formação precária e o pai alcoólatra desapareceram e preferiu se alistar no exército como voluntário.”

— Hoje em dia, no exército — disse o voluntário —, ninguém mais acredita

— Hoje em dia, no exército — disse o voluntário —, ninguém mais acredita

em taras hereditárias porque então teriam que trancar em um manicômio todos os oficiais do Estado-Maior.

Ouviu-se alguém girando a chave na fechadura da porta de ferro e em

seguida entrou o carcereiro.

— Soldado de infantaria Švejk, sapador Vodička, ao senhor auditor! Levantaram-se e Vodička disse a Švejk: — Você viu como são idiotas? Todos os dias nos interrogam e não

conseguem esclarecer nada. Seria melhor que nos condenassem da porra de uma vez ao invés de ficar nos levando de um lado a outro! Passamos o dia inteiro de Deus deitados aqui e aqueles bastardos húngaros correndo em volta...

Enquanto se dirigiam ao outro lado do acampamento, à sala do tribunal da

divisão onde seriam interrogados, o sapador Vodička e Švejk ficaram se perguntando quando os levariam, finalmente, a um tribunal comum.

— Sempre o mesmo interrogatório! — disse Vodička, indignado. — Se

pelo menos esclarecessem alguma coisa! Gastam montanhas de papel, mas nem sinal do julgamento. Desse jeito vamos apodrecer atrás das grades. Me responda com toda sinceridade: é possível comer a sopa que nos servem? E a couve com batatas congeladas? Pelo amor de Deus, nunca vi uma guerra mundial tão estúpida como esta. Eu a imaginei de uma maneira muito diferente.

— Eu, pelo contrário, estou muito tranquilo — disse Švejk. — Há alguns

anos, quando estava fazendo o serviço militar, o Solpera, nosso primeiro-cabo, dizia que no exército todo mundo tem que ter consciência de suas obrigações e lhe dava uma bofetada tão forte que você nunca mais a esquecia. Quando o falecido tenente Kvajser vinha examinar os fuzis, sempre dizia que cada soldado tem que demonstrar a máxima firmeza de espírito porque os soldados não passam de animais que o Estado alimenta, que recebem café e tabaco de cachimbo, e por isso se espera deles que trabalhem como burros de carga.

O sapador Vodička ficou pensando e depois disse: — Quando estiver diante do auditor, Švejk, não se equivoque e repita a

mesma coisa que lhes contou no outro dia. Não vá se meter em confusão. Quero dizer que o mais importante é você contar que viu aqueles rapazes húngaros me atacarem. Não se esqueça, fizemos tudo juntos.

— Não tenha medo de nada, Vodička — tranquilizou-o Švejk. — Acalme-

se, não fique nervoso. O que há de estranho em ir a um tribunal de divisão? Você precisava ver como, há alguns anos, os tribunais se livravam do trabalho. No serviço militar havia um tal de professor Heral e uma vez, quando mandaram que todos os homens do nosso alojamento ficassem presos no quartel, nos disse, esticado no colchão, que no Museu de Praga havia um livro com anotações de um tribunal militar da época de Maria Tereza. Cada regimento tinha seu carrasco, que executava os soldados do regimento, um depois do outro, ao preço de um táler de Maria Tereza por cada execução. Segundo aquele registro, havia dias em que o verdugo ganhava até cinco táleres. É claro que — acrescentou Švejk judiciosamente — naqueles tempos os regimentos eram fortes e complementados constantemente nas aldeias.

— Quando eu estava na Sérvia — disse Vodička —, aparecia muita gente na

brigada se oferecendo para enforcar guerrilheiros balcânicos; como recompensa, recebiam cigarros. Aquele que pendurava um homem recebia dez Sport; uma mulher e uma criança, cinco. Então a intendência começou a economizar enforcando em massa. Comigo estava um cigano e só soubemos muito tempo depois que se dedicava a essa atividade. A única coisa que achávamos estranha é que à noite era sempre chamado à administração. Naquela época estávamos perto do Drina. E uma noite, quando ele estava fora, alguém resolveu fuçar em suas coisas. Bem, acontece que o espertinho tinha três pacotes de cem cigarros na mochila. Quando voltou, de madrugada, ao celeiro onde dormíamos, o submetemos a um julgamento sumário. Jogamos o sujeito no chão e um tal de Běloun o estrangulou com uma correia. Mas o canalha tinha sete vidas, parecia um gato.

O velho sapador Vodička cuspiu: — Não conseguiram estrangulá-lo. Cagou em cima da gente, seus olhos

saltaram das órbitas e continuou vivo como um galo que não foi inteiramente degolado. De modo que nos vimos obrigados a despedaçá-lo como se fosse um gato. Dois homens seguraram sua cabeça, dois os pés e torceram seu pescoço. Depois colocaram em suas costas a mochila com os cigarros e o jogaram no Drina. Quem conseguiria fumar aqueles cigarros! Na manhã seguinte, ficaram procurando o sujeito em todos os lugares.

— Vocês deveriam ter dito que havia desertado — observou Švejk,

sabiamente. — Que estava preparando tudo, que todo dia dizia que ia fugir.

— Mas quem conseguiria pensar numa coisa dessas! — respondeu Vodička.

— Nós fizemos nosso trabalho e não nos importamos com os outros. Ali tudo era mais fácil. Todo dia alguém desaparecia e nem os tiravam mais do Drina. Um guerrilheiro balcânico flutuava Drina abaixo em direção ao Danúbio ao lado de um dos nossos da Defesa Territorial. Alguns novatos ficavam um pouco febris quando viam pela primeira vez um espetáculo daqueles.

— Deveriam ter lhes dado quinina — sentenciou Švejk. Entraram no barracão onde ficavam as salas do tribunal da divisão. A

patrulha levou-os à de número 8, na qual, atrás de uma longa mesa coberta com pilhas de papéis, estava sentado o auditor Ruller.

Diante dele, em cima de um dos volumes do código penal, descansava uma

xícara de chá meio vazia. No lado direito da mesa havia um crucifixo de falso marfim com um Cristo empoeirado que olhava desesperadamente para a base da cruz, cheia de cinzas e pontas de cigarro.

Naquele momento, o auditor Ruller sacudia a cinza de um cigarro para

avivar o sofrimento do Deus crucifixado; com a outra mão puxava a xícara de chá que se grudara no código.

Depois de ter descolado a xícara do código, o auditor continuou folheando

um livro que haviam lhe emprestado no cassino dos oficiais.

Tratava-se de um texto de F. S. Kraus em alemão com o promissor título

Pesquisas sobre a história do desenvolvimento da moral sexual.

Imerso na contemplação de algumas reproduções de ingênuos desenhos de

órgãos sexuais masculinos e femininos, que estavam acompanhados de alguns versos que o sábio F. S. Kraus provavelmente encontrara nos mictórios da estação de trem de Berlim Ocidental, o auditor não percebeu a presença dos homens que haviam acabado de entrar na sala.

Só quando Vodička tossiu o auditor parou de contemplar os desenhos.

— O que está acontecendo? — perguntou, sem parar de folhear o livro,

procurando novos desenhos ingênuos.

— Humildemente, senhor — respondeu Švejk —, o companheiro Vodička

pegou um resfriado e por isso está tossindo.

Então, finalmente, o auditor Ruller olhou para Švejk e Vodička. E aí tentou

esboçar em seu rosto uma expressão severa.

— Até que enfim vocês chegaram, rapazes — disse, afastando uma das pilhas

de papéis da mesa. — Mandei que estivessem aqui às nove e já são quase onze.

“Que posição é essa, seu idiota?”, perguntou a Vodička, que havia tomado a

liberdade de adotar a posição de descanso. “Só quando disser Descansar! poderá fazer o que quiser com suas patas.”

— Humildemente, senhor — disse Švejk —, meu companheiro sofre de

reumatismo.

— Você, cale a boca — disse o auditor Ruller. — Responda só quando eu

lhe perguntar. Já o submeti três vezes a um interrogatório cruzado e foi como tentar tirar água da pedra. E, então, vou encontrar o expediente ou não? Quanto trabalho vocês estão me dando, seus ordinários! Mas vai lhes custar caro molestar o tribunal inutilmente.

“Vejam isso”, disse quando tirou, finalmente, da pilha uma grossa pasta com

a inscrição SCHW E JK & WOD ITSCHKA. “Não pensem que vão ficar usando o tribunal da divisão por causa de uma estúpida briga e que assim conseguirão adiar sua ida ao front por algum tempo. Por culpa de vocês fui obrigado, inclusive, a telefonar ao tribunal do exército, idiotas!”

Suspirou.

— Não faça uma cara tão séria, Švejk — continuou. — No front você vai

perder logo a vontade de brigar com soldados húngaros. A investigação contra vocês está suspensa e cada um voltará a seu regimento, onde receberão o castigo que merecem de acordo com as acusações. Depois irão ao front com a primeira companhia de linha. E se voltarem a cair em minhas mãos, eu os farei pagar caro! Aqui está a dispensa e se comportem como é devido. Levem-nos à sala número 2.

— Humildemente, senhor — disse Švejk —, levaremos muito a sério suas

palavras e lhe agradecemos de todo o coração sua bondade. Se estivéssemos à paisana lhe diria que o senhor tem um coração de ouro. E aproveitamos a oportunidade para lhe pedir que nos desculpe pelas dores de cabeça que lhe causamos. Não merecemos de modo algum semelhante deferência.

— Vão para o diabo! — exclamou o auditor, dirigindo-se a Švejk. — Se o

coronel Schröder não tivesse intervindo a seu favor, não sei o que teria acontecido com vocês.

Vodička não se sentiu de todo como o velho Vodička de sempre até que saiu

ao corredor, acompanhado da patrulha que os conduzia à sala número 2. O soldado que os acompanhava estava com medo de se atrasar para o almoço e por isso disse:

— Vamos, rapazes, vamos! Estão andando como lesmas! Então Vodička replicou que seria melhor que fechasse o bico, que tinha

sorte de ser tcheco, porque se fosse húngaro o despedaçaria como se fosse um arenque.

Como os auxiliares de escritório haviam ido buscar o rancho, o soldado que

os acompanhava teve de levá-los de novo à cela do tribunal da divisão; enquanto o fazia, não conseguia deixar de proferir maldições contra a odiosa raça dos auxiliares de escritórios do exército.

— Meus companheiros comerão de novo toda a gordura da sopa —

lamentava-se em voz trágica — e no lugar da carne só me deixarão ossos. Ontem também me coube acompanhar dois soldados pelo acampamento e enquanto isso alguém devorou metade da bisnaga que tinham reservado para mim.

— Aqui no tribunal da divisão vocês só pensam em encher a barriga —

disse Vodička, que já recuperara o ânimo e voltava a ser ele.

Quando disseram ao voluntário como tudo transcorrera, este exclamou: — De maneira que lhes caberá a companhia que marchar ao front, amigos!

Preciso lhes desejar, como fazem as revistas tchecas de turismo, boa viagem! Os preparativos preliminares para a viagem já foram feitos, a gloriosa administração do exército se encarregou de tudo. Vocês foram convidados a participar da excursão à Galícia, ora. Viajem com alegria e serenidade. Observem com amor todas as regiões pelas quais passarem, tanto por sua beleza como por seus atrativos. Em terras distantes se sentirão como se estivessem em casa, como em um lugar familiar, sim, quase como na amada pátria. Comecem a peregrinação a essas terras com sentimentos elevados. O velho Humboldt disse: “Em todo o mundo nunca vi nada mais grandioso do que aquela estúpida Galícia.” As abundantes e preciosas experiências que nosso glorioso exército terá acumulado quando voltar da Galícia servirão de guia magnífico para uma nova campanha. Avante, sempre avante à Rússia, com o objetivo de disparar com alegria todos os cartuchos.

Depois do almoço, antes de Švejk e Vodička irem à administração,

aproximou-se deles o pobre professor que escrevera o poema dos pulgões. Puxando-os para um lado, disse, em tom confidencial:

— Quando estiverem no lado russo, não se esqueçam de lhes dizer, em

russo: “Olá, irmãos russos, nós somos seus irmãos tchecos, não somos austríacos!”

Ao sair da cela, Vodička, que queria manifestar seu ódio pelos húngaros e

deixar claro que a prisão não destruíra nem minara suas convicções, pisou no pé do húngaro que não queria ir à guerra e gritou:

— Calce os sapatos, animal!

— Devia ter me respondido — disse depois o velho sapador com tristeza,

dirigindo-se a Švejk. — Se tivesse respondido, teria dado uma porrada em sua cara húngara como jamais se viu. Mas o cabeça oca fica calado e deixa que pisem nos seus pés. Pelo amor de Deus, Švejk, eu estou furioso assim porque não fui condenado! Parece que estavam rindo da gente, que não vale a pena perder tempo com húngaros. E nós lutamos como leões! Você também os deixou estropiados, é culpa sua se não fomos condenados e se nos deram carta branca, como se não soubéssemos brigar. O que estão pensando a nosso respeito, depois de tudo? Foi uma ótima briga!

— Querido amigo — disse Švejk com benevolência —, não entendo por

que você não está feliz. O tribunal da divisão reconheceu que somos pessoas honradas contra as quais nada se pode fazer. É verdade que durante o interrogatório inventei algumas coisas a título de desculpa, mas era necessário; diante de um tribunal sua obrigação é mentir, como dizia o advogado Bass a seus clientes. Quando o auditor me perguntou por que irrompemos na casa do senhor Kákonyi, respondi, simplesmente: “Achei que visitar o senhor Kákonyi seria a melhor maneira de conhecê-lo.” O auditor não me perguntou mais nada, já tinha o suficiente.

“Recorde”, continuou refletindo Švejk, “que diante dos tribunais militares

nunca se deve confessar a verdade. Quando estava diante do tribunal da guarnição, um soldado da cela ao lado confessou o que havia feito. Quando os demais ficaram sabendo, lhe deram uma surra e o obrigaram a desmentir a confissão”.

— Se eu tivesse feito alguma coisa desonesta, não teria confessado — disse o

sapador Vodička. — Mas como o burro do auditor me perguntou diretamente: “Você brigou?”, então respondi: “Sim, briguei!” “Maltratou alguém?” “Claro que sim, senhor auditor!”, disse, para que soubesse com quem estava falando. E é exatamente aí que está a vergonha: deixaram que fôssemos embora. É como se não acreditassem que quebrei a chibata de tanto bater nos porcos húngaros, que deixei-os destroçados, cheios de galos e manchas roxas. Você também estava lá e viu que, em certo momento, tive três cães húngaros em cima de mim e que depois de um segundo todos se remexiam no chão enquanto eu os pisoteava. E depois disso tudo, um auditor mequetrefe suspende a ação contra nós! É como se me dissesse: “O que você imaginou? Que eu ia acreditar que um joão-ninguém como você saiu na porrada?” Quando a guerra acabar e eu voltar à vida civil, vou procurá-lo para lhe mostrar se sei brigar ou não! Depois voltarei para cá, para Királyhida, e armarei uma confusão como o mundo nunca viu. As pessoas terão que se esconder nos porões quando souberem que Vodička veio visitar os idiotas de Királyhida, esses sem-vergonha, esses canalhas!

 

No escritório, as formalidades foram concluídas rapidamente. Um sargento-mor de rosto grave e com os lábios ainda gordurosos do almoço entregou a Švejk e a Vodička seus documentos e não perdeu a oportunidade de fazer um discurso apelando ao seu espírito militar; e como era Wasserpolak, fez o sermão em seu dialeto ridículo, uma mistura de polonês e alemão, dizendo coisas como “marekvium”, “glupi rolmopsie”,

“krajcová sedmina”, “sviňa porýpana” e “dum vám banĕ na mjesjnuckov vaši gzichty.48”

Quando chegou o momento de se despedir de Vodička porque cada um

devia ir para seu regimento, Švejk disse:

— Venha me visitar depois da guerra. Estarei toda tarde depois das seis na

taverna U Kalicha, na rua Na Bojišti.

— Logo nos veremos, então — respondeu Vodička. — E conseguiremos

nos divertir na sua taverna?

— Todo dia acontece alguma coisa — prometeu Švejk. — Se o ambiente

estiver muito tranquilo, nós mesmos aprontaremos uma bagunça dos mil demônios.

Afastaram-se. Quando já haviam se distanciado alguns passos, o velho

sapador gritou para Švejk:

— Que haja confusão quando for vê-lo!

Švejk respondeu:

— Venha sem falta!

Afastaram-se e, depois de um tempo, de uma esquina da segunda linha dos

barracões, ouviu-se a voz de Vodička:

— Švejk! Ei, Švejk, que cerveja servem no U Kalicha?

E, como um eco, chegou a resposta de Švejk: — Velkopopovický!

— Eu achava que era a Smíchovský!49 — gritou Vodička, que já ia longe. — Também têm garotas! — gritou Švejk. — Então depois da guerra, às seis da tarde! — gritou Vodička de uma rua

mais abaixo.

— Será melhor aparecer às seis e meia, para o caso de me atrasar! —

respondeu Švejk.

Então voltou a se ouvir a voz de Vodička, já muito distante: — Você não pode às seis?

— Tudo bem, estarei lá às seis! — foi o que Vodička ouviu como resposta

do companheiro que se distanciava.

Foi assim que o bom soldado Švejk se despediu do velho sapador Vodička.

Como reza o ditado alemão: Wenn die Leute auseinandergehen, da sagen sie auf

Wiedersehen!50

44 Referência à cor dos uniformes usados pelo 91º Regimento. (N. do T.)

45 Referência ao imperador Franz Joseph. (N. do T.)

46 “Deus abençoe os húngaros”, primeiras palavras do hino nacional húngaro. (N. do T.)

47 Jogo de palavras em tcheco intraduzível. “Křiž” significa “cruz”. Ou seja, ele era auxiliar do ferreiro “Cruz”. Auxiliar de operário é “pomocný dělník” e na época havia uma profissão, já extinta, chamada de “ponocný”, uma espécie de guarda-noturno que andava à noite pelas cidades soprando uma corneta para avisar cada hora cheia, como os sinos das igrejas. (N. do T.)

48 Wasserpolak (literalmente polo aquático) é como eram chamados, pejorativamente, os habitantes da Silésia do Sul e do Oeste, onde se falava uma língua que era uma mistura de alemão e polonês. (N. do T.)

49 Duas marcas famosas de cerveja tcheca. (N. do T.)

50 Quando as pessoas se separam, dizem “até logo”. (N. do T.)