As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 5 de 30

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

3 - Švejk diante dos médicos forenses

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Š vejk diante dos médicos forenses

Š vejk teve a melhor das impressões dos quartinhos limpos e acolhedores do Tribunal Penal Regional, assim como das paredes pintadas de branco, das grades envernizadas de preto e do gordo senhor Demartini, chefe da carceragem, com seu quepe oficial bordado de roxo... A cor roxa não era prescrita apenas ali, mas também nas cerimônias religiosas da Quarta-feira de Cinzas e da Sexta-feira Santa.

Repetia-se a gloriosa história do domínio romano sobre Jerusalém. Em

1914, os vitoriosos levavam os prisioneiros ao andar térreo para apresentá-los a Pilatos. E os juízes de instrução, os Pilatos dos tempos modernos, em lugar de lavar honradamente as mãos, mandavam que lhes trouxessem de uma taverna vizinha, a Teissig, gulache e cerveja fabricada em Pilsen e se queixavam sem parar da promotoria.

Na maioria dos casos, tudo era desprovido de lógica e o vitorioso absoluto

era o §. O § estrangulava, o § fazia barbaridades, o § cuspia, o § ria, o § ameaçava, o § matava; a única coisa que o § jamais fazia era perdoar. Os juízes de instrução não passavam de trovadores da lei, imoladores das letras mortas do código, devoradores de acusados, tigres da selva austríaca que calculavam seu ataque à vítima de acordo com o número do parágrafo.

Mesmo assim havia algumas exceções (assim como na chefatura de polícia):

as das pessoas que não levavam a lei muito a sério. Em qualquer lugar é possível encontrar trigo no meio do joio.

Uma dessas pessoas interrogou Švejk. Era um homem idoso, de aspecto

bonachão. Tempos atrás, quando estava investigando o caso do célebre assassino Valeš, jamais se esquecia de lhe dizer:

— Sente-se, por favor, senhor Valeš, temos uma cadeira vazia. Quando lhe apresentaram Švejk, o juiz de instrução convidou-o, com sua

cortesia inata, a se sentar e disse:

— Então o senhor é o tal do Švejk? — Acho que devo ser — respondeu Švejk. — Meu pai se chamava Švejk e

minha mãe era a senhora Švejková. Não posso envergonhar meus pais renegando meu nome.

Um sorriso cordial esvoaçou pelo rosto do juiz de instrução. — O senhor fez coisas incríveis. Sua consciência deve estar pesada. — Sempre tenho muita coisa na consciência — disse Švejk com um sorriso

ainda mais cordial do que o do juiz de instrução. — Não acharia estranho se tivesse ainda mais coisas na consciência do que o senhor.

— Isso é possível perceber pelo documento que assinou — disse o juiz de

instrução, mantendo seu comportamento cortês. — Foi pressionado pela polícia?

— Não, senhor. Eu mesmo lhes perguntei se tinha que assiná-lo e, como me

disseram que sim, obedeci. Não iria brigar por minha própria assinatura, não é mesmo? Certamente não teria tirado nenhum proveito disso. A ordem tem de existir.

— O senhor se sente totalmente saudável, Švejk? — Totalmente, não. Sofro de reumatismo e preciso me massagear com uma

pomada.

O ancião voltou a sorrir com amabilidade.

— O que o senhor acharia de ser examinado pelos médicos forenses?

— Eu acho que não estou tão mal a ponto de fazer esses senhores perderem

seu tempo. Já fui examinado por um médico da chefatura de polícia para ver se tinha gonorreia.

— Sabe, prezado Švejk, faremos uma experiência com os médicos forenses.

Formaremos uma bela junta e colocaremos o senhor em uma cela provisória, onde poderá descansar confortavelmente. Permita-me fazer uma última pergunta, baseada no informe: o senhor proclamava e espalhava aos quatro ventos que logo iria explodir uma guerra em algum lugar?

— Acredito nisso, excelentíssimo. Explodirá daqui a pouco. — E não tem algum ataque de vez em quando?

— Isso não mesmo. Só uma vez quase fui atropelado por um carro na praça

Carlos, mas isso faz muito tempo.

E assim terminou o interrogatório. Švejk apertou a mão do juiz de instrução

e, ao voltar à cela, disse aos seus companheiros:

— Os médicos forenses vão me examinar por causa do assassinato do

senhor arquiduque Ferdinand.

— Eu também fui examinado uma vez pelos médicos forenses — disse um

jovem. — Foi quando compareci diante do júri por causa de um assunto que envolvia tapetes. Fui declarado retardado mental. Agora me apropriei sorrateiramente de uma colheitadeira a vapor e não podem fazer nada comigo. Meu advogado me disse ontem que, como fui declarado retardado mental, posso me aproveitar disso durante toda minha vida.

— Eu não tenho a menor confiança nos médicos forenses — observou um

homem com aspecto inteligente. — Na época em que falsificava dinheiro, frequentava, para qualquer eventualidade, as palestras do professor Antonin Heveroch, o famoso psiquiatra. Quando me pegaram, fingi que tinha paralisia cerebral, seguindo os modelos que o professor Heveroch havia descrito: mordi a batata da perna de um dos médicos da junta forense, bebi a tinta do tinteiro e, peço desculpas pelo termo, caguei em um canto da sala diante de todos os médicos. Mas, pelo simples fato de ter mordido a barriga da perna de um deles, fui declarado perfeitamente são. Foi minha perdição.

— Eu não tenho nenhum medo de ser examinado por esses senhores —

disse Švejk. — Quando estava no exército, fui examinado por um veterinário e tudo correu muito bem.

— Os médicos forenses são uns filhos da mãe! — exclamou um

homenzinho encurvado. — Há pouco tempo, escavando em meu jardim, encontraram o esqueleto de um homem, e os médicos forenses concluíram que fora assassinado há quarenta anos. Eu estou com trinta e oito anos e, embora tenha certidão de nascimento, de batismo e certificado de residência, fui preso.

— Acho que deveríamos olhar tudo de um ponto de vista mais positivo —

disse Švejk. — Todo mundo pode se equivocar e, quanto mais a pessoa pensa, mais facilmente se equivoca. Os médicos forenses são seres humanos e os seres humanos erram. Uma noite, em Nusle, quando estava voltando para casa da cervejaria U Banzetů, exatamente na ponte sobre o Botič um senhor se aproximou e bateu com um pedaço de pau na minha cabeça. Quando estava atirado no chão, acendeu um palito de fósforo para ver meu rosto e disse: “Me enganei, não é ele.” E ficou tão aborrecido com seu equívoco que me acertou de novo pelas costas. Isso é próprio da natureza humana. Os homens cometem erros até na hora da morte. Como aquele senhor que uma noite encontrou na rua um cão raivoso meio congelado, levou-o para casa e o enfiou na cama da esposa. Assim que o cão se aqueceu e recuperou a consciência, mordeu toda a família e acabou destripando e devorando o filho do homem, que estava no berço. Posso lhes contar a história de um equívoco cometido pelo torneiro que é meu vizinho. O sujeito abriu com a chave a porta da igrejinha de Podolí, achando que era sua casa. Na sacristia, tirou os sapatos porque achou que estava na cozinha. Depois, deitou-se no altar achando que estava em sua cama, cobriu-se com aquela espécie de toalha com inscrições litúrgicas e colocou sob a cabeça, para ficar mais confortável, o evangelho e outros livros sagrados. De manhã, foi encontrado pelo sacristão e lhe disse, com a melhor das intenções, que se tratava de um equívoco. “Belo equívoco!”, disse o sacristão. “Precisaremos benzer de novo a igreja por causa de seu equívoco.” Quando, mais tarde, foi levado aos médicos forenses, argumentou que estava de posse de suas faculdades mentais, porque, se estivesse bêbado, não teria acertado a chave na fechadura da porta da igrejinha. Acabou morrendo no presídio de Pankrác. Também posso citar o exemplo de um equívoco cometido por um cão da polícia de Kladno. Estou falando do pastor-alemão do famoso guarda Rotter. O guarda Rotter adestrava cães e fazia experiências com vagabundos até que estes começaram a evitar o distrito de Kladno. Então, o guarda ordenou que lhe trouxessem, de qualquer maneira, uma pessoa suspeita. Por isso lhe levaram um homem bem-vestido que foi encontrado sentado em um tronco na floresta de Lány. Cortaram uma ponta de seu casaco e a deram aos cães policiais para que a cheirassem. Depois o levaram a uma olaria dos arredores da cidade e soltaram os cães adestrados para que seguissem seu rastro. Os cães o encontraram e o obrigaram a voltar imediatamente. Aí o guarda obrigou o desgraçado a subir por uma escada até o sótão, a saltar por cima de um muro e a se atirar em um tanque, sempre com os cães atrás dele. Por fim, descobriu-se que aquele homem era um deputado tcheco do partido radical que, cansado do Parlamento, fora passear na floresta de Lány para se distrair. Por isso repito que todas as pessoas, cultas ou ignorantes, se equivocam, cometem erros. Até os ministros se equivocam.

 

A comissão de médicos forenses, que devia decidir se o estado mental de Švejk era ou não o de uma pessoa capaz de cometer todos aqueles crimes de que era acusado, era formada por três senhores extremamente sérios, cujas opiniões conflitavam de forma considerável.

Estavam representadas ali três escolas científicas e, portanto, defensores de

três teorias psiquiátricas diferentes.

O fato de que no caso de Švejk três escolas científicas conflitantes tivessem

chegado a um mesmo veredito só pode ser explicado pela terrível impressão que este causou nos três examinadores; quando entrou no consultório, ao perceber que havia um retrato do monarca austríaco pendurado na parede, exclamou:

— Senhores, longa vida ao nosso imperador Franz Joseph I! Não havia lugar para dúvidas. A manifestação espontânea de Švejk evitou

uma longa lista de perguntas e só foram necessárias algumas, as mais essenciais, para que a opinião inicial sobre a saúde mental do detido fosse confirmada. As questões se baseavam em três metodologias psiquiátricas: a do doutor Kallerson, a do doutor Heveroch e a do inglês Weinking.

— O rádio é mais pesado do que o chumbo, sim ou não? — Não saberia dizer, pois nunca pesei nem um nem outro — respondeu

Š vejk com seu sorriso afável.

— O senhor acredita no fim do mundo?

— Primeiro precisaria ver esse fim do mundo — respondeu Švejk com

negligência —, mas certamente não acho que acontecerá amanhã.

— Saberia calcular o diâmetro do globo terrestre?

— Isso não mesmo — respondeu Švejk. — Mas agora, senhores, eu

também gostaria de lhes apresentar uma charada: há uma casa de três andares e em cada andar há três janelas. O telhado tem duas claraboias e uma chaminé. Em cada andar há dois inquilinos. E agora me digam, senhores, em que ano morreu a avó do porteiro?

Os doutores forenses trocaram alguns olhares significativos, mas, mesmo

assim, um dos médicos quis fazer mais uma pergunta:

— O senhor sabe qual é a profundidade máxima do oceano Pacífico? — Não sei — foi a resposta —, mas acho que deve ser maior que a do

Moldava sob a montanha de Vyšehrad.

O presidente da comissão perguntou, sucintamente: “É suficiente?” No

entanto, um dos membros da junta quis fazer uma última pergunta.

— Quanto é 12.897 multiplicado por 13.863?

— 729 — respondeu Švejk sem piscar. — Acho que já temos o suficiente — declarou o presidente da junta. —

Podem devolver o acusado ao lugar em que estava.

Depois que Švejk saiu, a junta concluiu, por unanimidade, que Švejk era

bobo e idiota de acordo com todas as descobertas feitas pelos cientistas psiquiátricos.

O informe entregue pelos médicos ao juiz de instrução dizia, entre outras

coisas:

Os médicos forenses abaixo assinados baseiam o presente diagnóstico, referente à estupidez absoluta e ao cretinismo inato de Josef Švejk, que compareceu diante da junta médica forense, no fato de que o sujeito se expressa com frases como “Longa vida ao nosso imperador Franz Joseph I!”, afirmação que, por si só, é suficiente para demonstrar que seu estado mental é o de um idiota absoluto. Devido a isso, a comissão propõe o seguinte: 1. A suspensão das investigações contra Josef Švejk e 2. Sua transferência para uma clínica psiquiátrica a fim de que seja submetido à observação e se determine até que ponto seu estado mental é perigoso para as pessoas de seu entorno.

Quando o informe estava sendo redigido, Švejk dizia a seus companheiros

de cárcere:

— Não estavam nem um pouco preocupados com Ferdinand, mas não

paravam de conversar comigo sobre coisas ainda mais estúpidas. Por fim, disseram que tudo o que havíamos dito já era suficiente e cada um foi para seu lado.

— Eu não acredito em ninguém — observou o homenzinho encurvado em

— Eu não acredito em ninguém — observou o homenzinho encurvado em

cujo jardim haviam desenterrado um esqueleto. — Trata-se de um bando de escroques.

— Mas até os escroques têm o direito de existir — disse Švejk, ajeitando-se

no colchão de palha. — Se todas as pessoas tivessem boas intenções em relação às outras, logo se eliminariam mutuamente.