Aspectos do Romance
Capítulo 3
Pessoas
Depois da nossa discussão sobre a estória – este aspecto sim ples e fundam ental do rom ance – podem os nos voltar para um tópico m ais interessante: os atores. Não precisam os perguntar o que aconteceu depois, m as a quem terá acontecido; o rom ancista estará apelando à nossa inteligência e à nossa im aginação, e não som ente à nossa curiosidade. Um a nova ênfase aparece na sua voz: a ênfase sobre o valor.
Com o os atores de um a estória norm alm ente são seres hum anos, pareceu-m e conveniente dar a este aspecto o título “Pessoas”. Outros anim ais foram introduzidos, m as com êxito lim itado, j á que até agora sabem os m uito pouco sobre a sua psicologia. Pode haver, e provavelm ente haverá, algum a alteração a esse respeito, no futuro, com parável à alteração do m odo com o os rom ancistas de tem pos passados representavam os selvagens. O abism o que se abre entre Sexta-feira e Batouala pode ser com parado ao que separa os lobos de Kipling e seus descendentes literários de daqui a duzentos anos; então terem os anim ais que não serão nem sim bólicos, nem hom enzinhos disfarçados, nem m esas de quatro pés que andam para lá e para cá, nem tiras voadoras de papel colorido. Esta é um a das m aneiras pelas quais a ciência pode am pliar os horizontes do rom ance: proporcionando-lhe um tem a novo. Mas essa aj uda ainda não pôde ser dada, e até que ela venha podem os dizer que os atores de um a estória são, ou pretendem ser, seres hum anos.
Com o o rom ancista é ele próprio um ser hum ano, existe um a afinidade entre ele e seu tem a, que está ausente de m uitas outras form as de arte. O historiador tam bém está ligado ao seu obj eto de estudo, m as, com o verem os, m enos intim am ente. O pintor e o escultor não necessitam desse vínculo, quer dizer, não precisam representar seres hum anos, a não ser que o desej em , assim com o o poeta, enquanto o m úsico não pode representá-los m esm o que o desej e, a não ser com a aj uda de um program a. O rom ancista, ao contrário de m uitos colegas, arranj a um a série de m assas verbais descrevendo a si próprio em term os gerais (em term os gerais, porque as sutilezas virão m ais tarde), atribui-lhes nom es e sexo, esboça-lhes um conj unto de gestos plausíveis e faz com que falem , por m eio de aspas, e até, quem sabe, com que se com portem adequadam ente. Essas m assas verbais são seus personagens. Assim , eles não lhe ocorrem friam ente; precisam ser criados num estado de excitação delirante; m esm o a sua natureza está condicionada pelo que ele adivinha sobre outras pessoas, e sobre si próprio, e depois é m odificado pelos outros aspectos do seu trabalho. Este últim o ponto – a relação entre os personagens e os outros aspectos do rom ance – será o assunto de um a investigação posterior. No m om ento estam os ocupados com a relação entre eles e a vida real. Qual é a diferença entre as pessoas de um rom ance e as pessoas com o o rom ancista ou vocês m esm os, ou eu próprio, ou a rainha Vitória?
Tem de haver um a diferença. Se um a personagem de rom ance for exatam ente igual à rainha Vitória – não parecida, e sim exatam ente igual –, então ela é realm ente a rainha Vitória, e o livro, ou todas as suas partes concernentes a esta personagem , deixará de ser um rom ance para se tornar um m em orial. Um m em orial é história, baseia-se em evidências. Já o rom ance se baseia em evidências + ou – x, sendo a incógnita o tem peram ento do rom ancista; e a incógnita sem pre m odifica o efeito da evidência, e às vezes até a transform a com pletam ente.
O historiador trata de ações, só se interessa pela personalidade dos hom ens na m edida em que puder deduzi-la de suas ações. Está tão preocupado com a personalidade quanto o rom ancista, m as só pode ter conhecim ento da sua existência quando ela aflora até a superfície. Se a rainha Vitória não tivesse dito “Não estam os nos divertindo”, seus convivas à m esa não saberiam que ela não estava se divertindo, e o seu tédio nunca teria sido anunciado ao público. Ela poderia ter franzido as sobrancelhas, de m odo que deduzissem a situação desde o início – olhares e gestos tam bém são evidências históricas. Mas, se ela perm anecesse im passível, o que saberíam os? A vida oculta é, por definição, oculta. A vida oculta que se m anifesta através de sinais exteriores j á deixou de ser oculta, e ingressou no dom ínio da ação. E a função do rom ancista é revelar a vida oculta em sua fonte, contando-nos m ais sobre a rainha Vitória do que poderia ser sabido, e assim produzindo um a personagem que não é m ais a rainha Vitória histórica.
O crítico francês que escreve sob o nom e de Alain, tão interessante e sensível, fez, a respeito, algum as observações proveitosas, em bora ligeiram ente fantasiosas. Às vezes parece que ele perde o pé, m as não tanto quanto eu m esm o neste m om ento, e talvez possam os j untos chegar até a terra firm e. Alain exam ina as várias form as de atividade estética e, ao chegar ao rom ance (le roman), afirm a que todo ser hum ano tem dois lados, um é próprio para a história e outro para a ficção. Tudo o que é observável num hom em – ou sej a, suas ações e a existência espiritual que pode ser deduzida delas – pertence ao dom ínio da história. Mas seu lado rom anesco ou rom ântico (sa partie romanesque ou romantique) abarca “as paixões puras, ou sej a, os sonhos, as alegrias, as tristezas e as autoconfissões que a polidez ou a vergonha im pedem -no de m encionar”; e um a das principais funções do rom ance é expressar esse lado da natureza hum ana.
O que é fictício num rom ance não é tanto a estória quanto o m étodo
pelo qual o pensam ento se transform a em ação, um m étodo que nunca
se dá na nossa vida cotidiana. [...] A história, com a sua ênfase nas
causas externas, é dom inada pela noção de fatalidade, enquanto no
rom ance não existe fatalidade; nele, tudo se funda na natureza hum ana,
e o sentim ento dom inante é de um a existência na qual tudo é
intencional, m esm o as paixões e os crim es, inclusive a m iséria.[31]
Talvez este sej a um m odo de dizer com rodeios o que qualquer estudante colegial britânico sabe, que o historiador registra, enquanto o autor de rom ances deve criar. Ainda assim , são rodeios proveitosos, pois trazem à tona a diferença fundam ental entre as pessoas na vida diária e as pessoas nos livros. Na vida diária, nunca nos entendem os uns aos outros, não existe nem a com pleta clarividência nem o com pleto confessionalism o. Conhecem o-nos por aproxim ação, por m eio de signos externos, que servem bastante bem tanto à sociedade quanto à vida íntim a. Mas as pessoas de um rom ance podem ser com pletam ente com preendidas pelo leitor, se assim o desej ar o rom ancista; sua vida interior pode ficar tão exposta quanto a exterior. E é por isso que elas freqüentem ente parecem m ais bem delineadas do que os personagens da história, ou m esm o do que nossos am igos; tudo o que pode ser dito a respeito dessas pessoas nos foi dito; m esm o que sej am im perfeitas ou irreais, não guardam nenhum segredo, com o fazem e devem fazer os nossos am igos, sendo o segredo m útuo um a das condições da vida sobre este globo.
Recoloquem os agora o problem a, de m aneira m ais colegial. Vocês e eu som os pessoas. Não seria m elhor se déssem os um a olhadela nos principais fatos das nossas vidas? Não nos fatos das nossas carreiras individuais, m as na nossa constituição com o seres hum anos. Precisam os, então, de algum a coisa bem definida com o ponto de partida.
Os principais fatos da vida hum ana são cinco: nascim ento, alim entação, sono, am or e m orte. Poderíam os aum entar o núm ero – acrescentando, por exem plo, a respiração – m as estes cinco são os m ais óbvios. Considerem os por um instante o papel que eles desem penham na nossa vida, por um lado, e nos rom ances, por outro. Será que o rom ancista tende a reproduzi-los com precisão ou, na verdade, a exagerar, dim inuir, ignorar e expor a passagem dos personagens por esses processos que não são os m esm os pelos quais vocês e eu passam os, em bora tenham os m esm os nom es?
Prim eiro, vam os considerar os dois m ais estranhos: o nascim ento e a m orte; estranhos porque ao m esm o tem po são e não são experiências. Só sabem os deles por m eio de relatos. Todos nascem os, m as não conseguim os nos lem brar de com o foi. E a m orte sobrevém , com o veio o nascim ento, m as tam pouco sabem os de que m odo. Nossa últim a experiência, com o a prim eira, é conj ectural. Movem o-nos entre duas obscuridades. Certas pessoas pretendem nos contar com o são o nascim ento e a m orte: a m ãe, por exem plo, tem seu ponto de vista sobre o nascim ento; o m édico e o religioso têm os seus sobre am bos. Mas tudo isso vem de fora, e as duas entidades que poderiam nos esclarecer a respeito – o bebê e o cadáver – não podem fazê-lo, pois seus sistem as de com unicação da experiência não estão em sintonia com o nosso sistem a de recepção.
Por isso, considerem os que as pessoas com eçam a vida com um a experiência que esquecem , e a term inam com outra que até im aginam , m as não podem com preender. São estas as criaturas que o rom ancista se propõe apresentar com o personagens de seus livros; estas, ou outras, razoavelm ente parecidas com elas. O rom ancista pode lem brar e entender tudo, se lhe convém . Ele conhece toda a vida exterior. Seus personagens serão por ele tom ados quanto tem po depois do nascim ento? E até que ponto ele os acom panhará, antes da m orte? E o que dirá ele, ou fará sentir, a respeito dessas duas experiências tão extravagantes?
Depois vem a alim entação, o processo de arm azenam ento, de m anter viva um a cham a individual, um processo que com eça antes do nascim ento e continua depois, através da m ãe, e finalm ente é assum ido pelo próprio indivíduo, que dia após dia introduz um a certa quantidade de obj etos por um buraco no seu rosto, sem se surpreender ou se entediar com isso: a alim entação estabelece o vínculo entre o conhecido e o esquecido; está intim am ente ligada ao nascim ento, que nenhum de nós recorda, e se prolonga até o café-da-m anhã de hoj e cedo. Com o o sono – a que se assem elha em tantos aspectos –, a alim entação não só restaura as nossas forças, m as tam bém tem um lado estético, pode ser gostosa ou não. Que será feito nos rom ances dessa m ercadoria de duas faces?
Em quarto lugar, o sono. Em m édia, cerca de um terço do nosso tem po não é gasto em sociedade ou na civilização, nem m esm o no que geralm ente se cham a de solidão. Penetram os num m undo sobre o qual pouco se sabe, e que, quando o deixam os, parece-nos ser em parte esquecim ento, em parte caricatura deste m undo, e em parte revelação. “Não sonhei com nada”, ou “Sonhei com um a escada”, ou “Sonhei com o céu” são coisas que dizem os ao despertar. Não pretendo discutir a natureza do sono ou dos sonhos – quero apenas assinalar que eles nos ocupam por m uito tem po, e que a cham ada “História” só se preocupa com cerca de dois terços do ciclo hum ano, e a partir daí é que estabelecem suas teorias. A ficção adotaria um a atitude sem elhante?
E, por últim o, o am or. Em prego esta palavra tão celebrada no seu sentido m ais am plo e insípido. Perm itam -m e ser bem seco e breve quanto ao sexo, em prim eiro lugar. Alguns anos depois do nascim ento de um ser hum ano, ocorrem nele certas m udanças, assim com o em outros anim ais, e freqüentem ente elas o levam a se unir com outro ser hum ano, bem com o à produção de m ais seres hum anos. E assim a nossa raça perdura. O sexo com eça antes da adolescência e sobrevive à esterilidade; é de fato perm anente em nossas vidas, em bora na idade do acasalam ento seus efeitos se m ostrem m ais óbvios para a sociedade. E, além do sexo, há outras em oções que tam bém se fortalecem com o am adurecim ento: são as diversas elevações do espírito, com o o afeto, a am izade, o patriotism o, o m isticism o – e, ao tentarm os estabelecer a relação entre o sexo e essas outras em oções, com eçarem os a brigar tão violentam ente quanto a respeito de Walter Scott, ou até m ais. Deixem -m e apenas esquem atizar os vários pontos de vista. Alguns dizem que o sexo é básico e sublinha todas essas outras form as de am or – o am or pelos am igos, por Deus, pelo país. Outros dizem que ele está ligado a estes am ores, m as de m aneira lateral, sem lhes constituir a raiz. Tam bém existem aqueles para os quais não há nenhum a conexão entre um a coisa e as outras. Quero sugerir apenas que cham em os de am or todo esse conj unto de em oções, e que o considerem os com o a quinta das grandes experiências pelas quais todo ser hum ano tem de passar. Quando am am , os seres hum anos procuram receber algum a coisa. Tam bém tentam dar algo, e esse duplo obj etivo faz com que o am or sej a m ais com plicado do que a alim entação ou o sono. Ele é egoísta e altruísta ao m esm o tem po, e por m ais que se especialize num dos dois sentidos, não chega a atrofiar inteiram ente o outro. Quanto tem po tom a o am or? A pergunta soa grosseira, m as é pertinente à nossa investigação de hoj e. O sono tom a cerca de oito das vinte e quatro horas do dia, a alim entação tom a outras duas. Devem os atribuir ao am or m ais duas? Seria um a dotação bem generosa. O am or pode im iscuir-se nas nossas outras atividades – assim com o a sonolência e a fom e. E pode gerar diversas atividades secundárias: por exem plo, o am or de um hom em pela sua fam ília pode levá-lo a gastar boa parte do seu tem po na Bolsa de Valores, assim com o seu am or a Deus o levaria a ir bastante à igrej a. Porém , tem os sérias dúvidas de que ele perm aneça em contato em ocional com qualquer obj eto de am or por m ais de duas horas diárias, e esse contato em ocional, esse desej o de dar e receber, essa m istura de generosidade e expectativa é o que distingue o am or das outras experiências que listam os.
Assim é a constituição hum ana – ou parte dela. Tam bém constituído da m esm a form a, o rom ancista tom a nas m ãos a pena, entra no estado anorm al que se convencionou cham ar de “inspiração”, e tenta criar personagens. É possível que estes devam enfrentar-se com outros elem entos do seu rom ance, o que ocorre freqüentem ente (os livros de Henry Jam es são um caso extrem o), e por isso os personagens têm , é claro, de m udar de constituição respectivam ente. No entanto, estam os considerando agora o caso m ais sim ples do rom ancista cuj a m aior paixão são os seres hum anos, e que sacrificaria m uita coisa em benefício deles – a estória, o enredo, a form a, a beleza incidental.
Então, em que sentido se distinguem os filhos da ficção daqueles que nascem sobre a terra? Não podem os fazer generalizações sobre eles, j á que nada têm em com um do ponto de vista científico; não precisam de glândulas, por exem plo, enquanto todos os seres hum anos têm várias. Contudo, apesar de não serem passíveis de um a definição m ais estrita, tendem a se com portar segundo um m esm o m olde.
Em prim eiro lugar, eles chegam a este m undo m ais com o pacotes do que com o seres hum anos. Sem pre que surge um bebê num rom ance, parece que foi postado através dos correios. É sim plesm ente “enviado”; um dos personagens adultos vai lá e o pega, m ostrando-o ao leitor, em geral apenas para ser logo depois guardado em local refrigerado até que possa falar ou de algum m odo participar da ação. Há duas razões, um a boa e outra m á, que explicam esse fato e os dem ais desvios das práticas costum eiras na terra; vam os notá-las daqui a pouco, m as antes observem com o é m ecânico o m odo com que se recruta a população do reino dos rom ances. De Sterne a Joy ce, praticam ente nenhum escritor tentou usar os fatos do nascim ento ou inventar um a nova série de fatos, e não há um só – a não ser de um m odo bastante piegas, feito um a titia m uito solícita – que tenha tentado trabalhar a fundo a psicologia da m ente de um bebê, utilizando a riqueza literária que deve existir aí. Talvez não sej a possível fazê-lo. Em breve decidirem os se o é ou não.
E a m orte. O tratam ento dado à m orte, por outro lado, nutre-se m uito m ais da observação, e sua m aior variedade indica que o rom ancista a considera congenial. Prim eiro porque a m orte sem pre pode oferecer um bom desfecho para um livro, m as tam bém pela razão m enos óbvia de que, trabalhando no tem po, parece-lhe m ais fácil partir do que se conhece para o que se ignora do que da obscuridade do nascim ento em direção ao j á conhecido. Quando seus personagens m orrem , ele os com preende e pode ser ao m esm o tem po coerente e im aginativo acerca deles – o que é a m ais forte das com binações. Tom em os um a m orte m enor – a de Mrs. Proudie, em The Last Chronicle of Barset. Tudo parece norm al, m as o efeito é aterrador, porque Trollope fez Mrs. Proudie percorrer tantos atalhos na diocese, m ostrando-nos seus passos, seus resm ungos, acostum ando-nos, até aborrecer-nos, ao seu caráter, aos seus cacoetes, seu j eito de pedir ao bispo que “considere as alm as das pessoas”, até que ela tem um ataque do coração à beira da cam a, e então acabam os passeios, acaba Mrs. Proudie. Praticam ente não há nada que o rom ancista não possa tom ar em prestado à “m orte cotidiana”, e tam pouco haverá m uitas coisas que ele não possa inventar, tirando disso algum a vantagem . As portas dessa obscuridade estão sem pre abertas para ele, que pode inclusive acom panhar seus personagens através desse lim iar, desde que estej a bem provido de im aginação e não tente nos trazer de volta retalhos de sessão espírita com notícias da “vida no além ”.
E quanto à alim entação, o terceiro fato da nossa lista? O alim ento na ficção é sobretudo social. Reúne os personagens, m as eles não costum am requisitá-lo por um a razão fisiológica, raram ente o saboreiam e nunca o digerem , se isso não lhes for especialm ente solicitado. Eles têm apetite uns pelos outros, com o nós, na nossa vida, m as a nossa igualm ente incessante fom e de alm oço e j antar não chega a se refletir neles. Até m esm o a poesia tirou m ais proveito da alim entação – pelo m enos do seu lado estético. Milton e Keats se aproxim aram m ais do que George Meredith da sensualidade do ato de com er.
O sonho. É tam bém um ato m ecânico. Não há tentativa de indicar o esquecim ento ou o verdadeiro m undo dos sonhos. Os sonhos ou são lógicos ou form am m osaicos feitos de pequenos fragm entos sólidos do passado e do futuro. São introduzidos com um obj etivo, que não é a vida do personagem com o um todo, m as aquela parte dele que vive durante a vigília. Nunca ele é concebido com o um a criatura, que passa um terço do seu tem po na penum bra. Usa-se a lim itada visão diurna do historiador, que em outros aspectos o rom ancista evita. Por que ele não com preende ou reconstrói o sono? Lem brem -se: ele tem o direito de inventar, e sabem os quando ele está m esm o inventando, pois sua paixão nos im pulsiona para além das im probabilidades. Entretanto, ele nem copiou nem criou o sono. Trata-se de um am álgam a, apenas.
O am or. Todos vocês sabem o quão im ensam ente o am or sobrecarrega os rom ances, e provavelm ente concordarão com igo em que isso lhes causou m al, tornando-os m ais m onótonos. Por que essa experiência em particular, especialm ente na sua form a sexual, foi transplantada em tão generosa quantidade para o m undo dos rom ances? Quando se pensa de m odo abstrato no rom ance, pensa-se num m otivo am oroso – de um hom em e um a m ulher que desej am unir-se e talvez consigam . Mas, quando se pensa de m odo abstrato na própria vida, ou num grupo de vidas, fica-se com um a im pressão bem diferente e m uito m ais com plexa.
Parece haver duas razões para que o am or se destaque tanto, m esm o nos bons rom ances.
Prim eiro, quando o rom ancista term ina de proj etar seus personagens e com eça a criá-los, o “am or” (em alguns de seus aspectos ou em todos eles) ganha m aior im portância na sua m ente, e, sem querer, torna seus personagens excessivam ente sensíveis a ele – excessivam ente no sentido de que eles não se im portunariam tanto com isso na vida. A constante sensibilidade entre os personagens – m esm o em autores considerados vigorosos, com o Fielding – é im pressionante e sem paralelo na vida, a não ser entre pessoas que têm bastante tem po livre. Há paixão, em certos m om entos até intensidade – m as não esse alerta constante, essa adaptação interm inável, essa fom e incessante. Creio que este sej a o reflexo do estado m ental do próprio rom ancista, quando ele escreve, e que a predom inância do am or nos rom ances se deva em parte a isso.
Um a segunda razão, que pela lógica pertence a outra parte da nossa investigação, m as deve ser observada aqui. O am or, com o a m orte, é congenial para um rom ancista porque tam bém sem pre oferece um desfecho conveniente para um livro. Ele pode apresentá-lo com o um a perm anência, e os leitores aquiescerão com facilidade, j á que um a das ilusões associadas ao am or é que ele será perm anente. Não que ele o foi – e sim que o será. Toda a história, toda a nossa experiência nos ensinam que nenhum relacionam ento hum ano é constante, que ele é tão instável quanto os seres vivos que o com põem , e que estes precisam se equilibrar com o m alabaristas se quiserem que ele dure; se for constante j á não é um relacionam ento hum ano e sim um hábito social, no qual a ênfase se transferiu do am or para o casam ento. Sabem os de tudo isso, m as não suportam os a aplicação desse am argo conhecim ento ao futuro; o futuro deve ser diferente; a pessoa perfeita ainda vai aparecer, ou a pessoa que j á conhecem os ainda há de se tornar perfeita. Não haverá m udanças, por isso não tem os necessidade do estado de alerta. Estam os fadados a ser felizes ou, talvez, desgraçados para todo o sem pre. Toda em oção forte traz consigo a ilusão de perm anência, e os rom ancistas se agarram a isso. Costum am term inar seus livros com casam entos, e não fazem os nenhum a obj eção porque lhes em prestam os tam bém os nossos sonhos.
Devem os encerrar por aqui a nossa com paração entre essas duas espécies aliadas, o Homo sapiens e o Homo fictus. Este é m ais escorregadio do que seu prim o sapiens. Ele é criado na m ente de centenas de rom ancistas diferentes, que têm m étodos contraditórios de gestação, de m odo que não podem os fazer generalizações. Ainda assim , podem os dizer algum a coisa a seu respeito. Geralm ente, ele nasce de repente, é capaz de m orrer aos poucos, não precisa de m uito alim ento nem de sono, e se ocupa incansavelm ente de relacionam entos. E – o que é m ais im portante – podem os saber a respeito dele m ais do que sobre qualquer outra criatura que conheçam os, porque seu criador e seu narrador são um só ser. Se tivéssem os j eito para a hipérbole, poderíam os exclam ar neste m om ento: “Se Deus pudesse contar a estória do universo, o universo se tornaria fictício”. Pois é este o princípio que se m anifesta.
Mas deixem os de lado estas especulações tão elevadas. Tom em os um personagem bem sim ples, para que possam os estudá-lo um pouco. Pode ser Moll
Flanders.[32] Ela preenche todo o livro que leva seu nom e, ou m elhor, ergue-se sozinha nele, com o um a árvore no parque, de m odo que podem os avistá-la sob todos os ângulos sem ser incom odados por arbustos que venham disputar a nossa atenção. Com o Scott, Defoe está contando um a estória, e tam bém vam os encontrar aqui algum as pontas soltas que ele vai abandonando, para o caso de m ais tarde precisar retom á-las: por exem plo, a prim eira leva de filhos de Moll. Mas o paralelo entre Scott e Defoe não deve ser levado longe dem ais. O que interessava a Defoe era a heroína, e a form a do seu livro se desprende naturalm ente de sua personagem . Seduzida pelo m ais novo de dois irm ãos e depois casada com o m ais velho, ela dedica aos sucessivos m aridos a parte inicial e m ais brilhante da sua carreira, e não à prostituição, que ela abom ina com toda a força de um coração decente e afetuoso. Ela e a m aioria dos personagens do subm undo de Defoe são am áveis entre si, respeitam os sentim entos uns dos outros e aceitam correr riscos por questões de lealdade pessoal. A inata bondade deles está sem pre florescente, apesar do j uízo contrário do próprio autor, decerto devido a algum a experiência que ele deve ter tido nos tem pos que passou em Newgate. Não sabem os o que terá sido, talvez nem ele m esm o o soubesse, quando, m ais tarde, tornou-se um j ornalista m uito ocupado, além de astucioso político. Mas algo lhe acontecera na prisão, e dessa em oção vaga e poderosa nasceram Moll e Roxana. Moll é um a personagem de carne e osso, com m em bros fortes e roliços, tão aptos a ir para cam a quanto a praticar o furto nos bolsos alheios. Em bora não dê m uita im portância à aparência, ela nos im pressiona com o se fosse dotada de peso e altura, respirasse, com esse e fizesse m uitas das coisas que norm alm ente são deixadas de lado. Seu prim eiro em prego foram os casam entos: foi trígam a, se não quadrígam a, e um de seus m aridos afinal era seu irm ão. Vivia feliz com todos eles, que eram am áveis com ela e ela com eles. Ouçam com o ela narra a agradável excursão que fez a convite de um deles, negociante de tecidos:
“Vam os, querida”, diz-m e ele, certo dia. “Que tal passarm os um a
sem ana no cam po?” “Está bem , querido”, respondo. “Aonde você quer
ir?” “Isso não tem im portância”, ele responde; “m as estou pensando
em parecer gente de boa qualidade durante um a sem ana. Irem os a
Oxford”, diz ele. E eu: “E com o irem os? Não sei m ontar a cavalo, e é
longe dem ais para irm os de carruagem ”. E ele: “Longe dem ais?
Nenhum lugar é longe dem ais para um a carruagem de seis cavalos. Se
a levo com igo, você vai viaj ar com o se fosse um a duquesa”.
“Querido”, digo eu, “que loucura! Mas se é isso o que você quer fazer,
está tudo bem para m im .” Pois bem , m arcam os o dia, arranj am os um a
carruagem m uito fina, com excelentes cavalos, cocheiro, postilhão e
dois lacaios vestindo libré, um cavalheiro a cavalo e um paj em com
um a plum a no chapéu, tam bém m ontado. Todos os criados o
cham avam de m ilorde, assim com o os estalaj adeiros, isso eu lhes
asseguro, e eu era Sua Excelência a senhora condessa, e assim
viaj am os até Oxford, e tivem os um dia m uito agradável; pois, j ustiça
sej a feita: nenhum m endigo no m undo sabia passar por m ilorde m elhor
do que m eu m arido. Visitam os todos os pontos curiosos de Oxford,
conversam os com dois ou três professores universitários sobre o proj eto
de m atricular na Universidade um j ovem sobrinho nosso que estava sob
os cuidados de m ilorde, e sobre a possibilidade de eles serem os seus
tutores. Divertim o-nos iludindo vários outros pobres acadêm icos,
dando-lhes a esperança de virem a ser, pelo m enos, o capelão de sua
senhoria, com direito até a estola; e assim , tendo de fato vivido com o
gente de boa qualidade, com os respectivos gastos, partim os para
Northam pton, e, enfim , em cerca de doze dias de passeio voltam os
para casa, com um a despesa por volta de noventa e três libras.
Com parem esse trecho com a cena entre ela e seu m arido de Lancashire, que ela am ava profundam ente. Ele é um assaltante das estradas, e cada um atraiu o outro para o casam ento fingindo-se rico. Depois da cerim ônia, eles se desm ascaram m utuam ente, e se Defoe estivesse escrevendo m ecanicam ente faria com que repreendessem um ao outro, com o Mr. e Mrs. Lam m le em Our Mutual Friend. Mas ele se rendeu ao hum or e ao bom senso da sua heroína.
“Na verdade”, disse-lhe eu, “achei que você m e conquistaria sem
dem ora; e agora m e aflige não estar em condições de lhe m ostrar que
eu m e reconciliaria com você m uito facilm ente, deixando de lado todas
as peças que você m e pregou, com o recom pensa por tanto bom hum or.
Mas, m eu querido”, continuei, “o que vam os fazer agora? Estam os os
dois arruinados. De que nos vale a nossa reconciliação se não tem os do
que viver?”
Fizem os um m onte de proj etos, m as nada poderia dar certo, j á que
não havia sequer por onde com eçar. Por fim , ele m e im plorou que
parasse de falar no assunto; do contrário, disse-m e ele, eu partiria seu
coração; então conversam os um pouco sobre outras coisas, até que ele
se despediu com o bom m arido, e em seguida fom os dorm ir.
Isso é m ais verdadeiro em face da vida diária e m ais gostoso de ler do que Dickens. O casal está enfrentando os fatos, e não a teoria m oral do autor; com o dois tram biqueiros m uito sensatos e de bom coração, não m ontam nenhum escândalo. Num estágio posterior da sua carreira, ela troca os m aridos pelo roubo; considera que essa m udança é para pior, e a cena então se torna naturalm ente m ais som bria. Mas ela se m antém firm e e graciosa com o sem pre. Que precisas são as suas reflexões depois de roubar um cordão de ouro de um a m enina que voltava da aula de dança! O feito se dá na pequena passagem que leva a St. Bartholom ew, em Sm ithfield (lugar que hoj e pode ser visitado – em Londres, Defoe é um a assom bração constante), e o im pulso da personagem é de m atar a criança, além de roubá-la. Não o faz, era um im pulso fraco, m as, consciente do risco que a m enina correra, fica indignada com os pais dela por “deixarem que a sua pobre ovelhinha voltasse para casa desacom panhada, só assim para eles aprenderem a tom ar m ais cuidado da próxim a vez”. Com que pesadum e e com quanta pretensão um psicólogo de hoj e se esforçaria para expressar a m esm a coisa! Em Defoe, isso se dá ao correr da pena, assim com o em outra passagem , quando Moll engana um hom em e depois lhe conta m uito satisfeita com o o fizera, resultando daí que ela cai ainda m ais nas boas graças dele e j á não suporta m ais a idéia de enganá-lo outra vez. Qualquer coisa que ela faça nos provoca um leve choque – não o im pacto da desilusão, m as o estrem ecim ento que um ser vivo desperta. Rim os dela, m as sem am argura ou superioridade. Ela não é nem hipócrita nem tola.
Perto do fim do livro ela é flagrada num a loj a de tecidos por duas m oças que atendiam no balcão: “Eu poderia ter dito a elas algum as palavras de bom -tom , m as não houve espaço para isso: dois dragões ferozes não poderiam ficar m ais furiosos do que elas estavam ” – elas cham am a polícia, ela vai presa e é condenada à m orte, sendo depois, em vez disso, desterrada para a Virgínia. Mas a névoa do infortúnio se dispersa com indecente rapidez. A viagem é m uito agradável, graças à am abilidade de um a velha senhora que em outros tem pos a ensinara a roubar. Além disso (m elhor ainda), ocorre que seu m arido de Lancashire tam bém está sendo deportado. Eles desem barcam na Virgínia, onde, para desespero dela, descobre-se que seu irm ão-m arido tinha se estabelecido ali. Ela faz segredo disso, ele m orre, e o m arido de Lancashire só a culpa por ter-lhe ocultado o caso; não faz nenhum a outra queixa, pela sim ples razão de que ele e ela ainda estão apaixonados. E o livro assim term ina, prosperam ente; com a m esm a firm eza da prim eira frase, soa a voz da heroína: “[...] decidim os passar o resto dos nossos dias em sincera penitência pelas vidas perversas que leváram os”.
Sua penitência é sincera, e só um j uiz superficial a condenaria com o hipócrita. Um a natureza com o a dela não pode distinguir por m uito tem po entre fazer o m al e ser capturada – basta-lhe um a ou duas frases para separar as duas coisas, m as elas se em penham em m isturar-se de novo, e é por isso que o ponto de vista dela é tão natural e característico do m eio cockney de Londres, com sua
filosofia de “sich is life”[33] e a prisão de Newgate representando o Inferno. Se a puséssem os ou seu criador, Defoe, contra a parede, e disséssem os: “Vam os lá, falando sério: vocês acreditam no Infinito?”, eles responderiam (nas palavras de seus descendentes m odernos): “É claro que eu acredito no Infinito –; que tipo de pessoa você pensa que eu sou?” – num a confissão de fé que bate a porta na cara do Infinito com m uito m ais força do que o faria qualquer negação.
Moll Flanders deve assim ficar com o o nosso exem plo de rom ance no qual o personagem é tudo e dispõe da m aior liberdade possível. Defoe faz um a tím ida tentativa de enredo tendo ao centro o irm ão-m arido, m as ele é m uito m ecânico, e o m arido legal dela (aquele que a leva para um a excursão em Oxford) sim plesm ente desaparece e ninguém m ais ouve falar dele. Nada im porta além da heroína; ela se ergue com o um a árvore no espaço aberto, e, depois de notarm os que ela parece absolutam ente real sob todos os ângulos, devem os nos perguntar se a reconheceríam os caso a encontrássem os na vida diária. Pois é este o ponto que ainda estam os exam inando: a diferença entre as pessoas na vida e as pessoas nos livros. E o estranho é que, m esm o tom ando um a personagem tão natural e nada teórica com o Moll, que em cada detalhe se m ostra coerente com a vida diária, no dia-a-dia não a encontraríam os com o um todo. Vam os supor que eu de repente altere m eu tom de voz, da em postação de conferência para um a entonação com um , dizendo-lhes: “Atenção! Estou vendo Moll bem aí no m eio do auditório! Cuidado, Mr. de tal” (cham ando um de vocês pelo nom e), “ela está prestes a lhe surrupiar o relógio!”. Pois bem , im ediatam ente vocês perceberiam que eu tinha m e enganado, e teria pecado não só contra as probabilidades, que não têm tanta im portância assim , m as tam bém contra a vida diária, os livros e o espaço que separa um a coisa da outra. Se eu dissesse: “Atenção! Há um a m ulher parecida com Moll no auditório”, talvez vocês não acreditassem em m im , m as pelo m enos não teriam sido incom odados pela m inha total falta de gosto: eu estaria apenas pecando contra as probabilidades. Seria um a idiotice insinuar que Moll está em Cam bridge esta tarde, ou em qualquer outra parte da Inglaterra, ou m esm o que tenha estado em qualquer parte da Inglaterra. Por quê?
Esta pergunta específica será m ais fácil de responder na sem ana que vem , quando passarem os a lidar com rom ances m ais com plicados, em que o personagem tem de se aj ustar a outros aspectos da ficção. Aí poderem os dar a resposta habitual, que encontram os em todos os m anuais de literatura, e que sem pre deve constar de um trabalho para exam e final, a resposta estética, segundo a qual um rom ance é um a obra de arte, que se rege por suas próprias leis, que não são as m esm as da vida diária, e que um personagem de rom ance é real quando vive conform e essas leis. Direm os então que Am elia e Em m a não poderiam estar presentes neste auditório porque elas só existem nos livros que levam seus nom es, só nos m undos de Fielding ou Jane Austen. A barreira da arte as separa de nós. Elas não são reais porque se parecem conosco (em bora talvez se pareçam , de fato), e sim porque são convincentes.
Trata-se de um a boa resposta, que nos levará a algum as conclusões cabíveis. No entanto, ela não é satisfatória quando se trata de um rom ance com o Moll Flanders, no qual o personagem é tudo e pode fazer o que quiser. Precisam os de um a resposta que sej a m enos estética e m ais psicológica. Por que ela não poderia estar presente aqui? O que a separa de nós? Nossa resposta j á estava im plícita naquela citação de Alain: ela não pode estar presente aqui porque pertence a um m undo no qual a vida secreta é visível, um m undo que não é nem poderia ser o nosso, um m undo no qual narrador e criador são um só ser. Agora, sim , podem os chegar a um a definição sobre quando um personagem de livro é real: ele é real quando o rom ancista sabe tudo acerca dele. O rom ancista pode escolher não nos contar tudo o que sabe – m uitos fatos podem ser om itidos, m esm o os que consideraríam os óbvios. Ainda assim , ele vai nos deixar com a sensação de que, apesar de o personagem não ter sido explicado, ele é explicável, e com isso se estabelece um a espécie de realidade que nunca encontrarem os na vida diária.
Porque, quando contem plam os os relacionam entos hum anos em si m esm os, e não com o um a circunstância social, notam os que eles parecem assom brados por um espectro. Não conseguim os nos entender bem uns aos outros, a não ser de um m odo precário e superficial; não podem os nos revelar, m esm o quando o desej am os; isso que cham am os de intim idade não passa de um a im provisação; o conhecim ento perfeito é um a ilusão. Nos rom ances, porém , conseguim os conhecer as pessoas perfeitam ente, e, além do prazer norm al da leitura, podem os encontrar aqui um a com pensação pela falta de clareza da vida. Neste sentido, a ficção é m ais verdadeira do que a história, porque ultrapassa as evidências, e todos nós sabem os por experiência própria que existe algo além das evidências; caso o rom ancista não tenha conseguido m ostrar isso da m aneira certa, tudo bem – pelo m enos ele tentou. Ele pode rem eter as pessoas com o bebês, pode fazê-las viver sem alim entação ou sono, pode m ostrá-las sentindo m uito am or e nada m ais senão am or, desde que ele pareça saber tudo acerca delas, desde que elas sej am criações dele. É por isso que Moll Flanders não poderia estar presente aqui, e esta é um a das razões pelas quais Am elia e Em m a tam pouco poderiam . Elas são pessoas cuj as vidas secretas são visíveis ou podem ser visíveis; nós som os pessoas cuj as vidas secretas são invisíveis.
E é por isso que os rom ances, m esm o quando tratam de pessoas perversas, podem nos servir de consolo: eles sugerem um a raça hum ana m ais com preensível e, portanto, m ais m anej ável, e nos oferecem um a ilusão de perspicácia e poder.