Aspectos do Romance
Capítulo 6
Fantasia
Um a série de conferências que pretenda ser m ais do que um a reunião de observações deve ter um a idéia a perpassá-la. Tam bém deve ter um assunto, e a idéia deve perpassá-lo da m esm a m aneira. Isso é tão óbvio que pode parecer tolice, m as qualquer um que j á tenha feito um a conferência saberá que reside aí um a verdadeira dificuldade. Um curso, com o qualquer outra reunião de palavras, gera um a certa atm osfera. Tem seu próprio aparato – um conferencista, um a platéia ou as instalações para ela –, ocorre em intervalos regulares, é anunciado em cartazes im pressos e tem um lado financeiro, em bora este sej a discretam ente dissim ulado. Assim , a seu m odo parasitário, ele tende a assum ir um a vida própria, ele e a idéia que o perpassa tendem a se m over num a direção enquanto o assunto escapole pela outra.
A idéia que perpassa estas conferências agora j á está bastante clara: há duas forças no rom ance: seres hum anos e um m onte de outras coisas que não são seres hum anos, e a ocupação do rom ancista é equilibrar essas duas forças, conciliando suas reivindicações. Isso está bastante claro, m as será que o rom ance tam bém é perpassado pela m esm a idéia? Talvez nosso assunto, a saber, os livros que lem os, tenha escapulido de nós enquanto teorizávam os, com o a som bra de um pássaro que levanta vôo. Tudo bem com o pássaro – ele sobe, é coerente e voa alto. E tudo bem com a som bra – que atravessa trem ulando estradas e parques. O problem a é que as duas coisas se parecem cada vez m enos, não se tocam m ais, com o antes, quando o pássaro ainda pisava o solo. A crítica, e particularm ente um curso de crítica, é tão enganosa! Por m ais elevadas que sej am as suas intenções e consistente que sej a o seu m étodo, o assunto lhe escorrega pelos fundos, im perceptivelm ente, e o conferencista e a platéia podem de repente se dar conta de que vinham prosseguindo com m uita elegância e inteligência, m as através de regiões que nada têm a ver com o que leram .
Era isso o que estava preocupando Gide, ou um a das coisas que o preocupavam , porque ele tinha um a m ente inquieta. Quando tentam os traduzir a verdade de um a esfera para outra, sej a da vida para os livros ou dos livros para a vida, algo acontece com a verdade: ela dá errado, não de repente, quando o erro poderia ser detectado, m as aos poucos. Aquele longo trecho de Les Faux-monnayeurs que citam os pode fazer o pássaro voltar à sua som bra. Não é m ais possível, depois dele, continuar aplicando o velho aparato. Há m ais coisas no rom ance do que o tem po ou as pessoas ou a lógica ou quaisquer de seus derivados, m ais até m esm o do que a fatalidade. E por “m ais” não m e refiro a algo que exclui esses aspectos nem tam pouco a algo que os inclui, abarcando-os. Refiro-m e a algo que os atravessa com o um feixe de luz, algo que, num ponto, está intim am ente ligado a eles, ilum inando pacientem ente todos os seus problem as, e, em outro, atira-se sobre eles ou através deles com o se nem existissem . Darem os a esse feixe de luz dois nom es: fantasia e profecia.
Todos os rom ances que vam os discutir agora contam um a estória, contêm personagens, e têm enredos ou fragm entos de enredos, de m odo que podem os aplicar a eles o aparato que se aj usta tanto a Fielding quanto a Arnold Bennett. Mas quando pronuncio dois de seus títulos – Tristram Shandy e Moby Dick – fica claro que devem os parar para pensar por um m om ento. O pássaro e a som bra estão por dem ais afastados um do outro. Precisam os encontrar um a fórm ula nova; o sim ples fato de poderm os m encionar Tristram e Moby na m esm a frase j á o dem onstra. Que par im possível! São tão distantes quanto um pólo do outro. Sim . E, com o os pólos, eles têm um a coisa em com um que as partes em volta do equador não têm : um eixo. O que é essencial em Sterne e Melville pertence a esse novo aspecto da ficção: o eixo fantástico-profético. George Meredith chegou a tocar nele: ele tinha um quê de fantástico. Charlotte Brontë tam bém : às vezes era um a profetisa. Mas em nenhum desses dois esse eixo era essencial. Se os privarm os dele, restarão livros ainda parecidos com Harry Richmond ou Shirley. Se privarm os Sterne e Melville dele, ou Peacock e Max Beerbohm , ou Virginia Woolf e Walter de la Mare, ou William Beckford e Jam es Joy ce, ou D. H. Lawrence e Swift, nada restará.
A m elhor m aneira de nos aproxim arm os de um a definição de qualquer aspecto da ficção é sem pre considerando o tipo de requisito que ela reclam a do leitor. Curiosidade pela estória, sentim entos hum anos e um senso de valor com relação aos personagens, inteligência e m em ória quanto ao enredo. O que a fantasia requer de nós? Ela nos pede um pagam ento extra. Im põe-nos um aj uste diferente do exigido por um a obra de arte, um aj uste adicional. Os outros rom ancistas dizem : “Eis algo que poderia acontecer nas nossas vidas”. Já o fantasista, diz: “Eis algo que não poderia acontecer. Devo pedir-lhes prim eiro que aceitem m eu livro com o um todo, e, em segundo lugar, que aceitem certas coisas no m eu livro”. Muitos leitores atendem ao prim eiro pedido, m as recusam o segundo. “É sabido que um livro não é real”, dizem ; “ainda assim , espera-se que ele sej a natural, e esse anj o, ou esse anão, ou esse fantasm a, e essa tola dem ora no nascim ento da criança – não, aí j á é dem ais.” Ou retiram a concessão original e param de ler, ou, se prosseguem , é com a m aior frieza, assistindo às piruetas do autor sem im aginar o quanto elas são im portantes para ele.
Sem dúvida, esse tipo de abordagem não é tão contundente com o crítica. Todo m undo sabe que um a obra de arte é um ente etc. etc.; ela tem suas próprias leis, que não são as m esm as da vida diária, qualquer coisa que lhe caia bem é verdadeira; então, por que devem os levantar um a questão sobre o anj o etc., e não se isso cai bem ao correspondente rom ance? Por que situar um anj o sobre um a base diferente da de um operador da Bolsa de Valores? Um a vez que estam os no dom ínio do fictício, qual é a diferença entre um a aparição e um a hipoteca?
Entendo a contundência desse argum ento, m as m eu coração se recusa a aceitá-lo. O tom geral dos rom ances é tão literal que, quando o fantástico é introduzido, produz-se um efeito curioso; alguns leitores se sentem instigados e outros perdem o interesse; ele reclam a um aj uste adicional devido à estranheza do seu m étodo ou do seu assunto – com o um espetáculo à parte, num a exposição, pelo qual se pagam m ais seis m oedas além do preço da entrada norm al. Alguns leitores pagam por ele com todo o prazer, na verdade só foram até a exposição para ver o espetáculo à parte, e é só a estes que m e dirij o agora. Outros se recusam a pagar m ais, e ficam indignados, e estes tam bém m erecem toda a nossa consideração, porque não gostar do fantástico na literatura não é o m esm o que não gostar de literatura. Tam pouco im plicaria pobreza de im aginação, apenas um a falta de inclinação a suportar certas exigências que a ela são im postas. Mr. Asquith (se for verdade o que com entam ) não pôde suportar as exigências que Lady in the Fox lhe im pôs. Ele disse que não teria feito obj eções a que a raposa se transform asse de novo em m ulher, m as do j eito que a coisa se deu ficou com a sensação incôm oda de insatisfação. Tal sentim ento não reflete nenhum descrédito, nem sobre um político tão im portante nem sobre um livro tão encantador. Sim plesm ente significa que Mr. Asquith, em bora sej a um verdadeiro am ante da literatura, não pôde pagar as seis m oedas a m ais – ou, então, até quis pagá-las, m as esperava recebê-las de volta ao final da leitura.
Assim , a fantasia nos pede um pagam ento extra.
Façam os agora um a distinção entre a fantasia e a profecia.
Elas se assem elham porque têm deuses, e se diferenciam pelos deuses que têm . Há em am bas aquele senso de m itologia que as distingue de outros aspectos do nosso assunto. Torna-se novam ente possível um a invocação; portanto, invoquem os em favor da fantasia todos os seres habitantes da baixa atm osfera, das águas rasas e dos m ontes pequenos, todos os faunos e as dríades, os lapsos de
m em ória e todas as coincidências verbais, Excalibures e os calem bures,[38] tudo o que soar m edieval deste lado da sepultura. Contudo, quando chegarm os à profecia, não poderem os fazer nenhum a invocação, m as deverem os nos voltar para algo que transcenda às nossas capacidades, nem que sej a a própria paixão hum ana, as divindades da Índia, da Grécia, da Escandinávia e da Judéia, tudo o que soar m edieval além da sepultura e de Lúcifer, o filho da m anhã. Por suas m itologias distinguirem os esses dois tipos de rom ances.
Assim , serem os assom brados hoj e por um a certa quantidade de divindades m enores – que eu cham aria de fadas se esse term o j á não estivesse consagrado à im becilidade. (Vocês acreditam em fadas? Não, de j eito nenhum .) O m aterial da vida diária será torcido e esticado para várias direções, a terra sofrerá leves trem ores, m alévolos ou taciturnos, focos de luz cairão sobre obj etos que não têm nenhum m otivo para esperá-los ou acolhê-los, e a própria tragédia, em bora não vá ser excluída, ganhará um ar fortuito, com o se um a palavra pudesse desarm á-la. O poder da fantasia penetra em cada recanto do universo, m as não nas forças que o governam – perm anecem intocadas as estrelas, que são o cérebro do céu, o exército da lei inalterável – e os rom ances desse tipo parecem im provisados, o que é o segredo de sua força e seu encanto. Podem m ostrar um a sólida criação de personagens, crítica aguda e am arga do com portam ento e da civilização; m esm o assim , subsiste a nossa im agem do feixe de luz, e, se algum deus há de ser invocado, que sej a Herm es – m ensageiro, ladrão e condutor de alm as para um além não m uito terrível.
Vocês agora esperam que eu diga que um livro fantástico requer que aceitem os o sobrenatural. Vou dizê-lo, m as com certa relutância, porque qualquer afirm ação sobre o assunto expõe tais rom ances às garras do aparato crítico, das quais é im portante salvá-los. É m ais verdadeira quanto a eles do que em relação a quaisquer outros livros a idéia de que só se pode saber o que eles contêm lendo-os, e o apelo deles é especialm ente pessoal – são espetáculos à parte dentro do espetáculo principal. Por isso, prefiro tergiversar, dizendo que eles nos pedem que se aceite ou o sobrenatural ou a sua ausência.
Um a referência ao m aior de todos eles – Tristram Shandy – pode esclarecer a questão. O sobrenatural está ausente do lar dos Shandy, m as m il incidentes insinuam que não está tão longe assim . Não seria tão estranho – não acham ? – se a m obília do quarto de Mr. Shandy, para onde ele se retirou em desespero depois de ouvir os detalhes que tinham sido om itidos sobre o nascim ento de seu filho, ganhasse vida, com o o toilette de Belinda em The Rape of the Lock, ou que aquela ponte levadiça do tio Toby conduzisse a Lilliput. Há um a estagnação encantada em todo esse épico – quanto m ais os personagens fazem , m enos coisas acontecem ; quanto m enos têm a dizer, m ais falam ; quanto m ais pensam , m ais sim plórios se tornam ; os fatos têm a irreverente tendência a desem baraçar e expor o passado em vez de engendrar o futuro, com o ocorre nos livros bem conduzidos, e é suspeitíssim a a obstinação dos obj etos inanim ados, com o a bolsa do Dr. Slop. É óbvio que há um deus escondido em Tristram Shandy, seu nom e é Balbúrdia, e alguns leitores não podem aceitá-lo. A Balbúrdia é quase um a encarnação – contudo, revelar seus traços terríveis não era exatam ente o propósito de Sterne; ela é a divindade que se oculta por trás de sua obra-prim a – o exército da inefável balbúrdia, o universo com o um a castanha quente. Não adm ira que outro divino m estre da balbúrdia, Dr. Johnson, tenha escrito em 1776 a seguinte observação: “O que é estranho não dura. Tristram Shandy não durou”. Nem sem pre ele era feliz em seus j uízos literários, m as a inadequação deste chega a ser incrível.
Bem , isto deve bastar com o nossa definição da fantasia. Ela im plica o sobrenatural, m as não precisa expressá-lo. Freqüentem ente o expressa, de fato, e se esse tipo de classificação fosse útil poderíam os fazer um a lista dos artifícios a que recorreram os escritores de veia fantástica – com o a introdução na vida diária de um deus, um fantasm a, um anj o, um m acaco, um m onstro, um anão ou um a bruxa; ou a introdução de hom ens com uns em terras de ninguém , no futuro, no passado, no interior da terra, na quarta dim ensão; ou os m ergulhos na personalidade e na fragm entação dela; ou, finalm ente, o artifício da paródia ou adaptação. Esses artifícios nunca envelhecem ; hão de ocorrer naturalm ente aos escritores de um certo tem peram ento, que sem pre poderão usá-los de m aneira renovada; m as o fato de existirem em núm ero restrito é interessante, e sugere que o feixe de luz só pode ser m anipulado de determ inados m odos.
Escolherei com o exem plo típico um rom ance recente sobre um a feiticeira:
Flecker’s Magic, de Norm an Matson.[39] Gostei dele e o recom endei a um am igo cuj a opinião respeito m uito. Ele o achou fraco. É o m al dos livros novos: eles nunca nos dão aquele sentim ento reconfortante que a atenta leitura dos clássicos nos dá. Flecker’s Magic não tem praticam ente nada de novo – o contrário não seria próprio das fantasias; é só a estória do anel encantado que ou traz a infelicidade ou não traz absolutam ente nada. Flecker, um rapaz am ericano que está em Paris aprendendo pintura, recebe o anel de um a garota, num café; ela é um a feiticeira, e conta isso a ele; bastava que ele estivesse certo do que quer para obtê-lo. Para dem onstrar seus poderes, ela levanta um ônibus lentam ente pelo ar, virando-o de ponta-cabeça. Os passageiros, que não chegam a cair, tentam agir com o se nada de estranho estivesse acontecendo. O m otorista, que nesse m om ento está de pé na calçada, não consegue esconder sua surpresa, m as, quando o ônibus retorna ao solo, intacto, ele pensa bem e resolve que seria m ais prudente sim plesm ente tom ar seu lugar e com eçar a dirigir norm alm ente. Ônibus não levitam nem viram de ponta-cabeça pelo ar – não m esm o. Flecker, então, aceita o anel. Seu personagem , apesar de superficialm ente esboçado, é individual, e isso de fato aj uda o livro a nos prender.
Ele continua com um a tensão crescente, num a série de pequenos choques. O m étodo é socrático. O rapaz com eça a pensar em algo óbvio, com o um Rolls-Roy ce. Mas onde guardaria essa banheira? Ou então um a bela m ulher. Mas e quanto à carte d’identité dela? E o dinheiro? Ah, agora sim – ele é quase um m endigo. Digam os algo em torno de um m ilhão de dólares. Ele se prepara para virar o anel – até pensar que dois m ilhões seria um pedido m ais seguro – ou dez – ou... e a quantia chega a um valor astronôm ico, o m esm o acontecendo quando ele pensa num a longa vida: m orrer daqui a quarenta anos – não, cinqüenta – não, cem – que horror! Depois, surge a solução. Ele sem pre quis ser um grande pintor. E agora chegou a hora, de um a vez por todas. Mas que tipo de grandeza ele alm ej ava? A de Giotto? A de Cézanne? Certam ente que não; algum a que fosse do j eito dele m esm o, coisa que ele não sabe com o seria, o que significa que esse desej o era igualm ente im possível.
Depois, um a velha horrível com eça a persegui-lo de dia e em sonhos. Ela lem bra os traços da garota que lhe deu o anel. Conhece os pensam entos dele, e aparece a seu lado, dizendo: “Meu querido rapaz! Peça a felicidade!”. Logo ficam os sabendo que ela é a verdadeira feiticeira – e a garota era um a hum ana que ela conhecia e tinha usado para entrar em contato com Flecker. Era a últim a das feiticeiras – m uito solitária. As outras todas se suicidaram no século xviii – não conseguiram sobreviver no m undo de Newton, onde dois e dois são quatro, e nem m esm o o m undo de Einstein seria descentrado o bastante para redespertá-las. Ela resistiu graças à esperança de um dia poder acabar com este m undo, e quer que o rapaz peça a felicidade porque um pedido com o esse nunca foi feito em toda a história do anel.
Seria Flecker o prim eiro hom em m oderno a enfrentar tal dilem a?
As pessoas de antigam ente tinham tão poucas coisas que sabiam com
certeza o que queriam . Sabiam da existência de Deus todo-poderoso,
que usava barba e ficava sentado num a poltrona a cerca de um a m ilha
acim a dos cam pos, e a vida era m uito curta e tam bém m uito longa, j á
que os dias eram tão cheios de esforços sem sentido.
As pessoas daquele tem po desej avam um belo castelo no alto de
um m onte, onde viveriam até a m orte. Mas o m onte não era tão alto a
ponto de poderem enxergar, de suas j anelas, trinta séculos para trás –
com o hoj e se pode fazer em qualquer bangalô. No castelo não haveria
grandes volum es cheios de palavras e im agens m ostrando as coisas que
a incansável curiosidade do hom em desenterrou do solo e da areia em
todos os cantos do m undo; acreditava-se vagam ente em dragões, m as
não havia nenhum conhecim ento de que, um dia, apenas dragões
viviam sobre a terra – de que os avós dos hom ens foram dragões; não
havia film es trem eluzindo com o se fossem pensam entos proj etados
num a parede branca, não havia vitrola, nem a m aquinaria que nos dá a
sensação de velocidade; nem diagram as sobre a quarta dim ensão, nem
contrastes na vida, com o o que se dá entre a de Waterville, Minnesota, e
a de Paris, na França. No castelo, a luz era fraca e trem ulante, os
corredores eram escuros, os côm odos eram profundam ente som brios.
O pequeno m undo exterior estava cheio de som bras, e bem no topo da
m ente de quem m orava no castelo brilhava um a luzinha fraca – sob a
qual só havia trevas, m edo, ignorância, desej o-de-ignorância.
Sobretudo, no castelo do m onte não existia aquela sensação vertiginosa
de revelação im inente – de que hoj e ou am anhã, com certeza, o
Hom em de um só golpe duplicaria seu poder, e transform aria o m undo
m ais um a vez.
Os velhos contos de m agia eram os pensam entos balbuciantes de
um m undo estreito, pobre e rem oto – pelo m enos era o que pensava
Flecker, ofendido. Tais contos não lhe ofereciam nenhum a orientação.
Havia diferenças dem ais entre o seu m undo e o deles. [...]
Ele considerava se não teria sido insensato rej eitar tão rápido o
desej o de felicidade. Mas ficar pensando nisso não o levava a parte
algum a. Ele não era sábio o bastante. Nos velhos contos, nunca se fez
um pedido de felicidade! Ele se perguntava por quê.
Poderia tentar – só para ver o que aconteceria. A idéia fez com que
ele estrem ecesse. Saltou da cam a e pôs-se a andar no chão de laj otas
verm elhas, esfregando as m ãos. [...]
“Quero ser feliz para sem pre”, m urm urou, para que pudesse ouvir
as palavras, m as com bastante cuidado para não tocar no anel. “Feliz...
para sempre” – as duas sílabas da prim eira palavra soaram feito
m úsica ao baterem no sino da sua im aginação, com o se fossem duas
pedrinhas, m as o resto era um suspiro. Para sem pre – seu espírito
sucum bia sob esse im pacto suave e pesado. Presa na sua cabeça, essas
palavras tornaram -se um a m úsica som bria que ia dim inuindo de
volum e. “Feliz... para sempre” – não!!!
Com o verdadeiro fantasista, Norm an Matson m escla os reinos da m agia e do senso com um usando palavras que se aplicam a am bos, e a m istura que cria dessa m aneira adquire vida própria. Não vou contar o fim da estória. Vocês j á terão adivinhado com o ela é, no essencial, m as sem pre há surpresas no funcionam ento de um a m ente j ovial, e até o fim dos tem pos a boa literatura se fará ao redor dessa noção de um desej o.
Troquem os este exem plo sim ples de estória sobrenatural para outro m ais com plicado – um livro altam ente realizado e superiorm ente escrito, de espírito farsesco: Zuleika Dobson, de Max Beerbohm . Todos vocês conhecem Miss Dobson – não pessoalm ente, do contrário não estariam aqui agora. É aquela m oça por cuj o am or praticam ente todos os estudantes de Oxford se afogaram durante a sem ana de regatas, exceto um , que se atirou da j anela.
O tem a é ótim o para a fantasia, m as tudo vai depender do m anej o. É tratado com um a m istura de realism o, espirituosidade, encanto e m itologia, e a m itologia aqui im porta m uito. Max pediu em prestada ou criou um a série de m áquinas sobrenaturais – seria um a inépcia confiar Zuleika a um a delas; a fantasia teria resultado m uito pesada ou m uito rala. Mas passam os dos im peradores em papados de suor para as pérolas negras e cor-de-rosa, do crocitar das coruj as para as introm issões da m usa Clio, dos fantasm as de Chopin e George Sand para o de Nellie O’Mora; assim que um fracassa, outro o substitui, levando adiante este que é o m ais refinado dos cortej os fúnebres.
Atravessaram a praça, cruzaram a High Street e desceram pela
Grove Street. O duque ergueu a vista para o torreão de Merton,
. Era estranho que naquela noite ele perm anecesse ali, de pé, em toda
sua sóbria e sólida beleza, ainda olhando, por cim a dos telhados e das
cham inés, para a torre de Magdalen, sua legítim a noiva. Por séculos
futuros ainda não registrados ele continuará assim , erguido, olhando.
Ele se encolheu. Os m uros de Oxford sabem com o nos apequenar, e o
duque resistia à idéia de que a sua sina fosse trivial.
Sim , todos os m inérios zom bam de nós. Os vegetais, anualm ente
decíduos, são m uito m ais com passivos. O lilás e o laburno, que agora
alegravam o cam inho cercado até o prado de Christ Church,
inclinavam -se e m eneavam -se à passagem do duque. “Adieu, adieu,
Sua Excelência”, m urm uravam . “Lam entam os m uito pelo senhor –
m uito m esm o. Nunca ousam os im aginar que o senhor nos predeceria.
Consideram os seu falecim ento um a grande tragédia. Adieu! Talvez nos
encontrem os no outro m undo – isto é, se os m em bros do reino anim al
tiverem alm as im ortais, com o nós.”
O duque não era m uito versado naquela língua; m esm o assim , ao
passar em m eio a tais florações tão loquazes, pôde ao m enos perceber
o significado de sua saudação, retribuindo com um sorriso de
reconhecim ento vago, porém cortês, inclinando-se ora para a direita,
ora para a esquerda, o que produziu um a im pressão m uito favorável.
Não lhes parece que um a passagem com o esta alcança um a beleza que a literatura séria não consegue atingir? É engraçada e encantadora ao m esm o tem po, radiante e profunda. A crítica à natureza hum ana não voa com o um a flecha, e sim m ontada nas asas de sílfides. Perto do fim – esse m om ento terrível que tão freqüentem ente é fatal para a ficção – o livro decai um pouco: visto de perto, o suicídio de todos os estudantes de Oxford não é tão engraçado quanto deveria, e a defenestração de Noaks é quase indecente. Mesm o assim , é um trabalho e tanto – a realização m ais consistente da fantasia no nosso tem po, e a cena final é im pecável, no quarto de Zuleika, trazendo a am eaça de novos desastres.
Com a respiração contida e o coração acelerado, ela m antinha os
olhos fitos na dam a do espelho, sem poder vê-la; depois, virou-se e
deslizou até a m esinha sobre a qual estavam seus dois livros. Pegou
Bradshaw.
Sem pre intervim os entre Bradshaw e quem quer que vej am os a
consultá-lo. “A mademoiselle m e perm itiria encontrar o que procura?”,
perguntou Mélisande.
“Fique quieta”, disse Zuleika. Sem pre rechaçam os im ediatam ente
quem quer que intervenha entre nós e Bradshaw.
Sem pre acabam os aceitando a intervenção. “Vej a se é possível ir
daqui direto para Cam bridge”, disse Zuleika estendendo o livro. “Senão,
então... bem , então vej a como se vai até lá.”
Nunca tem os a m enor confiança no interveniente. Nem este chega
a ser otim ista quando se trata do que de fato im porta. Desconfiada à
beira da exasperação, Zuleika observava, sentada, as tem erosas e
frenéticas pesquisas de sua criada.
“Pare!”, disse, de repente. “Tive um a idéia m uito m elhor. Vá bem
cedo até a estação. Procure o encarregado e reserve para m im um
trem especial. Para as dez horas, pode ser.”
Levantando-se, esticou os braços por trás da cabeça. Os lábios se
entreabriram num bocej o, fundindo-se num sorriso. Com as duas m ãos,
recolheu o cabelo sobre os om bros e enlaçou-o com um nó frouxo.
Rapidam ente deslizou até a cam a, e m uito em breve j á estava
adorm ecida.
Assim , Zuleika deveria ter ido até o tal lugar. Não parece que j am ais o tenha feito, e só podem os supor que, devido à intervenção dos deuses, seu trem especial nem tenha chegado a partir, ou então, m ais provavelm ente, que continue estacionado em Bletchley.
Entre os artifícios da m inha lista, m encionei a “paródia” ou “adaptação”, e agora gostaria de exam inar esse ponto m ais a fundo. Aqui, o fantasista adota com o m itologia algum a obra precedente, e a utiliza com o arm ação ou fonte para seus próprios fins. Um exem plo frustrado disso está em Joseph Andrews. Fielding com eçou servindo-se de Pamela com o um a m itologia côm ica. Achou que seria divertido inventar um irm ão para Pam ela, um lacaio m uito digno que viria a repelir as atenções de Lady Booby assim com o Pam ela repelia as de Mr. B., e fez de Lady Booby a tia de Mr. B. Com isso, poderia troçar de Richardson e, ao m esm o tem po, exprim ir suas próprias idéias sobre a vida. Entretanto, sua visão da vida é daquele tipo que só fica satisfeito com a criação de sólidos personagens redondos, e, com o crescim ento de Parson Adam s e Mrs. Slipslop, a fantasia cessa e ficam os com um trabalho independente. Joseph Andrews (que tam bém tem um a im portância histórica) é interessante para nós com o exem plo de um princípio em falso. O autor com eça bancando o bobo num m undo richardsoniano e term ina tornando-se sério num m undo próprio: o de Tom Jones e Am elia.
A paródia ou adaptação apresenta grandes vantagens para certos rom ancistas, especialm ente para os que têm m uita coisa a dizer e um gênio literário abundante, m as que não vêem o m undo em term os de hom ens e m ulheres individuais – aqueles que, em outras palavras, não têm m uita facilidade para criar personagens. Com o podem esses hom ens com eçar a escrever? Um livro ou um a tradição literária j á existentes podem lhes servir de inspiração – no alto de suas cornij as, podem encontrar um padrão disponível com o com eço, podem se exercitar nas suas vigas, em busca de m ais forças. Parece ter surgido assim a fantasia de Lowes Dickinson, The Magic Flute: tom ou com o sua m itologia o m undo de Mozart. Tam ino, Sarastro e a Rainha da Noite aparecem em seu reino encantado aguardando um a solicitação dos pensam entos do autor; tão logo estes se m anifestam , adquirem vida, e nasce assim um a obra m uito requintada. O m esm o é verdadeiro quanto a outra fantasia, que é tudo m enos
requintada – Ulysses, de Jam es Joy ce.[40] Este caso notável – que é talvez o experim ento literário m ais interessante dos nossos dias – não teria sido possível se Joy ce não tivesse tom ado com o guia e base o m undo da Odisséia.
Só m e refiro a um aspecto de Ulysses; é claro que ele é m uito m ais do que um a fantasia – é um a obstinada tentativa de cobrir de lam a o universo inteiro, um vitorianism o às avessas, um a tentativa de fazer a rabugice e a suj eira darem certo onde a doçura e a leveza deram errado, um a sim plificação do caráter hum ano em benefício dos interesses do Inferno. Todas as sim plificações são fascinantes, e todas nos afastam da verdade (que se encontra m ais perto da tal balbúrdia de Tristram Shandy), e Ulysses não deverá nos deter por m uito tem po, j á que contém um a m oral – do contrário, tam bém terem os de falar de Mrs. Hum phry Ward. Vam os nos ocupar um pouco dele porque, através de um a m itologia, Joy ce conseguiu criar um cenário peculiar e os personagens de que precisava.
A ação dessas quatrocentas m il palavras ocupa um único dia, tudo se passa em Dublin e o tem a é um a viagem – a viagem do hom em m oderno desde a m anhã até a m eia-noite, desde o leito até as débeis tarefas da m ediocridade, com idas a um enterro, à redação de um j ornal, a um a biblioteca, a um bar, ao banheiro, a um quarto de m aternidade, à praia, a um bordel, a um a lanchonete e, por fim , de volta à cam a. E tem coesão, porque depende da viagem de um herói que sulca os m ares da Grécia assim com o o m orcego que pende de um a cornij a.
O próprio Ulisses é Mr. Leopold Bloom – um j udeu convertido –, avarento, lascivo, tím ido, indecente, inconstante, superficial e am ável, que desce a seu nível m ais baixo sem pre que finge ter grandes aspirações. Bloom pretende explorar a vida através do corpo. Penélope é Mrs. Marion Bloom , um a florescente soprano nem um pouco severa com seus pretendentes. O terceiro personagem é o j ovem Stephen Dedalus, que Bloom reconhece com o seu filho espiritual assim com o Ulisses reconhece em Telêm aco seu legítim o filho. Stephen pretende explorar a vida através do intelecto – j á o havíam os encontrado em A Portrait of the Artist as a Young Man, e agora ele se envolve nesse épico de suj eira e desilusão. Ele e Bloom se encontram no m eio do cam inho em Night Town (que corresponde em parte ao Palácio de Circe, em Hom ero, e em parte à sua Descida ao Inferno), e, entre ruelas sobrenaturais e im undas, surge entre eles um a am izade superficial, m as verdadeira. É a crise do livro, e nessa parte – na verdade, em todo o livro – m itologias m enores se agitam e pululam com o se fossem verm es entre as escam as de um a cobra venenosa. O céu e a terra se enchem de vida infernal, as personalidades se fundem e os sexos se intercam biam , até que todo o universo, inclusive o pobre e hedonista Mr. Bloom , se envolve num a orgia deprim ente.
Isso dá certo? Não, não totalm ente. A indignação na literatura nunca dá totalm ente certo, nem em Juvenal, nem em Swift, nem em Joy ce; há nas palavras algo que é alheio à sua sim plicidade. A cena de Night Town não dá certo a não ser com o superafetação de fantasias, m onstruoso acasalam ento de rem iniscências. Atinge-se toda a satisfação possível nessa direção, e, ao longo de todo o livro, passam os por experiências sem elhantes – cuj o obj etivo é degradar todas as coisas, principalm ente a civilização e a arte, virando-as pelo avesso e de ponta-cabeça. Os entusiastas acharão que eu não deveria citar Ulysses aqui e sim m ais adiante, no âm bito da profecia, e com preendo essa crítica. Mas prefiro m encioná-lo aqui, j unto com Tristram Shandy, Flecker’s Magic, Zuleika Dobson e The Magic Flute, porque a fúria de Joy ce, com o o tem peram ento m ais tranqüilo e m ais alegre dos autores desses outros livros, parece-m e essencialm ente fantástica, e carece da nota m usical que em breve com eçarem os a ouvir.
Precisam os ir m ais fundo nessa noção de m itologia, e com m ais cautela.