Aspectos do Romance

E. M. Forster · Capítulo 16 de 21

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Aspectos do Romance

Capítulo 9

Conclusão

 

É tentador concluir com especulações sobre o futuro do rom ance: tornar-se-á m ais ou m enos realístico? Será assassinado pelo cinem a? E assim por diante. Especulações, tristes ou anim adas, sem pre têm aquele ar de grandeza, e são a m aneira m ais conveniente de parecerm os úteis ou im pressionantes. Mas não tem os nenhum direito de fazê-las. Tínham os recusado os entraves do passado, e agora não podem os nos beneficiar do futuro. Visualizam os os rom ancistas dos últim os duzentos anos todos escrevendo j untos num m esm o salão, suj eitos às m esm as em oções e introduzindo os acidentes de suas épocas no crisol da inspiração, e, qualquer que sej a o resultado que obtivem os, nosso m étodo foi seguro – pelo m enos para um a assem bléia de pseudo-eruditos com o nós. Mas precisam os visualizar os rom ancistas dos próxim os duzentos anos tam bém escrevendo no m esm o salão. A m udança em seus tem as será enorm e; m as eles não m udarão. Podem os dom inar o átom o, desem barcar na Lua, am pliar ou abolir o arm am ento, desvendar o processo m ental dos anim ais; m as tudo isso são bagatelas que pertencem à história, não à arte. A história se desenrola, a arte perm anece. O rom ancista do futuro terá de passar todos os novos fatos através do m ecanism o velho porém variado da m ente criativa.

Entretanto, há um a questão que toca o nosso assunto e só pode ser respondida por um psicólogo. Tentem os ao m enos enunciá-la. Será que o próprio processo criativo sofrerá alterações? Será que o espelho receberá um a nova cam ada de m ercúrio? Em outras palavras, a natureza hum ana pode se alterar? Considerem os por um m om ento essa possibilidade – podem os nos perm itir essa recreação.

É divertido ouvir as pessoas m ais velhas a esse respeito. Às vezes, um hom em diz em tom de confidência: “A natureza hum ana é a m esm a em todas as épocas. O prim itivo hom em das cavernas subsiste dentro de nós. Civilização – bah! Mero verniz! Não se pode alterar os fatos”. Ele fala assim enquanto se sente próspero e está bem alim entado. Quando se sente deprim ido e se preocupa com os j ovens, ou quando se põe sentim ental porque eles hão de se dar bem na vida, tendo ele se dado m al, então adota o ponto de vista oposto e diz, m isteriosam ente: “A natureza hum ana não é a m esm a. Pude ver alterações fundam entais em m eus próprios dias. É preciso encarar os fatos”. E não sai disso, todos os dias, sem pre alternando entre encarar os fatos e recusar-se a alterá-los.

Tudo o que farei será expor um a possibilidade. Se a natureza hum ana de fato se alterar, será porque os indivíduos terão conseguido olhar-se uns aos outros de um m odo novo. Aqui e ali há algum as pessoas que estão tentando fazer isso – são m uito poucas, m as entre elas há alguns rom ancistas. Todas as instituições e os interesses estabelecidos vão contra essa pesquisa: a religião organizada, o Estado, a fam ília em seu aspecto econôm ico, nada têm a ganhar, e a pesquisa só pode seguir em frente quando as restrições externas dim inuem ; nesse ponto, ela é condicionada pela história. Talvez os pesquisadores fracassem . Talvez sej a im possível para o instrum ento de contem plação contem plar-se a si m esm o, e talvez, se for possível, isso signifique o fim da literatura im aginativa – o que é, se bem a com preendo, a visão de um investigador m uito agudo, Mr. I. A. Richards. Sej a com o for – esse cam inho traz m ovim ento e com bustível para o rom ance, porque, se o rom ancista se vê diferentem ente, tam bém vê diferentem ente seus personagens, e daí resulta um sistem a de ilum inação novo.

Não sei de que filosofia ou filosofias rivais estas idéias se aproxim am , m as, quando m e volto para m eus próprios pedaços de conhecim ento, e para m eu próprio coração, vej o estes dois m ovim entos da m ente hum ana: a grande e tediosa disparada conhecida com o história, e o tím ido m ovim ento lateral de caranguej o. Am bos foram negligenciados nestas conferências: a história porque ela apenas leva as pessoas em frente; e o m ovim ento de caranguej o porque é lento e cauteloso dem ais para se tornar visível no nosso curto período de duzentos anos. Por isso, ao com eçarm os, estabelecem os o axiom a de que a natureza hum ana é inalterável, e que ela produz em sucessão rápida ficções em prosa que, se contiverem cinqüenta m il palavras ou m ais, são cham adas de rom ances. Se tivéssem os capacidade e licença para adotar um a visão m ais am pla, exam inando todas as atividades hum anas e pré-hum anas, talvez não chegássem os a esta conclusão; o m ovim ento de caranguej o, as m udanças dos passageiros seriam então visíveis, e a expressão “o desenvolvim ento do rom ance” deixaria de ser um a etiqueta pseudo-erudita ou um a banalidade técnica, tornando-se coisa im portante, porque im plicaria com ela o desenvolvim ento da hum anidade.