Aspectos do Romance

E. M. Forster · Capítulo 8 de 21

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Aspectos do Romance

Dedicatória

A Charles Mauron

1

Introdução

 

Este ciclo de conferências está ligado ao nom e de William George Clark, m em bro do Trinity College. É por m eio dele que hoj e nos encontram os, e por m eio dele abordarem os nossa m atéria.

Creio que Clark era de Yorkshire. Nasceu em 1821, freqüentou a escola em Sedbergh e Shrewsbury, entrou para o Trinity College com o aluno de graduação em 1840, tornou-se m em bro quatro anos depois, e fez desta instituição sua casa por cerca de trinta anos, para deixá-la apenas após a perda da saúde, pouco antes de m orrer. É m ais conhecido com o um especialista em Shakespeare, m as tam bém publicou dois livros sobre outros assuntos, aos quais devem os aqui fazer m enção. Quando j ovem , esteve na Espanha, e escreveu um relato agradável e m uito vívido de suas férias, intitulado Gazpacho – nom e de um a sopa fria que ele tom ou entre os cam poneses da Andaluzia, e ao que parece apreciou; na verdade, ele parece ter apreciado tudo. Oito anos depois, após um a estada na Grécia, publicou um segundo livro, Peloponnesus. Trata-se de um a obra m ais grave e pesada. Naquela época a Grécia era um lugar sério, m ais do que a Espanha; além disso, Clark não só tinha sido ordenado com o tam bém se tornara Orador Público, e acim a de tudo estava viaj ando com o Dr. Thom pson, então reitor do Trinity College, que não era nem um pouco o tipo de pessoa que costum a se envolver com sopas frias. As anedotas sobre m ulas e m osquitos seriam , portanto, m enos freqüentes, e assim nos deparam os m ais e m ais com restos da Antigüidade clássica e locais de batalhas. O que sobrevive do livro – além da sua erudição – é sua afeição pelo interior da Grécia. Clark tam bém viaj ou pela Itália e pela Polônia.

Voltem os à sua carreira acadêm ica. Foi ele quem planej ou a grande edição do Cambridge Shakespeare, prim eiro com Glover, depois com Aldis Wright (am bos bibliotecários do Trinity ), e, com a aj uda de Aldis Wright, editou o Globe Shakespeare, m ais popular. Reuniu m uito m aterial para um a edição de Aristófanes. Tam bém publicou alguns serm ões, m as largou as Ordens Sacras em 1869 – o que, a propósito, nos dispensará de excessos de ortodoxia. Com o seu am igo e biógrafo Leslie Stephen, com o Henry Sidgwick e outros de sua geração, não lhe pareceu possível perm anecer na Igrej a, e ele expôs seus m otivos num panfleto intitulado The Present Dangers of the Church of England (“Os riscos atuais da Igrej a Anglicana”). Em conseqüência disso, renunciou ao cargo de Orador Público, m as m anteve a condição de Professor do Trinity College. Morreu aos cinqüenta e sete anos, estim ado por todos que o conheciam com o um hom em am ável, estudioso e honesto. Já se percebe que se trata de um a figura de Cam bridge. Não um a figura m undana, ou m esm o de Oxford, m as um espírito peculiar a estes pátios, que talvez só vocês que os cruzam tem pos depois dele poderão avaliar com j ustiça: o espírito de integridade. Graças a um a doação prevista no seu testam ento, seu antigo colégio estabeleceu o ciclo de conferências que deveria se repetir todos os anos, versando “sobre período ou períodos da Literatura Inglesa não anteriores a Chaucer”, para sem pre ligados ao seu nom e.

 

As invocações estão fora de m oda, m as quis fazer esta breve invocação por dois m otivos. Prim eiro, para que um pouco da integridade de Clark estej a conosco ao longo deste curso; segundo, para que ele nos perm ita um a pequena transgressão. É que eu não pretendo atender estritam ente aos term os estabelecidos: “período ou períodos da Literatura Inglesa”. Essa condição, em bora pareça e sej a bastante liberal no espírito, na letra não se aj usta perfeitam ente à nossa m atéria, e a conferência de introdução deve se dedicar a explicar por quê. Os aspectos abordados podem parecer banais, m as eles nos conduzirão a um posto avançado m uito conveniente, a partir do qual poderem os iniciar nossa ofensiva principal.

Precisam os de um posto avançado, porque o rom ance é um a m assa form idável e m uito am orfa – sem m ontanhas a serem escaladas, sem Parnaso e sem Helicão, sem sequer um Pisga. É conhecido com o um a das áreas m ais lodacentas da literatura, irrigada por um a centena de riachos e freqüentem ente degenerando num pântano. Não m e espanta que os poetas o desprezem , em bora às vezes se vej am nele, por acidente. Tam pouco m e adm ira a irritação dos historiadores, sem pre que, por acaso, ele se m istura no m eio deles. Mas, antes de com eçar, talvez devêssem os definir o que é um rom ance. Monsieur Abel

Chevalley nos dá um a definição, em seu pequeno e brilhante m anual[26] – e, se um crítico francês não puder definir o rom ance inglês, quem o poderá? Trata-se, diz ele, de “um a ficção em prosa de um a certa extensão” (une fiction en prose d’une certaine étendue). Isto é o suficiente para nós, e podem os até ir além , acrescentando que essa extensão não deve ter m enos de cinqüenta m il palavras. Para os efeitos destas conferências, toda obra ficcional em prosa com m ais de cinqüenta m il palavras será considerada um rom ance. E, se isto não lhes parecer suficientem ente filosófico, queiram por favor buscar um a definição alternativa, que inclua The Pilgrim’s Progress, Marius the Epicurean, The Adventures of a Younger Son, The Magic Flute, A Journal of the Plague Year, Zuleika Dobson, Rasselas, Ulysses e Green Mansions, ou que, do contrário, j ustifique a exclusão dessas obras. É verdade que certas partes do nosso terreno lam acento parecem m ais fictícias do que outras: perto do centro, sobre um trecho de gram a, está Miss Austen, tendo ao lado a figura de Em m a, e Tackerey j unto a Esm ond. Mas não conheço nenhum a afirm ação inteligente que descreva toda a extensão do terreno. Tudo o que podem os dizer sobre ele é que se situa entre duas cadeias m ontanhosas que não se elevam m uito abruptam ente – as opostas form ações da Poesia e da História – e confina pelo terceiro lado com o m ar – um m ar que encontrarem os quando chegarm os a Moby Dick.

Em prim eiro lugar, considerem os a expressão “Literatura Inglesa”. É claro que devem os interpretar “inglesa” com o escrita em inglês, e não com o publicada ao sul do Tweed ou a leste do Atlântico, ou ao norte do Equador: não precisam os nos ater aos acidentes geográficos, que podem ser deixados para os políticos. Mas, m esm o com essa interpretação, estam os tão livres quanto desej am os? Podem os, ao discutir a ficção inglesa, ignorar com pletam ente a ficção escrita em outras línguas, especialm ente a francesa e a russa? No que diz respeito às influências, poderíam os ignorá-las, j á que os nossos escritores nunca se deixaram influenciar m uito pelos continentais. Entretanto, por m otivos que logo serão explicados, quero falar o m ínim o possível sobre influências durante este ciclo. Meu assunto é um tipo específico de livro e os aspectos que ele assum iu em inglês. Podem os ignorar seus respectivos aspectos no continente? Não de todo. Precisam os encarar aqui um a verdade desagradável e nada patriótica. Nenhum rom ancista inglês é tão grande quanto Tolstói – quer dizer, nenhum nos apresentou um retrato tão com pleto da vida do hom em , sej a em seu lado dom éstico ou heróico. Nenhum rom ancista inglês explorou a alm a do hom em tão profundam ente quanto Dostoiévski. E nenhum rom ancista em parte algum a j am ais analisou a consciência m oderna com tanto êxito quanto Marcel Proust. Perante esses triunfos devem os nos deter. A poesia inglesa não tem a quem tem er – destacando-se tanto pela qualidade quanto pela quantidade. Mas a ficção inglesa é m enos triunfante: não contém o que de m elhor j á se escreveu, e se o negarm os, incorrerem os em provincianism o.

O provincianism o, porém , não é significativo no que concerne a um escritor, e pode até ser a sua principal fonte de força: só um pedante ou um tolo se

queixaria do acento cockney[27] de Defoe ou do sotaque interiorano de Thom as Hardy. Já num crítico o provincianism o é um sério defeito. Um crítico não tem direito à estreiteza que é a prerrogativa freqüente do artista criador. Ele deve ter um a visão am pla, do contrário não terá nada m ais. Em bora o rom ance exerça o direito de um obj eto criado, a crítica não tem esses direitos, e m uitas pequenas residências da ficção inglesa têm sido aclam adas, em prej uízo delas m esm as, com o im portantes edifícios. Tom em os quatro delas ao acaso: Cranford, The Heart of Midlothian, Jane Eyre e The Ordeal of Richard Feverel. Podem os estar ligados a esses livros por várias razões pessoais ou locais. Cranford irradia o espírito das cidades do centro do país; Midlothian é um pedaço arrancado de Edim burgo; Jane Eyre é o sonho apaixonado de um a m ulher e tanto, m as ainda não desenvolvida; Richard Feverel transpira o lirism o do cam po e palpita com a espirituosidade da m oda. Mas são quatro pequenas residências, e não grandes edifícios. Terem os de avaliá-los e respeitá-los pelo que são, se os puserm os por um instante em m eio às colunatas de Guerra e paz ou sob as abóbadas de Os irmãos Karamázov.

Não farei nestas conferências m enções freqüentes a rom ances estrangeiros. Muito m enos pretendo posar de entendido no assunto, im possibilitado de discorrer sobre eles pelas restrições do program a. Mas quero enfatizar sua grandeza antes de com eçarm os, e assim lançar, por assim dizer, esta som bra prelim inar sobre a nossa m atéria, de m odo que, quando afinal retornarm os a ela, possam os ter um a oportunidade m elhor de observá-la com o seu brilho real.

Isto basta para o term o “inglesa”. Cabe agora analisar um ponto m ais im portante, a expressão “período ou períodos”. Ocorre que essa idéia de um período ou desenvolvim ento no tem po, com a conseqüente ênfase em influências e escolas, é exatam ente o que espero evitar durante a nossa breve investigação, e acredito que o autor de Gazpacho será condescendente. O tem po será sem pre nosso inim igo. Vam os visualizar os rom ancistas ingleses não com o se flutuassem ao longo da corrente que leva em bora todos os seus filhos descuidados, e sim com o se estivessem sentados j untos num a sala, um a sala circular, com o o salão de leitura do Museu Britânico – todos escrevendo seus rom ances sim ultaneam ente. Ali, sentados, eles não pensam : “eu vivo nos tem pos da Rainha Vitória”, “eu, na época de Ana”, “eu dou continuidade à tradição de Trollope”, “eu estou reagindo contra Aldous Huxley ”. O fato de terem suas penas à m ão é para eles bem m ais im portante. Estão um tanto m agnetizados, suas tristezas e alegrias se derram am j unto com a tinta, aproxim am -se uns dos outros pelo ato de criar, e quando o Professor Oliver Elton afirm a, com o de fato o faz, que “depois de 1847 o rom ance passional nunca m ais voltou a ser o m esm o”, ninguém ali entende o que ele quer dizer. Será assim o nosso m odo de vê-los – é um m odo im perfeito, m as adequado às nossas possibilidades, que nos há de prevenir contra um sério risco, o risco de pseudo-erudição.

A verdadeira erudição é um dos m ais elevados êxitos que a nossa raça pode alcançar. Ninguém triunfa m ais do que o hom em que escolhe um assunto relevante a fim de dom inar todos os fatos a respeito dele, além dos principais a respeito dos tem as vizinhos. Ele então pode fazer o que quiser. Se o assunto for o rom ance, pode palestrar sobre ele cronologicam ente, se assim desej ar, porque j á leu todos os rom ances im portantes dos últim os quatro séculos, além de m uitos dos desim portantes, e tem suficiente conhecim ento acerca de quaisquer fatos colaterais que interessem à ficção inglesa. O falecido Sir Walter Raleigh (que j á foi titular desta série de conferências) foi um erudito desse tipo. Raleigh conhecia tantos fatos que podia se orientar pelas influências, e a sua m onografia sobre o rom ance inglês adota o tratam ento por m eio de períodos que seu indigno sucessor precisa evitar. O erudito, com o o filósofo, pode contem plar o rio do tem po. Não o contem pla com o um todo, m as pode ver os fatos, as personalidades que fluem à sua frente, e avaliar as relações entre eles, e se as suas conclusões pudessem ser para nós tão valiosas quanto para ele próprio, há m uito tem po ele j á teria civilizado a raça hum ana. Com o vocês sabem , ele fracassou. A verdadeira erudição é incom unicável, e raros são os verdadeiros eruditos. Tem os hoj e um punhado de eruditos na platéia, consum ados ou em potencial, m as só um punhado, e na tribuna certam ente não há nenhum . A m aioria de nós é pseudo-erudita, e pretendo considerar nossas características com com preensão e respeito, porque pertencem os a um a classe m uito am pla e poderosa, em inente na Igrej a e no Estado; controlam os a educação do Im pério, em prestam os à Im prensa a distinção que ela aceita receber, e som os convidados bem recebidos nos j antares da sociedade.

A pseudo-erudição é, na sua parte positiva, a hom enagem que a ignorância presta ao conhecim ento. Há tam bém um a parte econôm ica, com a qual não precisam os ser tão severos. A m aioria de nós tem de arranj ar um em prego antes dos trinta, ou, se não, pendurar-se em algum parente, e m uitos em pregos só podem ser preenchidos por m eio de um concurso. O pseudo-erudito freqüentem ente se dá bem nos exam es (os verdadeiros nem tanto) e, m esm o quando é reprovado, no fundo reconhece a inata m aj estade deles. São os portões do em prego, têm o poder de banir ou abençoar. Um artigo sobre King Lear pode conduzir a algum lugar, o que j á não acontece com a afetada peça que leva esse nom e. Pode abrir as portas da Junta de Governo Local. Raram ente o pseudo-erudito confessa para si m esm o, abertam ente: “É a vantagem de saber das coisas: elas nos aj udam a subir na vida”. A pressão econôm ica que ele sofre é com freqüência subconsciente, e ele segue para o exam e com a m era sensação de que o artigo sobre Rei Lear será um a experiência tem pestuosa, terrível, m as intensam ente verdadeira. E, sej a ele cínico ou ingênuo, não é culpa dele. Enquanto conhecer estiver ligado a receber, e enquanto alguns em pregos só puderem ser obtidos por m eio de concursos, terem os que levar a sério o sistem a de exam es. Se criarem outro m eio de acesso ao em prego, boa parte do que cham am os de educação vai desaparecer, e ninguém ficará um centavo m ais burro por causa disso.

É quando se trata de crítica – com o neste presente em prego – que o pseudo-erudito pode se tornar m ais pernicioso, porque segue o m étodo do verdadeiro erudito sem ter o seu equipam ento. Classifica os livros antes de os ter com preendido ou m esm o lido; é seu prim eiro crim e. A classificação cronológica. Livros escritos antes de 1847, livros escritos depois, livros escritos antes ou depois de 1848. O rom ance no reinado da rainha Ana, o pré-rom ance, o rom ance prim itivo, o rom ance do futuro. A classificação por assunto – ainda m ais idiota. A literatura das Tabernas, com eçando com Tom Jones; a literatura do Movim ento das Mulheres, com eçando com Shirley; a literatura das Ilhas Desertas, desde Robinson Crusoe até The Blue Lagoon; a literatura dos Vagabundos – a m ais chata de todas, em bora a das Estradas a siga de perto; a literatura de Sussex (que talvez sej a a que m ais se dedica aos condados natais); os livros im próprios – um ram o de investigações m uito sério, ainda que perigoso, a ser seguido por pseudo-eruditos m ais m aduros; rom ances ligados ao industrialism o, à aviação, à quiropodia, às condições atm osféricas do tem po. Justifico a inclusão das condições atm osféricas do tem po com base no trabalho sobre o rom ance m ais im pressionante que li nos últim os anos. Atravessou o Atlântico até m inhas m ãos, e nunca m e esquecerei dele. É um m anual de literatura cham ado Materials and Methods of Fiction. Devo ocultar o nom e do autor. É um pseudo-erudito, e dos bons. Classificou os rom ances pelas datas, a extensão, o local, o sexo, o ponto de vista, e assim por diante, até se esgotarem as possibilidades. Mas ainda lhe restava um a carta na m anga: as condições atm osféricas do tem po, e ao trazê-las à baila encontrou nove itens para essa categoria. Deu um exem plo para cada item , porque ele era tudo m enos superficial, e nós podem os repassar aqui sua lista. Em prim eiro lugar, as condições atm osféricas do tem po podem ser “decorativas”, com o em Pierre Loti; ou “utilitárias”, com o em The Mill on the Floss (não havendo o rio Floss, não há m oinho; não havendo m oinho, não há fam ília Tulliver); “ilustrativas”, com o em The Egoist; “planej adas em harm onia preestabelecida”, com o em Fiona Macleod; “em contraste em ocional”, com o em The Master of Ballantrae; “determ inantes da ação”, com o em certa

estória[28] de Kipling, na qual um hom em se declara à garota errada, por causa de um a tem pestade de areia; “um a influência controladora”, com o em Richard Feverel; “elas próprias o herói”, com o o Vesúvio em The Last Days of Pompeii; por fim , em nono lugar, elas tam bém podem ser “inexistentes”, com o num conto infantil. Gostei de ver com o ele enfrentou a inexistência. Fez tudo direitinho, cientificam ente. Mas ele próprio não ficou totalm ente satisfeito, e ao final da sua classificação acabou dizendo: tudo bem , ainda resta um a coisa, que é o gênio; de nada serve a um rom ancista saber que há nove itens para as condições atm osféricas do tem po se ele não tiver tam bém o gênio. Confiante nessas reflexões, classificou os rom ances pelos tons. Só há dois tons, o pessoal e o im pessoal, e, depois de dar os exem plos respectivos, tornou a ficar pensativo e disse: “Tudo bem , m as você tam bém precisa ter o gênio, se não de nada lhe servirá nenhum dos dois tons”.

Essa referência ao gênio é tam bém típica do pseudo-erudito. Ele adora m encionar o gênio, porque o som dessa palavra o exim e de descobrir seu significado. A literatura é escrita pelos gênios. Os rom ancistas são gênios. Aí estam os; agora, vam os classificá-los. É o que ele faz. Tudo o que ele afirm a pode ser exato, m as é inútil, porque ele transita em volta dos livros, não através deles, ou nem sequer os leu ou não é capaz de o fazer do j eito adequado. É preciso ler os livros (o que é um infortúnio, porque isso leva tem po); é o único m odo de descobrir o que eles contêm . Algum as tribos selvagens os com em , m as a leitura é o único m étodo de assim ilação deles conhecido no Ocidente. O leitor precisa se sentar, sozinho, e lutar com o escritor, coisa que o pseudo-erudito não faria. Prefere relacionar o livro à história do seu tem po, aos acontecim entos da vida do autor, aos acontecim entos que ele narra, e sobretudo a algum a tendência. Quando pode usar a palavra “tendência”, cresce a sua anim ação, e, em bora a dos leitores talvez dim inua, neste m om ento eles pegarão seus lápis e farão um a anotação, na crença de que um a tendência sej a portátil.

É por isso que, no curso m eio desengonçado que tem os diante de nós, não podem os considerar a ficção por m eio de períodos, não devem os contem plar a corrente do tem po. É outra im agem a que se aj usta m elhor às nossas capacidades: aquela, m ostrando todos os rom ancistas escrevendo ao m esm o tem po. Eles vêm de diferentes épocas e cam adas, com tem peram entos e aspirações os m ais diversos, m as todos têm na m ão um a pena, e estão no processo de criação. Vam os dar um a espiada por sobre os om bros deles, para ver o que estão escrevendo. Isso pode exorcizar o dem ônio da cronologia, que no m om ento é o nosso inim igo, e que (com o verem os na próxim a sem ana) pode ser o deles tam bém . “Oh, m as que com bate inextinguível é este, entre o Tem po e os filhos dos Hom ens”, escreveu Melville, e a luta não se prolonga só através da vida e da m orte, m as tam bém pelos m eandros da criação e da crítica. Vam os evitá-lo im aginando que todos os rom ancistas estão j untos num a sala circular. Não devo m encionar os nom es enquanto não ouvirm os suas palavras, porque um nom e traz m uitas associações, datas, m exericos, todo esse aparato do m étodo que estam os deixando de lado.

Eles receberam instruções para se reunirem em pares. E o prim eiro par escreve assim :

1. Não sei o que fazer, não m esm o! – Deus que m e perdoe, m as sou

tão im paciente! Desej o – Só não sei o que se pode desej ar sem pecado!

– Mas o que sei que desej o é que Deus tenha m isericórdia de m im ! –

Aqui, não se encontra nenhum a – Mas que m undo! – O que tem ele de

desej ável? O bem que alm ej am os está tão m isturado com outras coisas

que não se sabe o que desej ar! É um a m etade da hum anidade

atorm entando a outra, e atorm entando-se tam bém no afã de

atorm entar!

2. É a m im m esm o que odeio – quando penso que, para ser feliz, é

preciso tom ar tanto da vida dos outros, e m esm o assim não se consegue

ser feliz. É o que fazem os para nos enganar a nós m esm os, e para calar

nossas bocas – m as isso só dura quando m uito por um m om ento. O

desgraçado eu continua lá, sem pre nos trazendo algum a nova

ansiedade. A conclusão resultante é que não há felicidade, nenhum a

felicidade, em tom ar. A única coisa segura é dar. É o que nos ilude

m enos.

É óbvio que estão sentados aí dois rom ancistas que vêem o m undo a partir de um ângulo m uito sem elhante, m as o prim eiro é Sam uel Richardson, e o segundo vocês j á terão reconhecido com o Henry Jam es. Am bos são m ais ansiosos do que apaixonados no papel de psicólogos. Am bos são sensíveis ao sofrim ento e valorizam o sacrifício pessoal; ficam am bos aquém do trágico, m as chegam a fazer algum a aproxim ação. Um a certa nobreza trêm ula – é este o espírito que os dom ina – e com o escrevem bem ! – não há um a palavra fora do lugar nas suas copiosas torrentes. Cento e cinqüenta anos de tem po os separam um do outro, m as eles não parecem bem próxim os se os virm os sob outros aspectos, e não podem os tirar algum proveito dessa vizinhança? É claro que, ao fazer essa afirm ação, ouço que Henry Jam es j á com eça a m anifestar sua m ágoa – quer dizer, não sua m ágoa, e sim sua surpresa –, ou m elhor, nem m esm o sua surpresa, e sim sua consciência de que estão im putando a ele um a vizinhança, e, com o ele há de acrescentar, essa vizinhança é com um loj ista. E ouço Richardson, igualm ente cauteloso, considerando se algum escritor nascido fora da Inglaterra pode ser casto. No entanto, essas diferenças são de superfície, na verdade são pontos de contato a m ais. Vam os deixá-los sentados ali, harm oniosam ente, e procurem os o próxim o par.

1. Todos os preparativos do enterro correram tranqüila e felizm ente

aos cuidados das m ãos habilidosas de Mrs. Johnson. Na véspera da

lam entável ocasião, ela trouxe um corte de cetim preto, a escada da

cozinha e um a caixa de percevej os, e decorou a casa com guirlandas e

laços de faixas negras, com todo o bom gosto possível. Encapou a

m açaneta da porta com crepe escuro e estendeu um grande laço preto

num dos cantos da gravura em m etal de Garibaldi, tam bém envolvendo

com as faixas o busto de Mr. Gladstone, que pertencera ao falecido.

Virou de costas os vasos que m ostravam cenas de Tívoli e da baía de

Nápoles, de m aneira a esconder essas paisagens tão brilhantes,

deixando à vista som ente o puro esm alte azulado, e ainda antecipou a

com pra, tão esperada, de um a toalha para a m esa da sala de estar,

substituindo pelo purpúreo violeta os gastos e desbotados raptos e rosas

de felpa que antes ocupavam aquele posto. Fez-se tudo o que o am oroso

cuidado pudesse fazer para conceder àquele pequeno lar um a digna

solenidade.

2. O cheiro de torta espalhava-se pela sala de visitas, e então

procurei a m esa das bebidas e dos com estíveis; era difícil enxergá-la

antes de acostum ar a vista ao am biente som brio, m as havia um a torta

de am eixas fatiada, laranj a cortada em gom os, e sanduíches, e

biscoitos, m ais duas j arras que eu conhecia bem com o enfeites, m as

nunca antes vira em uso: um a com vinho do Porto, outra com xerez.

Diante da m esa, percebi a presença do servil Pum blechook, que,

envolto num m anto preto e em m etros e m ais m etros de fita de chapéu,

ora se em panturrava, ora fazia m ovim entos obsequiosos para atrair

m inha atenção. Logo que conseguiu o que queria, dirigiu-se a m im

(com aquele bafo de xerez e torta), e disse em voz baixa: “O senhor m e

perm ite?” – e veio.

Esses dois enterros não aconteceram no m esm o dia. Um é o do pai de Mr. Polly (1910), e o outro é de Mrs. Gargery, de Great Expectations (1861). Entretanto, Wells e Dickens assum em o m esm o ponto de vista e usam os m esm os truques estilísticos (cf. os dois vasos e as duas j arras). Am bos são hum oristas e visualizadores que conseguem im pressionar catalogando detalhes e enchendo as páginas irritantem ente. Seus propósitos são generosos: detestam as im posturas e se com prazem com a indignação em face delas; são valiosos reform adores sociais; nem lhes ocorre a idéia de confinar os livros nas prateleiras de um a biblioteca. Às vezes a superfície tão vívida de sua prosa arranha com o se fosse um disco de gram ofone barato, sobressai um a certa pobreza de qualidade, e o rosto do autor se aproxim a talvez um pouco dem ais do do leitor. Em outras palavras, nenhum dos dois tem bastante gosto: o m undo da beleza estava em grande parte fechado para Dickens, e inteiram ente fechado para Wells. E há outros paralelos – por exem plo, no m odo com o desenham o personagem . E talvez a m aior diferença entre eles sej a a diferença da oportunidade que foi oferecida há cem anos e há quarenta anos a um obscuro rapaz de gênio. É um a diferença a favor de Wells. Ele é m ais instruído do que seu predecessor; em especial, o acréscim o da ciência lhe fortaleceu a m ente e subm eteu sua histeria. Ele m arca um a m elhoria na sociedade – a substituição da Dotheboy s Hall pela Poly technic – m as não um a m udança na arte do rom ancista.

E quanto ao nosso próxim o par?

1. Mas, quanto àquela m arca, não estou certo; ao fim e ao cabo não

creio que tenha sido feita por um prego; é grande dem ais, redonda

dem ais para ser isso. Eu poderia m e levantar, m as se o fizesse e fosse

vê-la, aposto que ainda assim não saberia dizer com certeza o que é;

feita um a coisa, ninguém m ais sabe com o ela se deu. Nossa!, o

m istério da vida; a inexatidão do pensam ento! A ignorância da

hum anidade! Para dem onstrar quão insignificante é o nosso controle

sobre o que possuím os – quão acidental é o viver, apesar de toda a

nossa civilização – basta-m e enum erar algum as das coisas que se

extraviaram no transcurso de um a vida, a com eçar pelo que parece a

perda m ais m isteriosa de todas – que gato o beliscaria? que rato o

roeria? – três latas azul-claras com ferram entas de encadernação de

livros. Depois, havia as gaiolas de passarinhos, os aros de ferro, os

patins de aço, o balde para carvão estilo rainha Ana, o tabuleiro de

bagatela, o realej o – tudo desapareceu, j óias tam bém . Opalas e

esm eraldas espalhadas j unto às raízes das tulipas. Mas que incessante

dilaceração! Adm iro-m e de ainda ter algum a roupa para vestir, e de

neste m om ento estar sentada em m eio a um a m obília sólida. Porque, se

a vida pode ser com parada a algum a coisa, há de ser a estarm os

lançados através do túnel do m etrô a um a velocidade de cinqüenta

m ilhas por hora.

2. Todo dia, durante pelo m enos dez anos a fio, decidia m eu pai

m andá-la consertar – e ainda não está consertada; – nenhum a outra

fam ília a não ser a nossa poderia ter agüentado um a hora sequer – e, o

que é m ais surpreendente, não havia no m undo outro assunto acerca do

qual m eu pai fosse m ais eloqüente do que o das dobradiças de portas. –

E, no entanto, ao m esm o tem po, foi um dos m aiores j oguetes delas que

a história pode apresentar: sua retórica e sua conduta contradiziam -se

perpetuam ente. Nunca se abria a porta da sala de visitas – sem que a

sua filosofia ou os seus princípios tom bassem vítim a disso; – três gotas

de óleo aplicadas com um a pena, e um a boa m artelada, ter-lhe-iam

salvo a honra para sem pre.

– Que alm a incoerente, a do hom em ! – definha por causa de

ferim entos que está em seu poder curar! – sua vida inteira contradiz-lhe

o conhecim ento! – sua razão, dom precioso que Deus lhe deu – (em vez

de parar e pingar um pouco de óleo) serve apenas para aguçar-lhe a

sensibilidade – para m ultiplicar-lhe as dores, e torná-lo m ais

m elancólico e inquieto ao peso delas! – Pobre e infeliz criatura que

assim age! – Com o se não fossem bastantes as causas necessárias de

m iséria nesta vida, tem ele então de acrescentar outras, voluntárias, ao

seu cabedal de pesares; – lutar contra m ales que não podem ser

evitados, e subm eter-se a outros que um a décim a parte do incôm odo

que lhe dão bastaria para elim inar definitivam ente do seu coração?

Por tudo quanto há de bom e de virtuoso, se existirem três gotas de

óleo ao alcance, e se um m artelo puder ser encontrado num raio de dez

m ilhas de Shandy Hall – a dobradiça da porta da sala de visitas será

consertada no presente reinado.

A passagem citada por últim o, evidentem ente, é do Tristram Shandy. A outra é de Virginia Woolf. Ela e Sterne são am bos fantasistas. Com eçam com um pequeno obj eto, esvoaçam em volta, e em seguida tornam a se fixar nele. Com binam um a avaliação bem -hum orada da confusão da vida com um agudo sentido da sua beleza. Há, inclusive, o m esm o tom em suas vozes – um a perplexidade bastante deliberada, com o anúncio em alto e bom som de que não sabem para onde estão indo. Sem dúvida, suas escalas de valores não são as m esm as. Sterne é um sentim entalista, Virginia Woolf (exceto, talvez, em suas obras m ais recentes, com o To the Lighthouse) é extrem am ente reservada. Mas seu m eio de expressão é sim ilar, obtém os m esm os efeitos insólitos, a porta da sala de visitas nunca é consertada, a m arca na parede acaba se revelando ser um caracol, a vida é essa confusão, nossa!, a vontade é tão fraca, as sensações, desassossegadas... filosofia... Deus... nossa!, vej a aquela m arca... olha que porta – a existência... é realm ente m uito... do que m esm o estávam os falando?

 

Não parece m enos im portante a cronologia, agora que visualizam os seis rom ancistas em pleno trabalho? Se o rom ance se aperfeiçoa, não é provável que se desenvolva em linhas diferentes da Constituição britânica, ou m esm o do Movim ento das Mulheres? Digo “m esm o do Movim ento das Mulheres” porque, durante o século xix, costum ava haver um a associação estreita entre a ficção na Inglaterra e esse m ovim ento – num a conexão tão próxim a que levou certos críticos ao equívoco de pensar que se tratava de um a relação orgânica. À m edida que as m ulheres m elhoravam de condição no rom ance, diziam , tam bém se tornavam m elhores. Ledo engano. Um espelho não se aperfeiçoa só porque um espetáculo histórico se desenrola à sua frente. Ele só se aperfeiçoa quando recebe um a nova cam ada de m ercúrio – em outras palavras, quando adquire um a nova sensibilidade; e o sucesso do rom ance está em sua própria sensibilidade, não no sucesso de seu assunto. Im périos podem cair, direitos a voto podem ser concedidos, m as para aqueles que estão escrevendo no salão circular o que m ais im porta é a sensação da pena entre os dedos. Eles podem decidir escrever um rom ance sobre a Revolução Francesa ou a Revolução Russa, m as vêm à tona m em órias, associações e paixões que obscurecem de tal m aneira sua obj etividade que, afinal, quando relêem o escrito, parece que um “outro alguém ” guiou a pena e relegou o assunto a um segundo plano. Esse “outro alguém ” é seu próprio eu, sem dúvida, m as não o eu que está tão ativo no tem po, que vive no reinado de Jorge iv ou v. Por toda a história, os escritores têm sentido ao escreverem m ais ou m enos a m esm a coisa. Entraram num estado com um que

nos convêm cham ar de inspiração,[29] e, com relação a esse estado, pode-se dizer que a História se desenvolve, m as a Arte perm anece im óvel.

A História se desenvolve, a Arte perm anece im óvel é um a m áxim a m uito rígida, na verdade é quase um slogan, e, apesar de nos verm os forçados a adotá-la, não devem os fazê-lo sem antes adm itir sua vulgaridade. Ela contém um a verdade apenas parcial.

Em prim eiro lugar, ela nos im pede de considerar se a m ente hum ana se altera de um a geração para outra; se, por exem plo, Thom as Deloney, que escreveu com m uita graça sobre loj as e tabernas do reinado da rainha Elizabeth, difere de m aneira fundam ental de seu representante m oderno – que seria alguém do calibre de Neil Ly ons ou Pett Ridge. De fato, acredito que Deloney não diferia; diferia com o indivíduo, m as não de m aneira fundam ental, não porque viveu há quatrocentos anos. Quatro m il, catorze m il talvez nos fizessem pensar duas vezes, m as quatrocentos é nada na vida da nossa raça, não haveria espaço para nenhum a m udança m ensurável. De m odo que nosso slogan não representará, na prática, um obstáculo. Podem os repeti-lo sem vexam e.

É m ais sério quando nos voltam os para o desenvolvim ento da tradição e vem os o que se perdeu porque estávam os im pedidos de exam iná-lo. À parte as escolas, as influências e as m odas, há um a técnica na ficção inglesa, e esta, sim , altera-se de um a geração para outra. A técnica de rir dos personagens, por exem plo: fum ar não é a m esm a coisa que ralhar; o hum orista elisabetano tom a sua vítim a de um m odo diferente do m oderno, obtém o riso por outros expedientes. Ou a técnica da fantasia: Virginia Woolf, apesar de tanto seu obj etivo quanto o efeito geral que desperta se assem elharem aos de Sterne, difere dele na execução; ela pertence à m esm a tradição, m as a um a fase bem posterior. Ou a técnica da conversação: nos m eus pares de exem plos, não pude incluir um que incidisse em diálogos, porque o uso de “ele disse” e “ela disse” varia tanto através dos séculos que dá outra cor ao contexto, e, em bora os falantes possam ter sido concebidos de m aneiras análogas, não o parecerão som ente por m eio de um trecho. Bom , não podem os exam inar questões com o essas, e precisam os adm itir que isso nos em pobrece, m as ainda assim podem os abandonar o desenvolvim ento do assunto e o desenvolvim ento da raça hum ana sem pesar. A tradição literária é a linha lim ítrofe entre a literatura e a história, e o crítico bem equipado gastará aí um bom tem po, com o conseqüente enriquecim ento do seu j uízo. Não podem os chegar até lá por não term os lido o suficiente. Devem os fingir que essa área pertence à história e, por conseguinte, cortá-la. Precisam os nos recusar a ter qualquer coisa a ver com a cronologia.

Perm itam -m e citar aqui, para nossa tranqüilidade, o m eu im ediato predecessor nesta série de conferências, Mr. T. S. Eliot. Mr. Eliot enum era, na introdução a The Sacred Wood, as tarefas do crítico:

Faz parte do ofício do crítico preservar a tradição – onde houver

um a boa tradição. Faz parte do seu ofício ver a literatura com equilíbrio

e na sua inteireza; e isto é, em inentem ente, vê-la não com o consagrada

pelo tem po, e sim m ais além do tem po [...].

Não podem os cum prir a prim eira tarefa, m as devem os tentar cum prir a segunda. Não podem os nem exam inar nem preservar a tradição. Contudo, podem os visualizar os rom ancistas com o se estivessem sentados no m esm o salão, e tirá-los, por nossa própria ignorância, de seus lim ites de tem po e lugar. Acho que vale a pena fazê-lo, ou não m e aventuraria a em preender este curso.

Sendo assim , com o vam os abordar o rom ance – esse terreno tão úm ido, essas ficções em prosa de um a certa extensão que se estendem de m aneira tão indeterm inada? Não o farem os com um aparato m uito elaborado. Princípios e sistem as podem ser adequados para outras form as de arte, m as não podem ser aplicáveis aqui – ou, se forem aplicados, as conclusões devem ser subm etidas a reexam e. E quem é o reexam inador? Bom , receio que sej a o coração hum ano, esse negócio passado de hom em para hom em , que em suas form as m ais cruas é tão suspeito, com razão. O teste final de um rom ance será a nossa afeição por ele, o que é o m esm o teste dos nossos am igos e de todas aquelas outras coisas que não conseguim os definir direito. A sentim entalidade – para alguns um dem ônio pior ainda do que a cronologia – ficará sem pre oculta, em segundo plano, dizendo: “Puxa, com o gosto disso”, “Mas isso não m e agrada m uito”, e só posso prom eter que ela não falará alto dem ais nem tão depressa. O caráter intenso e sufocantem ente hum ano do rom ance não deve ser evitado; o rom ance está encharcado de hum anidade; não há escapatória para a enchente que enaltece ou a vazante que deprecia, nem estas podem se m anter infensas à crítica. Podem os detestar a hum anidade, m as se ela é exorcizada ou m esm o purificada o rom ance esm orece, e pouco resta dele a não ser um punhado de palavras.

E escolhi o título de Aspectos por ser não-científico e vago, por nos perm itir o m áxim o de liberdade, por significar tanto os diferentes m odos pelos quais podem os exam inar um rom ance quanto os diferentes m odos pelos quais um rom ancista pode exam inar seu trabalho. E os aspectos selecionados para discussão são sete, ao todo: A Estória; Pessoas; O Enredo; Fantasia e Profecia; Padrão e Ritm o.