Aspectos do Romance

E. M. Forster · Capítulo 18 de 21

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Aspectos do Romance

apêndice b

A Fábrica da ficção

 

Resenha escrita por Forster (Daily News, 23 de abril de 1919, assinada “por um romancista”) de Materials and Methods of Fiction, de Clayton Hamilton (ver páginas 40-1; ver também o Apêndice C).

Pobre e querido rom ance! Pobrezinho dele! Quem poderia im aginar que certo Mr. Clay ton Ham ilton, instigado por Mr. Brander Matthews, o esquadrinharia m inuciosam ente de cim a a baixo? Andava de lá para cá tão satisfeito, com o um a inofensiva galinha, que, ciscando na terra e no m ato da vida, trouxe à tona tantos obj etos, uns apreciáveis, outros não. Mas, ai!, de repente, baixa a rasante da águia am ericana! Não que a águia sej a indelicada ou grosseira, de j eito nenhum . Apenas senta a galinha no chão e conta-lhe o que ela vinha fazendo. E se ela cacarej a baixinho que não sabia que estava fazendo nada de especial, a águia vocifera sua aquiescência, e nota, para o bem das galinhas pósteras, a im portância do elem ento subconsciente na arte ficcional. Está tudo aqui. Num a edição revista e aum entada, ainda por cim a. Tem os aqui “o necessário processo triplo” através do qual todo rom ancista deve passar (a saber: descoberta científica, com preensão filosófica e expressão artística). Tem os aqui os três m éritos que ele deve alm ej ar (a saber: m aterial grave, m estria do m étodo e personalidade im portante). Tem os aqui os nove m odos de utilização das condições atm osféricas do tem po. “Em bora as condições atm osféricas do tem po”, dizem -nos, “sej am um assunto por toda gente com entado, m uito poucas pessoas são capazes de falar sobre elas com inteligência e arte.” Quando escrevem rom ances, ilustra-se ainda m elhor essa incapacidade. Então, que estudem as condições atm osféricas do tem po na teoria e na prática, ao m esm o tem po m em orizando as regras e os exem plos seguintes.

Porque as condições atm osféricas do tem po podem ser, em prim eiro lugar, “inexistentes, com o num conto infantil”. Depois, podem ser “decorativas” (Pierre Loti). “Utilitárias” (The Mill on the Floss). “Ilustrativas” (The Egoist). “Planej adas em harm onia pré-estabelecida” (Fiona Macleod). “Em contraste em ocional” (The Master of Ballantrae). “Determ inantes da ação” (num a estória de Kipling, um hom em se declara à garota errada, por causa de um a tem pestade de areia). “Um a influência controladora” (Richard Feverel). E, em nono lugar, podem ser “elas próprias o herói” (o Vesúvio em The Last Days of Pompeii). A galinha se levanta. Agora ela sabe das coisas. Mas não acho que tornará a sentir vontade de pôr um ovo outra vez.

A verdade é que a boa escrita só pode ser aprendida com boa escrita. Mr. Ham ilton concorda, da m aneira m ais prolixa, e acrescenta ao final de cada capítulo: “Sugestão de Leitura. Ler as obras de ficção m ais im portantes m encionadas neste capítulo”. Mas o que ele não percebe (pelo m enos não o afirm a nesta edição, em bora possa fazê-lo na próxim a) é que não aprendem os estudando um livro, e sim desfrutando dele, e que, em conseqüência, não há nada para se aprender no dele. Ele leu bastante, é m uito claro, é católico, m as não tem nem em oção nem gosto, e portanto não é capaz de despertar nos outros tais qualidades. “Claro que não. Elas são inatas”, sorri ele. É claro. Mas seu livro nega essa verdade em seu espírito, em bora possa afirm á-la em suas palavras, e, se vier a cair nas m ãos de um j ovem escritor, certam ente lhe fará m ais m al do que bem , e o levará a crer que a ficção pode ser m anufaturada com base na atenção a exterioridades. Um artigo feito à m áquina pode ser m ais ou m enos bem -acabado, m as não deixará de ser um artigo feito à m áquina, e, por m ais instável que sej a o processo, j am ais receberá a distinção individual. Pode alcançar a coerência da lógica, m as nunca terá a coerência da vida. “La vérité en toute chose étant extrèm em ent délicate et fugitive ce n’est pas à la dialectique qu’il est

donné de l’atteindre”,[63] afirm a Renan, e não há tabela e leitura consciente que possa aj udar um escritor criativo, enquanto ao que não o é de m uito pouco servirão. Nunca m ais, por exem plo, ele ficará confuso com relação ao Ponto de Vista. Que pode ser:

Classe I: Externo

(i) Ponto de Vista do Ator Principal

(ii) Do Ator coadj uvante

(iii) De diferentes Atores

(iv) Epistolar

Classe II: Interno

(i) Onisciente

(ii) Lim itado

(iii) Rigidam ente restrito

Ficará habilitado, com toda a tranqüilidade, a produzir sete tipos diferentes de rom ances, e, se em cada um adotar um a atitude diferente em face das condições atm osféricas do tem po, chegará ao total de sessenta e três. Ah, sim ! Há tam bém os dois “tons”: Im pessoal e Pessoal. O que nos dá cento e vinte e seis. Mas chega de estrondo e estrépito. Pobre rom ance! Pobrezinho dele!