Aspectos do Romance

E. M. Forster · Capítulo 19 de 21

Páginas do PDF

Aspectos do Romance

apêndice c

Materiais e m étodos da ficção

 

Alguns trechos do livro de Clayton Hamilton aludidos por Forster (pp. 40-1 e Apêndice B). Note-se que a exortação à “Leitura Sugerida”, citada por Forster, só ocorre uma vez; e que, no esquema do “Ponto de Vista”, Forster inverteu “Externo” e “Interno”. Os números de páginas referem-se à edição de 1918 resenhada por Forster.

 

Usos das Condições Atmosféricas do Tempo

Tudo o que até agora se disse sobre o cenário em geral tam bém se aplica, evidentem ente, a um de seus elem entos m ais interessantes: as condições atm osféricas do tem po. Em estórias sim ples, com o o conto infantil m ais corriqueiro, elas podem ser inexistentes. Ou podem existir principalm ente com um propósito decorativo, com o as freqüentes auroras douradas orientais do poem a de Spenser ou as soberbas e coloridas sinfonias de céu e m ar em Le Pêcheur d’Islande, de Pierre Loti. Podem ser usadas com o com plem ento utilitário da ação: no final de The Mill on the Floss, com o j á observam os, as chuvas desabam e a enchente se avolum a com o fim de afogar Tom e Maggie. Ou podem ser em pregadas para ilustrar um personagem : ficam os sabendo sobre Clara Middleton, de The Egoist, que ela tem “a arte de vestir-se de acordo com a estação e o céu”; portanto, a aparência das condições atm osféricas num a certa hora pode transm itir para o leitor um a idéia da aparência dela. De m aneira m ais elaborada artisticam ente, as condições atm osféricas do clim a podem ser planej adas em harm onia preestabelecida com o hum or dos personagens, expediente m aravilhosam ente usado nos contos agitados e turbulentos de Fiona Macleod. Por outro lado, as condições atm osféricas do tem po podem situar-se em contraste em ocional com os personagens: o m estre de Ballantrae e Mr. Henry duelam num a noite de absoluta calm a e frio cortante. Novam ente, as condições atm osféricas do tem po podem ser usadas para determ inar a ação: num conto do Mr. Kipling iniciante, cham ado “False Dawn”, a ofuscante tem pestade de areia leva Saum arez a se declarar à garota errada. Podem ser tam bém usadas com o um a influência controladora sobre o personagem : a terrível tem pestade no final de Richard Feverel, no capítulo intitulado “Fala a Natureza”, determ ina o retorno do herói para sua esposa. Em alguns casos, aliás, as condições atm osféricas do tem po são elas próprias o verdadeiro herói da narrativa: a grande erupção do Vesúvio em The Last Days of Pompeii dom ina a conclusão da estória.

Em bora as condições atm osféricas do tem po sej a um assunto por toda gente com entado, m uito poucas pessoas são capazes de falar sobre elas com inteligência e arte. Muito poucos escritores de ficção – e quase todos são recentes – m ostraram dom ínio sobre as condições atm osféricas do tem po – dom ínio baseado ao m esm o tem po em um a observação detalhada e precisa dos fenôm enos naturais e em um sentido filosófico da relação entre tais fenôm enos e as ocupações dos seres hum anos. Talvez em nenhum outro detalhe de seu ofício Robert Louis Stevenson dem onstre tão claram ente sua m aestria quanto na m odelagem das condições atm osféricas do tem po, sem pre descritas de m aneira vívida e verdadeira, servindo a um propósito sem pre adequado à suas ficções. [pp. 112-14]

 

Dois Tons de Narrativa: Impessoal e Pessoal

 

1. O Tom Impessoal. No uso de todos os tipos de ponto de vista externo, exceto o últim o que discutim os, o autor está livre para escolher entre dois tons de narrativa m uito diferentes – o tom im pessoal e o tom pessoal. Ele pode ou obliterar ou enfatizar sua personalidade com o um fator da estória. Os grandes épicos e as narrativas folclóricas foram contados de m odo im pessoal. [...] Muitos autores m odernos, com o Sir Walter Scott, assum em instintivam ente um a atitude épica em face de seus personagens e incidentes: olham para estes com am pla inconsciência do eu e descrevem -nos com o qualquer pessoa os veria. Outros autores, com o Mr. William Dan Howells, lutam deliberadam ente para m anter a nota pessoal fora de suas estórias: autoconscientes, eles triunfam sobre o eu na tentativa de deixar seus personagens sozinhos.

2. O Tom Pessoal. Contudo, rom ancistas de outro tipo preferem adm itir francam ente ao leitor que o narrador que se coloca à parte de todos os personagens e escreve sobre eles na terceira pessoa é o próprio autor. Dão um tom pessoal à narrativa; m anifestam suas próprias idiossincrasias de gosto e j uízo, e nunca nos deixam esquecer que eles, e só eles, é que estão contando a estória. O leitor deve enxergá-la através dos olhos deles. É deste m odo que, por exem plo, Thackeray apresenta suas estórias – sentindo pena de seus personagens, adm irando-os, troçando deles ou am ando-os, sem nunca deixar passar um a oportunidade de conversar sobre o assunto com os leitores. [...] É verdade, evidentem ente, que os m ais estritos artesãos da ficção, com o Guy de Maupassant, preferem contar seus contos de m odo im pessoal: são firm es em deixar seus personagens sozinhos, e perm item que o leitor os vej a sem necessidade de olharem através dos olhos da personalidade do autor. Mas há um tipo de literatura na qual o m aior atrativo para o leitor está no fato de que ele, nela, tem perm issão para enxergar as coisas por m eio da m ente do autor. [...] O m érito, ou o defeito, do m étodo, em todos os casos, não é um a questão de regras e norm as, m as de tom e qualidade da m ente do autor. Se ele pode ou não se im iscuir com segurança em suas ficções, isso vai depender inteiram ente de quem ele é. A questão é m ais de personalidade do que de arte: e o que pode ser insuportável com um autor pode ser o m érito principal de outro. [pp. 133-35]