Aspectos do Romance
apêndice d
A arte da ficção
Palestra irradiada pelo Eastern Service da BBC, em 24 de novembro de 1944; de um datiloscrito pertencente ao arquivo da BBC. O texto aqui presente incorpora alterações manuscritas (algumas das quais com a letra de Forster, outras provavelmente feitas pelo produtor com sua aprovação), e omite algumas observações de conclusão e recapitulação que foram riscadas, aparentemente por Forster.
A arte da ficção. A arte do rom ance. Sim , m as qual rom ance? Tom ei nota dos títulos de m eia dúzia de rom ances, a serem por nós considerados. Eis a lista: Tristram Shandy, de Sterne; Emma, de Jane Austen; Moby Dick, de Herm an Melville; Bleak House, de Dickens; The Ambassadors, de Henry Jam es; e, de D. H. Lawrence, The White Peacock. São seis bons rom ances. Que se pode dizer acerca de sua arte? Vou repetir os títulos. Tristram Shandy – um a fantasia do século xviii, na qual o herói nunca nasce. Emma – aqui tudo é razoável e regular, os personagens funcionam bem , a ação é bem encam inhada, o clim a é vívido, em bora tem perado, e o resultado é um a elevada com édia dom éstica. Moby Dick – Moby Dick é bem diferente, em parte porque o herói é um a baleia: é um a longa estória sobre o m ar, m as é tam bém um a m editação sobre o m istério do m al, encarnado pela baleia. Bleak House – um a calorosa estória sobre seres hum anos, dúzias deles, num enredo im ensam ente com plicado, m isturada com um a crítica ao Tribunal de Apelações. The Ambassadors – nesse rom ance, Henry Jam es analisa o desenvolvim ento de um am ericano m uito sensível que é enviado a Paris a fim de resgatar das tentações um com patriota seu, m as acaba ele próprio envolvido com Paris, cidade de luz e beleza. E The White Peacock – é um a obra-prim a de im aturidade, cores, flores, am eaça e encantam ento do sexo, nas lem branças de um a criança inspirada. Os seis são bons rom ances, então deveríam os ser capazes de deduzir deles o que será a arte da ficção.
Deveríam os, m as poderíam os? O rom ance é um a form a literária tão am pla que é quase im possível generalizar com entários a seu respeito. É m uito m ais difícil estabelecer o que é a tarefa do rom ance do que, digam os, a do dram a, a do poem a lírico ou até m esm o a do conto. O dram a – este será encenado, de m odo que o palco e a presença de um a platéia lhe im põem certas convenções. O poem a lírico – este pertence à natureza da canção, e tenderá a exprim ir um a em oção principal. O conto – este se utiliza do m esm o m eio que o rom ance, m as é curto, e por isso precisa calcular por antecipação o efeito que pretende causar, produzindo-o ou fracassando. O rom ance, a m eu ver, não tem nenhum a regra, de m aneira que não existe algo com o a arte da ficção. Só existe a arte particular que cada rom ancista em prega na elaboração de seu livro particular. A arte em pregada por Sterne em Tristram Shandy é oposta à de Jane Austen em Emma. Sterne quer ser episódico e fantástico, estim ulando-nos com truques. Jane Austen, tendo escolhido a tranqüilidade da região de Highbury, quer elaborar um a com édia dom éstica. Se um desses dois grandes escritores tentasse tom ar em prestada a arte do outro, suas obras cairiam por terra im ediatam ente. Eles têm em com um o m eio – a prosa – e seu obj etivo: realizar seu trabalho da m elhor m aneira possível.
Hoj e existem livros sobre a arte da ficção, alguns deles m uito bons, que estabelecem as regras que o rom ance deve seguir. Deve tratar de seres hum anos, dizem eles, devem conter um a narrativa e algum tipo de enredo, e devem ser escritos de um ponto de vista bem definido. Essa doutrina do “ponto de vista” é das m ais interessantes, e retornarei a ela, adiante. Tornem os à nossa lista de seis rom ances, vam os subm etê-los a alguns testes. Tristram Shandy – é sobre seres hum anos, m as eles são nele apresentados de m aneira m uito estranha; não há enredo ou estória, no sentido com um dos term os, e o tem a principal são os acontecim entos fantásticos, a obstinação de obj etos inanim ados, com o a bolsa do Dr. Slop, que parece quase viva. Se vocês estabelecem regras para o rom ance e depois as aplicam a Tristram Shandy, terão de adm itir que ele não era um rom ance. Vocês se divertiram bastante com ele – m as não era um rom ance. Vej am os agora Emma, de Jane Austen. Emma cum pre todos os requisitos do teste. É sobre seres hum anos, contém um a estória e tem um enredo, ligado a um ponto de vista, a saber, o da heroína. Miss Austen nos conta tudo sobre Em m a, e vem os a ação e os dem ais personagens através dos olhos de Em m a. Isso nos anim a: nossas regras estão funcionando, e tem os aqui um rom ance que é m esm o um rom ance. Mas desanim am os outra vez quando passam os para Moby Dick. Em Moby Dick, em bora encontrem os seres hum anos e aventuras, o tem a principal é o problem a m etafísico do m al, e o m al está encarnado em Moby Dick – um a baleia branca, cuj a perseguição e m orte envolve todo o universo. Em bora Moby Dick estej a tão distante de Tristram Shandy quanto um pólo terrestre do outro, eles têm em com um algo que não aparece em Emma: o elem ento do não-hum ano. Quando esse elem ento é frívolo, com o em Tristram Shandy, “fantasia” é um bom nom e para ele. Quando é sério, com o em Moby Dick, pode ser cham ado de m ístico ou cósm ico. Depois de ler Moby Dick, vocês terão am pliado seu senso do m aravilhoso, o tam anho de seu universo terá aum entado, m as m esm o assim vocês precisarão deixá-lo de lado com o não sendo realm ente um rom ance, j á que não cum priu as regras.
Vej am os Bleak House. Será que Bleak House é m esm o um rom ance? É quase – está cheio de seres hum anos interessantes e tem um enredo fascinante. Mas ele tem um propósito – denuncia a inj ustiça social. Pode um rom ance fazer algo assim ? Pode ele usurpar a função de um panfleto? Além disso, Bleak House não tem um ponto de vista consistente, com o Emma. Pensem os nos seus três prim eiros capítulos. No inicial, vem os tudo através dos olhos de Charles Dickens. Ele nos conduz até o Tribunal do Lorde Chanceler e expõe para nós todas as pessoas que lá estão. No segundo capítulo, ainda usam os os olhos de Dickens, m as por algum a razão desconhecida eles com eçam a enfraquecer: ele pode expor para nós alguns personagens – m as não todos. No terceiro capítulo, ele adota um m étodo totalm ente diferente, quebra a onisciência e encarna num a m oça, Esther Sum m erson, e passam os a ver tudo através dos olhos dela e de ninguém m ais. A j ulgar pelos padrões da arte da ficção – se é que tal arte existe – Bleak House se quebra em pedaços. Passem os agora a The Ambassadors, de Henry Jam es. Aqui, todas as regras estão em ótim o funcionam ento – m elhor ainda do que em Jane Austen. É um a estória sobre seres hum anos, cuj o tem a é dom inante, sem a interferência de m ales sociais ou m etafísicos, há desenvolvim ento e desfecho, e a estória é contada coerentem ente de um ponto de vista – o ponto de vista do am ericano sensível que vai a Paris resgatar seu com patriota das ciladas da Paris do século xix, e acaba caindo nelas ele próprio, m as não no m esm o sentido, porque ele chega a perceber que Paris, em contraste com a Am érica, significa civilização. The Ambassadors é um rom ance que cum pre todas as regras da arte do rom ancista, se tais regras de fato existirem . Vam os agora para The White Peacock, de D. H. Lawrence. Agora as regras deixam de funcionar. Dificilm ente se trata de um a estória. Trata-se de um poem a, de um cam po de flores que estão sendo ceifadas, num bosque, à noite, nas angústias da adolescência, m arcadas pela crueldade. The White Peacock é um livro fácil de criticar e im possível de esquecer. Ele nos leva – sabe-se lá com o – para um a terra rom ântica e inquieta que, de outro m odo, j am ais conheceríam os.
Então, é assim que as regras funcionam , e vocês podem adotá-las ou não, à vontade. Vocês podem afirm ar que existe um a arte da ficção, e que Emma e The Ambassadors são rom ances perfeitos, enquanto Bleak House é im perfeito e Tristram Shandy, Moby Dick e The White Peacock não são rom ances, por m ais que tenha gostado deles. Ou podem dizer, com o eu, que não existem tais regras, não existe um a arte do rom ance, som ente a arte que um escritor j ulga necessária para a obra em particular na qual ele está engaj ado. Julgo que Laurence Sterne, Jane Austen, Herm an Melville, Charles Dickens, Henry Jam es, D. H. Lawrence, todos eles em pregaram a arte que lhes pareceu apropriada para seu problem a em especial e para seu tem peram ento, e eu deveria dizer que os seis livros da nossa lista são bons rom ances, e ponto final.
Mas levem os um pouco m ais adiante a teoria dos “pontos de vista”. Mesm o que não a aceitem os, isso pode ser estim ulante. Vou citar um crítico adm irável, Percy Lubbock, que acredita no “ponto de vista”, e o discutiu num livro m uito interessante, The Craft of Fiction. “Toda a intrincada questão do m étodo, no ofício da ficção”, afirm a Mr. Percy Lubbock, “considero-a regida pela questão do ponto de vista – a questão da relação que o narrador m antém com a estória.” O rom ancista, continua ele, pode descrever os personagens a partir de fora, com o um observador im parcial ou parcial; ou pode presum ir a onisciência, descrevendo-os a partir de dentro; ou pode situar-se na posição de um deles, afetando não ter clareza sobre as m otivações dos dem ais. O que ele não deve fazer é m isturar os m étodos, m udando de um ponto de vista para outro – com o faz Dickens em Bleak House; isso enfraquecerá o livro; e Lubbock cita Guerra e paz, de Tolstói, com o um rom ance que teria sido ainda m elhor se o ponto de vista de Tolstói fosse coerente. Afirm ação da qual discordo eu. Acho que um rom ancista pode m udar de ponto de vista se isso der certo, e dá certo com Dickens e Tolstói. De fato, essa capacidade de am pliar e restringir a percepção (de que a m udança de ponto de vista é um sintom a), esse direito de conhecim ento interm itente, acho que essa é um a das grandes vantagens da form a-rom ance, que tem nisso um paralelo com a nossa percepção da vida. Às vezes som os m ais ignorantes, às vezes m enos, não som os? Podem os penetrar na cabeça das pessoas em algum as ocasiões, m as não sem pre, porque nossas próprias cabeças se cansam ; e essa interm itência, a longo prazo, em prestam colorido e variedade às experiências por que passam os. Muitos rom ancistas se com portaram desse j eito em face dos personagens de seus livros, apertando e afrouxando o cinto deles, e não vej o por que devam ser repreendidos por isso.
Assim , da próxim a vez que lerem um livro, não fiquem procurando pelo “ponto de vista” – quer dizer, pela relação que o narrador m antém com a estória. Ele conta a estória e descreve os personagens vistos de fora, ou se identifica com um deles? Ele pretende saber de tudo, e tudo prever? Ou finge ficar surpreso com os acontecim entos? Ele m uda de ponto de vista – com o Dickens nos três prim eiros capítulos de Bleak House? E, se ele o faz, vocês se incom odam ? Eu não.