Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente · Capítulo 1 de 34

Páginas do PDF

Auto da Barca do Inferno

Diabo

À barca, à barca, venham lá!

Que temos gentil maré!

– dirigindo-se ao companheiro –

Ora põe o barco à ré! (vira a traseira do barco)

COMPANHEIRO DO DIABO

Está feito, está feito!

DIABO

Bem feito está!

Vai agora, em má hora,

Esticar aquele palanco (corda)

E desocupar aquele banco, Para a gente que virá.

– falando para o ar –

À barca, à barca, hu-u!

Depressinha, que se quer ir!

Oh, que tempo para partir,

Louvores a Belzebu!

– dirigindo-se ao companheiro – Mas então! que fazes tu?

Limpa todo aquele leito! (espaço entre o Mastro e a Popa do barco)

COMPANHEIRO

Em boa hora! Feito, feito!

DIABO

Abaixa-me esse cu!

Liberta aquela poja (corda com que se vira a vela) E afrouxa aquela driça. (corda com que se levanta a vela)

COMPANHEIRO

Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!

DIABO

Oh, que caravela esta!

Põe bandeiras, que é festa.

Vela ao alto! Âncora a pique!

Ó poderoso Dom Henrique,

Cá vindes vós? Que coisa é essa?...

Aproxima-se o Fidalgo e, chegando ao barco infernal, diz: