Auto da Barca do Inferno
Corregedor
Nestes autos, o vereis.
DIABO
Ora, pois, entrai. Veremos,
O que diz aí nesse papel...
CORREGEDOR
E onde vai o batel?
DIABO
No Inferno vos poremos.
CORREGEDOR
Como? À terra dos demos,
Há de ir um corregedor?
DIABO
Santo descorregedor,
Embarcai, e remaremos!
Ora, entrai, já que viestes!
CORREGEDOR
Non est de regulae juris, não!(*) (Não isso está prescrito nas leis)
[(*) Era costume as pessoas ligadas à justiça estudarem o latim pois as primeiras leis fundaram-se no direito romano e como tal o domínio do latim estava ligado à erudição. O povo da altura não tinha no entanto o latim como algo que lhes fosse completamente desconhecido pois as missas, a que se impunha que todos assistissem aos domingos, eram todas ditas em latim – um facto que só em meados de 1900 é que se abandonou. Por outro lado, o português arcaico da época era por si também ainda muito próximo do latim romano, por isso é que as frases e expressões latinas utilizadas entre o corregedor e o Diabo eram, à altura, compreendidas, mais ou menos bem, pelo público geral.]