Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente · Capítulo 20 de 34

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Auto da Barca do Inferno

Diabo

E o que tens para embarcar?

BRÍZIDA

Seiscentos virgos postiços (*)

E três arcas de feitiços

Que não podem mais levar.

[(*) hímens postiços, usado pelas prostitutas para passarem por virgens] Três armários de mentir,

E cinco cofres de enleios. (seduções) E alguns furtos alheios,

Como joias de vestir,

Guarda-roupa de encobrir,

Enfim... – casa movediça;

E um estrado de cortiça Com dois coxins de cobrir. (almofadas) A maior carga era,

Essas moças que vendia.

Dessa mercadoria,

Trago eu muita boa fé! (*)

[(*) Brízida Vaz traz consigo todos os apetrechos inerentes aos seus pecados que consistia em criar e fornecer meninas para os homens da época, em particular para os fidalgos e autoridades eclesiásticas.]

DIABO

Ora ponde aqui o pé...

BRÍZIDA

Ui! E vou é para o Paraíso!

DIABO

E quem te disse a ti isso?

BRÍZIDA

Hei de lá ir nessa maré!

Eu sou uma mártir tal!...

Açoites tenho levado, (*)

E tormentos suportado,

Que ninguém me foi igual.

Se eu fosse para o fogo infernal,

Lá iria todo o mundo!

À outra barca, lá ao fundo,

Me vou, que é mais real. (relativo à realeza)

[(*) As prostitutas e as suas “madames” recebiam efetivamente chicotadas como castigo da justiça quando era apanhadas e sentenciada pelos tribunais]

– Chegando à Barca da Glória diz ao Anjo: –

BRÍZIDA

Barqueiro, mano dos meus olhos,

Deita a prancha a Brízida Vaz.

ANJO

Eu não sei quem te cá traz...

BRÍZIDA

Peço-o de joelhos!

Pensais que trago piolhos,

Anjo de Deus, minha rosa?

Eu sou aquela preciosa

Que dava as moças aos molhos, (em grandes quantidades) A que criava as meninas Para os cónegos da Sé... (padres e bispos) Passai-me, por vossa fé,

Meu amor, minhas boninas, (margaridas, malmequeres) Olho de perlinha fina! (pérola)

Eu sou apostolada,

Angelada e maritizada

E fiz coisas muito divinas.

Santa Úrsula não converteu

Tantas raparigas como eu!

Todas salvas pelo meu (por mim) E nenhuma se perdeu.

E graças "Àquele do Céu"

Que todas acharam dono.

Pensais que dormia sono?

Nem ponto se me perdeu! (Nada me escapou à atenção)