Auto da Barca do Inferno
Diabo
E o que tens para embarcar?
BRÍZIDA
Seiscentos virgos postiços (*)
E três arcas de feitiços
Que não podem mais levar.
[(*) hímens postiços, usado pelas prostitutas para passarem por virgens] Três armários de mentir,
E cinco cofres de enleios. (seduções) E alguns furtos alheios,
Como joias de vestir,
Guarda-roupa de encobrir,
Enfim... – casa movediça;
E um estrado de cortiça Com dois coxins de cobrir. (almofadas) A maior carga era,
Essas moças que vendia.
Dessa mercadoria,
Trago eu muita boa fé! (*)
[(*) Brízida Vaz traz consigo todos os apetrechos inerentes aos seus pecados que consistia em criar e fornecer meninas para os homens da época, em particular para os fidalgos e autoridades eclesiásticas.]
DIABO
Ora ponde aqui o pé...
BRÍZIDA
Ui! E vou é para o Paraíso!
DIABO
E quem te disse a ti isso?
BRÍZIDA
Hei de lá ir nessa maré!
Eu sou uma mártir tal!...
Açoites tenho levado, (*)
E tormentos suportado,
Que ninguém me foi igual.
Se eu fosse para o fogo infernal,
Lá iria todo o mundo!
À outra barca, lá ao fundo,
Me vou, que é mais real. (relativo à realeza)
[(*) As prostitutas e as suas “madames” recebiam efetivamente chicotadas como castigo da justiça quando era apanhadas e sentenciada pelos tribunais]
– Chegando à Barca da Glória diz ao Anjo: –
BRÍZIDA
Barqueiro, mano dos meus olhos,
Deita a prancha a Brízida Vaz.
ANJO
Eu não sei quem te cá traz...
BRÍZIDA
Peço-o de joelhos!
Pensais que trago piolhos,
Anjo de Deus, minha rosa?
Eu sou aquela preciosa
Que dava as moças aos molhos, (em grandes quantidades) A que criava as meninas Para os cónegos da Sé... (padres e bispos) Passai-me, por vossa fé,
Meu amor, minhas boninas, (margaridas, malmequeres) Olho de perlinha fina! (pérola)
Eu sou apostolada,
Angelada e maritizada
E fiz coisas muito divinas.
Santa Úrsula não converteu
Tantas raparigas como eu!
Todas salvas pelo meu (por mim) E nenhuma se perdeu.
E graças "Àquele do Céu"
Que todas acharam dono.
Pensais que dormia sono?
Nem ponto se me perdeu! (Nada me escapou à atenção)