Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente · Capítulo 33 de 34

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Auto da Barca do Inferno

Diabo

Entra, entra no batel,

Que ao Inferno hás de ir!

ENFORCADO

O Moniz esteve a mentir?

Disse-me que com São Miguel

Eu jantaria pão e mel

Assim que fosse enforcado.

Ora, eu já passei o meu fado,

E já feito é o burel.(*) (e já passei o que tinha a passar)

[(*) Burel era um tecido de artesanal feito de lã. "Já é feito o burel" era uma expressão utilizada para dizer que "o trabalho já está feito ou cumprido" ou "já se fez o que se tinha a fazer"]

Agora não sei o que é isto:

Ele não me falou ele em ribeira,

Nem em barqueiro, nem em barqueira,

Apenas no Paraíso.

Isto muito no seu juízo.

E que era santo o meu baraço... (era abençoada a minha corda) Eu não sei que aqui faço:

Que é desta glória improviso? (que espécie de glória é esta?)

DIABO

Falou-te no Purgatório?

ENFORCADO

Disse que era o Limoeiro, (que o purgatório era a prisão) E com ele o saltéiro (o livro de salmos) E o pregão vitatório; (o discurso que se dizia antes de se enforcar alguém) E que era muito notório

Que aqueles disciplinados (aqueles castigos) Eram horas dos finados (eram bênçãos para os condenados) E missas de São Gregório.

 

DIABO

Quero-te desenganar:

Se o que tivesses aceitado,

Certo era que te salvavas.

Mas não o quiseste aceitar... (*)

[(*) Diz o Diabo que se os tormentos e as rezas, que o Enforcado levou na prisão, lhe tivessem servido como expiação dos seus pecados, ter-se-ia salvado. Mas como não levou os castigos as rezas a sério para pedir perdão pelos erros do passado, vai para o inferno.]

– Diz o Diabo para todos os que estão dentro do seu barco –

Alto! Todos a alevantar,

Que está em seco o batel!

Alevante-se, Frei Babriel!

Ajudai ali a apanhar! (*)

[(*) O Diabo repara que a maré está a abaixar e quer pôr todos a trabalhar para se ir embora, dá ordens em especifico ao Frade]

Vêm Quatro Cavaleiros a cantar, os quais trazem cada um a Cruz de Cristo, pelo qual Senhor e acrescentamento de Sua santa fé católica morreram a lutar contra os mouros. Absoltos a culpa e pena como privilégio que os que assim morrem têm dos mistérios da Paixão d'Aquele por Quem padecem, outorgados por todos os Presidentes Sumos Pontífices da Madre Santa Igreja. E a cantiga que assim cantavam é a seguinte: