Auto da Barca do Inferno
Diabo
Entra, entra no batel,
Que ao Inferno hás de ir!
ENFORCADO
O Moniz esteve a mentir?
Disse-me que com São Miguel
Eu jantaria pão e mel
Assim que fosse enforcado.
Ora, eu já passei o meu fado,
E já feito é o burel.(*) (e já passei o que tinha a passar)
[(*) Burel era um tecido de artesanal feito de lã. "Já é feito o burel" era uma expressão utilizada para dizer que "o trabalho já está feito ou cumprido" ou "já se fez o que se tinha a fazer"]
Agora não sei o que é isto:
Ele não me falou ele em ribeira,
Nem em barqueiro, nem em barqueira,
Apenas no Paraíso.
Isto muito no seu juízo.
E que era santo o meu baraço... (era abençoada a minha corda) Eu não sei que aqui faço:
Que é desta glória improviso? (que espécie de glória é esta?)
DIABO
Falou-te no Purgatório?
ENFORCADO
Disse que era o Limoeiro, (que o purgatório era a prisão) E com ele o saltéiro (o livro de salmos) E o pregão vitatório; (o discurso que se dizia antes de se enforcar alguém) E que era muito notório
Que aqueles disciplinados (aqueles castigos) Eram horas dos finados (eram bênçãos para os condenados) E missas de São Gregório.
DIABO
Quero-te desenganar:
Se o que tivesses aceitado,
Certo era que te salvavas.
Mas não o quiseste aceitar... (*)
[(*) Diz o Diabo que se os tormentos e as rezas, que o Enforcado levou na prisão, lhe tivessem servido como expiação dos seus pecados, ter-se-ia salvado. Mas como não levou os castigos as rezas a sério para pedir perdão pelos erros do passado, vai para o inferno.]
– Diz o Diabo para todos os que estão dentro do seu barco –
Alto! Todos a alevantar,
Que está em seco o batel!
Alevante-se, Frei Babriel!
Ajudai ali a apanhar! (*)
[(*) O Diabo repara que a maré está a abaixar e quer pôr todos a trabalhar para se ir embora, dá ordens em especifico ao Frade]
Vêm Quatro Cavaleiros a cantar, os quais trazem cada um a Cruz de Cristo, pelo qual Senhor e acrescentamento de Sua santa fé católica morreram a lutar contra os mouros. Absoltos a culpa e pena como privilégio que os que assim morrem têm dos mistérios da Paixão d'Aquele por Quem padecem, outorgados por todos os Presidentes Sumos Pontífices da Madre Santa Igreja. E a cantiga que assim cantavam é a seguinte: