Auto da Barca do Inferno
Frade
Deo gratias! Damos caçada!
Para sempre, contra uns!
Um fendente!(*), ora pois!
[(*) Golpe de esgrima normalmente feito de cima para baixo com o punho]
Esta é a primeira levada. (o primeiro ataque) Alto! Levantai a espada!
Uma estocada, e um revés!
E depressa recolher os pés,
Que todo o cuidado é pouco!
Quando o recolher se tarda
O ferir não é prudente.
Ora, então! Muito depressa, Cortai na segunda guarda!
Guarde-me Deus da espingarda(*) [(*) Entende-se por aqui por "espingarda" um tipo de arma como um "mosquete" ou a uma "besta" que existiam no seculo XVI. Não a conceção de espingarda que surgiu um século depois]
E do homem ousado.
Aqui estou tão bem guardado
Como uma palha na albarda. (a sela dos cavalos) Fico com meia espada...
Óh lá! Protegei as queixadas! (as caras)
DIABO
Oh que valentes levadas! (ataques)
FRADE
Isto ainda não é nada...
Damos outra vez caçada!
Contra uns mais um fendente,
E, cortando com destreza,
Eis aqui a sexto feitada. (golpe) Daqui saio com uma guia (reviravolta) E um revés da primeira:
Esta é o quinta verdadeira.
Oh! Quantos assim eu feria!...
Um padre que tal aprendia,
No Inferno há de ter pingos?!... (lugar) Ah! Não se preza a São Domingos
Com tanta descortesia!
– Voltou a tomar a rapariga pela mão, dizendo: –
Vamos à barca da Glória!
Começou o Frade a fazer o tordião e foram os dois a dançar até o batel do Anjo desta maneira:
FRADE
Ta-ra-ra-rai-rã; ta-ri-ri-ri-rã;
rai-rai-rã; ta-ri-ri-rã; ta-ri-ri-rã.
Huhá!
Deo gratias! Há lugar cá
Para minha reverência?
E a senhora Florença
Também entrará cá!
PARVO
Andor daqui para fora!
Roubaste o trinchão, frade?(*) (pedaço de carne)
[(*) referindo-se à rapariga que o frade trazia]
FRADE
Senhora, dá-me a vontade (quer-me parecer) Que este feito mal está.
Vamos para onde havemos de ir!
Não se praza Deus com a ribeira!
E não vejo aqui maneira
Senão, enfim, …. concrudir. (de aceitar as coisas têm de ser)
DIABO
Haveis, padre, de vir.
FRADE
Agasalhai-me lá a Florença, E cumpra-se essa sentença.
Apressemo-nos a partir.
Assim que o Frade foi embarcado, veio uma Alcoviteira (*), de nome Brízida Vaz, a qual, chegando à barca infernal, diz desta maneira: [(*) Uma alcoviteira era uma mulher de má fama, ligada ao negócio da prostituição (do qual ela era gerente) e a tudo o que lhe estava ligado, ou também a negócios fraudulentos de crendices pagãs, como as mezinhas e remédios de cura. O povo tomava-as como feiticeiras]
BRÍZIDA
Ó da barca, ó lá!
DIABO
Quem chama?
BRÍZIDA
BrízidaVaz.
DIABO
– dirigindo-se ao companheiro –
Mas o que espera ela, rapaz?
Porque não entra ela já?
COMPANHEIRO
Diz que não há de entrar cá
Sem a Joana de Valdês.(*)
[Jona de Valdês já tinha sido anteriormente mencionada pelo Onzeneiro. Devia ter sido uma personagem conhecida na época. Há quem aponte que poderia ter sido uma amante do Bispo de A. Valdês que tinha uma amante com a alcunha de Lucrécia – não confundir com a infame Lucrécia Bórgia, filha do Papa Alexandre VI, a quem certamente o nome foi imitado]
DIABO
Entrai vós e remai.
BRÍZIDA
Eu não quero aí entrar.
DIABO
Que saboroso recear!
BRÍZIDA
Não é essa barca que eu cato. (procuro)
DIABO
Não trazes vós muitos fatos?
BRÍZIDA
O que me convém levar.