Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente · Capítulo 31 de 34

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Auto da Barca do Inferno

Corregedor

Venha a negra prancha para cá!

Vamos ver esse segredo.

PROCURADOR

Diz um texto do Degredo...

DIABO

Entrai, que cá se dirá!

E assim que os dois entraram dentro no batel dos condenados, disse o Corregedor para a Brízida Vaz, porque a conhecia:

CORREGEDOR

Oh! Em má hora vos vejo,

Senhora Brízida Vaz!

BRÍZIDA

Já nem aqui estou em paz,

Pois nem aqui me deixais.

Cada hora a mim sentenciada:

«Foi justiça que vós mandastes fazer....» (*)

[(*) Brízida com estas palavras queixa-se de que em vida fartava-se de ser perseguida pela lei e que fora sentenciada muitas vezes pelo Corregedor]

CORREGEDOR

E vós... volta a tecer

E a urdir outra meada.(*)

[(*) E responde o corregedor que Brizida voltava sempre a fazer o mesmo, apesar das sentenças que lhe eram dadas]

BRÍZIDA

Diz ó, juiz da alçada:

Vem lá o Pêro de Lisboa? (*)

Levá-lo-emos à toa

E irá também nesta barcada.

[(*) O “Pêro de Lisboa”, dizem os historiadores que era um escrivão muito conhecido na altura em Lisboa pela má fama. É pois uma paródia dirigida a uma figura da época que já lhe apontava o inferno como destino final]

Vem um homem que morreu Enforcado, e, chegando ao batel dos mal-aventurados, diz o barqueiro ao que chega:

DIABO

Vamos embora, enforcado!

Que diz lá o Garcia Moniz? (*)

[(*)Figura provavelmente conhecida à época, cuja identidade é hoje desconhecida e dada a muita suposição. Seria alguém importante na corte portuguesa]

ENFORCADO

Eu te direi que ele diz:

Que fui bem-aventurado

Em morrer dependurado (pendurado) Como o tordo na buiz, (armadilha) E diz que os feitos que eu fiz

Me fazem canonizado. (me fazem santo)

DIABO

Entra cá, e governarás (guiarás o barco) Até às portas do Inferno.

ENFORCADO

Não é essa a nau que eu quero.

DIABO

Digo-te eu que aqui irás.

ENFORCADO

Oh! Isso não, por Barrabás! (*) Então se Garcia Moniz dizia

Que os que morrem como eu

Ficam livres de Satanás...

[(*)O criminoso que foi libertado no lugar de Cristo a pedido da população enraivecida]

E disse que Deus quisera

De ser eu enforcado;

E que fosse Deus louvado

Pois em boa hora eu nascera;

E que o Senhor me escolhera;

E que por bem vi os beleguins. (pelo seu bem, foi levado aos oficiais da justiça)

E com isto mil latins,

Muito lindos, feitos de cera. (*)

[(*) Mil latins serão os discursos jurídicos e religiosos, de cera serão as velas. Para o enforcado, um condenado simplório, faz tudo parte da mesma coisa] E, no passo derradeiro,

Disse-me nos meus ouvidos

Que o lugar dos escolhidos

Era a forca e o Limoeiro; (*)

[(*) O Limoeiro era uma prisão da altura em Lisboa com a reputação de ser muito dura.]

Nem guardião do mosteiro

Tinha tão santa gente

Como o Afonso Valente

Que é agora carcereiro.