Auto da Barca do Inferno
Corregedor
Venha a negra prancha para cá!
Vamos ver esse segredo.
PROCURADOR
Diz um texto do Degredo...
DIABO
Entrai, que cá se dirá!
E assim que os dois entraram dentro no batel dos condenados, disse o Corregedor para a Brízida Vaz, porque a conhecia:
CORREGEDOR
Oh! Em má hora vos vejo,
Senhora Brízida Vaz!
BRÍZIDA
Já nem aqui estou em paz,
Pois nem aqui me deixais.
Cada hora a mim sentenciada:
«Foi justiça que vós mandastes fazer....» (*)
[(*) Brízida com estas palavras queixa-se de que em vida fartava-se de ser perseguida pela lei e que fora sentenciada muitas vezes pelo Corregedor]
CORREGEDOR
E vós... volta a tecer
E a urdir outra meada.(*)
[(*) E responde o corregedor que Brizida voltava sempre a fazer o mesmo, apesar das sentenças que lhe eram dadas]
BRÍZIDA
Diz ó, juiz da alçada:
Vem lá o Pêro de Lisboa? (*)
Levá-lo-emos à toa
E irá também nesta barcada.
[(*) O “Pêro de Lisboa”, dizem os historiadores que era um escrivão muito conhecido na altura em Lisboa pela má fama. É pois uma paródia dirigida a uma figura da época que já lhe apontava o inferno como destino final]
Vem um homem que morreu Enforcado, e, chegando ao batel dos mal-aventurados, diz o barqueiro ao que chega:
DIABO
Vamos embora, enforcado!
Que diz lá o Garcia Moniz? (*)
[(*)Figura provavelmente conhecida à época, cuja identidade é hoje desconhecida e dada a muita suposição. Seria alguém importante na corte portuguesa]
ENFORCADO
Eu te direi que ele diz:
Que fui bem-aventurado
Em morrer dependurado (pendurado) Como o tordo na buiz, (armadilha) E diz que os feitos que eu fiz
Me fazem canonizado. (me fazem santo)
DIABO
Entra cá, e governarás (guiarás o barco) Até às portas do Inferno.
ENFORCADO
Não é essa a nau que eu quero.
DIABO
Digo-te eu que aqui irás.
ENFORCADO
Oh! Isso não, por Barrabás! (*) Então se Garcia Moniz dizia
Que os que morrem como eu
Ficam livres de Satanás...
[(*)O criminoso que foi libertado no lugar de Cristo a pedido da população enraivecida]
E disse que Deus quisera
De ser eu enforcado;
E que fosse Deus louvado
Pois em boa hora eu nascera;
E que o Senhor me escolhera;
E que por bem vi os beleguins. (pelo seu bem, foi levado aos oficiais da justiça)
E com isto mil latins,
Muito lindos, feitos de cera. (*)
[(*) Mil latins serão os discursos jurídicos e religiosos, de cera serão as velas. Para o enforcado, um condenado simplório, faz tudo parte da mesma coisa] E, no passo derradeiro,
Disse-me nos meus ouvidos
Que o lugar dos escolhidos
Era a forca e o Limoeiro; (*)
[(*) O Limoeiro era uma prisão da altura em Lisboa com a reputação de ser muito dura.]
Nem guardião do mosteiro
Tinha tão santa gente
Como o Afonso Valente
Que é agora carcereiro.