Auto da Barca do Inferno
Diabo
A sua mãe lhas ensinou...
Entrai, meu senhor, entrai:
Aqui está a prancha! Ponha o pé...
FIDALGO
Entremos, pois se assim é.
DIABO
Ora, senhor, descansai, passeai e suspirai. Que entretanto virá mais gente.
FIDALGO
Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!
– Diz o Diabo ao rapaz da cadeira: –
DIABO
Tu não entras cá! Vai-te daqui!
Essa cadeira está cá a mais!
Coisa que esteve na igreja
Não se há de embarcar aqui.
Aqui dar-lhe-ão outras de marfim,
Mais chicotadas de dores,
Dadas com tais lavores,
Que ficará fora de si...
– Falando novamente para o ar –
À barca, à barca, boa gente, Que queremos dar à vela!
É chegar a ela! É chegar a ela! (Aproximai-vos, aproximai-vos) Muitos e de boa mente!
Oh! que barca tão valente!
Aparece um Onzeneiro, (*) e pergunta ao barqueiro do Inferno, dizendo:
[(*) Indivíduo que vive a emprestar dinheiro aos outros e a cobrar depois juros altos. Eram os banqueiros da altura.]
ONZENEIRO
Para onde navegais?
DIABO
Oh! Em que má hora chegais,
Onzeneiro, meu parente!
Porque tardastes vós tanto?
ONZENEIRO
Mais ainda eu quisera tardar...
Na safra do apanhar, (Na tarefa de ganhar dinheiro) Deu-me Saturno(*) o quebranto. (a morte)
[(*)Saturno era o deus romano do Tempo.]
DIABO
Ora muito me espanto por ver
Não vos salvar o dinheiro!...
ONZENEIRO
Nem para o barqueiro
Me deixaram ficar com algo…(*)
[(*) O Onzeneiro refere-se novamente às mitologia grega, segundo a qual os mortos teriam que atravessar o rio Aqueronte, pagando uma moeda ao barqueiro, de nome Caronte, pela passagem. Queixa-se ele de que não o deixaram levar nenhum do seu dinheiro consigo, quando morreu, nem para pagar ao tal barqueiro da lenda.]
DIABO
Ora então entrai, entrai aqui!
ONZENEIRO
Não hei eu de aí embarcar!
DIABO
Oh! Que gentil recear,
E que divertido para mim!...
ONZENEIRO
Ainda agora faleci!
Deixa-me escolher um batel!
DIABO
Oh São Pimentel!
Porque não irás aqui?...
ONZENEIRO
E para onde é a viagem?
DIABO
É para onde tu hás de ir.
ONZENEIRO
E vamos já partir?