Auto da Barca do Inferno
Sapateiro
Não há caridade que Deus me faça?
Isto em qualquer lugar irá?
ANJO
Aquela barca que ali está
Leva quem rouba de praça. (descaradamente) Oh almas embaraçadas! (desavergonhadas)
SAPATEIRO
Ora muito eu me maravilho, (me espanto) Por terdes por grão peguilho, (por incómodo) Quatro forminhas cagadas, (*)
Que podem bem ir aí aconchegadas
Aí num cantinho dessa barca!
[(*)”umas coisas insignificantes”, referindo-se à formas dos sapatos que trazia consigo, ou seja, os seus pecados.]
ANJO
Se tivesses vivido direito,
Elas eram cá escusadas. (*)
[(*) Diz o Anjo, que se o Sapateiro vivido com retidão, não trazia agora nada carregado consigo]
SAPATEIRO
Então determinais,
Que eu vá cozer ao Inferno?
ANJO
Escrito estás no caderno
Das ementas infernais.
O sapateiro volta à barca dos danados, e diz:
SAPATEIRO
Oh barqueiros! Que aguardais?
Vamos, venha prancha logo
E levai-me àquele fogo!
Não nos detenhamos mais!
Vem um Frade com uma rapariga pela mão, um escudo e uma espada na outra e um capacete debaixo do capuz. E ele mesmo fazendo uma vénia, começa a dançar, cantando:
FRADE
Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã;
ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã:
tã-tã; ta-ri-rim-rim-rã. Huhá!
DIABO
Que é isso, padre?! Quem vem lá?
FRADE
Deo gratias! Sou cortesão. (*)
[(*)Graças a Deus! Sou homem da corte. De todos os personagens usados por Gil Vicente nesta peça, o Frade é o mais criticado. Certamente era o que mais fazia rir ao público da época, pois era em si gozado por todas as camadas sociais.]
DIABO
Sabes também o tordião?(*)
[(*)Canto que uma pessoa trauteia quando faz uma dança improvisada. Também pode significar um tipo de dança feita sem ordem nem compasso certo.]