Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente · Capítulo 15 de 34

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Auto da Barca do Inferno

Sapateiro

Não há caridade que Deus me faça?

Isto em qualquer lugar irá?

ANJO

Aquela barca que ali está

Leva quem rouba de praça. (descaradamente) Oh almas embaraçadas! (desavergonhadas)

SAPATEIRO

Ora muito eu me maravilho, (me espanto) Por terdes por grão peguilho, (por incómodo) Quatro forminhas cagadas, (*)

Que podem bem ir aí aconchegadas

Aí num cantinho dessa barca!

[(*)”umas coisas insignificantes”, referindo-se à formas dos sapatos que trazia consigo, ou seja, os seus pecados.]

ANJO

Se tivesses vivido direito,

Elas eram cá escusadas. (*)

[(*) Diz o Anjo, que se o Sapateiro vivido com retidão, não trazia agora nada carregado consigo]

SAPATEIRO

Então determinais,

Que eu vá cozer ao Inferno?

ANJO

Escrito estás no caderno

Das ementas infernais.

O sapateiro volta à barca dos danados, e diz:

SAPATEIRO

Oh barqueiros! Que aguardais?

Vamos, venha prancha logo

E levai-me àquele fogo!

Não nos detenhamos mais!

Vem um Frade com uma rapariga pela mão, um escudo e uma espada na outra e um capacete debaixo do capuz. E ele mesmo fazendo uma vénia, começa a dançar, cantando:

FRADE

Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã;

ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã:

tã-tã; ta-ri-rim-rim-rã. Huhá!

DIABO

Que é isso, padre?! Quem vem lá?

FRADE

Deo gratias! Sou cortesão. (*)

[(*)Graças a Deus! Sou homem da corte. De todos os personagens usados por Gil Vicente nesta peça, o Frade é o mais criticado. Certamente era o que mais fazia rir ao público da época, pois era em si gozado por todas as camadas sociais.]

DIABO

Sabes também o tordião?(*)

[(*)Canto que uma pessoa trauteia quando faz uma dança improvisada. Também pode significar um tipo de dança feita sem ordem nem compasso certo.]