Auto da Barca do Inferno
Diabo
Et vobis quoque cum ea, (E vós também com ela) A Deus não temeste.
E de grande modo enriqueceste
Sanguinis laboratorum, (com o sangue dos que trabalham) Ignorantis peccatorum. (Pecaste, ignorando-os) Ut quid eos non audistis? (E porque não os atendeste?)
CORREGEDOR
Vós, barqueiros, nonne legistis (não lestes) Que o dinheiro quebra os penedos? (as montanhas) E que os direitos ficam quedos, (parados; suspensos) Sed aliquid tradidistis ... (Se algo é dado em troca...)
DIABO
Ora entrai, nestes negros fados!
Ireis para ao lago dos cães
E vereis os escrivães
Como estão tão prosperados. (ricos)
CORREGEDOR
E na terra dos danados
Estão os Evangelistas?
DIABO
Os mestres das burlas vistas
Estão lá bem fragoados. (martelados – como era o metal na forja)
Estando o Corregedor nesta conversa com o Arrais infernal chegou um Procurador(*), carregado de livros, e diz o Corregedor ao Procurador:
[(*) O procurador é um mandatário da Justiça, aqui a representar a classe dos advogado]
CORREGEDOR
Ó senhor Procurador!
PROCURADOR
Beijo-vos as mãos, Juiz!
Que diz este barqueiro? Que diz?
DIABO
Que sereis bom remador.
Entrai, bacharel doutor,
E ireis a dar à bomba. (*)
[(*) bomba de bombear, um mecanismo que retirava a água que entrava dentro dos barcos]