Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente · Capítulo 28 de 34

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Auto da Barca do Inferno

Diabo

Et vobis quoque cum ea, (E vós também com ela) A Deus não temeste.

E de grande modo enriqueceste

Sanguinis laboratorum, (com o sangue dos que trabalham) Ignorantis peccatorum. (Pecaste, ignorando-os) Ut quid eos non audistis? (E porque não os atendeste?)

CORREGEDOR

Vós, barqueiros, nonne legistis (não lestes) Que o dinheiro quebra os penedos? (as montanhas) E que os direitos ficam quedos, (parados; suspensos) Sed aliquid tradidistis ... (Se algo é dado em troca...)

DIABO

Ora entrai, nestes negros fados!

Ireis para ao lago dos cães

E vereis os escrivães

Como estão tão prosperados. (ricos)

CORREGEDOR

E na terra dos danados

Estão os Evangelistas?

DIABO

Os mestres das burlas vistas

Estão lá bem fragoados. (martelados – como era o metal na forja)

Estando o Corregedor nesta conversa com o Arrais infernal chegou um Procurador(*), carregado de livros, e diz o Corregedor ao Procurador:

[(*) O procurador é um mandatário da Justiça, aqui a representar a classe dos advogado]

CORREGEDOR

Ó senhor Procurador!

PROCURADOR

Beijo-vos as mãos, Juiz!

Que diz este barqueiro? Que diz?

DIABO

Que sereis bom remador.

Entrai, bacharel doutor,

E ireis a dar à bomba. (*)

[(*) bomba de bombear, um mecanismo que retirava a água que entrava dentro dos barcos]