Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
A defesa da Baía de Todos os Santos
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
qual foram colocados nove meios-quartaus e falcões [...]"(Figuras 15
e 16).
Figura 16 – Particular do desenho do museu de Haia (1638).
Fonte: Vereeniging Nederlandsh Sheepvaart Museum, de Amsterdã.
Fonte: Particular da planta de Salvador, elaborada em 1638, do
Algemeen Museum (Holanda).
O crescimento da cidade e a conquista desordenada do mar, como
já fizemos ver, literalmente asfixiaram a antiga fortificação da laje,
tirando-lhe toda a sua condição de tiro de flanco. Isto foi motivo de
que a lateral do edifício fosse simplificada, ficando somente o
pequeno baluarte frontal. A preocupação do tiro frontal, que observamos na evolução do desenho, cria uma bateria, ao longo do
cais, representada no desenho de Caldas, produzido nos meados
do século XVIII (Figura 17), com um aumento de canhoneiras no
parapeito, observado no desenho do texto de Vilhena, no fim do
mesmo século.
Figura 17 – Bateria da Ribeira desenhada por José Antônio Caldas,
em 1759. Observa-se ainda o núcleo antigo do Forte da Laje, depois
Forte de S. Felipe e Santiago.
Fonte: Cap. José Antônio Caldas.
No início do século XIX, o então capitão João da Silva Leal Teixeira
representou a Bateria da Ribeira de maneira primorosa, como eram
os seus desenhos, sem a velha fortificação que deu origem à defesa
daquele local, o que deve ser indicação de que foi ela arrasada para
ceder espaço à movimentação das peças de artilharia no novo
direcionamento dos planos de fogo, exclusivamente frontais, da dita
bateria (Figura 18). (OLIVEIRA, 2004, p. 243)
Figura 18 – Bateria da Ribeira.
Fonte: J. S. Leal Teixeira GEAEM 4558/7.
Uma das pistas seguras de que esta bateria era conhecida nas suas
origens, como Forte do Mar, encontra-se em outra passagem do
relatório de Bernardo Ravasco Vieira, datado de 1660: "[…] A esta
[bateria da Preguiça] se segue 'o forte R.l do mar Sam Phelippe
desunido das mais forteficação; o qual hé de cantaria' […]". (VIEIRA,
1660)
Forte de Santo Alberto
Quando o governador geral mandou lavrar a portaria de 1673, para
o Provedor ir ver o Forte de Santo Alberto, estava decretando a
pena de morte do velho propugnáculo, abandonado como um idoso
leão desdentado e sem garras, que não mais rugia, perdendo a sua
serventia. Valeria ver o texto da portaria, porque descreve o estado
em que se encontrava:
Porquanto sou informado que na praia desta cidade, está um
sitio que antigamente foi forte (a que chamam de Santo Alberto)
e hoje está arruinado sem ter artilharia, e não servir de utilidade
alguma para a defensa desta praça, e ha pessoas que querem
comprar o dito sitio: O Provedor-mor da Fazenda Real deste
Estado com o Procurador e com o Tenente General da artilharia
vão ver o dito sitio, e do que acharem me darão conta para se
tomar a resolução que mais convier ao serviço de Sua Alteza.
Bahia e Março 13 de 1673. (BIBLIOTECA NACIONAL, 1928, p.
152)
Como consequência do parecer desfavorável da comissão
visitadora, reuniu-se a Mesa da Fazenda, que decidiu vender o
Revelim de Santo Alberto, em hasta pública, como de norma,
sabendo-se, de antemão, que por ele já tinham oferecido 560$000
rs. (BIBLIOTECA NACIONAL, 1944, p. 171)
Não temos, no momento, a documentação do que aconteceu
depois, mas o certo é que o nome da velha torre reduto
desapareceu da relação das fortalezas, a partir de então, restando
somente a palavra dos cronistas e a documentação antiga que a ela
se refere.
Pelo que podemos depreender da antiga representação, não era
uma construção avantajada, mas uma torre de base,
aproximadamente quadrada, com cerca de 50 a 60 palmos [11,00 m
a 13,20 m] no coroamento, o mínimo minimorum para acomodar
duas plataformas de artilharia trabalhando em direções opostas.
Temos uma boa ideia da sua planta através de imagem existente em
cartografia atribuída a Albernaz (o velho) (Figura 19). Ela
corresponde aos tipos clássicos de torres que eram feitas nos
primeiros tempos das nossas fortificações. A iconografia de Gerritsz
(Figura 14) mostra, pelo seu lado, uma construção com mais de um
andar, onde aparecem torres pequenas, cilíndricas, que
encontramos no desenho. Não podemos afiançar, porém, que a
feição da construção, demolida na segunda metade do século XVII,
tenha sido esta. Observa-se que era um reduto com pouco poder de fogo, em virtude de só apresentar duas troneiras disparando em
direção ao mar e duas fazendo o flanqueamento.
Figura 19 – Fragmento da cartografia atribuída a Albernaz (o velho).
Fonte: Detalhe da Figura 3.
Não somente a reprodução em questão como grande parte da
iconografia da época mostram que era um forte à beira d'água,
apoiado sobre um afloramento rochoso que adentrava pelo mar.
Havendo desaparecido, o nome de sua invocação passa para a
Torre de Santiago de Água de Meninos, provavelmente, quando foi
feita a sua reforma e ampliação no século XVIII, sob a orientação do
mestre de campo Miguel Pereira da Costa.
Temos que acreditar que o fortim de Santo Alberto foi obra da
administração de D. Francisco de Sousa, porque é uma declaração
expressa de Diogo Moreno, no seu relatório de 1609, e ele não era
um observador que documentou a história, distanciado dezenas de
anos após os fatos acontecidos, era contemporâneo. (OLIVEIRA,
2004, p. 182)
Bernardo Ravasco, na segunda metade do século XVII, nos informa
da sua obsolescência e inutilidade:
"O forte de Santo Alberto" [do Corpo Santo] q se lhe segue, hé
inutil tem huma peça de bronze de 10 L.as: delle corre hu' muro
té quazy hu'a plataforma, de que he Cap.m Visente Alz.º, cujo
pay a fes a sua custa; e em satisfacam daquelle serviço se lhe
deu sem soldo algum: tem 4 peças de bronze, huma meya
colebrina, de 18 L.as hu' meyo Canhão de 16. huma de 10 e
outra de 8. (VIEIRA, 1660)
O Forte do Mar ou de Nossa Senhora do Pópulo e São Marcelo
Alguns cronistas antigos confundiram o Forte da Laje com o de S.
Marcelo, arrastando consigo muitos historiadores modernos. É
necessário pois, uma leitura crítica destes textos.
O argumento Forte do Mar, particularmente, já foi objeto de uma
série de estudos. Destacamos a tese de Luiz Monteiro da Costa
(1954), que mergulhou no assunto com profundidade, na busca da
sua verdadeira certidão de nascimento. Concordamos com a
maioria das colocações deste último. Faltando, no seu trabalho,
exclusivamente, uma observação mais detalhada dos aspectos da
documentação iconográfica e alguns papéis definitivos que nos
permitam lançar luz sobre o assunto e simplificar uma polêmica que
sobre o argumento se estabeleceu.
Trocando em miúdos, o que os documentos nos mostram, e foi
comprovado por Monteiro da Costa, é que foram dois os Fortes do
Mar, com o que concordamos, procurando destacar outros
argumentos. O primeiro destes fortes, do início do século XVII, um
reduto quadrilátero, mais vizinho à Ribeira de então, foi construído
sobre um afloramento rochoso, a famosa lagem, onde Luís Dias
fez o seu baluarte de "paus de mangue" e se metamorfoseou, como
já demonstramos, no Baluarte da Ribeira ou de S. Felipe e São
Tiago. O outro foi construído sobre uma coroa de areia,
correspondendo ao nosso S. Marcelo, concebido, desde que
nasceu, com partido circular 28 (Figuras 20 e 21).
Figura 20 – Forte de N. S. do Pópulo e S. Marcelo, conhecido
também como Forte do Mar.
Foto: Nilton Sousa.
Figura 21 – Cadastro atual do Forte de S. Marcelo.
Fonte: Cadastro do Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural
(IPAC).
Além das argumentações desfiadas por Luiz Monteiro, baseadas em
documentos, nos quais estava claro que o forte da laje era próximo
à praia, seria bom destacar que Aldenburgo, na descrição da refrega
entre holandeses e portugueses havida no local, em 1624, relatou
que quando aqueles tomaram o então forte do mar, ainda inacabado
e protegido por cestões, encravaram os canhões da bateria e
bateram em retirada, "[...] em virtude da fuzilaria de terra."
(ALDENBURGK 29 , 1961, p. 172) Ora, o alcance útil máximo de um
mosquete da época, segundo experto da maior credibilidade, o
Marechal Vauban (1991, p. 192) (Regra XV ), era de 120 a 125
toesas [237,6 m a 247,5 m], discordando de Goldman, famoso
tratadista holandês, que aceitava um alcance de 150 toesas [297 m].
O nosso Forte de S. Marcelo dista, em linha de tiro, uns 600m da
parte baixa do Elevador Lacerda, de acordo com o levantamento
aerofotogramétrico atual da cidade, o que o colocaria fora da
hipótese de ser o sucessor do antigo forte da lagem.
As iconografias, por outro lado, são muito claras e a mais antiga,
que mostra o primeiro forte do mar na sua versão de reduto
quadrado, no Livro que dá Razão ao Estado do Brazil, exibe um
molhe ligando o forte à terra, cuja dimensão, mesmo considerando
qualquer falta de escala do artista, não poderia ser uma ligação do
nosso atual S. Marcelo à terra. 30 Nietzscher, citado também por
Monteiro, ao relatar a epopeia da invasão, diz, no que se refere ao
assalto do forte do mar: "O próprio Piet Heyn, seguido do corneteiro
de seu navio, foi o primeiro a subir na fortificação inimiga obrigando
toda a guarnição a escapar, 'fosse a vau', fosse a nado". (COSTA,
1954, p. 59) Convenhamos que um bom nadador cobriria os
quinhentos e tantos metros de intervalo do atual S. Marcelo até a
praia da época, mas passar a vau seria totalmente improvável, por
mais modificada que tivesse sido a batimetria do nosso porto.
Dentro desta ótica de observação relativa à pouca profundidade
entre o forte e a terra, a legenda de Aldenburgo para a estampa,
traduzida por Silva Nigra, ilustrando o texto sobre a tomada de
Salvador, reza: "Uma bateria construída de pedra dura, distante da
terra, 'que na maré alta se pode passar por detraz' com um barco [...]". (ALDENBURG , 1938, v. 26, p. 109) A afirmativa é óbvia e não
merece mais comentários.
Para encerrar a argumentação, encontramos, também, uma
documentação assinada por Francisco Barreto, antigo governador
geral (1657-1663), que é um parecer, datado de 1668, sobre a
situação defensiva da Bahia e seu Recôncavo, feito a pedido do
Conselho Ultramarino. Em determinada passagem, ele dizia com
todas as letras:
O "Forte São Marcelo fiz eu no meio da Bahia", p.ª que com o
forte Real [Forte S. Felipe e Santiago, antigamente, da laje], e o
forte São Fran.co se pudesse deffender o encoradouro dos
navios, e se gastarão nelle perto de secenta mil cruzados: e
suposto q' o deixei com dez pessas de Artelharia, e o pavim.to
meio ladrilhado p.ª poderem jugar [a artilharia] necessita sua
deffença de mais obra, como diz o governador: puderia estar
hoje acabado sem m.to custo porq bastava que lhe
continuassem o intulho com as barcas que tinha para isso, p.ª
que os navios inimigos lhe não pudessem por a proa em sima;
mas isto se pode mandar remediar com alguas barcas velhas q
se podem meter a pique cheas de pedras ao redor do forte; que
bastara emq.to a fazenda Real não tiver cabedal cos
governadores coriozidade p.ª lhe fazer segunda praça alta
sobre abobada com que ficara o forte inexpunavel, e o porto
siguro de lhe tirar o inimigo os navios como ia socedeu.31
Mais recentemente, quando empreendeu o IPHAN obras na
Fortaleza de N. Senhora do Pópulo e S. Marcelo, visando a sua
restauração e consolidação, foram ordenadas cinco sondagens
internas, com a finalidade de se conhecer o substrato de apoio das
fundações do ilustre e injuriado propugnáculo. Os laudos da
empresa Concreta, obtidos por sondagem rotativa, em furos que
foram de 10 a 15m de profundidade, demonstram, quando se
examinam os perfis de sondagem, que o edifício está sobre um
enrocamento artificial generalizado, com rochas de proveniências
diversas, algumas calcárias, e, depois deste estrato, há uma queda de resistência, porque não existe, a partir daí, lagem nenhuma.
Trata-se de uma coroa de areia, como já foi descrito antes e, sendo
assim, nunca poderia ter sido o forte da laje, como quiseram
alguns.
Há, porém, motivos para respeitados historiadores pensarem que o
nosso Forte de S. Marcelo foi uma metamorfose do antigo reduto
da laje? Pensamos que sim. Além de informações um pouco
nebulosas de certos cronistas, o próprio Mirales diz que o Forte de
Diogo Botelho foi a origem do atual Forte do Mar: "O d.o G.or
Diogo Botelho deu princípio ao Forte de N. S.a do Populi, e S.
Marçal, chamado hoje de Forte do Mar [...]". (MIRALES, 1900, p.
130) Vilhena (1969, p. 382), depois, também o repete: "Deu princípio
[Diogo Botelho] ao forte N. S. do Pópulo, e S. Marcelo, chamado
Hoje Forte do Mar [...]."
Não é a finalidade de nosso texto reacender velhas polêmicas nem
assumirmos a veleidade de estar dando a última palavra sobre o
assunto, mas definir as nossas crenças sobre a existência dos dois
fortes do mar.
O primeiro forte que foi chamado do Mar, construído sobre um
afloramento rochoso conhecido pelos antigos como lagem, exibia a
forma de um quadrilátero não abaluartado, que, na linguagem
técnica dos tratadistas, era designado como reduto. Este tipo de
obra defensiva estava enquadrado, geralmente, na categoria de
fortificação passageira. E quando teria sido edificado este tal
reduto 32 ? No relatório do sargento-mor Diogo de Campos Moreno,
feito em 1609, não há referência a qualquer forte do mar. De
fortificações na parte baixa da cidade, faz somente referência ao
reduto de S. Alberto, que estava nas proximidades da Igreja do
Corpo Santo, ao fortinho de Água de Meninos, certamente o atual S.
Alberto ou Lagartixa, e ao de Monserrate.
O relatório de Diogo Moreno, como já afirmamos, serviu de base
para o famoso Livro da Razão, produzido em 1612. O manuscrito,
entretanto, já mostra um mapa da Cidade do Salvador com a fortificação da laje ligada à praia através de um molhe. No exemplar
do valioso incunábulo, que se encontra na Biblioteca do Porto, um
particular interessante: o forte da lajem foi adicionado em um papel
colado em sobreposição ao desenho original, como se fosse uma
atualização. A iconografia demonstra também que, além do caráter
passageiro da fortificação, em virtude do partido em quadrilátero,
que, no caso da Colônia, poderia ser permanente, a sua capacidade
ofensiva era nenhuma na direção frontal, pois as troneiras foram
representadas nas laterais e o molhe tinha continuidade na direção
oeste, lado não artilhado. Isto nos autoriza a pensar que o forte da
laje foi executado entre 1609 e 1612, vale dizer, no governo de
Diogo de Menezes. A exatidão deste acontecimento não vai
contribuir muito para o que estamos argumentando, e qualquer
hipótese de precisá-lo seria sem fundamentação documental, o que
não está de acordo com o nosso credo.
Em vista de continuar precária a defesa da Cabeça do Brasil, tanto
de terra como de mar e por admoestação, certamente, do capitão
Francisco Frias da Mesquita, engenheiro-mor, que andava por
nossa terra nesta época 33, resolveu-se melhorar a proteção do
porto, na gestão de Mendonça Furtado (1621-1624), mas, como
sempre, muito tarde. A autorização veio através da Carta Régia de 3
de agosto de 1622, que, em determinada passagem, diz o seguinte:
"[...] e fazendo de novo sobre a lagem, que está defronte da cidade,
o forte novo e mole [molhe] para abrigo dos navios, e que a cidade
se fortifique por entre ambas as bandas do mar e terra", tudo na
forma que na traça e relação do engenheiro mor se aponta, e se
escuzem os mais fortes da Bahia que não são de effeito [...]".34
Novamente pela mão de Frias da Mesquita, o reduto da laje recebe
novo projeto para sair da condição de fortificação passageira e
adquirir a condição de permanente, mesmo sem grandes
pretensões defensivas. Baseados na iconografia portuguesa feita
desde a retomada de Salvador aos batavos, como a conhecidíssima
Planta da Restituição da Bahia, de 1626, vamos encontrar um novo
forte em quadrilátero, mas com um baluarte imperfeito na face
frontal (duas faces sem flancos), o que lhe dava uma conformação
similar, nesta direção, ao Forte dos Reis Magos, que se atribui também a Frias da Mesquita. Observando-se também a gravura que
mostra a retomada de Salvador, elaborada por Benedictus Mealius
Lusitanus, para ilustrar a Jornada dos Vassalos da Coroa de
Portugal, do padre Bartolomeu Guerreiro, a mesma configuração de
baluarte à guisa de contraguarda é encontrada. A gravura
holandesa de 1638, mostrando a Cidade do Salvador na época do
fracassado ataque de Nassau (REIS, 2000, p. 31-34), aponta a
mesma solução para o antigo propugnáculo do mar. Não havendo
textos que descrevam a forma desta primitiva fortaleza, após a
reconstrução reiniciada em 1622, temos que nos ater à sugestão da
iconografia (figuras 22 e 23).
Figura 22 – Desenho para o texto de Hondius sobre a Invasão de
1624.
Fonte: Gaspar Barleus
Figura 23 – Parte de desenho da Bateria da Ribeira.
Fonte: Biblioteca Nacional
Quanto ao nosso atual Forte do Mar ou N. Senhora do Pópulo e S.
Marcelo, nasceu com partido circular e, mesmo com algumas
modificações acontecidas no decorrer de sua história, ainda exibe a
mesma configuração (figuras 20 e 21). Este tipo de desenho para
fortaleza não é muito comum, porém não chega a ser inusitado.35
Para iniciar, valeria a pena cogitar da autoria do projeto do forte em
epígrafe ou da influência no seu desenho. Luiz Monteiro 36 atribui as
plantas do Forte de S. Marcelo a Pedro Garcim (ou Garim). Já
Carlos Ott é menos enfático, no particular, prefere atribuir, com
maior segurança, a este engenheiro somente a execução inicial da
construção, o que consideramos mais judicioso. Na realidade, o fato
de um engenheiro ter iniciado a obra não quer dizer,
necessariamente, que ele foi o autor do seu projeto. Neste caso, é
mais provável que as traças tenham vindo do Reino. Tal hipótese
baseia-se no fato de que um forte circular, com torreão central mais
elevado, constituindo uma bateria alta, já vinha sendo edificado
desde o fim do século XVI, o Forte de São Lourenço da "Cabeça
Seca", utilizando-se, à semelhança do nosso S. Marcelo, do apoio
de uma coroa na barra do Tejo. Estes trabalhos, com a mesma
técnica de enrocamento para reforçar a base, foram iniciados pelo
padre engenheiro João Vicente Casale (Vincenzio Cazali)37, que
veio de Nápoles para a Espanha, em 1588, e depois para Lisboa com o seu sobrinho Alexandre Massaii, vulgo Alexandre Italiano,
também engenheiro militar.
Quem se ocupa, em seguida, do Forte de S. Lourenço, hoje mais
conhecido como do Bugio, é Leonardo Turriano, que deixa a
construção na altura do embasamento. A informação é do seu filho,
frei João Turriano, em 1646 (CHABY, 1640-1677, v.1-2), que, como
o pai, foi também engenheiro-mor do Reino, por nomeação de D.
João IV. O mais interessante é que a carta do engenheiro descreve
particulares do projeto, anexando plantas e elevações feitas por ele
para a obra militar em questão. O exame destes desenhos nos
informa que, se o projeto do S. Marcelo foi executado por Garcim, o
que não acreditamos, inspirou-se, fielmente, em protótipo já
existente em Portugal, especialmente na sua versão inicial, com
torreão e praça alta. Além do mais, gostaríamos de chamar a
atenção para a data dos desenhos de João Turriano para o Bugio,
1646, pouco antes do Conde de Castelo Melhor receber, pela Carta
Régia de 4 de outubro de 1650, a autorização para fazer o atual
Forte do Mar. Destacamos, entretanto, que o nosso Forte do Mar
não é um círculo perfeito, por problemas de construção, mas isto
nada muda na sua filiação (Figuras 20 e 21).
A construção do Forte de N. S. do Pópulo e S. Marcelo esteve muito
longe de ser uma obra executada com celeridade. Os trabalhos de
enrocamento, para dar estabilidade às suas fundações, foram
morosos. Os engenheiros do século XVIII ainda procuraram
melhorar a sua condição defensiva e eliminar-lhe imperfeições. A
leitura de algumas cartas régias, a partir de 1650, deixa bem claro
que uma parte do material lítico usado no enrocamento veio do
Recôncavo (rochas graníticas), outra parte das vizinhanças (arenitos
calcíferos), possivelmente da zona da Preguiça ou de Itapagipe e,
finalmente, de Portugal (calcário), como lastro de navios. Tudo isto
está sugerido na documentação e na amostragem que foi feita na
sondagem.
Temos sérias desconfianças de que a feição inicial do Forte de S.
Marcelo era de uma simples torre, pois os seus construtores iniciaram, como era lógico, a sua fábrica pelo torreão central. O
motivo delas é uma gravura que encontramos na Biblioteca Nacional
de Lisboa e se acha igualmente reproduzida no Ensaio de
iconografia de cidades portuguesas do ultramar, que mostra, no
porto de Salvador, uma torre cercada de enrocamento. Outro sinal
era a escassa artilharia de nove peças de que dispunha nos anos
setenta do século XVII, segundo o Relatório anônimo de 1671. 38
Vinte anos tinham transcorrido da autorização para a construção do
Forte do Mar e a sua obra ainda estava em andamento, quando
Afonso Furtado de Mendonça (1671-1675) pediu um relatório
técnico da situação das defesas de Salvador e Recôncavo. No que
diz respeito a esta obra defensiva, reza o documento:
A Fortaleza do Mar N. S.ra do Populo, he de canteria, "esta por
acabar", e na forma da ordem de S.A. se comesa a tratar de
sua obra, he de muita comsideração p.a a siguranca dos navios
e não se poderem as Armadas Inemgas chegar fasilmente a dar
bateria a Cidade [...].39
Chega o século XVIII e o nosso forte ainda necessita de ajustes.
Naquele tempo, tinha ele ainda a forma com torreão central mais
alto, com canhoneiras, apresentando um anel externo mais baixo,
também com canhoneiras, com maior densidade de artilharia.
Contra esta solução, que lhe daria muita semelhança com o Forte
do Bugio, no Tejo, insurgia-se o mestre de campo Miguel Pereira da
Costa em seu relatório.40 O judicioso conselho de Miguel Pereira só
será acatado muitos e muitos anos depois, já que, em 1758, quando
o então capitão José Antônio Caldas (1951), ilustrou o texto do seu
livro Noticia com cadastros de fortalezas, o Forte de S. Marcelo
ainda tinha torreão e canhoneiras (Figura 24). Tais elementos ainda
se observam no fim do século XVIII ou início do XIX, não somente
no perfil da cidade do cap. José Francisco de Souza41, de 1782,
como também no de Vilhena, de 1801. O brigadeiro Galeão,
coordenador do famoso relatório comentado das fortificações de
Salvador, datado de 1810, levanta algumas críticas ao torreão
elevado, troneiras e casamatas, o que nos induz a pensar que as transformações, por meio das quais desapareceu a praça alta e as
troneiras foram substituídas por um parapeito a barbeta, devem ter
acontecido a partir desta última data. Da equipe de Galeão, além do
cel. Manoel Rodrigues Teixeira, do ten. cel. José Francisco de
Souza, do cap. Joaquim Vieira da Silva, todos hábeis desenhistas,
havia um 1º ten. eng. cujo nome era João Teixeira Leal. Ele deixou
uma coleção de desenhos, de muito boa qualidade, das nossas
fortalezas, com muitas reproduções e cópias, tanto em arquivos de
Portugal como do Brasil. Aparentemente, o relatório em questão foi
ilustrado por ele. Um destes desenhos, que ele assinou na
qualidade de capitão, o que vale dizer, após 1810, mostra o Forte de
S. Marcelo, mais ou menos, como o conhecemos na atualidade 42
(Figura 25).
Figura 24 – Desenho do futuro sargento-mor engenheiro José
Antônio Caldas, para o Forte de N. S. do Pópulo e S. Marcelo para o
seu texto de Notícia.
Fonte: Cap. José Antônio Caldas.
Figura 25 – Forte de São Marcelo no início do século XIX, mais ou
menos como na forma atual.
Fonte: Desenho de João da Silva Leal Teixeira. GEAEM, 4558/877.
Um dos momentos de grande movimentação na procura de
defender Salvador e outras cidades brasileiras tem início após a
segunda invasão francesa ao Rio de Janeiro. É enviado ao Brasil o
brigadeiro João Massé, famoso engenheiro militar de origem
inglesa 43 que para estas plagas veio no ano de 1713 para dar
consultoria sobre as nossas fortificações. Ele nos informa que, nesta
época, o nosso S. Marcelo ainda não estava acabado através das
especificações que, para ele, elaborou 44, com a finalidade de instruir
a abertura de concorrência para as suas obras. Estas
especificações previam enrocamento de 20 palmos [4,4 m], além do
diâmetro da planta apresentada, com alicerces sobressaindo até
dois palmos [0,44m] sobre a baixa-mar e deixando uma sapata de 3
palmos [0,66m] subir com a muralha, com um arrasto de 1 palmo
sobre 5 (20%). O relatório com data posterior sobre as fortificações
de Salvador 45, assinado por Massé, pelo mestre de campo Miguel
Pereira da Costa e pelo capitão Gaspar de Abreu, repete, no que se refere à fortificação em causa, as palavras de Miguel Pereira no seu
relatório de 17 de junho de 1710. 46
Hoje, o nosso velho propugnáculo, um dos exemplares mais
expressivos das fortificações do Brasil Colônia, sobrevive a duras
penas, a necessitar, urgentemente, de socalque de sua fundações e
enrocamento de proteção para continuar testemunhando a nossa
memória.
O tardio S. Fernando
O Fortinho de S. Fernando ou Bateria do Cais Novo, hoje
desaparecido (Figura 26), jaz sob a nossa bela Associação
Comercial, por sinal, obra de engenheiro militar. No porão desse
elegante edifício ainda podemos encontrar vestígios da fortificação
aludida. Nasceu, praticamente condenado na administração de D.
Fernando José de Portugal, lá pelo ano de 1796, e foi demolido
pouco tempo depois. Segundo Silva Campos (1940, p. 248), tal
demolição foi iniciada a 5 de agosto de 1811.
Figura 26 – Fortinho de S. Fernando.
Fonte: Planta do Arquivo Militar do Rio de Janeiro.
Vilhena assim descreve o seu posicionamento: "[...] Na distância de
um tiro de peça de calibre 6 ao correr da praia ao Norte, e próximo a eminentes, e débeis propriedades de casas […]". Mais adiante
invoca os favores divinos para que ele não entre em ação: "Permita
Deus se não precise usar da sua artilharia, pelo risco de ser mais
prejudicial do que útil". (VILHENA, 1969, p. 219)
A vizinhança do casario e os estragos que os disparos da sua
artilharia, mesmo nas salvas 47, devia causar nas louças e vidraças
da vizinhança podem ter sido fatores que ajudaram a decisão de
sua demolição para dar lugar à Associação Comercial. Seria outro
"quebra-pratos", como o reduto de São Francisco, seu vizinho.
Este forte não deve ser confundido com a bateria de S. Fernando,
que já referimos anteriormente, com base em notícia de Vilhena,
construída em elevação (onde se encontra o Hospital Espanhol),
que permitia apoiar as fortalezas de Santo Antônio, S. Diogo e S.
Maria.
Forte de São Francisco
Quando Ravasco Vieira relacionou as fortalezas que defendiam a
"Cidade da Baía", referiu-se ao São Francisco da seguinte maneira:
[…] Della se segue outro lanço de muro, te "o forte de S.
Fran.co" em que accaba a forteficaçam da praya: tem seis
peças de bronze: hum meyo canhão de 24 L.as huma meya
Colebrina de 18, 4 de 16. Por Cap.m Manuel Glz' Cardoso com
patente de S. Mg.de e soldo de 10$ por mez: dos quaes se lhe
pagão 5$320 rs cada mes na mesma Cam.ra: mas não se lhe
da farda. (VIEIRA, 1660)
Na época em que o fortim de S. Francisco foi construído naquela
área, estava distante do tecido principal da cidade. Este isolamento,
porém, foi efêmero, como podemos ver pelas cartas que retratam a
evolução da Cidade do Salvador, pois logo a vizinhança de
habitações, negócios e armazéns vieram complicar o seu
funcionamento. No fim do século XVIII, Vilhena não dedica a menor
consideração ao seu préstimo, ao afirmar que era Diz Silva Campos que existem informações da sua existência em
[...] um baluartezinho plano, defeituoso e sem defesa, por estar
entre edifícios, que lateralmente avançam para a marinha,
ficando-lhe pela espalda, a montanha quase inacessível, por
onde te disse que em 1795 correram não menos de treze
propriedades da casas. (VILHENA, 1969, p. 219)
Esta afirmativa demonstra um complicador, do ponto de vista da
estabilidade da encosta. O troar da sua artilharia, mesmo em salva,
era motivo suficiente para provocar deslizamentos das encostas, já
que, segundo a tradição, a vibração dos seus disparos costumava
quebrar a louça da vizinhança, o que lhe valeu a alcunha de
"quebra-pratos".
Mas este velho propugnáculo, dos mais antigos que existiram na
Cidade do Salvador, embora mesquinho, teve, faz tempo, certa
eficiência na defesa do porto da nossa cidade (Figura 27). Com a
ajuda da bateria do velho Santo Alberto e do Forte da Laje, depois
Bateria da Ribeira, conseguiam dar alguma proteção ao
ancoradouro da cidade através do cruzamento dos seus fogos.
Figura 27 – Fortim de S. Francisco, desenho de Caldas (1759).
Fonte: Cap. José Antônio Caldas.
1618, mas o Livro da Razão, de 1612, não lhe faz qualquer
referência. Considerá-lo como do período de D. Francisco de Sousa
é uma hipótese remotíssima, sem qualquer fundamento sólido.
Com toda a clareza, aparece na planta da Cidade do Salvador, que
se encontra em Haia, com data aproximada de 1638, embora sem
designação na legenda. A partir de então, vai ser sempre uma
fortificação levada em conta, por ser considerada de préstimo, como
podemos observar no relatório de Ravasco Vieira48, de 1660, no
parecer de Francisco Barreto 49 50 e no relatório anônimo de 1671.
No projeto de João Coutinho, os engenheiros pareceristas
consideravam uma fortificação importante para o flanqueamento da
marinha 51, porém pediam a construção de mais uma bateria, talvez
porque esta distasse do S. Felipe mais de um tiro de mosquete.
Pelo visto, os engenheiros não levaram em conta a bateria de Santa
Bárbara, que deveria ter tido a sua eficácia reduzida. Mas Coutinho,
na sua proposta, diz, com toda clareza, que a fortificação tinha sido
prejudicada com as construções abusivas e propunha o seu
reposicionamento.52
Entramos no século XVIII e, aos poucos, a cidade vai envolvendo o
reduto de S. Francisco, pois os conselhos de Coutinho não foram
seguidos e, por isto, o mestre de campo Miguel Pereira já considera
o Fortim de S. Francisco de pouca expressão na defesa da
cidade.53 Mas a velha construção sobreviveu, mesmo criticada, até
o tempo em que Vilhena escrevia as suas Cartas, mas, por pouco,
porque não é mais considerado no Relatório de Galeão, de 1810.
Do porto à Ponta da Itapagipe
Forte do Rosário e Bateria de Monserrate
Na meia encosta, na direção do Forte de Santo Antônio Além do
Carmo existe notícia da construção de uma bateria de Nossa Senhora de Monserrate. O capitão João Coutinho, no seu projeto de
1685, pretendia aproveitar esta posição da seguinte maneira:
[...] Deste Beluarte [de Monserrate situado na encosta de Santo
Antônio] deve de ir deçendo pla costa abaixo hum muro singelo
co' seu parapeito, até fechar co' o beluarte de São Fran.co
fundado no Mar; mais além, letra "N": O Beluarte de São
Fran. co se deve fazer mais metido no mar, o q mostra a Planta,
porq ha fundo capaz p.a o fundar, e mais chegado p.a te a p.
de "S.ta Bárbara", para que fique mais curta a cortina de entre
ambos.54
Mais abaixo, na praia, outra instalação fortificada. Um dos cronistas
que dela nos dá notícia é Ravasco Vieira, em 1660: "[...] Ao pé da
eminençia do forte de Santo Antonio do Carmo esta o de 'N. S. ra do
Rozario', em que ha' 3 peças de ferro, de 8 L. as cada hu'a: serve de
offisina de refino da polvora." O Fortim do Rosário, que dava a mão
ao S. Francisco, era uma defesa ainda menos expressiva que este.
João Coutinho nem a incluiu no seu projeto de perímetro fortificado.
Encontramos uma referência à sua presença na planta de Salvador,
em 1638, do museu em Haia (Figura 28). Pelo seu desenho, era
mais, na época, um estabelecimento militar fortificado. Os
documentos indicam que, neste local, restaurava-se pólvora e se
preparavam fogos de artifício e de guerra. Estava situado na Praia
de N. S. do Rosário, nome que adquiriu em função da proximidade
da capelinha com esta invocação, hoje desaparecida. 55 No pé da
encosta e na mesma área, foi construída a Igreja da Santíssima
Trindade, que ainda lá está.
Figura 28 – Fortim do Rosário e fábrica de pólvora na planta
holandesa de 1638.
Fonte: Particular da planta de Salvador do Algemeen Museum,
Holanda.
Pela descrição de Vilhena (1969, v. 1, p. 219), deve ter sido tentada
alguma melhoria nesta fortificação, mas nunca terminada. A sua
ampliação daria maior apoio ao Forte da Lagartixa, além de suprir a
deficiência da Fortaleza de Santo Antônio do Carmo, que se
encontrava em cota excessivamente elevada para atirar para a
praia.
Torre de São Tiago de Água de Meninos, Santo Alberto ou da
"Lagartixa"
O Forte de São Tiago de Água de Meninos tem sua data de
construção, possivelmente, do fim do século XVI, se quisermos
atribuí-lo à administração de D. Francisco de Sousa, o que é mais
provável, estando entre os "três ou quatro fortes de pedra e cal"
(SALVADOR, 1975, p. 261) deste consulado, dos quais nos fala Frei
Vicente do Salvador. Assim sendo, deve ter recebido, no seu projeto
ou construção, a contribuição do engenheiro militar florentino Baccio
de Filicaia, nomeado engenheiro-mor naquela administração, sendo
uma daquelas fortificações novas, a que este faz referência em sua
carta ao Grão-Duque Ferdinando I, da Toscana. (VARNHAGEM, 1854, v. 1, p. 85) Teodoro Sampaio considera que a nossa então
torre-fortaleza foi obra do governo de D. Diogo de Menezes (1607-
1612), o que é possível, mas não provável, na medida em que
Diogo de Campos Moreno já o conhecia, fazendo a ele referência
em seu relatório de 1609.
É um edifício de concepção arcaica, mesmo para sua época, com
atavismos medievais, como foram as obras do tempo de D.
Francisco. A nossa impressão é que Filicaia valeu-se muito mais do
prestígio de ser italiano, cuja escola de fortificar encontrava-se no
apogeu, para receber seu contrato, mas não era um profissional
experiente. Aliás, ele mesmo é quem confessava o seu pouco
tirocínio, ao afirmar com grande sabedoria e honestidade:
[...] vendo que a teoria me podia muito pouco sem a prática,
resolvi-me a sair fora e correr mundo buscando lugar onde
pudesse por em execução esse meu desejo, para depois de
bem exercitado tornar à pátria [...]. (VARNHAGEM, 1854, v. 1, p.
85)
e no seu caminho estava a Bahia para palco da sua
experimentação! Foi construído à beira-mar, visando defender o
único acesso à Cidade Alta, no trecho da enseada de Água de
Meninos, e a fácil aguada que os navios podiam fazer nas
vizinhanças.
Embora tenha sido mencionada por diversos cronistas, desde o
início do século XVII, a primeira iconografia, que comprova os traços
arquitetônicos iniciais da Torre de São Tiago, data do primeiro
quartel do século XVII e foi elaborada por João Teixeira Albernaz
(Figura 29). A edificação aparece apenas em planta baixa, como um
artefato arquitetônico circular, em forma de torre, flanqueado por
dois bastiões, também circulares, partido arquitetônico muito comum
ao século XVI, como já destacamos.
Figura 29 – Particular da cartografia de Albernaz, mostrando a
primitiva Torre de S. Tiago transformada nos séculos XVIII e XIX no
fortim de S. Alberto.
Fonte: Detalhe da Figura 3.
Este desenho poderia ser considerado apenas fruto da imaginação
do seu autor, não fosse o cadastro da mesma fortificação
executado, inicialmente, pelo então cap. engro. José Antônio
Caldas, que faz parte do seu álbum de desenhos de fortificações,
hoje sob a guarda da Biblioteca Nacional de Lisboa. 56 Esta
iconografia foi repetida nas Cartas Soteropolitanas, de Luís dos
Santos Vilhena, em finais do século XVIII, na qual o fortinho aparece
com a estrutura básica representada por Albernaz, acrescida de
terrapleno hexagonal irregular, o que nos leva a crer na sua
veracidade ( o Figura 30 ). No início do século XIX, o 1 tenente João
da Silva Leal Teixeira já desenha o nosso reduto sem a torre,
sugerindo que foi arrasada para dar lugar a uma casa da guarda e
alojamento para o comandante. (Figuras 31 e 32).
Figura 30 – Representação do fortinho de S. Alberto em Água de
Meninos. Ilustração do texto de Vilhena, da sua feição no fim do
século XVIII.
Fonte: VILHENA (1969).
Figura 31 – Planta do Fortim de S. Alberto
Fonte: 1º Ten. João da Silva Leal (século XIX)
Figura 32 – Planta e elevação do Forte de Santo Alberto feita por
Tomás Paranhos no século XIX.
Fonte: Arquivo Histórico Militar, Rio de Janeiro.
Levando-se em conta a precária exatidão de um desenho de
dimensões tão reduzidas, conseguimos, contudo, achar, através da
escala gráfica, um diâmetro da parte superior da torre de ~44
palmos [9,68 m] 57 e, no arrasto da saia da muralha, ~54 palmos
[11,88 m]. Esta medida inferior não difere muito daquela encontrada
nas prospecções orientadas por Santiago (1999), o que quer dizer
que as discrepâncias do desenho não são significativas. Estas
dimensões mostram que era uma construção pouco avantajada, o
que pode ser confirmado com os números da sua modesta
"tormentária", exibida no Livro da Razão: "Um camelo pedreiro de
bronze de quatorze quintais; joga pedra de quatorze libras. Um
falcão pedreiro, de sete quintais." (MORENO, 1955, p. 144-148) 58
Este partido, combinando a antiga torre (que se transformou em
uma espécie de cavaleiro) com um terrapleno mais desenvolvido, de
linhas retas, para aumentar o poder da artilharia, foi obra do mestre
de campo Miguel Pereira da Costa, no século XVIII. A sua ideia inicial era fazer um hornaveque, como declara em relatório, mas
deve ter simplificado a obra na execução:
[...] O fortim junto á praya do Rozario he tão pequeno, q' ao
mais permitirá ter pessas de campanha; mas este se acha
dezempedido, e com capacid.e na sua vizinhansa de se poder
alargar p.a qualquer parte: "neste lugar se pode fazer hum
Hornaveque", cuyos ramais sejão o fundo desta obra, com a
distancia nececr.a p.a serventia, e uzo da arter.a, e a cortina
ser mais dilatada p.a nella se poder acomodar o num.o de
pessas q' parecer conveniente, e como os seos dous meyos
baluartes defenderá aquella praya vizinha; porq' o da parte da
cid.e flanquear se há com o ultimo baluarte da forteficasão, e o
da p.te de Monserrate com a obra q' entre este e aquelle se
fizer.59
Quando o brigadeiro Massé aqui chegou, a obra de sua
transformação estava em andamento, porque, no relatório assinado
por ele, Miguel Pereira e Gaspar de Abreu, faz a seguinte
referência:
[...] adiante na praya do Rozario, e principio da Gequitaya
estava "hum pequeno reducto circular"60, "q se acrescentou e
se ha de acabar"; e tem ja toda a muralha feita a custa do seu
capp.m, para ficar huma bateria mais capâz [...].61
Que tenha sido o mestre de campo engenheiro o autor do projeto da
reforma não há dúvidas, porque os documentos são bem claros:
[...] O forte de Santo Alberto que está alem da praya de Agoa
de meninos, estava em muitas partes aruinado, alem de ser
summam.te pequeno, se obrigou Illário[?] de Olivr.ª a
reedeficallo, acressentando o na forma dos apontamentos do
Tenente General Enginhr.º passandose lhe patente de Capitão
delle, e por hora está Servindo de Capitão do mesmo forte,
deve ser, pello Serviço que faz a V. Mag.e, Capitão com Soldo
de 4$ rs. por mês.62
Os vestígios da antiga torre que ficou à guisa de "cavaleiro", como
se vê no desenho de Vilhena (Figura 30), desaparecem no século
XIX (Figuras 31 e 32). Nos anos 60 do século XX foi, infelizmente,
muito modificado para abrigar o clube dos subtenentes e sargentos
da 6a RM. Somente a restauração dos anos 90 devolveu-lhe a
antiga dignidade.
Não obstante a sua modesta escala, o pequeno reduto de Água de
Meninos teve algum papel na defesa de Salvador, dentro das
limitações da sua concepção. Observe-se que foi conservado e até
transformado e readequado, sobrevivendo até hoje. Ele tinha uma
função definida de criar obstáculo à eventual progressão de tropas
desembarcadas na península de Itapagipe, que quisessem progredir
ao longo da praia, em direção à cidade, pois, naquele tempo, a
passagem era estreita entre a escarpa e o mar. Mas a sua função
principal era defender a enseada existente no local, onde os navios
costumavam se abastecer da água de boa qualidade das
vizinhanças. O seu grande problema era a mesquinhez de
concepção e, principalmente, o enorme padrasto que a ele se
opunha pela parte posterior, tanto que foi tomado, sem muita luta,
nas duas invasões holandesas. Na primeira, porque, caindo a
cidade, a sua guarnição ficou isolada e procurou o seu cômodo,
como diriam os antigos. Mas os holandeses, reconhecendo a sua
função de controle da aguada, guarneceram-no e foi, possivelmente,
nas suas proximidades que Van Dort foi literalmente chacinado pelo
valente Padilha. 63
Na invasão nassoviana de 1638, que aconteceu pelo norte, o
Príncipe de Orange assentou baterias justamente no padrasto, que
lhe era desfavorável, e não restou à sua guarnição senão o caminho
da retirada, por ordem de Bagnuolo.
O forte teve participação nas guerras contra os holandeses (foi
tomado sem luta nas duas investidas batavas), na Sabinada e,
anteriormente, nas lutas pela Independência da Bahia: com um
disparo de um dos seus canhões, foi dado o sinal de retirada das
tropas do general Madeira de Melo, dando início ao desfile triunfal da entrada na cidade das tropas brasileiras vitoriosas, no 2 de julho
de 1823.
[...] Seu sítio de implantação esteve praticamente inalterado até
o início deste século, quando, por ocasião das obras de
ampliação do porto da cidade, foi – por força de aterros
sucessivos – encravado entre o mar e montanha, estando hoje
entre duas vias de grande movimento. Na década de 60, suas
instalações foram convertidas em sede do Clube de
Subtenentes e Oficiais do Exército, o que desfigurou
parcialmente sem, no entanto, destruí-lo. (SANTIAGO, 1999, p.
45)
As escavações empreendidas no local demonstraram a existência
da Torre de São Tiago e seus vestígios podem ser observados
através do acesso que foi deixado no projeto de restauração. 64
Bateria da Jiquitaia
O Forte da Jiquitaia construído já no ocaso do período colonial
(c.1817), depois do antigo noviciado dos regulares da Companhia
de Jesus, foi levantado, provavelmente, para proteger algum
desembarque na praia do Noviciado, mas, principalmente, para
controlar o canal que se abriu para passarem embarcações do
interior da baía, sem contornar a ponta de Monserrate, na época do
Conde dos Arcos. A construção deste atalho marítimo na Baía de
Todos os Santos encontra-se no domínio das famosas controvérsias
históricas no qual alguns professam a crença de que ele foi
projetado, mas não foi construído, e outros acreditam que chegou a
ser executado. (OLIVEIRA, JR., 2008) Entre estes últimos nos
encontramos, porque ele está representado no cadastro do Weyll,
embora acreditemos, também, que a sua vida foi efêmera, porque,
sendo o terreno da área arenoso e sem o devido "encamisamento"
das suas margens, o assoreamento seria constante.
bservando o projeto original da bateria é que temos a convicção de
que ele só foi construído parcialmente (Figura 33). É uma edificação
de concepção diferente das outras fortificações, desenhada como uma espécie de plataforma artilhada elevada, sem preocupação de
flanqueamento de suas cortinas ou criação de baluartes. Na direção
do mar, as paredes de pedra são de grande espessura,
possivelmente preenchidas com um terrapleno ou um argamassado,
à semelhança do antigo upus implectum (Figura 34).
Figura 33 – Planta da bateria da Jiquitaia, desenhada pelo ten.
Teixeira Leal.
Fonte: OLIVEIRA (2004).
Figura 34 – Cadastro atual, sem as adições impostas recentemente.
Fonte: OLIVEIRA (2004).
Santiago (2002) lamenta a sua metamorfose em escritório, quando
foi ocupado pela Societé Construction du Port de Bahia (Figura 35),
todavia, mais lamentável ainda é a nova cara que lhe impuseram,
tirando-lhe todo o caráter de fortaleza, com elementos arquitetônicos
espúrios que disputam visualmente com os vestígios originais do
velho propugnáculo.
Figura 35 – Feição da fachada, quando foi ocupado pela companhia
francesa encarregada da construção do porto (Societé Construction
du Port de Bahia).
Fonte: OLIVEIRA (2004).
Não obstante a sua construção tardia, acumulou alguns
acontecimentos interessantes para a nossa história. Foi ocupado
pelos revolucionários seguidores do Dr. Sabino Vieira, sendo
retomado pelo major Zeferino Pimentel, à frente do 7º Batalhão de
Infantaria de Pernambuco, em 14 de março de 1838. (CAMPOS,
1940, p. 120) Desta posição conseguiram as tropas legalistas