Cozinheiros Demais
Capítulo 7
Eles se ergueram. Servan tentou mencionar delicadamente os honorários, mais uma vez, mas Wolfe não lhe deu atenção alguma. Constanza aproximou-se, pegou na mão de Wolfe e olhou para ele com uma expressão que poderia ou não ser pura, mas tinha seu encanto inegável. Vukcic ainda não havia desistido de fazer cara feia, mas uniu-se aos outros nos agradecimentos, e parecia sincero. Acompanhei-os até o foyer para abrir a porta.
Ao retornar, sentei-me na poltrona e observei Wolfe enquanto este refletia. Ele estava recostado, em sua posição favorita, mas de forma alguma tão confortável quanto estaria em sua poltrona preferida, lá em casa. Mantinha os olhos fechados. Ele poderia estar dormindo, não fosse pelo leve movimento dos lábios. Eu, por meu lado, também refleti um pouco, mas admito que meus pensamentos eram limitados. Tinha a impressão de que Berin era o culpado, mas estava disposto a incluir Vukcic ou Blanc na lista, caso eles insistissem. Até onde podia ver, o resto estava completamente descartado. Claro, ainda havia a possibilidade de que Laszio tivesse saído momentaneamente da sala de jantar, durante a sessão de testes de Vukcic, voltado mais tarde, e que Vallenko ou Rossi o tivessem confundido com uma alfineteira, antes ou depois do teste, mas eu não conseguia ver futuro nessa linha de raciocínio. Permaneci na sala maior durante toda a noitada, e tentei lembrar se, em algum momento, eu havia notado alguém entrar na sala pequena — ou então se podia jurar que ninguém havia feito isso. Acho que poderia. Depois de cerca de meia hora dando tratos à bola, para mim ainda tinha sido Berin. Pensei também que Wolfe havia recusado duas ofertas de contrato, e que portanto era pouco provável que este caso fosse render alguma coisa.
Percebi que Wolfe se movia. Ele abriu a boca, mas não os olhos.
— Archie. Aqueles dois homens de cor, de serviço no foyer principal do pavilhão Pocahontas na noite passada. Descubra onde eles estão agora.
Fui até meu quarto para telefonar, pensando que o meio mais rápido era pedir a meu amigo Odell que desempenhasse essa missão. Em menos de dez minutos eu estava de volta com o relatório.
— Eles entraram em serviço no Pocahontas novamente às seis. Os mesmos sujeitos. São 6h07 agora. Seus nomes...
— Não, obrigado. Não preciso dos nomes. — Wolfe ergueu a cabeça e olhou para mim. — Temos um inimigo preso aqui dentro. Ele acha que sua posição é inexpugnável, e pode ter razão. Não há porta, portão nem janela em suas paredes. Pode ser um homem, possivelmente é uma mulher. Mas existe uma pequena rachadura, e vamos tentar entrar por ela. — Ele suspirou. — Espantosa esta parede. Só consigo ver esta pequena brecha. Se falhar... — Ele deu de ombros. Depois disse, amargo — Como sabe, devemos estar vestidos a rigor esta noite. Gostaria de ir para o pavilhão o mais rápido possível. O que a língua prometeu o corpo deve cumprir.
Ele iniciou as operações para deixar a poltrona.
7
Ainda faltavam vinte minutos para as sete horas quando chegamos a Pocahontas. Wolfe tinha se virado bem com o traje a rigor, levando-se em conta que Fritz Brenner estava a quase 1500 quilômetros de distância, e eu poderia me empregar como manequim de vitrine.
Naturalmente eu nutria certa curiosidade a respeito do interesse de Wolfe pelos caras de paletó verde que ainda não fora satisfeita. No hall principal, depois de termos deixado nossos chapéus, ele me levou para a sala e ficou para trás. Verifiquei que a informação de Odell estava correta; os dois homens de cor eram os mesmos que na noite anterior tinham ficado de serviço.
Faltava mais de uma hora para o jantar, e não havia ninguém na sala, a não ser mamma Mondor, que fazia tricô enquanto bebericava xerez, e Vallenko e Keith — Lisette Putti entre eles — batendo papo em um divã. Disse oi, cheguei mais perto e tentei perguntar a mamma Mondor qual era o termo francês para tricô, mas ela parecia surda à linguagem dos gestos e começou a ficar nervosa. Daquele jeito íamos acabar brigando; portanto, dei o fora.
Wolfe entrou, vindo do hall, e notei por sua fisionomia que ele não havia perdido a brecha que mencionara antes. Distribuiu cumprimentos a todos e fez um par de perguntas. Foi informado de que Louis Servan encontrava-se na cozinha supervisionando os preparativos para o jantar. Depois, aproximou-se de mim e em voz baixa deu instruções resumidas para uma tarefa urgente. Acho que ele teve sangue-frio suficiente para esperar que eu botasse meu traje a rigor para me mandar suar a camisa, principalmente porque não havia honorários envolvidos. Mas peguei o chapéu sem reclamar.
Cortei caminho pela grama, para chegar ao acesso principal, e segui em direção ao hotel. Enquanto andava, resolvi usar Odell de novo, em vez de tentar novos contatos, e para minha sorte encontrei-o no corredor perto dos elevadores, sem que tivesse sido necessário perguntar a alguém onde ele estava. Deu mostras de contentamento e expectativa.
— Falou com Wolfe? Ele esteve com Liggett?
— Não. Ainda não. Me dá um tempo, tá bom? Não se preocupe, amigo. Agora preciso de algumas coisas com urgência. Primeiro, uma almofada de carimbo, de preferência nova, e cinquenta ou sessenta folhas de papel branco liso, se possível acetinado. E uma lente de aumento.
— Meu Deus do céu! — Ele me encarou. — Para quem trabalha, J. Edgar Hoover?* (*) Chefe do FBI durante a Guerra Fria. (N. E.)
— Não. Mas fique frio. Estamos dando uma festa. Talvez Liggett compareça. Seja rápido, tá?
Ele me disse que esperasse ali e desapareceu na virada. Voltou em cinco minutos, com os três itens. Quando eu os peguei, o detetive disse:
— Precisei colocar a almofada e o papel na sua conta. A lente de aumento foi emprestada por uma pessoa. Vê se não some com ela.
Disse que tomaria cuidado e saí. Na volta, peguei o caminho que me levaria a Upshur. Fiz uma parada ali, na suíte 60. Achei uma lata de talco no banheiro e a meti no bolso, junto com a caneta e o bloco de anotações. Aí vi o exemplar da Revista de Criminologia que trouxera e o folheei atrás das fotos que mostravam a nova classificação das impressões digitais. Arranquei uma das páginas com o canivete, enrolei-a com o papel que Odell conseguira e caminhei depressa para Pocahontas. Durante todo o tempo, fiquei tentando descobrir o tipo de brecha que Wolfe pretendia escancarar com aquela lista de materiais.
Não recebi nenhum esclarecimento de Wolfe nesse aspecto. Ele aparentemente andava ocupado, pois, apesar de não haver transcorrido nem quinze minutos, encontrei-o acomodado na poltrona grande da sala pequena, ao lado da mesma mesa em que Tolman se entrincheirara para se proteger da fúria mortífera de Constanza Berin. Do outro lado da mesa, oposto a ele, parecendo cético, porém resignado, estava Sergei Vallenko.
Wolfe terminou a frase que dizia a Vallenko e virou-se para mim. — Trouxe tudo? Ótimo, Archie. Ponha a almofada de carimbos e o papel aqui sobre a mesa, por favor. Expliquei ao senhor Servan que, para aceitar essa investigação, eu precisaria fazer algumas poucas perguntas a todos, além de tirar as impressões digitais de amostra. Ele pediu ao senhor Vallenko que fosse o primeiro. Os dez dedos, por favor.
Aquela ia ser fogo. Nero Wolfe colecionando impressões digitais, especialmente depois que a policia fuçou na sala de jantar inteira, e que esta foi reaberta ao público! Eu sabia muito bem que era um truque, mas ainda não adivinhara a charada, de modo que mais uma vez tive de segui-lo sem saber para onde ia a estrada. Peguei as impressões de Vallenko, em duas folhas, e as identifiquei. Wolfe o dispensou com agradecimentos.
Perguntei, quando ficamos a sós — O que é que este bureau de identificação...
— Agora não, Archie. Jogue o talco em cima das impressões do Senhor Vallenko.
Arregalei os olhos. — Pelo amor de Deus, por quê? Ninguém espalha talco em cima...
— Vai parecer mais profissional e misterioso. Faça o que estou mandando. Passe a página do jornal. Ótimo. Satisfatório. Vamos usar apenas a metade superior. Corte-a e guarde-a no bolso. Ponha a lente de aumento na mesa. — Ah! Madame Mondor? Asseyez-vous, s’il vous plaît.
Sempre com o tricô, ela respondeu a algumas perguntas, cuja tradução não me interessou, por isso nunca pedi a versão de Wolfe. Depois foi passada a meu departamento, para registro. Nunca me senti tão estúpido na vida, espalhando talco nas amostras ainda frescas. A terceira pessoa a entrar foi Lisette Putti, seguida por Keith, Blanc, Rossi, Mondor... Wolfe interrogou rapidamente cada um deles, mas, conhecendo sua voz e suas maneiras como eu conhecia, tive a impressão de que a parte dele era tão falsa quanto a minha. Certamente não parecia que ele estava aumentando a brecha.
Então a esposa chinesa de Lawrence Coyne entrou. Usava um vestido de seda vermelha para o jantar, com um raminho de louro silvestre da montanha nos cabelos negros. O rosto pequeno e a silhueta esguia faziam dela uma figura tirada de um anúncio para a volta ao mundo de navio. Logo intuí que a cena fora armada para ela, pois Wolfe ordenou, ríspido, que eu apanhasse o bloco de anotações, o que não havia sido necessário para nenhum dos outros. Mas só fez perguntas na mesma linha e deu explicações sobre as impressões digitais antes que eu as tirasse. O jogo não pararia aí, entretanto. Quando dei meu lenço, já arruinado, para que limpasse as pontas dos dedos, Wolfe endireitou-se.
Ele murmurou — Bem, senhora Coyne, o senhor Tolman disse que a senhora não viu ninguém, a não ser um funcionário do hotel ontem à noite, quando estava lá fora, passeando em um dos caminhos. Fez perguntas sobre um pássaro que ouviu cantar, e ele disse que era um bacurau. Nunca havia ouvido um bacurau?
Ela não se mostrara entusiasmada antes, e continuou assim. — Não, eles não são encontrados na Califórnia.
— Compreendo. Creio que foi para fora antes do início do teste dos molhos, e retornou à sala pouco antes de o senhor Vukcic entrar na sala de jantar, certo?
— Fui para fora antes do início do teste. Não sei quem estava na sala de jantar quando voltei.
— Eu sei. Era o senhor Vukcic. — A voz de Wolfe era suave e despreocupada o bastante para demonstrar que andava atrás de alguma coisa. — Por outro lado, contou ao senhor Tolman que ficou do lado de fora durante sua saída. Isso é correto?
Ela mexeu a cabeça. — Sim.
— Quando deixou a sala, após o jantar, não foi até o quarto, antes de entrar novamente?
— Não. Não fazia frio, e eu não precisava de agasalho...
— Muito bem. Estou só perguntando. Quando esteve fora, contudo, não poderia ter entrado no corredor da ala esquerda pelo terraço pequeno, e seguido por ele até seu quarto?
— Não. — Sua voz soava calma e desinteressada. — Fiquei lá fora o tempo inteiro.
— Quer dizer que não foi até o quarto?
— Não.
— Nem a nenhum outro lugar?
— Apenas até o jardim. Meu marido pode confirmar; gosto de passear à noite.
Wolfe sorriu. — E, quando entrou, atravessou o hall principal e foi direto para a sala grande?
— Sim, e o senhor estava lá. Eu o vi com meu marido.
— É verdade. Agora, senhora Coyne, devo admitir que me deixou um pouco intrigado. Talvez possa me ajudar. Tendo em vista o que acabou de me dizer, na verdade uma repetição do que disse ao senhor Tolman, pode esclarecer qual foi a porta em que machucou seu dedo?
Ela era cara-de-pau. Nem piscou. Talvez os olhos tenham se estreitado ligeiramente; não pude vê-los. Mas não era tão competente em ganhar tempo. Depois de cerca de dez segundos de inexpressão, ela disse: — Ah, refere-se ao meu dedo! — Olhou para o dedo, e novamente para cima. — Pedi a meu marido que o beijasse.
Wolfe concordou com a cabeça. — Ouvi isso. Em que porta se machucou?
Ela estava no ponto. — Na porta grande da entrada. Sabe como é difícil abri-la, e quando fechou...
Ele a interrompeu bruscamente. — Nada disso, senhora Coyne. Impossível. O porteiro e o empregado que fica no hall foram interrogados, e suas declarações anotadas. Eles se lembram de sua saída e da volta — na verdade, foram interrogados sobre isso, na terça à noite, pelo senhor Tolman. E ambos têm certeza absoluta de que o porteiro abriu a porta para a senhora, e a fechou após sua passagem, sem prender dedo algum. Tampouco poderia ter sido na porta entre o hall e a sala, porque a vi entrando. Qual foi a porta?
Ela adotara a cara-de-pau em caráter permanente. Disse calmamente — O porteiro está mentindo, porque foi descuidado e fez com que eu me machucasse.
— Não creio.
— Tenho certeza. Ele está mentindo. — Silenciosa e rapidamente, ela se ergueu. — Vou contar tudo ao meu marido.
Ela quis sair, movendo-se com rapidez. Wolfe estalou os dedos. — Archie! — Eu a contornei, bloqueando sua trajetória em direção à porta. Ela não tentou me driblar; apenas parou e olhou em meu rosto. Wolfe disse — Volte e sente-se. Posso ver que é uma pessoa decidida, assim como eu. O senhor Goodwin pode detê-la com apenas uma das mãos. Pode gritar, alguém virá, mas irá embora e voltaremos ao ponto em que estamos. Sente-se, por favor.
Ela obedeceu e disse: — Não tenho por que gritar. Apenas desejava contar ao meu marido...
— Que o porteiro mentiu. Mas ele não mentiu. Contudo, não há razão para atormentá-la desnecessariamente. Archie, passe as fotos das impressões digitais na porta da sala de jantar.
Pensei com meus botões: que maldito. Um dia ainda precisaria de meus serviços durante minhas férias. Aí aprenderia a me contar as coisas com antecedência. Mas, claramente, só havia uma resposta neste caso. Procurei no bolso as reproduções que recortara do jornal e passei a ele. Então, finalmente a par, tirei as amostras recém-colhidas dos dedos de Lio Coyne. Wolfe pegou a lente de aumento e começou a compará-las. Não teve pressa: segurou as folhas lado a lado, olhou pela lente de perto e de longe, e fez sinais apropriados de aprovação a intervalos.
Finalmente disse — Três são muito similares. Provavelmente é o suficiente. Mas o dedo indicador esquerdo é absolutamente idêntico, e está excepcionalmente claro. Olhe, Archie, dê sua opinião.
Peguei as impressões, a lente e representei minha parte. As impressões do jornal pertenciam a algum mecânico brutamontes. Acho que nunca vi dois conjuntos mais diferentes. Fiz uma boa cena na comparação, até contei alto antes de devolvê-los a Wolfe.
— Sim, senhor. — Fui enfático. — Seguramente são os mesmos. Qualquer um pode ver isso.
Wolfe disse à senhora Coyne, gentil, quase terno — A senhora vê, madame. Preciso de uma explicação. Claro que todo mundo conhece impressões digitais, mas alguns métodos para consegui-las são pouco divulgados. O senhor Goodwin é especialista. Ele examinou as portas entre a sala de jantar e o terraço — entre outras —, obteve impressões que a polícia local deixou passar e tirou fotografias delas. Assim, como pode ver, os métodos modernos de busca de provas são produtivos de vez em quando. Eles nos forneceram uma prova conclusiva que prendeu o dedo na porta entre o terraço e a sala de jantar na noite de terça-feira. Eu suspeitei disso antes, mas não há motivo para discutir esta parte agora. Não estou lhe pedindo que explique nada. Suas explicações, naturalmente, devem ser dadas à polícia, depois que eu passar as provas a eles, bem como um relatório de seu falso testemunho de que prendeu o dedo na porta da frente. Por falar nisso, devo preveni-la para esperar pouca cortesia da polícia. Afinal de contas, não disse a verdade ao senhor Tolman, e eles vão odiar isso. Teria sido mais sensato de sua parte admitir a verdade, ser franca quando questionada a respeito de seus movimentos naquela noite, dizendo que entrou na sala de jantar pelo terraço.
Ela era uma das maiores caras-de-pau que eu já tinha visto na vida. Dava para jurar que sua mente, caso estivesse trabalhando em alguma coisa, dedicava-se no máximo a lembrar onde perdera os palitinhos de comer. Finalmente ela disse — Eu não entrei na sala de jantar.
Wolfe deu de ombros. — Conte isso à polícia. Depois de sua mentira ao senhor Tolman, das mentiras que contou a nós, registradas no bloco de anotações do senhor Goodwin, de sua tentativa de acusar o porteiro... e, acima de tudo, dessas impressões digitais...
Ela esticou o braço. — Passe-as para mim. Quero vê-las.
— A polícia poderá mostrá-las, se quiser. Perdão, senhora Coyne, mas esta fotografia é uma prova importante, e eu gostaria de estar seguro de poder entregá-la intacta às autoridades.
Ela estremeceu um pouco, sem alterar a expressão do rosto. Após outro instante de silêncio, disse: — Fui até o corredor da ala esquerda. Pelo terraço pequeno. Fui até meu quarto e machuquei o dedo na porta do banheiro. Depois, quando o senhor Laszio foi encontrado morto, fiquei com medo e pensei que nunca poderia dizer que estivera do lado de dentro.
Wolfe moveu a cabeça e murmurou — Pode tentar essa saída. Tente até o final, se acha que vale a pena. Tem consciência, é claro, de que deixou impressões digitais na porta da sala de jantar, e de que isso necessita de uma explicação. De qualquer forma, está em uma encrenca. Precisa fazer o possível para se safar. — Ele virou-se para mim abruptamente e estalou os dedos. — Archie, vá até a cabine telefônica no foyer e ligue para a polícia, que está no hotel. Diga que venham imediatamente.
Ergui-me com presteza excessiva. Estava preparado para uma pequena cena com meu bloco de anotações e a caneta, mas não foi preciso. Seu rosto deu sinais de vida. Ela piscou para mim, esticou a mão em minha direção, depois piscou para Wolfe e esticou as duas mãozinhas na direção dele.
— Senhor Wolfe — suplicou. — Por favor! Não fiz mal algum! Não chame a polícia!
— Não fez mal, madame? — Wolfe foi inflexível. — Conta mentiras às autoridades que investigam um assassinato, e a mim, e acha que não fez mal algum? Archie, vá em frente!
— Não. — Ela se levantou. — Já disse que não fiz nada!
— Entrou na sala de jantar minutos, talvez segundos, depois do momento em que Laszio foi morto. A senhora o matou?
— Não. Não fiz nada. Nem entrei na sala de jantar!
— Sua mão segurou a porta. Que houve?
Ela ficou parada, olhos fixos em Wolfe. Parei, um pé à frente, louco para chamar os guardas. Ela encerrou a novela ao sentar-se e dizer calmamente a Wolfe. — É melhor contar tudo ao senhor, não é?
— Ou à polícia.
— Mas se eu lhe contar... o senhor vai contar à polícia de qualquer forma.
— Talvez sim. Talvez não. Depende. De qualquer modo, terá de contar a verdade, mais cedo ou mais tarde.
— Suponho que sim. — As mãos repousavam sobre o vestido vermelho, dedos cruzados com força no colo. — Entenda, tenho medo. A polícia não gosta de chineses, e sou chinesa. Mas esse não é o problema. Temo o homem que vi na sala de jantar, porque ele deve ter matado o senhor Laszio...
Wolfe perguntou suavemente — Quem era?
— Não sei. Mas se eu falar sobre ele com o senhor, e ele souber que o vi e depois revelei... bem, estou contando agora. Sabe, senhor Wolfe, nasci em São Francisco, fui criada lá, mas sou chinesa, e nunca somos tratados como americanos. Nunca. Mas, de qualquer modo... eu disse a verdade ao senhor Tolman sobre aquela noite. Fiquei lá fora o tempo todo. No gramado, entre as moitas e as árvores, ouvi o bacurau e cruzei o caminho, até chegar à fonte. Depois retornei, pelo lado. Não pela ala esquerda, mas pelo outro lado — e pude ver a sala, não muito bem, através das cortinas da janela, mas não conseguia ver nada da sala de jantar, porque as cortinas estavam puxadas nas portas de vidro. Pensei que seria divertido espiar os homens enquanto experimentavam os molhos, o que para mim era uma coisa meio estúpida, de modo que fui até o terraço para procurar uma brecha por onde pudesse espiar, mas as cortinas estavam bem fechadas, e não foi possível fazer isso. Então ouvi um ruído, como se algo tivesse caído na sala de jantar; não pude identificar o que era, porque o som do rádio estava saindo pela janela aberta da sala de estar. Fiquei parada ali, não sei por quanto tempo, e nenhum outro som foi produzido. Pensei que um dos homens poderia ter ficado furioso e jogado uma travessa no chão, o que seria divertido. Resolvi abrir a porta um pouquinho para olhar, pensando que não seria ouvida por causa do som do rádio. Assim, abri só uma fresta. Não a abri o suficiente nem para ver a mesa, porque havia um homem parado perto do biombo, no canto, de perfil para mim. Ele estava com um dedo encostado nos lábios — sabe, como se faz para pedir silêncio a alguém. Depois vi para quem estava olhando. A porta que dava para o hall da copa estava aberta, apenas uns poucos centímetros, e o rosto de um dos negros aparecia lá, olhar fixo no homem próximo ao biombo. Este começou a se virar em minha direção, tentei fechar a porta rapidamente, meu pé escorregou e agarrei a porta com a outra mão para não cair. A porta se fechou em cima do meu dedo. Pensei que seria constrangedor ser apanhada espiando a sala de jantar, de modo que corri de volta para as moitas e fiquei ali por alguns minutos. Depois voltei pela entrada principal — e o senhor me viu entrando na sala em seguida.
Wolfe perguntou: — Quem era o homem perto do biombo?
Ela balançou a cabeça. — Não sei.
— Bem, senhora Coyne. Não comece tudo de novo. Viu o rosto do sujeito.
— Vi apenas seu perfil. Claro que deu para perceber que era um dos negros.
Wolfe piscou. Eu pisquei duas vezes. Wolfe perguntou — Um negro? Quer dizer, um dos empregados daqui?
— Sim. De uniforme. Como os garçons.
— Era um dos garçons deste pavilhão?
— Não, tenho certeza de que não era. Era mais preto que os outros e... tenho certeza que não. Não era ninguém conhecido.
— Mais preto do que os outros e o que mais? O que estava a ponto de dizer?
— Que não podia ser um dos garçons daqui porque ele saiu e foi embora. Contei ao senhor que me escondi nos arbustos. Estava ali havia alguns segundos apenas quando a porta da sala de jantar se abriu e ele saiu, seguindo pelo caminho que vai para os fundos. Claro que eu não podia ver muito bem atrás das moitas, mas suponho que era ele.
— Conseguiu ver o uniforme?
— Sim, um pouco, quando ele abriu a porta e ficou sob a luz. Depois ficou tudo escuro.
— Ele estava correndo?
— Não. Andava.
Wolfe franziu a testa. — O outro, que estava na porta do hall da copa — ele também usava uniforme, ou era um dos cozinheiros?
— Não sei. A porta só foi aberta um pouquinho, e praticamente só vi seus olhos. Tampouco poderia reconhecê-lo.
— Viu o senhor Laszio?
— Não.
— E ninguém mais?
— Não. Foi tudo o que vi, exatamente como contei ao senhor. Tudo. Mais tarde, quando o senhor Servan contou que o senhor Laszio tinha sido morto, aí eu soube o que havia ouvido. Havia ouvido o senhor Laszio cair, e visto o homem que o assassinara. Sabia disso. Só podia ser. Mas tinha medo de contar esta história quando fizessem perguntas sobre minha saída... e de qualquer modo... — As duas mãozinhas se ergueram do colo, em um gesto, e retornaram à posição inicial. — Claro, fiquei muito triste quando prenderam o senhor Berin, pois sabia que era um erro. Pretendia esperar até voltar para casa, para São Francisco, e contar tudo ao meu marido. Então, caso ele o exigisse, escreveria uma carta e enviaria para cá.
— E, neste meio tempo... — Wolfe deu de ombros. — Comentou isso com alguém?
— Nada.
— Não o faça. — Wolfe ergueu-se. — Para dizer a verdade, senhora Coyne, agiu de forma egoísta, mas confesso que foi sábia. Seu segredo estaria seguro, e a senhora também, não fosse pelo acidente que a levou a pedir a seu marido que beijasse seu dedo quando eu estava perto e ouvindo tudo. O assassino do senhor Laszio provavelmente sabe que foi visto daquela porta, mas não por quem, uma vez que esta foi aberta apenas alguns poucos centímetros, e lá fora estava escuro. Caso ele descubra que foi a senhora a vê-lo, nem São Francisco será longe o suficiente para escondê-la. Torna-se altamente aconselhável que não se faça nada que o leve a descobrir ou suspeitar disso. Não diga nada a ninguém. Caso alguém demonstre curiosidade pela razão de sua demora aqui, já que as outras entrevistas foram curtas, e pergunte o porquê, diga a ele — ou a ela — que tem repugnância cultural por tirar impressões digitais, e precisei utilizar todo o meu poder de persuasão para superar o problema. Similarmente, eu acho que, no momento, a polícia não vai interrogá-la, nem mesmo aproximar-se da senhora, pois só despertaria suspeitas. E por falar nisso...