Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 3 de 18

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Cozinheiros Demais

Capítulo 2

No vagão da frente encontrei Jerome Berin atravessando a passagem apressado. Ele parou, e eu também tive de fazê-lo, claro.

Ele rugiu — Minha filha? Vukcic a abandonou!

— Está perfeitamente bem. — Apontei para trás. —Encontra-se no vagão-restaurante com um amigo que apresentei a ela. O senhor Wolfe está bem?

— Se está bem? Sei lá. Acabei de sair.

Ele passou por mim e seguiu em frente.

Wolfe estava sozinho na cabine, ainda sentado imóvel, o próprio retrato do desespero, agarrado aos braços da poltrona, de olhos arregalados. Parei e comecei a observá-lo.

Eu disse — Conheça primeiro a América. Venha brincar conosco na terra das férias! Nenhum vento no trem, ele voa como uma gaivota!

Wolfe retrucou — Cale a boca!

Ele não podia ficar sentado ali a noite inteira. Era chegada a hora de agir. Apertei o botão da campainha que chamava o camareiro. Depois fui até ele... mas chega. Recordo um antigo romance que li: em determinado momento, descrevia uma adorável donzela preparando-se para dormir, em seu quarto, à noite, levando os dedos adoráveis ao botão de cima do vestido, e depois dizia: “Vamos deixá-la agora. Há certas intimidades que eu e você, caro leitor, não devemos nos atrever a violar. Determinados segredos de moça, que não devem ser revelados a olhos vulgares. A noite desceu seu véu protetor. Façamos o mesmo com o nosso”.

Por mim tudo bem.

 

2

Eu disse — Não poderia imaginar que isso fosse um trabalho para o detetive da casa; quem diria, ficar vigiando para descobrir um menino que joga pedras. Quanto mais um detetive chique como você.

Gershom Odell cuspiu por entre os dentes na direção de uma samambaia, a três metros do trecho gramado onde estávamos sentados. — E não é mesmo. Mas eu já expliquei. Estes caras pagam entre quinze e cinquenta paus por dia para se hospedar neste caravançará e escrever cartas no papel timbrado do Kanawha Spa, e não gostam que os negros fiquem jogando pedras quando saem para dar um passeio a cavalo. Não disse um menino, eu disse um negro. Eles suspeitam de um negro que foi despedido da oficina mecânica há um mês.

O sol quente passava por um vão na copa das árvores e batia em mim. Bocejei. Perguntei, para mostrar que não estava maçado — Você disse que o problema aconteceu nesta área?

Ele apontou: — Logo ali, do outro lado da trilha de equitação. Acertaram no velho Crisler, nas duas vezes, sabe? O Crisler das canetas-tinteiro. A filha é casada com o embaixador Willetts.

Ouvimos ruídos no caminho. Logo o barulho dos cascos era claro, e, depois de um minuto, um par de cavalos mansos, bem tratados, apontou na curva da trilha e passou trotando, perto o suficiente para ser pescado com uma vara. Um deles era montado por um tipo vistoso, de paletó xadrez espalhafatoso, e no outro ia uma senhora velha e gorda o bastante para se dedicar aos outros no momento em que sentisse esse impulso.

Odell disse — Aquela é a esposa de James Frank Osborn, o magnata de Baltimore, dono dos estaleiros e siderúrgicas, e Dale Chatwin, um arrivista, bom jogador de bridge. Não vê como atormenta o cavalo? Ele é um zero à esquerda em equitação.

— É mesmo? Não reparei. Sem dúvida, você está bem por dentro das colunas sociais.

— Sou obrigado, faz parte do trabalho. — Ele cuspiu na samambaia de novo, coçou a cabeça, arrancou uma folha de grama e começou a mordiscá-la. — Acho que conheço nove entre dez pessoas que dão entrada no hotel, ninguém precisa apresentá-las. Claro, de vez em quando aparecem uns estranhos. Por exemplo, a sua turma. Quem são, afinal de contas? Disseram que são um bando de cozinheiros finos, convidados do chef. Parece piada, para mim. Será que o Kanawha Spa virou escola de prendas domésticas?

Movi a cabeça, negativamente. — Minha turma uma ova, cara.

— Mas você está com eles.

— Eu estou com Nero Wolfe.

— Que está com eles.

Sorri. — Não agora. Neste instante ele se encontra na suíte 60, na cama, dormindo um sono profundo. Acho que vou precisar de clorofórmio para enfiá-lo no trem de volta, na quinta-feira. — Eu me espreguicei ao sol. — Mesmo assim, há coisas piores do que cozinheiros.

— Creio que sim — ele admitiu. — De onde veio esta gente, hem?

Tirei um papel do bolso — uma página arrancada do suplemento do Times — e o abri, dando mais uma olhada na lista, antes de passá-la para ele:

LES QUINZE MAÎTRES

Jerome Berin, Corridona, San Remo

Leon Blanc, Clube Willow, Boston

Ramsey Keith, Hotel Hastings, Calcutá

Phillip Laszio, Hotel Churchill, Nova York

Domenico Rossi, Café Empire, Londres

Pierre Mondor, Mondor’s, Paris

Marko Vukcic, Restaurante Rusterman’s, Nova York

Sergei Vallenko, Chateau Montcalm, Quebec

Lawrence Coyne, The Rattan, San Francisco

Louis Servan, Kanawha Spa, West Virginia

Ferid Khaldah, Café de l’Europe, Istambul

Henri Tassone, Hotel Shepheard’s, Cairo

FALECIDOS

Armand Fleury, Fleury’s, Paris

Pasquale Donofrio, Eldorado, Madri

Jacques Baleine, Hotel Emerald, Dublin

Odell deu uma espiada no artigo, avaliou seu tamanho e não mostrou disposição para ler o texto. Depois percorreu a lista de nomes e locais, a cabeça movendo-se vagarosamente para trás e para a frente. Ele resmungou — Que monte de nomes! Mais parece o time de futebol de Notre Dame. Por que saíram no jornal? Que quer dizer o título, Les Quinze não sei o quê?

— Está em francês. — Pronunciei a frase corretamente. — Significa “Os Quinze Mestres”. Todos caras famosos. Já teve até duelo por causa das salsichas que um deles prepara. Você precisa ir falar com o sujeito, contar que é detetive e pedir a receita da salsicha. Vai fornecê-la de bom grado. Eles se encontram a cada cinco anos, no restaurante do mais velho da turma. Foi por isso que vieram para o Kanawha Spa. Cada um pode trazer um convidado — está tudo aí, no artigo. Nero Wolfe é o convidado de Servan, e Vukcic me trouxe para que eu pudesse ficar com Wolfe, o convidado de honra. Só há dez deles aqui. Os últimos três da lista morreram após 1932. Khaldah e Tassone não puderam comparecer. Vai ter muita comida e bebida e arte culinária. Eles vão contar mentiras, eleger três novos membros e ouvir a palestra de Nero Wolfe — ah, e um deles será assassinado.

— Quero só ver. — Odell cuspiu pelo vão do dente de novo. — Qual deles?

— Phillip Laszio, do Hotel Churchill, de Nova York. O jornal diz que ganha um salário de sessenta mil dólares por ano.

— Pode até ser. Quem vai matá-lo?

— Eles vão se revezar. Se você quiser ingressos para a luta, terei o maior prazer em conseguir umas cadeiras de ringue. E vou dar uma dica: é melhor avisar a recepção para cobrar a conta dele adiantada, porque sabe como é... Meus Deus, essa não! Bastaram apenas algumas gotas de ginger ale.

Um cavaleiro e uma amazona vinham trotando pelo caminho, olhando um para o outro, rindo, os dentes à mostra, os rostos corados. Quando a poeira que levantavam os encobriu, perguntei a Odell — Quem são os pombinhos?

Ele grunhiu. — Barry Tolman, promotor público desta comarca. Vai ser presidente algum dia, pergunte a ele. A garota veio com seu grupo, não é? Por falar nisso, ela fica dando bola pra todo mundo. Dá para explicar a gracinha sobre o ginger ale?

— Não era nada, esquece — disse, fazendo um gesto. — Só uma citação antiga, de Chaucer. Não ia adiantar jogar pedras nos dois. Eles só perceberiam uma avalanche. Por falar nisso, como é mesmo essa história de alguém estar jogando pedras? Alguma piada?

— Não é nenhuma brincadeira. Faz parte do meu trabalho investigar tudo.

— Chama isso de investigar? Eu sou detetive. Para começo de conversa, você supõe que alguém vá começar um bombardeio, vendo você e eu sentados aqui, bem à vista? Este caminho fica dando voltas por nove quilômetros; não haveria um lugar melhor para nós? Segundo, você mencionou um negro, que foi despedido da oficina, como suspeito de ter jogado as pedras para causar problemas ao hotel. Nesse caso, foi só coincidência ele ter acertado o Crisler das canetas por duas vezes? Tá muito esquisito. Você não me contou tudo. Não é da minha conta, claro, só falei para mostrar que só fico bobo aos domingos e feriados.

Ele me espiou com o canto do olho. Virou e sorriu. — Pelo jeito, você é um cara legal.

Eu retruquei simpático — Sou mesmo.

Ele ainda sorria, — Para ser sincero, a história é boa demais para deixar você de fora. Poderia aproveitar melhor se conhecesse Crisler. Mas o problema não é só ele. Acontece que eu não tenho muito tempo de folga aqui. Dezesseis horas por dia! O esquema da casa é assim. Tenho apenas um assistente; você precisa conhecê-lo, é sobrinho de não sei quem. Sou obrigado a ficar no posto desde que o dia amanhece até o anoitecer. Aí eu cruzei o caminho do Crisler, o cara é um poço de veneno. Ele resolveu pegar no meu pé porque eu dei um flagrante no chofer dele, que estava afanando graxa na oficina. Mas o sujeito é fogo. O negro que me ajudou a pegar o chofer foi despedido por causa de Crisler. Ele queria que me botassem no olho da rua também. Mas eu tinha um plano, e está funcionando.

Odell apontou para a frente. — Vê aquela elevação ali? Não, mais para lá, do outro lado dos pinheiros. Eu fiquei lá, atirando as pedras nele. Acertei nas duas vezes.

— Estou entendendo. Ele ficou machucado?

— Não o suficiente. O ombro ficou bem feio. Eu havia providenciado um bom álibi, em caso de suspeitarem de mim. Crisler investigou, o que acabou sendo um ponto a meu favor. Outro ponto positivo é que agora eu posso dizer que vou atrás do atirador de pedras, e passar uma hora ou duas no bosque, ficar um pouco sozinho, cuspindo e olhando a paisagem. De vez em quando, deixo que as pessoas me vejam no caminho; elas pensam que estão protegidas, o que é perfeito.

— Uma boa ideia. Mas não vai longe. Mais cedo ou mais tarde, você vai ter de pegar alguém ou desistir. A não ser que jogue mais pedras.

Ele riu. — Talvez você esteja pensando que não sou bom em atirar pedras, mas eu o acertei no ombro! Percebe a distância que há daqui até a elevação? Não sei se vou tentar de novo ou não, mas, se tentar, sei muito bem quem vou escolher. Vou mostrá-la a você. — Ele deu uma espiada no relógio de pulso. — Nossa Senhora, quase cinco da tarde. Preciso voltar.

Ele se levantou e saiu andando rápido, mas eu não estava com pressa, e deixei que seguisse na frente. Fui perambulando sem destino. Como já havia notado, para qualquer lado que a gente fosse, em Kanawha Spa, continuava passeando nos jardins. Sei lá quem mantinha os bosques limpos e varridos e tirava o pó das árvores, em um lugar que devia ter quase quatrocentos hectares, mas com certeza era uma dona de casa exemplar. Nas vizinhanças do prédio principal do hotel, nos pavilhões espalhados nas proximidades e no prédio das termas, havia principalmente gramados, sebes e flores, com três fontes clássicas a trinta metros da entrada principal. Os locais que chamavam de pavilhões, batizados com os nomes das comarcas de West Virginia, não eram nada desprezíveis em matéria de tamanho, possuíam cozinhas próprias e tudo o mais e, pelo que percebi, eles ofereciam mais privacidade, a um preço apropriado. Dois deles, Pocahontas e Upshur, ficavam a apenas cem metros um do outro, e eram ligados por um par de caminhos entre árvores e arbustos. Haviam sido reservados para os quinze mestres — ou melhor, dez — e a suíte 60, minha e de Wolfe, ficava no Upshur.

Prossegui em meu passeio despreocupado. Havia muito o que ver, para quem gostava daquele tipo de coisa. Touceiras imensas de flores cor-de-rosa nos bosques, que segundo Odell eram louro silvestre, um regato ziguezagueando por entre as árvores em flor, cortado aqui e ali por pequenas pontes, e passarinhos, sempre-vivas, e por aí afora. Essas coisas até que são legais; não tenho nada contra elas. Também, em uma terra tão grande, alguma planta ia mesmo acabar crescendo, senão o que eles iam fazer com todo o espaço? Mas devo admitir que era um lugar fraco em matéria de animação, se comparado, por exemplo, com o Times Square ou com o Yankee Stadium.

Perto da área central, no setor onde se situavam os pavilhões, e especialmente em torno do prédio principal e das fontes, havia mais vida. Estava cheio de gente entrando e saindo dos carros, a cavalo, às vezes até andando. A maioria dos pedestres eram negros com o uniforme do Kanawha Spa, calça preta justa e paletó verde vistoso com botões pretos. Nos caminhos laterais seria possível surpreender um deles sorrindo, mas em terreno aberto davam a impressão de ter sido quase esmagados por algo que não podiam revelar a ninguém, como caixas de banco.

Passava pouco das cinco quando alcancei a entrada do pavilhão Upshur. A suíte 60 ficava no fundo da ala da direita. Abri a porta com cuidado, cruzei o hall na ponta dos pés, para não acordar a criança, e abri a outra porta com mais cuidado ainda, só para descobrir que o quarto de Wolfe estava vazio. As três janelas que eu havia deixado parcialmente abertas estavam fechadas. A mossa no centro da cama não deixava dúvida sobre quem a ocupara, e o cobertor que eu havia estendido em cima dele estava largado no chão. Olhei novamente para o hall; o chapéu dele se fora. Andei até o banheiro, abri a torneira e comecei a ensaboar as mãos. Eu estava muito magoado. Depois de dez anos, já estava acostumado a encontrar Nero Wolfe onde eu o havia deixado, como se ele fosse a Estátua da Liberdade, a não ser que a casa estivesse pegando fogo. Era preocupante, para não dizer humilhante, descobrir que ele andava saçaricando por aí como se fosse um beija-flor, atrás de uma chance de puxar o saco de um salsicheiro espanhol.

Após ter me lavado e trocado de camisa, fiquei tentado a dar uma volta pelo hotel para olhar como era, mas sabia que Fritz e Theodore me matariam se eu não o levasse de volta inteiro, de modo que saí pelo passeio lateral, em direção ao pavilhão Pocahontas.

Pocahontas era bem mais ambicioso do que Upshur, com quatro salões de bom tamanho no centro do andar térreo, além de suítes nas laterais e no andar superior. Ouvi barulho antes mesmo de entrar, e quando cheguei vi que os mestres estavam se divertindo. Eu havia conhecido o grupo todo na hora do almoço, preparado e servido no próprio pavilhão. Cinco cozinheiros diferentes entraram com um prato cada um, e admito que não foi difícil experimentar a todos, o que era um grande elogio para qualquer um, depois de dez anos comendo, no dia-a-dia, o que Fritz Brenner preparava sob a supervisão de Nero Wolfe.

Permiti que o paletó verde abrisse a porta para mim, confiei meu chapéu a um outro que estava no hall e comecei a procurar meu beija-flor perdido. Na sala da direita, ornada com peças de madeira escura e tapeçarias coloridas por tudo quanto era canto — Pocahontas seguia o estilo índio na decoração —, três casais dançavam ao som do rádio. Uma morena média, da minha idade, de altura também média, de sobrancelha clara alta e olhos lânguidos, estava agarrada a Sergei Vallenko, um touro russo com cerca de cinquenta anos e uma cicatriz sob a orelha esquerda. Ela era Dina Laszio, filha de Domenico Rossi, antiga esposa de Marko Vukcic, aquela que havia sido roubada dele por Phillip Laszio, segundo Jerome Berin. A mulher baixa, de meia-idade, que parecia uma pata de olhos negros miúdos e buço acima do lábio superior era Marie Mondor, e o cara de olhos saltados e rosto redondo, provavelmente da idade dela, era o marido, Pierre Mondor, outro gordo. Ela não sabia falar inglês, e eu não via motivo para lamentar isso. O terceiro casal consistia em Ramsey Keith, um baixinho escocês com uns sessenta anos e rosto parecido com um pôr-do-sol preservado em álcool, e sua acompanhante, uma mulher baixa e esguia, de olhos negros, que poderia ter qualquer idade abaixo de 35, de acordo com minha limitada experiência, porque era chinesa. Para minha surpresa, quando a encontrei na hora do almoço, ela me deu a impressão de ser misteriosa e requintada, como as fotos das gueixas nos anúncios. Acho que as gueixas são japas, mas dá na mesma. Bem, ela era Lio Coyne, quarta esposa de Lawrence Coyne. Sorte dele, que passava dos setenta e era branco como cera.

Tentei a sala da esquerda, um pouco menor. A atividade ali era escassa. Lawrence Coyne estava em um divã no fundo, ferrado no sono, e Leon Blanc, nosso velho amigo Leon, estava parado na frente de um espelho, aparentemente tentando resolver se fazia ou não a barba. Prossegui até a sala de jantar. Ao lado da mesa comprida e das fileiras de cadeiras, havia duas mesas de servir e um armário cheio de badulaques, além de dois biombos enormes, cobrindo a parede, com a cena da salvação de John Smith por Pocahontas, e outras coisas. Havia quatro portas: a que eu usei para entrar; uma grande, que dava para a sala maior; uma dupla, de vidro, que conduzia ao terraço lateral, e outra, à copa e à cozinha.

Também havia, no momento de minha entrada, algumas pessoas. Marko Vukcic estava em uma cadeira, na mesa grande, com um charuto na boca, balançando a cabeça enquanto lia um telegrama. Jerome Berin permanecia em pé, com um copo de vinho na mão, conversando com um sujeito mais velho, de ar digno, bigode grisalho e rosto enrugado. Era Louis Servan, decano dos quinze mestres, e seu anfitrião no Kanawha Spa. Nero Wolfe ocupava uma cadeira pequena demais para ele, perto da porta de vidro que dava para o terraço, que estava aberta. Nero encontrava-se reclinado desconfortavelmente, de modo que seus olhos semicerrados pudessem observar o rosto do homem que olhava para ele. Era Phillip Laszio — atarracado, alguns fios grisalhos no cabelo, olhos astutos, pele lisa e lustrosa. Ao lado da cadeira de Wolfe havia uma mesinha, com um copo e duas garrafas de cerveja, e perto do outro cotovelo, quase sentada no seu colo, com um prato de não sei o que na mão, estava Lisette Putti. Lisette era bem atraente, e já havia feito amigos, apesar da questão da irregularidade de sua condição. Ela era convidada de Ramsey Keith, que viera de Calcutá apresentando-a como sua sobrinha. Vukcic repetiu as acusações de Marie Mondor, feitas após o almoço. Segundo ela, Lisette era uma coquine, e Keith a havia encontrado em Marselha. Mas afinal, falou Vukcic, era fisicamente possível a um homem chamado Keith ter uma sobrinha chamada Putti, e mesmo que fosse um caso de identidade trocada, era Keith quem pagava as contas. A desculpa parecia um pouco esfarrapada, mas aquilo não era problema meu.

Quando me aproximei, Laszio estava terminando de dizer algo a Wolfe, e Lisette começava a discursar em francês, algo a respeito do troço que tinha no prato, uma espécie de bolacha marrom gordurosa. Mas nesse momento ouviu-se um grito na cozinha, e todos nos viramos para ver a porta de vaivém se abrir e Domenico Rossi entrar pulando com uma travessa fumegante em uma das mãos e uma colher comprida na outra.

— Talhou! — Ele uivou. Correndo em nossa direção, mostrou o prato a Laszio. — Olhe para esta porcaria! Não falei? Meu Deus, olhe só! Você me deve cem francos! Você é um genro perverso. Apesar da idade, desconhece os princípios mais básicos!

Laszio deu de ombros calmamente. — Você esquentou o leite?

— Eu? Acha que pareço congelador de ovos?

— Então pode ser que os ovos estivessem velhos.

— Louis! — Rossi virou para o lado a apontou a colher para Servan. — Ouviu essa? Ele está dizendo que você usa ovos velhos!

Servan sorriu. — Mas você fez tudo do jeito que ele ensinou, e mesmo assim talhou. Ganhou, portanto, os cem francos da aposta. Qual é sua objeção?

— Está tudo perdido! Olhe! Uma droga! — Rossi bufou. — Estas ideias modernas malditas! Vinagre é vinagre!

Laszio disse calmamente — Eu pago. E amanhã mostrarei como deve ser feito. — Ele deu as costas abruptamente e seguiu para a porta que levava à sala maior, abrindo-a. O som do rádio nos alcançou. Rossi saltitou em torno da mesa, com o prato de porcaria na mão, para que Servan e Berin o estudassem. Vukcic guardou o telegrama no bolso e se afastou para relê-lo. Lisette se deu conta da minha presença, pegou o prato e disse qualquer coisa. Eu sorri para ela e respondi: — Jack Spratt não pode comer gordura. Sua mulher pode...

— Archie! — Wolfe abriu totalmente os olhos. — A senhorita Putti disse que o senhor Keith fez estes biscoitos com suas próprias mãos, utilizando ingredientes que trouxe da índia.

— Já experimentou?

— Sim.

— Prestam?

— Não.

— Então diga a ela, por favor, que nunca como nada entre as refeições.

Passei pela porta da sala e parei do lado de Phillip Laszio, que observava os três casais dançando. Era evidente que se concentrava em um deles. Mamma e papa Mondor estavam ofegantes, porém animados; Ramsey Keith e a gueixa formavam um par divertido de olhar, mas obviamente não davam a mínima, e Dina Laszio e Vallenko aparentemente não haviam se separado desde que eu os vi no início. Contudo, eles o fizeram rapidamente. Alguma coisa estava acontecendo atrás de mim. Laszio não disse nada, nem fez nenhum gesto, que eu visse. Mas eles trocaram alguma espécie de mensagem, pois os dois dançarinos pararam de repente, e Dina murmurou algo a seu par, para depois atravessar sozinha o salão e reunir-se ao marido. Dei dois passos para o lado, abrindo espaço para eles, que não repararam em mim.

Ela perguntou ao marido — Está com vontade de dançar, querido?

— Sabe que não. E você não estava dançando.

— Como assim? — Ela riu. — Chamam a isso de dança, não é?

— Pode ser. Mas você não estava dançando. — Ele sorriu. Quero dizer, tecnicamente. Na prática, foi um sorriso para acabar com a vontade de rir.

Vallenko aproximou-se. Parou ao lado deles, olhou para um e para o outro, e repentinamente começou a dar risada. — Ora, Laszio! — Ele deu um tapinha em suas costas, de modo não muito gentil. — Ah, meu amigo! — Ele fez uma mesura para Dina. — Obrigado, madame. — E caiu fora.

Ela acalmou o marido — Phillip, se você não queria que eu dançasse com seus colegas, deveria ter dito antes, amor. Para mim não seria sacrifício algum...

Não parecia provável que necessitassem de mim para se entender, de modo que retornei ao salão de jantar e me sentei. Fiquei observando o zoológico durante meia hora, sentado. Lawrence Coyne entrou, vindo da sala menor, esfregando os olhos e tentando ajeitar as suíças brancas com os dedos. Ele olhou em volta e chamou — Lio! — com um rugido que fez estremecer as janelas, e sua esposa chinesa chegou saltitando, vinda da outra sala, acomodou-o em uma poltrona e empoleirou-se em seu joelho. Leon Blanc entrou, engajando-se imediatamente em uma discussão com Berin e Rossi, e subitamente sumiu com eles para a cozinha. Constanza apareceu perto das seis. Ela havia trocado o traje de montaria. Olhou em torno e distribuiu alguns cumprimentos, mas ninguém deu muita atenção; depois viu Vukcic e eu, e aproximou-se para perguntar onde seu pai estava. Eu a informei: na cozinha, discutindo suco de limão. Seus olhos cor de púrpura eram ainda mais temíveis à luz do dia.

Comentei — Eu a vi com os cavalos, há umas duas horas. Quer um copo de ginger ale?

— Não, obrigada. — Ela sorriu para mim, como faria para um tio indulgente. — Foi muita gentileza sua dizer a meu pai que o senhor Tolman era seu amigo.

— Não precisa agradecer. Percebi que você era jovem e desamparada, e pensei que podia muito bem dar uma mãozinha. As coisas estão seguindo no rumo certo?

— Como assim?

— Não tem importância. — Fiz um gesto tranquilizador. — Contanto que você esteja feliz.

— Seguramente estou feliz. Amo os Estados Unidos. Acho que vou querer um pouco de ginger ale, afinal de contas. Não, não se preocupe. Eu mesma posso pedir. — Ela contornou a mesa, pressionando a campainha.

Não creio que Vukcic, bem do meu lado direito, tenha ouvido qualquer coisa do que foi dito, porque tinha os olhos presos à antiga esposa, sentada com Laszio e Servan, que conversavam com Wolfe. Eu havia percebido essa tendência no comportamento dele, desde a hora do almoço. Também notei que Leon Blanc evitava discretamente Laszio, e não havia dirigido a palavra a ele nem uma vez. Segundo Berin, Laszio havia roubado o emprego dele no Hotel Churchill. Berin, por sua vez, não perdia a oportunidade de olhar Laszio bem de perto, sem tampouco falar com ele. Sem dúvida nenhuma, havia certa tensão no ar; era só reparar na cara feia que mamma Mondor fazia para Lisette Putti, no tipo de camaradagem invejosa, nas discussões sobre alface e vinagre, na antipatia geral por Laszio e, finalmente, na aura ardente que rodeava Dina Laszio, talvez o mais importante. Sempre mantive a crença de que a mulher fatal — o tipo que bate as pestanas três vezes e o cara está frito, vai acabar caindo na teia — não passa de um chamariz para otários. Mas dava para ver que Dina Laszio, se conseguisse pegar um cara sozinho, dedicasse toda a sua energia ao trabalho de conquistá-lo e contasse com a chuva lá fora, exigiria do sujeito bem mais do que um pouco de senso de humor para se livrar da situação. Ela já havia superado desde muito a fase de derramar ginger ale em advogados.

Fiquei apreciando o espetáculo, enquanto esperava que Wolfe desse sinais de querer se mover. Pouco depois das seis, ele se ergueu, e eu o segui até o terraço e pelo caminho de Upshur. Levando-se em conta os sofrimentos terríveis no trem, ele estava se saindo muito bem. Uma arrumadeira havia passado pela suíte 60, pois a cama fora feita e o cobertor dobrado e guardado. Fiquei um pouco no meu quarto, e mais tarde passei para o de Wolfe. Ele estava em uma poltrona perto da janela, quase grande o suficiente para acomodá-lo, recostado, com os olhos cerrados e uma ruga na testa. Os dedos se encontravam no centro da barriga. Era uma cena patética. Sem Fritz, sem atlas para olhar, sem orquídeas para cuidar, sem tampinhas de garrafa para contar! Lamentei que o jantar fosse informal, já que três ou quatro mestres o estavam preparando, pois o esforço para entrar no traje a rigor o teria deixado tão furioso que distrairia sua mente das outras coisas, o que seria um grande alívio para ele. Fiquei parado a observá-lo, enquanto ele emitia um suspiro profundo e demorado. Para evitar que as lágrimas molhassem meus olhos, disse:

— Soube que Berin vai preparar saucisse minuit para o almoço amanhã. Que tal?

Nenhum êxito. Insisti — Será que não preferia voltar de avião? Tem uma pista de pouso perto daqui. Serviço de bordo especial, sessenta paus até Nova York, menos de quatro horas.

Não adiantou. Eu disse — Houve um acidente de trem em Ohio, na noite passada. Um cargueiro. Mais de cem porcos morreram.

Ele abriu os olhos e começou a se aprumar, mas a mão escorregou no braço da poltrona, e ele largou o corpo novamente. Em seguida declarou — Você está despedido, e isso vale a partir do momento de nossa chegada a Nova York. Acho que está. Isso pode ser discutido depois de voltarmos para casa.

Este era Nero Wolfe. Sorri para ele. — Para mim está ótimo. Estou pensando em me casar, de qualquer modo. Com a filha do Berin. O que você acha dela?

— Puf!

— Pode ficar com seus puffs. Suponho que você pense que ter vivido a seu lado por dez anos destruiu todos os meus sentimentos. Acho que você pensa que eu não me submeto mais...

— Puf!

— Está bem. Mas na noite passada, no vagão-restaurante, pensei nisso. Não creio que você se dê conta do quanto ela é bonita, pois parece imune a essas coisas. Claro, ainda não falei com ela, porque não posso pedir que se case... bem, com um detetive. Mas creio que posso arrumar outro tipo de trabalho, e mostrar que sou digno dela...

— Archie. — Ele estava ereto agora. Seu tom era de ameaça murmurada. — Você está mentindo. Olhe para mim.

Enfrentei-o, com o olhar mais firme que arranjei, pensando que havia conseguido interessá-lo. Aí vi que as pálpebras começavam a pender, e soube que tudo estava perdido. O máximo que eu podia fazer era sorrir para ele.

— Seu palerma! — Ele parecia aliviado, contudo. — Você tem noção do que o casamento significa? Noventa por cento dos homens com mais de trinta anos são casados, e olhe só para eles! Você está ciente de que sua esposa vai fazer questão de cozinhar para você? Sabe que todas as mulheres acreditam que a função da comida é encher um buraco no estômago? Tem uma ideia do que uma mulher é capaz... ei, mas o que é isso?

A segunda batida na porta da suíte foi notada. A primeira, fraca, ignorei porque não desejava interrompê-lo. Passei pelo hall de entrada e a abri. Então eu, que raramente me surpreendo, fiquei abismado. Ali estava Dina Laszio.

Seus olhos pareciam maiores do que nunca, porém menos sonolentos. Ela perguntou em voz baixa — Posso entrar? Quero ver o senhor Nero Wolfe.

Recuei, ela passou. Fechei a porta. Indiquei o quarto de Wolfe. — Por ali, por favor — e ela seguiu na minha frente. O único sinal perceptível no rosto de Wolfe, ao notar sua presença, foi de reconhecimento.

Ele inclinou a cabeça. — E uma grande honra, madame. Perdoe-me por não me levantar. Eu me dou o direito dessa falta de cortesia. Pegue aquela cadeira, Archie.

Ela estava nervosa. Olhou ao redor. — Posso falar com o senhor a sós, senhor Wolfe?