Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 16 de 18

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Cozinheiros Demais

Capítulo 15

— Archie. — Ele parecia selvagem. — Acho que pode apreciar a ironia de tudo isso. O piroshki foi feito por Vallenko, e as alcachofras por Mondor. Mas como posso saber quem estava na cozinha e o que andou acontecendo por lá? Estas bandejas eram destinadas a nós, e provavelmente todos sabiam disso. Destinadas a mim. Ainda pretendo voltar para casa hoje à noite. Ligue para o hotel, e tire as bandejas daqui, para que eu não sinta mais este cheiro. Ponha tudo em seu quarto e deixe por lá.

Tolman disse — Mas, meu caro... se realmente pensa... podemos mandar analisar este material...

— Eu não quero que seja analisado, quero comer tudo. Mas não posso. E não vou. Provavelmente não há nada de errado com a comida, e olhem para mim, um sujeito aterrorizado, intimidado por um criminoso! De que adiantaria analisar isso? Sabe de uma coisa, senhor... Archie?

Era a porta de novo. O cheiro daquelas bandejas cobertas me deixou em um estado quase tão ruim quanto o de Wolfe, e eu torci para que fosse um fiscal de alimentos do Ministério da Saúde para certificar-se de que a comida não havia sido adulterada, mas era apenas o empregado do hall. Ele tinha um telegrama endereçado a Nero Wolfe.

Voltei com o telegrama na mão, rasguei o envelope e o entreguei.

Wolfe esticou a mão para pegá-lo e leu.

Murmurou — Certo. — Ao notar o tom de voz, olhei fixo para ele, que me devolveu o telegrama, aberto. — Leia para o senhor Tolman.

Foi o que fiz.

NERO WOLFE KANAWHA SPA W VA

NÃO MENCIONADO EM JORNAIS PT CRAMER COOPERA PT PROSSIGO PT TELEFONO DO DESTINO

PANZER

Wolfe disse calmamente — Isso é melhor. Muito melhor. Quase poderíamos comer aquele piroshki agora, mas existe uma pequena chance... não. Ligue para o hotel, Archie. E, senhor Tolman, creio que haverá uma oportunidade também para o senhor cooperar...

 

15

Jerome Berin sacudiu os dois punhos cerrados, de forma que a poltrona tremeu embaixo dele. — Deus do céu! Mas que cachorro nojento! Quanta... — Ele parou de falar abruptamente e perguntou — Você disse que não foi Blanc? Nem Vukcic? Nem meu velho amigo Zelota?

Wolfe murmurou — Nenhum deles, creio.

— Então eu confirmo, mas que cachorro nojento! — Berin debruçou-se e tocou o joelho de Wolfe. — Vou ser franco; o sujeito não precisa ser um cachorro para querer matar Laszio. Qualquer um poderia ter feito isso, qualquer um mesmo, e não passaria de um incidente no destino do lixo. Concordo que é errado esfaquear um homem pelas costas, mas na hora da pressa detalhes deste tipo podem ser ocasionalmente abolidos. É, não ofenderia alguém que tivesse matado Laszio, mesmo daquela maneira. Agora, atirar no senhor pela janela — logo o senhor, convidado de honra dos Quinze Maîtres! Apenas porque se interessou pela defesa da justiça! Porque tentou provar minha inocência! Porque teve o bom senso de perceber que eu jamais poderia ter cometido sete erros ao experimentar nove molhos! Vou lhe contar uma coisa... pode acreditar no que me deram para comer naquele lugar... naquela cadeia?

Ele contou, e parecia horrível. Estava ali, com a filha, para agradecer pelo esforço de Wolfe em seu benefício. Eram quase quatro horas, o sol iluminava o quarto, pois Tolman providenciara dois guardas para as janelas, perto dos arbustos. As cortinas estavam puxadas e as janelas abertas. O almoço do hotel podia não ter sido o piroshki de Vallenko, mas atingira seus objetivos, e Wolfe conseguiu se alimentar, apesar da dificuldade para mastigar. Eu havia abandonado completamente a ideia de tirar uma soneca. Não daria tempo. Tolman tinha ficado quase até o final do almoço, e depois disso Rossi, Mondor e Coyne passaram por ali para lamentar o atentado contra Wolfe e seu ferimento — e foram seguidos por outros. Até mesmo Louis Servan deu . um jeito de escapar da cozinha por alguns minutos, apesar de eu não conseguir entender como. Além disso, por volta das três da tarde, recebemos um telefonema de Nova York, que Wolfe atendeu. Sua reação consistiu basicamente de huns, e o que eu soube a respeito, quando ele terminou, foi só que andara conversando com o inspetor Cramer. Mas percebi que não se tratava de más notícias, porque depois do telefonema ele sentou-se, esfregou o nariz e deu a impressão de estar satisfeito consigo.

Constanza Berin ficou sentada durante vinte minutos na beira da poltrona, tentando dar um palpite na conversa e, quando seu pai fez uma pausa para acender o cachimbo, ela finalmente conseguiu.

— Senhor Wolfe... eu fui terrível esta manhã.

Ele pousou os olhos sobre ela. — Foi mesmo, senhorita Berin. Eu noto com frequência que uma mulher, quanto mais bonita é, mais se permite ataques irracionais. A gente acaba percebendo isso. Diga uma coisa: quando começa a ficar daquele jeito, não há nada que possa fazer para se controlar? Já tentou?

Ela riu. — Mas não era um ataque. Eu não tenho ataques. Estava apavorada e furiosa porque prenderam meu pai por assassinato, e eu sabia que o coitado era inocente, mas aparentemente eles tinham provas, e fui informada de que o senhor as fornecera... Como poderia ser razoável com uma coisa dessas? É a primeira vez que venho a este estranho país... a América é um lugar horroroso.

— Algumas pessoas discordariam da senhorita.

— Suponho que sim... suponho que não seja o país em si... possivelmente seja a gente que vive aqui... Oh, peço desculpas, não me refiro ao senhor, ou ao senhor Goodwin... Tenho certeza de que são muito gentis, e o senhor Goodwin, com a esposa e tantos filhos...

— Como? — Wolfe me dirigiu um olhar zombeteiro. — As crianças estão bem, Archie?

— Bem, obrigado. — Fiz um gesto. — Aqueles pestinhas. Morro de saudades deles quando viajo. Mal posso esperar a hora de voltar para casa.

Berin tirou o cachimbo da boca para me dizer — Crianças são ótimas, mas minha filha... — Ele deu de ombros. — Ela é uma boa filha, naturalmente, mas me deixa louco! — Ele se inclinou para bater no joelho de Wolfe com o cachimbo. — Por falar em voltar para casa. Será verdade, como disseram, que os miseráveis podem nos obrigar a ficar aqui enquanto desejarem? Só porque Laszio levou uma facada nas costas? Minha filha e eu partimos hoje à noite para Nova York, e depois para o Canadá. Estou fora da cadeia, mas não estou livre. E assim?

— Temo que sim. Estava pensando em pegar o trem da meia-noite para Nova York?

— Sim. Mas agora eles estão dizendo que ninguém vai sair deste lugar até que descubram quem foi que matou o miserável! Se formos obrigados a esperar que o imbecil do Tolman e o outro, de olhos miúdos, façam isso... — Ele encheu o cachimbo de novo e tirou baforadas até encher o local de fumaça.

— Mas não precisamos esperar por eles. — Wolfe suspirou. — Graças a Deus. Eu creio, senhor, que será mais sábio arrumar as malas, e confirmar as reservas para o trem, caso as tenha, Felizmente o senhor não precisou esperar até que o senhor Tolman descobrisse a verdade sobre os molhos. Se precisasse...

— Eu poderia estar preso até agora. Sei disso. Poderia acabar assim. — Berin usou a mão para imitar um machete cortando sua cabeça. — Certamente estaria até agora na cadeia, e em três dias morreria de fome. Nós, os catalães, sabemos enfrentar a morte quando ela chega, mas, pelo amor de Deus, um homem que consegue engolir aquela comida não é um homem, não é sequer um animal! Sei o quanto lhe devo, e rezei para que fosse abençoado a cada bocado do meu almoço. Discuti a questão com Servan. Disse a ele o quanto devo ao senhor, e que não concedo a homem algum a honra de permanecer em débito para com ele. Disse a Servan que preciso pagá-lo... mas ele me avisou que o senhor não aceitaria pagamento. E ele é nosso anfitrião aqui, um diplomata. Soube que ofereceu dinheiro, e que o senhor recusou, indignado. Compreendo e respeito seus sentimentos, uma vez que é nosso convidado de honra...

Outra batida na porta fez com que eu deixasse Wolfe cozinhando no caldo da sopa que ele havia preparado. Eu sabia que algum dia ele ia acabar falando demais, e, enquanto ia até o foyer, eu dava risada — admito, maliciosa — e pensava como seria, naquele momento, sentir-se como uma joia na almofada da hospitalidade.

O recém-chegado era Vukcic, apenas. Mas sua presença teve o mesmo efeito que um tiro disparado pela janela sobre a conversa, que deixou o tema vulgar dos pagamentos por serviços prestados. Vukcic estava com problemas. Parecia embaraçado, melancólico, nervoso e distraído. Os Berin saíram poucos minutos depois de sua chegada. Ele parou na frente de Wolfe, braços cruzados, carrancudo, e disse que, apesar da impertinência de Wolfe naquela manhã, quanto a uivos no alto do morro, seu dever enquanto amigo era comparecer pessoalmente para hipotecar solidariedade e lamentar o ataque sofrido...

Wolfe foi ferino — Levei um tiro há seis horas. Poderia já estar morto a esta altura.

— Ah, não diga isso, Nero. Claro que não. Soube que apenas o rosto foi atingido, e pelo que posso ver...

— Perdi um litro de sangue. Archie! Você falou um litro, não foi?

Eu não tinha falado nada, mas minha lealdade é indiscutível. — Sim, senhor. Pelo menos isso. Quase dois. Claro, não parei para medir exatamente a quantidade, mas jorrava como cascata, como as cataratas do Niágara...

— Já basta. Muito obrigado.

Vukcic continuou em pé, cenho franzido. Seu topete caía nos olhos, mas ele não descruzou os braços para penteá-lo com os dedos. Ele resmungou — Sinto muito. Sei que foi por pouco. Se tivessem conseguido matar você... — Pausa. — Bem, Nero, quem foi?

— Não sei. Não tenho certeza. Por enquanto.

— Está tentando descobrir?

— Sim.

— Foi o assassino de Laszio?

— Sim. Maldito seja! Gosto de mexer a cabeça quando falo, mas agora não posso. — Wolfe encostou os dedos cuidadosamente no curativo, sentiu a ferida e deixou que a mão caísse novamente. — Vou lhe dizer uma coisa, Marko. Esta névoa que se ergueu entre seus olhos e os meus não pode ser ignorada, e seria fútil discutir o assunto. Só posso dizer que em pouco tempo ela desaparecerá.

— Será? Como?

— Através do desenrolar dos fatos. Por obra de Átropos, e por obra minha, o agente da Parca. De qualquer forma, conto com isso. Neste meio tempo, não há nada que possamos dizer um ao outro. Você está enfeitiçado novamente — desculpe, não pretendia mencionar isso. Como pode ver, não dá para conversarmos. Eu o ofenderia, e você me aborreceria mais do que consigo aguentar. Au revoir, Marko.

— Deus do céu. Não nego que eu tenha sido enfeitiçado.

— Sei disso. Você sabe bem o que está fazendo, mas não consegue parar. Obrigado por ter vindo.

Neste momento Vukcic descruzou os braços para passar a mão no cabelo. Fez isso três vezes, vagarosamente, e depois, sem dizer mais nada, deu as costas e saiu.

Wolfe ficou quieto por um longo tempo, de olhos fechados. Depois suspirou profundamente e me pediu que pegasse o texto do discurso para o ensaio final.

As únicas interrupções desta vez foram alguns chamados telefônicos, de Tolman, Clay Ashley e Louis Servan. Lá pelas seis tivemos outra visita e, quando abri a porta, vi que se tratava de Raymond Liggett, do Hotel Churchill. Meu sorriso de boas-vindas foi acionado imediatamente, pois senti o cheiro de honorários no ar. Afinal de contas, uma das coisas que mais estavam me irritando, dentre muitas, era o desprazer de ver Wolfe gastando seu cérebro, estourando dinheiro em interurbanos longos e em drinques para quatorze homens de pele escura, perdendo duas noites de sono, levando um tiro, com uma provável cicatriz permanente como lembrança, sem aumentar sua conta bancária. Paralelamente, também havia a questão do emprego do meu amigo Odell. Não que eu devesse algo ao detetive do hotel, mas quem está no ramo de investigações na área de Nova York nunca sabe em que lugar vai ser conveniente encontrar um rosto amigo. Ter um protegido meu como detetive da casa no Churchill, ou mesmo como segurança, poderia ser muito útil um dia.

Sem dúvida, eu tinha a sensação de que havia honorários a caminho. A primeira coisa que Liggett disse, depois de se sentar e demonstrar os sentimentos apropriados pelo ferimento no rosto de Wolfe, foi que um dos motivos de sua visita era perguntar a Wolfe se estava disposto a reconsiderar a questão de convencer Berin a aceitar o cargo de chef de cuisine do Hotel Churchill.

Wolfe murmurou — Fico surpreso que ainda o queira — um homem que foi acusado de assassinato. E a publicidade negativa?

Liggett descartou isso com um gesto. — Por que não? As pessoas não comem a publicidade; elas comem comida. E você conhece o prestígio de Berin. Francamente, estou mais interessado em seu prestígio do que em sua arte. Tenho uma equipe ótima na cozinha, de ponta a ponta.

— Então quer dizer que as pessoas comem o prestígio. — Wolfe tamborilou calmamente na barriga. — Não creio que possa fazer nada.

Liggett deu seu sorriso fino. Os olhos cinzentos pareciam tão irritados quanto na quarta-feira de manhã, ou mais. Menos não. Ele deu de ombros. — Bem, ao que parece, eles gostaram do que fez. Para Berin. Sei que ontem de manhã você disse que não aceitaria este serviço, mas também disse que não iria investigar o assassinato de Laszio, e pelo que soube reconsiderou esta questão. Ashley disse que o senhor conseguiu um feito notável. Não sei bem o que foi.

Wolfe inclinou a cabeça meio centímetro. — Obrigado.

— É o que Ashley diz. Além disso, foi esta sua descoberta, seja lá qual for, que levou à libertação de Berin. Ele sabe muito bem disso, e portanto o senhor está em uma condição especialmente vantajosa para sugerir a ele — ou mesmo pedir — que aceite o emprego. Já expliquei ontem por que estou particularmente ansioso para contratá-lo. Posso acrescentar, confidencialmente...

— Não quero ouvir confidências, senhor Liggett.

Liggett ignorou o comentário com um gesto impaciente. — Não chega a ser um segredo. Um concorrente está atrás de Berin há dois anos. Trata-se de Branting, do Alexander. Soube que Berin tem uma reunião com Branting, em Nova York, amanhã à tarde. Foi este o principal motivo que me trouxe aqui. Preciso contratá-lo antes que ele fale com Branting.

— E logo depois de sua chegada ele foi preso. Uma pena. Mas ele está solto agora, neste exato minuto encontra-se no pavilhão Pocahontas, com toda a certeza. Saiu daqui há duas horas. Por que diabos não vai lá e fala logo com ele?

— Expliquei tudo ontem. Porque acho que não conseguirei convencê-lo. — Liggett inclinou-se para a frente. — Olhe aqui. A situação no momento é ideal. Seus esforços o tiraram da cadeia, ele é impulsivo e emotivo, e está cheio de gratidão. Pode resolver tudo com uma conversa. O problema é que não sei o que Branting andou oferecendo a ele, ou pretende oferecer, mas seja o que for eu cubro. Disse ontem que gostaria de contratá-lo por quarenta mil, mas chegaria a sessenta mil por ano, se fosse preciso. Agora o tempo é curto, e creio poder chegar a setenta. Pode começar falando em cinquenta...

— Eu não concordei em falar nada.

— Mas eu estou dizendo ao senhor. Pode oferecer cinquenta mil dólares por ano. Sei que supera em muito o que ele ganha em San Remo, mas talvez ganhe uma porcentagem lá. De qualquer forma, Nova York é diferente. E se conseguir fisgá-lo vai ganhar dez mil dólares em dinheiro.

Wolfe ergueu as sobrancelhas. — Está louco por ele, não é?

— Preciso dele. Os diretores da empresa já discutiram o assunto — afinal de contas, Laszio estava ficando velho — e exigiram sua contratação. Claro, não sou o dono do Churchill, apesar de ter uma boa quantidade de ações. Ainda tem tempo para botar o time em campo, antes do jantar. Gostaria de ter vindo mais cedo, esta tarde, quando eles trouxeram Berin de volta, mas por causa de seu acidente...

— Não foi um acidente. Os acidentes são involuntários. — Wolfe tocou o curativo. — Isso foi intencional, ou pior...

— Claro, tem razão. Vai falar com Berin agora?

— Não.

— Esta noite?

— Não.

Liggett deu um pulo. — Como assim, você é louco? Tem uma chance de ganhar dez mil dólares! — Ele estalou os dedos — Desse jeito! Por que não?

— Não é meu ramo agenciar cozinheiros. Sou detetive. Atuo só na minha área.

— Não estou pedindo que você vire profissional. Só vai exigir, nestas circunstâncias, um bom papo com Berin. Pode dizer que ele vai ser chef executivo, com controle completo, sem interferência da administração do hotel, sem ter de prestar contas de nada, fora resultados. Nossa administração de custos é feita...

Wolfe apontou o dedo. — Senhor Liggett, por favor. Está perdendo seu tempo. Não irei falar com o senhor Berin sobre o Hotel Churchill.

Silêncio. Disfarcei um bocejo. Fiquei surpreso por Liggett não ter batido com a cabeça na parede de exasperação, uma vez que suas tendências apontavam naquela direção, mas tudo o que fez foi ficar sentado, duro, sem mexer um músculo, olhando para Wolfe. Este, também imóvel, o encarou com os olhos semicerrados.

O silêncio ocupou um minuto inteiro. Finalmente Liggett disse, em tom calmo, sem nenhuma exasperação na voz — Pagarei vinte mil em dinheiro se conseguir Berin para mim.

— Não estou tentado, senhor Liggett.

— Posso chegar a trinta mil. Em moeda corrente, amanhã de manhã.

Wolfe tremeu um pouco, sem desviar os olhos. — Não. Não valeria a pena para o senhor. O senhor Berin é um chef de primeira, mas não é o único no mundo. Pense bem. Veja seu caso. Esta sua pretensão infantil é ridícula. Foi pessimamente aconselhado. Não deveria ter vindo falar comigo assim. Provavelmente o senhor é um homem razoável. Caso consultasse apenas seus próprios interesses e se guiasse só por suas opiniões e necessidades, estou certo de que jamais faria uma coisa dessas. O senhor foi mandado aqui, senhor Liggett. Sei disso. Era um erro que se poderia esperar, levando-se em conta quem o mandou. Puf! O senhor pode, suponho, retornar e relatar seu fracasso, mas, se precisar de conselhos novamente, consulte só a si mesmo.

— Não sei do que está falando. Estou fazendo uma proposta clara.

Wolfe deu de ombros. — Se sou incoerente, isso encerra a conversa. Relate o fracasso, então, a si mesmo.

— Não vou relatar nenhum fracasso. — Os olhos de Liggett eram duros como seu tom de voz. — Só vim conversar com o senhor porque parecia mais prático. Para evitar aborrecimentos. Posso fazer o que quer que seja sem sua ajuda.

— Então, por favor, faça.

— Mas ainda assim gostaria de evitar aborrecimentos. Pagarei cinquenta mil dólares.

Wolfe balançou a cabeça, de leve, quase imperceptivelmente. — Vai ter de comunicar seu fracasso, senhor Liggett. Se é verdade, como querem os cínicos, que cada homem tem seu preço, o senhor não conseguiu chegar ao meu com o dinheiro.

O telefone tocou. Quando um sujeito fica frio e rígido, gosto de manter os olhos nele, por precaução, de modo que contornei a poltrona de Liggett sem lhe dar as costas. A primeira voz no aparelho parecia a da garota de olhos azuis, dizendo que era um chamado de Nova York. Depois ouvi uma voz áspera pedindo para falar com Nero Wolfe, e fui informado de que o inspetor Cramer estava aguardando na linha. Passei o telefone.

— Para você. E o senhor Purdy.

Com um resmungo, ele conseguiu pegar o telefone. Sentou-se e encarou o visitante:

— Este é um assunto confidencial, senhor Liggett. E, uma vez que nossos entendimentos estão concluídos... se não se importa...

Liggett desistiu. Sem uma palavra, sem pressa nem hesitação, ele se levantou e foi embora. Acompanhei-o até o foyer, e quando saiu fechei a porta e passei a chave.

A conversa de Wolfe com Cramer durou mais de dez minutos, e desta vez me sentei e escutei o que foi dito, obtendo mais do que huns, mas não o suficiente para entender o quadro geral da situação. A mim parecia que Wolfe desconfiava da minha capacidade de dissimulação quando esta era necessária, de forma que, quando terminou de falar, eu estava pronto para exigir esclarecimentos detalhados, mas ele mal se acomodou na poltrona e o telefone tocou de novo. Desta vez ela disse que era um chamado de Charleston, e depois de alguns ruídos ouvi uma voz tão familiar quanto a da moça do Avon chama.

— Alô. Senhor Wolfe?

— Não, panaca, aqui é da Suprema Corte.

— Oi, Archie. Como vão as coisas por aí?

— Maravilhosas. Descansando um bocado. Espere, o senhor Wolfe vai falar. — Passei o aparelho. — Saul Panzer, de Charleston.

A conversa durou mais dez minutos, e forneceu mais algumas dicas e toques da alternativa que Wolfe aparentemente andava explorando, apesar de ainda assim parecer algo inacreditável. Quando terminou a conversa, Wolfe voltou a se recostar com cuidado, unindo os dedos no ponto culminante da barriga.

Ele perguntou — Que horas são?

Verifiquei no relógio. — Quinze para as sete.

Ele resmungou — Falta pouco mais de uma hora para o jantar. Não me deixe esquecer de levar o discurso no bolso quando formos para lá. Consegue lembrar de algumas coisinhas sem precisar anotar?

— Claro. Quanto precisar.