Cozinheiros Demais
Capítulo 1
Andando de um lado para outro, ao longo da plataforma ao lado do trem, na estação Pensilvânia, limpei o suor da testa e acendi um cigarro. Depois de ter passado pelo que passei, sentia que estaria pronto, assim que acalmasse um pouco os nervos, a entrar na concorrência para mudar a pirâmide de Queóps do Egito para o alto do Empire State Building usando só as mãos, e de maiô. Mas enquanto dava a terceira tragada fui interrompido pelas batidas em uma das janelas por que passava. Virei para espiar pelo vidro e dei de cara com a expressão desesperada de Nero Wolfe, sentado na poltrona da cabine que havíamos reservado em um dos pullmans último tipo, local onde eu finalmente conseguira depositá-lo intacto havia pouco. Ele gritou para mim através da janela fechada:
— Archie! Seu infeliz! Venha já pra dentro! O trem vai partir. As passagens estão com você!
Gritei de volta: — Você disse que aí dentro era abafado demais para fumar! São 9h32. Resolvi não ir mais! Divirta-se!
Caminhei bem devagar. Passagens uma ova. Não eram as passagens que o incomodavam. Ele morria de medo de ficar sozinho no trem, pois este era bem capaz de se mexer. Odiava coisas que se moviam, e gostava de dizer que nove entre dez lugares para onde as pessoas iam não eram nem um pouco melhores do que aqueles de onde vinham. Mas, graças à minha iniciativa, ele chegou à estação vinte minutos antes da partida, apesar de empecilhos como três valises, duas malas e dois sobretudos para uma viagem de quatro dias no mês de abril, Fritz Brenner parado nos degraus com os olhos cheios de lágrimas enquanto deixávamos a casa, Theodore Horstmann correndo para fora, após termos enfiado Wolfe no sedã, para fazer outras tantas dúzias de perguntas sobre as orquídeas, ou até mesmo os soluços do pequeno Saul Panzer, ao dizer adeus a Wolfe quando nos deixou na estação. Dava a impressão de que a gente ia para a estratosfera, conhecer a Lua e pegar estrelas perdidas.
E então, logo na hora em que esticava o pé para vencer o vão entre o trem e a plataforma, eu poderia ter agarrado uma estrela bem ali, ou pelo menos tocado em uma. Ela passou perto o suficiente para permitir que eu aspirasse de leve algo que poderia ter sua origem em um frasco de perfume, embora parecesse tão natural naquelas circunstâncias. E, apesar de seu rosto possivelmente ter sido maquiado, ele também transmitia uma impressão de tecnicolor permanente, dispensando retoques. Dei só uma olhada, mas pude perceber que a moça não era feita em série, mas todinha à mão. Ela largou o braço do homem alto e corpulento de capa curta e chapéu mole de feltro marrom, e entrou na frente, seguindo o carregador até o vagão atrás do nosso. Resmunguei para mim mesmo — Meu coração era tudo o que eu tinha, e agora se foi. Eu deveria ter posto uma venda. — Dei de ombros com indiferença fingida e entrei no trem quando gritaram o todos-a-bordo.
Em nossa cabine, Wolfe ficou com a poltrona grande da janela, mantendo-se agarrado a ela com as duas mãos. Ainda assim, ele se enganou quanto ao instante da partida, balançando para a frente e para trás com o solavanco. Acompanhei com o canto do olho a fúria que tomava conta dele, resolvido a ignorar o assunto. Peguei uma revista na valise e me espremi na poltrona pequena do canto. Continuando agarrado aos braços da poltrona com as duas mãos, ele gritou para mim:
— Vamos chegar ao Kanawha Spa às 11h25, amanhã de manhã! Quatorze horas! Este vagão será atrelado a outra composição em Pittsburgh! Em caso de atraso, teremos de esperar pelos trens da tarde! Se acontecer algum problema com a locomotiva...
Interrompi friamente — Não sou surdo, senhor. E, apesar de seu direito de reclamar à vontade, pois a saliva é sua mesmo, protesto quanto à alusão, em palavras ou no tom de voz, de que sou de algum modo responsável por seu sofrimento. Preparei este discurso ontem à noite, sabendo que me seria útil. Esta viagem foi ideia sua. Desejava vir, ou pelo menos queria estar no Kanawha Spa. Há seis meses disse a Vukcic que estaria lá no dia 6 de abril. Agora arrepende-se. Eu também. Quanto à locomotiva, eles usam somente as melhores e mais novas, nestes trens de primeira, e só uma criança...
O comboio começava a ganhar velocidade, depois de passar pelo túnel por baixo do rio, enquanto chocalhava por entre os pátios de Jersey. Wolfe gritou: — Uma locomotiva tem 2309 partes móveis!
Larguei a revista e sorri para ele, pensando que era bem possível. Ele sofria de fobia a trens, e não havia sentido em deixá-lo ficar remoendo isso, pois só tornaria as coisas piores para nós dois. Sua mente precisava ser desviada para outros assuntos. Mas, antes que eu pudesse escolher um tema mais agradável, uma interrupção provou que ele não estava desorientado, apesar de morto de medo na hora em que eu fumava um cigarro na plataforma. Ouvi batidas na porta, que se abriu para dar passagem a um camareiro com um copo e três garrafas de cerveja em uma bandeja. Ele armou um suporte para o copo e a primeira garrafa, que destampou, guardando as outras duas na prateleira junto com o abridor. Pegou depois o dinheiro que lhe dei como pagamento e saiu. Quando o trem balançou na curva, Wolfe fechou a cara furioso. Ao entrarmos na reta de novo, ele ergueu o copo e deu um, dois, cinco goles e o baixou vazio. Lambeu os lábios, tirando a espuma, e os limpou com o lenço, comentando sem o menor sinal de histeria:
— Excelente. Não posso esquecer de dizer a Fritz que a primeira veio na temperatura exata.
— Pode telegrafar da Filadélfia.
— Obrigado. Isso está sendo uma tortura, você bem sabe. Mas faça alguma coisa para justificar seu salário, senhor Goodwin. Pegue um livro em minha valise, o Inside Europe, de John Gunther.
Peguei a valise e procurei o livro até encontrá-lo.
Quando ocorreu a segunda interrupção, meia hora depois, estávamos viajando com rapidez e suavidade noite adentro, no interior de Jersey, as três garrafas de cerveja vazias. Wolfe franzia as sobrancelhas para o livro, que realmente lia, a julgar pelas páginas que virava ocasionalmente, e eu me arrastava pela parte final de um artigo sobre confrontação de provas na Revista de Criminologia. Não foi muito proveitoso, pois eu não estava em condições de me preocupar com o coteja-mento de provas, tendo a mente ocupada com a questão de como tirar a roupa de Nero Wolfe. Em casa ele fazia isso sozinho, claro, como era igualmente claro que eu não havia sido contratado para ser criado dele — servia apenas de secretário, guarda-costas, gerente, assistente de detetive e bode expiatório — mas o problema continuava a existir, e em duas horas seria meia-noite. Ele ainda estava de calça, e alguém teria de dar um jeito de removê-la sem desequilibrar o trem. Não que ele fosse desajeitado; é que praticamente não tinha experiência alguma de se equilibrar dentro de veículos em movimento. Puxar a calça com Wolfe deitado estava fora de questão, pois pesava algo entre 110 quilos e uma tonelada. Ele nunca tinha subido em uma balança, pelo que eu sabia, de modo que era necessário adivinhar seu peso. Meu palpite naquela noite seria alto; estava apavorado com a tarefa que tinha pela frente e disposto a considerar 140 quilos uma boa base de cálculo, quando ouvi batidas à porta. Mandei entrar.
Era Marko Vukcic. Eu sabia que estaria no trem, tinha escutado uma conversa telefônica entre ele e Wolfe na semana anterior. Mas eu o havia visto pela última vez no começo de março, quando jantou conosco na casa de Wolfe — um costume mensal. Era um dos dois únicos homens que Wolfe chamava pelo primeiro nome, exceção feita aos empregados. Fechando a porta atrás de si, ele ficou ali parado, imenso sem ser gordo, como um leão em pé sobre as patas traseiras, sem um chapéu que cobrisse sua vasta cabeleira.
Wolfe gritou:
— Marko! Você conseguiu uma poltrona ou uma cama por aí? Por que fica galopando no ventre deste monstro?
O sorriso de Vukcic revelou o branco magnífico de seus dentes. — Nero, sempre o eterno ermitão! Não sou uma tartaruga dentro da gelatina, como você. De qualquer modo, você está realmente no trem, e isso é um triunfo. Consegui encontrá-lo, e também a um colega, no vagão de trás, alguém que não via fazia cinco anos. Sugeri que falasse com você. Ele ficaria encantado se fosse até a cabine onde está.
Wolfe apertou os lábios. — Isso, presumo, é uma brincadeira. Eu não sou acrobata. Não pretendo levantar daqui antes de esta coisa parar. Vou esperar até desatrelarem a locomotiva.
— Bem, então... — Vukcic sorriu, olhando para a pilha de malas. — Parece que está levando bastante equipamento. Eu não esperava que você aceitasse se mexer, na verdade. Por isso vou trazê-lo aqui, se não se importa. Foi o que vim pedir.
— Agora?
— Neste exato momento.
Wolfe balançou a cabeça. — Por favor, Marko. Olhe para mim. Não estou em condições de fazer cortesias ou conversar.
— Só alguns instantes, então. Apenas um cumprimento. Foi sugestão minha.
— Não. E melhor não. Você não percebe que se esta coisa parar de repente, por causa de um obstáculo ou capricho demoníaco, nós todos seguiremos em frente, a 120 quilômetros por hora? Acha que esta é uma situação adequada para amenidades sociais? — Ele comprimiu os lábios de novo, movendo-os em seguida para pronunciar com firmeza — Amanhã.
Vukcic, provavelmente tão acostumado quanto Nero Wolfe a ver tudo feito do seu jeito, tentou insistir, mas não adiantou nada. Ele procurou distraí-lo com brincadeiras, o que também não funcionou. Bocejei. Vukcic finalmente desistiu, dando de ombros. — Está bem, então, amanhã. Se não toparmos com nenhum obstáculo, e se ainda estivermos vivos. Vou dizer a Berin que você já foi dormir...
— Berin? — Wolfe aprumou-se, e até mesmo largou o braço da poltrona, que apertava até agora. — Não seria Jerome Berin?
— Certamente. Ele é um dos quinze.
— Traga-o. — Wolfe havia fechado os olhos. — Sem dúvida. Quero vê-lo. Por que não disse de uma vez que era Berin?
Vukcic ergueu as mãos e partiu. Em três minutos estava de volta, abrindo a porta para a entrada do colega. Só que apareceram duas pessoas. Primeiro entrou a mais importante, em minha opinião. Ela havia tirado o casaco, mas ainda usava o chapéu, e o perfume, suave e fascinante, era o mesmo que eu havia sentido quando passou por mim na plataforma da estação. Naquele momento tive a chance de observar que ela era jovem como eu sonhara, e que os olhos, naquela luz, pareciam ser purpúreos, de tão escuros, e os lábios indicavam que sorria naturalmente, mas sempre com delicadeza. Wolfe dedicou-lhe uma olhada rápida e atônita, transferindo sua atenção para o homem alto e corpulento que entrou atrás dela, a quem reconheci, mesmo sem a capa marrom e o chapéu mole de feltro.
Vukcic havia contornado os dois. — Senhor Nero Wolfe, senhor Goodwin. Senhor Jerome Berin. A filha dele, senhorita Constanza Berin.
Fiz um gesto com a cabeça e deixei que eles se dedicassem aos cumprimentos, virando a poltrona na direção desejada. No final da acomodação, os três grandalhões ficaram com as poltronas, e a moça dos meus sonhos, com a cadeira pequena. Eu me sentei em uma mala, a seu lado. Então percebi que meu ângulo de visão era desfavorável e me virei, dando as costas para a parede, de modo a vê-la melhor. Ela me brindou com um sorriso discreto, inocente e amigável, e me deixou em paz. Pelo canto do olho vi Wolfe se arrepiar quando Vukcic acendeu um charuto, e Jerome Berin encheu o enorme cachimbo preto antigo, colocando-o em ação em meio a nuvens de fumaça. Uma vez que soube ser ele o pai da moça, não abrigava outro sentimento em relação ao sujeito que não fosse a boa vontade. Tinha cabelos negros, com mechas grisalhas abundantes, uma barba bem aparada, em parte também grisalha, e olhos negros brilhantes.
Ele disse a Wolfe — Não, esta é minha primeira visita aos Estados Unidos. Mas já deu para sentir a natureza de sua força. Nenhuma corrente de ar neste trem. Nenhuma! E o movimento é suave como o vôo de uma gaivota! Maravilhoso!
Wolfe deu de ombros, mas ele não notou. E prosseguiu. Mas me deixou apavorado quando falou em “primeira visita aos Estados Unidos”. Inclinado para a frente, murmurei para a princesa dos meus sonhos — Você fala inglês?
Ela sorriu para mim. — Oh, claro. Muito bem. Moramos em Londres durante três anos. Meu pai trabalhava no Tarleton.
— Que bom! — Mexi a cabeça e recuei um pouco para focalizá-la melhor. Refleti sobre quanto havia sido sábio ao não me amarrar a nenhuma das tentações anteriores que passaram por minha vida. Se eu o tivesse feito, estaria agora rangendo os dentes. A atitude correta a tomar é segurar tudo, até que os dentes estejam gastos demais para ranger. Mas não havia lei alguma contra olhar.
Seu pai estava comentando — Vukcic disse que você será o convidado de honra de Servan. E que a última noite ficará por sua conta. É a primeira vez que um americano recebe essa honraria. Em 1932, em Paris, quando Armand Fleury ainda vivia e era o decano, foi a vez de o premiê da França discursar para nós. Em 1927 convidamos Ferid Khaldah, que ainda não era profissional. Vukcic me contou que você é um agent de sûreté. É verdade? — Ele avaliou o diâmetro de Wolfe.
Wolfe meneou a cabeça. — Não exatamente. Não sou policial, e sim detetive particular. Preparo armadilhas para criminosos, e procuro provas que possam mandá-los para a prisão ou para a morte, por dinheiro.
— Maravilhoso! Que trabalho mais sujo!
Wolfe ergueu os ombros por um centímetro, em sinal de pouco-caso, mas o trem o perturbou. Ele fez cara feia para o trem, não para Berin. — Talvez. Cada um de nós procura uma atividade que possa tolerar. O fabricante de carrinhos de bebê, preso às malhas do sistema, mas sem deter o monopólio da cobiça, aprisiona seus operários nas armadilhas da necessidade. Patriotas dolicocéfalos e patriotas braquicéfalos matam-se uns aos outros, e os cérebros de ambos apodrecem antes que suas estátuas possam ser erigidas. Um lixeiro recolhe os restos das mesas, enquanto um senador recolhe indícios de corrupção entre membros do alto escalão. Será que alguém não poderia preferir os restos, que são menos enojantes? Acontece que o lixeiro ganha menos, e é isso que importa. Eu não me vendo por qualquer quantia. Faço questão de cobrar muito.
Berin deixou passar. Abriu um sorriso. — Mas você não pretende discutir os restos da mesa conosco, não é?
— Não. O senhor Servan me convidou para falar sobre o que ele definiu como Contributions américaines à la haute cuisine.
— Bah! — Berin resmungou. — Não há nenhuma.
Wolfe ergueu as sobrancelhas. — Nenhuma, senhor?
— Nenhuma. Dizem que se pode encontrar uma boa comida nos lares americanos, mas ainda não a experimentei. Ouvi falar no cozido da Nova Inglaterra, em broa de milho, chowder de mariscos e gravy ao leite. Pratos para as multidões, que não devem ser desprezados quando bem preparados. Mas não são para os mestres. — Ele riu de novo. — Essas coisas estão para a haute cuisine assim como as canções românticas estão para Beethoven e Wagner.
— Diga — Wolfe apontou um dedo para ele —, você já comeu cágado refogado na manteiga, com caldo de galinha e xerez?
— Não.
— E já experimentou um filé grelhado servido na tábua, com cinco centímetros de altura, soltando seu rubro suco na faca, guarnecido com salsa-americana e fatias de lima cortadas na hora, acompanhado de purê de batata que derrete na boca e rodeado de fatias grossas de cogumelos frescos malpassados?
— Não.
— Ou a dobradinha créole de Nova Orléans? Ou o presunto Boone County do Missouri, assado com vinagre, melado, Worcestershire, sidra doce e ervas? Ou galinha Marengo? Ou frango em molho de ovo talhado, com passas, cebolas, amêndoas, xerez e linguiça mexicana? Ou opossum do Tennessee? Ou lagosta Newburgh? Ou sopa de peixe da Filadélfia? Pelo que posso perceber, ainda não. — Wolfe apontou o dedo para ele. — O paraíso da gastronomia é a França, eu sei. Mas seria bom, antes de ir até lá, dar uma volta por aqui. Eu comi dobradinha à moda de Caen no Pharamond, em Paris. É sensacional, mas não supera a dobradinha créole, que, por evitar o excesso de vinho, jamais agride o estômago. Na minha juventude, quando eu me movia com mais facilidade, provei a bouillabaisse em Marselha, seu berço e seu templo, e só servia para encher a pança, lastro para estivadores, comparada com a que se prepara em Nova Orléans! Se a caranha vermelha não estiver disponível...
Pensei, por um segundo, que Berin estava cuspindo nele, mas vi que era só um congestionamento vocal causado pela indignação. Deixei que resolvessem isso entre si, e me debrucei na direção de Constanza novamente:
— Soube que seu pai é um grande cozinheiro.
Os olhos purpúreos voltaram-se para mim, as sobrancelhas levemente erguidas. Ela gorjeou — Ele é chef de cuisine no Corridona, em San Remo. Não sabia disso?
Fiz que sim. — Claro. Vi a lista dos quinze. Saiu ontem, no suplemento do Times. Só estava puxando conversa. Você também cozinha?
— Não. Odeio cozinhar. Mas sei fazer um café delicioso. — Ela olhou para mim, detendo-se na gravata. Eu usava a marrom-escura de bolinhas, com uma camisa bege de risca de giz. Ergueu os olhos para meu rosto novamente. — Não ouvi seu nome quando o senhor Vukcic fez as apresentações. Também é detetive?
— Meu nome é Archie Goodwin. Archibald significa sagrado e bom, mas apesar disso meu nome não é Archibald. Nunca ouvi uma garota francesa dizer Archie. Não quer tentar?
— Não sou francesa. — Ela franziu a testa. Sua pele era tão lisa que a ruga parecia um risco em uma bola de tênis nova. — Sou catalã. Certamente posso dizer Archie. Archiearchiearchie. Chega?
— Sim. Maravilhoso.
— Você é detetive?
— Sem dúvida. — Peguei a carteira, procurei lá dentro até encontrar uma licença de pesca que tirei no Maine, durante o último verão. — Olhe. Está vendo meu nome aqui?
Ela leu. — Pes... caria? — Pareceu intrigada, e a devolveu. — E Maine? Suponho que seja o seu arrondissement.
— Não. Não tenho nenhum. Existem duas espécies de detetive nos Estados Unidos: o tipo forte e o cerebral. Eu sou do tipo cerebral. Isso quer dizer que faço só uma pequena parte do trabalho pesado, como dar água aos cavalos, atirar nos prisioneiros e pôr graxa na escada. Em geral, o que faço é pensar. Por exemplo, quando querem que alguém pense no que fazer em seguida. O senhor Wolfe é do tipo forte. Vê como ele é grande e musculoso? Corre como uma gazela.
— Mas para que são os cavalos?
Expliquei pacientemente. — Há uma lei neste país estabelecendo que você só pode matar um homem se, como se dizia, tiver um cavalo contra ele, ou seja, se tiver prova de sua desonestidade. Quando dois ou mais homens jogam dados para ver quem paga a bebida, é frequente ouvir um deles dizer “você tem um cavalo”, ou “eu tenho um cavalo”, isto é, dados viciados. Não se pode matar um homem sem falar isso antes dele. Outra coisa que você pode ouvir um homem dizendo é “ninho de égua”, quando descobre uma brincadeira, porque há muitas éguas e nenhum cavalo. Outro problema acontece com as penas do cavalo. No caso de ele ter penas...
— O que é uma égua?
Pigarreei — O oposto de um cavalo. Como sabe, todas as coisas precisam de seu oposto. Não pode haver direita sem esquerda, ou topo sem fundo, ou bem sem mal. Do mesmo modo, não pode haver um cavalo sem uma égua. Se tivéssemos, por exemplo, dez milhões de cavalos...
Fui interrompido, indiretamente, por Wolfe. Eu estava interessado demais em minha conversa com a garota catalã para ouvir o que os outros falavam. Vukcic ergueu-se e convidou a senhorita Berin para acompanhá-lo ao vagão-restaurante. Pelo jeito, Wolfe havia manifestado o desejo de ter um diálogo confidencial com o pai da moça, e voltei os olhos na direção dele, tentando imaginar que espécie de charada estava preparando. Um dos dedos tamborilava levemente no joelho, de forma que percebi que o projeto era sério. Quando Constanza se levantou, eu a imitei.
Fiz um movimento com a cabeça. — Permitem? — E disse a Wolfe — Você pode mandar o camareiro ao vagão-restaurante, se precisar de mim. Ainda não terminei de falar sobre as éguas com a senhorita Berin.
— Éguas? — Wolfe olhou para mim desconfiado. — Não há nenhuma informação que ela possa querer sobre éguas que Marko não consiga fornecer. Vamos precisar — espero — de suas anotações. Sente-se.
Vukcic a levou embora. Fiquei de novo com a poltrona minúscula, sentindo vontade de lançar um ultimato exigindo oito horas de trabalho, mas sabia que um trem em movimento era o último lugar do mundo para isso. Sem dúvida, a história do cavalo seria decepcionante, contada por Vukcic, e poderia até manchar minha reputação para sempre.
Berin havia enchido o cachimbo novamente. Wolfe dizia, em um tom despreocupado que significava uma preparação para um ataque pesado — Eu gostaria, para começar, de relatar uma experiência que tive há vinte anos. Estou certo de que não vou chateá-lo.
Berin resmungou. Wolfe prosseguiu. — Aconteceu antes da guerra, em Figueras.
Berin tirou o cachimbo da boca. — É mesmo?
— Sim. Eu era apenas um jovem, mas mesmo assim estava na Espanha em missão confidencial para o governo austríaco. A pista de um homem me levou a Figueras, e às dez horas, uma noite, tendo perdido a hora do jantar, entrei em um pequeno estabelecimento, num canto da praça, e pedi comida. A senhora disse que não havia muita coisa, e trouxe vinho da casa, pão e um prato de salsichas.
Wolfe inclinou-se para a frente. — Senhor, Luculo jamais experimentou um salsicha como aquela. Nem Brillat-Savarin, Vatel ou Escoffier fizeram uma assim. Perguntei à senhora onde a conseguira. Ela disse que o filho as preparava. Implorei pelo privilégio de conhecê-lo. Ela disse que não estava em casa. Pedi a receita. Ela declarou que ninguém sabia, exceto o filho. Perguntei o nome dele. Ela disse que era Jerome Berin. Comi mais três pratos de salsichas, e marquei um encontro com o filho, ali mesmo, na manhã seguinte. Uma hora depois, minha presa tentou escapar para Port-Vendres, onde pegou um barco para Argel, e eu tive de segui-lo. A perseguição acabou me levando até o Cairo, e outras missões impediram que eu visitasse a Espanha novamente, antes do início da guerra. — Wolfe se recostou e suspirou. — Ainda posso fechar os olhos e sentir o sabor daquela salsicha.
Berin mexeu a cabeça, e franziu a testa. — Uma história curiosa, senhor Wolfe. Um verdadeiro elogio, e eu agradeço. Mas naturalmente a saucisse minuit...
— Não era conhecida como saucisse minuit naquele tempo. Era apenas a salsicha caseira de um pequeno hotel em uma cidadezinha da Espanha. Este é o ponto que quero enfatizar, é com isso que desejo impressioná-lo: em minha juventude, sem possuir paladar treinado, em circunstâncias difíceis e em um local desconhecido, percebi que aquela salsicha era uma obra de arte. Lembro muito bem: quando comi a primeira, suspeitei e temi que havia sido apenas uma mistura descuidada e acidental de ingredientes. Mas as outras eram iguais, assim como todas as que vieram nos três pratos seguintes. Coisa de gênio. Meu paladar reconheceu isso ali. Não sou um dos que vão de Nice ou Monte Carlo até o Corridona, em San Remo, para almoçar, só porque Jerome Berin é famoso e a saucisse minuit sua obra-prima. Não precisei esperar pela fama para perceber sua grandeza. Se eu fizesse uma viagem até lá, não seria por afetação, mas pela comida.
Berin mantinha o cenho franzido. Ele resmungou — Preparo outras coisas, além de salsichas.
— Mas é claro. O senhor é um mestre. — Wolfe apontou o dedo para ele. — Parece que eu o desagradei. Devo ter sido desajeitado, pois este deveria ser o preâmbulo para um pedido. Não pretendo discutir sua previsível recusa, durante vinte anos, a revelar a receita da salsicha; um chef de cuisine precisa pensar também em si, e não só na humanidade. Conheço as tentativas feitas para imitá-la. Todas fracassaram. Eu posso...
— Fracassaram? — Berin rugiu. — Eram insultos. Crimes!
— Sem dúvida. Concordo. Percebo que sua atitude é razoável, pois impediu as atrocidades que seriam perpetradas em dez mil cozinhas de restaurantes de todo o mundo, caso divulgasse a receita. Existem poucos cozinheiros excepcionais, um punhado de bons cozinheiros e uma horda peçonhenta de incompetentes. Tenho um bom em minha casa, o senhor Fritz Brenner. Ele não é muito inspirado, mas tem um desempenho satisfatório e se destaca nos detalhes. Uma pessoa muito discreta, assim como eu. Suplico — este é o pedido que venho ensaiando fazer — eu imploro, diga a receita da saucisse minuit.
— Meu Deus do céu! — Berin quase deixou cair o cachimbo. Ele o apertou, e manteve os olhos fixos em Wolfe. Depois riu. Ergueu os braços e balançou-os, e gargalhou como se nunca mais fosse ouvir uma piada na vida, e precisasse gastar todas as risadas naquela. Finalmente parou, lançando um olhar de desprezo. — Para você? — Quis saber, em tom de escárnio. Era desagradável, especialmente vindo do pai de Constanza.
Wolfe retrucou calmamente — Sim, senhor. Para mim. Eu não abusarei de sua confiança. Não a revelarei a ninguém. Não será servida a pessoa alguma, exceto ao senhor Goodwin e a mim. Não pretendo me exibir. Só quero comê-la. Eu tenho...
— Meu Deus! Inacreditável. Você realmente pensa que...
— Não, eu não penso. Apenas peço. Desejará, sem dúvida, investigar minha pessoa. Pagarei os custos dessa investigação. Eu nunca voltei atrás em minha palavra. Além das despesas, eu pagarei três mil dólares. Recentemente recebi honorários razoáveis.
— Ora! Já me ofereceram quinhentos mil francos.
— Com propósitos comerciais. Desta vez é para meu uso particular, com garantias. Será preparada sob meu teto, com ingredientes adquiridos pelo senhor Goodwin, que, garanto, é imune à corrupção. Tenho uma confissão a fazer. Em quatro oportunidades, entre 1928 e 1930, quando o senhor estava no Tarleton, um homem de Londres foi até lá, pediu saucisse minuit, levou um pouco no bolso e a enviou para mim. Tentei fazer uma análise — pessoalmente, depois via especialistas em alimentação, cozinheiros e químicos. Os resultados foram completamente insatisfatórios. Aparentemente, é uma combinação de ingredientes e métodos. Eu...
Berin perguntou, quase rosnando — Foi Laszio?
— Laszio?
— Phillip Laszio. — Pronunciou o nome como se fosse uma maldição. — Você disse que um cozinheiro tentou analisar...
— Ah. Não foi Laszio. Eu não o conheço. Confessei isso em uma tentativa de mostrar que o entusiasmo me levou a buscar desvendar o segredo, mas eu respeitaria um acordo para mantê-lo e não o trairia nunca. Novamente eu confesso: concordei com esta viagem horrenda, mas não foi só pela honra do convite. Meu principal objetivo era encontrá-lo. Tenho apenas mais algum tempo de vida, e tantos livros para ler, tantas ironias para meditar a respeito, e tantas refeições para comer. — Ele suspirou, semicerrou os olhos e os abriu novamente. — Cinco mil dólares. Detesto pechinchar.
— Não — Berin foi duro. — Vukcic estava sabendo desta história? Foi para isso que me trouxe até aqui?
— Senhor. Por favor! Eu falei em confiança. Esta ideia não foi discutida com ninguém. Comecei implorando. Faço isso novamente. Vai me atender?
— Não.
— Em hipótese alguma?
— Não.
Wolfe suspirou, olhando para a barriga. Balançou a cabeça. — Sou um jumento. Nunca deveria ter tentado uma coisa dessas em um trem. Não me reconheço aqui. — Ele inclinou-se para a campainha na estante. — Gostaria de tomar uma cerveja?
— Não — Berin resmungou. — Quer dizer, sim. Gostaria de uma cerveja.
— Ótimo. — Wolfe recostou-se na poltrona e fechou os olhos. Berin acendeu o cachimbo de novo. O trem deu um solavanco em uma junção, e balançou na curva. O braço de Wolfe procurou o apoio da poltrona e o agarrou. O camareiro chegou para anotar o pedido, e em pouco tempo retornava com os copos e as garrafas. Ele nos serviu, e mais uma vez meti a mão no bolso para acertar a conta. Sentei-me e esbocei salsichas em uma página em branco de meu caderno de despesas enquanto bebíamos cerveja.
Wolfe disse — Muito grato, senhor, por aceitar esta cerveja. Não há razão para não sermos amigos. Tenho a impressão de que comecei com o pé esquerdo. Mesmo antes de fazer meu pedido, enquanto relatava um caso que só poderia ser considerado elogioso, seu olhar era hostil. Senti sua desaprovação. Qual foi meu erro?
Berin estalou os lábios ao baixar o copo vazio, e suas mãos desceram em um movimento involuntário até o canto de um avental que não estava lá. Procurou um lenço, que usou, inclinou-se para a frente e bateu no joelho de Wolfe com o dedo. — O senhor vive no país errado.
Wolfe ergueu as sobrancelhas. — É? Espere até experimentar o cágado à Maryland. Ou mesmo, se me permite, torta de ostra à la Nero Wolfe, preparada por Fritz Brenner. Em comparação com as ostras dos Estados Unidos, as existentes na Europa não passam de pústulas de protoplasma cor de cobre.
— Não estou falando de ostras. Você vive em um país que permite a presença de Phillip Laszio.
— Entendo. Eu ainda não o conheço.
— Mas ele faz suas gororobas no Hotel Churchill, na cidade de Nova York! Deve saber disso.
— Ouvi falar dele, certamente, uma vez que faz parte de seu grupo...
— Meu grupo? Ah! — As mãos de Berin, em um movimento largo e rápido, jogaram Phillip Laszio pela janela. — Do meu grupo? Nunca!
— Perdoe-me. — Wolfe inclinou a cabeça. — Mas ele faz parte de Les Quinze Maîtres, e o senhor também. Está sugerindo que o sujeito não vale nada?
Berin deu outro tapinha no joelho de Wolfe. Sorri ao ver Wolfe, que não gostava de ser tocado, reprimir sua aversão por causa das salsichas. Berin disse lentamente, entredentes — Laszio só serve para ser cortado em pedacinhos e dado aos porcos! Não, nem isso, pois o presunto seria intragável. Só cortado em pedacinhos. — Ele apontou para o chão. — E enterrado. Vou dizer uma coisa. Conheço Laszio há muitos anos. Será que ele é turco? Ninguém sabe. Ninguém sabe seu nome. Ele roubou o segredo de Rognons aux Montagnes de meu amigo Zelota de Tarragona, em 1920, e reivindicou a paternidade da criação. Zelota vai matá-lo. Já afirmou isso. Ele roubou outras coisas também. Foi eleito para Les Quinze Maîtres em 1927, apesar de meus protestos violentos. Sua jovem esposa — você a conhece? Ela se chama Di-na, é filha de Domenico Rossi, do Café Empire de Londres. Eu a tive no joelho tantas vezes! — Ele deu um tapa no joelho. — Como você bem sabe, seu amigo Vukcic casou-se com ela, e Laszio a roubou dele. Vukcic vai matá-lo, sem dúvida, mais dia menos dia! Ele é um cão, uma víbora que chafurda na imundície! Você conhece Leon Blanc, nosso querido amigo Leon, antes tão grande? Sabe que agora ele está marcando passo em um lugar medíocre chamado Clube Willow, em uma cidade chamada Boston? Sabe que durante muitos anos o Hotel Churchill, em Nova York, teve a honra de contar com sua presença, como chef de cuisine? Sabe que Laszio roubou o lugar dele — por meio de calúnias, de mentiras, de trapaças? Coitado do Leon, ele ainda vai matar Laszio! Sem dúvida. Justiça será feita.
Wolfe murmurou — Três vezes morto, Laszio. Outras mortes não o aguardariam?
Berin recostou-se novamente na poltrona, resmungando. — Sim. Eu mesmo vou matá-lo.
— É mesmo? Ele roubou alguma coisa de você também?
— Ele rouba a todos. Pelo jeito, Deus o colocou no mundo para roubar, e que Deus o defenda. — Berin levantou-se. — Cheguei a Nova York no sábado, no Rex. Na mesma noite fui com minha filha jantar no Churchill, levado por uma fúria irresistível. Fomos para o salão que Laszio chama de Resort Room. Não sei onde roubou essa ideia. Os garçons usam os uniformes de restaurantes mundialmente famosos, um diferente para cada garçom: Shepheard’s, do Cairo, Les Figuiers, de Juan-les-Pins, o Continental, de Biarritz, o Del Monte, aqui na Califórnia, o Kanawha Spa, para onde este trem nos leva — muitos deles, dúzias — tudo aqui é grande. Escolhemos uma mesa, e o que vi? Um garçom — um garçom carregando a gororoba de Laszio — usando o uniforme do meu restaurante, o Corridona! Imagine só! Eu tive vontade de ir até ele e exigir que o tirasse — eu poderia arrancar a roupa com minhas próprias mãos. — Ele as balançou violentamente na cara de Wolfe. — Mas minha filha me conteve. Disse que não permitiria que eu a envergonhasse. Mas e a minha vergonha? Não importa, então?
Wolfe mexeu a cabeça, em evidente solidariedade, esticando-se para servir a cerveja. Berin prosseguiu: — Felizmente a mesa dele era longe da nossa, e eu virei de costas para aquilo. Mas tem mais. Quer saber? Olhei para o menu. Em quarto lugar, nas entradas, o que era? O quê?
— Não era, espero, sanasse minuit.
— Sim! Isso mesmo! Incluída como uma das entradas! Claro, eu já havia sido prevenido. Sabia que Laszio servia havia anos couro moído temperado sabe-se lá com quê, chamando o resultado de saucisse minuit. Mas ver o nome ali, escrito como no meu próprio menu, foi demais! O salão inteiro, as mesas e as cadeiras, todos aqueles uniformes dançaram na frente dos meus olhos. Se Laszio tivesse aparecido naquele momento, eu o teria esganado com minhas próprias mãos. Mas ele não apareceu. Pedi duas porções ao garçom — minha voz tremeu quando pronunciei seu nome. Foram servidas em porcelana — bah! — e pareciam com... não preciso dizer com quê. Desta vez não dei chance para minha filha protestar. Peguei os pratos, um em cada mão, me levantei da cadeira e, deliberadamente calmo, virei o braço e larguei a massa infame no carpete! Naturalmente houve comentários. Meu garçom chegou correndo. Peguei minha filha pelo braço e fui embora. Fomos interceptados por um maître. Eu fiz com que se calasse! Disse a ele com autoridade: — Sou Jerome Berin, do Corridona de San Remo! Tragam Phillip Laszio aqui é mostrem a ele o que fiz! Mas me mantenham longe de sua garganta! — Não falei mais nada, praticamente. Não foi necessário. Levei minha filha para o Rusterman, onde encontrei Vukcic. Ele me acalmou com um prato de goulash e uma garrafa de Chateau Latour. De 29.
Wolfe balançou a cabeça. — Isso acalmaria um tigre.
— Foi o que aconteceu. Dormi bem. Mas, na manhã seguinte — ontem — sabe o que aconteceu? Um sujeito foi até meu hotel com um recado de Phillip Laszio, que me convidava para almoçar! Pode imaginar afronta maior? E tem mais ainda, isso não foi tudo. O homem que levou o recado chamava-se Albert Malfi!
— É mesmo? Eu deveria conhecê-lo?
— Hoje em dia não. Agora ele não é Alberto, e sim Albert — Albert Malfi, um descascador de frutas corso que descobri em um café de Ajaccio. Eu o levei para Paris — na época, eu estava no Provençal — e o treinei. Ensinei tudo a ele, transformei-o em um bom encarregado de entrées. Ele agora é o principal assistente de Laszio no Churchill. Laszio o roubou de mim em 1930, em Londres. Roubou meu melhor aluno, e riu na minha cara! E agora aquele francês descarado tem a coragem de enviá-lo com um convite para almoçar! Alberto aparece na minha frente, de terno, faz uma mesura e, como se nada tivesse acontecido, me dá um recado destes em inglês impecável!
— Suponho que o senhor não foi.
— Bah! Acha que eu comeria veneno? Botei Alberto para fora do quarto. — Berin deu de ombros. — Jamais me esquecerei. Uma vez, em 1926, quando estava doente, sem poder trabalhar, faltou isso — ele mostrou o polegar e o indicador, e uma distância de um centímetro entre os dedos — para eu dar a Alberto a receita da saucisse minuit. Deus do céu! Seu eu tivesse feito isso, ele a estaria preparando agora para o menu de Laszio! Terrível!
Wolfe concordou. Ele havia terminado outra garrafa e iniciou uma conversa suave, cheia de solidariedade e compreensão. Senti um desconforto palpável. Ele poderia ter percebido que era perda de tempo, não havia nenhuma chance de conseguir o que desejava. Fiquei indignado por vê-lo de joelhos tentando arrancar um favor daquele salsicheiro de olhos arregalados. Ademais, o trem me deu tanto sono que eu não conseguia manter os olhos abertos. Levantei-me.
Wolfe olhou para mim. — Pois não, Archie?
Disse em tom decidido: — Vagão-restaurante — e abri a porta, batendo-a atrás de mim.
Passava das onze da noite, e metade das cadeiras do vagão-restaurante estavam vazias. Dois sujeitos saudáveis, do tipo que posa para anúncio de brilhantina, bebiam highballs, e viam-se carecas e grisalhos esparsos, do tipo que chamava o camareiro de George havia trinta anos. Vukcic e a senhorita Berin estavam sentados na frente de dois copos vazios, e não pareciam animados ou extasiados. Perto dela, do outro lado, havia um tipo atlético, de queixo quadrado e olhos azuis, em um terno cinza discreto, que obviamente seria um self-made man em dez anos. Parei na frente de meus amigos e os cumprimentei. Eles responderam. O atleta de olhos azuis olhou por cima do livro e se preparou para se levantar e ceder o lugar a mim.
Vukcic, no entanto, ergueu-se primeiro. — Sente-se aqui, Goodwin. Tenho certeza de que a senhorita Berin não se importará com a troca. Passei a noite de ontem em claro.
Ele deu boa-noite e saiu. Eu me acomodei, e fiz sinal para o atendente quando ele botou o nariz para fora. Aparentemente, a senhorita Berin havia se apaixonado pela ginger ale americana. Eu pedi um copo de leite. Nossas necessidades foram atendidas e bebemos.
Ela virou os olhos purpúreos em minha direção. Pareciam mais escuros do que nunca e percebi que a questão só seria resolvida quando os visse à luz do dia. Ela perguntou, com sua voz levemente rouca — Você é detetive de verdade, não é? O senhor Vukcic estava me contando, ele janta na casa do senhor Wolfe uma vez por mês, e você mora lá. Disse que você é muito corajoso, que já salvou a vida do senhor Wolfe três vezes. — Balançou a cabeça e fixou os olhos em mim. — Mas nunca deveria ter me dito aquelas coisas sobre dar água aos cavalos. Deveria saber que eu faria perguntas e descobriria a verdade.
Eu disse com firmeza — Vukcic está neste país apenas há oito anos, e não sabe nada sobre detetives.
— Nada disso! — Ela gorjeou. — Não sou uma menina para cair numa dessas. Terminei o colégio há três anos.
— Está bem. — Fiz um gesto com a mão. — Esqueça os cavalos. Qual o tipo de escola frequentado pelas garotas de lá?
— Um colégio de freiras. Frequentei um em Toulouse.
— Você não é nem um pouco parecida com as freiras que conheço.
Ela terminou um gole de ginger ale e riu. — Eu não tenho nada de freira. Nem sou muito religiosa, gosto dos prazeres da vida. Madre Cecília costumava dizer para as meninas que uma vida dedicada aos outros era a mais pura e doce de todas, mas eu pensei bem no assunto e me pareceu que a melhor maneira era aproveitar a vida até ficar gorda ou doente, ou ter uma família enorme, e aí começar a dedicação aos outros. Você não concorda?
Mexi a cabeça, incerto. — Não sei. Sou muito envolvido com meu trabalho. Mas obviamente não se deve exagerar. Tem aproveitado bem a vida até agora?
Ela fez que sim. — De vez em quando. Minha mãe morreu quando eu era pequena, e meu pai é muito rigoroso comigo. Eu via como as garotas americanas agiam quando iam para San Remo, e achava que agiria do mesmo modo, mas descobri que não sabia como proceder, e de qualquer modo meu pai descobriu que eu saí velejando no barco de Lord Gerley para contornar o cabo, sem uma acompanhante.
— Mas Gerley estava junto.
— Sim, ele foi também, mas não trabalhou nada. Dormiu e caiu no mar, e eu precisei bordejar três vezes para resgatá-lo. Você gosta dós ingleses?
Ergui a sobrancelha. — Bem... suponho que possa gostar de um inglês, se as condições forem favoráveis. Por exemplo, se eu estiver em uma ilha deserta, sem nada para comer durante três dias, e ele conseguir pegar um coelho... ou, na falta deste, um javali ou uma morsa. Você gosta dos americanos?
— Não sei! — Ela riu. — Só encontrei alguns, desde a infância, em San Remo e agora aqui, e tenho a impressão de que eles falam coisas engraçadas e tentam bancar os superiores. Quero dizer, os homens. Gostei de um que conheci uma vez em Londres, um americano rico, com problemas de estômago, que se hospedou no Tarleton, e meu pai preparava pratos especiais para ele. Quando ele foi embora, me deu bons presentes. Acho que muitos dos que vi, desde minha chegada a Nova York, têm boa aparência. Vi um no hotel ontem que era muito bonito. O nariz dele era um pouco parecido com o seu, embora o cabelo fosse mais claro. Não sei dizer se gosto realmente das pessoas até conhecê-las muito bem...
Ela prosseguiu, mas eu estava ocupado, fazendo uma descoberta complicada. Quando ela parou de sorver a ginger ale, meus olhos desviaram-se de seu rosto para estudar o resto, e no momento em que cruzou a perna, como fazem as moças americanas, sem ligar muito para onde vai a saia, seus pés bem desenhados e o tornozelo bem torneado estavam entre os mais belos que eu já havia visto. Até aí, tudo bem. O problema foi ter percebido, no atleta de olhos azuis do lado oposto, a atenção desviada do livro para o mesmo objeto interessante com que eu me ocupava. Isso era óbvio. Minha reação íntima a esse fato foi anti-social e preocupante. Ao invés de sentir prazer em partilhar com um semelhante tal experiência deliciosa, tomei consciência de um impulso quase incontrolável de fazer duas coisas ao mesmo tempo: encarar o atleta e dizer a ela que puxasse a saia para baixo!
Contive meus impulsos, e refleti logicamente: havia apenas uma teoria que poderia justificar meu ressentimento por ele estar olhando para aquela perna e meu desejo de que parasse de fazer isso, a saber, que a perna me pertencesse. Obviamente, portanto, eu estava começando a achar que aquela perna era minha propriedade, ou então estava com um desejo crescente de que aquela perna fosse minha. A primeira hipótese era absurda: a perna não era minha propriedade. A segunda, perigosa, uma vez que, analisando a situação como um todo, havia apenas um método prático e ético de adquiri-la.
Ela ainda estava falando. Bebi o resto do leite de uma golada, o que não fazia parte de meus hábitos, esperei uma brecha e me virei na direção dela, sem correr o risco de mais um mergulho nos olhos escuros cor de púrpura.
— Tem razão — eu disse. — Leva mesmo muito tempo para se conhecer as pessoas. O que você pode dizer a respeito de alguém, antes de conhecê-lo bem? O amor à primeira vista, por exemplo, é ridículo. Nem é amor, apenas um desejo incontrolável de conhecimento. Lembro-me da primeira vez que vi minha esposa, em Long Island. Eu a atropelei com meu conversível. Ela não ficou muito machucada, mas eu a peguei no colo e a levei para casa de carro. Só depois que ela me processou, exigindo 20 mil dólares por danos, eu comecei a sentir o que se poderia chamar de amor por ela. Depois, o inevitável aconteceu, e as crianças começaram a nascer: Clarence e Merton, Isabel e Melinda, e Patrícia e...
— Tenho a impressão de que o senhor Vukcic disse que você não era casado.
Fiz um gesto de pouco-caso. — Não sou amigo íntimo de Vukcic. Eu e ele nunca discutimos problemas familiares. Você sabe que no Japão é de mau gosto mencionar sua mulher a outro homem, ou perguntar como está passando a dele? Seria o mesmo que perguntar se ele estava ficando careca ou se ainda conseguia se abaixar o suficiente para calçar a meia.
— Quer dizer que você é casado?
— Claro que sim. E muito feliz.
— E como se chamam seus outros filhos?
— Bem... acho que já citei os mais importantes. Os outros são só bebês.
Continuei falando, e ela também, na nova atmosfera. Eu me sentia como um homem que acabasse de ser salvo, na beirada de um perigoso precipício, porém um tanto triste. Logo em seguida uma coisa aconteceu. Não quero discutir o assunto; estou pronto a admitir que possa ter sido um acidente, mas devo descrever tudo como vi. Enquanto ela conversava comigo, sentada, seu braço direito ficou estendido ao longo do braço da poltrona ao lado, perto do atleta de olhos azuis, e ela segurava o copo pela metade de ginger ale. Não percebi em que momento o copo começou a virar, foi um movimento gradual e discreto; juro que ela continuava a olhar para mim. Quando me dei conta, era tarde demais. O líquido havia começado a pingar na discreta calça cinza do atleta. Eu a interrompi e estiquei o braço para pegar o copo. Ela virou o rosto e viu o que tinha feito, engasgando. O atleta ficou vermelho e procurou o lenço. Como disse, não pretendo discutir a respeito disso; só dizer que foi uma bruta coincidência ela começar a despejar ginger ale em um homem, quatro minutos depois de descobrir que o outro era casado.
— Oh! Meu Deus! Será que mancha? Si gauche! Estou tão envergonhada! Eu não reparei... não estava olhando.
O atleta disse: — Não, tudo bem... mesmo... mesmo... Não vai manchar... mesmo, não é?
E por aí afora. Mas ele se recuperou rapidamente, pois em um instante deixou de falar como chinês, aprumou-se e conversou comigo em sua própria língua — Não houve nenhum dano, senhor. Nada mesmo. Com sua permissão, sou Barry Tolman, promotor público da comarca de Marlin, em West Virginia.
Quer dizer que ele era um abutre, e político. Mas, apesar do fato de que a maioria dos meus contatos com promotores não tivesse fornecido nenhum motivo para que eu enfeitasse minha cabeceira com fotos deles, eu não vi vantagem em bancar o mal-educado. Disse meu nome a ele e apresentei Constanza, oferecendo um drinque como compensação pela bebida que havia sido derramada em cima dele.
Para mim, outro copo de leite, o que preencheria minha quota noturna. Quando veio, fiquei sentado bebendo, e evitei interferir no desenvolvimento de uma nova amizade que se processava ali do meu lado, a não ser por resmungos ocasionais, para mostrar que eu não estava emburrado. Quando meu copo estava pela metade, o senhor Barry Tolman dizia:
— Eu ouvi... perdão, mas não pude deixar de escutar... sua menção a San Remo. Nunca estive lá. Passei por Nice e Monte Carlo em 1931, e alguém, não me lembro quem disse que deveria conhecer San Remo porque era mais bonito do que qualquer outro lugar da Riviera, mas acabei não indo. Bem... agora... acredito que seja mesmo.
— Oh! Você deveria ter ido! — Sua voz se tornara levemente rouca de novo; fiquei feliz ao constatar isso. — As colinas e os vinhedos e o mar!
— Sim, claro. Adoro paisagens. O senhor não as aprecia, senhor Goodwin? As... — O ar estremeceu, com o rugido súbito de um trem ultrapassado pelo nosso. O ruído diminuiu. — As paisagens?
— Sem dúvida. — Fiz que sim e dei um gole.
Constanza disse — Lamento tanto que seja noite. Eu poderia estar olhando para fora, apreciando a América. Dá para ver as Montanhas Rochosas?
Tolman não riu. Eu não me dei ao trabalho de conferir se ele estava olhando para os olhos cor de púrpura. Sabia que este era o motivo. Ele disse que não, as Montanhas Rochosas estavam a mais de 2 mil quilômetros de distância. Entretanto, estávamos passando por lugares muito interessantes. Ele disse que havia estado na Europa três vezes, mas, no geral, não tinha nada lá que se comparasse aos Estados Unidos, exceto, é claro, os lugares históricos. Bem ali onde ele morava, em West Virginia, havia montanhas dignas de comparação com as da Suíça. O promotor jamais havia visto um lugar tão lindo como o vale onde morava, especialmente o local onde haviam construído o Kanawha Spa, o famoso hotel. Ficava em sua comarca.
Constanza exclamou — Mas é para lá que eu vou! Claro! Kanawha Spa!
— Eu... espero que sim. — Seu rosto ficou vermelho. — Quero dizer, três destes pullmans são reservados pelo Kanawha Spa. Achei que provavelmente... achei que seria possível ter oportunidade de encontrá-la, apesar de eu, claro, não participar da vida social do lugar...
— E fomos nos conhecer no trem. Claro, não ficarei lá por muito tempo. Mas, como você acha que é melhor do que a Europa, mal posso esperar para chegar. Mas devo avisá-lo que adoro San Remo e o mar. Suponho que, em suas viagens à Europa, levou a esposa e os filhos.
— Ah, não. — Ele estava grogue. — Puxa vida! Pareço tão velho assim, para ter esposa e filhos?
Pensei, sua besta quadrada, por que foi inventar aquela história? O leite estava no fim. Levantei-me.
— Com licença. Vou me certificar de que meu patrão não caiu do trem. Volto em seguida, senhorita Berin, para levá-la até seu pai. Não pode querer aprender todos os truques de uma garota americana logo no primeiro dia.
Nenhum dos dois irrompeu em lágrimas com minha partida.