Cozinheiros Demais
Capítulo 16
— Todas elas são importantes. Primeiro, preciso falar com o senhor Tolman. Suponho que esteja no hotel. Providencie. Depois preciso falar com o senhor Servan pelo telefone. Isso pode ser difícil. Creio que não seja comum a presença de convidados na última noite, mas nesse caso a tradição precisará ser violada. Enquanto eu estiver telefonando, você vai preparar o que for preciso, fazer as malas e providenciar que sejam enviadas para o trem. Pode ser que por volta da meia-noite nosso tempo seja curto demais. Peça também ao hotel que feche nossa conta, e pague-a. Por acaso ouvi você mencionar que trouxe o revólver? Ótimo. Creio que não será preciso usá-lo, mas leve-o. E pelo amor de Deus chame o barbeiro; não consigo fazer minha barba. Chame o senhor Tolman e comece a fazer as malas. Discutiremos o programa desta noite enquanto me visto...
16
A tradição foi violada, entreouvi alguns resmungos na sala grande, antes que a porta para a sala de jantar fosse aberta e Louis Servan surgisse no pórtico para nos convidar a entrar. A maior parte das reclamações, contudo, enquanto bebericavam xerez ou vermute em pequenos grupos espalhados, era dirigida contra a ordem recém-emitida de que nenhum deles poderia deixar o estado de West Virginia sem permissão das autoridades. Domenico Rossi fez um discurso sobre a questão, em voz alta o bastante para ser ouvido por Barry Tolman, que estava em pé ao lado do rádio, parecendo preocupado porém elegante. Ramsey Keith solidarizou-se com sua raiva. Jerome Berin, por sua vez, disse que era mesmo um ato bárbaro, mas eles seriam malucos se permitissem que qualquer coisa interferisse na digestão. Albert Malfi, com um ar meio decepcionado, mas com os olhos ainda dardejantes, parecia ter resolvido cortejar mamma Mondor como primeiro passo para a campanha eleitoral de 1942. Raymond Liggett estava sentado no sofá, conversando discretamente com Marko Vukcic. Meu amigo Tolman resolveu tomar uma atitude, mas quebrou a cara. Quando Constanza Berin entrou, ele se ergueu e foi em sua direção, com um ar resoluto, e falou. Ela o ignorou tão completamente que por um segundo eu pensei que ele não estivesse ali, e fosse só um delírio de minha imaginação.
Poucos minutos antes de seguirmos para a sala de jantar, Dina Laszio entrou. As conversas morreram. Rossi, seu pai, correu para recebê-la, tendo bem atrás de si Vukcic. Em seguida, vários outros foram prestar homenagem à viúva. Ela parecia uma viúva pesarosa tanto quanto eu parecia um dervixe alucinado, mas é claro que não se pode esperar que uma mulher leve um traje de luto sempre que saia de casa para uma pequena viagem com o marido, para o caso de o sujeito partir desta para melhor. E na verdade eu não poderia desaprovar o fato de ela ter resolvido comparecer ao banquete, uma vez que eu sabia que Nero Wolfe havia solicitado a Servan que ela estivesse presente e insistido muito nesse ponto.
Fiquei outra vez do lado de Constanza na mesa, o que era tolerável. Wolfe sentou-se à direita de Servan. Vukcic estava do lado oposto de Dina Laszio, um pouco para baixo. Liggett e Malfi estavam bem na minha frente, um ao lado do outro. Berin sentou-se no lado oposto de Wolfe, à esquerda de Servan, o que me pareceu uma grande honra para um cara recém-saído do xadrez, e ao lado dele estava Clay Ashley, tentando bancar o afável, mas sem muito sucesso. Os outros estavam espalhados, e o escasso suprimento de senhoras distribuído de modo uniforme. Ao nos sentar, vimos que em cada prato havia um menu rebuscado:
LES QUINZE MAÎTES
Kanawha Spa, West Virginia
Quinta-feira, 8 de abril de 1937
JANTAR AMERICANO
Ostras ao Forno em sua Concha
Cágado Maryland Pãezinhos Sovados
Peru Novo em Caçarola
Croquetes de Arroz com Geleia de Marmelo
Feijão-de-lima ao Creme Sally Lunn
Abacate Todhunter
Sorbet de Abacaxi Pão-de-ló
Queijo Fresco de Wisconsin Café
Servan supervisionava o serviço com dignidade solene e ansiosa, conforme os garçons comandados por Moulton entravam e saíam eficientemente. O primeiro prato deve ter ajudado a baixar o nível da ansiedade, pois as ostras estavam tão carnudas e saborosas, para não mencionar seu aroma, que pareciam ter sido alimentadas com amendoins e vacínios. Foram servidas com cerimônia e uma pitada de pompa. Quando os garçons terminaram de distribuir as assadeiras enormes, cada uma com uma dúzia de ostras, formaram uma fileira na frente do biombo — o mesmo que, 48 horas antes, escondera o corpo de Phillip Laszio — e a porta do hall da copa se abriu para a entrada de um cozinheiro de pele escura e avental e boné brancos imaculados. Ele aproximou-se, deu alguns passos, aparentando tanto embaraço que recuou novamente, mas Servan ergueu-se e chamou-o. Depois se dirigiu aos presentes, anunciando aos que estavam na mesa: — Gostaria de apresentar o senhor Hyacinth Brown, chef de peixes do Kanawha Spa. As ostras ao forno que os senhores estão a ponto de provar são obra dele. Poderão julgar se são dignas de ser servidas aos Quinze Maîtres. O senhor Brown gostaria que eu dissesse que ele aprecia esta honra. Não é mesmo, senhor Brown?
— Sim, senhor. Exatamente como disse.
Quando começaram os aplausos, Brown ficou tão embaraçado que fez uma mesura, deu as costas e foi embora. Os mestres ergueram os garfos e atacaram, acompanhados pelos outros. Ouvi huns e outros murmúrios de aprovação. Pierre Mondor afirmou com autoridade: — Excelente. Forno alto? — Servan fez que sim, sério, e os garfos voltaram a trabalhar.
A performance se repetiu com o cágado, mas desta vez os aplausos foram para Crabtree. Quando todos terminaram, houve início de tumulto, de tanto entusiasmo. A presença de Crabtree foi exigida novamente. A maioria deles se levantou para apertar a mão do cozinheiro, e ele não se sentiu nem um pouco embaraçado. Na verdade, adorou. Dois garçons entraram com o peru. Grant era um deles, a cara enrugada e o cabelo crespo grisalho. O outro era um sujeito alto que eu não conhecia, pois não comparecera à nossa festa de quarta à noite. Foi o melhor peru que comi na vida, mas as outras porções abundantes limitaram minha capacidade de consumo. Os sujeitos comiam como se fossem uma mulher enchendo uma mala. Não era questão de quanto cabia, mas sim do que precisava pôr lá dentro. Contavam também com a ajuda do clarete para empurrar a comida. Estavam ficando alegres à medida que passava o tempo, e mesmo o velho Servan distribuía sorrisos felizes a todos.
Indubitavelmente, o rango era de primeira. Não abusei do vinho. Minha cabeça zumbia por conta própria e, se eu precisasse salvar novamente a vida de Wolfe, era bom reservar o que me restava de disposição.
Não havia tensão no ar; tratava-se apenas de uma festa alegre, todo mundo bem alimentado, aspirando o aroma do café e do brandy que estavam sendo servidos, quando Wolfe ergueu-se para começar seu discurso, um pouco depois das dez horas. Ele parecia mais um queixoso em um processo de atropelamento e fuga do que o encarregado do discurso após o jantar, e certamente tinha consciência disso, apesar de não parecer preocupado com o fato. Movemos as cadeiras para poder ouvi-lo em posição mais confortável, e mergulhamos no silêncio. Ele começou, em tom calmo, informal:
— Senhor Servan, senhoras, mestres, caros convidados. Eu me sinto um pouco estúpido. Em circunstâncias diferentes, seria tanto instrutivo quanto agradável para os senhores, ou pelo menos para alguns, ouvir um discurso sobre as contribuições americanas à haute cuisine, e teria sido aconselhável que eu usasse todo o meu poder de persuasão para Convencê-los de que tais contribuições não são nem desprezíveis nem parcas. Mas quando aceitei o convite para tratar de tal assunto, o que me deixou extremamente satisfeito e lisonjeado, não tinha ideia de quanto isso seria desnecessário neste momento. É delicioso falar de comida, mas é infinitamente mais delicioso saboreá-la, e nós acabamos de fazê-lo. Um homem certa vez me confessou que um dos maiores prazeres da vida dele era fechar os olhos e sonhar com mulheres bonitas e, quando lhe foi dito que seria ainda mais agradável abrir os olhos e olhar para elas, sustentou que não, de forma alguma, pois as mulheres com que sonhava eram todas lindas, muito mais bonitas do que qualquer uma que os olhos pudessem observar. Eu poderia argumentar, de modo similar, que se fosse eloquente a respeito da comida que serve de tema hoje, ela poderia ser melhor do que os pratos que experimentaram. Mas até mesmo essa desculpa especiosa me é negada. Posso descrever e prestar homenagem a alguns pratos americanos excepcionais, mas não posso superar as ostras, o cágado e o peru que acabaram de passar por ali — ele mostrou a mesa — e estão agora aqui. — Com uma palmada delicada, tocou o local apropriado.
Eles aplaudiram. Mondor gritou — Bien dit! — Servan exultava.
Para dizer a verdade, ele ainda não iniciara o discurso, pois aquilo ali não constava do texto. Agora sim, começou. Nos primeiros dez minutos ou mais, fiquei constrangido. Não havia nada melhor no mundo do que ver Nero Wolfe embaraçado, mas não na presença de estranhos. Quando o momento chegasse, o que ainda não havia acontecido, eu gostaria que fosse uma performance especial, de encomenda para Archie Goodwin, sem ninguém mais no local. Fiquei constrangido porque temi que as dificuldades com o trem, a falta de sono e o atentado pudessem ter perturbado Wolfe, e ele esquecesse o maldito discurso, mas depois dos tais dez minutos vi que não havia motivo para preocupações. Ele estava indo bem. Dei mais um gole no brandy e relaxei.
Quando passou da metade, comecei a me preocupar com outra coisa. Dei uma olhada no relógio. Estava ficando tarde. Charleston distava apenas noventa quilômetros, e segundo Tolman a estrada era boa e a viagem poderia ser feita tranquilamente em uma hora e meia. Sabendo o quanto o programa era complicado, em minha opinião não havia muitas chances de dar o fora naquela noite, mas a festa seria totalmente arruinada se algo acontecesse com Saul. Fiquei profundamente aliviado pela segunda vez, quando o sujeito de paletó verde do hall entrou discretamente na sala de jantar e, conforme fora orientado, me fez o sinal combinado. Esgueirei-me da cadeira com o mínimo de alarde e saí de fininho.
Encontrei um sujeito pequeno sentado na sala menor. Precisava fazer a barba, era narigudo e havia colocado seu boné marrom velho em cima dos joelhos. Ele se levantou e esticou a mão, que apertei com um sorriso.
— Oi, querido. Nunca imaginei que chegaria o dia em que você me pareceria bonito. Dê uma voltinha; quero ver como está seu traseiro.
Saul Panzer perguntou — Como está o senhor Wolfe?
— Numa boa. Está lá dentro fazendo um discurso que eu ensinei pra ele.
— Tem certeza de que ele está bem?
— Por que não estaria? Ah, refere-se ao ferimento? — Fiz um gesto. — Não foi nada. Ele acha que é um herói. Peço a Deus que me acerte na próxima vez, assim ele pára de contar vantagem. Conseguiu algo?
Saul fez que sim. — Consegui tudo.
— Será que precisa explicar alguma coisa a Wolfe antes que ele entre em ação?
— Acho que não. Fiz tudo como ele mandou. A polícia inteira de Charleston entrou na jogada.
— Sim, eu sei. Meu amigo senhor Tolman providenciou isso. Tenho um outro amigo, Odell, que atira pedras nas pessoas... peça que eu te conte isso um dia. Este lugar é legal. Pode esperar aqui até ser chamado. É melhor que eu volte para lá. Já comeu?
Ele disse que essa parte já estava resolvida também, e eu o deixei. De volta à sala de jantar, retomei meu lugar ao lado de Constanza, e, quando Wolfe fez uma pausa no final do parágrafo, puxei meu lenço do bolso do paletó, limpei os lábios e guardei-o novamente. Ele me olhou rapidamente, para acusar o recebimento do sinal. Estava na parte sobre a introdução do filé em pó no mercado de Nova Orléans pelos índios Choctaw, de Bayou Lacombe, de modo que soube que havia atingido a página 14. Pelo jeito, ele estava se saindo muito bem. Até mesmo Domenico Rossi parecia interessado, apesar de Wolfe ter lembrado em determinado momento que nos três centros mais importantes de contribuição americana à arte culinária — Louisiana, Carolina do Sul e Nova Inglaterra — não houve influência italiana alguma.
Ele chegou ao final. Apesar de eu conhecer seus planos e saber que o tempo era curto, supunha que fosse pelo menos fazer uma pausa, dando talvez a Servan a chance de contribuir com alguns comentários lisongeiros, mas não parou nem o tempo suficiente para que percebessem que o discurso havia acabado. Ele olhou em volta — uma breve observação dos rostos — e prosseguiu:
— Espero não aborrecê-los se continuar a falar, mas de outro assunto. Conto com sua paciência, pois o que tenho a dizer é do interesse de vocês todos, assim como do meu. Já encerrei minhas observações sobre a arte culinária. Vou falar sobre assassinato. O assassinato de Phillip Laszio.
Houve movimentação e murmúrios. Lisette Putti deu um gritinho. Louis Servan ergueu a mão.
— Por favor, esperem. Gostaria de dizer que isso foi combinado com o senhor Wolfe. É lamentável encerrar assim o jantar de Les Quinze Maîtres, mas parece inevitável... Nós nem mesmo... contudo, não há como...
Ramsey Keith, olhando para Tolman, Malfi, Liggett e Ashley, tornou-se hostil. — Então essa é a razão para esta gente...
— Sim, essa é a razão. — Wolfe foi ríspido. — Peço ao senhor, peço a todos, não me culpem por introduzir um assunto doloroso em um momento festivo. O inconveniente foi o homem que matou Laszio, lançando assim uma sombra sobre um encontro alegre, despertando suspeita em um grupo de homens eminentes e estragando meus dias de descanso, bem como os de todos. Sendo assim, não só tenho um motivo especial para guardar rancor desse homem — levou o dedo ao curativo — como todos aqui presentes também. Ademais, antes do jantar, ouvi vários dos senhores reclamando de que seriam retidos aqui pelas autoridades. Bem sabem que essa é uma consequência inevitável do infortúnio que se abateu sobre os senhores. As autoridades não poderão permitir que se dispersem pelos quatro cantos da Terra enquanto tiverem razão para suspeitar de que um dos presentes é assassino. Não podem sair daqui até que o culpado seja descoberto. E é isso que pretendo fazer aqui e agora. Vou revelar o assassino e provar sua culpa antes que ele deixe esta sala.
Lisette Putti soltou outro gritinho e cobriu a boca com a palma da mão. Não houve murmúrios, alguns olharam para o lado, mas a maioria manteve os olhos fixos em Wolfe.
Ele prosseguiu — Para começar, acho melhor contar aos senhores o que foi feito aqui — nesta sala — na noite de terça-feira, e depois passar à questão de quem cometeu o crime. Não aconteceu nada de inusitado até que Mondor, Coyne, Keith e Servan experimentassem os molhos. No momento em que Servan saiu, Laszio foi para o outro lado da mesa e mudou a posição das travessas, menos de duas. Sem dúvida, teria trocado essas de lugar também, se a porta não houvesse sido aberta um pouco para a entrada de Berin. Era um truque maldoso e infantil, destinado a desacreditar Berin e possivelmente também Vukcic. Pode ser que Laszio tivesse a intenção de devolver as travessas a seus lugares corretos após a saída de Berin, mas não o fez, porque foi morto antes de ter essa chance... Enquanto Berin estava aqui, o rádio na outra sala foi ligado. Era o sinal previamente combinado para um homem que esperava no meio dos arbustos, do lado de fora. Ele estava suficientemente próximo da janela da sala para...
— Espere aí! — O grito não foi muito alto, nem explosivo. Demonstrava certo controle. Mas todos ficaram surpresos ao se voltar para Dina Laszio, a autora. Havia certa agitação em seus modos, bem como em sua voz, e seus olhos mostravam-se mais sonolentos do que o normal. Eles estavam fixos em Wolfe. — Podemos interrompê-lo quando conta mentiras?
— Creio que não, madame, mesmo que tenha razão. Se cada uma das minhas afirmações for contestada, jamais chegaremos a lugar algum. Por que não esperar até que eu termine? Se no final ficar claro que eu menti, a senhora poderá me levar à falência com um processo por calúnia.
— Eu liguei o rádio. Todos sabem disso. O senhor disse que foi um sinal previamente combinado...
— Foi o que eu disse. Por favor, não vamos transformar isso em um discussão vulgar. Estou explicando um assassinato e fazendo acusações muito sérias. Deixe que eu termine, e então conteste meus argumentos, se puder. Ou eu estarei desacreditado e desgraçado, ou alguém aqui será... senhor Tolman, existe enforcamento em West Virginia?
Tolman, olhos colados nos de Wolfe, confirmou.
— Então alguém morrerá na ponta de uma corda. Como eu estava dizendo, o homem escondido nos arbustos lá fora — ele apontou a porta que dava no terraço — estava bem próximo da janela da sala de estar, de modo que, ao ser alertado pelo rádio, pôde observar a volta de Berin para a sala. Nesse instante, ele foi até o terraço e entrou nesta sala por aquela porta. Laszio, sozinho aqui na sala, ficou surpreso com a entrada de um empregado de uniforme — pois o homem usava um uniforme do Kanawha Spa e tinha o rosto negro. O homem aproximou-se da mesa e identificou-se, pois Laszio o conhecia muito bem. — Sabe — disse o homem com um sorriso — eu sou o senhor White — (vamos chamá-lo assim por enquanto, pois ele era na verdade um homem branco); — sou o senhor White disfarçado, ah, ah, ah. Vamos pregar uma peça nesses sujeitos. Vai ser muito engraçado, ah ah, Laszio, meu velho amigo. Fique atrás do biombo, e eu ficarei aqui perto da mesa... Confesso que ninguém, fora Laszio, ouviu essas palavras, ou quaisquer outras. O diálogo real pode ter sido muito diferente, mas, independentemente disso, o importante é que Laszio foi para trás do biombo e o senhor White, tendo encontrado uma faca na mesa, seguiu-o e enterrou a faca em seu coração, pelas costas. Foi um serviço feito com requinte e rapidez, com certeza, uma vez que não houve luta nem gritos suficientemente altos para serem ouvidos na sala. O senhor White deixou a faca onde a havia enfiado, percebendo que atingira seu objetivo, e saiu de trás do biombo. Quando estava fazendo isso, percebeu em um relance que a porta da copa — aquela porta — estava aberta alguns centímetros, e um homem, um homem de cor, espiava pela fresta. Ou ele já estava resolvido a agir dessa forma em caso de emergência, ou demonstrou grande presença de espírito, porque simplesmente ficou parado perto do biombo, olhando firme nos olhos que o observavam, e levou o dedo aos lábios. Um gesto simples e sensacional. Ele poderia saber, ou não — provavelmente não sabia —, que naquele mesmo instante a porta que dava para o terraço, atrás dele, também havia sido aberta, e uma mulher estava olhando para dentro. Mas seu disfarce funcionou duplamente. O homem de cor percebeu a fantasia, um homem branco maquiado, pensou que ele fosse um dos hóspedes fazendo uma brincadeira e não sentiu necessidade de perguntar nada, nem de interferir. A mulher pensou que se tratava de um empregado, e não estranhou nada. Antes de sair da sala, o senhor White foi visto por mais um homem, o chefe dos garçons, o senhor Moulton, aqui presente — mas, no momento em que Moulton espiou pela fresta da porta, o senhor White já estava de saída, de costas, de modo que Moulton não viu seu rosto. Vamos registrar esses nomes conforme prosseguimos, está bem? O homem que olhou pela porta inicialmente foi Paul Whipple, um dos garçons daqui — e também estudante de antropologia na Universidade Howard. O senhor Moulton acompanhou a saída do senhor White. A mulher que olhou pela porta do terraço foi a senhora Lawrence Coyne.
Coyne virou-se de lado para olhar abismado para a mulher. Ela ergueu o queixo em direção a Wolfe. — Mas o senhor prometeu...
— Não prometi nada, senhora Coyne, sinto muito. Mas é melhor não deixar nada obscuro...
Coyne disse indignado — Eu não ouvi nada... nada.
— Por favor. — Wolfe levantou a mão. — Asseguro ao senhor e à sua esposa que não há motivo para preocupação. Na verdade, garanto que devemos ser todos gratos a ela. Se não tivesse machucado o dedo na porta, e pedido ao senhor que o beijasse, quando conversávamos, seria bem provável que o senhor Berin fosse para o laço, e não o homem que o merecia. Mas isso já está descartado... Foi o que aconteceu aqui na terça-feira à noite. Vou esclarecer algo quanto ao rádio. Alguém poderia pensar, uma vez que estava ligado e era um sinal previamente combinado, que o momento havia sido escolhido para lançar suspeitas sobre Berin, posto que era ele quem estava experimentando os molhos. Mas não foi assim. Provavelmente não houve a intenção de lançar suspeitas sobre ninguém em particular. Se houve, a pessoa visada era Marko Vukcic. O combinado foi ligar o rádio minutos antes da visita de Vukcic à sala de jantar, e não faria diferença quem estivesse experimentando os molhos naquele instante. O acaso escolheu Berin, como também foi por acaso que Laszio fez a troca de molhos para espicaçar Berin. E a armadilha para Berin terminou de ser montada quando Moulton, inocentemente, aproximou-se da mesa e devolveu as travessas de molho a seus lugares, antes da entrada de Vukcic. Não havia mencionado isso aos senhores. Mas eu estava explicando que o sinal do rádio fora dado alguns minutos antes da entrada de Vukcic na sala de jantar, porque Vukcic era o único homem aqui presente que a senhora Laszio confiava poder reter na sala, atrasando sua ida à sala de jantar, o que dava ao senhor White o tempo necessário a sós com Laszio para realizar seu objetivo. Como todos sabemos, ela garantiu o atraso jogando-se nos braços de Vukcic para dançar e permanecendo assim.
— Mentiras! Sabe que é tudo mentira!
— Dina! Cale a boca!
Era Domenico Rossi, olhando firme para a filha. Vukcic, de queixo caído, também a encarava. Outros deram uma espiada, mas desviaram a vista novamente.
— Mas ele está dizendo mentiras!
— Disse que calasse a boca! — Rossi estava mais calmo, e tinha mais autoridade do que quando puxava uma briga. — Se ele está dizendo mentiras, deixe que diga todas elas.
— Obrigado, senhor. — Wolfe inclinou a cabeça um centímetro. — Acho que agora é hora de decidirmos quem é o senhor White. Os riscos imensos que ele correu aqui nesta sala eram mais aparentes do que reais. Até o momento em que enfiou a faca nas costas de Laszio, ele não corria risco algum; era apenas um mascarado inocente. E depois, se fosse visto — bem, ele foi visto —, qual era o problema? Ele estava pintado de preto. As pessoas que o viram na terça à noite têm-se encontrado com ele desde então, e nenhuma delas suspeitou disso, pois o uniforme e a pintura preta haviam desaparecido. Para sua segurança, ele dependia de que jamais suspeitassem de sua pessoa. E tinha vários motivos para achar que estava em segurança, mas o principal era que na terça-feira à noite ele não estava em Kanawha Spa — estava em Nova York.
Berin explodiu — Meu Deus do céu! Se ele não estava aqui...
— Eu quis dizer que, para todos os efeitos, ele não estava aqui. Sempre se presume que um homem esteja no local onde as probabilidades o colocam, a não ser que surja a suspeita de que esteja em outro lugar. O senhor White pensou que essa suspeita fosse algo impossível. Mas ele foi confiante e descuidado demais. Permitiu que sua própria língua criasse a suspeita, em uma conversa comigo... Conforme todos sabem, tenho larga experiência em casos desse tipo. É meu ramo de atividade. Disse ao senhor Tolman, na terça-feira à noite, que tinha certeza da inocência do senhor Berin, mas não revelei o melhor motivo que possuía para acreditar nessa inocência. E a razão era a seguinte: eu estava convencido de que a senhora Laszio havia feito um sinal para o assassino, ao ligar o rádio. Outros detalhes relacionados com isso podem ser atribuídos ao acaso, mas seria preciso muito boa vontade para acreditar que ter se agarrado a Vukcic quando dançavam, atrasando sua ida à sala de jantar, dando tempo para que o marido fosse morto, também fosse coincidência. Especialmente quando alguém como eu estava presente e notou que sua atitude era proposital. Ela cometeu um grande erro naquele momento. Se fosse mais inteligente, teria ponderado que minha presença exigia mais sutileza... Quando Berin foi preso, eu me interessei pelo caso, como sabem, mas assim que consegui sua libertação deixei de me preocupar com o problema. Depois disso, outro erro idiota foi cometido, o que é quase inacreditável. O senhor White achou que eu estava chegando muito perto, e, sem nem se dar ao trabalho de descobrir que eu estava fora do caso, esgueirou-se pelos arbustos do lado de fora da minha janela e me deu um tiro. Acho que sei como ele se aproximou do pavilhão Upshur. Meu assistente, o senhor Goodwin, cerca de uma hora depois, viu quando ele apeou de um cavalo nas proximidades do hotel. A trilha de montaria passa a cinquenta metros dos fundos de Upshur. Ele poderia facilmente ter saído da trilha, amarrado o cavalo em algum lugar, avançado pelos arbustos até minha janela e, depois do tiro, montado no cavalo novamente sem ser visto. De qualquer forma, cometeu um erro, e, com isso, ao invés de me tirar do caso, ele me provocou. Retomei as investigações... Presumi, como já disse, que o assassino estava mancomunado com a senhora Laszio. Descartei a suposição de que havia sido um projeto apenas dela, e que o criminoso fora contratado, pois isso tornaria a fantasia desnecessária. Além disso, era difícil acreditar que um assassino contratado, desconhecido de Laszio, pudesse entrar na sala, pegar uma faca na mesa, convencer Laszio a ir para trás do biombo e matá-lo, sem nem um grito ou reação física. E ainda ontem, quando Berin foi preso e passei a me dedicar a buscar provas para libertá-lo, eu só tinha um pequeno indício para começar a investigação. Era o pedido da senhora Coyne ao marido, que beijasse seu dedo porque este ficara preso na porta. Da mesma forma hoje, quando resolvi pegar o assassino, eu só tinha uma outra pista, também muito precária. Era o seguinte. Ontem, por volta das duas horas, os senhores Malfi e Liggett chegaram ao Kanawha Spa, em vôo direto de Nova York. Foram imediatamente para o meu quarto, no pavilhão Upshur, sem falar com ninguém, a não ser com os empregados, e tiveram uma conversa comigo. Durante essa conversa, Liggett disse — creio que seja uma reprodução literal: “Pelo jeito, quem cometeu o crime foi capaz de usar o refinamento para outros propósitos que não experimentar os temperos da sauce printemps”. Recorda-se disso, senhor?
— Pelo amor de Deus — Liggett rosnou. — Seu idiota, que está querendo fazer, me meter nessa história?
— Temo que sim. Pode iniciar seu processo por calúnia junto com a senhora Laszio. Lembra-se de ter dito isso?
— Não. Nem você.
Wolfe deu de ombros. — Deixou de ser importante agora. Só era vital enquanto parte de minhas pistas. De qualquer forma, foi o suficiente para uma investigação. Parecia improvável que um detalhe tão ínfimo como o nome do molho tivesse sido incluído nas primeiras notícias resumidas do crime transmitidas por telégrafo para Nova York. Liguei para um empregado meu e para o inspetor Cramer, da polícia. Meus pedidos ao senhor Cramer foram de certa forma mais abrangentes: por exemplo, pedi a ele que checasse todos os passageiros de aviões, de carreira ou fretados, de todos os aeroportos, partindo de Nova York na terça-feira, com escala em qualquer parte desta região, a tempo de chegar a Kanawha Spa às nove da noite de terça-feira. Disse nove da noite porque, ao passarmos para a sala de jantar, após o jantar, a senhora Laszio desapareceu imediatamente, e não foi mais vista durante uma hora. Se minha teoria tem algum fundo de verdade, parecia lógico que essa ausência se devesse a um encontro com seu cúmplice. Também pedi ao senhor Cramer que investigasse a vida da senhora Laszio em Nova York — seus amigos e companheiros frequentes. — Agora não, madame, por favor. Terá sua chance de falar depois. — Pois a suspeita, naquele momento, não se restringia a Liggett. Havia até um dos presentes que não estava totalmente descartado. E desejo expressar publicamente meus agradecimentos ao senhor Blanc por sua tolerância e boa vontade em participar da experiência que eliminou seu nome da lista. Sem dúvida, ele achou aquilo ridículo. Naquela tarde, à uma hora, recebi um telegrama informando que a sauce printemps não havia sido mencionada nas notícias de nenhum dos jornais nova-iorquinos na manhã de terça. Uma vez que Liggett apanhara o avião antes das dez da manhã, não fizera escalas e não conversara com ninguém, como poderia saber que o molho era sauce printemps? Provavelmente ele tinha conversado com alguém. Ele tinha conversado com a senhora Laszio, por volta das nove e meia da noite de terça-feira, em algum lugar das imediações deste prédio, participando dos preparativos que culminaram na morte de Laszio.
Não fiquei muito satisfeito, porque não conseguia ver as mãos de Liggett. Ele estava do outro lado da mesa, que as ocultava. Nem seus olhos podiam ser vistos. Estavam fixos em Wolfe. Só podia ver o pequeno sorriso no canto da boca, que estava virado para o meu lado, e parte do pescoço, com os músculos salientes pelo esforço de trincar os dentes. Ele não conseguia ver Dina Laszio do lugar onde estava sentado. Eu, sim. Ela mordia o lábio inferior. Este era o único sinal de que não estava tão à vontade quanto na hora em que deu a batidinha no ombro de Nero Wolfe.
Wolfe prosseguiu. — O inspetor Cramer me telefonou às três da tarde. Entre outras coisas, ele me contou que Saul Panzer, meu empregado, havia tomado um avião para Charleston, conforme minhas instruções. Depois — é bom mencionar isso também — outro erro cretino foi cometido, por volta das seis da tarde. Para ser justo com o senhor Liggett, duvido que tenha sido ideia dele. Suponho que a senhora Laszio tenha arquitetado o ardil e convencido o cúmplice a colocá-lo em prática. Ele foi ao meu quarto e ofereceu cinquenta mil dólares em dinheiro para que eu pedisse ao senhor Berin que aceitasse o emprego de chef de cuisine no Hotel Churchill.
Lisette Putti soltou outro gritinho. Jerome Berin berrou — Naquele antro de ladrões! Naquele buraco fedorento! Eu? Preferiria fritar ovos na unha...
— Isso mesmo. Recusei a oferta. Liggett foi idiota ao fazê-la, mas eu não sou tão presunçoso a ponto de desprezar uma confissão de culpa do inimigo, e a oferta de uma soma tão espetacular era obviamente uma confissão de culpa. Ele vai negar isso. Provavelmente vai até negar que tenha feito a oferta, mas não importa. Recebi outra confirmação importante: mais um chamado do inspetor Cramer. Vou resumir, para não incomodá-los com detalhes, pois o tempo é curto. Mas entre eles havia a informação de que corriam boatos de um interesse mútuo, datado de dois anos atrás, entre a senhora Laszio e o senhor Liggett. Ele também verificou um outro ponto que me intrigava. No trem, a caminho daqui na segunda-feira à noite, o senhor Berin me contou uma visita feita ao Resort Room do Hotel Churchill, no sábado, onde os garçons se vestiam com os uniformes de restaurantes famosos, entre eles os do Kanawha Spa. Os homens do senhor Cramer descobriram que há cerca de um ano o senhor Liggett mandou duplicar o uniforme do Kanawha Spa para usar em um baile a fantasia. Sem dúvida, foi o fato de já possuir o uniforme que sugeriu a técnica a ser utilizada nesse projeto. Assim, como podem ver, eu estava começando a ter um bom esboço de meu quadro: Liggett sabia da sauce printemps antes da hora. Tinha um caso com a senhora Laszio. Tinha um uniforme do Kanawha Spa no guarda-roupa. Havia outros elementos. Por exemplo, ele deixou o hotel na terça-feira à tarde, sob a alegação de jogar golfe, mas não apareceu em nenhum dos clubes que costuma frequentar. Mas podemos pular essa parte. O senhor Tolman pode reunir todas essas provas depois da prisão de Liggett. Agora é melhor passarmos para Saul Panzer — ainda não contei que ele telefonou de Charleston imediatamente após o chamado do inspetor Cramer. Peçam que entre, por favor. Ele aguarda na sala de estar.
Moulton foi rápido.
Liggett disse em tom calmo — Sua mentira mais esperta foi a da tentativa de suborno. E a mais perigosa, porque há um pouco de verdade nela. Fui mesmo ao seu quarto para pedir que falasse com Berin. Suponho que seu secretário esteja pronto a confirmar que eu ofereci cinquenta mil...
— Por favor, senhor Liggett. — Wolfe fez um gesto para interrompê-lo. — Eu não falaria nada antes da hora, se fosse o senhor. É melhor pensar cuidadosamente antes de... ah! Como vai, Saul? Fico contente em vê-lo.
— Sim, senhor. Eu também. — Saul Panzer entrou e ficou parado em pé, ao lado da minha cadeira. Usava como sempre o terno cinza surrado e as calças eternamente sem passar. Segurava nas mãos o boné marrom encardido. Depois de uma olhada para Wolfe, sua vista aguçada percorreu o retângulo de rostos, e eu sabia que naquele momento cada uma daquelas faces havia sido registrada em uma galeria onde ficaria guardada para todo o sempre.
Wolfe disse — Fale com o senhor Liggett.
Os olhos de Saul fixaram-se no alvo imediatamente. — Como tem passado, senhor Liggett?
Liggett não se abalou. — Ah! Não passa de uma farsa.
Wolfe deu de ombros. — Não temos muito tempo, Saul. Fale só o essencial. O senhor Liggett jogou golfe na terça à tarde?
— Não, senhor. — Saul estava rouco, e pigarreou. — Na terça-feira, à 1h55 da tarde, ele pegou o avião da Interstate Airways no aeroporto de Newark. Peguei o mesmo avião hoje, com a mesma aeromoça, e mostrei a ela o retrato de Liggett. Ele deixou o avião no aeroporto de Charleston, quando foi feita a escala, às 6h18 — assim como eu, hoje. Por volta das seis e meia, ele apareceu na Little’s Garage da Rua Marlin e alugou um carro, um Studebaker 1936, sob depósito de 200 dólares, em notas de vinte dólares. Vim dirigindo o mesmo carro para cá esta noite: está lá fora agora. Fiz algumas perguntas no caminho, mas não consegui descobrir onde ele parou para lavar o rosto, na volta, e tirar a tinta preta. Precisei correr, porque o senhor disse que chegasse aqui antes das onze. Ele foi de novo até a Little’s Garage por volta da 1h15 na noite de terça, e teve de pagar dez dólares por um pára-lama amassado. Saiu do estacionamento e pegou um táxi na Rua Laurel, com placas C3428, dirigido por Al Bissell, rumo ao aeroporto de Charleston. Lá pegou o vôo noturno expresso da Interstate Airways, que chegou a Newark às 5hS4 da quarta-feira. Depois disso, não sei o que fez, mas foi para Nova York, porque estava em seu apartamento poucos minutos depois das oito, quando telefonou para Albert Malfi. Às oito e meia mais ou menos, ligou para Newark, e fretou um avião para trazer Malfi e ele a Kanawha Spa, e às 9h52...
— Já basta, Saul. Depois disso, seus movimentos foram feitos abertamente. Disse que veio para cá esta noite guiando o mesmo carro que Liggett alugou na terça-feira?
— Sim, senhor.
— Muito bem. Tudo se encaixa. E tinha fotos de Liggett para mostrar a todas aquelas pessoas — a aeromoça, o sujeito do estacionamento, o motorista de táxi...
— Sim, senhor. Ele era branco quando saiu do estacionamento.
— Sem dúvida, parou no caminho para fazer alterações em sua aparência. Não é tão difícil quanto possa parecer. Nós pintamos um homem de preto esta tarde, em meu quarto. Limpar depois é mais difícil. Suponho que não notaram sinais de pintura nele — quem sabe o funcionário do estacionamento, ou o motorista de táxi.
— Não, senhor. Tentei isso.
— Claro. Mas eles obviamente não examinaram as orelhas dele. Você não falou nada sobre bagagem.
— Ele levava uma maleta média, couro marrom com fivelas de latão, sem tiras.
— Em todas as aparições?
— Sim, senhor. Tanto na vinda como na volta.
— Ótimo. Acho que é o suficiente. Pegue aquela cadeira perto da parede.
Wolfe observou os rostos, e apesar de ele ter conseguido atenção durante seu discurso sobre culinária, agora todos estavam mais atentos ainda. Daria para ouvir um alfinete cortando o ar antes de bater no chão. Ele disse — Já estamos chegando ao ponto desejado. Compreendem agora por que eu disse que detalhes como a menção de Liggett à sauce printemps não tinham mais grande importância. É óbvio que ele tratou um crime importante como o assassinato com incrível leviandade. Mas precisamos ter em mente duas coisas: primeiro, ele supôs que sua ausência de Kanawha Spa jamais seria posta em dúvida, e, segundo, não estava em seu juízo perfeito. Ele estava drogado. Havia provado o veneno que o senhor Laszio conhecia muito bem. No que diz respeito ao senhor Liggett, parece que está tudo terminado. Nada resta a fazer, a não ser ao senhor Tolman, que vai prendê-lo, preparar o caso, levá-lo a julgamento e condená-lo. Tem algum comentário a fazer, senhor Liggett? Eu ficaria quieto, em seu lugar.
— Não vou dizer nada. — A voz de Liggett continuava firme como sempre. — A não ser que Tolman engula essa história e aja como você quer. Nesse caso, ele vai se arrepender tanto quanto você. — O queixo de Liggett se ergueu um pouco. — Conheço você, Wolfe. Já ouvi falar de seus truques. Só Deus sabe por que foi me escolher para isso, mas vou descobrir antes de acabar com você.
Wolfe inclinou a cabeça gravemente. — Sua única atitude possível. Claro. Mas eu já acabei com o senhor. Eu o desmascarei. Seu maior erro foi atirar em mim no momento em que eu me tornara um mero espectador. Olhe aqui. — Ele enfiou a mão no bolso, pegou o discurso e o exibiu. — Foi por aqui que sua bala passou, bem no meio do meu discurso, antes de me atingir. Senhor Tolman, as mulheres participam do júri em casos de homicídio neste estado?
— Não. Apenas homens.
— Sério? — Wolfe dirigiu o olhar para a senhora Laszio. Ele não havia se detido nela desde o momento em que começou a mostrar a culpa de Liggett. — Sua sorte melhorou um pouco, madame. Vai ser difícil persuadir um júri de doze homens a decretar sua culpa. — Falou novamente com Tolman — Está pronto a acusar Liggett pelo assassinato de Laszio?
A voz de Tolman foi ouvida com clareza: — Sim, estou.
— Realmente? Então vá em frente. O senhor não hesitou com Berin.
Tolman ergueu-se. Precisou dar apenas quatro passos. Colocou a mão no ombro de Liggett e disse em voz alta — Você está preso, Raymond Liggett. Uma acusação formal de homicídio será feita amanhã de manhã. — Ele se virou e falou ríspido com Moulton. — O delegado está aí fora. Diga a ele que entre.
Liggett virou a cabeça para encarar Tolman. — Isso será sua ruína, moço.
Wolfe, interrompendo Moulton com um gesto, disse a Tolman — Deixe o delegado esperando mais um pouco. Se não se importa. Não gosto dele. — Ele fixou os olhos novamente na senhora Laszio. — Além disso, madame, ainda temos de pensar na senhora. No que diz respeito a Liggett, bem... como pode ver... — Ele moveu a mão para mostrar Tolman, parado atrás de Liggett. — Agora é sua vez. Ainda não está presa. Tem algo a dizer?
A mulher fatal parecia doente. Suponho que fosse boa em matéria de maquiagem, e só um especialista notaria alguma coisa errada com ela, mas não podia prever uma emergência dessas. Seu rosto estava vincado. O lábio inferior não se encontrava com o superior, pois estava sendo mordido. Os ombros tinham caído, e o peito afundado. Ela disse com voz fina, abandonando completamente a voz sensual — Eu não fiz nada... só... mentiras, foi o que já disse. Mentiras!
— Quer dizer que eu só disse mentiras sobre Liggett? E o que Saul Panzer contou? Eu a previno, madame, coisas que podem ser provadas não são mentiras. A senhora disse mentiras. Como assim?
— Mentiras... sobre minha pessoa.
— E sobre Liggett?
— Eu não sei.
— Claro. Mas quanto à senhora. Ligou o rádio, não é mesmo? Ela fez que sim, sem falar. Wolfe repetiu — Não é mesmo?
— Sim.
— E, por acaso, ou propositadamente, deteve Vukcic, dançando com ele, enquanto seu marido estava sendo assassinado?
— Sim.
— E como seu marido está morto... não fosse a infeliz circunstância de morte de Liggett em um futuro próximo também, esperava casar-se com ele, não é?
— Eu... — Sua boca se retorceu. — Não! Não pode afirmar... não!
— Por favor, senhora Laszio, mantenha a calma. Vai precisar dela.
O tom de Wolfe tornou-se repentinamente gentil. — Não quero pressioná-la. Tenho perfeita consciência de que, no que diz respeito à senhora, os fatos permitem duas conclusões muito diferentes. Uma delas é mais ou menos assim: a senhora e o senhor Liggett desejavam um ao outro — ou pelo menos ele a desejava, e a senhora desejava o nome e a fortuna dele. Mas seu marido era o tipo de homem que não abre mão de suas posses, o que tornava as coisas difíceis. Finalmente chegou o dia em que o desejo se tornou tão grande, e o obstáculo tão intransponível, que a senhora e Liggett optaram por uma atitude desesperada. Aparentemente o encontro dos Quinze Maîtres oferecia uma boa oportunidade para a remoção do seu marido, pois haveria três pessoas presentes que o odiavam, bons suspeitos. Sendo assim, Liggett veio a Charleston de avião, e depois para cá de carro, encontrou-a lá fora, como fora previamente combinado, às nove e meia da noite de terça-feira. Foi só então que os planos receberam os toques finais, pois Liggett não poderia saber com antecedência da aposta entre Servan e Keith e do teste da sauce printemps que estava sendo preparado para dirimir a dúvida. Liggett escondeu-se nos arbustos. A senhora retornou para a sala de estar, e ligou o rádio no momento apropriado, atrasando Vukcic ao dançar com ele, de modo a dar a Liggett a oportunidade de entrar na sala de jantar e matar seu marido. Por favor, senhora, não olhe assim para mim! Como eu disse, essa é uma interpretação possível de suas atitudes.
— Mas está errada. É tudo mentira! E não...
— Por favor. Não negue demais. Confesso que pode haver mentiras nessa versão, pois existe outra interpretação possível. Tente compreender isso, e reflita bem. — Wolfe apontou um dedo para ela e adotou um tom mais incisivo. — Será provado que Liggett esteve aqui e foi informado por alguém a respeito do teste dos molhos, e com isso soube qual seria, precisamente, o momento em que poderia entrar com segurança nesta sala para matar Laszio, sem correr o risco de ser interrompido. Ele sabia que Vukcic não entraria aqui antes que pudesse terminar seu serviço. De outra forma, suas ações não teriam sentido. É por isso que digo que não negue demais. Se tentar insistir que não se encontrou com Liggett lá fora, e que não combinou nada com ele, e que ligar o rádio foi apenas coincidência, e que manter Vukcic na sala de estar durante aqueles minutos fatais também foi coincidência — nesse caso temo pela sua segurança. Mesmo um júri de doze homens, olhando para a senhora no banco dos réus, vai se recusar a engolir essa história. Acredito, para ser franco, que a senhora vá ser condenada por homicídio.
— Mas eu não disse que a senhora é uma assassina. — A voz de Wolfe era quase um murmúrio. — Desde que o crime foi cometido, a senhora inegavelmente vem tentando, pelo menos através do silêncio, proteger Liggett, mas o coração de uma mulher... — Ele deu de ombros. — Nenhum júri irá condená-la por isso, nem ficará em uma posição ruim, se puder ser mostrado que o combinado com Liggett, quando falou com ele na terça-feira à noite, durante o encontro lá fora, era inocente, da sua parte. Meramente como hipótese, vamos dizer, por exemplo, que a senhora pensou que Liggett estava fazendo apenas uma brincadeira, sem intenção maldosa alguma. Não importa qual era a brincadeira. Não consigo pensar nesses detalhes, mesmo como hipótese, pois não sou dado a esse tipo de brincadeira. Mas a peça que ele queria pregar exigia que passasse alguns minutos a sós com Laszio, antes da entrada de Vukcic. Isso, claro, explicaria tudo — o rádio ligado, o atraso de Vukcic —, tudo o que a senhora fez, sem envolvê-la em um crime. Compreenda, senhora Laszio; eu não estou sugerindo isso como retirada estratégica. Estou só dizendo que não pode negar o que aconteceu; apenas pode ter uma explicação que salve a senhora. Nesse caso, seria quixotesco tentar salvar Liggett também. Não tem poderes para tanto. E se a explicação fosse essa, eu não esperaria até que fosse tarde demais...