Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 4 de 18

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Cozinheiros Demais

Capítulo 3

— Creio que não. O senhor Goodwin é meu secretário particular.

— Mas eu... — Ela permaneceu em pé. — Já é tão difícil falar com o senhor...

— Bem, madame, se é tão duro assim... — Wolfe deixou a frase solta no ar.

Ela engoliu em seco, olhou de novo para mim e deu um passo na direção dele. — Vai ser ainda mais difícil... mas eu tenho de contar a alguém. Ouvi falar muito do senhor, é claro... nos velhos tempos, de Marko... e eu preciso conversar com alguém, e não há ninguém com quem eu possa falar, fora o senhor. Alguém está tentando envenenar meu marido.

— É mesmo? — Os olhos de Wolfe se estreitaram ligeiramente. — Sente-se, por favor; é mais fácil falar quando se está sentado, não acha, senhora Laszio?

 

3

A mulher fatal sentou-se na poltrona que ofereci. Desnecessário dizer que, quando me encostei na cabeceira da cama, estava bem menos relaxado do que aparentava. Tive a impressão de que ali poderia haver algo para justificar minha precaução de incluir na bagagem o revólver e um par de blocos de anotação, na hora de fazer as malas.

Ela disse — Claro... sei que o senhor é um velho amigo de Marko. Provavelmente pensa que errei quando... eu o deixei. Mas apelo para seu senso de justiça... para seu humanitarismo...

— Argumentos fracos, madame. — Wolfe foi brusco. — Poucos entre nós possuem sabedoria suficiente para a justiça, ou tempo disponível para o humanitarismo. Por que mencionou Marko? Sugere que ele esteja tentando envenenar o senhor Laszio?

— Oh! Não. — Sua mão elevou-se do colo e foi repousar no encosto da poltrona. — Lamentaria apenas se o senhor tivesse preconceitos contra meu marido e eu, pois resolvi que deveria contar a alguém, e não há mais ninguém a quem eu possa contar...

— A senhora já informou a seu marido que ele está sendo envenenado?

Ela balançou a cabeça afirmativamente, mordiscando os lábios. — Foi ele quem me contou. Hoje. O senhor sabe, claro, que vários cozinheiros prepararam pratos para o almoço, e que Phillip fez a salada, e anunciou que apresentaria uma criação sua, o molho meadow-brook. Todos sabem que o suco de limão e o creme azedo são misturados com uma hora de antecedência, e que ele sempre experimenta algumas colheradas. Os ingredientes estavam todos prontos, juntos em uma mesa de canto, na cozinha: o limão, a tigela de creme, o açucareiro. Ao meio-dia, ele começou a fazer a mistura. Por força do hábito colocou o açúcar na palma da mão e encostou a língua para prová-lo. Estava fraco e arenoso. Ele despejou um pouco em uma panela com água, e algumas partículas boiaram, mesmo depois que a água foi mexida. Ele serviu um copo de xerez e adicionou um pouco daquelas partículas, que não se dissolveram direito. Se tivesse misturado o molho, e experimentado uma ou duas colheres, como sempre faz, estaria morto. O açúcar estava cheio de arsênico.

Wolfe resmungou — Ou farinha.

— Meu marido disse arsênico. O gosto não era de farinha.

Wolfe deu de ombros. — É fácil descobrir, com um pouco de ácido clorídrico e um pedaço de fio de cobre. Ao que parece, o açucareiro não está com a senhora. Onde ele o deixou?

— Na cozinha, suponho.

Os olhos de Wolfe se arregalaram. — Para ser utilizado durante nosso jantar, madame? E a senhora falou em humanitarismo...

— Não se preocupe. Phillip o esvaziou na pia, e mandou um dos negros enchê-lo novamente. Só com açúcar, desta vez.

— Ainda bem. — Wolfe relaxou, e seus olhos voltaram a semicerrar-se. — Notável. Quer dizer que ele está seguro de que é arsênico? Não mostrou nem a Servan? Ou contou o caso a mais ninguém, fora a senhora? Ou tampouco guardou a prova? Incrível.

— Meu marido é um homem incrível. — Um raio do sol poente entrou pela janela, banhando seu rosto, e ela se moveu um pouco. — Ele disse que não gostaria de tornar as coisas difíceis para seu amigo, Louis Servan. E me proibiu de comentar isso. Ele é um homem muito forte e orgulhoso. Essa é a sua natureza. Acha que é forte, competente e astuto demais para ser ferido por qualquer pessoa. — Ela inclinou-se para a frente e esticou a mão, palma para cima. — Por isso vim procurá-lo, senhor Wolfe. Estou tão apavorada!

— Que quer que eu faça? Descubra quem colocou o arsênico no açucareiro?

— Sim. — Depois ela mexeu a cabeça. — Não. Suponho que não possa fazer isso, e, mesmo que o fizesse, o arsênico foi jogado fora. Eu só quero proteger meu marido.

— Minha cara senhora. — Wolfe pigarreou. — Se alguém está decidido a matar seu marido, e não é retardado, seu marido será morto. Nada é mais simples do que matar um homem. A dificuldade surge quando se trata de evitar as consequências. Temo que eu não tenha sugestão alguma a fazer à senhora. É duplamente difícil salvar a vida de um homem contra sua vontade. A senhora acha que sabe quem envenenou o açúcar?

— Não. Certamente existe algo...

— Seu marido acha que sabe?

— Não. Certamente o senhor poderia...

— Perguntar a Marko? Descobrir se foi ele?

— Não! Marko não! O senhor prometeu que não iria mencionar...

— Eu não prometi absolutamente nada. Sinto muito, senhora Laszio, se pareço rude, mas o problema é que eu odeio ser tomado por palhaço. Se a senhora acha que seu marido pode ser envenenado, precisa é de alguém para experimentar a comida, e esta não é minha profissão. Se teme violência física contra ele, a melhor coisa é contratar um guarda-costas. Também não sou um deles. Antes que ele entre em um automóvel, cada parafuso e cada porca precisam passar por um teste rigoroso. Quando ele caminhar pelas ruas, as janelas e o alto dos edifícios precisam ser vigiados, e os passantes, mantidos à distância. Se ele for ao teatro...

A mulher fatal se levantou. — Está transformando isso em piada. Sinto muito.

— Foi a senhora quem começou a palhaçada.

Ela, contudo, não ficou ali para ouvir o resto. Adiantei-me para abrir a porta do quarto, mas ela pegou a maçaneta antes de mim, e como pelo jeito preferia as coisas assim, deixei que se fosse e abrisse a porta de saída também. Tranquei a porta depois que ela nos deixou e retornei ao quarto de Wolfe; fiz uma cara de surpresa fingida, um desperdício, porque seus olhos estavam fechados. Disse a seu imenso rosto redondo:

— Que maneira de tratar uma cliente fina que chega com uma proposta tão clara e objetiva! Nós só precisaríamos ir, rio abaixo, até o ponto de onde saem os esgotos e nadar um pouco até sentir o gosto do arsênico...

— Arsênico não tem gosto.

— Tá bom. — Sentei-me. — E se ela planeja envenenar o marido, e está preparando o terreno para sair livre? Ou então está apenas preocupada, tentando proteger o cara? E se Laszio estiver inventando histórias só para mostrar como é esperto? Deveria ter visto como olhou para ela quando a mulher dançava com Vallenko. Suponho que reparou em Vukcic, obcecado por ela, com cara de mariposa enjaulada e cercada de holofotes. Ou haveria alguém maluco o suficiente, a ponto de pôr arsênico no açucareiro, ameaçando as vidas de todos nós? Por falar nisso, em dez minutos será hora do jantar, e se pretende pentear o cabelo e pôr a fralda da camisa para dentro... sabia que pode ter um criado de paletó verde por cinco dólares extras por dia? Juro por Deus que vou experimentar um por meio dia. Eu seria outra pessoa, se cuidasse melhor de mim.

Parei para bocejar. Sono de menos e sol de mais haviam me derrubado. Wolfe continuava quieto. Finalmente falou:

— Archie. Sabe quais são os planos para esta noite?

— Não. Algo em especial?

— Sim. Aparentemente tem a ver com uma aposta entre o senhor Servan e o senhor Keith. Após a digestão do jantar, haverá um teste. O cozinheiro vai assar frangos de leite, e o senhor Laszio, que se ofereceu para o papel, deverá preparar uma determinada quantidade de sauce printemps. Esse molho contém nove temperos, além do sal: pimenta-de-caiena, salsão, cebolinha, alho de folha, cerefólio, estragão, pimenta-do-reino em grão, tomilho e salsa. Nove porções desse molho serão preparadas, e em cada uma faltará um tempero diferente. Os pedaços de frango de leite e as travessas de molho serão dispostos na sala de jantar. O senhor Laszio vai supervisionar tudo. A reunião acontecerá na sala menor, e cada um irá até a sala de jantar, sozinho, para evitar discussões, experimentará o molho, em pedacinhos de frango de leite, e anotará em que travessa falta pimenta-do-reino, salsa, e assim por diante. Pelo que sei, o senhor Servan apostou em um índice de acerto de 80%.

— Muito bem. — Bocejei de novo. — Posso ficar com a que não tiver frango.

— Você não será incluído. Apenas os membros de Les Quinze Maîtres e eu. Será um experimento instrutivo e interessante. A maior dificuldade será distinguir cebolinha e alho de folha, mas eu acho que vou conseguir. Beberei vinho no jantar, e obviamente não comerei nenhum doce. Mas acaba de me ocorrer a possibilidade de haver uma conexão entre esse teste e o estranho relato da senhora Laszio. O senhor Laszio deverá preparar o molho. Você sabe que não sou do tipo assustado. Mas vim até aqui para conhecer homens capazes, e não para ver o assassinato de um ou vários deles.

— Você veio aqui para aprender a fazer salsicha. Mas esqueça isso. Acho que está fora de questão. E que conexão pode haver? Quem vai ser morto é o senhor Laszio, correto? Quem vai comer está em segurança. Talvez seja melhor você ir por último. Se ficar doente aqui na selva vou dar muita risada.

Ele fechou os olhos. Em pouco tempo eles estavam abertos novamente. — Não gosto dessa história de arsênico na comida. Que horas são?

Preguiçoso demais para pegar o relógio de bolso. Disse a ele, que suspirou e iniciou os preparativos para se levantar.

O jantar daquela noite, no pavilhão Pocahontas, foi elegante em matéria de rango, mas um pouco confuso no resto. A sopa, assinada por Louis Servan, parecia um consomê qualquer, mas não era. Ele caprichou, e foi agradável ver aquele rosto cansado e digno ficar rubro de prazer com os elogios. O peixe, por Leon Blanc, era truta de rio com quinze centímetros, quatro por pessoa, com um molho marrom-claro de alcaparras e um azedinho que não parecia vir de nenhum limão ou vinagre que eu conhecesse. Não pude identificar o que era, e Blanc apenas sorriu quando perguntaram a combinação, dizendo só que ainda não havia sido batizada. Todos eles, com exceção de Lisette Putti e eu, comeram a truta inteira, com cabeça e espinhas, inclusive Constanza Berin, que se sentou à minha direita. Ela acompanhou meus esforços para catar o peixe, sorriu e disse que eu nunca daria um gourmet. Retruquei que não comer a cabeça do peixe era questão de sentimento, sinal de respeito para com meu peixinho dourado de estimação. Ao observá-la enquanto mordia as cabeças das trutas com seus lindos dentes, fiquei satisfeito por ter dado fim ao meu ataque de ciúmes da perna.

A entrada, de Pierre Mondor, estava tão boa que imitei os outros e repeti. Ao que constava, era uma famosa criação dele, bem conhecida de todos, e Constanza contou que seu pai sabia prepará-la muito bem, e que os ingredientes eram tutano, biscoitos tipo cracker moídos, vinho branco e peito de frango. Na metade da segunda porção, cruzei os olhos com os de Wolfe, no outro lado da mesa, e pisquei para ele. O chefe me ignorou, e manteve-se compenetrado em sua solene bem-aventurança. No que dizia respeito a ele, estávamos em uma igreja, e São Pedro fazia o sermão. Durante a entrada, Mondor e a esposa gorda de repente começaram a discutir aos gritos, que só terminaram quando ele se levantou e correu para a cozinha, com a mulher em seu encalço. Soube depois que ela ouviu quando o marido perguntou a Lisette Putti se havia gostado da entrada. Ela devia ser excepcionalmente moralista para uma francesa.

O assado era um pato à la mr. Richards, por Marko Vukcic. Tratava-se de um dos pratos preferidos de Wolfe. Eu estava bem familiarizado com a versão Nero Wolfe-Fritz Brenner, e no momento em que foi servido já me considerava tão cheio que não tive condições de julgar, mas os outros homens tomaram um bom gole de borgonha para capitalizar a abertura deste novo parágrafo e atacaram como se estivessem mesmo esperando um salgadinho delicado para aplacar ligeiramente seu apetite. Notei que as mulheres no máximo o experimentaram, particularmente Lio, a esposa chinesa de Lawrence Coyne, e Dina Laszio. Também percebi que os garçons de paletó verde tinham consciência de estar acompanhando um campeonato mundial de gastronomia, apesar das tentativas de disfarçar isso. Antes de dar o basta, os caras traçaram nove patos. A mim pareceu que Vukcic exagerava um pouco no desfile de diferentes tipos de vinho, e talvez tenha sido essa a razão de sua rapidez no gatilho quando Phillip Laszio começou a fazer observações sobre recheios para pato que em sua opinião superavam o mr. Richards, seguidas de comentários parciais sobre a clientela do Hotel Churchill e a do restaurante Rusterman’s. Eu estava ali como convidado de Vukcic, e gostava dele. Foi constrangedor observá-lo enquanto atirava um pedaço de pão em Laszio, que o acertou bem no olho. Os outros aparentemente se ressentiram apenas com a interrupção. Servan, ao lado de Laszio, consolou-o. Vukcic olhou fixo para os que o censuraram e bebeu mais borgonha. Um garçom pegou o pão no chão, e todos retornaram ao pato.

A salada, por Domenico Rossi, foi recebida com uma espécie de ovação. Em seguida, Phillip Laszio foi para a cozinha, quando a salada já estava sendo servida; Rossi ficou furioso com isso, e continuou a reclamar mesmo depois que Servan lembrou a necessidade de Laszio supervisionar o preparo da sauce printemps para o teste que havia sido combinado. Rossi não interrompeu seus comentários sobre genros com o dobro de sua idade. Depois ele percebeu que Pierre Mondor nem sequer fingia comer, e quis saber se por acaso encontrara bichos andando na alface. Mondor retrucou amigavelmente que os temperos indispensáveis ao sabor da salada, como o vinagre, eram reconhecidamente péssimos companheiros do vinho, e ele gostaria de terminar o borgonha.

Rossi disse sombrio — Não há vinagre algum. Não sou selvagem.

— Não cheguei a experimentar. Senti o cheiro de vinagre; por isso a recusei.

— Estou dizendo que não tem vinagre nenhum! Os ingredientes desta salada foram mantidos, no geral, como Deus os fez! Brotos de mostarda, folhas tenras de agrião, alface! Sumo de cebola com sal! Pedacinhos de torrada esfregados com alho! Na Itália comemos esta salada de bacia, com chianti, e damos graças a Deus por isso!

Mondor deu de ombros — Não fazemos tal coisa na França. A supremacia cabe à França quando se trata desse assunto, como bem sabe, senhor Rossi. Em que idioma...

— Hã! Rossi ergueu-se nas patas traseiras. Supremacia que nós ensinamos! Só porque no século XVI vocês saborearam nossa comida e a copiaram! Você sabe ler? Conhece a história da gastronomia? Tem noção de que todas as coisas boas da França, e reconheço que elas existem, partem de um original italiano? Você sabe...

Suponho que seja assim que a guerra vai começar. Naquele momento eu me desliguei. Eles impediram que Mondor explodisse, e convenceram Rossi a mergulhar em sua salada. Tivemos um pouco de paz.

O café foi servido nas duas salas. Nas duas porque Lawrence Coyne se espalhou novamente no divã da menor, tendo a seu lado Keith e Leon Blanc para conversar. Eu me sinto sempre mais confortável quando fico em pé após uma refeição, e preferi dar um giro. Na sala maior, Wolfe, Vukcic, Berin e Mondor formaram uma roda no canto para discutir o pato. Mamma Mondor veio do hall, andando como uma pata, e sentou-se sob uma lâmpada, com seu tricô. Lio Coyne acomodou-se em uma poltrona grande, com os pés debaixo do corpo, ouvindo as histórias que Vallenko contava. Lisette Putti servia café a Servan, e Rossi estava em pé, olhando com cara feia para uma tapeçaria índia jogada sobre um sofá, como se suspeitasse que havia sido feita na França.

Não vi Dina Laszio em lugar nenhum, e divaguei sobre seu destino. Estaria ela escondida em algum lugar, preparando venenos, ou havia simplesmente ido para seu quarto, que ficava na ala esquerda de Pocahontas, atrás de um pouco de bicarbonato? Poderia ter ido até a cozinha ajudar o marido. Fiquei perambulando por ali. Na sala de jantar, quando entrei, estavam aprontando tudo para o teste dos molhos. As cadeiras tinham sido encostadas na parede, os biombos grandes colocados na frente das mesas de servir e uma toalha nova esticada na mesa maior. Contornei um par de garçons de paletó verde e segui em frente. Dina não estava na cozinha. Havia meia dúzia de pessoas em aventais brancos, mas ninguém me deu atenção, uma vez que nas últimas doze horas eles se acostumaram a ver o local cheio de estranhos. Laszio, também de avental, estava no fogão maior, lidando com uma panela grande, com um crioulo em cada cotovelo, à espera de ordens. Não me agradava muito o cheiro do lugar, depois de tudo o que eu tinha comido; de modo que saí novamente, passei pelo hall e fui para a sala de estar. Estavam servindo bebidas; eu peguei uma dose de conhaque e procurei uma poltrona que desse uma boa visão da cena.

Percebi que não via Constanza por ali havia algum tempo. Pouco depois ela entrou, vinda do hall, percorreu a sala com os olhos e veio sentar-se do meu lado, cruzando as pernas de modo ostensivo. Notei sinais de choro em seu rosto, e inclinei o corpo para a frente em busca de confirmação.

— Você andou chorando.

Ela fez que sim. — Claro que chorei! Tem um baile no hotel, o senhor Tolman me convidou para ir com ele, mas meu pai não deixa! Nem aqui nos Estados Unidos! Fiquei trancada no quarto, chorando. — Ela ergueu um pouco o joelho. — Papai não gosta que eu me sente deste jeito; é por isso que estou nesta posição.

Resmunguei — Ciúmes da perna, tipo paterno.

— O quê?

— Nada. Se quiser, pode ficar mais à vontade, ele não está olhando para você. Quer um pouco de conhaque?

Passamos juntos cerca de uma hora deliciosa, pontilhada por movimentos e atividades diversas em torno de nosso pequeno mundo. Di-na Laszio surgiu, vinda do hall, serviu-se de um licor, parou para trocar umas poucas palavras com mamma Mondor e depois se sentou no pequeno banco próximo ao rádio. Ela bebericou o licor e manipulou o dial, mas não conseguiu pegar nada. Em um minuto ou dois, Vukcic cruzou a sala, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do banquinho. O sorriso dela, ao ouvir suas palavras, foi muito encorajador, e eu fiquei pensando se ele estaria em condições de perceber o quanto. Coyne, Reith e Blanc entraram, vindos da sala menor. Por volta das dez, recebemos uma visita — nada menos do que o senhor Clay Ashley, gerente do Kanawha Spa. Tinha cinquenta anos, cabelos negros, sem fios brancos, impecável por dentro e por fora. Estava ali para fazer um discurso. Ele queria que soubéssemos que o Kanawha Spa se sentia honrado com a visita dos mais distintos representantes vivos de uma das artes maiores. Ele esperava que nos divertíssemos e outras coisas mais. Servan escolheu Nero Wolfe, o convidado de honra, como a pessoa adequada para a resposta, e desta vez Wolfe teve de se levantar da poltrona, mesmo sem intenção de ir a lugar algum. Ele fez alguns comentários, agradeceu ao senhor Ashley e não citou nem uma vez viagens de trem e salsichas. O senhor Ashley saiu depois de ter sido apresentado aos que ainda não conhecia.

Era hora de outro pequeno discurso, desta feita por Louis Servan. Ele disse que estava tudo pronto para o teste, e explicou no que consistia. Haveria nove travessas de sauce printemps em banho-maria, cada uma delas com um tempero a menos, além de pedaços de frango de leite, pratos e outros utensílios. Cada um dos convidados escolheria seus pedaços de frango. Era proibido provar o molho sem o frango. Haveria água por perto para refrescar o paladar. Só era permitido experimentar uma vez cada molho. Na frente de cada travessa haveria um cartão numerado de um a nove. A cada provador seria dado um papel, no qual estariam relacionados os nove temperos. Depois de cada tempero ele deveria escrever o número da travessa em que estava o molho onde faltava aquele ingrediente. Laszio, que havia preparado o molho, estaria na sala de jantar para conferir. Quem experimentasse não poderia conversar com quem não tivesse experimentado, até que todos terminassem. Para evitar confusões, o teste seria realizado na seguinte ordem — Servan leu em uma folha:

Mondor

Coyne

Keith

Blanc

Servan

Berin

Vukcic

Vallenko

Rossi

Wolfe

Logo de cara houve um pequeno tumulto. Quando as tiras de papel foram passadas e chegou a vez de Leon Blanc, ele balançou a cabeça negativamente. Disse a Servan, desculpando-se porém decidido — Sinto muito Louis, não vai dar. Tentei evitar que minha opinião sobre Phillip Laszio causasse qualquer constrangimento a vocês, mas em hipótese alguma comerei algo preparado por ele. Ele é... vocês sabem muito bem... mas é melhor que eu não o diga...

Ele girou sobre os calcanhares e deixou a sala, dirigindo-se ao hall. O único som a romper o silêncio foi o longo uivo de Jerome Berin, que já estava com seu papel.

Ramsey Keith disse — Azar dele. Coitado do Leon. Todos nós já sabemos... mas que se dane! Você é o primeiro, Pierre? Tomara que erre todos os temperos! Está tudo pronto aí, Louis?

Mamma Mondor entrou trotando e parou na frente do marido, segurando o tricô na altura da barriga e esganiçando algo em francês para ele. Perguntei a Constanza o que era, e ela disse que Pierre fora prevenido por mamma que se cometesse um erro em um teste tão simples jamais seria perdoado, nem por ela nem por Deus. Mondor deu um tapinha impaciente em seu ombro, tentando tranquilizá-la, cruzou a porta da sala de jantar, e fechou-a atrás de si. Em dez minutos, talvez quinze, a porta se abriu novamente, e ele reapareceu.

Keith, autor da aposta com Servan que originou tudo, aproximou-se de Mondor e perguntou —

E então?

Mondor fez cara feia. — Fomos instruídos a não fazer comentários. Só posso dizer que avisei Laszio para tomar cuidado com o excesso de sal, mas ele me ignorou. Mesmo assim, seria absurdamente assombroso se eu cometesse um erro.

Keith deu meia-volta e correu para o outro lado da sala. — Lisette, minha querida sobrinha! Sirva licores para todos! Insista! Seduza-os!

Servan, sorridente, chamou Coyne. — Você é o próximo, Lawrence.

O velho monte nevado entrou. Percebi que seria um jogo dos mais demorados. Constanza havia sido chamada pelo pai, do outro lado. Eu imaginava como seria dançar com uma mulher fatal, e fui até onde Dina Laszio estava, ainda ao lado do rádio, junto de Vukcic, mas fui recusado. Ela me dirigiu um olhar indiferente, com seus olhos sonolentos, e disse que estava com dor de cabeça. Resolvi insistir, olhando em torno à procura de outra parceira, mas as perspectivas não eram animadoras. Lio, a esposa chinesa de Coyne, não estava ali, apesar de eu não ter percebido quando ela deixou a sala. Lisette interpretara a ordem de Keith ao pé da letra, e circulava com uma bandeja de licores. Eu não tentei tirar mamma Mondor, com medo de que Pierre sentisse ciúmes. Quanto a Constanza, bem, eu me lembrei de meus filhos todos, lá em casa, depois levei em consideração essa possibilidade, pensei em seus olhos perto dos meus, meus braços em torno de seu corpo e naquela fragrância sutil que tornava absolutamente necessária a aproximação, para apreciá-la melhor, e concluí que não seria justo para com meu amigo Tolman. Lancei outro olhar desaprovador para Vukcic, enquanto ele continuava grudado à poltrona, ao lado de Dina Laszio. Atravessei a sala e me contentei com a cadeira em que Lio Coyne estivera sentada.

Tenho quase certeza de que não cochilei, pois me recordo do murmúrio das vozes durante todo o tempo, mas não há dúvida de que meus olhos se fecharam por um segundo, e eu me sentia tão confortável que me incomodava o fato de estar preocupado com a capacidade daqueles caras para engolir os pedaços de frango de leite e do molho, menos de três horas depois de terem mandado para dentro uma revoada de patos. Foi o barulho do rádio que me acordou — quer dizer, que me fez abrir os olhos. Dina Laszio estava em pé, um pouco inclinada para mexer no dial, e Vukcic à sua espera. Ela ficou ereta, enlaçou-se nele, toda derretida, e começaram a dançar. Em um minuto Keith e Lisette Putti aderiram, assim como Louis Servan e Constanza. Olhei em volta. Jerome Berin não estava por ali; aparentemente era a vez dele na lista do teste. Disfarcei um bocejo e me espreguicei sem esticar os braços, levantei-me e olhei para o canto onde Nero Wolfe conversava com Pierre Mondor e Lawrence Coyne. Havia uma cadeira vazia, que ocupei.

Logo Berin apareceu, vindo da sala de jantar, dirigindo-se ao nosso canto. Vi que Servan, sem interromper sua dança, fez um sinal a Vukcic indicando que ele era o seguinte. Vukcic fez que sim com a cabeça, sem, no entanto, dar mostras de querer largar Dina. Berin estava carrancudo. Coyne perguntou a ele:

— O que você acha, Jerome? Nós dois já estivemos lá. O número 3 é cebolinha, certo?

Mondor protestou. — O senhor Wolfe ainda não experimentou. Ele é o último.

Berin resmungou. — Não me recordo dos números. Louis tem meu papel. Meu Deus, foi difícil, tendo de aguentar o cachorro do Laszio ali, olhando para mim e sorrindo irônico. — Ele estremeceu. — Eu o ignorei. Nem falei com ele.

Eles continuaram conversando. Eu ouvia apenas com uma orelha, pois estava apreciando uma comédia à minha frente. Servan encarou Vukcic mais duas vezes para lembrá-lo de que era sua hora de experimentar o molho, sem resultado algum. Pude ver Dina rindo da cara de Vukcic, e reparei que mamma Mondor também estava acompanhando tudo, a ponto de perder o interesse pelo seu tricô. Servan teve de largar Constanza, fazendo uma mesura para se desculpar, a fim de se aproximar do outro casal. Ele era educado e digno demais para pegar o outro pelo braço, de forma que simplesmente ficou no meio do caminho, e foram obrigados a parar. Eles se separaram afinal.

Servan disse: — Por favor. É melhor manter a ordem da lista, se não se incomoda.

Aparentemente Vukcic livrou-se do feitiço. De qualquer forma, ele não teria sido rude com Servan. Com um movimento da cabeça, ele jogou o topete para trás e riu. — Mas eu acho que não vou fazer o teste. Prefiro me unir a Leon Blanc em seu repúdio. — Ele precisou falar alto, por causa do rádio.

— Meu querido Vukcic! — Servan insistiu com gentileza — Somos pessoas civilizadas, não é? Não somos mais crianças.

Vukcic deu de ombros. Depois, dirigiu-se a sua parceira de dança: — Devo fazê-lo, Dina? — Os olhos dela se ergueram e os lábios se moveram, mas falou em voz baixa demais, e não pude entender. Ele deu de ombros de novo, girou e encaminhou-se para a porta da sala de jantar, abriu-a e entrou, enquanto ela o acompanhava com os olhos. Dina retornou ao rádio, e Servan a Constanza. Em pouco tempo, às onze e meia, houve uma mudança na programação, e o rádio passou a anunciar chicletes. Dina desligou o aparelho.

Ela perguntou: — Devo procurar outra estação?

Aparentemente ninguém queria, e o rádio continuou desligado. Em nosso canto, Wolfe estava recostado, de olhos fechados, e Coyne contava a Berin como era a baía de São Francisco quando sua esposa chinesa entrou, vinda do hall. Ela estudou o local, nos viu e aproximou-se saltitando. Enfiou o dedo na cara de Coyne e disse a ele que o beijasse, porque havia ficado preso na porta, e doía.

Ele beijou o dedo. — Mas eu pensei que você estivesse lá fora observando a noite.

— E estava. Mas prendi o dedo na porta. Olhe! Como dói!

Ele beijou o dedo novamente. — Coitadinha da minha florzinha! — Mais beijos. — Minha flor do Oriente! Agora estamos ocupados. Vá dar uma volta e nos deixe em paz.

Ela saiu fazendo beiço.

Vukcic entrou, vindo da sala de jantar, direto para onde estava Dina Laszio. Servan avisou a Vallenko que ele era o próximo. Vukcic virou-se para ele e disse:

— Eis aqui meu papel. Experimentei cada prato uma vez. Esta é a regra, certo? Laszio não está lá.

As sobrancelhas de Servan se ergueram. — Como não está lá? Onde ele está, então?

Vukcic sacudiu os ombros. — Não procurei por ele. Talvez esteja na cozinha.

Servan chamou Keith: — Ramsey! Phillip abandonou o posto! Restam apenas Vallenko, Rossi e o senhor Wolfe. E agora?

Keith disse que confiaria nele, caso Servan também confiasse, e Vallenko entrou. Em pouco tempo estava de volta, e foi a vez de Rossi. Apurei os ouvidos na expectativa de ouvir comentários ácidos sobre genros, pois Rossi já estava sem brigar com alguém havia quase três horas. Daria para escutar, pela porta fechada, caso Laszio tivesse voltado a seu trabalho. Ou talvez não, pois havia tanta falação na sala que poderia abafar a bronca. Quando Rossi voltou, ele proclamou ao grupo que somente um idiota colocaria tanto sal na sauce printemps, mas ninguém prestou atenção a ele. Nero Wolfe, o último a ir, ergueu-se preguiçosamente da poltrona e, na condição de convidado de honra, foi conduzido até a porta por Louis Servan. Eu fiquei deslumbrado, porque afinal vislumbrava a hora de dormir despontando no horizonte.

Em dez minutos a porta se abriu, e Wolfe reapareceu. Ele parou sob o batente e falou:

— Senhor Servan! Como sou o último, peço sua licença para tentar uma experiência com o senhor Goodwin.

Servan permitiu, e Wolfe me convocou. Eu já estava de pé, porque percebera que havia algo no ar. Há vários tipos de experiência que Wolfe gosta de fazer, tendo minha pessoa como cobaia, mas nenhuma delas gastronômica. Atravessei a sala e o segui até o local do teste. Ele fechou a porta e eu olhei para a mesa. Lá estavam as nove travessas, com os cartões numerados na frente, e uma bandeja grande coberta em cima de um aquecedor elétrico, um jarro de água, copos, pratos, garfos e outras coisas mais.