Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 11 de 18

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Cozinheiros Demais

Capítulo 10

— Todas as coisas que disse... — Sua mão ergueu-se e pousou novamente no braço da poltrona. — Marko contou tudo a meu respeito?

— Marko não toca em seu nome há cinco anos. Que mais quer saber?

Ela tremeu. Vi seu busto subir e descer, mas não ouvi o som de um suspiro suave. — Não adiantaria mesmo, já que sou lunática. Mas penso que seria bom saber se Malfi falou a respeito de Zelota com o senhor.

— Não. Que tem ele? Quem é Zelota?

Entrei na conversa. — Ele falou comigo. — Os olhos de ambos se moveram até onde eu estava, e prossegui. — Não tive chance de relatar a conversa. Malfi esteve comigo na sala, após o jantar. Disse que Laszio roubou não sei o quê de um sujeito chamado Zelota, há muito tempo, e que este tal Zelota jurou matá-lo, e há cerca de um mês ele apareceu em Nova York e foi pedir emprego a Malfi. Malfi não quis contratá-lo, mas Vukcic o fez, no Rusterman’s, porém Zelota só ficou uma semana e desapareceu. Malfi disse que contou a história a Liggett e à senhora Laszio, e foi aconselhado por eles a relatar tudo a você.

— Obrigado. Mais alguma coisa, madame?

Ela se endireitou na poltrona e fixou os olhos nele. As pálpebras estavam tão baixas que não pude ver o que os olhos transmitiam, e duvidei que Wolfe pudesse. Depois, sem dizer nada, jogou mais uma cartada. Levantou-se lentamente, de propósito, deixando a capa no encosto da poltrona, avançou um passo na direção de Wolfe, colocou a mão no ombro dele e deu uma batidinha. Ele se virou e esticou o pescoço enorme para olhar na direção dela, que deu outro passo, afastando-se com um sorriso no canto da boca, para pegar a capa. Pulei para segurar a capa para ela, imaginando que também ganharia uma batidinha, mas aparentemente ela não queria estragar o efeito da primeira. Disse boa-noite a Wolfe, sem fel nem mel, e saiu. Acompanhei-a até o foyer e esperei que fosse embora.

Voltei e sorri para Wolfe. — E então, como se sente? Será que ela o marcou para a morte? Ou jogou uma maldição? Ou é assim que começa a soltar o miasma? — Olhei para o ombro da batidinha. — Quanto ao tal Zelota, estava a ponto de contar a você quando fomos interrompidos pela chegada dela. Notou que Malfi disse que ela recomendou que contasse tudo a você. Ao que parece, Malfi e Liggett estiveram com ela durante a tarde para oferecer algum consolo.

Wolfe fez que sim. — Mas, como pode ver, ela é inconsolável. Diga aos homens que entrem.

 

10

Parecia pura perda de tempo para mim. Se fosse apostar, pagaria dez por um se a presunção ilimitada de Wolfe conseguisse mais do que a perda de uma boa noite de sono. Aquilo não ia dar em nada, era bobagem; juntar aquele bando de africanos em uma sala mostrava um perigoso desajuste para o ambiente natural e saudável de um detetive. Recapitulando: Lio Coyne viu de relance um sujeito de paletó verde, que não reconheceu, parado perto do biombo, com um dedo nos lábios, e o rosto de outro empregado — praticamente apenas seus olhos —, que tampouco podia identificar, espiando por uma fresta na porta que dava na copa e na cozinha. São esses os fatos disponíveis. E os empregados já haviam dito ao delegado não ter visto nem ouvido nada. Sem chance. Poderíamos ter um fio de esperança se fossem interrogados um a um, mas em turma, nem pensar.

O problema da acomodação foi resolvido com a permissão para se sentarem no chão. Somavam quatorze. Wolfe, usando seu tom homem a homem, desculpou-se pelo inconveniente. Depois quis saber os nomes deles, certificando-se de que todos se identificassem. Nisso perdemos dez minutos. Estava curioso para ver como ele começaria o jogo, mas restavam ainda outras preliminares a cumprir: perguntou o que gostariam de beber. Eles resmungaram que não queriam nada, mas Wolfe disse que era absurdo, já que passaríamos grande parte da noite ali, o que provocou um murmúrio geral. No final, fui mandado ao telefone para pedir bebidas variadas, como cerveja, bourbon, ginger ale e água com gás, além de copos, limão, bombons de menta e gelo. Uma despesa daquelas significava que Wolfe estava desesperado. Quando retornei ao grupo, estava dizendo o seguinte a um nanico gorducho com uma covinha no queixo, que não vestia paletó verde:

— Fico feliz pela oportunidade de expressar minha admiração, senhor Crabtree. Segundo o senhor Servan, a mousse de ova de savelha foi inteiramente preparada pelo senhor. Qualquer chef sentiria orgulho por ela. Percebi que o senhor Mondor repetiu o prato. Não existe ova de savelha na Europa.

O baixinho mexeu a cabeça solenemente, com discrição. Todos estavam caprichando em discrição, bem como em constrangimento, suspeita e reticência. A maioria não olhava para Wolfe, nem para lugar algum. Ele estava sentado observando o grupo, percorrendo os rostos com o olhar. Finalmente suspirou e começou:

— Muito bem, senhores, eu tenho muito pouca experiência no trato com pretos. Isso pode parecer um comentário impróprio para os senhores, mas na verdade não o é. Certamente, é verdade que não se pode lidar com todos os homens da mesma maneira. Existe uma suposição muito difundida de que nesta parte do país os brancos adotam uma atitude bem definida no trato com os pretos, e estes fazem o mesmo ao lidar com os brancos. Sem dúvida, isso é verdade, até certo ponto, mas essa questão está sujeita a uma variação enorme, conforme sua própria experiência pode mostrar. Por exemplo, digamos que queiram pedir um favor aqui em Kanawha Spa. Podem falar com o senhor Ashley, o gerente, ou com o senhor Servan. Ashley é burguês, mal-humorado e convencional, além de pomposo. Servan é gentil, generoso, sentimental e também artista — além de latino. A atitude de vocês com o senhor Ashley será inteiramente diferente daquela com o senhor Servan.

— Mais fundamentais ainda do que as diferenças individuais, no entanto, são as diferenças raciais, nacionais e tribais. É a isso que me refiro quando digo que tenho experiência limitada no trato com os pretos. Quero dizer com os pretos americanos. Há muitos anos, resolvi casos com pessoas de pele escura no Egito, na Arábia e na Argélia, mas obviamente elas não têm nada a ver com os senhores. Os cavalheiros são americanos, muito mais americanos do que eu, que não nasci aqui. Esta é sua terra natal. Foram os senhores e seus irmãos brancos e negros, que permitiram minha vinda, e espero que me permitam dizer, sem ser piegas, que sou grato por isso.

Alguém resmungou. Wolfe não deu a mínima e prosseguiu: — Pedi ao senhor Servan que providenciasse sua vinda esta noite porque desejo fazer algumas perguntas e descobrir uma coisa. Estou interessado apenas nisto: a informação que necessito obter. Serei franco com os senhores; se eu pensasse que poderia consegui-la por intimidação e ameaça, não hesitaria um segundo em lançar mão delas. Não usaria violência física, mesmo que pudesse, porque em minha maneira romântica de pensar, a violência física está abaixo da dignidade do homem, e qualquer coisa conseguida por meio da violência física custa mais do que vale. Mas confesso que os truques e as ameaças, caso servissem ao meu objetivo neste caso, seriam usados sem hesitação. Mas, tendo refletido sobre esta situação, concluí que não adiantariam nada. É por isso que estou em uma sinuca. Fui prevenido por americanos brancos de que a única forma de conseguir algo dos americanos negros é usando violência, ameaça ou truque. Em primeiro lugar, duvido que seja verdade. E mesmo que seja verdade, de modo geral, tenho certeza de que este não é o caso. Não conheço ameaças que possam surtir efeito. Não consigo imaginar um truque que funcione, e não posso usar a violência.

Wolfe ergueu as mãos com as palmas para cima. — Preciso da informação. Que vamos fazer?

Alguns contiveram o riso, ou olharam de lado para ele — como o sujeito alto e magro agachado contra a parede, de maçãs do rosto salientes, pele marrom-escura. O nanico que Wolfe elogiara por causa da mousse de ova de savelha olhou em torno como o sargento que nota conversas durante a ordem-unida. Um deles, mais tenso, era o paletó verde com o nariz mais chato, ainda jovem, grande e musculoso, que eu conhecia do pavilhão. Ele nunca abria a boca para responder a nada. O chefe dos garçons, com o pedaço da orelha arrancado, disse em tom baixo e sedoso:

— Faça as perguntas, senhor, e responderemos. Foi o que o senhor Servan ordenou.

Wolfe balançou a cabeça em sinal de aprovação. — Admito que este parece ser o caminho mais óbvio, senhor Moulton. E o mais simples. Mas temo que nos defrontemos com dificuldades.

— Sim, senhor. Qual a natureza das dificuldades?

Uma voz rouca ecoou — Faça as perguntas, e diremos tudo. — Wolfe fixou os olhos na origem do comentário.

— Espero que sim. O senhor permitiria uma observação pessoal? Sua voz é surpreendente, saída de um homem chamado Hyacinth Brown. Jamais poderia esperar por isso. Quanto às dificuldades — Archie, chegaram as bebidas. Quem sabe alguns dos senhores possam ajudar o senhor Goodwin?

Perdemos aí mais uns dez minutos, ou talvez mais. Quatro ou cinco deles se aproximaram, sob a orientação do chefe dos garçons, trouxemos o pedido para dentro e colocamos tudo na mesa encostada na janela. Para Wolfe, como sempre, cerveja. Eu havia esquecido de incluir leite na lista, e quebrei o galho com um highball de bourbon. O moço musculoso de nariz chato, cujo nome era Paul Whipple, preferiu ginger ale puro, mas todos os outros quiseram bebidas alcoólicas. Drinques na mão, eles voltaram a seus lugares no chão, relaxaram um pouco, dando-se ao luxo de alguns comentários, e fizeram silêncio mortal quando Wolfe baixou o copo vazio e recomeçou:

— Quanto às dificuldades, talvez a melhor maneira seja explicá-las. Sabem, é claro, que estamos preocupados com o assassinato do senhor Laszio. Tenho consciência de que disseram ao delegado que não sabem nada a respeito do crime, mas quero que me contem certos detalhes, e além disso podem se lembrar de algum incidente que tenha sido esquecido na hora em que falaram com o delegado. Vou começar pelo senhor Moulton. Estava na cozinha na noite de terça-feira?

— Sim, senhor. A noite inteira. O cardápio previa oeufs au cheval para depois dos testes com os molhos.

— Eu sei. Ficamos sem eles, uma pena. Ajudou a arrumar a mesa com os molhos?

— Sim, senhor. — O chefe dos garçons era suave e diplomático. — Três homens ajudaram o senhor Laszio. Eu levei os molhos pessoalmente no carrinho de servir. Depois que tudo estava arrumado, ele só chamou uma vez, para retirar o gelo da água. A não ser por esse momento, ficamos na cozinha o tempo inteiro. Todos nós.

— Na cozinha ou no hall da copa?

— Na cozinha. Não havia nada a fazer na copa. Alguns dos cozinheiros estavam trabalhando nos oeufs au cheval, os garotos cuidavam da limpeza, outros comiam as sobras do pato e outras coisas. O senhor Servan deu autorização para tanto.

— Perfeito. O pato estava monumental.

— Sim, senhor. Todos estes cavalheiros sabem cozinhar como ninguém. São geniais.

— São os melhores do mundo. Eles são os maiores mestres vivos da mais sutil e agradável das artes. — Wolfe suspirou, abriu uma cerveja, serviu-se, observou a espuma que se formava no copo e perguntou abruptamente — Quer dizer que não viu nem ouviu nada do assassinato?

— Não, senhor.

— A última vez que viu o senhor Laszio foi quando entrou para tirar o gelo da água?

— Sim, senhor.

— Pelo que sei, havia duas facas para cortar os frangos de leite. Uma de aço inoxidável, com cabo de prata, e outra, uma faca de cozinha, para trinchar. Ambas estavam na mesa quando retirou o gelo da água?

O sujeito de paletó verde hesitou apenas por um segundo. — Sim, senhor, creio que estavam. Dei uma olhada na mesa para ver se estava tudo em ordem, porque me sentia responsável, e teria notado se faltasse uma das facas. Conferi até mesmo as marcas nas travessas dos molhos.

— Refere-se aos cartões numerados?

— Não, senhor. Marcamos as travessas com pequenos números de giz para que não houvesse nenhuma troca na cozinha, ou durante o transporte para a sala de jantar.

— Não vi nenhum número nas travessas.

— Nem poderia. Os números eram minúsculos, e estavam escritos sob a borda, no lado oposto ao seu. Quando coloquei as travessas na frente dos cartões numerados, virei os números das travessas para a parte de trás, voltados para o senhor Laszio.

— E os números de giz estavam na ordem correta quando removeu o gelo da água?

— Sim, senhor.

— Alguém provava os molhos quando entrou lá?

— Sim, o senhor Keith.

— O senhor Laszio estava vivo?

— Sim, senhor, bem vivo. Ele me deu uma bronca por ter colocado gelo demais. Disse que anestesiaria o paladar.

— Sem dúvida o faria. Para não mencionar o estômago. Quando esteve lá, suponho que não olhou por acaso atrás dos biombos.

— Não, senhor. Havíamos puxado os biombos quando fizemos a limpeza, após o jantar.

— Depois disso, não entrou mais na sala de jantar, até a hora da descoberta do corpo do senhor Laszio?

— Não, senhor, não entrei.

— Nem espiou o que estava acontecendo na sala?

— Não, senhor.

— Tem certeza disso?

— Claro que tenho. Acho que posso lembrar o que fiz.

— Suponho que possa. — Wolfe franziu o cenho, esticou os dedos em direção ao copo de cerveja, levou-o à boca e bebeu. O chefe dos garçons, senhor de si, bebericou seu highball, mas eu notei que seus olhos não saíram de cima de Wolfe.

Wolfe recolocou o copo na mesa. — Muito obrigado, senhor Moulton. — Ele fixou os olhos no sujeito à esquerda de Moulton, de estatura média, cabelo um pouco grisalho e rugas na cara. — Muito bem, senhor Grant, é um dos cozinheiros?

— Sim, senhor. — Seu tom era seco. Ele pigarreou e repetiu — Sim, senhor. Trabalho com aves e caças no hotel, mas estava aqui para ajudar Crabby. Somos os melhores. O senhor Servan nos mandou aqui para causar boa impressão.

— Quem é Crabby?

— Ele se refere a mim. — Era o baixinho gordo com a cova no queixo, o sargento.

— Ah, o senhor Crabtree. Quer dizer que ajudou a fazer a mousse de ova de savelha?

O senhor Grant disse — Sim, senhor, Crabby só supervisionou. Eu a preparei.

— Muito bem. Está de parabéns. Ficou na cozinha na terça à noite?

— Sim, senhor. Posso resumir tudo, senhor. Estava na cozinha. Não saí da cozinha, só fiquei na cozinha. Acho que isso é tudo.

— Parece que sim. Não foi à sala de jantar ou ao hall da copa?

— Não, senhor. Acabei de dizer que fiquei na cozinha.

— Sei disso. Não se ofenda, senhor Grant. Só queria ter certeza. — Os olhos de Wolfe se moveram. — Senhor Whipple, já o conheço, é claro. E um garçom atento e eficiente. Antecipou meus desejos no jantar. Parece muito jovem para ter atingido tanta eficiência. Qual a sua idade?

O garoto musculoso de nariz chato encarou Wolfe e disse — Tenho 21 anos.

Moulton, o chefe dos garçons, olhou para ele sério e ordenou — Diga “senhor”. — E voltando-se para Wolfe — Paul é estudante universitário.

— Entendo. De que escola, senhor Whipple?

— Universidade Howard. Senhor.

Wolfe apontou-lhe um dedo. — Se por acaso tem aversão ao “senhor”, pode dispensar o tratamento. A cortesia forçada é pior do que a falta dela. Está fazendo faculdade para aprimorar sua cultura?

— Tenho interesse por antropologia.

— Certo. Conheço Franz Boas, e tenho os livros dele autografados. O senhor estava presente na terça à noite, pelo que me lembro. Fui servido pelo senhor durante o jantar.

— Sim, senhor. Ajudei na cozinha depois do jantar, fazendo a limpeza e colaborando na preparação para o teste dos molhos.

— Seu tom de voz sugere desaprovação.

— Sim, senhor. Se quer saber minha opinião, é frívolo e infantil, para homens adultos, desperdiçar tempo e talento dessa forma, bem como o tempo de outras pessoas...

— Paul, cala a boca. — Era Moulton.

Wolfe disse — O senhor é jovem, senhor Whipple. Além disso, cada um de nós tem seu próprio conjunto de valores, e, se espera que eu respeite os seus, precisa respeitar os meus. Gostaria também de lembrá-lo da frase de Paul Lawrence Dunbar: “A melhor coisa que um gambá pode fazer é encher uma barriga vazia”.

O estudante olhou para ele incrédulo. — Conhece Dunbar?

— Certamente. Não sou nenhum bárbaro. Mas vamos voltar à noite de terça-feira. Depois de servir na sala de jantar, foi à cozinha?

— Sim, senhor.

— E saiu de lá...

— Nem uma vez. Só depois de saber o que havia acontecido.

— Ficou todo o tempo na cozinha?

— Sim, senhor.

— Muito obrigado. — Os olhos de Wolfe se movimentaram novamente. — Senhor Daggett...

Ele foi em frente, obtendo sempre as mesmas respostas. Terminei meu highball, encostei a cadeira na parede, inclinada sobre os pés traseiros, e fechei os olhos. As vozes, as perguntas e as respostas eram apenas ruídos nos meus ouvidos. Não entendi o objetivo daquilo; tinha a impressão de não haver nenhum. Claro, a afirmação de Wolfe de não ter intenção de tentar nenhum truque, por desconhecer um apropriado, era o mesmo que uma girafa dizer que não alcança a comida porque tem o pescoço muito curto. Mas eu achava que ele precisava urgentemente abandonar o ar montanhoso de West Virginia e voltar ao nível do mar, se considerava aquele monótono interrogatório em turnos um bom truque. As perguntas e as respostas continuavam. Ele não apertou ninguém, e insistia nos comentários pessoais. Até descobriu que Hyacinth Brown havia sido abandonado pela esposa, que o deixou com três crianças para cuidar. Uma vez abri os olhos, para ver até onde chegara na fila, e os fechei de novo. Meu relógio de pulso marcava quinze para as duas quando ouvi, pela janela aberta, o distante canto de um galo.

Recoloquei a cadeira na posição normal ao ouvir meu nome sendo chamado. — Archie, mais cerveja, por favor.

Fui um pouco lento no serviço, e Moulton ergueu-se, tomando as providências. Sentei-me de novo. Wolfe convidou os outros a encher seus copos, e muitos aceitaram. Então, após ter esvaziado o seu e limpado os lábios, ele se recostou e passou os olhos pela turma, vagarosamente, de um lado para o outro, até que todos estivessem esperando uma manifestação.

Ele disse em um tom inédito, mais áspero — Senhores, disse que iria mostrar as dificuldades que mencionei. Elas estão ficando claras. Sugeriram que eu pedisse as informações de que necessitava. Foi o que fiz. Vocês ouviram tudo o que foi dito. Fico imaginando quantos de vocês sabem que me contaram uma mentira clara e deliberada.

Silêncio completo. Wolfe esperou cinco segundos pelo efeito e prosseguiu:

— Indubitavelmente, compartilham o conhecimento de que, na noite de terça, passaram-se oito ou dez minutos entre o momento em que o senhor Berin saiu da sala de jantar e o momento em que o senhor Vukcic entrou nela, e o senhor Berin disse que o senhor Laszio estava vivo quando ele saiu, e o senhor Vukcic disse que o senhor Laszio não se encontrava lá quando entrou. Claro, o senhor Vukcic não olhou atrás do biombo. Durante esse intervalo de oito ou dez minutos, alguém abriu a porta que dá do terraço para a sala de jantar e olhou para dentro, e viu dois homens de cor. Um deles, de uniforme, estava parado ao lado do biombo, com o dedo nos lábios. O outro havia entreaberto a porta que dá no hall da copa, e estava olhando diretamente para o homem que se encontrava perto do biombo. Não tenho a menor ideia de quem possa ser o homem do biombo. O outro, que estava olhando pela porta do hall da copa, era um dos senhores que estão agora sentados à minha frente aqui. Exatamente aquele que mentiu para mim.

Outro silêncio, rompido por um riso alto, nervoso. Era o sujeito magro e alto, agachado contra a parede. Desta vez o riso veio acompanhado de um comentário. — Conta pra eles, chefe! — Meia dúzia de cabeças pretas voltou-se em sua direção, e Crabtree disse revoltado — Boney, você é um bêbado idiota! — Em seguida, desculpou-se com Wolfe — Ele não é muito bom para fazer piadas, coitado! Com relação ao que o senhor disse, lamentamos que pense ter ouvido uma mentira de um de nós. Creio que recebeu alguma informação equivocada.

— Não, devo contestar essa possibilidade. Minha informação é confiável.

Moulton perguntou, com sua voz sedosa e musical — Posso saber quem olhou pela porta e viu o que se passava?

— Não. Relatei aos senhores o que foi visto, e sei que aconteceu. — Os olhos de Wolfe percorreram os rostos dos presentes. — Desistam da ideia de negar minhas informações, todos vocês. Quem não tem conhecimento da cena na sala de jantar está fora disso, de qualquer modo. Quem sabe o que aconteceu também sabe que minhas informações têm origem em uma testemunha ocular. De outro modo, como eu poderia saber, por exemplo, que o homem perto do biombo levou os dedos aos lábios, pedindo silêncio? Senhores, a situação é simples: sei que pelo menos um dos presentes mentiu, e ele sabe que eu sei. Penso se não haverá uma forma simples de acabar com o impasse e irmos embora. Vamos tentar. Senhor Moulton, foi o senhor que olhou pela porta — a porta entre a sala de jantar e o hall, e viu o homem perto do biombo, com o dedo nos lábios?

O chefe dos garçons balançou lentamente a cabeça, mostrando a parte arrancada da orelha. — Não, senhor.

— Senhor Grant, foi o senhor?

— Não, senhor.

— Senhor Whipple, foi o senhor?

— Não, senhor.

Ele prosseguiu, recolhendo quatorze respostas negativas após quatorze perguntas. Poderia ter feito mil. Depois de completar a chamada, encheu o copo de cerveja e olhou feio para a espuma. Ninguém disse nada, ninguém se moveu. Finalmente, sem ter bebido a cerveja, Wolfe se recostou e suspirou paciente. Ele retomou a conversa sussurrando:

— Temia ter de passar a maior parte da noite aqui. Eu os avisei. Também disse que não lançaria mão de ameaças, e não pretendo. Mas transformaram uma situação simples em algo complicado, com sua negativa unânime, e isso precisa ser explicado a vocês... Primeiro, vamos supor que insistam na negativa. Nesse caso, a única coisa que posso fazer é informar as autoridades e deixar que conversem com a pessoa que olhou para a sala de jantar do terraço. A polícia vai se convencer, como eu, de que a informação é correta, e vai começar a interrogar os senhores com conhecimento dos fatos. Estarão seguros de que um dos presentes viu o homem perto do biombo. Não posso adivinhar o que vão fazer, ou quanto vai demorar, mas a situação vai ser esta, e eu estarei fora da jogada.

Wolfe suspirou de novo, e observou os rostos. — Agora, digamos que você, seja lá quem for, abandone a negativa e diga a verdade; que vai acontecer? De modo similar, mais cedo ou mais tarde terão de enfrentar as autoridades locais, mas em circunstâncias completamente diferentes. Estou falando agora com um de vocês — sabem com quem, eu não. Não me parece que advirá algum mal se eu contar ao delegado e ao senhor Tolman que você e seus colegas vieram conversar comigo porque pedi isso, e que informaram o que viram acontecer na sala de jantar. Não há motivo para que a pessoa que me passou a informação se veja metida no caso, se disser a verdade, apesar de eu estar disposto a revelar o nome dessa pessoa às autoridades, se necessário. Claro, eles não vão gostar nem um pouco de terem ocultado um fato tão importante na noite de terça-feira, mas acho que posso dar um jeito para que deixem passar isso. Faço questão de tomar essa providência. E o resto de vocês não terá nada a ver com a história. Bem... — Wolfe olhou para cada um novamente. — Agora vem a parte mais difícil. Seja lá quem você for, posso entender sua negativa, e mesmo simpatizar com sua atitude. Você olhou pela porta — sem dúvida por causa do barulho que escutara — e viu um homem de sua raça parado perto do biombo, e cerca de quarenta minutos depois, quando soube do que havia acontecido, concluiu que aquele homem havia assassinado Laszio. Ou, pelo menos, suspeitou disso. Você não apenas soube que o homem era um negro, como provavelmente o reconheceu, uma vez que ele usava o uniforme do Kanawha Spa; foi um colega de trabalho, portanto, que o olhou diretamente quando você espiou pela porta. Isso nos traz outra complicação. Se ele é um homem que tem alguma relação de proximidade com você, e é considerado amigo, suponho que vai manter a negativa apesar de qualquer coisa que eu ou o delegado possamos fazer. Nesse caso, seus colegas aqui presentes vão passar por uma série de constrangimentos, mas isso é inevitável... Mas se ele não é seu amigo, se você se recusou a revelar quem é apenas por causa de sua condição de colega — ou, mais especificamente, porque ele é da mesma cor que você — gostaria de fazer algumas observações. Em primeiro lugar, sobre o colega. Isso não faz sentido. Há centenas de anos, concluiu-se que era impossível a um homem se prevenir contra o assassinato, pois é extremamente fácil matar alguém, de forma que se chegou a um consenso de que os homens devem procurar proteção uns nos outros. Mas, se eu protejo você, você precisa me proteger, goste de mim ou não. Se você não fizer sua parte, estará fora do acordo. E um fora-da-lei... Mas esse assassino é um preto, e você também. Confesso que isso torna a questão traiçoeira. Os compromissos da sociedade humana abrangem não somente a proteção contra o assassinato, mas milhares de outras coisas, e certamente é verdade que nos Estados Unidos — para não mencionarmos outros continentes — os brancos excluíram os negros de alguns dos benefícios desses compromissos. Dizem que essa exclusão por vezes se estendeu até o assassinato — que em certas partes deste país um homem branco pode matar um negro e gozar de impunidade, ou pelo menos ter uma boa chance de escapar das punições que esse compromisso impõe. Isso é mau. E deplorável, e não condeno os negros por se ressentirem disso. Mas estão sendo confrontados com um fato, não com uma teoria, e que proposta apresentam para mudá-lo? — Estou falando com você, que viu o homem ao lado do biombo. Se o está protegendo porque ele é seu amigo, ou por qualquer motivo pessoal válido, nada tenho a dizer, porque não gosto de conversa fiada, e você vai ter de se entender com o delegado. Mas, se o protege por causa da cor, há muito a ser dito. Você está prestando um grande desserviço à sua raça. Ajudando a perpetuar e a agravar as mesmas exclusões que abomina. O compromisso humano ideal é aquele em que as distinções de raça, cor e religião são totalmente ignoradas. Qualquer um que ajude a preservar essas distinções está tornando mais distante a conquista desse ideal. E você seguramente está ajudando a manter essas distinções. Se, em um caso de assassinato, você permite que sua atitude seja influenciada pela cor da pele de um homem que o cometeu, não importa se você é preto, branco ou cor-de-rosa...