Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 9 de 18

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Cozinheiros Demais

Capítulo 8

— Não vai dizer nada à polícia, não é?

— Não fiz promessa alguma. Confie em minha discrição. Estava a ponto de perguntar: alguém em particular a interrogou sobre o que viu naquela noite, fora a polícia e eu? Algum dos hóspedes?

— Não.

— Tem certeza absoluta? Nem mesmo uma pergunta inocente?

— Não. Eu não me lembro... — Sua sobrancelha se estreitava sobre os olhos puxados. — Claro, meu marido...

Uma batida na porta a interrompeu. Wolfe fez um sinal para mim e eu a abri. Era Louis Servan. Deixei que entrasse.

Ele entrou e disse a Wolfe, em tom de desculpa — Detesto perturbá-lo, mas o jantar... são oito e cinco...

— Ah! — Wolfe se levantou no ato. — Andei esperando por isso durante seis meses. Obrigado, senhora Coyne. — Archie, pode acompanhar a senhora Coyne? — Podemos trocar uma palavrinha, senhor Servan? Serei o mais breve possível.

 

8

O jantar do decano dos Quinze Maîtres naquela noite, como de costume realizado no segundo dia da reunião quinquenal, foi farto e exuberante em matéria de sofisticação, mas deixou a desejar como ocasião festiva. A conversa durante o hors d’oeuvres foi nervosa e tensa, e, quando Domenico Rossi fez um comentário em francês audível, três ou quatro deles começaram a rir e subitamente pararam, olhando uns para os outros em silêncio.

Para minha surpresa Constanza Berin estava lá, mas não se sentou ao meu lado, como na noite anterior. Ficou no outro canto, entre Louis Servan, que ocupava a ponta, e uma peça nova para mim, um desconhecido de bigodinho. Leon Blanc, à minha direita, explicou tratar-se do embaixador francês. Havia muitos outros convidados especiais, entre eles o possível futuro patrão do meu amigo Odell, Raymond Liggett, do Hotel Churchill, Clay Ashley, gerente do Kanawha Spa, e Albert Malfi. Os olhos negros de Malfi dardejavam de uma ponta da mesa à outra, e, sempre que se encontravam com os olhos de um dos mestres, ele se desmanchava em sorrisos. Leon Blanc apontou um garfo em sua direção e disse — Vê aquele sujeito, o Malfi? Ele quer votos para tornar-se um dos Quinze Maîtres amanhã de manhã. Bah! Não possui criatividade, nem imaginação. Berin o treinou, e isso é tudo! — Balançou o garfo em una gesto de desprezo, e depois o utilizou para apanhar um bocado de mousse de ova de savelha.

A mulher fatal, agora viúva fatal, estava ausente, mas todos os demais — exceto Berin, claro — fizeram-se presentes. Obviamente, Rossi não se impressionara muito com o assassinato do genro. Continuava louco por uma discussão, insistindo nos comentários sobre pessoas e países. Mondor não lhe deu atenção alguma. Vukcic estava deprimido, e passou menos de dez minutos comendo. Ramsey Keith bebeu demais, e a cada cinco minutos dava uma risadinha que só não pegaria mal se partisse da sobrinha. Durante a entrada, Leon Blanc me disse — A filha de Berin é uma mulher de fibra. Vê como ela se controla? — Louis a colocou entre ele e o embaixador como uma cortesia a Berin. Um gesto feliz: ela representa o pai com dignidade. — Blanc suspirou. — Você ouviu o que eu disse ao senhor Wolfe quando ele me interrogou. Era de esperar que algo assim ocorresse com Phillip Laszio. Seus pecados cairiam sobre ele, mais dia menos dia, e no entanto foi acontecer logo aqui. A infâmia corria em suas veias. Se estivesse vivo, eu o mataria agora, caso fosse capaz de matar alguém. Mas sou chef, não carrasco. — Ele engoliu uma garfada de coelho ensopado e suspirou novamente. — Olhe para Louis. Esta é uma grande ocasião para ele, e este civet de lapin está perfeito, a não ser por um pequeno excesso de bouquet garni, possivelmente porque os coelhos eram jovens, e pegaram gosto com facilidade. Louis merecia animação neste jantar, e elogios à sua arte, mas olhe para nós! — Comentou, retornando ao coelho.

Para mim, a noite chegou ao auge na hora em que o café e as bebidas foram servidos. Louis Servan ergueu-se para fazer o discurso que preparara durante dois anos, sobre Os Mistérios do Paladar. Eu me sentia satisfeito e aquecido por dentro, bebericando um conhaque que me fazia fechar os olhos quando escorria pela garganta — e olhe que não sou gourmet — para não deixar nenhuma abertura por onde os vapores pudessem escapar. Seria divertido ouvir o discurso, talvez até certo ponto instrutivo. E então ele começou: — Mesdames et messieurs, mes confrères des Quinze Maîtres: Il y a plus de cent ans un homme fameux, Brillat-Savarin le grand... — E por aí afora. Fiquei atônito. Se soubesse antecipadamente o idioma a ser utilizado pelo decano, teria providenciado alguma solução. Agora não podia simplesmente me levantar e dar o fora. Ainda bem que a garrafa de conhaque continha dois terços de bebida e o problema fundamental se resumia a manter os olhos abertos. Tentei acompanhar os gestos e os movimentos dos lábios. Acho que foi um grande discurso. Percebi sinais de aprovação em diversos momentos da hora e meia que durou: sorrisos, acenos, movimentos de cabeça e sobrancelhas erguidas, além de aplausos aqui e ali. A certa altura, Rossi gritou — Bravo! — Quando Ramsey Keith teve um ataque de riso, Servan parou e esperou educadamente que Lisette Putti desse um jeito nele. Fiquei constrangido na hora em que Servan interrompeu uma frase no meio, olhou vagarosamente em volta da mesa, incapaz de continuar, e duas lágrimas gordas saíram de seus olhos e escorreram pelo rosto. Houve murmúrios, e Leon Blanc, a meu lado, assoou o nariz. Pigarreei um par de vezes e estiquei a mão para pegar o conhaque. No final, todos deixaram seus lugares e o rodearam para os apertos de mão e um par de beijos.

As pessoas seguiram em grupos para a sala de estar. Olhei em torno, à procura de Constanza Berin, mas aparentemente ela havia gasto toda a sua coragem naquela noitada, pois desaparecera. A mão pousada em meu braço fez com que eu me virasse para ouvir:

— Com licença, creio que é o senhor Goodwin. O senhor Rossi me disse seu nome. Nós nos encontramos esta tarde... com o senhor Wolfe...

Lembrei-me dele na hora. Era Albert Malfi, o homem das entradas sem imaginação alguma. Ele fez um ou dois comentários sobre o jantar, e atacou: — Soube que o senhor Wolfe mudou de ideia. Foi convencido a investigar o... quero dizer, o assassinato. Suponho que o motivo tenha sido a prisão do senhor Berin.

— Não creio. Penso que a iniciativa dele se deva à condição de hóspede. Um hóspede é uma joia que repousa sobre a almofada da hospitalidade.

— Sem dúvida. Mas é claro. — Os olhos do corso dardejaram pela sala e fixaram-se novamente em mim. — Há algo que preciso contar ao senhor Wolfe.

— Lá está ele. — Apontei para o lugar onde Wolfe conversava com o trio de mestres. — Vá contar.

— Mas não desejo interrompê-lo. Ele é o convidado de honra dos Quinze Maîtres. — Malfi parecia deslumbrado. — Pensei que poderia pedir ao senhor... será que não posso ser recebido pela manhã? Pode não ser importante. Estivemos conversando hoje com a senhora Laszio — o senhor Liggett e eu — e eu estava comentando com ela...

— Ah é? — Olhei para ele. — É amigo da senhora Laszio?

— Amigo não. Uma mulher como ela não tem amigos, apenas escravos. Eu a conheço bem, é claro. Eu estava falando de Zelota, e o senhor Liggett e ela concluíram que era melhor dizer tudo ao senhor Wolfe. Isso aconteceu antes da prisão de Berin, quando se pensava que alguém poderia ter entrado na sala de jantar pelo terraço e liquidado Laszio. Mas se o senhor Wolfe pretende inocentar Berin, certamente deve ser informado. — Malfi sorriu para mim. — Está sério, senhor Goodwin. Pensa que se Berin for considerado culpado conseguirei meu intento, e imagina o porquê de meu desprendimento? Não sou generoso. Seria a melhor coisa em minha vida chegar a chef de cuisine do Hotel Churchill. Mas Jerome Berin descobriu meu talento em um pequeno hotel em Ajaccio e me apresentou ao mundo. Fui guiado por seu gênio, e não pretendo retribuir meu sucesso com o infortúnio dele. Além disso, eu o conheço. Jamais mataria Laszio pelas costas. Assim sendo, preciso contar tudo sobre Zelota ao senhor Wolfe. A senhora Laszio e o senhor Liggett concordam plenamente. O senhor Liggett crê que não adiante nada avisar a polícia, porque eles já estão satisfeitos com a prisão de Berin.

Refleti sobre o sujeito. Tentei lembrar de onde ouvira o nome Zelota, e acabei recordando a história. — Refere-se a Zelota de Tarragona. Laszio roubou algo dele em 1920:

Malfi pareceu surpreso. — Conhece Zelota?

— Um pouco. Algumas coisas. O que ele andou aprontando? Ou prefere esperar e contar ao senhor Wolfe pela manhã?

— Não necessariamente. Zelota está em Nova York.

— Bem, tem muita gente lá com ele. — Sorri. — Não é crime estar em Nova York. Há milhões de pessoas na cidade que não mataram o senhor Laszio. Mas se ele estivesse em Kanawha Spa as coisas mudariam de figura.

— É possível que esteja.

— Não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Nem mesmo um júri acreditaria nisso.

— Mas ele pode ter vindo até aqui. Não sei o que lhe contaram sobre Zelota, mas ele odiava Laszio mais do que... — Malfi deu de ombros. — Ele o odiava ferozmente. Berin me contou isso várias vezes. E há cerca de um mês Zelota apareceu em Nova York. Ele foi ter comigo, procurando emprego. Recusei, porque ele está um trapo, a bebida o arruinou. E também porque Berin me havia prevenido contra ele. Pensei que poderia querer um emprego no Churchill só para ter uma chance de pôr as mãos em Laszio. Mais tarde, soube que Vukcic lhe dera emprego no Rusterman’s, nas sopas, e que ele só ficara uma semana. — Deu de ombros novamente. — Isso é tudo. Contei essa história à senhora Laszio e ao senhor Liggett, que acharam melhor que eu dissesse tudo ao senhor Wolfe. Não sei mais nada a respeito de Zelota.

— Muito bem, agradeço imensamente. Contarei ao senhor Wolfe. Ainda estará aqui pela manhã?

Ele respondeu afirmativamente; seus olhos começaram a passear pela sala outra vez e ele caiu fora, aparentemente para cabalar votos. Fiquei por ali um tempo, em busca de oportunidades para bisbilhotar inocentemente as conversas alheias. Fui ao encontro de Wolfe quando notei seu dedo sinalizando para mim. Ele me comunicou que estava na hora de sairmos.

Achei perfeito. Estava pronto para entrar debaixo das cobertas. Peguei nossos chapéus no hall e aguardei a chegada dele, bocejando enquanto Wolfe terminava de dar boa-noite. Quando se aproximou de mim, saímos. Ao passarmos pela entrada, ele disse — Archie, dê um dólar a cada um destes homens. Um agradecimento pela boa memória.

Dei a gorjeta aos dois sujeitos de paletó verde, a debitar da conta de despesas.

Na suíte 60, onde estávamos hospedados, em Upshur, após ter acendido as luzes e fechado as janelas para que a brisa não resfriasse sua pele delicada quando se despisse, parei no meio do quarto e relaxei, dando uma espreguiçada das boas.

— Tem uma coisa engraçada comigo. Se vou para a cama muito tarde, como aconteceu na noite passada, às quatro da manhã, não volto a ser o mesmo até recuperar o sono perdido. Fiquei com medo que você resolvesse dar um tempo por lá, batendo papo. Mas não, preferiu vir...

Parei porque suas ações levantaram suspeitas. Ele nem mesmo estava desabotoando o colete. Pelo contrário, acomodava-se na poltrona grande, de uma maneira que indicava que pretendia permanecer acordado. Perguntei:

— Vai botar o cérebro para funcionar a esta hora da noite? Já não fez o bastante por hoje?

— Sim. Mas há mais o que fazer. Combinei com o senhor Servan que os cozinheiros e os garçons do pavilhão Pocahontas viessem falar conosco assim que largassem o serviço. Estarão aqui em quinze minutos.

— Mas pelo amor de Deus! — Sentei-me. — Desde quando eu trabalho no turno da noite?

— Desde que o senhor Laszio foi encontrado com uma faca nas costas. — Ele parecia preocupado demais. — Temos pouco tempo. Talvez não seja suficiente, em função da história contada pela senhora Coyne.

— E estes urubus chegando em bando? Tem pelo menos uma dúzia.

— Se chama os homens de pele escura de urubus, é isso mesmo.

— Estou falando de africanos. — Fiquei em pé de novo. — Veja bem, chefe, está perdendo o senso de direção, para falar honestamente. Africanos, urubus, ou seja lá o que for, é impossível lidar com eles desse jeito. Eles não pretendem contar nada, ou o teriam feito quando interrogados por aquele delegado de olhos miúdos. Por acaso quer que eu use um chicote no bando todo? A única coisa a fazer é chamar Tolman e o delegado aqui, logo de manhã, para tomarem o depoimento da senhora Coyne, e deixar que eles prossigam a partir disso.

Wolfe resmungou. — Eles vão chegar às oito. Ouvirão a história, e acreditarão nela ou não. Afinal de contas, ela é chinesa. Depois de interrogá-la exaustivamente, mesmo que acreditem no que disser, não libertarão Berin de imediato, pois sua história não explica os erros da lista. Na hora do almoço, vão começar a falar com os negros, um a um. Só Deus sabe o que farão, ou quanto tempo levarão, mas aposto que na quinta à noite, quando nosso trem partir para Nova York, eles ainda não terão terminado o interrogatório, nem descoberto coisa alguma.

— Eles são mais capacitados do que você. Estou avisando, vai ver só. Esses negros vão ficar quietos. Estão acostumados com isso. Acredita na história da senhora Coyne?

— Certamente, isso é óbvio.

— Seria muito incômodo me contar como sabia que ela havia prendido o dedo na porta da sala de jantar?

— Não sabia. Ela disse a Tolman que havia ido para fora, ficado lá e voltado diretamente para a sala de estar. Eu sabia que ela havia prendido o dedo em uma porta. Quando disse que machucara o dedo na porta da entrada principal, percebi que estava mentindo e ocultava algo. Então passei a fazer uso da prova que preparamos.