Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 5 de 18

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Cozinheiros Demais

Capítulo 4

Sorri para Wolfe. — Fico contente em poder ajudar. Qual deles o deixou na dúvida?

Ele contornou a mesa. — Venha cá. — Ele prosseguiu, para a direita, até a beira do enorme biombo com a cena de Pocahontas que havia ali, e eu o acompanhei. — Veja só que cena horrível.

Dei um passo para trás, absolutamente surpreso. Eu havia descartado todas as menções a assassinato; afinal, eles eram latinos, e, qualquer que fosse minha opinião sobre a história da mulher fatal, eu não estava preparado para ver sangue de verdade. Mas o sangue estava lá. Não havia muito, porque a faca ainda estava enterrada no meio das costas de Phillip Laszio, só com o cabo à mostra. Ele estava virado de cara para o chão, com as pernas estendidas, e alguém poderia pensar que ele estava dormindo, não fosse a faca. Cheguei mais perto, me abaixei e virei a cabeça o suficiente para dar uma boa espiada em um dos olhos. Levantei-me e olhei para Wolfe.

Ele disse amargo — Um passeio agradável! Sabe de uma coisa, Archie?... bem, deixa pra lá. Ele está morto?

— Morto como uma salsicha.

— Sei. Archie, nunca fomos considerados culpados de obstruir a ação da justiça. Este é o termo legal; vamos deixar isso para eles. Isso não é da nossa conta, pelo menos no momento. O que você lembra de nossa viagem, até agora?

— Acho que eu lembro que viemos de trem. Creio que é o máximo que consigo lembrar.

Ele concordou com a cabeça. — Chame o senhor Servan.

 

4

Eu estava sentado na sala menor do pavilhão Pocahontas às três da manhã. Na outra extremidade da mesa, encontrava-se meu amigo Barry Tolman, e em pé atrás dele um brutamontes de queixo largo e olhos miúdos vestindo um terno de sarja azul, colarinho branco duro, gravata vermelha e camisa rosa. Seu nome e função não foram mantidos em segredo: Sam Pettigrew, delegado da comarca de Marlin. Havia mais dois tipos indefinidos, um deles com bloco de taquigrafia, no fundo da mesa, e um policial estadual de West Virginia em uma cadeira inclinada e encostada na parede. A porta que dava para a sala de jantar estava aberta, e ainda se podia sentir no ar um leve odor dos flashes dos fotógrafos e ouvir um murmúrio dos investigadores que recolhiam impressões digitais e procuravam outras provas.

O atleta de olhos azuis tentava não demonstrar irritação. — Sei de tudo isso, Ashley. Você pode ser o gerente de Kanawha Spa, mas eu sou o promotor público desta comarca. Que quer que eu faça? Acredita que ele caiu acidentalmente em cima da faca? Fico ofendido com sua insinuação de que estou querendo me promover...

— Está bem, Barry. Esqueça. — Clay Ashley, parado atrás de mim, balançou lentamente a cabeça. — Que situação horrorosa! Sei que não pode abafar o caso, claro. Mas, pelo amor de Deus, acabe logo com esta história e tire esta gente daqui! Tudo bem, sei que você vai fazer isso assim que for possível. Sinto muito se fui grosso... Vou tentar dormir um pouco. Mande me chamar se eu puder fazer alguma coisa.

Ele saiu. Alguém veio da sala de jantar e fez uma pergunta a Pettigrew; Tolman se sacudiu, esfregou os olhos vermelhos com as mãos e olhou para mim.

— Mandei chamá-lo novamente, senhor Goodwin, para perguntar se tem algo a acrescentar ao que me disse antes.

Balancei a cabeça. — Dei o serviço todo.

— Não se lembrou de nada que tivesse acontecido, na sala menor, ou em outro lugar qualquer, nenhum comportamento estranho, nenhuma conversa reveladora?

Eu disse que não.

— Nada durante o dia, também?

— Nada. Nem de dia nem de noite.

— Quando Wolfe o chamou secretamente na sala de jantar e mostrou o corpo de Laszio atrás do biombo, o que ele conversou com você?

— Ele não me chamou secretamente. Todos o ouviram.

— Bem, ele quis que fosse sozinho. Por quê?

Ergui os ombros e deixei que baixassem. — Melhor perguntar a ele.

— O que Wolfe disse?

— Eu já disse. Ele pediu que eu fosse ver se Laszio estava morto: eu verifiquei, confirmei, e ele mandou que chamasse Servan.

— Isso foi tudo o que disse?

— Acho que fez algum comentário sobre um passeio agradável. De vez em quando ele é sarcástico.

— Ao que parece, ele também tem sangue-frio. Existe alguma razão especial para sua indiferença para com Laszio?

Pisei um pouco mais fundo no breque. Wolfe jamais me perdoaria se este pentelho pegasse no nosso pé por causa de alguma observação impensada, porém relevante. Sei o motivo de Wolfe ter se dado ao trabalho de me chamar para uma conversa a sós na sala de jantar e perguntar sobre minha memória antes de divulgar as novidades: ele se lembrou de que, em caso de homicídio, uma testemunha poderia ser proibida de deixar o estado, a não ser com permissão das autoridades, e obrigada a retornar para ser interrogada no julgamento, e fazer qualquer uma dessas coisas contrariava seu conceito de boa vida. Não era fácil manter uma atitude respeitosa com um sujeito que fora panaca o suficiente para cair no conto do ginger ale no vagão-restaurante, mas, apesar de eu não ter absolutamente nada contra o estado de West Virginia, não estava mais ansioso do que Wolfe para ficar aqui, ou ter de voltar em breve.

Eu disse — Certamente que não. Ele nunca havia encontrado Laszio antes.

— Durante o dia aconteceu alguma coisa que o deixasse... hã... indiferente à sorte de Laszio?

— Não que eu saiba.

— E você ou ele tinham conhecimento de qualquer tentativa anterior de assassinar Laszio?

— Precisará perguntar isso a ele. Da minha parte, não.

Meu amigo Tolman preferiu o dever à amizade. Ele apoiou o cotovelo na mesa e apontou o dedo para mim, dizendo com cara feia: — Você está mentindo. — Também notei que o delegado de olhos miúdos tinha uma carranca que não dava para desprezar. O ambiente estava carregado.

Ergui as sobrancelhas. — Eu, mentindo?

— É, você mesmo. Que foi que a senhora Laszio disse a você e a Wolfe quando foi à suíte dos dois ontem à tarde?

Espero não ter engolido em seco visivelmente. Sei que meu cérebro engoliu em seco, mas só uma vez. Não importava como ele descobrira, ou quanto sabia; só havia uma coisa a fazer. Eu disse — Ela contou a nós que o marido lhe falou que encontrara arsênico no açucarara e o jogara na pia, e queria que Wolfe o protegesse. Ela também disse que o marido a havia instruído a não mencionar isso a ninguém.

— E o que mais?

— Isso foi tudo.

— E você acabou de me dizer que não tinha conhecimento de nenhuma tentativa anterior de assassinar Laszio. Não foi?

— Sim, foi.

— E aí? — Ele continuava sendo inconveniente.

Sorri para ele. — Olhe, senhor Tolman, eu não gostaria de bancar o esperto com o senhor, mesmo que soubesse como fazê-lo. Mas pediria que levasse em consideração algumas coisas. Em primeiro lugar, sem querer ofender — o senhor é apenas um jovem iniciando sua carreira de promotor. Nero Wolfe já resolveu mais casos espinhudos do que pode imaginar. Sabe disso, conhece a reputação do homem. Mesmo que um de nós soubesse de algo que pudesse servir como pista, o que não é o caso, seria pura perda de tempo tentar arrancar informações contra nossa vontade, porque somos veteranos no ramo. Não estou me gabando, só citando fatos. Por exemplo, a questão do meu conhecimento de um atentado anterior contra Laszio. Reafirmo que não sabia disso. Só sabia que a senhora Laszio disse que o marido disse a ela que encontrara algo que não era açúcar no açucareiro. Como ele poderia ter certeza de que era arsênico? Laszio não foi envenenado, e sim esfaqueado. Na minha opinião...

— Não estou interessado em sua opinião. — Continuava inconveniente. — Perguntei se lembrava de algo que pudesse ser importante, com respeito a este assassinato. Não se lembra?

— Já contei o que a senhora Laszio nos disse...

— Ela também. Vamos deixar isso de lado por enquanto. Mais alguma coisa?

— Não.

— Tem certeza?

— Sim.

Tolman dirigiu-se ao guarda estadual. — Traga Odell aqui.

Lembrei-me de tudo. Então era isso. Que belo grupo de amigos eu havia feito desde minha chegada a este enclave tão pitoresco! — Cabo de Panela, como a região era apelidada pelo querido companheiro Gershom Odell, segurança do Kanawha Spa. Meu cérebro estava novamente engolindo em seco, e desta vez eu não sabia se ia me livrar ou não. O processo foi interrompido com a entrada do meu chapa, empurrado pelo guarda. Eu o encarei, mas ele desviou os olhos. Entrou e ficou parado ao lado da mesa, tão perto de mim que eu poderia ter-lhe dado um soco sem me levantar.

Tolman interrogou — Odell, que foi que este homem lhe disse ontem à tarde?

O detetive do hotel não olhou para mim. Parecia mal-humorado. — Ele afirmou que Phillip Laszio seria morto por alguém; quando lhe perguntei quem o mataria, ele disse que as pessoas iam se revezar.

— E o que mais?

— Isso foi tudo o que ele contou.

Tolman virou-se para mim, mas eu segurei o tranco. Dei uma cutucada nas costelas de Odell que o fez pular. — Ah! É isso! — Ri. — Agora eu me lembro, quando estávamos na beira do caminho, jogando pedras, e você apontou para aquela elevação e me contou que... claro! Pelo jeito, você não contou ao senhor Tolman tudo o que conversamos, já que ele pensa... Você contou a ele o que eu falei sobre os cozinheiros polacos e latinos, como são tão invejosos uns dos outros a ponto de começar a se matar a qualquer momento, e que Laszio era o mais bem pago da turma, sessenta mil por ano, de forma que seria o primeiro a ser pego, com certeza, e como eles se revezariam para matá-lo e depois pegariam outro, e assim por diante — aí eu me lembro de que você começou a me contar sobre a elevação, e como fazia para poder deixar o hotel naquela hora, todos os dias... — Virei-me para Tolman. — Foi só isso: dois caras batendo papo para matar o tempo. Não sei que significado pode encontrar nisso. Se eu contasse o que Odell me disse sobre a elevação... — Ri e cutuquei meu colega nas costelas de novo.

Tolman estava de cara feia, mas não era para mim. — E agora Odell, como é que fica? Não foi bem isso que você disse. Como é?

Tenho de admitir que Odell daria um bom jogador de pôquer. Era o próprio juiz da Suprema Corte fingindo que não tinha interesse pessoal algum no caso. Ele continuou sem olhar para mim, mas encarou Tolman tranquilamente. — Parece que me entusiasmei um pouco. Acho que foi que nem ele disse, só bate-papo. Mas eu me lembrei do nome, claro, Phillip Laszio, e qualquer detetive aproveitaria a chance de dar uma boa dica em um assassinato...

O brutamontes de olhos miúdos falou com um sotaque arrastado e suave que me espantou. — Você não me parece muito objetivo, Odell. Dá para parar de chutar tanto?

Tolman foi mais direto. — Ele disse ou não disse que Laszio seria assassinado?

— Bom... sim, mas do jeito que ele contou. Ou seja, disse que eram todos latinos invejosos, e que Laszio ganhava sessenta mil — disso eu tenho certeza. Mas acho que na verdade foi só.

— E então, Goodwin? Por que você foi escolher logo Laszio, hem?

Fiz um gesto de dúvida. — Eu não o escolhi. Falei nele por acaso, porque sabia que estava entre os maiores salários. Eu tinha acabado de ler um artigo. Quer ver?

O delegado disse, arrastando a voz. — Estamos perdendo tempo. Dá o fora daqui, Odell.

Meu colega, sem me honrar com um olhar sequer, deu as costas e seguiu para a porta. Tolman ordenou ao guarda:

— Mande Wolfe entrar.

Fiquei duro na cadeira. A não ser pelos pequenos obstáculos que me ameaçavam fazer tropeçar, eu estava achando tudo divertido. Fiquei imaginando o que o inspetor Cramer, do Esquadrão de Homicídios de Nova York, diria se pudesse ver Nero Wolfe permitindo que o chamassem para um interrogatório pela polícia de uma cidadezinha, às três e meia da manhã, porque ele não queria ofender um promotor público! Ele não ficava acordado até tão tarde assim desde a noite em que Clara Fox dormiu em nossa casa com meu pijama. Depois pensei que poderia tentar dar uma força. Levantei-me, peguei uma poltrona grande no outro lado da sala e a trouxe para perto da mesa.

O guarda retornou com meu chefe. Tolman perguntou ao policial quem ainda estava esperando do lado de fora, e o guarda disse — Aquele cara, o Vookshish ou sei lá o quê, Berin e a filha. Eles queriam que ela fosse dormir, mas não teve jeito. Fica pedindo para entrar aqui a toda hora.

Tolman mordiscava os lábios, e mantive um olho sarcástico sobre ele, enquanto observava, com o outro, Nero Wolfe se acomodar na poltrona que eu havia puxado. Finalmente Tolman falou: — Diga para irem dormir. Podemos fazer uma pausa até amanhecer. Certo, Pettigrew?

— Certo. Vamos deixar esfriar um pouco. — Ele desviou os olhos miúdos para o guarda. — Diga a Plank que espere lá fora até conferirmos as providências que ele tomou. Isso não é hora de ninguém sair para dar um passeio.

O guarda saiu. Tolman esfregou os olhos e depois, mordiscando novamente os lábios, recostou-se na poltrona e olhou para Wolfe. Este parecia bem calmo, mas eu notei seu indicador tamborilando no braço da poltrona e descobri que um vulcão entrara em erupção dentro dele. Ele forneceu uma pista: — São quase quatro horas, senhor Tolman.

— Obrigado. — Tolman parecia irritado. — Não vamos retê-lo por muito tempo. Mandei buscá-lo novamente porque surgiram uma ou duas coisas novas. — Eu percebi que tanto ele quanto o delegado me observavam de soslaio, e poderia jurar que tentavam algum truque e procuravam me surpreender fazendo algum tipo de sinal para Wolfe. Banquei o sonolento, o que não foi difícil.

Wolfe disse — Mais do que uma ou duas, eu imagino. Por exemplo, suponho que a senhora Laszio repetiu aos senhores a história que me contou ontem à tarde. Não é verdade?

— A que história se refere?

— Tenha dó, senhor Tolman. — Wolfe parou de tamborilar com o dedo e o apontou para ele. — Não banque o esperto comigo. Ela ficou aqui mais de meia hora; só pode ter contado a história. Eu imaginei que o faria. Foi por isso que não a mencionei; preferi que soubesse por ela em primeira mão.

— Como imaginou que ela contaria tudo?

— Apenas uma suposição. — Wolfe foi brando e inofensivo. — Afinal de contas, ela é participante desta tragédia, enquanto eu sou apenas um observador...

— Participante? — Tolman franziu a testa. — Quer dizer que ela está metida nisso? Você não falou nada antes.

— Nem estou falando agora. Só quis dizer que o morto era marido dela, e aparentemente ela teve uma premonição, ou pelo menos uma preocupação antecipada. Você sabe mais a respeito disso do que eu, uma vez que a interrogou. Ela o informou, presumo, que o marido lhe disse ontem, na hora do almoço, na cozinha deste local, que havia encontrado arsênico em um açucareiro, e que o veneno era para ele. E que, sem o conhecimento ou ordem do marido, havia pedido minha ajuda para defendê-lo de outras tentativas, e que eu me recusei.

— Por que se recusou?

— Por causa de minha inadequação para a tarefa. Como disse a ela, não sou provador de alimentos, nem guarda-costas. — Wolfe se mexeu um pouco. Ele estava a ponto de explodir. — Posso lhe dar um conselho, senhor Tolman? Não perca seu tempo comigo. Não tenho a menor ideia de quem matou o senhor Laszio, ou do motivo para tanto. Talvez o senhor já tenha ouvido falar de mim. Nesse caso, é possível que pense que eu seja capaz de trilhar caminhos sinuosos quando estou realizando uma investigação, apesar de alguém dificilmente ter essa impressão de mim. Mas eu não estou envolvido com este crime, não tenho o menor interesse nele, não sei absolutamente nada a respeito, e o senhor vai conseguir tantas informações pertinentes através de mim quanto conseguiria interrogando um marciano. Minha ligação com a questão tem três aspectos. Primeiro, eu, por coincidência, estava aqui, o que é apenas um infortúnio pessoal. Segundo, descobri o corpo do senhor Laszio. Como informei antes, fiquei curioso de verificar se ele estava vigiando a mesa secretamente, como uma criança. Por isso olhei atrás do biombo. Terceiro, a senhora Laszio me contou que alguém estava tentando envenenar o marido, e me pediu que evitasse o crime. São os fatos. Se há espaço para essas peças em seu quebra-cabeça, pode encaixá-las no lugar. Os senhores podem contar com minha solidariedade e meus votos de sucesso.

Tolman, que afinal de contas mal passava de um moleque, virou a cabeça para trocar olhares com o delegado, que coçava o queixo vagarosamente com o dedo médio. Pettigrew devolveu o olhar e depois se virou para Wolfe:

— Olha, moço, parece que a gente se enganou a seu respeito. Não queremos causar nenhum problema ou inconveniência. Sabemos que não é como o resto da turma, que, mesmo tendo alguma informação, iria fazer o possível para não contar para nós. Tinha razão quando disse que podíamos conhecê-lo. Já ouvimos falar da sua pessoa. E, afinal, esteve lá o dia inteiro, com aquela turma, falando com eles. Não sei o que o Tolman pensa, mas na minha opinião não haveria mal nenhum em contar a nós o que descobriu e qual é seu palpite no caso. Mas, como diz que não tem o menor interesse nisso, acho melhor desistir. Não é, Barry?

Wolfe disse — Vocês estão perdendo tempo. Não sou mágico. Trabalho duro para obter resultados, mas este caso não é meu, e não vou me dedicar a ele.

Disfarcei um sorriso. Tolman entrou na conversa — Quanto mais cedo esta história for esclarecida, melhor vai ser para todos. Sabe disso. Se o delegado...

Wolfe interrompeu bruscamente — Muito bem. Amanhã.

— Já é amanhã. Não sei até que horas dorme de manhã, mas eu me levanto cedo. Tem uma coisa em especial que quero perguntar. Disse que o único dessa turma que o senhor conhece bem é Vukcic. A senhora Laszio contou que era casada com Vukcic e que se divorciou dele há alguns anos para ficar com Laszio. Pode me dizer como Vukcic se sente a esse respeito?

— Não. Pelo jeito, a senhora Laszio já foi muito prestativa.

— Bem, o marido dela foi assassinado. Por quê? Tem algo contra a senhora Laszio? E a segunda farpa que solta contra ela.

— Certamente. Tem uma coisa que não gosto. É de mulheres que me pedem para proteger o marido. Considero abaixo da dignidade de um homem depender da interferência de uma mulher para obter segurança ou proteção. Puf!

Dava para ver que Wolfe não estava apaixonado. Torci para que Tolman tivesse percebido isso. Ele disse:

— Fiz a pergunta porque, obviamente, Vukcic foi um dos dois que tiveram a melhor oportunidade para matá-lo. A maior parte está fora do caso, aparentemente, conforme seu testemunho e o do resto. — Ele deu uma olhada para os papéis sobre a mesa. — Segundo as informações disponíveis até o momento, ficaram na sala o tempo todo a senhora Laszio, a senhora Mondor, Lisette Putti e Goodwin. Servan disse que encontrou Laszio vivo e tudo em ordem quando foi até a sala de jantar para experimentar os molhos, e que Mondor, Coyne e Keith o precederam. Existe consenso de que nenhum deles deixou a sala de estar depois disso. Estão, portanto, aparentemente, fora disso. Os outros dois são Berin e Vukcic. Berin declarou que Laszio ficou na sala de jantar, quando saiu, e que não havia nada de errado. Vukcic disse que, ao entrar lá, oito ou dez minutos depois, em função de uma demora, Laszio se fora, e ele não o viu mais nem notou nada de errado. Os três últimos, Vallenko, Rossi e o senhor, também estão aparentemente fora disso, mas não com tanta certeza quanto os outros, uma vez que é bem possível que Laszio tenha apenas ido até o terraço ou ao banheiro, e voltado depois que Vukcic deixou a sala de jantar. De acordo com os cozinheiros, ele não apareceu na cozinha, de modo que essa hipótese está descartada.

Tolman espiou os papéis de novo. — Temos, portanto, duas probabilidades, Berin e Vukcic, e três possibilidades, Vallenko, Rossi e o senhor. Além disso, há outras três possibilidades. Alguém poderia facilmente ter entrado na sala de jantar, pelo terraço, a qualquer hora. As persianas estavam abaixadas e a porta de vidro fechada, mas não trancada. E três pessoas poderiam ter feito isso: Leon Blanc, que se recusou a tomar parte no teste, por causa de sua hostilidade a Laszio, e se ausentou; a senhora Coyne, que esteve sozinha lá fora por quase uma hora, inclusive durante o intervalo da visita de Berin e da de Vukcic à sala de jantar, e a senhorita Berin. Blanc argumenta que foi para o quarto e não saiu mais, e os funcionários da recepção não o viram sair, mas há uma porta para o pequeno terraço lateral, no final do corredor da ala esquerda, que poderia ter sido usada sem que ninguém notasse. A senhora Coyne disse que passeou pelas trilhas e alamedas durante sua ausência, não esteve no terraço da sala de jantar e retornou pela porta principal, dirigindo-se imediatamente para a sala de estar. Quanto à senhorita Berin, ela voltou à sala de estar, vinda de seu quarto, antes do inicio do teste dos molhos, e não saiu mais. Mencionei sua ausência apenas para completar o quadro.

Pensei com meus botões: mas que cachorro insensível! Ela estava no quarto chorando por sua causa — este foi o motivo da ausência —, e você transforma isso em parte de uma lista!

— O senhor estava lá, senhor Wolfe. Isso cobre tudo, não é?

Wolfe resmungou. Tolman prosseguiu — Quanto ao motivo, para alguns deles havia muitos. No caso de Vukcic, o fato de Laszio ter roubado a mulher dele. E Vukcic esteve conversando com a senhora Laszio logo antes de entrar na sala de jantar, e ficou olhando para ela, e dançando...

Wolfe disse ferino — Uma mulher contou isso.

— Meu Deus! — o delegado exclamou. — Você critica todas as coisas que descobrimos. Pensei que tinha dito que não estava interessado.

— Vukcic é meu amigo. Estou interessado nele. Não estou interessado neste assassinato, com o qual não tenho ligação alguma.

— Talvez não. — Tolman parecia animado; suponho que era porque havia despertado algum interesse em Nero Wolfe. — De qualquer forma, a conversa com a senhora Mondor foi a primeira chance que tive de fazer uso oficial do meu francês. E ainda temos Berin. Soube algumas coisas, e não foi pela senhora Mondor, mas pelo próprio. Ele declarou que Laszio poderia ter sido morto há muito tempo, e que ele mesmo o teria assassinado com todo o prazer, e se tiver qualquer oportunidade de proteger o assassino não hesitará em fazê-lo.

Wolfe murmurou — Berin fala demais.

— Fala mesmo. Assim como aquele francês baixinho, Leon Blanc, com outro estilo. Ele admitiu que odiava Laszio porque este criou intrigas que lhe tiraram o emprego no Hotel Churchill há alguns anos. Mas ele disse que jamais mataria uma pessoa, fosse qual fosse a razão. Afirmou que nem sequer está contente com a morte de Laszio, porque a morte não cura, amputa. Foram estas as palavras dele. Ele tem fala mansa, e certamente não parece ser suficientemente agressivo para esfaquear um homem no coração, mas não é nenhum bobo, e pode ser bem hipócrita se quiser.

— Há duas probabilidades e uma possibilidade, com motivos. Das quatro outras possibilidades, creio que o senhor está fora. Se Rossi e Vallenko abrigavam ressentimentos que pudessem levá-los ao assassinato, ainda não os descobri. Quanto à senhora Coyne, ela nunca viu Laszio antes, e pelo que sei nem chegou a falar com o sujeito. Assim sendo, por enquanto temos Berin, Vukcic e Blanc. Qualquer um pode ter cometido o crime, e acho que foi um deles. Que pensa a respeito?

Wolfe balançou a cabeça. — Graças a Deus, não é problema meu. Não tenho de pensar nada.

Pettigrew palpitou, com sua fala mole — Você supõe que haja uma chance de ter sido seu amigo Vukcic, e prefere não pensar nele como suspeito?

— Chance? Certamente. Remota. Se foi Vukcic, torço para que não tenha deixado nenhuma pista para que vocês possam pegá-lo. Quanto a qualquer informação sobre isso, não contem comigo, porque não sei de nada e se soubesse não diria.

Tolman moveu a cabeça. — Muito sincero, mas nada útil. Desnecessário dizer que o modo mais rápido de livrar seu amigo Vukcic, se pensa que não foi ele e se pretende ajudá-lo, é descobrir quem foi. O senhor estava lá na hora do crime. Viu todo mundo e ouviu o que foi dito. Tenho certeza de que um homem com sua reputação e habilidade, nestas circunstâncias, vai levar em conta a possibilidade de oferecer ajuda. Se não o fizer, estará lançando suspeitas sobre seu amigo Vukcic, certo?

— Não sei. Suspeitas são um problema seu. Não tenho como interferir. Pelo amor de Deus, são quatro da manhã! — Wolfe suspirou. Em seguida, comprimiu os lábios. Ficou um tempo assim, depois resmungou — Está bem, vou ajudá-los durante dez minutos. Contem tudo sobre a rotina — a faca, impressões digitais, qualquer objeto encontrado...

— Nada. Havia duas facas sobre a mesa, para cortar o frango de leite, e uma delas foi usada. Você mesmo viu que não existia o menor sinal de luta. Não encontramos nada, em lugar nenhum. Nem impressões digitais que possam significar algo; as existentes na faca utilizada no assassinato estavam todas borradas. As maçanetas da porta que dá para o terraço são de ferro fundido rústico. Os técnicos ainda estão lá trabalhando nisso, mas não tenho muitas esperanças nesse sentido.

Wolfe grunhiu — Você omitiu algumas possibilidades. E os cozinheiros e garçons?

— Foram todos interrogados pelo delegado, que sabe como lidar com os negros. Nenhum deles esteve na sala de jantar, nem ouviu tampouco viu nada. Laszio disse a eles que tocaria a campainha se quisesse ajuda.

— Alguém poderia ter ido da sala grande para a menor, e dali entrado na sala de jantar e cometido o crime. Você deve deixar claro, acima de qualquer dúvida, que estavam todos na sala maior, especialmente durante o intervalo entre a saída de Berin da sala de jantar e a entrada de Vukcic, o que nos dá, como você mesmo disse, uns oito ou dez minutos.

— Já fiz isso. Claro, investiguei a todos mais que depressa.

— Então investigue de novo. Outra possibilidade: alguém pode ter se escondido atrás do biombo e atacado quando surgiu o momento propício.

— É? Quem?

— Certamente não saberia dizer. — Wolfe franziu o cenho. — Mas posso lhe dizer uma coisa, senhor Tolman, sou extremamente cético no que diz respeito a seus dois principais suspeitos: o senhor Berin e o senhor Vukcic. Estou tentando ser educado. Quanto ao senhor Blanc, não tenho opinião formada. Como bem disse, ele poderia, sem dúvida, ter deixado o quarto, saído pelo corredor da ala esquerda, contornado o prédio, entrado na sala de jantar pelo terraço, executado seu intento e voltado pelo mesmo caminho. Nesse caso, ele não teria sido visto pela senhora Coyne, que estava lá fora naquele momento, apreciando a noite?

Tolman balançou a cabeça. — Ela diz que não o viu, que ficou na frente e na lateral. Não viu ninguém, fora um negro de uniforme, a quem perguntou como era o canto de um bacurau. Nós o descobrimos; era um dos mensageiros, vindo da fonte, a caminho do pavilhão Mingo.

— Sei. Quanto a Berin e Vukcic, se eu fosse você os deixaria de lado por enquanto. Ou então — vou fazer uma sugestão — pegue as folhas de papel com os relatórios do teste com o senhor Servan...

— Já estão comigo.

— Ótimo. Compare-as com a lista correta, que sem dúvida também já deve ter obtido com o senhor Servan.

— Não foi preciso. Estava no bolso de Laszio.

— Muito bem. Compare cada uma das listas com a correta, e veja os acertos de cada um.

O delegado Pettigrew rosnou. Tolman perguntou secamente — E isso que você chama de dar uma ajuda?

— Sim. Eu já estou... espere um pouco! — Wolfe se empertigou ligeiramente. — Você está com a lista correta — a que tirou do bolso de Laszio? Será que se importaria de me deixar dar uma espiada, apenas por um momento?

Tolman, com as sobrancelhas erguidas, fuçou nos papéis à sua frente, pegou um, passou-o para mim e eu o entreguei a Wolfe. Este o observou com uma ruga na testa e se virou para mim sacudindo a folha na mão. — Archie! Coyne estava certo! O número 3 era cebolinha!

Tolman perguntou sarcástico — Pausa para relaxar? Muito obrigado por mais esta contribuição!

Eu sorri para ele. — Pausa uma ova! Ele vai ficar uma semana sem dormir, porque adivinhou errado.

Wolfe me censurou: — Não foi adivinhação. Apenas uma conclusão deliberada, e eu me enganei. — Ele passou o papel para mim. — Peço desculpas, senhor Tolman, mas sofri um duro golpe. Na verdade, não espero que o senhor compreenda isso. Como eu estava dizendo, estou mais do que cético quanto à culpa de Vukcic e Berin. Conheço o senhor Vukcic há muito tempo. Posso imaginar que ele esfaqueie um homem, em circunstâncias hipotéticas, mas estou certo de que não iria encontrar a faca nas costas do sujeito, se fosse ele. Não conheço o senhor Berin muito bem, mas o vi de perto e ouvi o que ele disse, um minuto após sair da sala de jantar na noite passada, e posso apostar que ele não parecia ter acabado de cometer um crime covarde. Teria ele enfiado uma faca nas costas do senhor Laszio e voltado alguns instantes depois, sem que eu detectasse qualquer resquício dessa experiência em sua postura, suas mãos, seus olhos ou sua voz? Não creio...

— E quanto à comparação destas listas?

— Chegarei lá. Creio que o senhor Servan descreveu o espírito do teste ao senhor — em cada um dos molhos faltava um dos temperos. Só se permitia experimentar uma vez cada molho — só uma! Tem alguma ideia da sutileza e da sensibilidade necessárias? Exigia o mais alto grau de concentração e receptividade aos estímulos. Seria o mesmo que identificar uma única nota dissonante em uma das flautas numa passagem sinfônica de uma orquestra completa. Sendo assim, compare estas listas. Se concluir que Vukcic e Berin estavam certos, no geral — digamos sete ou oito acertos —, eles estarão eliminados. Ou até mesmo seis. Nenhum homem conseguiria matar outro e controlar seu sistema nervoso o suficiente para realizar tal feito. Garanto que não estou brincando.

Tolman fez que sim com a cabeça. — Está bem. Vou compará-las.

— Seria muito instrutivo fazê-lo agora.

— Vou providenciar. Alguma outra sugestão?

— Não. — Wolfe levou as mãos até os braços da poltrona, recuou os pés, apoiou-se e levantou-se. — Os dez minutos esgotaram-se. — Fez uma pequena mesura. — Novamente, senhores, ofereço meus votos de solidariedade e sucesso.

O delegado falou — Soube que está dormindo no Upshur. Obviamente percebe que continua livre para ir a qualquer lugar que queira, por aqui.

— Muito obrigado, senhor. — Wolfe soava amargurado. — Vamos, Archie.

Para não tomar todo o caminho, permiti que ele fosse à frente, desbravando o verde, até voltarmos para o pavilhão Upshur. Não estava escuro, já começava a amanhecer, e havia tantos pássaros a cantar que era impossível deixar de notá-los. No hall principal do pavilhão, as luzes estavam acesas, e um par de guardas estaduais vigiava a entrada. Wolfe passou por eles sem olhar.

Fui até seu quarto para ter certeza de que estava tudo bem. A cama fora preparada para a noite, e os tapetes coloridos e as peças de decoração tornavam o ambiente claro e agradável; o quarto era grande e classudo o bastante para valer pelo menos metade dos vinte paus que cobravam por ele. Mas Wolfe franziu a testa, como se aquilo fosse uma espelunca.

Perguntei — Posso ajudá-lo a se despir?

— Não.

— Devo trazer um jarro de água do banheiro?

— Posso andar. Boa noite.

— Boa noite, chefe. — Saí.

A voz dele me deteve na porta. — Archie. O senhor Laszio aparentemente tinha características desagradáveis. Supõe que ele possa deliberadamente ter feito uma lista incorreta para desconcertar seus colegas — e a mim?

— Hum, hum. Sem chance. Ética profissional, sabe como é. Claro que fico triste por você ter cometido tantos erros...

— Dois! Cebolinha e alho de folha! Me deixe em paz! Suma daqui!