Cozinheiros Demais
Capítulo 13
Se eu estivesse em Nova York teria pedido demissão.
13
Lá pelas dez da manhã, sentei-me em uma poltrona perto da janela aberta e bocejei, olhos fixos no texto datilografado, meu próprio trabalho. Havíamos repassado o discurso até a página 9.
Wolfe, de frente para mim, estava sentado na cama com quatro almofadas nas costas, exibindo meio hectare de seda amarela do pijama. No criado-mudo do lado, havia um par de garrafas de cerveja vazias e um copo vazio. Tive a impressão de que ele olhava de modo intencionalmente crítico para minhas meias, enquanto prosseguia:
— “...mas o indescritível aroma do mais fino dos presuntos da Geórgia, cuja qualidade os coloca, em minha opinião, definitivamente ao lado dos melhores que se podem encontrar na Europa, não se deve de modo algum ao tratamento post-mortem da carne. Conhecimentos profundos e cuidados extremos durante o processo de cura são essenciais, é claro, mas podemos encontrá-los em Czestochowa e Westphalia com mais facilidade do que na Geórgia. Poloneses e alemães possuem os porcos, a formação acadêmica e a habilidade. Mas a eles falta o amendoim”.
Ele parou para assoar o nariz. Eu mudei de posição. Ele prosseguiu: — “Um porco cuja dieta é composta de 50% a 60% de amendoim fornece um presunto de incrível doçura e sutil suculência que, bem curado, bem tratado e bem cozido, terá precedência sobre qualquer outro presunto que o mundo possa se dar ao luxo. Cito esse exemplo como uma das contribuições americanas que estamos discutindo, e como mais uma prova de que os itens americanos dignos de constar na lista de honra das comidas finas não se limitam absolutamente aos produtos encontrados já prontos nas árvores, sem exigir mais do que a colheita. Os índios comiam batatas e perus muito antes da chegada do homem branco, mas não comiam porcos alimentados com amendoim. Esses presuntos inesquecíveis não são dádivas da natureza; resultam do esforço e da dedicação do inventor, da persistência do provador e da escolha do connoisseur. Resultados similares foram obtidos alimentando galinhas com vacínios desde pequenas, começando normalmente...”.
— Espera aí. Galinhas não. Aves ficaria melhor.
— Galinhas são aves.
— Você me disse para interrompê-lo.
— Mas não disse que discutisse comigo.
— Foi você quem começou, não eu...
Ele ergueu a mão. — Vamos prosseguir: “...começando normalmente com a idade de uma semana. O sabor de um galeto de quatro meses, acostumado a comer grande quantidade de vacínios desde o nascimento, ensopado com cogumelos, estragão e vinho branco — ou, se desejarem um toque mais americano, aproveitado para uma torta de milho, com cebola, salsa e ovos —, não é apenas distinto, é único. Sem dúvida, trata-se de alta cozinha. Este é um exemplo até melhor da minha tese, do que o do presunto, porque os europeus não poderiam alimentar os porcos com amendoim, já que não têm o amendoim. Mas eles têm galinhas... galinhas...”. Archie!
— Aves.
— Não importa. “... galinhas e vacínio, e passaram-se séculos sem que ninguém imaginasse a possibilidade de um assimilar o outro e nos brindar com tal resultado. Outra demonstração da criatividade...”
— Ei, espere aí! Você deixou um parágrafo inteiro de lado. “Vocês podem argumentar, talvez...”
— Muito bem. Importa-se de sentar-se direito? A cadeira fica rangendo sem parar. “Vocês podem argumentar, talvez, que essa questão não diz respeito à arte culinária, mas se pensarem bem perceberão que sim. Vatel tinha sua própria fazenda, e dava atenção pessoal à lavoura. Escoffier recusava aves de determinado distrito, por mais gordas e bem nutridas que fossem, por causa dos minerais presentes na água que bebiam ali. Brillat-Savarin elogiou seguidas vezes...”
Eu estava de pé. Sentado, sentia coceira nos braços e nas pernas, e não conseguia ficar quieto. Olhos fixos no discurso, fui até a mesa, peguei um copo d’água da garrafa e bebi. Wolfe prosseguiu, monótono. Resolvi não me sentar de novo, e fiquei no meio da sala flexionando os músculos da perna para diminuir o formigamento.
Não sei o que me alertou. Não poderia ter sido algo que vi, meus olhos estavam fixos no discurso, e a janela aberta encontrava-se à minha esquerda, a pelo menos uns três metros e meio de distância, em ângulo reto quanto à minha linha de visão. Não acho que tenha ouvido nada. Mas alguma coisa fez com que eu virasse a cabeça para o lado, e mesmo assim a única coisa que percebi foi um movimento nas moitas do lado de fora da janela, e não tenho a menor ideia do que me fez atirar o discurso. Mas eu joguei o calhamaço de papel direto na janela. No mesmo instante, uma arma foi disparada; deu para ouvir isso com perfeição. Simultaneamente, a fumaça e o cheiro de pólvora entraram pela janela, o discurso deu um pulo e caiu no chão, e ouvi Wolfe dizendo, por trás de mim.
— Olhe aqui, Archie.
Olhei e vi o sangue escorrendo pelo lado do rosto. Por um segundo, senti o sangue gelar nas veias. Queria pular pela janela e pegar o filho da... o cara que atirou, e acabar com ele pessoalmente. Mas Wolfe não estava morto, continuava ali sentado. O sangue, porém, parecia jorrar em abundância. Pulei para o lado da cama.
Ele mantinha os lábios comprimidos com força, mas abriu a boca para perguntar. — Onde foi? No crânio? — Ele tremeu. — No cérebro?
— Diabo, nada disso. — Eu o examinei, e fiquei tão aliviado que minha voz falhou. — Que cérebro? Mantenha as mãos afastadas e tenha paciência. Espere até eu arranjar uma toalha. — Corri para o banheiro e voltei; enrolei uma toalha no pescoço dele, e usei a outra para estancar o sangue. — Acho que não chegou a atingir o osso da face; cortou só carne e pele. Sente-se fraco?
— Não. Traga o espelho de barba.
— Espere até que eu...
— Traga o espelho!
— Pelo amor de Deus! Segure a toalha no lugar. — Corri ao banheiro outra vez, para pegar o espelho, e o passei para ele, seguindo depois para o telefone. Uma voz feminina disse bom-dia com doçura.
— Tá. Bom-dia. Tem um médico nessa droga?... Não, espere, não quero falar com ele; diga que venha direto para cá, imediatamente; um homem levou um tiro na suíte 60 do pavilhão Upshur... Eu disse um tiro, não se esqueça, e mande o médico. Chame também Odell, o detetive do hotel, e aquele policial estadual, se ainda estiver por aí, e mande uma garrafa de brandy. Entendeu? ... Muito bem, você é uma gracinha.
Voltei para perto de Wolfe. Sempre que eu quiser cair na gargalhada, só terei de lembrar sua aparência naquela ocasião. Com uma das mãos ele impedia que a toalha caísse do pescoço, e com a outra segurava o espelho, para o qual olhava com absoluta indignação e revolta. Percebi que estava mantendo os lábios bem apertados para que o sangue não entrasse na boca. Procurei seus lenços e enxuguei um pouco mais de sangue.
Ele moveu o ombro esquerdo para cima e para baixo. — Escorreu um pouco de sangue pelo meu pescoço. — Ele mexeu o maxilar para cima e para baixo e de um lado para o outro. — Não sinto nada quando faço isso. — Colocou o espelho sobre a cama. — Você não pode estancar este maldito sangramento? Espere, não aperte com tanta força! Que é isso aí no chão?
— É seu discurso. Acho que tem um buraco de bala no meio dele, mas tudo bem. Pode disfarçar um pouco, e virá-lo para o seu lado. Agora, por favor, pare de falar... espere, vou tirar as almofadas...
Coloquei-o na posição horizontal, com a cabeça erguida por dois travesseiros, fui até o banheiro buscar uma toalha molhada em água fria, voltei e fiz uma compressa. Ele ficou de olhos fechados. Eu estava chegando com outra toalha molhada quando bateram à porta.
O médico era um careca de óculos atrevido, com uma maleta na mão e uma enfermeira do lado. Quando eu pedi que entrasse logo, alguém surgiu trotando no hall. Deixei entrar também quando vi que era Clay Ashley, o gerente do Kanawha Spa. Ele começou a falar comigo ansioso — Quem foi como aconteceu como está ele... — Disse que se calasse e seguisse o médico e a enfermeira.
O médico careca não era nenhuma toupeira, pelo menos. A enfermeira puxou uma poltrona para a valise, que abriu imediatamente. Encostei uma mesa na cama, enquanto o doutor se debruçava sobre Wolfe sem me perguntar nada. Wolfe começou a se virar de lado, mas recebeu ordem de ficar quieto.
Wolfe protestou. — Uma ova. Quero ver seu rosto!
— Para quê? Para ver se estou compos mentis? Estou bem. Fique quieto.
Ouvi a voz de Clay Ashley atrás de mim. — Que significa isso? Você disse que ele levou um tiro? Que aconteceu?
O médico falou com firmeza, sem se virar — Fiquem quietos, até que eu possa ver o que houve.
Bateram de novo na porta, com força. Fui atender, e Ashley me seguiu. Era meu amigo Odell e um par de guardas, tendo atrás deles o sujeito de paletó verde do hall. Ashley disse ao empregado de uniforme:
— Saia já daqui e fique de boca fechada.
— Eu só queria dizer ao senhor que ouvi um tiro, e dois hóspedes perguntaram...
— Diga que não sabe de nada. Diga que foi o escapamento de um carro, entendeu?
— Sim, senhor.
Levei o quarteto para o meu quarto. Ignorei Ashley, porque tinha ouvido Wolfe afirmar que ele era burguês, e disse aos guardas:
— Nero Wolfe estava sentado na cama, ensaiando um discurso que fará esta noite, e eu estava em pé, a três metros da janela aberta, acompanhando sua fala com o texto do discurso na mão, para corrigi-lo. Alguma coisa lá fora chamou minha atenção. Não sei se foi um som ou um movimento; olhei pela janela e a única coisa que posso dizer que vi foi um ramo do arbusto se mover. Joguei o discurso em direção à janela. Ao mesmo tempo, uma arma foi disparada lá fora, Wolfe gritou meu nome. Vi que seu rosto sangrava, fui dar uma olhada nele. Depois liguei para a recepção do hotel e fiquei estancando o sangue até a chegada do médico, pouco antes de vocês aparecerem.
Um dos guardas segurava um bloco de anotações na mão. — Qual o seu nome?
— Archie Goodwin.
Ele anotou. — Viu alguém no meio dos arbustos?
— Não. Se me permite uma sugestão, não se passaram ainda nem dez minutos do disparo. Já contei tudo o que sei. Se deixarem as perguntas para depois, e derem uma olhada no local agora, poderão conseguir alguma pista quente.
— Quero ver Wolfe.
— Para perguntar se fui eu quem atirou nele? Bom, não fui eu. Até já sei quem foi. O mesmo homem que matou Laszio no pavilhão Pocahontas, na terça à noite. Não sei o nome dele, mas tenho certeza de que foi ele. Gostariam de pegar o assassino, vocês dois? Pois sigam as pistas lá fora, antes que esfriem.
— Como você sabe que foi a mesma pessoa que matou Laszio?
— Porque Wolfe começou a fuçar muito perto da toca dele, e o sujeito não gostou. Tem muita gente que gostaria de ver Nero Wolfe morto, mas não estão na área.
— Wolfe está consciente?
— Certamente que sim. Por aqui, passando pelo foyer.
— Vamos lá, Bill.
Eles foram na frente, seguidos por Ashley e por mim, tendo Odell ficado no fim da fila. No quarto de Wolfe, a enfermeira havia coberto metade da mesa com ataduras e equipamentos. Um esterilizador elétrico fora ligado na tomada. Wolfe, virado sobre o lado direito, estava de costas para nós, e o médico o examinava, inclinado sobre ele, os dedos atarefados.
— E então, doutor?
— Quem... — A cabeça do médico virou-se em nossa direção. — Ah, são vocês. Apenas um ferimento superficial na face. Vou precisar dar uns pontos.
Wolfe perguntou — Quem está aí?
— Pare de falar. É a polícia estadual.
— Archie. Onde está você, Archie?
— Estou aqui, chefe. — Dei um passo à frente. — Os guardas querem saber se fui eu quem deu o tiro em você.
— Bem que eu imaginei. Idiotas. Diga que dêem o fora daqui. Mande todo mundo sair, menos o médico. Não estou em condições de ter companhia.
O guarda disse — Gostaríamos de perguntar, senhor Wolfe...
— Não tenho nada a dizer a vocês, só que alguém atirou contra mim pela janela. O senhor Goodwin já não contou isso? Acham que vocês podem pegá-lo? Tentem.
Clay Ashley falou indignado. — Isso não é atitude que se tome, Wolfe. Toda esta confusão aconteceu porque eu permiti uma reunião de pessoas que não fazem parte de minha clientela. Longe disso. Tenho a impressão...
— Sei quem é esse. — A cabeça de Wolfe começou a se mover, e o doutor teve de segurá-la com firmeza. — O senhor Ashley. Sua clientela! Puf! Ponha ele para fora também. Ponha todo mundo para fora. Está me ouvindo, Archie?
O médico falou decidido. — Agora chega. Quando ele fala, começa a sangrar.
Eu disse aos guardas — Vamos lá, caiam fora. O sujeito já está bem longe agora; vocês não correm o menor risco. — E a Ashley — Transmita meus respeitos a sua clientela. Suma daqui.
Odell ficara perto da porta, de modo que foi o primeiro a sair. Ashley e os guardas foram os seguintes. Segui-os pelo foyer, até o hall principal. Ali parei um dos guardas e o mantive parado; agarrei um lado da farda, e seu colega, vendo que ele ficava para trás, parou também, enquanto Ashley e Odell seguiam em frente. Ashley batia o pé furiosamente, e Odell trotava atrás.
— Escute — Disse ao guarda. — Vocês não gostaram de minha primeira sugestão. Vou dar outra. Este indivíduo que esfaqueou Laszio e atirou em Wolfe parece ser bem ativo. Pode até ser que ele meta na cabeça a ideia de praticar mais tiro ao alvo por aí. É um dia agradável de abril, e Wolfe não vai querer ficar de janelas fechadas e cortinas puxadas, e eu não pretendo ficar lá sentado o dia inteiro, vigiando os arbustos. Chegamos aqui vivos, e gostaríamos de sair nas mesmas condições, às 12h40 desta noite. Que tal se vocês mantivessem um guarda aqui para ficar de olho nas janelas e nas moitas lá dos fundos? Tem um banco ótimo, aqui perto, ao lado do riacho.
— Muito agradecido. — Ele me pareceu um tanto sarcástico. — Pode ser que você prefira que o coronel venha de Charleston até aqui para lhe dar instruções.
Fiz um gesto apaziguador. — Estou nervoso. Não dormi e meu chefe levou um tiro. Não perdeu os miolos por pouco. Estou surpreso por continuar bancando o educado. Seria ótimo saber que as janelas estão sendo vigiadas. Podem fazer isso?
— Sim. Vou fazer um relatório por telefone e pedir mais homens. — Ele olhou para mim. — Você só viu mesmo o que nos contou, não foi?
Disse que ele tinha razão. O guarda deu as costas, levando consigo o irmão.
No quarto de Wolfe a consulta prosseguia. Fiquei parado ao pé da cama observando por alguns minutos. Depois meus olhos pousaram no texto do discurso caído no chão. Abaixei-me para pegar o calhamaço e examiná-lo. Sem dúvida, a bala passara bem no meio, afrouxando um dos grampos de metal que mantinham as folhas juntas. Alisei o papel, atirei o texto em cima da escrivaninha e retomei meu posto ao pé da cama.
O médico era um pouco lerdo, mas mostrava-se eficiente e compenetrado. Já havia começado a dar os pontos em Wolfe, que permanecia deitado de olhos fechados e me informou com um murmúrio ter recusado a oferta de uma anestesia local. A mão que segurava o cobertor estava cerrada com força, e toda vez que a agulha penetrava na carne ele grunhia. Depois de alguns pontos ele perguntou — Meus gemidos o incomodam? — O médico disse que não, e aí os grunhidos aumentaram. Depois de terminar os pontos e de fazer o curativo, o médico me disse, enquanto terminava o trabalho, que o ferimento fora superficial, mas doeria um pouco. O paciente precisava descansar e ficar livre de aborrecimentos. Ele estava fazendo um curativo que não precisaria ser mexido até nossa chegada a Nova York. O paciente insistia em que precisava fazer um discurso naquela noite, e não pôde ser persuadido do contrário, de forma que o médico deveria ser chamado caso o excesso de atividade muscular causasse hemorragia. Seria aconselhável que o paciente ficasse na cama até a hora do jantar.
Ele terminou. A enfermeira o ajudou a recolher sua parafernália e restos de materiais, inclusive as toalhas ensanguentadas. Ofereceu-se para ajudar Wolfe a trocar o pijama sujo por um limpo, mas ele recusou a gentileza. Puxei a lista de despesas, mas o doutor disse que tudo seria incluído na conta, e deu a volta na cama para ter uma visão frontal do rosto de Wolfe e fornecer outras instruções.
Eu os acompanhei até o hall principal para dizer ao empregado de paletó verde que nenhum visitante, fosse quem fosse, seria recebido na suíte 60. De volta ao quarto de Wolfe, encontrei o paciente ainda deitado em cima do lado direito do corpo e de olhos fechados.
Fui para o telefone. — Telefonista? Alô? Escute. O médico disse que o senhor Wolfe precisa descansar em silêncio. Por favor, avise a mesa para não chamar este número. Não importa quem seja...
— Archie! Cancele esta ordem!
Solicitei que aguardasse. — Espere um momento. Sim, senhor?
Wolfe não se moveu, mas disse novamente. — Cancele a ordem sobre o telefone.
— Mas você...
— Cancele.
Pedi à recepção que deixasse tudo como estava antes, desliguei o telefone e me aproximei do paciente. — Desculpe. Não pretendia interferir em seus assuntos pessoais por nada neste mundo. Se quer que o telefone toque...
— Não quero que toque. — Ele abriu os olhos. — Mas não poderemos fazer nada se ficarmos incomunicáveis. Disse que a bala atravessou meu discurso. Deixe-me vê-lo, por favor.
Seu tom de voz não deixava margem a dúvidas. Peguei o texto na escrivaninha e o entreguei sem demora. De cenho franzido, ele o folheou. Ao ver a extensão dos danos, a ruga aumentou. — Suponho que possa decifrá-lo. Por que o jogou?
— Porque estava na minha mão. Se ele não tivesse desviado a bala, você poderia ter passado desta para melhor — ou poderia ter passado longe, tenho de admitir. Depende da categoria do atirador.
— Suponho que sim. Esse sujeito é imbecil. Eu tinha lavado minhas mãos para o caso. Ele tinha uma ótima chance para deixar tudo como estava, mas agora está perdido. Vamos pegá-lo.
— Claro que sim.
— Seguramente. Tenho muita paciência, Deus sabe que não sou alvo passivo para armas de fogo. Enquanto o curativo estava sendo feito, refleti sobre as probabilidades, e vi que temos pouco tempo para agir. Passe o espelho. Suponho que eu esteja sensacional.
— Está bem enfeitado. — Passei o espelho para ele. — Wolfe estudou seu reflexo e os lábios se comprimiram. — Quanto a pegar esse cara, sou francamente a favor, mas pela sua aparência, e pelo que o médico disse...
— Não há nada que se possa fazer. Feche a janela e as cortinas.
— Vai ficar escuro. Disse ao policial que vigiasse lá fora...
— Faça o que estou dizendo, por favor. Não confio na polícia. Além disso, estarei espiando pela janela a toda hora, e não quero que meu processo mental seja interrompido. Não, deixe a parte de baixo aberta. Assim vai haver luz suficiente. Está melhor. As outras também. Ótimo. Agora me traga roupa de baixo limpa, uma camisa, o robe que está no armário...
— Você precisa ficar na cama.
— Absurdo. Há mais sangue na cabeça quando se está deitado do que quando a gente fica em pé. Se as pessoas vierem aqui, não poderei me apresentar adequadamente, com este curativo protuberante na cara, mas pelo menos poderei evitar ofender o pudor. Pegue a roupa de baixo.
Reuni as peças enquanto ele manipulava sua massa, em primeiro lugar para se sentar na beirada da cama, depois para se erguer, gemendo a cada novo estágio. Ele franziu o cenho em sinal de desagrado quando tirou o pijama cheio de sangue. Trouxe toalhas, secas e molhadas. Conforme a operação limpeza prosseguia, ele me passava os detalhes do programa.
— A única coisa que podemos fazer é tentar nossa sorte quanto às possibilidades, até encontrar um fato que permita uma única interpretação. Detesto alternativas, mas é o que temos no momento. Você sabe como fazer para escurecer um homem com cortiça queimada? — Bem, você pode tentar. Arranje algumas rolhas e fósforos — e peça um uniforme do Kanawha Spa, tamanho médio, com boné inclusive. Mas, antes de tudo, Nova York no telefone. — Não, estas meias não. Quero meias pretas, talvez não tenha condições de trocá-las para o jantar. Precisamos arranjar tempo para terminar aquele discurso. — Presumo que você saiba os números de Saul Panzer e do inspetor Cramer. Mas, se vamos descobrir os fatos aqui, seria indesejável correr o risco de que aquele patife saiba de nossos planos. Precisamos impedir que...