Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 10 de 18

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Cozinheiros Demais

Capítulo 9

— Que eu preparei. — Sentei-me. — Algum dia você vai tentar tirar o crédito da árvore pelas folhas. Seria muito pedir que me contasse qual o motivo que os pretos teriam para dar cabo de Laszio?

— Suponho que um deles possa ter sido contratado. — Wolfe fez uma careta — Não gosto de assassinos, apesar de ganhar a vida com eles. Mas tenho especial repugnância pelos assassinos que compram a morte almejada. Quem mata pelo menos restringe o sangue a suas próprias mãos. Alguém que paga por uma morte — puf! É mais que repugnante; é desonroso. Presumo que o homem de cor tenha sido contratado. Naturalmente, esta é uma complicação a mais para nós.

— Nada muito terrível. — Fiz um gesto de desprezo. — Logo eles estarão aqui. Vou colocá-los em fila. Depois você fará um pequeno discurso sobre a cidadania e os Dez Mandamentos, explicará que é ilegal apagar um cara por grana, mesmo recebendo o pagamento adiantado, e então pedirá a quem furou Laszio que erga a mão, e a mão será erguida; aí é só perguntar a ele quem o contratou e quanto pagou pelo serviço...

— Chega, Archie. — Wolfe suspirou. — É surpreendente a paciência e a tolerância que preciso ter... mas vamos deixar isso de lado. Eles chegaram. Mande que entrem.

Desta vez, o próprio Wolfe foi responsável por chegar a uma conclusão apressada, crime pelo qual sou frequentemente acusado. Pois no momento em que abri a porta do hall, não encontrei os africanos a esperar, e sim Dina Laszio. Fiquei olhando para ela por um segundo, adaptando minha mente à surpresa. Ela fixou os longos olhos sonolentos em mim e disse:

— Sinto imensamente perturbá-los, mas posso ver o senhor Wolfe?

Disse a ela que aguardasse e voltei para o quarto.

— Nada de homens com pele escura; é uma mulher. A senhora Phillip Laszio deseja vê-lo.

— O quê? Ela?

— Sim, senhor. De vestido escuro, sem chapéu.

Wolfe fechou a cara. — Mulher maldita. Diga que pode entrar.

 

9

Sentei-me e olhei e escutei e me senti cínico. Wolfe esfregava a ponta do indicador na bochecha, de modo vagaroso e ritmado, mostrando que estava irritado, porém atento. Dina Laszio ocupava a poltrona à frente dele, a capa dobrada para trás, o pescoço liso aparecendo acima do vestido negro liso sem gola, o corpo exuberante, os olhos em profundas sombras.

Wolfe disse — Não há necessidade de desculpas, senhora. Diga apenas a que veio. Espero outras pessoas; tenho pouco tempo.

— É sobre Marko — esclareceu.

— Não diga. Que há de errado com Marko?

— O senhor é tão brusco. — Ela sorriu de leve, um sorriso que ficou preso nos cantos da boca. — Deveria saber que não pode esperar que uma mulher seja assim direta. Nós não seguimos em frente; preferimos os rodeios. Sabe disso. Simplesmente fico imaginando se conhece mulheres como eu.

— Não sei dizer. É algum tipo especial de mulher?

Ela fez que sim. — Penso que sou. Sim. Sei que sou. Não porque eu queira ou tente ser, mas... — Ela fez um pequeno gesto. — Isso tem tornado minha vida excitante, mas não muito confortável. Vai acabar... Não sei como vai acabar. Neste momento estou preocupada com Marko, porque ele acha que o senhor suspeita que ele tenha assassinado meu marido.

Wolfe parou de coçar a bochecha. E disse — Absurdo.

— De jeito nenhum. É sério. Ele acha mesmo.

— Por quê? Disse isso a ele?

— Não. E fico ofendida... — Ela se conteve. Inclinou-se para a frente, a cabeça um pouco virada de lado, os lábios entreabertos, olhos fixos em Wolfe. Eu a observava deliciado. Suponho que dizia a verdade quando afirmou que não tentava ser um tipo especial de mulher, porque não precisava tentar. Havia algo nela — não apenas no rosto, projetava-se através de suas roupas — que produzia nos homens um impulso instantâneo de se atirar em sua direção. Eu continuava bancando o cínico, mas era fácil admitir que em determinados momentos o cinismo não seria o bastante.

Ela perguntou, sussurrando — Senhor Wolfe, por que sempre é agressivo comigo? O que tem contra mim? Ontem, quando contei ao senhor o que Phillip me havia dito sobre o arsênico... e agora, quando estou falando de Marko...

Ela se recostou novamente. — Uma vez, há muito tempo, Marko me disse que o senhor não gosta de mulheres.

Wolfe balançou a cabeça. — Só posso dizer mais uma vez que é absurdo, madame. Eu não teria essa falta de pudor. Não gostar de mulheres? Elas são animais estarrecedores e bem-sucedidos. Por questão de conveniência, eu meramente preservo uma aparência de imunidade, que desenvolvi há alguns anos por força da necessidade. Mas confesso uma hostilidade específica contra a senhora. Marko Vukcic é meu amigo. A senhora era esposa dele, e o abandonou. Não gosto da sua pessoa.

— Mas foi há tanto tempo! — Sua mão flutuou. Depois ela deu de ombros. — De qualquer forma, estou aqui agora para tentar ajudar Marko.

— Quer dizer que ele a enviou?

— Não. Mas vim por causa dele. Sei, claro, que o senhor assumiu este caso para livrar Berin da acusação de assassinato de meu marido. Como pode fazê-lo, a não ser acusando Marko? Berin diz que Phillip estava na sala de jantar, vivo, quando ele saiu. Marko diz que Phillip não estava mais lá quando entrou. Então, se não foi Berin, só pode ter sido Marko. Além disso, o senhor hoje perguntou a Marko se ele me tirou para dançar, ou sugeriu que eu ligasse o rádio. Só pode haver um motivo para que tenha feito tal pergunta: suspeita que ele preferia ter o rádio ligado, de modo que o barulho na sala de jantar não fosse notado quando... se algo acontecesse lá.

— Quer dizer que Marko contou à senhora que eu perguntei sobre o rádio?

— Sim. — Ela sorriu de leve. — Ele achou melhor que eu soubesse. Como pode ver, Marko já perdoou o que o senhor não quer perdoar...

Perdi o resto da conversa por causa das batidas na porta. Fui para o foyer, fechando a porta do quarto de Wolfe atrás de mim, para atender. A visão no hall provocou um choque, apesar de eu ter sido prevenido. Parecia que a metade do Harlem estava ali reunida. Quatro ou cinco eram os caras de paletó verde que serviram o jantar do decano para nós havia poucas horas. Os outros eram cozinheiros e ajudantes, em roupas típicas. O sujeito de meia-idade, mulato, que ficou na frente era o chefe dos garçons, encarregado de Pocahontas. Faltava-lhe a parte de baixo de uma orelha, e senti simpatia por ele no momento em que deixou a garrafa daquele conhaque especial na minha frente na mesa. Disse que entrassem, recuando de lado para não ser atropelado, pedi que esperassem em meu quarto e fui atrás deles.

— Vão ter de esperar aqui, pessoal. O senhor Wolfe tem visita. Sentem-se em algum lugar. Sentem-se na cama, é minha, e pelo jeito não vou poder usá-la mesmo. Se dormirem, ronquem um pouco por mim.

Deixei-os lá e voltei para ver como Wolfe estava se saindo com a mulher de quem ele não gostava. Nenhum dos dois se dignou sequer a me olhar quando me sentei. Ela estava dizendo

— ...mas eu não sei nada além do que contei ao senhor ontem. Certamente reconheço que existem outras possibilidades além de Berin e Marko. Como disse, alguém poderia ter entrado na sala de jantar pelo terraço. É isso que está imaginando, certo?

— Trata-se de uma possibilidade. Mas volte um pouco para trás, senhora Laszio. Está querendo dizer que Marko contou à senhora que perguntei sobre o rádio e revelou seus temores de que eu suspeitasse de urna tentativa dele de ligar o rádio para fornecer uma oportunidade para o assassinato de seu marido?

— Bem... — Ela hesitou. — Não é exatamente isso. Marko não revelaria seus temores. Mas a forma como me contou a história... ficou óbvio que isso passou pela cabeça dele. De modo que resolvi conversar com o senhor para saber se suspeitava dele.

— Veio para defendê-lo? Ou para garantir que minha inépcia não deixaria passar esta inferência quanto ao momento oportuno em que o rádio foi ligado?

— Nenhuma das duas coisas. — Ela sorriu para Wolfe. — Não vai conseguir me deixar brava, senhor. Por que, está fazendo outras inferências? Muitas?

Wolfe balançou a cabeça impaciente. — Não pode agir assim, madame. Desista. Eu me refiro à sua falta de objetividade fingida. Não me importo com rodeios quando tenho tempo, mas passa da meia-noite e há homens no outro quarto esperando para falar comigo. Por favor, deixe que eu termine. Vamos limpar um pouco a névoa. Conhecia Marko Vukcic antes de seu casamento, e convivi com ele depois disso. Acompanhei a mudança que houve em meu amigo. Então, por que não fiquei contente quando escolheu um novo campo para suas atividades? Porque atrás de si só deixou destroços. Não é decente forçar o vício da cocaína em um homem, mas é monstruoso fazer isso e depois, repentinamente, retirar seu suprimento da droga. A natureza pretende apenas que um homem satisfaça uma mulher, e que esta satisfaça um homem, tanto física quanto espiritualmente, mas não há satisfação para ninguém na senhora. O vapor que emana de seus olhos, de seus lábios, de sua pele macia, de sua silhueta e de seu movimento não é bom, mas maligno. Eu a culpo por tudo: estava viva, com seus instintos e apetites, viu Marko e o desejou. Envolveu-o com seu miasma — fez de seu veneno o ar que ele respirava — e depois, por capricho, sem avisar, tomou este ar dele e o deixou sufocando.

Ela não moveu os longos cílios. — Mas eu lhe avisei que era um tipo especial...

— Um momento, por favor. Ainda não terminei. Estou aproveitando a oportunidade de manifestar meu ressentimento. Errei ao dizer capricho; foi fria deliberação. Aproximou-se de Laszio, homem com o dobro de sua idade, por que ele era um passo adiante, não emocionalmente, mas no aspecto material. Provavelmente também descobriu que Marko tinha muito caráter para seu gosto. Só o diabo sabe por que não subiu mais alto do que Laszio, em um campo tão amplo quanto Nova York, pois ele, afinal de contas, do seu ponto de vista, era apenas um chef assalariado. Mas, claro, a senhora era jovem, mal passava dos vinte anos. Qual a sua idade atual?

Ela apenas sorriu.

Wolfe deu de ombros. — Suponho, também, que seja questão de inteligência. Não pode ter muita. Essencialmente, na verdade, não passa de uma lunática. O lunático é um indivíduo perigosamente desajustado no ambiente natural e sadio de sua espécie — uma vez que a condição humana inclui, por exemplo, a capacidade de afeição pessoal e a disposição para sufocar os impulsos egoístas e predatórios com a corda da decência social. É por isso que a chamo de lunática. — Ele se endireitou, e apontou o dedo para ela. — Agora olhe aqui uma coisa. Não tenho tempo para rodeios. Não desconfio que Marko haja assassinado seu marido, apesar de admitir que seja possível que o tenha feito. Levei em consideração todas as inferências plausíveis no caso da coincidência do rádio, e ainda estou trabalhando nelas, sem ter chegado a uma conclusão. Que mais deseja saber?