Cozinheiros Demais
Capítulo 12
Pettigrew, o delegado de olhos miúdos, balançou a cabeça e falou com sua voz arrastada — Obrigado assim mesmo. Atolei-me na lama, precisei andar no barro, e deixaria sua poltrona imunda. Estou bem de pé.
Meu amigo Barry Tolman também não parecia muito impecável, mas, como não estava cheio de lama, aceitou a poltrona na hora. Isso às 8h10 da manhã de quinta-feira. Eu me sentia como o último níquel em um jogo de dados, porque havia bancado o idiota até lá pelas cinco da manhã, havia tirado a roupa, pulado para debaixo das cobertas, e pedido para ser chamado às 7h30. Tive de me levantar depois de duas escassas horas de sono, o que estragou meu dia. Wolfe tomava café da manhã na poltrona grande, com uma mesinha dobrável ao lado; vestia um robe amarelo e tinha o rosto barbeado e os cabelos penteados. Ele possuía cinco robes amarelos, e nesta viagem preferiu trazer o de lã fina com lapelas e cinto marrons. Estava de gravata também.
Tolman falou — Como expliquei pelo telefone, devo comparecer ao tribunal às 9h30. Se necessário, meu assistente pode pedir um adiamento, mas prefiro deixar as coisas como estão. Pode ser rápido?
Wolfe bebericava o chocolate para molhar o bocado de pão que acabara de pôr na boca. Depois de resolver isso, disse — Vai depender muito do senhor. Minha ida a Quinby era impossível, como disse, por motivos que ficarão claros. Estou fazendo o possível para ser rápido. Ainda nem fui para a cama...
— Disse que tem novas informações...
— Tenho. Mas as circunstâncias exigem um preâmbulo. Presumo que a prisão do senhor Berin se deva à sua convicção de que ele é culpado. O senhor não o escolheu para vítima. Se houvesse dúvidas razoáveis quanto à culpa dele...
— Certamente. — Tolman estava impaciente. — Eu já lhe disse...
— Eu sei. Agora vamos supor uma coisa. Suponha que um advogado tenha sido escolhido para representar o senhor Berin, e eu tenha sido contratado para levantar provas em seu favor. Suponha que eu tenha conseguido provas tão decisivas que levem inevitavelmente à sua libertação quando ele for a julgamento, e se considere imprudência revelar essas provas ao senhor, o inimigo, no momento. Suponha que o senhor queira conhecer essas provas agora. É verdade que não tem poderes legais para exigi-las, ou não? É ou não é verdade que tais provas são propriedade nossa até o momento em que considerarmos adequado fazer uso delas, desde que o senhor não as descubra de modo independente, por si mesmo?
Tolman franziu o cenho. — Isso é verdade, claro. Mas que droga, eu lhe disse que se as provas a favor de Berin pudessem ser levantadas...
— Eu sei, e ofereço, aqui e agora, provas que vão inocentá-lo. Mas só as revelarei com algumas condições.
— E quais são elas?
Wolfe deu um gole no chocolate e limpou a boca. — Nada muito pesado. Em primeiro lugar, se a explicação lançar uma dúvida muito forte sobre a culpabilidade de Berin, ele será libertado imediatamente.
— Quem vai decidir se a dúvida é muito forte?
— O senhor.
— Está bem. Concordo. O tribunal está em sessão, e posso conseguir isso em cinco minutos.
— Bom. Em segundo lugar, deve dizer ao senhor Berin que eu levantei as provas que o tiraram da cadeia, que fui o único responsável por isso, e que só Deus sabe o que aconteceria com ele se eu não tivesse conseguido as provas.
Tolman, ainda de cenho franzido, abriu a boca, mas o delegado se intrometeu — Espera aí, Barry. Aguenta firme. — Ele fechou os olhinhos para Wolfe. — Se você dispõe mesmo desta prova, tem de estar por aqui. Acho que somos um pouco lentos em West Virginia...
— Senhor Pettigrew, por favor. Não estou falando de crédito em público; não tenho interesse nele. Digam o que quiserem aos repórteres. Mas o senhor Berin deve ficar sabendo, sem sombra de dúvida, o que fiz, e o senhor Tolman se encarregará de contar a ele.
Tolman perguntou — E então, Sam?
O delegado deu de ombros. — Por mim tudo bem, não ligo.
— Ótimo. — Tolman disse a Wolfe — Concordo.
— Perfeito. — Wolfe colocou a xícara de chocolate na mesinha. — Em terceiro lugar, deve ficar claro que eu estou de partida para Nova York esta noite, às 12h40, e que em circunstância alguma —, exceto a suspeita de que eu tenha assassinado o senhor Laszio ou seja cúmplice do crime — serei impedido de viajar.
Pettigrew disse animado — Pode ir para o inferno.
— Para o inferno não. — Wolfe suspirou. — Nova York. Tolman protestou — Mas e se as provas o tornarem uma testemunha material essencial?
— Não tornarão, e deve aceitar minha palavra. Estou pronto a aceitar a sua em várias coisas. Dou minha palavra de que em quinze minutos ficará sabendo de todas as provas importantes de que disponho sobre os acontecimentos na sala de jantar. Quero que concordem em não me segurar aqui após a partida do meu trem porque talvez eu venha a ser útil. De qualquer forma, devo prevenir que em tais circunstâncias eu não seria nem um pouco útil. Seria, na verdade, um incômodo insuportável. E então, senhor?
Tolman hesitou, mas depois balançou a cabeça em sinal de afirmação. — Eu concordo, nas condições colocadas.
Se um canário suspirasse quando fosse libertado da gaiola, teria dado um suspiro como o de Wolfe naquele momento. — Certo. Agora, senhor, a quarta e última condição é um pouco mais vaga do que as outras, mas acho que pode ser definida. As provas que fornecerei aos senhores me foram passadas por dois homens. Utilizei em sua descoberta métodos que me pareciam eficientes, e estava correto. Os senhores se ressentirão porque esses homens não revelaram tais fatos à polícia quando tiveram oportunidade, e não posso evitar isso. Não posso impedir seus sentimentos, mas posso solicitar que se contenham, e prometi fazer isso. Quero sua garantia de que esses cavalheiros não serão perseguidos, pressionados ou desrespeitados, nem privados de sua liberdade, nem atormentados de forma alguma. Isso valerá enquanto houver a suposição de que eles são apenas testemunhas, e não tiveram participação no assassinato.
O delegado disse — Olhe aqui, moço, não perseguimos pessoas.
— Perseguidos, pressionados, desrespeitados, presos, atormentados, tudo isso. Claro, vão poder interrogá-los à vontade.
Tolman balançou a cabeça. — Eles são testemunhas oculares. Podem deixar o estado. Acho que farão isso. Como o senhor, hoje à noite.
— Pode fazer com que fiquem.
— Até o julgamento.
Wolfe apontou o dedo para ele. — Não o julgamento do senhor Berin.
— Não estou me referindo a Berin. Se essas provas forem boas como diz, ele será solto. Mas pode ter certeza de que haverá um julgamento.
— Sinceramente, espero que sim. — Wolfe estava pegando um pedaço de pão para passar manteiga. — E então, senhor? Não quer ir ao fórum? Não peço muito, apenas um pouco de respeito com minhas testemunhas. Ou então vai ter de descobri-las por si mesmo e, enquanto isso, vai deixar o senhor Berin preso. E quanto mais ele ficar na cadeia, mais o senhor vai passar por idiota no final da história.
— Muito bem. — O atleta de olhos azuis fez que sim. — Concordo.
— Com todas as condições detalhadas aqui?
— Sim.
— Então o preâmbulo está encerrado. — Archie, faça com que entrem.
Disfarcei um bocejo e fui até meu quarto para chamá-los. Houve progressos enquanto eu dormi. Wolfe conseguiu que instalassem um telefone em seu quarto e tomou as providências para a reunião matinal. Eles estavam de uniforme. Paul Whipple parecia desperto e desafiador, e Moulton, o chefe dos garçons, sonolento e nervoso. Disse a eles que o cenário estava pronto, e fiz com que entrassem.
Wolfe ordenou a distribuição de cadeiras, e Moulton apressou-se em me ajudar. Tolman estava boquiaberto. Pettigrew gritou — Pô, essa não. São dois negros! Ei, você, pegue aquela cadeira! — Ele disse a Wolfe, aflito: — Olhe aqui, eu mesmo interroguei todos aqueles caras, e se por acaso eles...
Wolfe foi curto e grosso. — Estas são as testemunhas. O senhor Tolman quer ir ao fórum. Eu disse que ficariam ressentidos, certo? Vá em frente, mas guarde seus sentimentos para você. — Ele se dirigiu ao universitário — Senhor Whipple, creio que seja melhor começarmos pela sua história. Conte a estes cavalheiros o que relatou ontem à noite a mim.
Pettigrew havia dado um passo à frente, os olhos miúdos soltando faísca. — Não chamamos negro de senhor aqui em West Virginia, e não precisamos que venha gente de fora para nos ensinar a...
— Cale a boca, Sam! — Tolman também foi curto e grosso. — Estamos perdendo tempo. Seu nome é Whipple? E sua função?
— Sim, senhor. — O garoto falava calmamente. — Sou garçom. O senhor Servan ordenou que eu servisse a mesa no pavilhão Pocahontas na terça à noite.
— E o que tem a dizer?
No final das contas, Tolman não deve ter chegado a tempo ao fórum, pois passava das nove e meia quando ele saiu de Kanawha Spa. Levou apenas um quarto de hora para pegar todos os detalhes das duas histórias, mas eles continuaram em frente, ou melhor, de trás para a frente. Tolman fez um bom interrogatório, mas Pettigrew estava furioso demais para raciocinar. Ele ficou fazendo comentários sarcásticos sobre o quanto Whipple se achava instruído, e que sabia o tipo de lição de que Whipple estava precisando. Tolman tentava manter o delegado fora do caso, concentrando-se em acarear as testemunhas, e duas ou três vezes percebi que Wolfe, tomando seu café da manhã tranquilamente, fizera um pequeno movimento de cabeça, como que aprovando o cuidado de Tolman. Whipple manteve o mesmo tom calmo durante todo o interrogatório, mas pude perceber que precisou se controlar quando o delegado fez comentários sobre sua educação e o tipo de lição de que precisava. Moulton começou guaguejando, muito nervoso, mas acalmou-se enquanto falava, e sua única tarefa foi confirmar os fatos, em resposta às perguntas de Tolman, uma vez que Pettigrew se concentrou em Whipple.
Finalmente a corda de Tolman acabou. Ele ergueu as sobrancelhas para Wolfe, olhou de relance para o delegado e novamente para Moulton, com uma carranca.
Pettigrew perguntou — Onde vocês deixaram seus bonés? Vamos ter de levá-los conosco para Quinby.
Wolfe foi brusco. — Ah, não. Lembrem-se do acordo. Eles ficam aqui trabalhando. Já falei com o senhor Servan a esse respeito.
— Não tô nem aí se você falou com ele ou com Ashley. Eles vão para a cadeia até segunda ordem.
Os olhos de Wolfe fixaram-se no promotor. — Senhor Tolman?
— Bem, concordamos que eles ficariam no estado.
— Caso fossem pessoas que pudessem deixar sua jurisdição. Estes homens trabalham aqui. Por que fugiriam? O senhor Moulton tem mulher e filhos. O senhor Whipple é estudante universitário. — Ele olhou para o delegado. — Sua suposição de que sabe lidar com homens de cor, e eu não, é uma pretensão impertinente. Na terça-feira à noite, na qualidade de agente da lei encarregado da investigação de um crime, o que deveria ser sua especialidade, interrogou estes homens e não descobriu nada. Nem mesmo suspeitou de alguma coisa. Na noite passada, tive uma conversa com eles e consegui informações vitais referentes a um crime. Certamente tem um mínimo de inteligência para perceber quanto está desmoralizado. Quer que o país inteiro fique sabendo disso? Puf! — Wolfe disse aos dois garçons — Vocês dois podem ir agora. Voltem a seus postos e trabalhem. Compreendem, é claro, que o senhor Tolman vai precisar de seu testemunho, e que devem estar disponíveis quando for necessário. Se houver necessidade de garantias de que não vão sair, um advogado poderá ajudá-los nisso. Muito bem, até logo!
Paul Whipple já estava a caminho da porta. Moulton hesitou apenas um instante, olhando para Tolman, e seguiu o colega. Levantei-me e caminhei lentamente até a porta externa, para garantir que estava fechada.
Quando voltei, Pettigrew estava no meio de algum comentário, lançando mão de todas as palavras que pudessem ser úteis no que dizia respeito a costumes tribais e hábitos pessoais dos aborígines. Tolman ficou atrás dele, com a mão no bolso, vigiando Wolfe, que despreocupadamente recolhia migalhas de pão e as depositava no prato de frutas. Nenhum dos dois prestava muita atenção ao delegado, e no final ele desistiu.
Wolfe olhou para cima. — Então, senhor?
Tolman fez que sim. — É, acho que tem razão. Pelo jeito, estão falando a verdade. Eles podem aprontar coisas incríveis quando querem, mas não parece ser o caso, no momento. — Seus olhos azuis se estreitaram um pouco. — Claro, existe um outro aspecto a ser levado em conta. Sei que recebeu um apelo para ajudar a soltar Berin, e também ouvi falar que lhe ofereceram uma boa comissão para convencer Berin a ficar no lugar de Laszio. Soube disso por Clay Ashley, que ouviu de seu amigo Liggett, do Hotel Churchill. Naturalmente, isso levanta a questão do que estaria disposto a fazer para descobrir provas que inocentem Berin.
— O senhor é diplomático. — Os cantos da boca de Wolfe ergueram-se ligeiramente. — Quer dizer forjar provas. Asseguro que não sou tão estúpido assim, nem estou tão desesperado a ponto de subornar estranhos para contarem mentiras intricadas. Além disso, teria de subornar quatorze pessoas, e não apenas duas. Essas histórias foram reveladas neste quarto, na noite passada, na presença de todos os cozinheiros e garçons de serviço no pavilhão Pocahontas. Pode interrogar todos eles. Não, senhor, as histórias são confiáveis. — Ele ergueu os braços um pouco. — Mas o senhor já sabe disso. Fez um interrogatório detalhado. E agora — uma vez que está ansioso para retornar a Quinby, a tempo de comparecer ao tribunal...
— Sim, eu sei. — Tolman não se moveu. — Este crime virou a maior bagunça. Se os negros dizem a verdade, e acho que dizem, percebe o que temos agora? Entre outras coisas, significa que toda a turma está fora disso, exceto aquele sujeito, Blanc, que alegou ter ficado no quarto. Mas ele é um estranho aqui; como poderia ter conseguido um uniforme do Kanawha Spa? Se o eliminarmos, então teremos como suspeitos apenas o mundo inteiro.
Wolfe murmurou — Sim, o problema é grave. Graças a Deus não tenho nada com isso. Mas, quanto ao nosso acordo, fiz minha parte, certo? Não lancei uma forte dúvida sobre a culpa do senhor Berin?
O delegado fungou. Tolman disse secamente — Sim. O fato de as travessas de molho terem sido alteradas certamente lança uma dúvida. Mas quem fez isso, caramba?
— Não sei dizer. Talvez o assassino, ou possivelmente o próprio senhor Laszio, para submeter Berin a um vexame. — Wolfe deu de ombros. — Tem um belo trabalho pela frente. Vai libertar Berin ainda na parte da manhã?
— Que mais posso fazer? Não tenho como mantê-lo preso mais tempo.
— Muito bem. Então, se não se importa... e como está com pressa, e como eu ainda não dormi...
— Tá! — Tolman continuou sentado. Estava com as mãos nos bolsos ainda, as pernas ligeiramente afastadas, as pontas do sapato fazendo pequenos círculos no ar. — Uma confusão dos diabos — ele declarou após uma pausa. — Fora Blanc, não tenho por onde começar. A descrição feita pelo negro combina com quase todo mundo. Claro, é possível até que um negro tenha feito o serviço, usando luvas pretas e cortiça queimada para nos enganar, mas que negro daqui teria qualquer motivo para matar Laszio? — Ficou novamente em silêncio. Finalmente, ele se endireitou na poltrona abruptamente. — Olhe aqui. Não lamento que você tenha tirado Berin desta encrenca, mesmo deixando uma grande confusão para mim. Vou honrar as condições prometidas, inclusive não interferindo em sua partida na noite de hoje. Mas, uma vez que está fornecendo provas, o que mais tem? Admito que é competente e me fez de palhaço com referência a Berin, para não falar nada do delegado aqui presente. Talvez possa dar mais alguma ajuda. Que mais descobriu?
— Mais nada.
— Tem alguma ideia de quem os negros viram na sala de jantar?
— Nenhuma.
— Acha que foi o francês? Blanc?
— Não sei. Duvido.
— A chinesa estava lá fora. Acha que está metida nisso?
— Não.
— Acha que o rádio ligado naquele momento específico tem algo a ver com o caso?
— Certamente. Ele abafou o ruído da queda de Laszio — e seu grito, se é que houve um grito.
— Mas teria sido ligado de propósito — para disfarçar?
— Não sei.
Tolman franziu o cenho. — Quando peguei Berin, ou achei que o tinha pegado, concluí que o rádio fora uma coincidência, ou uma circunstância de que ele se aproveitara. Agora isso está em pauta novamente. — Ele se inclinou na direção de Wolfe. — Quero que faça algo para mim. Não me considero idiota, mas admito que não tenho muita experiência. Não somente o senhor é veterano, como o consideram o melhor que existe. Não vejo nada de mau em pedir ajuda, se preciso mesmo. Pelo jeito, o próximo passo é uma boa conversa com Blanc, e eu gostaria que a acompanhasse. Ou melhor ainda; encarregue-se dela, e ficarei sentado ouvindo. Fará isso?
— Não, senhor.
Tolman ficou atônito. — Não?
— Não. Nem pretendo discutir isso. Que se dane. Eu estou aqui a passeio! — Wolfe fechou a cara. — Na segunda-feira eu estava no trem; e não consegui dormir. Na terça o senhor me manteve acordado até as quatro da manhã. Na noite passada meu compromisso de libertar Berin impediu que eu fosse para a cama. Esta noite devo fazer um importante discurso para um grupo de homens eminentes, sobre um tema que eles dominam. Preciso fazer uma pausa e dormir, e a cama está aqui, à espera do meu merecido descanso. Quanto à sua entrevista com o senhor Blanc, gostaria de lembrar que prometeu libertar Berin assim que eu apresentasse minhas provas.
Sua atitude e sua voz transmitiam uma decisão final. O delegado começou a resmungar qualquer coisa, mas foi interrompido por uma batida na porta. Fui até o foyer dizendo a mim mesmo que se fosse alguém capaz de retardar o merecido descanso, eu o derrubaria com um potente soco no queixo e o deixaria caído ali.
Teria sido a conta para Vukcic, apesar de ele ser bem grande, mas eu não teria coragem de bater em uma mulher só porque estava com sono, e ele chegou acompanhado por Constanza Berin. Terminei de escancarar a porta e ela cruzou o batente. Vukcic começou a fazer uma solicitação verbal, mas a moça não estava preocupada com amenidades e seguiu em frente.
Tentei detê-la, mas era tarde demais. — Ei, espere aí um pouco! Temos companhia. Seu amigo Barry Tolman está lá dentro!
Ela deu meia-volta. — Quem?
— Você entendeu direitinho. Tolman.
Ela deu outra meia-volta e abriu a porta do quarto de Wolfe, entrando como um raio. Vukcic olhou para mim e ergueu os ombros, seguindo-a. Fui junto, pensando que precisaria de uma pá e uma vassoura mais tarde.
Tolman se levantou com um pulo quando a viu. Ficou pálido por dois segundos, e depois começou a dizer:
— Senhorita Berin! Graças a Deus...
Um golpe gelado o interrompeu e o deixou de boca aberta. Não foi um golpe vocal; seu olhar não precisava de acompanhamento. Depois de congelá-lo, ela dirigiu um olhar quase tão devastador quanto o primeiro na direção de Nero Wolfe:
— E você prometeu nos ajudar! Disse que iria obrigá-los a soltar meu pai! — Apenas uma enorme minhoca mereceria um tratamento daqueles. — Mas foi você quem deu a ideia da lista... dos molhos! Suponho ter pensado que ninguém descobriria...
— Minha cara senhorita Berin...
— Mas todo mundo já sabe! Foi você quem arranjou as provas contra ele! Aquelas provas. E fingia para o senhor Servan, o senhor Vukcic e para mim que...
Entendi o olhar de Wolfe, percebi que seus lábios se moviam, mas não consegui ouvir o que estava dizendo. Dei um passo à frente e agarrei-a pelo braço. Virei-a, dizendo — Escute, dê uma chance...
Ela estava tentando se livrar, mas segurei firme. Wolfe disse secamente — Ela é histérica. Leve-a daqui.
Senti que o braço dela relaxava e larguei-a. Ela se virou, e encarou Wolfe novamente.
Disse calmamente. — Não sou histérica.
— Claro que é. As mulheres são histéricas. Seus momentos de calma não passam de uma pausa para recuperação entre os ataques. Gostaria de dizer algo. Consegue escutar?
Ela ficou parada olhando.
Wolfe moveu a cabeça. — Grato. Eu me dou ao trabalho desta explicação porque não quero a hostilidade de seu pai. Sugeri que as listas fossem comparadas com a lista correta, sem sonhar que o resultado pudesse implicar seu pai — na verdade, pensei que isso ajudaria a eliminar o nome dele do rol de suspeitos. Infelizmente as coisas aconteceram de um jeito diferente, e tornou-se necessário que se esclarecesse o mal-entendido que eu mesmo havia involuntariamente ajudado a criar. A única forma de fazer isso era descobrir outras provas que demonstrassem a inocência dele. Foi o que fiz. Seu pai será libertado dentro de uma hora.
Constanza arregalou os olhos para ele, e ficou quase tão pálida quanto Tolman ao vê-la. Logo em seguida, o sangue começou a voltar a suas faces. Ela gaguejou — Mas... mas... eu... não acredito nisso. Acabei de voltar da cadeia, e disseram... que eu nem podia falar com ele...
— Não precisará voltar lá. Ele se reunirá a você aqui, esta manhã. Eu me comprometi com o senhor Servan, com o senhor Vukcic e com a senhorita a livrar seu pai dessa acusação ridícula, e foi o que fiz. As provas foram fornecidas ao senhor Tolman. Será que consegue entender o que estou dizendo?
Pelo jeito, ela estava começando a compreender tudo, o que exigia ajustes internos drásticos. Os olhos começaram a se estreitar, marcas diagonais surgiam nos cantos do nariz e da boca, as bochechas vagarosamente se enchiam, e o queixo começou a se mexer. Ela ia chorar, e pelo jeito a choradeira seria das boas. Por meio minuto, ela acreditou que conseguiria se controlar, mas depois percebeu que não seria possível. Deu meia-volta e correu em direção à saída. Abriu a porta e desapareceu. Isso colocou Tolman em funcionamento. Sem dizer até logo, correu para a porta que ela havia deixado aberta — e também desapareceu.
Vukcic e eu olhamos um para o outro. Wolfe suspirou.
O delegado fez uma tentativa. — Você é muito esperto — ele disse a Wolfe com sua voz arrastada. — Mas, se eu fosse Barry Tolman, você não pegaria o trem da meia-noite, nem qualquer outro, até que certos detalhes fossem esclarecidos.
Wolfe fez um sinal com a cabeça e murmurou — Tenha um bom dia, senhor.
Ele saiu batendo a porta do foyer com tanta força que dei um pulo. Sentei-me e comentei — Meus nervos parecem minhocas no anzol. — Vukcic também se sentou.
Wolfe olhou para ele e perguntou — E então, Marko? Suponho que esteja na hora de dizer bom-dia. Foi para isso que veio?
— Não. — Vukcic passou os dedos no cabelo. — Achei que deveria, de certo modo, ficar ao lado da filha de Berin, e, quando ela quis ir para Quinby de carro, me senti na obrigação de levá-la. É a cidade onde fica a cadeia. Mas não deixaram que ela o visse. Se eu soubesse que você já havia encontrado provas suficientes para livrá-lo... — Ele balançou a cabeça. — Por falar nisso, qual é a prova? Se não for segredo.
— Não sei se é segredo ou não. Deixou de pertencer a mim. Passei tudo para as autoridades, e suponho que devam decidir se divulgam os fatos ou não. Posso contar uma coisa, que não é nenhum segredo: não dormi a noite passada.
— Nem um pouco?
— Não.
Vukcic resmungou — Você não parece ter passado a noite acordado. — Ele levou os dedos aos cabelos novamente. — Escute, Nero, gostaria de lhe pedir algo. Dina veio conversar com você a noite passada, não foi?
— Sim.
— O que ela tinha a dizer? Bem, se puder conversar sobre isso comigo.
— Deixo essa decisão por sua conta. Ela me disse que é um tipo especial de mulher, e que pensava que você pensava que eu suspeitava de que você tivesse assassinado Laszio. — Wolfe sorriu. — E me deu um tapinha no ombro.
Vukcic disse furioso — Ela é completamente louca!
— Suponho que sim. Mas um tipo muito perigoso de louca. Claro, um buraco no gelo só oferece perigo a quem vai patinar. Isso não é da minha conta, Marko, mas você perguntou.
— Eu sei. Por que diabos ela acha que eu me considero suspeito da morte de Laszio?
— Você não disse isso a ela?
— Não. O que ela contou a você?
Wolfe balançou a cabeça. — Ela não estava indo direto ao assunto, fazia rodeios. Mas disse, contudo, que você comentou com ela minhas perguntas sobre o rádio e a dança.
Vukcic fez que sim, silencioso e melancólico. Depois de um tempo, recuperou-se. — Sim, tive uma conversa com ela. Duas conversas. Não há dúvida, ela é perigosa. Ela consegue... você precisa entender que ela foi minha esposa por cinco anos. E ontem eu a tive perto de mim novamente. Eu a tive em meus braços. Não é nenhum truque dela, conheço todos de cor. E simplesmente o que ela é. Você não consegue ver nem sentir isso, Nero, não produz nenhum efeito em você, porque está protegido por uma barricada. Como diz, um buraco no gelo só é perigoso para quem vai patinar. Mas, droga, o que é a vida, se a gente tem medo de tomar...
— Marko! — Wolfe parecia irritado. — Já cansei de dizer que este é seu pior hábito. Quando discutir com você mesmo, faça isso dentro da sua cabeça. Não faça de conta que está tentando me convencer ou provando algo. Você sabe muito bem o que é a vida; a vida é feita de atitudes humanas, e entre elas está um controle decente e inteligente dos apetites que partilhamos com os cachorros. Um homem não disputa uma carcaça nem late no alto de um morro do crepúsculo ao amanhecer. Ele come alimentos cozidos, quando consegue, em quantidades limitadas, e administra suas paixões conforme suas conveniências.
Vukcic estava de pé. Ele franziu a testa e resmungou para o velho amigo — Quer dizer que eu estou uivando; é isso?
— Sim, está, e sabe muito bem.
— Bom, peço desculpas. Sinto muito.
Ele deu meia-volta e sumiu do quarto.
Levantei-me e fui até a janela para prender uma cortina que se soltara por causa da corrente de ar que entrou pela porta aberta. Nos arbustos densos, um passarinho cantava, e fiquei espantado. Depois me virei e fiquei parado na frente de Wolfe. Ele fechara os olhos. Enquanto eu o observava, aquele corpo imenso inchou com a tomada de ar para um potente suspiro e murchou novamente.
Bocejei e disse — De qualquer modo, foram embora rápido, graças a Deus. São quase dez da manhã, e você precisa dormir. Eu também.
Ele abriu os olhos. — Archie, sinto afeição por Marko Vukcic. Cacei libélulas com ele nas montanhas. Você percebe que aquela louca vai fazer Marko de bobo mais uma vez?
Bocejei. — Ouvi tudo. Se eu falasse assim de Marko, você me expulsaria do quarto na hora. Sabe de uma coisa? Nós dois estamos em péssimas condições, e precisamos dormir. Estava falando sério quando disse a Tolman que não queria mais saber desse homicídio?
— Mas é claro! O senhor Berin está salvo. Não estamos mais interessados. Partimos esta noite.
— Ótimo. Então pelo amor de Deus vamos para a cama.
Ele fechou os olhos e suspirou outra vez. Pelo jeito, pretendia ficar ali sentado, preocupando-se com Vukcic por mais algum tempo, mas eu não poderia ajudá-lo naquela tarefa. Dei meia-volta e comecei a sair, decidido não apenas a colocar o aviso NÃO PERTURBE como também a reforçar a ideia com instruções ao sujeito de paletó verde no hall principal. Mas, assim que eu pus a mão na maçaneta, uma voz me fez parar.
— Archie. Você dormiu mais do que eu. Eu estava a ponto de dizer, nós nem pegamos no discurso desde que chegamos. Eu pretendo ensaiá-lo pelo menos duas vezes. Sabe em que mala está? Pegue-o, por favor.