Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 18 de 18

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Cozinheiros Demais

Capítulo 17

Foi demais para Liggett. Sua cabeça voltou-se lentamente, como se agarrada por um alicate gigante, para o lado, até que ficou cara a cara com Dina Laszio. Ela não olhou para ele. Estava mordendo o lábio de novo, os olhos fixos em Wolfe, fascinados. Quase dava para ouvi-la mordendo o cérebro também. Isso durou meio minuto inteirinho, e depois, por incrível que pareça, ela sorriu. Percebi que seus olhos se desviavam para Liggett, e que o sorriso era um pedido de desculpas educado. Ela disse em voz baixa, sem hesitar nem um pouco. — Sinto muito, Ray. Sinto muito, mas...

Ela gaguejou. Os olhos de Liggett a fuzilavam.

Ela transferiu o foco para Wolfe e disse com firmeza. — O senhor tem razão. Claro que tem razão; não posso fazer nada. Quando eu o encontrei lá fora, depois do jantar, conforme combinamos...

— Dina! Dina, pelo amor de Deus...

Tolman, o atleta de olhos azuis, jogou Liggett outra vez na cadeira. A mulher fatal continuou:

— Ele me disse o que pretendia fazer, e eu acreditei nele, pensei que era uma brincadeira. Depois, mais tarde, quando me disse que Phillip o atacou, tentou atingi-lo...

Wolfe disse ferino — Sei o que está fazendo, madame. Está ajudando a mandar um homem para a forca.

— Eu sei. Mas não posso fazer nada! Quer que continue a mentir por causa dele? Ele matou meu marido. Quando eu o encontrei lá fora, e ele disse o que tinha planejado...

— Sua vigarista ordinária! — Liggett perdeu totalmente o controle. Ele se livrou de Tolman, tropeçou nas pernas de Mondor, jogou Blanc e a cadeira deste no chão e tentou atingir Wolfe. Eu estava pronto a agir, mas, quando cheguei, Berin já o havia agarrado com ambas as mãos, e Liggett tentava se desvencilhar, dando chutes e gritando como um lunático.

Dina Laszio, claro, parou de tentar falar, com todo aquele barulho e confusão. Ficou quieta, sentada, olhando para tudo com seus grandes olhos sonolentos.

 

17

Berin afirmou com toda a certeza: — Ela vai se agarrar a essa versão. Fará o que puder para ficar

longe do perigo, e pronto.

O trem voava como uma gaivota por Nova Jersey na manhã ensolarada de sexta-feira, em algum lugar a leste de Filadélfia. Em sessenta minutos estaríamos cruzando o Hudson pelo túnel. Eu estava encostado novamente na parede da cabine do pullman. Constanza ocupava a cadeira, Wolfe e Berin os assentos da janela, com as garrafas de cerveja entre eles. Wolfe parecia bem desalinhado, porém era óbvio que nem sequer tentaria fazer a barba no trem, mesmo que não houvesse curativo algum. Mas ele sabia que dali a uma hora aquela coisa ia parar de se mexer, e uma ponta de esperança surgia em seu rosto.

Berin perguntou — Não acha?

Wolfe deu de ombros. — Não sei nem estou interessado. Meu problema era pegar Liggett, provando sua presença no Kanawha Spa na terça à noite, e a senhora Laszio era a única pessoa que poderia confirmar isso para nós. Como disse, ela é indubitavelmente tão culpada quanto Liggett, talvez até mais, dependendo de seus critérios. Estou inclinado a pensar que o senhor Tolman tentará levá-la a julgamento por homicídio. Ele a deteve na noite passada como testemunha ocular, e pode segurá-la com isso para preparar seu caso contra Liggett, ou enquadrá-la como cúmplice. Não sei se fará muita diferença. Faça o que fizer, não conseguirá condená-la. Trata-se de um tipo especial de mulher; ela mesma me disse isso. Mesmo que Liggett fique com tanta raiva que confesse tudo, para implicá-la em seu crime, persuadir doze homens de que a melhor coisa a fazer com uma mulher daquelas é mandá-la para a forca vai ser um feito e tanto, e duvido que o senhor Tolman tenha estatura para isso.

Berin, enchendo o cachimbo, franziu o cenho. Wolfe ergueu seu copo de cerveja com uma das mãos, enquanto agarrava o braço da poltrona com a outra.

Constanza sorriu para mim. — Estou tentando não ouvi-los. Ficam falando de matar pessoas. — Ela ficou delicadamente arrepiada.

Murmurei — Você pelo jeito está rindo à toa, apesar das circunstâncias.

Ela ergueu as sobrancelhas acima dos olhos purpúreos profundos. — Que circunstâncias?

Fiz um gesto, descartando o comentário. Berin havia acendido o cachimbo e falava novamente — Bem, isso revirou meu estômago. Coitado do Rossi. Viu como ele ficou? Pobre diabo. Quando Dina Rossi era uma menininha, e eu a carregava no colo, era quieta e dissimulada, mas uma garota muito boazinha. Claro, todos os assassinos um dia foram criancinhas, o que parece incrível. — Ele deu várias baforadas, até que a cabine ficou lindamente cheia de fumaça. — Por falar nisso, sabe que Vukcic pegou este trem a tempo?

— Não.

Berin balançou a cabeça. — Ele veio esbaforido, no último minuto. Eu o vi, como um leão fugindo das moscas. Mas ele não deu as caras agora de manhã, apesar de eu tê-lo procurado de um lado para o outro. Sem dúvida, seu secretário informou que passei por aqui por volta das oito.

Wolfe sorriu. — Eu não estava adequadamente vestido.

— Foi o que ele disse. Por isso só voltei agora. Não me sinto à vontade. Nunca fico à vontade quando estou em débito, e preciso descobrir quanto lhe devo, para poder pagá-lo. Em Kanawha Spa o senhor era convidado, e não queria falar sobre o assunto, mas agora já pode. O senhor me tirou de um grande aperto, talvez tenha até salvo minha vida, e agiu assim em função de um pedido de ajuda profissional feito por minha filha. Dessa maneira, contraiu-se uma dívida, e quero pagá-la, mesmo sabendo que seus honorários são bem altos. Quanto cobra por um dia de trabalho?

— Quanto o senhor cobra?

— O quê! — Berin arregalou os olhos. — Deus do céu, eu não trabalho por dia; sou artista, não descascador de batatas.

— Eu também. — Wolfe apontou o dedo. — Olhe aqui, senhor. Vamos admitir o postulado de que eu tenha salvo sua vida. Se for verdade, estou disposto a deixar que seja um gesto de amizade e boa vontade, e a não aceitar pagamento algum por ele. Poderia aceitar isso?

— Não. Estou em débito. Minha filha pediu sua ajuda. Não se pode esperar que eu, Jerome Berin, aceite um favor destes.

— Está bem... — Wolfe suspirou. — Se não aceita minha amizade, problema seu. Nesse caso, a única coisa que posso fazer é apresentar minha conta. Ela é simples. Se vamos avaliar os serviços profissionais que prestei ao senhor, como insiste, o valor tem de ser alto, pois os serviços foram excepcionais. Mas... uma vez que insiste em pagar... o senhor me deve a receita da saucisse minuit.

— O quê! — Berin arregalou os olhos de novo. — Bah! Ridículo!

— Como assim, ridículo? O senhor me perguntou quanto devia. Eu disse.

Berin ficou furioso. — Mas que audácia! Vá para o inferno! — Ele sacudiu o cachimbo a ponto de lançar faíscas no ar. — Essa receita não tem preço! E vem me pedir... Deus do céu! Já recusei meio milhão de francos! E o senhor tem o topete, a insolência de...

— Por favor — Wolfe interrompeu. — Não vamos brigar por causa disso. O senhor coloca o preço em sua receita. Isso é prerrogativa sua. Eu determino o preço dos meus serviços. Isso é prerrogativa minha. O senhor recusou uma proposta de meio milhão de francos. Se me enviasse um cheque de meio milhão de francos, eu o rasgaria — e faria o mesmo com um cheque de qualquer outro valor. Salvei sua vida, ou poupei-o de um aborrecimento menor, pense o que quiser. Perguntou quanto me devia, e eu disse: o senhor me deve aquela receita, e não vou aceitar nenhuma outra forma de pagamento. Pague se quiser, problema seu. Seria um prazer indescritível poder comer saucisse minuit em minha própria casa — pelo menos duas vezes por mês, creio —, mas também será satisfatório, por outro lado, lembrar — com frequência muito maior — que Jerome Berin tem uma dívida para comigo e se recusa a pagá-la.

— Bah! — Berin retrucou. — Safadeza!

— De forma alguma. Não estou tentando coagi-lo. Não vou processá-lo. Apenas lamentarei ter empregado meu talento, perdido noites de sono e levado um tiro sem ter recebido os agradecimentos por um ato generoso de amizade nem o pagamento que me é devido. Acho que devo lembrá-lo de ter oferecido uma garantia, caso revelasse a receita para mim. A salsicha será preparada apenas em minha casa, e servida apenas em minha mesa. Gostaria de reservar o direito de oferecê-la a meus convidados — e, claro, o senhor Goodwin, que vive comigo e come o que eu como, também vai saboreá-la.

Berin, olhando fixo para ele, resmungou — Seu cozinheiro.

— Ele nunca saberá. Eu passo boa parte do tempo na cozinha.

Berin continuou a olhar, em silêncio. Finalmente resmungou — Não pode ser escrita. Nunca foi.

— Não preciso escrever nada. Tenho facilidade para memorizar.

Berin levou o cachimbo à boca, sem olhar para ele, e deu uma baforada. Depois ficou mais algum tempo encarando Wolfe. Então, deu um profundo suspiro e olhou em torno, para Constanza e para mim. Disse ríspido — Não posso falar com tanta gente aqui.

— Uma das pessoas é sua filha.

— Que se dane, sei que ela é minha filha. Eles terão de sair.

Eu me levantei e ergui as sobrancelhas para Constanza. — Bem? — O trem balançou, e Wolfe agarrou o outro braço da poltrona. Teria sido um horror se acontecesse um acidente naquele momento.

Constanza ergueu-se, debruçou-se para dar um tapinha na cabeça do pai e cruzou a porta que eu mantinha aberta.

Eu acreditava que era o final apropriado para nosso passeio, já que Wolfe conseguira a receita, mas uma diversão inesperada estava por vir. Como ainda faltava uma hora para a chegada, convidei Constanza para tomar um drinque no vagão-restaurante, e ela foi saltitando atrás de mim pelos três carros que precisávamos percorrer para atingir nosso destino. Havia somente oito ou dez fregueses no vagão-restaurante, a maioria escondida atrás dos jornais matinais, e sobravam lugares. Ela pediu ginger ale, o que me lembrou os velhos tempos, e eu preferi um highball, para celebrar os honorários recebidos por Wolfe. Mal tivemos tempo de dar dois goles quando percebi que um passageiro nosso conhecido se erguia do outro lado, guardava o jornal e caminhava em nossa direção. Ele parou na frente de Constanza, e olhou para ela.

Ele disse — Você não pode fazer isso comigo, não pode! Eu não mereço, e você não pode fazer isso! — Parecia tenso. — Você precisa entender... precisa ver que...

Constanza falou, puxando conversa graciosamente — Não acreditava que algum dia meu pai fosse dar aquela receita a alguém! Uma vez, em San Remo, ouvi uma história dele, sobre um inglês, uma pessoa muito importante...

O intruso afastou-se os centímetros necessários para ficar entre nós dois, e a interrompeu rudemente. — Olá, Goodwin. Gostaria de pedir a você que...

— Olá, Tolman. — Sorri para ele. — Qual é o problema? Tem dois prisioneiros novinhos em folha em sua cadeia, e fica passeando por aí...

— Preciso ir a Nova York reunir provas. E muito importante... Olhe aqui, quero sua opinião. A senhorita Berin tem o direito de me tratar deste jeito? Pode ser sincero. Ela se recusa a falar comigo. Finge que não me vê. Eu fui obrigado a fazer o que fiz. Que mais poderia fazer?

— Sem dúvida. Você poderia ter pedido demissão. Mas nesse caso estaria desempregado, e só Deus sabe quando poderia se casar. Era realmente um problema, posso entender. Mas eu não ficaria preocupado. Poucos minutos atrás, eu estava pensando no motivo de tantos sorrisos da senhorita Berin, aparentemente sem nenhuma razão especial, mas agora entendo. Ela sorria porque sabia que o senhor estava no trem.

— Senhor Goodwin! Isso não é verdade!

— Mas ela nem quer falar comigo!

Fiz um gesto para acalmá-lo. — Claro que quer. Você é que não sabe como tratar do assunto. O método que ela usa é tão bom quanto qualquer outro que vi recentemente. Preste atenção, e da próxima vez você mesmo pode tentar...

Eu virei meu copo e deixei cair algumas gotas em sua saia, bem em cima do joelho, onde fazia uma curva.

Ela deu um pulinho e gritou. Tolman pulou e puxou o lenço. Eu me levantei e disse a eles — Está tudo bem, não mancha. — Depois me afastei, peguei o jornal dele e me sentei onde o promotor estivera antes.

FIM

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2013

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