Cozinheiros Demais

Rex Stout · Capítulo 12 de 18

Páginas do PDF

Cozinheiros Demais

Capítulo 11

— Está enganado!

Foi uma explosão violenta saída da boca do garoto musculoso de nariz chato, o estudante. Alguns deram um pulo, eu fiquei assombrado, todos olharam para ele.

Wolfe disse — Acho que posso defender minha posição, senhor Whipple. Se me deixar completar...

— Não estou falando de sua posição. Pode ficar com sua opinião. Estou me referindo aos fatos. Um deles.

Wolfe ergueu as sobrancelhas. — Qual deles?

— A cor da pele do assassino. — O estudante estava olhando direto nos olhos dele. — Ele não era negro. Eu o vi. Era branco.

 

11

Imediatamente tive outro choque. Foi uma nova explosão — desta vez, uma coisa desabando no chão. Desviou nossa atenção do estudante por um momento, até percebermos que Boney, o sujeito alto e magro que havia sido posto para dormir pela conversa de Wolfe, fora parcialmente acordado pela tensão decorrente da afirmação de Whipple, perdera o equilíbrio e caíra. Ele começou a resmungar, Crabtree calou sua boca com uma olhada. A excitação era geral.

Wolfe perguntou calmamente — Viu o homem perto da janela, senhor Whipple?

— Sim.

— Quando?

— Quando ele estava parado perto da janela. Eu abri a porta e espiei dentro da sala.

— Certo. E notou que ele era branco.

— Não. — Whipple olhou fixo para Wolfe. Ele não havia desviado o olhar quando Boney desabara. — Não disse que ele era branco; disse que era um branco. Quando eu o vi, ele estava preto, porque havia pintado a pele.

— Como sabe disso?

— Porque eu o vi. Acha que não sei a diferença entre uma pele escura e outra pintada com cortiça queimada? Eu sou preto. Mas não era só isso. Conforme disse, estava com os dedos nos lábios, e a mão dele era diferente. Não era preciso ser negro para notar aquilo. Ele usava luvas pretas justas.

— Por que foi ao hall da copa e olhou pela porta?

— Ouvi um barulho na sala de jantar. Grant pediu um pouco de páprica para os oeufs au cheval, mas a lata estava vazia, e fui buscar uma lata nova no armário do hall da copa. Foi por isso que ouvi o ruído. Eles estavam fazendo muita bagunça na cozinha, e não ouviram nada. Eu estava no alto da escada, procurando a lata de páprica; depois que a encontrei, desci e abri a porta um pouquinho para descobrir o porquê do barulho.

— Entrou na sala de jantar?

— Não.

Wolfe ergueu um dedo lentamente. — Creio, senhor Whipple, que a verdade normalmente é boa, e a mentira às vezes excelente, mas a mistura das duas é uma abominação.

— Estou falando apenas a verdade.

— Antes não estava. Uma vez que o assassino não era um homem de cor, por que não falou a verdade?

— Porque aprendi a não me meter com os assuntos da raça superior. Se fosse um homem de cor, eu teria contado. Os homens de cor precisam parar de desgraçar sua raça e deixar isso para os brancos. Pode ver que sua lógica não era muito boa.

— Mas, meu caro senhor. Isso não prejudica minha argumentação; apenas revela que concorda comigo. Precisamos conversar a esse respeito algum dia. Mas escondeu os fatos porque considerava tudo um assunto dos brancos, não tinha nada a ver com o caso, e imaginava que divulgar os fatos só iria trazer problemas para sua pessoa.

— Problemas aos montes. O senhor é nortista...

— Sou um ser humano, ou tento ser. Está me estudando, é antropólogo. Pretende ser cientista. Então me dê uma resposta fundamentada: como pode dizer que era um homem branco com toda a certeza?

Whipple refletiu um momento e disse: — Com toda a certeza, não. Cortiça queimada ficaria igual em uma pele morena, ou mesmo em uma mais escura, e obviamente qualquer um pode usar luvas pretas. Mas tenho certeza de que era cortiça queimada, e não vejo motivo para um homem de cor pintar a pele. Portanto, deduzi que era um homem branco, mas não tenho certeza, é claro.

— Parece-me uma dedução adequada. O que ele estava fazendo quando o viu?

— Estava parado perto do biombo, virando-se. Ele deve ter me visto por acaso. Não poderia ter escutado quando abri a porta, que não faz barulho. Além disso, só a abri oito ou dez centímetros, e havia muito ruído passando da sala de estar para a de jantar, mesmo com a porta fechada, pois o rádio estava ligado.

— Ele estava usando o uniforme do Kanawha Spa?

— Sim.

— E quanto aos cabelos dele?

— Usava também o boné do uniforme. Não vi a nuca.

— Descreva-o. Altura, peso...

— Altura e peso médios. Eu diria 1,70 ou 1,75 metro de altura. Devia pesar uns 75 a 80 quilos. Não olhei muito para ele. Vi logo que se pintara e, quando levou os dedos aos lábios, pensei que fosse um dos hóspedes fazendo alguma brincadeira, provavelmente pregando uma peça — e imaginei que o barulho tivesse algo a ver com o biombo. Fechei a porta e me afastei. Quando fiz isso, ele estava começando a se virar.

— Em direção à mesa?

— Acho que em direção à porta do terraço.

Wolfe apertou os lábios. Depois disse: — Pensou que fosse um hóspede fazendo uma brincadeira. Se resolvesse adivinhar quem era, qual dos hóspedes escolheria?

— Não sei.

— Vamos lá, senhor Whipple. Estou apenas tentando descobrir as características gerais dele. Cabeça comprida ou chata?

— Pediu que desse um nome a ele. Isso eu não poderia fazer. Não posso identificá-lo. Ele estava pintado de preto, e seu boné puxado para baixo. Acho que tinha olhos claros. O rosto não era nem redondo nem comprido, e sim médio. Eu o vi só por um segundo.

— E quanto a seus sentimentos? Diria que teve a impressão de já haver visto o sujeito antes?

O universitário balançou a cabeça. — A única impressão que tive foi a de não querer nada com uma brincadeira dos brancos. E, mais tarde, a de que eu não queria nada com o assassinato de um homem branco.

A espuma da cerveja no copo de Wolfe se fora. Ele ergueu o copo, fez cara feia, levou-o à boca, deu cinco goles, e baixou o copo vazio até a mesa.

— Muito bem. — Fixou o olhar em Whipple novamente. — Peço que me perdoe, senhor, por lembrar que essa história foi extraída contra sua vontade. Espero que não a tenha obscurecido — ou esclarecido. Quando retornou à cozinha, contou a alguém o que tinha visto?

— Não, senhor.

— O inusitado aparecimento de um estranho na sala de jantar, vestindo uniforme do Kanawha Spa, pintado de preto, com luvas negras, não mereceu menção sua?

— Não, senhor.

— Você é tonto, Paul. — Era Crabtree, e parecia irritado. — Acha que não temos tanta coragem quanto você? — Ele se virou para Wolfe. — Este garoto é muito presunçoso. Tem bom coração, que mantém oculto da vista das pessoas, mas sua cabeça é um caso sério. Está querendo segurar o tranco sozinho. Não é nada disso. Ele voltou para a cozinha e contou tudo para nós, na hora, a mesma história que contou agora. Todos nós ouvimos e repetimos para os outros. E, se deseja saber algo de especial, pode perguntar a Moulton.

O chefe dos garçons, a quem faltava um pedaço da orelha, aproximou-se. — Do que está falando, Crabby?

O nanico enfrentou o olhar do outro. — Você sabe muito bem. Paul já contou a parte dele, não foi? Não acho que tenha o direito de ficar quieto agora.

Moulton resmungou um pouco, encarou Crabtree por mais alguns segundos, deu de ombros e, ao virar-se para Wolfe, estava soando delicado e suave novamente. — O que ele está dizendo, senhor, é algo que eu ia contar assim que Paul terminasse. Eu também vi o homem:

— O homem perto do biombo?

— Sim, senhor.

— Como foi possível?

— Bem, eu achei que Paul estava demorando demais para encontrar a páprica, e fui até o hall da copa atrás dele. Quando cheguei lá, ele estava acabando de dar as costas para a porta, e apontou a sala de jantar com o dedo, dizendo que havia alguém lá dentro. Não entendi o que queria dizer. Claro, eu sabia que o senhor Laszio estava lá, e empurrei a porta um pouquinho para dar uma espiada. O homem estava de costas para mim, andando em direção à porta do terraço. Não pude ver seu rosto, portanto, mas vi as luvas e, claro, que usava o uniforme. Deixei que a porta se fechasse e perguntei a Paul quem era; ele disse que não sabia, pensava que fosse um dos hóspedes pintado de preto. Mandei Paul de volta para a cozinha com a páprica, e abri a porta de novo, só um pouquinho, e espiei, mas o sujeito não estava à vista, de forma que abri mais a porta, pensando em perguntar ao senhor Laszio se ele estava precisando de algo. Ele não estava ao lado da mesa. Entrei na sala, mas ele não se encontrava em lugar algum. Achei esquisito, porque eu sabia como o teste deveria ser conduzido, mas não posso dizer que tenha sido uma grande surpresa.

— Por que não?

— Bem, senhor... permita que eu diga que esses hóspedes agiram de modo muito estranho desde o início.

— Sim, permito.

— Obrigado, senhor. Sendo assim, apenas imaginei que o senhor Laszio tivesse ido até a sala de estar ou outro lugar.

— Olhou atrás do biombo?

— Não, senhor. Não vi nada que me chamasse a atenção ali.

— E não havia mais ninguém na sala?

— Não, senhor. Ninguém à vista.

— E o que fez? Voltou para a cozinha?

— Sim, senhor. Não pensei...

— Você ainda não acabou. — Era o chef baixinho, ameaçador. — O senhor Wolfe é um homem compreensivo, e é bom contarmos tudo de uma vez. Todos nós lembramos exatamente o que você nos disse.

— Ah, é mesmo, Crabby?

— Sim, e os outros também, você sabe.

Moulton deu de ombros e virou-se para Wolfe. — Ele está se referindo a uma coisa que eu estava a ponto de lhe dizer. Antes de voltar para a cozinha, dei uma olhada na mesa, porque era o responsável por ela.

— A mesa dos molhos?

— Sim, senhor.

— Uma das facas estava faltando?

— Isso eu não sei. Acho que teria notado se estivesse, ou talvez não, porque não levantei a tampa da travessa dos frangos de leite, e uma delas poderia estar ali. Mas percebi que uma coisa estava errada. Alguém andara brincando com os molhos. Estavam todos fora de ordem.

Deixei escapar um assobio involuntário. Wolfe disparou um olhar penetrante em minha direção, depois voltou os olhos para Moulton e murmurou — Ah! E como soube?

— Eu soube pelas marcas. Os números feitos com giz nas travessas. Quando levei as travessas para a mesa, coloquei a travessa com a marca 1 na frente do cartão com o número 1, a 2 na frente do 2, e assim por diante. Não estavam mais daquele jeito quando eu olhei. Haviam sido mexidas.

— Quantas delas?

— Todas, menos duas. As de número 8 e 9 estavam no lugar certo, mas o resto não.

— Pode jurar isso, senhor Moulton?

— Parece que vou ter de jurar, não é?

— E pode fazer isso?

— Posso sim, senhor.

— E por acaso o senhor não teria recolocado as travessas em seus lugares corretos, quando percebeu a mudança?

— Sim, senhor. Foi o que fiz. Suponho que eu vá perder o emprego por isso. Não é minha função corrigir os erros. Eu sabia disso. Mas se o senhor Servan quiser me ouvir, saberá que agi assim por causa dele. Não queria que perdesse a aposta. E eu sabia que ele havia apostado com o senhor Keith que os mestres acertariam 80%. Quando vi que os pratos tinham sido trocados, achei que alguém estava trapaceando, de modo que arrumei tudo no lugar. Depois saí bem depressa de lá.

— Suponho que não se lembra da ordem trocada — por exemplo, o número 1 foi posto em que lugar?

— Não, senhor, não posso dizer.

— Não importa. — Wolfe suspirou. — Agradeço muito, senhor Moulton. Ao senhor Whipple também. Já é tarde. Temo que ninguém vá poder dormir muito, pois teremos de lidar com o delegado e o senhor Tolman logo cedo. Suponho que morem aqui.

Eles confirmaram.

— Ótimo. Mandarei chamá-los quando for preciso. Não creio que vá perder seu emprego, senhor Moulton. Lembro bem meu compromisso referente a um acordo prévio com as autoridades e pretendo cumpri-lo. Agradeço a todos os senhores por sua paciência. Suponho que seus chapéus estejam no quarto do senhor Goodwin.

— Eles me ajudaram a retirar os copos e as garrafas dali e a amontoar tudo no foyer, o que não demorou muito, com tantos ajudantes especializados. O universitário não nos ajudou porque ficou para trás, conversando com Wolfe. Os chapéus e os bonés foram finalmente distribuídos, abri a porta do foyer e eles caíram fora. Hyacinth Brown levava Boney pelo braço, e este ainda resmungava quando fechei a porta.

No quarto de Wolfe, a luz da madrugada clareava a janela, apesar dos arbustos densos do lado de fora. Era minha segunda madrugada em claro na sequência, e eu estava pensando que era melhor entrar logo de uma vez para o sindicato dos entregadores de leite e desistir de dormir. Parecia que alguém tinha despejado cimento em minhas pálpebras e deixado secar. Wolfe mantinha as dele abertas, e continuava na poltrona.

Eu disse — Parabéns. Agora só precisa de asas para virar coruja. Devo pedir que nos acordem ao meio-dia? Ainda terá oito horas até o jantar, e continuará à frente.

Ele fez cara feia. — Onde o senhor Berin está preso?

— Suponho que em Quinby, sede da comarca.

— Qual a distância daqui até lá?

— Oh, apenas cerca de trinta quilômetros.

— O senhor Tolman mora lá?

— Não sei. Seu escritório deve ser lá, uma vez que ele é o promotor público.

— Por favor, descubra isso e ponha-o no telefone. Queremos que ele e o delegado estejam aqui às oito horas. Diga a ele... não. Quando conseguir a ligação, pode deixar que eu falo.

— Agora?

— Agora.

Estendi as mãos. — São 4h30 da manhã. Deixe o sujeito...

— Archie, por favor. Tentou me ensinar a lidar com os homens de cor. Vai tentar me ensinar a tratar com os brancos também?

Fui para o telefone.